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Gary Francione: “Nossa exploração de animais não humanos representa a violência em uma escala sem precedentes”
“Precisamos parar de comer, vestir e usar animais e produtos de origem animal”

“Matamos o maior número de animais para a produção de alimentos – cerca de 60 bilhões de animais terrestres e pelo menos um trilhão de animais marinhos são mortos anualmente” (Acervo: Abolitionist Approach)
Em artigo publicado no site Abolitionist Approach, como parte da divulgação do seu último livro “Advocate for Animals! – An Abolitionist Vegan Handbook”, escrito em parceria com Anna Charlton, o professor Gary Francione, referência na luta pelo abolicionismo animal, assim como Anna, escreveu que desde o início dos tempos houve, no total, cerca de 110 bilhões de seres humanos que viveram e morreram:
“Nós matamos mais animais não humanos do que isso todos os anos. Pense nisso por um segundo. Nossa exploração de animais não humanos representa a violência em uma escala sem precedentes. Matamos o maior número de animais para a produção de alimentos – cerca de 60 bilhões de animais terrestres e pelo menos um trilhão de animais marinhos são mortos anualmente. E há muitos bilhões mortos todos os anos por outros motivos, como pesquisa biomédica, entretenimento e esporte.”
Francione declarou que uma coisa clara e incontestável é que a horrível e difusiva exploração animal não vai acabar logo. Segundo o professor de direito da Rutgers School of Law, de Newark, New Jersey, o problema subsiste no fato de que nos últimos 200 anos a defesa animal se concentrou no tratamento “desumano” dispensado aos animais.
Ou seja, os defensores dos animais fizeram principalmente campanhas para obter padrões de tratamento supostamente mais “humanos”; ou então se concentraram em combater práticas pontuais como o uso de animais para a extração de peles. Tal abordagem, de viés evidentemente parcial e mesmo especista, é vista por Francione como um equívoco que arranhou a superfície do problema, não chegou à base. A consequência disso é que as pessoas continuaram sentindo-se mais à vontade para continuarem explorando os animais.
“O movimento abolicionista animal, que surgiu na década de 1990, considera que o problema não é o tratamento, mas o uso. Não se trata de tornar a exploração mais ‘humana’. Não se trata de dar enfoque às peles de animais, que não são diferentes da lã ou do couro. O que envolve esse movimento abolicionista?”, questionou.
Para Gary Francione o abolicionismo é sobre a adoção de uma posição que defende estritamente os reais direitos animais sem fazer concessões. Ou seja, sem ser permissivo ou condescendente em relação às políticas bem-estaristas. “Mantemos essa posição, assim como rejeitamos a escravidão dos seres humanos como nossa propriedade. Só então eles [os animais] podem ser reconhecidos como pessoas não humanas. Abolição [animal] envolve uma clara e explícita rejeição da posição de bem-estar animal – a ideia de que é moralmente aceitável usar animais desde que os tratemos de forma ‘humana’”, argumentou.
Na perspectiva do professor Francione, para abolir a exploração animal como uma questão social é preciso abolir a exploração animal de nossas vidas individuais. Isso significa que, se acreditamos que os animais são moralmente importantes, é essencial tornar-se vegano. “Precisamos parar de comer, vestir e usar animais e produtos de origem animal na medida do possível. E devemos advogar o veganismo de forma criativa e não violenta, a fim de incentivar os outros a tornarem-se veganos”, enfatizou.
É justamente isso que Gary Francione e Anna Charlton abordam no livro “Advocate for Animals! – An Abolitionist Vegan Handbook”, definido pelos autores como um guia prático de como abordar o veganismo da melhor forma possível – com clareza e bons argumentos. A obra está à venda no site Amazon.com.
Referência
Richard D. Ryder: “Todos nós conhecemos pessoas que podem desistir da carne com facilidade”
“Há também a luxúria [do consumo] de carne que é muito forte, digamos que atinge 30% da população humana”

“Agora temos de tentar argumentar contra o preconceito do especismo no resto do mundo, e particularmente nos novos centros de poder econômico como Índia, Brasil e China” (Foto: Kim Stallwood)
Richard D. Ryder é um psicólogo, defensor dos direitos animais e escritor britânico que em 1970 cunhou o termo “especismo”, uma forma de discriminação que se baseia na ideia de que pelo fato do ser humano considerar outros seres inferiores, ele ignora seus interesses em não sofrer, inclusive negando-lhes o direito à vida. Ao longo de mais de 40 anos, Ryder escreveu importantes livros como “Victims of Science”, de 1975; “Animal Revolution: Changing Attitudes Towards Speciesism”, de 2000; “A Modern Morality”, de 2001; “Putting Back Into Politics”, de 2006; e “Speciesism, Painism and Hapiness”, de 2011.
Em 2010, Richard D. Ryder publicou na Critical Society, Issue 2, uma versão comentada e atualizada do seu folheto “Speciesism”, distribuído em Oxford em 1970 como uma reação contrária às experiências com animais. Logo o termo especismo passou a ser estendido a todas as formas de exploração contra animais não humanos, incluindo, claro, criaturas reduzidas a produtos e alimentos.
Na publicação da Critical Society, Ryder afirma que as revoluções de 1960 contra o racismo, sexismo e classismo ignoraram completamente os animais. Todos pareciam estar preocupados em reduzir somente o preconceito contra seres humanos. “Eles não tinham ouvido falar de Darwin? Eu odiava o racismo, sexismo e classismo também, mas por que parar nisso?”, declarou e acrescentou que como cientista ele já sabia que outras espécies de animais também sentem medo, dor e aflição, assim como nós.
