David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Moralidade’ tag

Alguém diz: “Defendo o fim das vaquejadas e da farra do boi, mas não sou contra matar um animal para comer”

without comments

“Para o animal não importa a finalidade de sua morte, porque isso não muda o fato de que ele deixará de existir”

Um animal não vai te agradecer porque não foi torturado na vaquejada, mas, por exemplo, morreu logo em seguida no matadouro (Fotos: Reprodução)

Alguém diz:

— Eu defendo o fim das vaquejadas e da farra do boi, mas não sou contra matar um animal para comer.

— Imagino que você conheça vegetarianos ou veganos, certo?

— Sim…

— Estão vivos, bem?

— Acho que sim…

— Então por que se alimentar de animais?

— Ora, isso é problema deles, escolha deles. Como porque é gostoso.

— Certo. Se alimentar de um animal então é gostoso. Isso realmente é uma boa justificativa para matar animais? Melhor do que a de não matar que se baseia no fato de que não temos necessidade de tirar vidas para viver bem? E se há pessoas que vivem bem sem consumir a carne de animais, logo sem financiar esse sistema, isso não significa que matar animais acaba por ser um capricho? Quero dizer, privamos um animal de viver, impomos a morte e o comemos. A escolha que existe para nós é inexistente para ele.

— Ainda acho que comer carne não é um problema, porque o animal existe pra isso.

— Entendo, mas quem disse isso?

— A sociedade, o mundo. Ao longo da história, a “sociedade e o mundo” disseram muitas coisas, mas recuaram ou mudaram em diversos aspectos quando houve um entendimento abrangente das consequências de nossas ações em relação ao que não diz respeito somente a nós. Além disso, me responda uma pergunta. Se a “sociedade” decidir que não há nada de errado em sair matando pessoas aleatoriamente, você endossaria isso?

— Claro que não, né?

— Então, isso é uma baliza moral. Independente dos preceitos socialmente aceitáveis, você faria o que considera certo. Sendo assim, matar animais é correto?

— Hum…complicado.

— Considere um ponto. Para o animal não importa a finalidade de sua morte, porque isso não muda o fato de que ele deixará de existir. Ele não vai te agradecer porque não foi torturado na vaquejada, mas, por exemplo, morreu logo em seguida no matadouro. Matar um animal para se alimentar, não anula o fato de que antes ele passou por algum tipo de privação, medo, sofrimento e, claro, algum tipo de violência final que custou a sua vida, tenha sido esse ato curto ou prolongado. Em síntese, nunca há uma boa maneira de matar um animal que não quer morrer.





 

Vaquejada não é esporte, é violência

without comments





Sobre zombar de animais e matá-los baseando-se na crença do querer e poder

without comments

Deveria a morte violenta, coercitiva e indesejada ser associada às coisas boas da vida? 

Deveríamos zelar pelos animais, não violentá-los (Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals)

O que leva uma pessoa a tirar foto sorrindo com um animal morto? Você já pensou sobre isso? Considera normal? Aceitável? Por que deveríamos celebrar a morte de criaturas que não nos causam qualquer mal? E mesmo que causassem, consideradas as proporções, isso seria justo? Moral? Ético? Que tipo de mensagem realmente passamos quando jocosamente erguemos um animal morto pelas orelhas, pelas patas, pelo couro ou pelo dorso enquanto seus olhos já não mostram nada a não ser uma ideia concreta de finitude, de um vácuo que parece sempiterno? Como sorrir segurando um corpo desfalecido, um cadáver?

Os animais que matamos, seja para consumo, ou outro tipo de uso ou até mesmo nenhum, não existem ou existiram sozinhos – eles vieram de algum lugar, de alguém. Têm ou tiveram mães, pais, irmãos, irmãs – todo um contexto social, já que não apenas nós humanos somos seres sociais, mas animais de muitas outras espécies também. E mesmo que não tivessem ninguém, e vivessem no mais pleno ostracismo, ainda assim não teríamos tal direito de privar-lhes da vida.

Não tão raramente quanto eu gostaria, um sujeito está junto a um animal morto, o sangue daquela criatura desfalecida ainda quente em contato com a sua mão, mas ele está em frenesi; tão imerso no desconhecimento, no obscurantismo e na ignorância que nem se dá conta de que a sua satisfação e o seu prazer estão associados à morte. E deveria a morte violenta, coercitiva e indesejada ser associada às coisas boas da vida? Como podemos vincular violência e tortura de vulneráveis ao prazer? Deleite? Contentamento?

Deveríamos sorrir quando matamos animais simplesmente porque queremos e podemos? Talvez seja a valiosa lição de que há vidas que podemos suprimir, destruir, exterminar sem qualquer prejuízo consciencioso ou moral? Deveríamos comemorar? Vibrar? Mesmo nos casos em que um animal é apontado como um problema, o ser humano opta sempre pela solução mais fácil – que é exterminá-lo o mais rápido possível. “Matemos e está resolvido!” Não se fala em alternativas, porque alternativas “custam caro”, e vidas não humanas valem pouco.

Nesse aniquilamento ignora-se o fato de que quem morreu não queria morrer – mas apenas viver à sua maneira, não importando conceitos confusamente abstratos ou a racionalização humana da felicidade ou da tristeza. Há quem diga que matamos determinadas espécies porque esse é o papel delas, assim como outros alegam que matamos específicas criaturas porque essas tornaram-se “pragas”.

Se o papel delas é esse por que nasceram sencientes, e até mesmo com níveis distintos e equiparáveis de consciência e inteligência? Com habilidades sociais. Não seriam características a serem consideradas moralmente? Que indicam que assim como nós não partilham do desejo pela morte precoce? Além disso, diante de tanto impacto que causamos ao mundo em proporções desmedidas e pouco refletidas há milhares de anos, e mais visceralmente há centenas de anos, será que temos o direito de chamar qualquer espécie de pinima, de praga?

