Archive for the ‘Curiosidades’ Category
A poesia existencial de uma senhora de 84 anos
Hoje, assisti um pequeno vídeo sobre uma senhora de 84 anos que nunca saiu do vilarejo onde nasceu. Ela transmite alegria, o que pode ser transitória ou não, satisfação e simplicidade, mas mais do que isso – equilíbrio, lucidez e harmonia.
Acredito que ela ama a vida porque encontrou a si mesma há muito tempo, e desde então não se deixou se perder. Achei bonito e poético, porque há tantas pessoas perdidas, que incessantemente buscam a si mesmas em lugares longínquos, num esforço sobressaltado para encontrar o que reside dentro delas.
Sobre a destruição da escultura de Abul ʿAla Al-Maʿarri
Esta é a escultura de Abul ʿAla Al-Maʿarri, poeta e filósofo sírio que viveu no século XI e tinha uma filosofia de vida que hoje seria qualificada como veganismo. A obra erigida em 1940 foi destruída em 2013 por fundamentalistas “islâmicos” da Al-Nusra, um dos braços da Al-Qaeda.
Al-Maʿarri, um crítico do islamismo, até hoje é considerado um dos maiores poetas da cultura árabe. No entanto, seus poemas, que ao longo de centenas de anos foram estudados nas escolas, hoje são proibidos em cidades dominadas pelo Estado Islâmico e por outros grupos extremistas.
Saiba Mais
A escultura foi criada pelo artista plástico Fathi Muhammad em 1944.
Quando Antunes Filho chocou o Brasil

Zózimo Bulbul, o primeiro homem negro a beijar uma mulher branca no cinema nacional (Foto: Reprodução)
Antunes Filho chocou o Brasil em 1969 quando deu ao ator Zózimo Bulbul um grande papel no filme “Compasso de Espera”. Na obra, Zózimo beija uma mulher branca. Aquela foi a primeira vez que os brasileiros viram um homem negro beijando uma mulher branca em um filme nacional. A obra gerou tanta comoção que descortinou a propaganda do Brasil como um país onde supostamente se vivia a democracia racial.
Levando um calango para passear
Sem querer, levei agora um animalzinho, que provavelmente desceu de alguma árvore, para dar uma volta de carro. Tive que sair rapidamente e na primeira esquina notei um calango se movendo sobre o centro do capô. Parecia bem tranquilo. Só mostrava a linguinha.
Quando cheguei ao meu destino, ele encostou a cabeça no capô e assim ficou, até eu ligar o carro novamente. Então retomou a posição anterior. Em momento algum ameaçou descer do carro ou se esconder. Só quando cheguei em casa e coloquei o veículo na garagem que percebi que ele se escondeu. Ainda consegui tirar uma foto para mostrar o calango que gosta de sentir o vento sobre o capô.
Bukowski: “Não vou deixar muito, só algo para ler, quem sabe”
“Depois que eu partir, haverá mais dias para os outros, outros dias, outras noites, cães caminhando…”
Após publicar mais de 50 livros de poesia e prosa ao longo de meio século, Charles Bukowski se tornou o Grand Old Man da literatura marginal dos Estados Unidos. Abordando a rotina dos trabalhadores de colarinho azul e a realidade das áreas urbanas mais pobres de Los Angeles, habitadas por andarilhos, mendigos, usuários de drogas e outros tipos de rejeitados sociais, ele mergulhou em um universo onde homens de mau hálito e pés grandes parecem sapos e hienas. Eles caminham como se a melodia nunca tivesse sido inventada, e ao final ainda são execrados.
Depois de ser mandado ao inferno, Bukowski observava os braços gordos e suados do senhorio exigindo o pagamento do aluguel. “O mundo tinha falhado com nós dois”, escreveu. O jeito era abrir uma nova garrafa retirada da sacola enquanto ela se sentava na esquina fumando e tossindo como uma velha tia de Nova Jersey. Nos anos 1970, a vida de Charles Bukowski mudou.
Fez várias aparições com Allen Ginsberg e Lawrence Ferlinghetti. Deu entrevistas à Rolling Stone e todas as suas leituras pela Europa estavam com ingressos esgotados. Ele trocou as duas caixinhas de seis unidades de cerveja por quatro garrafas de bom vinho francês. Assim que sua história deu origem ao filme Barfly, de 1987, protagonizado por Mickey Rourke, com direção de Barbet Schroeder e roteiro do próprio Bukowski, ele se distanciou ainda mais da miserável realidade que o acompanhou por tanto tempo.