A princípio, o panfleto “Speciesism”, que Ryder distribuiu em Oxford, não teve nenhum efeito. Então ele mudou a sua tática. Reimprimiu o texto com uma ilustração de um chimpanzé usado em experiências e infectado com sífilis. “Pedi a um amigo, David Wood, que incluísse seu nome para que o folheto tivesse um endereço universitário e o enviei às universidades. Desta vez tive algumas respostas. Um dos destinatários era um jovem filósofo australiano chamado Peter Singer. Em poucos meses, ele entrou em contato comigo. Muita coisa aconteceu desde então”, revelou.
No panfleto, o psicólogo afirma que desde Darwin os cientistas têm concordado que não há uma diferença essencialmente “mágica” entre seres humanos e outros animais, falando biologicamente. “Por que então moralmente fazemos uma distinção quase total? Se todos os organismos estão em um contínuo físico, então eles também devem estar no mesmo contínuo moral”, defendeu.
No panfleto, Richard D. Ryder faz uma observação bem crítica em relação ao especismo ao frisar que sob condições especiais de laboratório talvez seja possível acasalar um gorila com um professor de biologia. “Será que a prole peluda será mantida em uma gaiola ou em um berço? […] É costume descrever o homem de Neandertal como uma espécie diferente de nós, uma especialmente equipada para sobreviver à Era do Gelo. No entanto, a maioria dos arqueólogos agora acredita que essa criatura não humana praticava o enterro ritual e possuía um cérebro maior que o nosso. Suponha que o elusivo e abominável Homem das Neves, quando apanhado, acabe por ser o último sobrevivente desta espécie de Neandertal, daríamos a ele um assento na ONU ou implantaremos elétrodos em seu cérebro super humano?” As questões levantadas lembram os conflitos e a “evolução” do símio Peter apresentada por Franz Kafka no conto “Ein Bericht für eine Akademie” ou “Um Relatório para a Academia”, publicado em 1917.
Exemplos hipotéticos como os citados anteriormente por Ryder podem chamar a atenção para a falta de lógica da nossa posição moral em relação à exploração animal. Independente do direito à vida, ele pondera que um critério moral claro é o sofrimento, o sofrimento ocasionado pelo confinamento, medo, tédio e dor física, entre outros exemplos.
Se assumirmos que o sofrimento é uma função do sistema nervoso, então é ilógico argumentar que outros animais não sofrem de maneira semelhante a nós. Na realidade, é precisamente porque alguns outros animais têm sistemas nervosos tão parecidos aos nossos que eles são extensivamente estudados. Em relação aos argumentos a favor de experiências com animais, Ryder aponta inúmeras inconsistências. Há cientistas que dizem que o avanço do conhecimento justifica todos os males. Será que realmente justifica?
Suponhamos que em um determinado experimento as chances de sofrimento de um animal são mínimas, e as probabilidades dessa experiência auxiliar a medicina aplicada é excelente, ainda assim isso não seria especismo? “E como tal é um argumento emocional egoísta, não fundamentado. Se acreditamos que é errado infligir dor a animais humanos inocentes, então a única lógica, falando filogeneticamente, é estender a nossa preocupação sobre direitos elementares aos animais não humanos”, escreveu Richard D. Ryder no panfleto publicado originalmente em 1970.
Além de lutar pela proibição de testes em animais, Ryder, que tem mestrado em psicologia experimental e doutorado em ciências políticas e sociais pela Universidade de Cambridge, se envolveu diretamente em campanhas contra a criação de animais para consumo, e campanhas de proteção aos elefantes, baleias e focas. Desde 1985, o psicólogo qualifica a sua posição moral como painism (painismo), que diz respeito ao reconhecimento de direitos para todas as criaturas que sentem dor, um assunto que é exaustivamente abordado no seu livro “Speciesism, Painism and Happiness”, de 2011.
Na perspectiva do psicólogo, o painismo é uma terceira via entre a posição utilitarista do filósofo australiano Peter Singer e a visão deontológica de direitos do filósofo estadunidense Tom Regan, já que combina a visão utilitarista de que o status moral vem da capacidade de sentir dor com a proibição sob a ótica de direitos de que é errado usar outros seres sencientes como meios para um fim, desconsiderando as implicações disso para vítima.
O painismo considera o utilitarismo falho porque nesse sistema ético a tortura ou estupro é “justificável quando os benefícios totais compensam as dores da vítima”, o que é um absurdo, segundo Ryder, se considerarmos que os limites da experiência são os limites do indivíduo. Ou seja, não é porque várias pessoas tiveram prazer em um ato que o sofrimento de uma vítima pode ser considerado secundário. Uma ação não deixa de ser errada ou imoral porque dezenas, centenas ou milhares foram beneficiados.
Embora o trabalho de Richard D. Ryder contra a objetificação animal tenha ganhado mais visibilidade nas últimas décadas, a sua luta começou há muito tempo. Em 1969, ele participou de um protesto contra a caça às lontras em Dorset, no sudoeste da Inglaterra. Foi nessa época que ele realmente se interessou pela questão dos direitos animais e enviou três cartas sobre o assunto para o jornal The Daily Telegraph. Em um dos textos, intitulado “Rights of Non Human Animals” ele usou como referência o seu próprio trabalho como pesquisador para condenar as pesquisas com animais.