 





Podemos falar sobre os direitos dos animais?

with one comment

“Podemos começar reconhecendo que o fracasso moral do moderno consumo de carne não é o fim da história”

Gottlieb: “quando você pede uma deliciosa vitela à parmegiana em um chique restaurante italiano, você está consumindo a carne de um ser vivo que foi confinado em uma gaiola tão pequena que mal podia se mover” (Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals)

Em 2014, o filósofo Roger S. Gottlieb, professor de filosofia do Instituto Politécnico de Worcester, em Massachusetts, e autor de 18 livros, incluindo obras sobre filosofia política e crise ambiental, publicou pelo Harvard Divinity Bulletin, um dos boletins da Universidade Harvard, um artigo intitulado “Can We Talk (about Animal Rights)?”.

No texto, Gottlieb apresenta assuntos bastante controversos que envolvem a discussão dos direitos dos animais, como o uso de animais para as mais diferentes finalidades – como consumo e experimentação animal, e defende que nenhuma mudança é possível se não estivermos dispostos a entender ou reconhecer as implicações de nossas ações para os animais não humanos.

O objetivo do filósofo claramente não é oferecer respostas, mas propor reflexões inclusive conflitantes sobre o nosso papel no mundo a despeito das nossas relações com seres não humanos – inclusive evidenciando argumentos de perspectivas contrárias aos direitos dos animais. No decorrer do artigo, Roger. S Gottlieb enfatiza que se uma pessoa age com indiferença em relação ao sofrimento dos animais, inclusive com escárnio, isso não significa que ela seja incapaz de compreender essa realidade ou mudar, mas que talvez agora a mudança não seja moralmente possível.

Na sua perspectiva, o entendimento da realidade da exploração animal depende de uma reflexão profunda e da aptidão para um diálogo horizontal, que deve partir tanto por parte de quem instiga a reflexão quanto de quem é convidado a toma parte nela: “Uma conversa verdadeiramente moral. Parece necessário nos abrimos para o que a outra pessoa está dizendo e tentar encontrar o máximo possível de verdade.” Segundo o autor, não importa o quão correta seja uma afirmação moral, se a humanidade não estiver pronta para aceitar a sua verdade, ela não terá consequências sociais:

Os animais sofrem por muitas razões: eles congelam até a morte em invernos rigorosos, são despedaçados por predadores, envelhecem e passam fome porque não conseguem mais caçar. Se você colocar uma música bem triste nesse cenário, enquanto testemunhamos esses momentos, sem dúvida, muitos olhos se encherão de lágrimas. Mas essas lágrimas são facilmente remediadas por um momento de reflexão sobre os intermináveis e necessários ciclos da vida e da morte.

Existem outras formas de sofrimento que não diminuem tão facilmente. As aves marinhas cobertas de óleo, a raposa presa na armadilha de um caçador – roendo a própria perna na tentativa de fugir; as longas e longas filas de bois e vacas esperando para serem espancados e terem suas gargantas cortadas; os milhões de camundongos a serem usados, sabe lá Deus para qual finalidade, incluindo aqueles que foram cientificamente e geneticamente modificados para desenvolverem câncer (chamados de onco-camundongos). Sem mencionar espécies inteiras, milhares delas, morrendo porque os humanos dominaram ou contaminaram o seu habitat, ou trouxeram espécies exóticas contra as quais eles não desenvolveram defesas, ou simplesmente foram comidos em grandes quantidades.

O que acontece quando olhamos para a dor deles? Muitas vezes, nada de mais, porque a maioria de nós não se preocupa em olhar. Ou, se o fizermos, o que vemos é uma abstração: x milhões de mortos em experimentos, x milhares de espécies perdidas. Se olharmos com cuidado, dispostos a aceitar quaisquer sentimentos que surjam, como por exemplo no caso dos ursos populares forçados a canibalizarem uns aos outros porque o aquecimento global derreteu tanto gelo que eles não podem mais caçar. Olhe para eles – magníficas criaturas com pelos espessos e brancos, incrivelmente adaptados a suportarem o gelo glacial e à neve, em casa e mesmo no mar. São mães que protegem seus filhos jovens e brincalhões dos poderosos caçadores de focas. Esses animais estão morrendo, não de velhice nem na luta contra predadores ou pela liderança de um rebanho, mas porque nós estamos matando eles através do aquecimento global e da imprudente caça esportiva. Há toxinas feitas pelo homem que se acumulam em suas carnes.

A questão é que não é apenas o sofrimento individual dos ursos polares que chegam até nós, ou mesmo a perda potencial dessa espécie majestosa. Tudo isso é sobre como é difícil olharmos para nós mesmos. Para salvar o urso polar, os grandes felinos e os bovinos nos matadouros, o quanto teríamos que mudar? Quanto da nossa economia, cultura e vida familiar? Quantas leis teríamos que aprovar? Quantos encontros de Ação de Graças seriam ou teriam um sabor diferente? Teríamos que desistir do nosso sonho de infindável expansão econômica a fim de deixar algum espaço para outras espécies? Teríamos que convencer todos os nossos camaradas que um tofu grelhado pode ser tão bom quanto um bife grelhado? Teríamos que dizer que todo o empreendimento humano dos últimos dez mil anos – buscando cada vez mais poder, riqueza, controle, conhecimento técnico e posses – deveria (profundamente, seriamente e essencialmente) ser contido?

Entre a intensidade da dor que sentimos, a culpa pela nossa própria cumplicidade, e a aparente impossibilidade de que todos nós teríamos que mudar, ficamos em uma posição moral difícil. Sentimos culpa por nós mesmos e raiva contra “os outros” que “não entendem isso”. A necessidade de por em prática algo que “fazer tudo parar” e a certeza de que não podemos. Uma vida que já parece suficientemente difícil, mas à qual esses “tipos dos direitos dos animais” querem acrescentar mais preocupações, problemas e coisas para nos incomodar.