O seu deteriorado fusquinha 1967, com o qual viveu tantas aventuras, inclusive um dia sua namorada fez um furo no para-brisas com o salto, foi substituído por um novo BMW com teto solar. Em seus tempos de bebedeira, Bukowski deixava os atendentes baterem nele em troca de bebidas. Em 1992, com tuberculose, câncer e sentindo o peso da idade, foi convencido por sua esposa a experimentar uma das chamadas curas da nova era. Mesmo aceitando tudo, Bukowski não deixava de ser irônico.
Um dia, às 8h, enquanto estava sentado nu e sua esposa passava óleo de gergelim pelo seu corpo, o Grand Old Man comentou: “Jesus, como cheguei a esse ponto?” Mesmo na iminência da morte, sua mulher prosseguiu tentando purificá-lo. E pra isso contou com alguns monges budistas que conduziram o serviço. O seu bom humor o acompanhou até o fim.
“Depois que eu partir, haverá mais dias para os outros, outros dias, outras noites, cães caminhando, árvores balançando com o vento. Não vou deixar muito, só algo para ler, quem sabe. Uma cebola selvagem numa estrada eviscerada. Paris no escuro”, escreveu antes do último suspiro. Ele pediu que colocassem em seu túmulo a inscrição: ‘Don’t Try’ [Não tente]. Bom, a interpretação vai até onde a sua mente te conduz.
Saiba Mais
Charles Bukowski nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920 e faleceu em 9 de março de 1994 em San Pedro, Los Angeles.
Referências
http://www.todayinliterature.com/
http://bukowski.net/
Miles, Barry. Charles Bukowski. Random House (2009).
Virginia Woolf e a improvável amizade com T.S. Eliot
À época, Virginia e o marido se recusaram a publicar Ulysses, de James Joyce
“Acabo de terminar de formatar o conjunto do poema do Sr. Eliots [sic] com minhas próprias mãos. Veja como elas tremem”, escreveu a escritora britânica Virginia Woolf em 8 de julho de 1923, em carta endereçada a uma amiga. Ela se referia à finalização da versão britânica do poema modernista The Waste Land, do estadunidense T.S. Eliot, considerado um dos melhores do século 20.
Os tremores de Virginia, que à época tinha 41 anos, foram provocados pela exaustão causada pela dedicação em tempo integral a Hogarth Press, editora que ela fundou com o marido Leonard Woolf em Londres em 1917. O que é até curioso levando em conta que Virginia quis fundar uma editora como hobby, uma forma de ocupar o tempo no período da tarde e ajudá-la a lidar com a depressão. Também era um meio de dar uma oportunidade a novos escritores.
Mesmo que todos os livros da Hogarth não tenham passado pelas mãos dos Woolf, a verdade é que a popularidade de Virginia e sua editora cresceu tanto que logo sua casa ficou muito movimentada e seu tempo dedicado à escrita foi preenchido completamente.
A prensa era operada na despensa da residência enquanto os livros eram encadernados na sala de jantar. A sala de estar era usada na realização de entrevistas com escritores, encadernadores e operadores de prensa, de acordo com a autobiografia de Leonard Woolf publicada em 1967.
Em 1923, o trabalho da editora foi qualificado pelo marido de Virginia como uma tentativa de fazer o impossível. E assim eles assumiram o compromisso de não abandonar a Hogarth Press nem vendê-la. No entanto, Virginia foi se desinteressando pelo trabalho até que em 1938 ela vendeu sua parte na sociedade. Leonard ainda continuou trabalhando como gerente de negócios até 1946, ano em que a Hogarth Press se tornou associada da Chatto & Windus, uma das mais importantes editoras britânicas da era vitoriana.
Embora tenham recusado a publicação de Ulysses, de James Joyce em 1918, o casal Woolf publicou nomes como Vita Sacksville-West, John Maynard Keynes, Robert Graves, Katherine Mansfield, Clive Bell, C. Day Lewis, E.M. Forster e Christopher Isherwood. Todos os escritores tornavam-se amigos deles, inclusive o genioso T.S. Eliot, com quem Virginia, que também era uma autora de personalidade recheada de ambiguidades, teve momentos conflituosos.