A romancista Brigid Brophy, também defensora dos direitos animais, leu as cartas de Ryder e o apresentou a Rosalind Godlovitch, Stanley Godlovitch e John Harris, três estudantes de pós-graduação da Universidade de Oxford que estavam editando a obra “Animals, Men and morals: An Inquiry into the Maltreatment of Non-Humans”, uma coleção de ensaios sobre direitos animais lançada em 1971.
O grupo que mais tarde recebeu o nome de Oxford Group, e atraiu novos membros, sedimentou o caminho de Ryder como ativista pelos direitos animais. Eles não apenas produziam material, mas também realizavam encontros, reuniões, imprimiam e distribuíam folhetos em crítica à exploração animal. Logo a luta contra exploração de animais para consumo se tornou uma das prioridades, assim como à rejeição à experimentação animal.
Em 1973, Peter Singer escreveu uma resenha do livro “Animals, Men and morals” para o The New York Review of Books, enfatizando que o artigo “Experiment on Animals”, que integra a obra, e escrito por Richard D. Ryder, era um apelo à criação de um movimento de libertação animal. O trabalho influenciou Singer a escrever o livro “Animal Liberation”, de 1975. Na obra, Singer aborda o especismo no quinto capítulo; o que ajudou a popularizá-lo mundialmente, passando mais tarde a ser incluído inclusive nos mais importantes dicionários.
Em 1977, Richard D. Ryder assumiu a posição de chairman do conselho da Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals (RSPCA) e ajudou a coordenar a primeira conferência acadêmica de direitos animais realizada em agosto de 1977 em Cambridge. O resultado foi a criação de uma “Declaração contra o Especismo”, assinada por 150 pessoas. Com a ajuda de Ryder, o conselho, que se dedicava principalmente à proteção de animais de companhia, passou a dar grande importância às questões envolvendo fazendas industriais, experiências laboratoriais caça e esportes com animais.
Em 9 de março de 2011, a “AR Zone – A Record of Rational Discourse” publicou uma entrevista histórica e bastante esclarecedora com Ryder. O psicólogo relatou que uma tática usada por ele para divulgar o termo “especismo” foi mencioná-lo sempre que era convidado a dar alguma entrevista. “Naquele tempo, a mídia gostou porque era algo novo, mas o meio acadêmico demorou para reagir em relação a isso”, comentou.
Segundo Richard D. Ryder, o especismo ainda não chegou ao fim, embora as pessoas estejam se tornando mais conscientes, porque existe um consolidado discurso que atrela a existência dos animais à utilidade em benefício humano. “Há também a luxúria [do consumo] de carne que é muito forte, digamos que atinge 30% da população humana. Essas pessoas vão lutar com unhas e dentes para proteger o seu ‘direito’ de comer carne. Eles ficam muito irritados se forem desafiados. A carne é uma forma genuína de dependência? Ou é basicamente um impulso básico carnívoro que está geneticamente incorporado em alguns seres humanos, mas não em todos nós? Realmente não sei se essa pesquisa foi feita. Todos nós conhecemos pessoas que podem desistir da carne com facilidade, e sem sentir falta. Mas também há outros que determinam as políticas que parecem ‘precisar’ de carne tanto quanto sexo. Eles desejam isso! Esse problema requer pesquisa”, informou em entrevista à AR Zone.
Para Ryder, se quisermos realmente fazer a diferença na vida dos animais, não devemos ter medo de expressar nossas opiniões sobre isso. “Entre em contato com deputados, professores e editores, assim aumentando a importância moral dessa questão. Agora temos de tentar argumentar contra o preconceito do especismo no resto do mundo, e particularmente nos novos centros de poder econômico como Índia, Brasil e China”, escreveu na versão atualizada do panfleto “Speciesism”, publicado em 2010.
Saiba Mais
Richard D. Ryder se candidatou duas vezes ao parlamento inglês. Também é conhecido por suas incansáveis campanhas para convencer os partidos políticos a tratarem a proteção animal como uma questão política.
Referências
Ryder, Richard D. Speciesism (1970). Privately printed leaflet. Oxford (2010).
Ryder, Richard D. Speciesism, Painism and Happiness: A Morality for the 21st Century. Societas. Imprint Academics (2011).
The Encyclopedia of Animal Rights and Animal Welfare. The Oxford Group. Páginas 261-262 (2009).
Ryder, Richard D. The Struggle Against Speciesism (1979).
Singer, Peter. Animal Liberation (1975). New York Review Books. Página 269.
http://www.62stockton.com/richard/index.html
O que aconteceria com os animais se o mundo se tornasse vegano
Não é incomum as pessoas perguntarem o que aconteceria com os animais se o mundo se tornasse vegano. Quando alguém faz tal questionamento, é importante que essa pessoa pondere sobre uma realidade alcançável, não utópica, digressiva. Essa pergunta é feita de duas formas – buscando uma resposta realmente válida ou simplesmente como uma forma de tentar minar qualquer argumento vegano.
Essa pergunta, se feita de forma capciosa, é tola. O mundo não vai se tornar vegano hoje ou amanhã. Esse trabalho em prol do abolicionismo animal é feito como qualquer projeto de longo prazo colocado em prática pela humanidade. Analise com brevidade o nosso passado e reflita sobre a abolição da escravidão, grandes conquistas sociais, entre outras coisas. Algumas delas vieram à tona subitamente? Foram alcançadas rapidamente? Não. São sempre trabalhos iniciados há muito, muito tempo, e que exigem maturação. Toda luta que coloque em xeque o status quo jamais teve visibilidade até o momento em que passou a ser vista como realmente é, ou seja, algo credível e justo.