Não há saída para esse conflito e confusão. Isto é, de maneira nenhuma isso levará a uma simples solução dos problemas, ou a uma maneira universalmente aceita de pessoas de lados opostos se unirem para terem uma conversa moral calma, racional e agradável. A verdade é que temos sentimentos extraordinariamente poderosos sobre esse assunto, e essas respostas podem se traduzir em intuições morais muito fortes. Essas instituições antagônicas podem ser resumidas da seguinte maneira:

Instituições de ativistas dos direitos animais. Os animais sofrem, como nós. Eles amam seus companheiros e filhos, brincam na grama e brigam entre si. Eles se deleitam em voar através do céu de madrugada, correr pela floresta, ruminar. E apesar do ocasional momento em que eles machucam as pessoas, eles são praticamente indefesos contra nós. E pense em quanto sofrimento lhes causamos: em laboratórios, em fazendas, nos frigoríficos. Se você realmente olhar para eles, ouvir seus gritos, tomar para si suas feridas, como poderá continuar fazendo isso com eles?

Instituições que priorizam o ser humano. Pessoas são mais importantes que os animais. Elas apenas são. Além disso, a vida já é bastante difícil – se eu quiser um bife ou um pedaço de frango frito, eu terei. Tem um gosto realmente bom. E a ideia de que algum rato ou pombo tem direitos é simplesmente ridícula. As pessoas precisam de alimentos. A ciência precisa de animais de laboratório. Pessoas do mundo todo estão famintas e doentes, e você quer que eu me preocupe com uma vaca ou um rato? Caia na real. Se você quiser enlouquecer com isso, tudo bem. Mas deixe o resto de nós em paz. A maioria das pessoas, a maior parte do tempo, vai usar os animais para qualquer coisa que elas queiram. Isso nunca vai mudar.

As coisas poderiam ser amenizadas se todos nós pudéssemos apenas “concordar em discordar”. Por que cada um de nós não pode se dar bem com pessoas que têm opiniões diferentes sobre comer carne, usar animais em experimentos ou sobre a quantidade de espaço que um bezerro deve ter em sua jaula antes de ser abatido? No entanto, isso não daria certo, porque, querendo ou não, se uma determinada e particular “diferença” é permitida, isso já é parte do problema em si. Como indivíduos, como sociedade, temos que desenhar linhas: entre diferenças que são uma questão de gosto (como um guarda-roupa realmente ruim) e diferenças que o colocarão na cadeia (como abusar de seus filhos). Embora a opção pela tolerância às diferenças seja certamente uma opção possível, os direitos animais e os cuidados com os animais podem não ser um problema de tolerância.

Ao mesmo tempo, ainda que pensemos que nossos pontos de vista são tão moralmente corretos que as pessoas do outro lado não nos pareçam apenas diferentes, mas erradas – e tão erradas que o que elas fazem deveria ser ilegal e considerado um ultraje antiético –  seja lá qual for o lado em que estamos, ainda devemos ponderar que há muitas pessoas do outro lado. Se vamos nos relacionar moralmente – pensar naqueles do outro lado como agentes morais que merecem respeito por suas escolhas, assim como nós fazemos, é importante pelo menos para tentarmos nos entender, Além do mais, tal entendimento pode nos levar a um pouco de terreno comum.

Quando os pontos de vista têm uma aceitação ampla e de longa data – como a superioridade humana, consumo de carne e a exploração científica de animais – temos de levá-los a sério em seus próprios termos. Similarmente, quando tantas pessoas são vegetarianas morais, ou se opõem ao uso de animais na ciência, não funciona descrevê-los como hippies excessivamente sentimentais. Se um dos lados for desconsiderado logo no começo, as tentativas de comunicação, ou mesmo de compreensão, dessas diferentes pessoas estarão condenadas desde o início. E onde isso nos deixaria? Uma conversa verdadeiramente moral. Parece necessário nos abrimos para o que a outra pessoa está dizendo e tentar encontrar o máximo possível de verdade.

Primeiro vamos reconhecer que nos relacionamos com os animais de muitas maneiras diferentes. Considere: usamos animais como alimento, para o trabalho e para experimentos científicos. Há animais de estimação, animais selvagens e animais de zoológico. Os animais são presas de caçadores, sacrifícios para algumas religiões e companheiros para os cegos. Como podemos entender todos esses diferentes contextos? Não vou oferecer uma regra simples e universal. No entanto, podemos comparar dois contextos muito diferentes e ver como as diferenças afetam nossas respostas.

Aqui está o primeiro cenário: quando você pede uma deliciosa vitela à parmegiana em um chique restaurante italiano, você está consumindo a carne de um ser vivo que foi confinado em uma gaiola tão pequena que mal podia se mover, e foi mantido por muito tempo no escuro para que sua carne empalidecesse, sem qualquer companhia (o que é necessário, sendo ele um animal social) e, para preservar a delicadeza do gosto de sua carne, nunca foi alimentado sequer com a comida sólida que seu organismo naturalmente requeria.

Claramente, existem todos os tipos de razões culturais para continuar comendo vitela à parmegiana – que tem sido uma iguaria por muito tempo. E tem um ótimo sabor. As pessoas ganham a vida criando, cozinhando e servindo vitela. No entanto, se você se inclinar na direção dos direitos animais, como eu faço, pode parecer muito fácil descartar todas essas defesas em relação à carne de vitela – apontando [inclusive] que a escravidão foi culturalmente apoiada e que as pessoas ganharam dinheiro com o Holocausto. Mas a grande maioria das pessoas simplesmente não equipara gaiolas para bezerros com campos de concentração, então, ao comparar o tratamento dado aos animais aos horrores que humanos infligiram uns aos outros pode ser moralmente válido, mas pode não parecer para muitas das pessoas que você precisa convencer disso.

Mas é muito difícil entender o modo como os bezerros são criados sem dizer que a dor dos animais é moralmente insignificante. Essa posição é uma espécie de antropocentrismo ortodoxo: as pessoas são o centro de todas as coisas e os seres na periferia disso tudo não contam muito. Curiosamente, até mesmo as pessoas que creem nesse tipo de coisa geralmente não acreditam nisso completamente; e é essa falta de completude que deixa uma abertura para a outra perspectiva. Por exemplo: um bom número de consumidores de vitela à parmegiana (ou servidores) sem dúvida têm seus próprios animais de estimação favoritos que não sonham em tratar da maneira como os bezerros são tratados: animais cujo bem-estar, felicidade e prazer contam para alguma coisa. Nisso há uma inconsistência fundamental que cria um profundo buraco lógico do qual é muito difícil sair.

