David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Crônicas/Chronicles’ Category

Morto pode ter cheiro doce?

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Criança, passeando pelo cemitério, passei por um mausoléu e falei com uma senhora que limpava um túmulo: Morto pode ter cheiro doce? Como? Morto pode ter cheiro doce? Doce? Doce! Como? Quem morre, não desaparece, vira doce? Quê, filho? Só depois que me afastei ela notou um balde de pipoca doce no mausoléu ao lado. Ali nunca faltava pipoca – branca, amarela, rosa, vermelha, sortida – um simulacro curioso da vida.

Written by David Arioch

August 4th, 2018 at 5:55 pm

“Juro que pensei que você fosse um velho”

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Pesquisei sobre a história de Paranavaí, do Noroeste do Paraná e do Norte Novíssimo do Paraná com certa assiduidade por dez anos, mas desde 2016, quando comecei a editar o meu primeiro livro de história regional, decidi desacelerar e priorizar outros assuntos. Hoje, participando do evento Cidadania Paraná na Unipar, a convite do Sesc, para falar um pouquinho sobre história local e regional, assim que terminei, ouvi:

— Já ouvi falar muito de você David Arioch, há anos acompanho o seu trabalho, mas juro que pensei que você fosse um velho.

Written by David Arioch

June 28th, 2018 at 10:56 pm

“Você faz mais alguma coisa além de musculação?”

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Um dia, na academia, um camarada me perguntou se eu fazia mais alguma coisa além de musculação. Achei a pergunta um tanto quanto estranha, mas tudo bem:

— Sim, eu trabalho.
— Sério mesmo?
— Verdade.
— Você trabalha com que?
— Com jornalismo, sou jornalista.
— Ora, nunca imaginaria.
— É? Por quê?
— Por causa da sua aparência. E também achei que você ficasse horas na academia.
— Não. Na realidade, meu treino tem duração de 40 a 50 minutos, às vezes chegando a uma hora. É o suficiente pra me exercitar e ter um shape razoável.
— Realmente não é muito tempo.
— Sim, o dia tem 24 horas, então me resta um bom tempo pra me ocupar com outras atividades, não?
— É…





 

Written by David Arioch

June 10th, 2018 at 7:27 pm

“Você não é o Tora-Tora?”

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Hoje de manhã, enquanto eu estava aguardando a minha vez no banco, um cara se aproximou.

— E aí, rapaz — ele disse.

— E aí — respondi.

— Tudo bem?

— Sim e você?

— Também. Então, por que você não apareceu na Fazenda Santa Efigênia no sábado?

— Acho que está me confundindo, camarada.

— Você não é o Tora-Tora?

— Como?

— Tora-Tora!

— Não, cara. De modo algum. Foi um engano.

— Ah, me desculpe. É que vocês são parecidos. Na realidade, a barba. Não sei falar o nome dele, nome estranho, então demos esse apelido. Veio pra cá pra trabalhar como lenhador.

— Entendo.

— Então me desculpe.

— Sem problema.

— Mas, olhe, você tem cara de quem sabe cortar lenha. Se um dia quiser experimentar.

— Hum…é lenha de reflorestamento? Se não for, minha religião não permite.

— Qual é a sua religião?

— Sou vegano.

— Já ouvi falar disso. É tipo uma seita, né?

— Sim…

O cara riu; eu também. Nos despedimos.





 

Written by David Arioch

June 5th, 2018 at 12:41 am

Um encontro casual

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Ontem à tarde, caminhando até a seção de dietética do Guguy (mercado), uma senhora que não conheço começou a falar comigo.

— Que bom te encontrar aqui hoje.
— É? Mas por que?
— Porque eu olho pra você e você transmite uma coisa muito boa.
— Sério?
— Sim, verdade.
— Que bom! Muito obrigado. Fico realmente lisonjeado.
— Não precisa agradecer.

Eu sorri; a senhora sorriu. Caminhei para uma seção e ela para outra.

Written by David Arioch

June 3rd, 2018 at 1:58 pm

Um caminhão tombado, frangos na estrada

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Morrer ou viver? Ou morrer ou morrer? Distante do matadouro, não da violência humana (Foto: Reprodução)

Um caminhão tombado, frangos na estrada. Ninguém via vida, apenas comida. “Ninguém morreu?” “Não, só bicho.” As aves saltaram sobre as caixas de plástico tentando atravessar a rodovia. Morrer ou viver? Ou morrer ou morrer? Distante do matadouro, não da violência humana. Coração? Mais de 300 batidas por minuto. Pedaços de carne em movimento – uma prospectiva prosaica.

Penas voando, pessoas comemorando. “Esse é meu! Esse é meu!” Um olhar invertido num mundo distorcido. Pés amarrados com fios, mais penas no chão. Cinco frangos no mesmo porta-malas, se contorcendo. Risadas. Nenhuma luz, apenas escuridão e o som dos pneus em atrito com o chão. A chegada é celebrada – degolada.