O vegetarianismo e o veganismo, embora não nos moldes atuais, existem desde o princípio da humanidade. Mas só a partir dos séculos 19 e 20 que passou a haver maior articulação em torno desses ideais. Tivemos um amadurecimento estrutural e nos aproximamos do que entendemos hoje como direitos animais e abolicionismo animal. A literatura da libertação animal, criada formalmente na década de 1970, por exemplo, foi inspirada nas ideias do escritor inglês Henry Salt, que já versava sobre o assunto em 1885.
Vivemos um período de aperfeiçoamento das ideias do abolicionismo animal, de luta pela implementação de políticas públicas. Há mais produção, mais acesso à informação, e isso é muito bom para a mentalização, porque impacta nas nossas relações de consumo, no fortalecimento da ideia de que animais não são objetos, mas sim seres sencientes que merecem viver à sua maneira. Claro, o abolicionismo animal não vai acontecer facilmente ou tão logo. Ninguém vai pegar um megafone e anunciar em um canal no YouTube ou na TV que repentinamente todos os animais foram libertados dos matadouros, das áreas de confinamento.
Não creio que veremos bilhões de animais atravessando ruas e pastos. Nem mesmo sendo remanejados para outras áreas. Sabe por que? Porque o veganismo pelo menos por enquanto tem acontecido majoritariamente sob o aspecto da desaceleração de consumo. O que isso significa? Significa que o veganismo vai ganhando espaço conforme a demanda de produtos de origem animal for diminuindo. Com isso, quem lucra com a exploração animal não terá motivos para investir tanto, até por entender que se trata de mau investimento.
Com a desaceleração do consumo, será mais fácil desenvolver um trabalho de educação vegana. Na minha opinião, a educação vegana depende dessa desaceleração. Atualmente, estamos caminhando para banir a realização de testes de produtos em animais nos próximos anos. Pode parecer pouco, mas só de instigar nas pessoas a reflexão contra a objetificação animal em laboratórios já existe uma possibilidade de ponderação mais ampla sobre a exploração animal.
Atualmente, as pessoas não veem com bons olhos os circos que exploram animais, tanto que é uma prática banida em muitos estados e países. Os zoológicos que lucram com a exploração animal também já não são romantizados. Há cada vez mais pessoas reprovando a realização de vaquejadas, touradas e rodeios, entre outras práticas violentas. Há mais comoção em relação ao abandono de animais, e as pessoas estão mais preocupadas com a origem do que consomem. Prova disso é que se você apresentar uma boa alternativa de produto sem ingrediente de origem animal, sempre haverá aqueles que optarão por não continuarem endossando esse tipo de exploração. O mundo vegano tem sido construído a cada dia, e não da forma utópica apontada de forma jocosa por quem o considera irrealizável.
Se pensarmos que há 20 anos, ou até menos, tudo que citei acima era parte de uma realidade considerada normal, não é difícil reconhecer que essas mudanças são pontos positivos e determinantes para a construção de um mundo vegano, e todos esses fatores dependem da conscientização sobre a exploração animal em todas as esferas. Penso que se o veganismo se tornar uma realidade para a maioria da população, e espero que seja, mesmo que eu não esteja aqui, o número de animais criados e reduzidos a produtos e entretenimento será surpreendentemente menor. Tão menor se comparado à atualidade que não será difícil remanejar para santuários os últimos animais explorados, onde poderão viver até os seus últimos dias.
Luiz Felipe Pondé: “O que eu acho do veganismo?”
“Esse tipo de pureza pra mim não é diferente daqueles calvinistas doidos que queimavam gente e achavam que tudo era o demônio”
Assisti um vídeo do filósofo Luiz Felipe Pondé criticando o veganismo. Obviamente, o meu objetivo não é desconsiderar o seu trabalho enquanto filósofo nem a sua figura humana, mas sim apontar falhas substanciais no seu discurso “O que eu acho do veganismo?”
Enquanto fuma um charuto, Pondé começa dizendo que uma pessoa sem vícios não deve ser merecedora de confiança. Bom, discordo, até porque tento sempre evitar generalizações. Na minha opinião, vícios, quase sempre surgem com escolhas pessoais e em muitos casos como consequência de uma fragilidade que pode inclusive reafirmar uma volatilidade moral, já que o vício reflete uma ausência de autocontrole, e isso pode implicar em prejuízo não apenas para si mesmo como também para os outros. Sendo assim, essa fragilidade pode criar uma ilusão de que temos o domínio de algo que na realidade tem o domínio de nós. Mas, claro, ainda vivemos em uma realidade em que cada um é livre para optar ou não por ter vícios.
Pondé afirma que é contra qualquer tipo de pureza, a busca pela pureza. Bom, veganismo não é sobre pureza. Claro, buscamos o abolicionismo animal, mas não vivemos imersos em uma realidade ultrarromântica. Veganos têm consciência de suas limitações, e ainda assim aceitam o desafio de fazer o possível para reduzir impactos na vida dos animais. Segundo o filósofo, “as pessoas têm o direito de comer o que quiser, contanto que não seja outros seres humanos.” Esse é um ponto crítico sob a perspectiva vegana. O chamado “direito” do ser humano de se alimentar de outras criaturas não foi” concedido” por ninguém a não ser por ele mesmo, logo uma arbitrariedade, já que consiste em subjugar outros animais sencientes e conscientes, ignorando seus interesses, ou seja, o direito à vida.