Então, quando olhamos para a vitela – e, na verdade, para o consumo de carne em geral – o que temos é uma prática social profundamente arraigada que é, quando examinada, sem qualquer justificativa moral. O que o consumidor de vitela pode dizer em resposta? Não muito, e é por isso que sua resposta geralmente é o riso, o desprezo, o ato de ignorar a verdade, isso quando não assistem os filmes sobre as fazendas industriais e os matadouros e dizem: “Isso é apenas como as coisas são feitas aqui”, e repetem: “Isso tem um gosto bom”, como se isso fosse razão suficiente para continuar comendo. Geralmente, há muita atitude, mas pouca discussão. Se o feliz consumidor de carne não quiser se envolver seriamente com as alegações de um defensor dos direitos animais, o que devemos fazer?

Bem, podemos começar reconhecendo que o fracasso moral do moderno consumo de carne não é o fim da história. Há muitas coisas que fazemos que não se somam moralmente. Certamente tenho minhas próprias fraquezas éticas. De fato, todo ativista dos direitos animais vive de uma maneira que prejudica os animais. Esses ativistas dirigem seus carros [elétricos] que se ligam à rede elétrica, contribuindo com o aquecimento global que erradica inúmeras espécies. Até mesmo sua dieta totalmente vegana envolve agricultura em grande escala que promove o deslocamento de animais. E quando seus filhos estão doentes eles não rejeitam medicamentos “fora de princípio” que foram desenvolvidos por meio de testes em animais.

Uma das coisas que distingue a ética em uma época de aquecimento global é que não podemos deixar de ser parte do problema. Certamente seremos [problematicamente] menos importantes se deixarmos de comer produtos de origem animal e nos recusarmos a comprar produtos que foram testados em animais. Mas enquanto integrarmos essa sociedade, estaremos nesse limite.

E a triste verdade é que muitas pessoas que apreciam profundamente os animais podem, ao mesmo tempo, ser indiferentes a outras pessoas e a outras preocupações morais importantes. Elas podem pensar e falar com humanos que comem animais com ódio e violência verbal. Elas podem se refugiar em um senso reconfortante de superioridade, analisando incessantemente o inventário moral das falhas de todos os outros enquanto nunca examinam seriamente as suas próprias falhas.

Essa linha de pensamento não elimina as tensões entre os “dois lados”. No entanto, permite que o ativista dos direitos animais, crítico moralmente, se aproxime do seu adversário com uma postura menos arrogante e mais modesta. Poderíamos também ser capazes de ver que uma melhora parcial é melhor do que nenhuma melhora. Em alguns países, houve um acordo sobre restrições legais sobre como você pode criar carne de vitela e em outros assuntos relacionados a animais também. Se essas novas leis não são o suficiente para o vegetariano moral, entendo completamente. Mas a vida moral é, muitas vezes, talvez tipicamente, não um caso de “suficiência”. Geralmente é, na melhor das hipóteses, um caso de “buscar melhorias”.

Agora vamos considerar um segundo cenário: seu filho nasceu com fibrose cística (FC), uma condição genética geralmente fatal em que a ausência de uma enzima leva a problemas pulmonares e digestivos. Enquanto isso costumava significar uma morte prematura para todos os portadores, pesquisas recentes permitiram que muitos vivessem por seus 30 e 40 anos.

Se fosse seu filho, condenado a uma vida de infecções pulmonares frequentes, ciclos de tosses aparentemente intermináveis, e um tratamento contínuo de fisioterapia respiratória para limpar o muco de FC distintamente espesso e imutável, você se importaria com quantos animais de laboratório estão morrendo na busca pela cura? Ou mesmo na busca de um tratamento que permitirá ao seu filho ter uma vida um pouco mais longa e tolerável? Em 40 anos, a idade média de portadores de FC passou de dez para 37. É isso que você está contando, não o número de ratos que foram usados para desenvolver tratamentos e, potencialmente, uma cura para o seu filho.

Se comer carne, em especial vitela, é uma imoral autoindulgência, o uso de animais para pesquisas para curar doenças mortais é outra coisa. Aqui temos o que pelo menos parece ser uma escolha clara: permitir que uma criança sofra e morra jovem, ou faça o que precisa ser feito pelo humano às custas dos animais. Se você é esse pai – ou a própria criança – você acha que vai dar mais atenção aos relatos sobre o sofrimento animal?

É claro que o defensor dos direitos animais pode simplesmente dizer que não há razão para preferir o humano ao animal, ou levantar questões de grau e escopo. Além disso, e mais poderosamente, pode-se argumentar que usar animais para pesquisa custa dinheiro, e que o dinheiro para os cuidados de saúde é limitado e que há muitas outras coisas que podemos fazer com esse dinheiro que são boas para a saúde das pessoas e não envolvem crueldade contra os animais. Podemos melhorar o meio ambiente para que menos pessoas tenham câncer em decorrência da poluição; podemos ensinar as pessoas e terem melhores hábitos de saúde; para que as doenças que surgem a partir dos seus estilos de vida diminuam; podemos encorajar as pessoas a não comerem alimentos de origem animal, uma vez que contribuem muito para o surgimento de problemas de saúde. Essas medidas não prejudicarão os animais; na verdade, elas ajudarão tanto os animais quanto as pessoas, uma solução vantajosa para todos.

No entanto, mesmo os melhores regimes ambientais e toda uma população fazendo ioga, meditando e comendo apenas saladas, arroz integral e lentilhas cozidas não acabarão com problemas genéticos de saúde como a FC. Ainda teremos o pai desesperado e a criança doente, pessoas com uma doença terrível e os animais cujas vidas desejaremos sacrificar para encontrar melhores tratamentos.

Talvez, mais uma vez, a única abordagem com uma chance razoável de sucesso seja tentar melhorar as coisas. Primeiro, pare com todos os estúpidos, inúteis e insanos experimentos com animais: os que jogam cosméticos nos olhos dos coelhos até ficarem cegos, ou que esmagam as cabeças dos macacos em paredes para confirmar se cabeças esmagadas contra uma parede ferem o cérebro; ou aquele teste de quanto tempo leva para os animais enlouquecerem, sujeitando-os aleatoriamente a choques elétricos.