 





Você é um daqueles verdinhos?

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Acervo: Turkey Runner

Na fila do mercado, eu, uma camiseta verde do Type O Negative e uma boina. Uma senhorinha se aproximou e se posicionou atrás de mim aguardando a vez. Expliquei que ela não precisava ficar na fila porque pela idade ela tem preferência no caixa especial.

— Não, filho, eu gosto de ficar aqui. Tenho saúde e não tenho pressa.

— Que bom — respondi com o meu típico sorriso tímido.

— Filho, olhei pra você e pra sua cesta, diferente o que vi, admito. Você é um daqueles verdinhos?

— Como?

— Um daqueles verdinhos.

— Me desculpe, mas não sei, senhora. O que é um verdinho?

— Que não come carne, leite, ovo…

— É por aí. Acho que vou um pouquinho além inclusive.

— Olhe só, que honra! Um verdinho de verdade!

— É, acho que sim — comentei, entregue a um sorriso encalistrado.

— Olho esses carrinhos e cestas, só consigo pensar em uma coisa. Você sabia que antigamente não existia toda essa comilança de carne? Muita gente do meu tempo, criada em sítio, chegava a ficar até um ano sem comer carne. E vivia bem, realmente bem, com muita energia, lavourando.

— Isso é bom.

— Papai e mamãe deixaram a Polônia durante a guerra e eles viram tanto sangue e morte naquele lugar que quando chegaram ao Brasil falaram que iriam criar os filhos longe de qualquer tipo de morte. Dito e feito. Tenho 78 anos e não como carne desde os cinco anos quando chegamos aqui em 1944.

— Que história interessante. Se a senhora quiser me contar um dia em detalhes, posso transformar em alguma coisa.

— Quem sabe — ela respondeu sorrindo.

— Seria muito legal — comentei.

— Olhe, o conteúdo da minha cestinha é parecido com o da sua. Estamos apenas em um espectro diferente de gerações, pelo menos nesta vida — disse sem desvanecer o sorriso.

— Não duvido — comentei sorrindo.

— É, sempre enxergo um verdinho de longe.

— Por causa da minha camiseta? — questionei com um sorriso enviesado.

— Não — respondeu rindo.

— Hum…

— Meu pai dizia que os nossos melhores hábitos são sempre translúcidos diante dos nossos olhos e dos olhos dos outros quando existe boa vontade. Claro, desde que nós e os outros queiramos enxergar — explicou a senhora antes da despedida.

 





“Cara, a Páscoa já foi”

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Passei casualmente nas Americanas e vi que havia uma grande quantidade de ovos de Páscoa da Choco Soy de vários sabores. Eles estavam vendendo por R$ 35. Não me importo com ovos de Páscoa, mas por um instante olhei para um funcionário e falei:

— Cara, a Páscoa já foi, vendam por R$ 5 cada ovo que levo todos que sobraram. Me comprometo a distribuir a maior parte para a criançada da Vila Alta.
— Não podemos, amigo. O gerente não está aqui agora, mas acho que pode reduzir o preço nos próximos dias.
— Tudo bem, talvez eu passe aqui depois.
— Mas por que seu interesse nesses ovos? Ah, nem precisa responder. Aposto que você é vegano.
— Por que acha isso?
— Acho que só veganos fazem isso.





Written by David Arioch

April 3rd, 2018 at 12:33 am

Vidas não valem nada

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Foto: Reprodução

Vidas não valem nada, concluí quando saí do matadouro após uma visita no mês passado. O magarefe posicionou a pistola contra a cabeça de um boi dócil e disparou. Um tiro absterso e silente. O dardo penetrou o crânio do animal e o fez deitar no chão. Barulho intenso. Tive a impressão de que algo estava explodindo. E não estava? O mundo de um animal que naquela tarde não imaginava que não veria a noite ou um novo dia. Não chorava feito criança, embora corpulento e desgracioso tremia como um recém-nascido – (in)voluntariamente, batendo de um lado para o outro dentro de uma caixa de tijolos. Morto? Sim ou não, depende de quem vê. O magarefe não viu os olhos embaciados do boi. Não, aquilo era perigoso. Limpou a pistola, sem prestar atenção no bicho e ajeitou os fones de ouvido por baixo do abafador:

 
Você trabalha faz tempo aqui? — perguntei.
— Pouco mais de um ano.
— Por que você usa fones?
— Não quero ouvir o que não me agrada.
— E o que seria isso?
— A queixa desse animal.
— É possível ouvir mesmo com o abafador?
— É…o que a gente vê a gente ouve. Não precisa de falar.
— Isso acontece sempre?
— Não…
— A última vez faz muito tempo?
— Tem mês.
— O que aconteceu?
— Comecei a usar fone de ouvido.
A música sertaneja amortecia a realidade, e o rapaz, a serviço de quem pode, dissimulava a brutalidade.





Sentada em um banco de praça

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Written by David Arioch

March 30th, 2018 at 7:30 pm