“Os animais são sujeitos de uma vida? Esta é a pergunta que precisa ser feita sobre os animais porque é a pergunta que precisamos fazer sobre nós”, escreveu o filósofo Tom Regan no livro “Empty Cages”. Segundo Regan, não podemos declarar que o motivo pelo qual nós enquanto seres humanos temos direitos é porque somos igualmente sujeitos de uma vida, mas outros animais, que são exatamente como nós enquanto sujeitos de uma vida, bem, eles não têm nenhum direito. “Isso seria como se colocar diante do mundo e gritar: ‘Um Volvo não é um carro porque um Volvo não é um Ford!’
A opinião de Luiz Felipe Pondé, ao defender o ato de matar animais e consumi-los como um direito é evidentemente especista e antropocêntrica. Em síntese, é uma defesa de status quo, da perpetuação do que já existe e é praticado. O seu posicionamento não reconhece a defesa dos direitos animais e menos ainda a legitimidade da teoria abolicionista animal, que defende que os animais não existem para os nossos próprios fins, em qualquer circunstância.
Pondé diz que não cabe condenação a quem consome proteína animal. Acredito que depende. Não vejo necessidade em atacar pessoas, realmente, até porque isso é contraproducente. Porém, de forma conscienciosa, considero imprescindível criticar com probidade o nosso papel enquanto espécie e a nossa iníqua relação com os outros animais, até porque as pessoas não costumam refletir sobre o seu papel em relação as outras espécies, por considerá-las inferiores. Então a conscientização é importante. Afinal, matamos por ano, e não por uma questão de necessidade, bilhões de criaturas que, assim como nós, gostariam de viver, não de morrer. Não há romantismo nisso, mas apenas a constatação da realidade. Ninguém nasce ansiando pela própria finitude.
Para Pondé, muitas pessoas aderem ao veganismo “por uma certa tensão puritana”. Discordo. Veganos não são isentos de vícios, não são seres perfeitos, nem se julgam como tal. Pelo menos desconheço quem faça isso, e se há casos desse tipo é uma questão de equivocada construção individual, sem respaldo na filosofia de vida vegana. Basta analisarmos a história do veganismo e o trabalho dos seus principais pensadores e teóricos. A observação de Pondé me parece mais próxima do vegetarianismo místico do que do veganismo quando cita “puritanismo”, “puritano”, “purismo”, “pureza”, embora sejam palavras que compõem um grande escopo de significados, até mesmo antagônicos em alguns aspectos. Na realidade, o veganismo é bem prático. Basta partirmos da seguinte premissa: “ Se posso viver bem sem matar ou tomar parte na morte de outros seres vivos, por que fazer isso?”
Pondé enfatiza que outro grande equívoco é “a ideia de que você pode se retirar da cadeia de violência da natureza”. Bom, não conheço veganos que afirmam categoricamente que estão completamente livres da cadeia de violência, até porque a maioria vive a realidade urbana, e nesse contexto é mais difícil ainda se livrar das armadilhas que envolvem a exploração animal, já que o ser humano subjuga outras espécies de forma tão visceral que até mesmo pneus contêm insumos de origem animal. Como é o caso do ácido esteárico baseado em gordura bovina. Porém, nada disso impede a luta para diminuir cada vez mais essa exploração, demandando alternativas que não envolvam agrilhoamento e morte de outras espécies. Veganismo é sobre o aperfeiçoamento na nossa relação com outros animais, até alcançarmos um objetivo maior que é o abolicionismo animal. Se temos condições de mudar hábitos desnecessários, que impactam negativamente em outras vidas, por que não fazer isso? Por que não mostrar para as outras pessoas que é possível viver bem gerando menos violência? Como consequência, isso reduz a objetificação animal.
Outra observação feita pelo filósofo Pondé é a de que o veganismo “deixa a experiência humana do gosto um pouco cerceada”. Bom, veganos não vivem em privação alimentar. Temos uma grande riqueza de alimentos vegetais acessíveis à nossa disposição, e são eles que dão inclusive sabor aos alimentos de origem animal. Afinal, que gosto teria, por exemplo, a carne, sem os temperos de origem vegetal? O que deixa claro que, do ponto de vista alimentar, vegetais são essenciais, ao contrário dos alimentos de origem animal. Até porque a existência de veganos é a prova maior de que ninguém morre sem consumir animais.
Luiz Felipe Pondé também diz que veganos consideram quem come carne como assassino. Bom, não vejo dessa forma, e acredito que quem entende o veganismo em essência sabe que o consumo de carne é um infeliz fator histórico e cultural baseado no costume. A própria literatura vegana e dos direitos animais discorre sobre isso exaustivamente. Para Pondé, veganos buscam uma espécie de pureza que não existe. “Esse tipo de pureza pra mim não é diferente daqueles calvinistas doidos que queimavam gente e achavam que tudo era o demônio”.
Sim, há pessoas que ficam exacerbadas diante do sofrimento animal, da exploração contumaz, e acabam cometendo alguns excessos em seus discursos, porém não cabe generalizações. Esse comportamento é reflexo de uma ânsia por justiça para animais não humanos. Quero dizer, há boa vontade nisso, o problema é que ela pode ter ancorado em uma falha de comunicação imersa nos arroubos da passionalidade.