E quanto aos experimentos de fibrose cística? Bem, talvez pudéssemos concordar em falar sobre eles mais tarde. Há muita coisa que pode ser feita para limitar ou eliminar experimentos com animais antes de pararmos a pesquisa destinada a curar doenças letais. Em uma vida moral, muitas vezes nos deparamos com escolhas difíceis. Às vezes, essas são escolhas realmente falsas, e devemos nos certificar de que sabemos quem ou o que disse: “Escolha entre A e B.”

Talvez haja uma opção C que funcione para todos nós – como as medidas de saúde holísticas e preventivas descritas acima. Ainda assim, às vezes, e infelizmente, há casos em que não há saída para alternativas dolorosas. Nós ainda teremos que lidar com a dor nesta vida, assim como todos os outros, e nenhuma quantidade de bondade moral jamais levará isso embora. Tipos que defendem “Eu posso fazer qualquer coisa que eu quiser com os animais” têm seus próprios animais de estimação, assim como há defensores dos direitos animais que têm seus filhos e outras pessoas que privilegiariam em vez dos animais. Essa é uma das razões pelas quais essa questão dos experimentos com animais é muito difícil, e exatamente onde um acordo entre diferenças reais pode ser alcançado.

A verdade prática de qualquer reivindicação moral – direitos dos animais, das mulheres, casamento gay, e o que devemos às pessoas que passam fome – é tão poderosa quanto o nível de desenvolvimento moral das pessoas com quem estamos conversando. Não importa quão correta seja uma afirmação moral, se a humanidade não estiver pronta para aceitar a sua verdade, ela não terá consequências sociais. Pode ser que, de acordo com o pleno respeito pelos animais, isso seja apenas algo que não é psicologicamente e, portanto, moralmente possível agora. A cada minuto de cada dia a nossa civilização pode de fato estar cometendo crimes monstruosos, e talvez os angustiados e “extremistas” gritos dos ativistas dos direitos animais são exatamente o que precisamos para despertar. No entanto, suspeito que, neste caso, quaisquer mudanças que façamos serão necessariamente graduais, mais baseadas na compreensão silenciosa e em lentas e moderadas melhorias do que em rejeições morais por atacado.

Provavelmente, alguns ativistas dos direitos animais, e talvez até mesmo os próprios animais, pensem que isso é uma desculpa covarde diante do massacre em massa. Mas devemos lembrar que a longa luta pela igualdade social e legal das mulheres está longe de terminar; e enquanto os escravos foram libertados em 1865 [nos Estados Unidos], mais de um século depois, os afro-americanos ainda lutavam por direitos civis básicos. Com todas as mudanças importantes que ocorreram, é difícil saber quanto foi conquistado através de raiva, violência verbal e leis coercivas, e quanto foi conquistado pelo paciente trabalho de conversação moral – em que fazemos o melhor que podemos para entender o “outro”, apesar do amargo desacordo. Talvez refletir sobre essa história nos ajude a ficar um pouco satisfeitos com ganhos limitados que tornam a vida um pouco melhor, em vez de nos apegarmos com raiva e amargura a um ideal impossível [em curto prazo]. Goste ou não, grandes mudanças são lentas.

Enquanto isso, aqueles de nós que prestam atenção [a essa realidade], podem pelo menos reconhecer o quanto isso nos incomoda. Podemos nos lamentar em relação aos limites morais de outras pessoas, sabendo que por nós mesmos já temos muitos limites. Podemos nos perguntar qual é a diferença entre o golden retriever que dorme em nossa cama à noite e o bacon que comemos no café da manhã. E se estamos realmente dispostos a sentir toda a gama e intensidade de nossas emoções sobre os nossos primos animais, na tentativa de assimilar a sua dor e a nossa responsabilidade sobre isso, e desenvolver a compaixão por eles e ao mesmo tempo por nossos companheiros humanos, quem sabe no que isso pode resultar? Não o suficiente, com certeza. Mas claramente o suficiente para fazer a diferença.

Referência

Gottlieb, Roger S. Can We Talk (about Animal Rights)? Harvard Divinity Bulletin. Harvard University (2014).





Imagine um mundo onde as pessoas não dessem a mínima para coisas

without comments

Arte: Habitat For Humanity

Imagine um mundo onde as pessoas não dessem a mínima para coisas, ou pelo menos não as exaltassem em demasia ou atribuíssem valor acima da vida, porque coisas são basicamente o que são – em muitos casos, produtos aos quais atribuímos mais valor pelo que nos custam, pela exceção, pelo distanciamento que existe entre elas e os outros, do que pelo que são em um sentido funcional ou mesmo hedonista.

A ausência de distinção baseada no poder econômico ou no “acúmulo de coisas que não são acessíveis para uma maioria” possivelmente exigiria um esforço intelectual para se destacar, levando em conta que platitudes como “o que eu tenho que você não tem” não chamaria mais a atenção, e simplesmente porque o ter, materialmente, talvez fosse relegado à insignificância, ou pelo menos à adiáfora.

E neste contexto o ser precisaria estar em constante evolução, ao contrário do ter, que não exige evolução moral de ninguém, caso a pessoa não queira. Prova disso são pessoas que nascem em um ambiente de grande poder econômico, e de repente, optam por não fazer nada no decorrer da vida a não ser gastar dinheiro para ocupar o tempo, desconsiderando todo o resto.

Há também pessoas com muito dinheiro que tendem a considerar seus chamados esforços, envolvam eles atividades ilícitas ou não, desrespeito ou não à vida e a dignidade humana e não humana, como sendo únicos, singulares, e por isso devem ser recompensados de forma dissemelhante, mesmo que isso signifique uma diferença do tipo: “O que você jamais ganhará a vida toda eu ganho em uma semana”. “Eu fiz o que você não seria capaz de fazer. Por isso estou onde deveria estar, onde não é o seu lugar.”