A Hogarth Press publicou pela primeira vez um trabalho de Eliot em 1919, e o mais intrigante é que um diário de Virginia com data de agosto do mesmo ano trouxe interessantes informações registradas após um jantar. Nele, ela declara que ainda não via o poeta estadunidense como um amigo, mas se divertia ao notar como ele era perspicaz e fazia questão de demonstrar que não gostava dela.
A intimidade do casal com T.S. Eliot só evoluiu no início dos anos 1920, quando o poeta deixou de ser pomposo e pedante, segundo Leonard Woolf. Um dia, caminhando pelo jardim da casa dos Woolf, Leonard se afastou deles para ir ao banheiro. Quando retornou, encontrou Eliot constrangido e chocado. Acostumado às convenções e formalidades, o autor nunca se viu numa situação como aquela. “Tom disse que nunca seria capaz nem de se barbear na presença da própria esposa”, escreveu Leonard Woolf em sua autobiografia.
Por outro lado, Virginia registrou em seu diário que Eliot não mostrou a menor inibição quando pediram para que ele declamasse a segunda parte de The Waste Land ao final de um jantar. E assim ele o fez:
Que hei de fazer agora? Que hei de fazer?
Vou sair tal como estou, e andar pela rua
Com o cabelo solto, assim. Que havemos de fazer amanhã?
Que havemos de fazer alguma vez?
A água quente às dez.
E se chover, um carro coberto às quatro.
E jogaremos uma partida de xadrez,
A apertar olhos sem pálpebras e à espera que batam à porta.
Referências
http://www.todayinliterature.com/
Woolf, Leonard. Downhill all the way: an autobiography of the years 1919–1939 (1st American ed.). New York: Harcourt, Brace & World (1967).
Bell, Quentin. Virginia Woolf: A Biography. Rev. ed. New York: Harcourt Brace Jovanovich (1996).
T.S. Eliot. The Waste Land (1922) (Norton Critical Editions) 1st Edition (2000).
Quando William Faulkner trabalhou em Hollywood
O escritor só reapareceu depois de nove dias, confidenciando que vagou pelo Vale da Morte

Entre idas e vindas, o escritor trabalhou em Hollywood ao longo de 20 anos (Cortesia de Robert Hamblin, Center for Faulkner Studies, Southeast Missouri State University)
Em 7 de maio de 1932, William Faulkner chegou a Hollywood para atuar como roteirista, um trabalho que entre idas e vindas durou 20 anos. Na época o escritor estadunidense estava com apenas 34 anos e já tinha publicado quatro de suas novelas baseadas no Condado de Yoknapatawpha, incluindo The Sound and the Fury (O Som e a Fúria) e As I Lay Dying (Enquanto Agonizo).
Embora ainda estivesse distante de se tornar popular, Faulkner foi considerado por seus pares como o mais talentoso dos jovens escritores dos Estados Unidos. Àquela altura, ele tinha vivido a maior parte de sua vida em Oxford, Mississippi, e recentemente havia se casado e comprado a velha mansão Rowan Oak, de inspiração neogrega e construída antes da Guerra de Secessão.
Faulkner não era um homem sociável, nem gostava de trabalhar em equipe. O que o fez aceitar o contrato de 500 dólares por semana oferecido pela MGM foi uma experiência que ele teve em uma loja de artigos esportivos, onde o balconista se recusou a receber um cheque dele no valor de três dólares.
Depois que o escritor alegou que sua assinatura ainda valeria mais do que isso, o dono da loja se aproximou e disse a toda a sua equipe para não permitir que o jovem Faulkner pagasse por nenhum artigo que o interessasse. De acordo com o biógrafo Joseph Blotner, os primeiros dias de Faulkner em Hollywood foram incríveis.

Faulkner: “Você deveria se envergonhar por não ter um cão, assim como todos aqueles que não têm um” (Foto: Reprodução)
Em um sábado, ele se aproximou do seu chefe, Sam Marx, e o homem logo percebeu que o escritor cheirava a álcool e tinha um corte na cabeça. Então Faulkner explicou que ele foi atingido por um táxi quando estava trocando de trem em Nova Orleans. Apesar de tudo, justificou que se sentia bem e queria começar o seu trabalho corretamente.