Se você dialogar com um vegano, por mais ofensivo que considere o seu discurso, você vai perceber que se trata de uma pessoa bem-intencionada que busca e sonha com o melhor para os animais. Comparar veganos com terroristas é bastante surreal, levando em conta que não há registros de arbitrariedades desse tipo praticadas por veganos. Você não encontra veganos violentando quem não é, matando pessoas. Nem mesmo os grupos de ação direta costumam praticar ou defender qualquer tipo de violência quando decidem articular alguma ação em benefício de animais não humanos.
“Tem aí um filósofo chamado Peter Singer, é uma espécie de guru, apesar de que muitos veganos nem sabem disso”, afirmou Pondé. Não duvido que haja veganos que realmente nunca ouviram falar em Peter Singer e em seu livro “Animal Liberation”, porém isso não faz de alguém mais ou menos vegano, até porque obras de direitos animais quando chegam ao Brasil costumam custar caro, logo não são realmente acessíveis. Além disso, depois de Singer, e principalmente a partir dos anos 1980, outros filósofos e pensadores também escreveram sobre o assunto, inclusive seguindo por um caminho diferente e independente de Singer. Também é importante considerar que hoje em dia há muito material sendo produzido sobre o tema e disponibilizado na internet em forma de artigos, o que também tem contribuído bastante para uma melhor conscientização em torno do veganismo e dos direitos animais. Ou seja, não há mais uma dependência de meios tradicionais.
“O que eu critico no veganismo é uma percepção sensorial estética infantil da realidade associada a uma expectativa purista e moralista. E eu não gosto de purismo e moralismo.” Sobre essa citação de Luiz Felipe Pondé eu devo dizer que a considero bem baralhada. Nem purismo nem moralismo têm a ver com veganismo. Veganismo é uma perspectiva não excludente da moralidade, enquanto que o moralismo é baseado em preceitos proverbiais que ignoram a particularidade e a complexidade de uma situação. Na realidade, o veganismo faz exatamente o oposto do moralismo, que é fundamentado na tradição, uma tradição cediça. Acredito que “percepção sensorial estética infantil” é aquela despertada pela propaganda da indústria da exploração animal.
Ou seja, em que a subjugação ou morte de um ser vivo é romantizada e celebrada. Exemplos disso são as embalagens de produtos, os comerciais da Sadia, etc. Ou até mesmo a histórica e recorrente dissociação entre produto e morte. Essa negação, no meu entendimento, também é uma “percepção sensorial estética infantil da realidade”, assim como situações em que pessoas que comem carne ficam surpresas e sensibilizadas com algum fato que envolve a exploração animal. Posso citar como exemplo o caso recente em que uma moça ficou horrorizada porque encontrou um mamilo em um pedaço de bacon. Isso não seria “percepção sensorial estética infantil da realidade”? Eu digo que sim.
Em síntese, achei o vídeo do filósofo Luiz Felipe Pondé criticando o veganismo vacilante e equivocadamente pontual. Quero dizer, me parece que ele se baseou em alguns exemplos de comentários que viu por parte de alguns veganos na internet e usou isso para fundamentar a sua crítica, ignorando o que realmente é a filosofia de vida vegana, e provavelmente não tendo a preocupação de buscar sólidas referências. Ademais, não posso deixar de reconhecer que há um ponto positivo nessa crítica. E qual seria? Ele não teria feito um vídeo falando de veganismo se o tema não estivesse em evidência. Então é claro que as críticas vão crescendo de acordo com a visibilidade e adesão ao veganismo. Para finalizar, parafraseio Adam Smith, uma das referências filosóficas de Pondé, no capítulo 2 do quinto livro de “Wealth of Nations”: “Pode-se duvidar de que a carne do açougue seja necessária à vida em qualquer lugar.”
Aos animais a liberdade

Bilhões de animais criados para consumo no mundo todo escutavam isocronicamente um som jamais ouvido antes
Sonhei que bilhões de animais criados para consumo no mundo todo escutavam isocronicamente um som jamais ouvido antes; um tipo de chamamento que fazia com que nada temessem, apenas reconhecessem a sua força em evidência por uma subitânea expansão da consciência.
Arrebentavam gaiolas, grades, correntes, atravessavam pastos e cidades. Se articulavam como nunca, como seres sociais que são. Fugiam de matadouros e laboratórios. Não podiam mais ser tocados, mas simplesmente observados. Aos seres humanos, incapazes de se moverem por um artifício romanesco, restava o direito e a obrigação de assistir tudo como meros espectadores.
A cada passo dos sobreviventes em direção à vida, os seres humanos eram presenteados com flashes da libitina, do decesso, da ortotanásia, da morte; não da própria morte, nem de mortes humanas, mas da finitude dos familiares daqueles animais que remanesceram. Os olhos de uma vaca que corria em celeridade, mesmo com os úberes morrudos e quase tocando o chão, projetavam titânicos hologramas de crianças mortas. Todos os seus filhos executados ao longo de anos de ordenha.
Uma galinha sem bico e com olhos cor de terra projetava o exato momento de sua debicagem, calvário que perdurou por semanas. Na cumeeira, no ponto mais alto de muitas cidades, havia projeções colossais de pintinhos sendo triturados em máquinas. Não paravam de cair, não paravam de morrer. Lembranças de um passado hodierno.