“Porque o meu esforço é muito maior que o seu, sou muito mais inteligente que você, então mereço, de fato, ganhar muito mais que você; e a você resta me servir, mesmo que para isso tenhamos que criar um simulacro de evolução para evitar que você ache que sua vida não está melhorando.” Em síntese, uma sutil estagnação oscilante. “Afinal, porque isso é o que cabe à sua limitada competência que está sempre longe de se igualar à minha”, diriam.

Muitas das mazelas que existem no mundo estão intrinsecamente relacionadas ao fato de que muitos daqueles que têm poder encaram sua força e distinção econômica como uma forma de certidão de superioridade, e o mundo diz que eles estão certos, por mais que leis que não valem na prática tentem informar o contrário. Porque leis são fundamentadas na plasticidade. Existem mais para parecer do que para ser.

Infelizmente, até mesmo entre os mais miseráveis há aqueles que não gostariam de um mundo justo, de igualdade; logo jamais lutariam por isso se desejam ocupar a posição daqueles que “estão no topo”, sejam eles criminosos ou não. Claro, porque a sua inexistência é uma consequência natural do que você não possui, segundo a perspectiva comum. Então perpetua-se a crença de que existirei à medida do que terei.




Written by David Arioch

April 22nd, 2018 at 8:53 pm

Tom Regan: “Os direitos animais nos levam a fazer um inventário moral de nossa maneira de viver no mundo”

without comments

“Coloco-me entre aqueles que acreditam apaixonadamente nos direitos animais. Mas minha crença apaixonada não flui da emoção cega”

Em “Animal Rights”, Human Wrongs”, Regan usa como referência a filosofia que rege os direitos humanos como ponto de partida para a discussão dos direitos animais (Foto: Reprodução)

Em 2003, um ano antes do filósofo moral Tom Regan, referência na discussão dos direitos animais, lançar o livro “Empty Cages: Facing the Challenge of Animal Rights”, ele publicou um livro intitulado “Animal Rights, Human Wrongs – An Introduction to Moral Philosophy”. Esta obra de introdução à filosofia moral foi apontada por Regan como a que abriu o caminho para o seu trabalho lançado no ano seguinte. Por isso, é justo dizer que “Empty Cages”, lançado no Brasil como “Jaulas Vazias” em 2006, é uma continuidade das discussões de “Animal Rights, Human Wongs”, mas com duas distinções substanciais. Enquanto o livro de 2003 fala quase que restritamente à razão, o segundo, que tem um escopo mais abrangente, clama também ao coração. Sendo assim, para quem já leu uma das obras, ler a outra permite uma compreensão complementar da perspectiva moral de Regan em relação aos animais que objetificamos, matamos e consumimos para atender supostas necessidades.

Em “Animal Rights”, Human Wrongs”, Regan usa como referência a filosofia que rege os direitos humanos como ponto de partida para a discussão dos direitos animais. O filósofo aborda questões bastante controversas envolvendo o contratualismo de Thomas Hobbes, John Locke e Jean-Jacques Rousseau; e o utilitarismo gestado por Jeremy Bentham e John Stuart Mill. Pode-se dizer que “Animal Rights, Human Wrongs” é um livro com orientações, e características de guia, que perpassam pela realidade, história, equívocos morais e o ideal posicionamento moral em relação aos seres não humanos. Tom Regan oferece respostas e reflexões para questões complexas e até hoje altamente discutíveis em relação à intransigência humana no tratamento destinado a seres não humanos.

A obra, que de certa forma celebrou os mais de 30 anos do envolvimento de Regan com os direitos animais, também pode ser interpretada como um manual sobre como discutir sobre os direitos animais sem deixar-se vencer pelos arroubos da passionalidade – algo que pode impedir que defensores dos direitos animais consigam transmitir uma mensagem eficaz contrária à exploração animal na perspectiva do filósofo.

Logo no prefácio do livro, o autor diz que algumas pessoas, incluindo ele, são apaixonadas pela convicção de que muitos animais não humanos têm direitos; já outras não são menos apaixonadas pela convicção de que eles não os têm:

“A atmosfera emocionalmente carregada em torno dos partisans de ambos os lados é reminiscente de outras questões morais controversas – aborto e ação afirmativa, por exemplo. Para aquelas pessoas (a grande maioria, por acaso) que não têm fortes convicções em relação aos direitos animais, de uma forma ou de outra, é difícil saber o que pensar.”

Registrado isso, Regan busca orientar aqueles que têm muitas dúvidas sobre como lidar principalmente com opositores aos direitos animais, que frequentemente descrevem os defensores desses direitos como irracionais, emocionais, anticientíficos e misantrópicos. Segundo Regan, essas caracterizações ou estereótipos podem ser verdadeiras para alguns, mas elas não são verdadeiras para a grande maioria dos defensores dos direitos animais.

“A estratégia [do livro] é simples. Fazemos perguntas difíceis, exploramos as possibilidades relevantes e procuramos as melhores respostas. Então vemos onde essas respostas nos levam.[…]  Quando seguimos essa estratégia, acredito que a lógica nos leva a uma conclusão simples: muitos animais não humanos têm direitos. Alguns dos desafios que enfrentamos surgem na teoria moral.”

Primeiro o livro apresenta um referencial de ideias fundamentadas em diferentes filosofias morais; e nas nossas relações com essas ideias. Então utiliza esses parâmetros como um arcabouço para as questões que são desenvolvidas e elencadas no decorrer do livro, mas principalmente nos últimos capítulos. Até porque Regan entende que não há como gerir boas respostas se não considerarmos a base e as motivações que dão origens às perguntas, mesmo que nos pareçam picarescas ou provocativas.

“Animal Rights, Human Wrongs” está dividido nos capítulos “Da indiferença à Defesa”, “Exploração Animal”, “A Natureza e a Importância dos Direitos”, “Visões Indiretas do Dever”, “Visões Diretas do Dever”, “Direitos Humanos”, “Direitos Animais”, “Objeções e Respostas” e “Filosofia Moral e Mudança”. Partindo de um princípio introdutório à filosofia moral, Tom Regan cita que naturalmente teóricos morais fazem com frequência dois tipos de perguntas: “O que torna certos atos certos?” e “O que faz com que os atos errados sejam errados?” Afinal, teorias diferentes oferecem respostas diferentes.