“Nós vamos colocá-lo em uma foto com o Wallace Beery”, disse Marx. Confuso, Faulkner perguntou quem era o sujeito. “Eu tenho uma ideia de quem seja o Mickey Mouse”, comentou o escritor, recebendo a explicação de que os filmes do Mickey Mouse são feitos nos estúdios da Disney.
Em seguida, Sam Marx pediu que o seu office boy levasse Faulkner até a sala de projeção para ver Beery atuando como um pugilista em The Champ, de King Vidor, e no recente Flesh, de John Ford, em que Wallace interpreta um lutador alemão. Faulkner se recusou a assisti-los e preferiu bater um papo com o office boy.
Quando o escritor perguntou se o garoto tinha um cachorro, ele respondeu que não. Faulkner estranhou e enfatizou que todo garoto deveria ter um cão. “Você deveria se envergonhar por não ter um cão, assim como todos aqueles que não têm um”, insistiu. Sem muita demora, Faulkner saiu da sala de projeção justificando que sabia o final da história.
Quando Marx foi informado que o escritor já tinha saído do estúdio, ele iniciou uma busca sem sucesso. William Faulkner só reapareceu depois de nove dias, confidenciando que vagou pelo Vale da Morte. “Mas agora já estou pronto para o trabalho”, garantiu.
A atuação de Faulkner como roteirista incluiu também adaptações de To Have and Have Not (Uma Aventura na Martinica), de Ernest Hemingway, e The Big Sleep (À Beira do Abismo), de Raymond Chandler. Muitos aspectos de sua vida em Hollywood foram incorporados ao filme Barton Fink, dos Irmãos Coen, lançado em 1991.
No outono, o escritor retornou para sua casa em Oxford, Mississippi, onde corrigiu as provas tipográficas do seu novo romance gótico sulista – Light in August (Luz em Agosto) enquanto comia melancia e assistia a chuva caindo ao redor da varanda. Com o dinheiro que ganhou da MGM, fez importantes reparos na mansão Rowan Oak.
Referências
http://www.todayinliterature.com/
Blotner, Joseph. Faulkner: A Biography. New York: Random House, 1974.
Blotner, Joseph. Faulkner: A Biography. New York: Random House, 1984.
Contribuição
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Intolerância e política provinciana
Uma vez, um prefeito de Paranavaí, que não é o atual, estava percorrendo a pé as ruas de um bairro acompanhado de um secretário municipal. Quando se aproximaram da residência de um servidor público da mesma secretaria, eles ficaram muito incomodados ao verem que o homem mantinha na varanda um banner com a imagem de um candidato que não era o então prefeito. Em vez de compreenderem que esse é um direito do sujeito, afinal ele era concursado e não devia nada ao administrador público, interpretaram aquilo como uma afronta.
Quando se afastaram da casa do homem, o prefeito disse que algo precisava ser feito, que não seria possível tolerar tanto “desrespeito” e “insubordinação”. “Pode deixar comigo. Vou inventar uma desculpa qualquer, tirar ele da função dele e colocá-lo pra passar a semana toda varrendo num lugar bem sujo e desconfortável”, prometeu o secretário, como o mais equivocado dos justiceiros, conquistando um sorriso de mórbida gratidão do tal prefeito. E pode acreditar que atitudes assim são mais comuns do que imaginamos.
Casualidade e preconceito
Uma vez conversando com um camarada jornalista, contei a ele que conheci de perto um interessante trabalho de uma pesquisadora com pós-doutorado que se aprofundou na história da formação do Noroeste do Paraná. Inclusive ela tem trabalhos publicados e reconhecidos fora do Brasil. Então esse camarada disse apenas o seguinte: “Não faço questão nenhuma de conhecer o trabalho dela porque ela foi criada em um acampamento sem-terra!” Sem polemizar, sorri, agradeci sua opinião e fui embora.
Vanusa X Black Sabbath
Está circulando uma matéria na internet sobre as semelhanças entre a famosa “Sabbath Bloody Sabbath”, da banda britânica de heavy metal Black Sabbath, que faz parte do álbum homônimo, lançado em dezembro de 1973, e a pouco conhecida “What To Do”, da cantora Vanusa, que lançou o seu disco meses antes do Black Sabbath. Independente da controvérsia que estão criando sem o aval da cantora, que disse não ter interesse algum em processar o Black Sabbath porque considera isso apenas uma coincidência musical, só tenho uma coisa a destacar: “Que música boa!”