Pessoas tentavam cobrir suas cabeças, temendo que o sangue das pequenas criaturas pudesse lavar suas ignorâncias, insipiências. O obnóxio apedeutismo sufocaria. Mas o ser humano é recalcitrante. Pessoas de todas as idades persistiam; tentavam vendar os olhos, seus e dos outros. Não era mais possível abrenunciar a realidade.
Aqueles que privaram os filhos da verdade também amargaram consequências; as crianças não foram poupadas. Por que seriam? Os animais corriam, e os hologramas se expandiam. A morte evidenciada visceralmente por todos os lados, sem romantismo, sem subversão conscienciosa. A verdade avançava. O céu virou um painel.
Cenas de peixes sufocados em tralhas e devolvidos (ou não) ao mar agonizavam, incapazes de sobreviver por mais do que minutos sempiternos. O fim chegaria, mas custaria. Oceanos, mares e rios cuspiam a humanidade, seus barcos, suas bargas e tralhas. Porquinhos soluçavam pendurados sobre grilhões. Era o último registro do último matadouro. Caprinos e ovinos saltavam sobre os carros; amassavam latarias e corriam.
Aos animais a liberdade, à humanidade o reconhecimento da fealdade. Mais adiante, animais telúricos desapareciam através de tocos de árvores transformados em troncos que se alargavam e funcionavam como portais. Nas águas, os não humanos atravessavam crateras, furnas e lapas quiméricas que repeliam os indesejados. Do outro lado, na terra, na água ou no céu, não havia humanidade, somente reciprocidade semeada pela vontade.
Se sou vegano, é claro que a minha defesa é pelo abolicionismo animal

Veganismo é isso, independente se alguém o considera visceral ou não. E ele não se tornou assim hoje.
Se sou vegano por crer que os animais não devem ser explorados de modo algum, é claro que a minha defesa é pelo abolicionismo animal. Diariamente, me deparo com pessoas surpresas quando meus textos vão por esse caminho, os considerando exagerados ou radicais. Veganismo é isso, independente se alguém o considera visceral ou não. E ele não se tornou assim hoje.
Essa é a essência do veganismo desde 1944. Inclusive ele foi formatado como uma reação aos muitos autodenominados vegetarianos ingleses da época. Isto porque estes herdaram dos vitorianos o hábito de consumir laticínios e ovos, reprovado pelos vegetarianos estritos e éticos que encaravam esses hábitos como comodismo e legitimação da exploração romantizada; o que justifica a origem do veganismo.
O veganismo desde o seu princípio já não reconhecia nada de origem animal como alimento. Sendo assim, não há nada que deveria chocar ou surpreender nos meus discursos. É tudo uma questão de informação e desinformação. Tudo que escrevo vai ao encontro de algo que foi proposto pelos veganos antes da metade do século XX.
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Se você fosse um animal explorado para benefício humano, com certeza você concordaria que a ética abolicionista é a melhor
Não raramente alguém diz que a ética abolicionista é uma ética sim, mas não significa que seja a melhor. Se você for um ser humano, pode ser que não seja vista como a melhor, realmente. Mas se você for um animal explorado para benefício humano, pode ter certeza que é a melhor sim. Afinal, nem mesmo o ato de ser abraçado ou beijado reduz o peso da morte antecipada de um animal, sendo este o destino final. Além disso, toda ética de conveniência é uma ética muleta, porque, não sendo realmente honesta, induz os mais incautos a acreditarem que meias medidas são o suficiente. Mas suficientes para quem? Talvez para quem se beneficie dessa exiguidade. Por isso que a única ética animal verdadeiramente benéfica para os animais é aquela que rejeita a objetificação, que não endossa nenhum engodo nebuloso no que tange à exploração.
Não existe justiça quando um animal é criado para ser explorado
Se um animal de uma espécie sofre em decorrência da má intervenção humana, o mínimo que posso fazer é tentar não contribuir com isso. Vejo muitas pessoas tentando rebater críticas à exploração animal com o seguinte suposto argumento: “Meu primo não faz assim com os animais, meu tio faz de tal jeito.” Ok, mas o ponto nevrálgico não é esse, mas sim que nem você, nem seu primo nem seu tio estão contribuindo para que os animais não sejam vistos como seres a serem explorados.
O fato deles não torturarem um animal não diz nada quanto a isso. Vejo a objetificação um problema-base da exploração animal, e essa objetificação que pode ser vista como positiva por quem não observa o problema como um todo, mas apenas levando em conta um universo diminuto de experiências isoladas, requer uma perspectiva mais abrangente. Até porque economicamente essa é uma realidade rasa, já que o grosso da economia baseada na exploração de animais vem do sistema industrial.
Considere apenas o fato de que 70 bilhões de animais terrestres são mortos por ano. Sendo assim, quando alguém cita um familiar que hipoteticamente não trata os animais da mesma forma que a maioria, isso a mim não diz nada, porque é simplesmente um caso pontual. E esses casos pontuais eram regra no passado, até o momento em que o ser humano viu que era possível lucrar muito mais criando animais em regime intensivo. Ou seja, mais tecnologia, menos espaço e mais dinheiro.
Os animais não terem sido confinados antes da Revolução Industrial não impediu que depois a maioria deles conhecesse o inferno terreno. Afinal, como usar outro termo para nos referimos a uma realidade em que todos os dias bilhões de seres vivos são privados de ser quem são? E isso começa logo no nascimento.