“Apesar dessas diferenças, toda teoria tem algo a dizer sobre quem tem posição moral (que conta moralmente). Por exemplo, algumas teorias morais dizem que todos e apenas os seres humanos têm uma posição moral. Se for verdade, a notícia não é boa para animais não humanos. Se for verdade, os animais não humanos não contam para nada moralmente”, cita Regan partindo de uma comum perspectiva antropocêntrica que ele teve de confrontar ao longo de sua carreira em oposição a filósofos que não reconheciam e não reconhecem os direitos dos animais.

Por outro lado, há teorias morais, incluindo a defendida por ele, que dizem que todos os seres sencientes (capazes de sentir prazer e dor) têm uma posição moral. Claro, sendo verdade, esses animais contam moralmente. “Não pode ser verdade que somente os seres humanos tenham uma posição moral”, enfatiza Regan que introduz o leitor ao entendimento do que são os direitos morais, e por que até hoje os seres humanos têm direitos morais embora não os outros animais.

Ele faz isso de forma a permitir que o leitor tire suas próprias conclusões. Ademais, levanta questões envolvendo certo e errado enquanto posição moral, e defende que quanto mais nos deparamos com dúvidas, críticas e argumentos contrários aos nossos mais fortalecemos a nossa filosofia moral em relação aos direitos animais e também a outras questões:

“Nossa exploração dos direitos dos animais, em particular, serve como uma introdução à filosofia moral em geral. A filosofia moral não é apenas teoria; é repleta de significado prático. Isso significa que, além de fazer perguntas teóricas, também precisamos fazer perguntas práticas, incluindo essa em particular: Que diferença faz se os animais têm ou não direitos morais? Como vemos, não há questão mais importante, julgada do ponto de vista dos animais. Se os animais não têm direitos, então nenhuma das maneiras pelas quais os seres humanos os exploram (como fonte de alimento ou roupas, por exemplo) é errada em princípio, e nenhuma necessidade errada deve ser criada se continuarmos a explorá-lo dessa maneira em um futuro indefinido. Por outro lado, se os animais têm direitos, então todas as formas de exploração deles são erradas, em princípio, e cada uma delas deve ser interrompida imediatamente.”

Para entender a importância dos direitos animais, Regan sugere que as pessoas julguem isso do ponto de vista dos animais, porque neste caso a preocupação é elevada à condição primária: “Também não devemos minimizar a importância dessa questão para nós. Se os direitos dos animais são violados quando eles são criados para a produção de alimentos, presos por causa de suas peles ou usados como instrumentos em pesquisas, então temos o dever de mudar a maneira como vivemos, os alimentos que comemos (ou não comemos) e as roupas que vestimos (ou não vestimos).”

De acordo com Tom Regan, nada reflete melhor a maneira como absorvemos e entendemos a moral do que a prática de nossas vidas diárias. No chamamento à discussão moral em relação ao direito à vida não humana, ele discorre sobre questões como aborto e suicídio assistido por médicos como ações de grande significado prático:

“Em contraste, a questão dos direitos animais nos obriga a perguntar o que devemos fazer quando nos sentamos para a nossa próxima refeição ou quando vamos comprar um casaco novo. Os direitos animais são um tipo de investigação que nos leva a fazer um inventário moral de nossas escolhas mais comuns, nossa maneira de viver no mundo. Como eu disse no início, coloco-me entre aqueles que acreditam apaixonadamente nos direitos animais. Mas minha crença apaixonada não flui da emoção cega ou da falta de respeito pela razão, quanto mais pela misantropia. Acredito nos direitos dos animais porque acredito que a teoria moral na qual seus direitos são afirmados é racionalmente uma teoria mais satisfatória do que aquelas teorias em que seus direitos são negados.” Em “Animal Rights, Human Wrongs”, talvez a pergunta mais importante seja: “Como podemos viver uma vida que respeite os direitos dos outros animais?”

Referência

Regan, Tom. Animal Rights, Human Wrongs. Rowman & Littlefield Publishers. 144 páginas (2003).





Por que a exploração de animais está na contramão da justiça social

without comments





 

Não, realmente não está tudo bem em explorar animais

without comments

Animais não humanos também compartilham desse interesse em não morrer (Foto: Jan van IJken)

De acordo com a interpretação clássica do direito, basicamente os animais não têm direitos, enfatizou um camarada, referindo-se à nossa Constituição que realmente não assegura direitos aos animais. Sim, de fato, o que temos são leis subjetivas (alguns podem interpretar como limitadas, dúbias, capciosas ou falhas) de proteção aos animais contra a crueldade, o que em si é uma contradição em essência, já que a exploração animal, praticada neste momento contra milhões de animais só no Brasil, é um ato de crueldade em si – levando em conta dois fatores – a exploração precoce que culmina em morte precoce, ou a exploração precoce prolongada que também culmina em morte. A morte em si é um ato de crueldade refletido nos olhos da vítima que não quer ceder.

— Mas se a lei diz que não é crime explorar esses animais na indústria frigorífica ou leiteira, significa que está tudo dentro da lei, dentro do senso de justiça ocidental, logo não há nada de errado nessa prática.

— Realmente, mas todas as suas ações se sustentam em parâmetros legais? Quero dizer, se a lei não diz que alguns de nossos atos não são criminosos, então devemos cometê-los? Sabemos que tudo que é ilegal é considerado errado, mas nem tudo que é errado é considerado ilegal. Se bato em um carro parado de madrugada e fujo, posso escapar da punição caso não haja nenhuma testemunha, mas a minha inclinação moral me impede de desaparecer sem dar satisfação ou me predispor à reparação. Assim como uma pessoa pode esquecer uma carteira ao meu lado, eu poderia pegá-la, guardar no bolso e ir embora. Mas eu não faria isso. Por quê? Porque reconheço que é errado. Entendo as implicações disso para o outro, me coloco em seu lugar. Uso a mesma baliza moral quando se trata de animais explorados diuturnamente como fontes de matéria-prima, alimentos e produtos. Sim, eles não são como nós, mas são seres viventes e sencientes que, de maneira diversa, expressam interesse em não sofrer ou morrer.