Além disso, se tivessem a oportunidade e o dinheiro para investir mais na exploração animal, quantos criadores que exploram hoje os animais de forma que chamam de “justa” e “respeitosa” não migrariam para um sistema que proporcionasse muito mais lucro, mesmo que isso custasse mais sofrimento aos animais? Será que quem alega isso realmente se preocupa em algum nível com os animais? Ou simplesmente age de acordo com a conveniência e as próprias condições financeiras? É algo a se ponderar.
É importante não desconsiderar o fato de que o primeiro ser humano a explorar os animais nas chamadas fazendas industriais, que muitos chamam inclusive de prisões, onde os animais passam por mais privação devido ao confinamento e sofrem muito mais em decorrência de transtornos psicológicos e emocionais, era alguém que antes os criou livremente no campo. Então, volto a afirmar, um animal ser criado “livre” ou sem “muito sofrimento” não diz grande coisa. Porque a existência de supostos animais “livres” não impede que muitos outros vivam uma realidade incontestável de privação que, ao final, normalmente culmina em morte precoce.
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Meu trabalho é em prol dos animais, não para agradar egos
Me falaram que tem gente me chamando de bem-estarista, só não sei por qual motivo, já que nenhum dos meus textos vai por esse caminho. Se isso é verdade ou não, sinceramente, não é relevante. Como já disse outras vezes, não brigo por títulos. Meu trabalho é em prol dos animais, não para agradar egos (nem mesmo o meu) ou concepções ideológicas. Faço o que faço, respondendo à minha consciência e é isso que importa. Se desagrado alguns ou muitos, isso é apenas parte de um processo natural.
E como já disse outras vezes, quando escrevo, não respondo a ninguém, a não ser a mim mesmo e a minha própria consciência. Discordar das pessoas é natural, e se posicionar sobre isso de forma crítica, porém honesta e ponderada, é muito saudável. Mas é importante ter comedimento o suficiente para não espalhar inverdades ou interpretações equivocadas sobre ninguém, até porque isso é antiético, principalmente quando conjeturamos superficialidades sobre pessoas que na realidade nem conhecemos.
Cada dia que passa tenho me preparado mais para jamais reagir a críticas que não são construtivas, até porque tudo aquilo que é destrutivo ou negativo em essência, não está apto para frutificar. Acho importante ter cuidado com o excesso de passionalidade quando lutamos por algo, porque se fugimos à sombra da realidade, a passionalidade facilmente pode ser transformada em um veneno difícil de dosar. Desse mal, acredito que não sofro, porque sei que quando falo com pessoas estou sempre me direcionando a alguém que, assim como eu, pensa, sente, tem sua própria visão de mundo, sua própria individualidade. Se alguém falar que não sou vegano? Não faço nada, porque isso não importa. O que importa é o resultado das minhas ações.
O que é bem-estarismo?
Basicamente, bem-estarismo ou utilitarismo é uma corrente filosófica que visa a redução da exploração animal, mas que não se preocupa com a libertação desses animais. Inclusive bem-estaristas consideram aceitáveis o abate desde que não seja imposto “sofrimento desnecessário” aos animais. O chamado abate humanitário, por exemplo, é uma proposição defendida pelo bem-estarismo. E muitos bem-estaristas não veem nada de errado em usar animais em inúmeras atividades e até mesmo se alimentar deles, desde que não imponham o que consideram “sofrimento desnecessário”. Em síntese, na premissa bem-estarista há uma crença de que animais são inferiores e podem ser usados pelos seres humanos, porém dentro do que eles chamam de “aceitável”. Chamar de bem-estarista também tem se popularizado como um termo pejorativo entre veganos, principalmente quando acusam alguém de não ser realmente vegano.
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Não sou a favor de nenhum tipo de exploração
Não endosso nenhum tipo de exploração. Mesmo tutelando animais comumente explorados pela indústria, jamais me alimentaria de qualquer coisa de origem animal. Também não usaria nada proveniente de seus corpos. Alguém pode me perguntar, isso não seria exagero? Não, porque se eu tratasse um animal bem e me apropriasse de algo dele, mesmo que não o violentasse, isso significaria que existe uma relação de conveniência. E eu sinceramente acredito no veganismo justamente porque não sou a favor disso.
Também significaria que está ok em consumir ou usar o que veio dele. Sendo assim, estou mandando uma mensagem para outras pessoas de que está tudo bem se eles fizerem o mesmo. E o problema surge por um motivo bem simples. Essas falsas necessidades só poderiam ser atendidas em níveis industriais em um mundo com uma população de mais de 7,2 bilhões de pessoas.
Além disso, não me considero especial. Então não acho que tenho o direito de fazer isso, mesmo que algum animal jogue algo diante dos meus pés. Até porque isso não significa que ele está dizendo pra eu consumir coisa alguma. Então, mesmo eu na minha casa, por exemplo, tosquiando a “minha ovelha” além do necessário para o bem-estar dela, comendo o ovo da “minha galinha” ou bebendo o leite da “minha vaca”, eu estaria dizendo ao mundo:
“Olha, se eu posso fazer isso, vocês também podem.” E assim teríamos uma cadeia industrial que explora animais à exaustão, que é exatamente a nossa realidade atual. Então, sim, sou radical por não me alimentar ou usar nada que venha de animais. Não faço concessões.
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