— Mas, mais cedo ou mais tarde, eles morrerão de qualquer forma.

— Você tem razão, mais cedo ou mais tarde, eu também morrerei de qualquer forma, mas nem por isso você me vê oferecendo o pescoço para ser degolado. Animais não humanos também compartilham desse interesse em não morrer. Sendo assim, não, realmente não está tudo bem em explorar animais.

— Tudo bem, mas o próprio Aristóteles foi uma grande influência para a base moral cristã ocidental, e ajudou a endossar o uso de animais. Quero dizer, ele rejeitava a ideia da racionalidade animal, pesando contra os animais a concepção da “racionalidade matemática”, que o levava a ver os animais como sujeitos sem qualquer direito que justificasse não consumi-los ou usá-los.

— Sim Aristóteles fez isso, e teve influência inegável sobre o antropocentrismo. Mas ao citar Aristóteles, você desconsidera Pitágoras, Plutarco, Plotino, Empedócles, Platão, Teofrasto, Apolônio de Tiana, entre outros da Grécia Antiga que, embora divergissem em alguns aspectos, convergiam para a questão moral da vida não humana em algum nível. É importante não ignorar que a moralidade e a ética independem da legalidade, porque versam sobre o que clama à integridade e à virtude humana. É sobre quem você é como sujeito que reconhece o êthos de suas ações para além do que lhe é concernente. Ou seja, há a prática e o reconhecimento de uma atribuição de valor, e é isso que fazemos, por exemplo, quando rejeitamos a ideia de que animais não são sujeitos de direitos. Isto porque o direito no caso dos animais, não é uma prerrogativa para assegurar privilégios a seres não humanos, mas sim direitos básicos como existir sem correr o risco de sofrer em decorrência da intervenção humana. Tenha em mente que direitos animais não envolvem humanização, não dizem respeito a isso; porque o ato de humanizar animais em si é, na minha concepção, um ato reprovável. Mas por que? Porque reverbera especismo a partir do momento que ansiamos por aproximá-los de nós na tentativa de atribuir valores humanos às suas existências; e isso considero evidentemente errado. Animais não precisam de valores humanos, precisam do reconhecimento de seus valores não humanos, que é o que realmente condiz com quem são, não com quem os tornamos ou queremos que eles sejam.





Paul Waldau: “Os direitos animais tratam de conectar-se com o sentido da vida”

without comments

“Essa experiência de ultrapassar o eu permite que os seres humanos se tornem tão humanos quanto possível”

Waldau: “É extremamente necessária a vontade de reconhecer que o debate sobre os ‘direitos animais’ é aquele em que os valores fundamentais estão sendo elaborados” (Acervo: Paul Waldau)

Paul Waldau é um professor e pesquisador que dedicou décadas à antrozoologia, ou seja, a ciência que estuda a interação entre pessoas e animais. Ao longo dos anos, ele ministrou palestras no programa de legislação animal da Universidade Harvard e da Universidade Yale. De 2001 a 2013, publicou importantes livros que deram sua contribuição à discussão dos direitos animais, como “The Specter of Speciesism: Budhist and Christian Views of Animals”, de 2001; “A Communion of Subjects: Animals in Religion, Science, and Ethics”, de 2006; “An Elephant in the Room: The Science and Well-being of Elephants in Captivity”, de 2008; “Animal Rights: What Everyone Needs to Know”, de 2011; e “Animal Studies: An Introduction”, de 2013.

No seu livro “Direitos Animais: O Que Todo Mundo Precisa Saber”, lançado pela editora da Universidade de Oxford, umas das mais importantes bases acadêmicas de estudos sobre direitos animais no Reino Unido, uma das principais referências de Waldau foram as muitas pessoas com quem ele teve a oportunidade de conversar sobre direitos animais. Claro, não apenas profissionais ligados à filosofia ou à ciência, mas também pessoas que ele encontrou ocasionalmente em diversas partes do mundo, mas que tinham uma opinião sobre a questão.

Assim, ele sedimentou um grande e diversificado referencial que o permitiu analisar preocupações que envolvem os chamados “animais de companhia” – como cães e gatos, animais selvagens, animais usados em pesquisas científicas e laboratórios, animais criados com finalidade alimentícia e como fontes de matéria-prima para produtos. A princípio, Waldau parte da perspectiva filosófica, científica e legal que fundamenta os direitos animais, permitindo a compreensão da história da proteção animal, seus erros e acertos, e a realidade social que os animais enfrentam hoje principalmente como desdobramento da inexistência de sólidas políticas públicas.

O livro está dividido nos capítulos “Os Próprios Animais”, “Argumentos Filosóficos”, “História e Cultura”, “Leis”, “Realidades Políticas”, “Realidades Sociais”, “Educação, Profissões e Artes”, “Ciências Contemporâneas – Natural e Social”, “Principais Figuras e Organizações no Movimento dos Direitos Animais” e o “Futuro dos Direitos Animais.” Waldau abre o livro perguntando como responder a pergunta “O que as pessoas precisam saber sobre a importante, mas controversa noção de direitos animais.”

“Passei anos em Oxford, na Inglaterra, estudando o lado acadêmico de várias questões, e então passei uma década lecionando em uma faculdade de veterinária. Ao mesmo tempo, lecionei no programa de legislação animal em alguns das melhores faculdades dos Estados Unidos. […] Olhei centenas de livros, artigos impressos e sites que usam a frase ‘direitos animais’ porque eu queria saber sobre o que as pessoas estavam falando. Com base em todos esses antecedentes e pesquisas, cheguei à conclusão de quais são as questões mais importantes, portanto, ‘o que todos precisam saber’ sobre direitos animais”, narra.

De acordo com Paul Waldau, o termo “direitos animais” é empregado na maioria das vezes para descrever os direitos morais e os valores sociais a favor da compaixão e contra a crueldade envolvendo animais. Porém, o termo se expandiu com o tempo, assim como a possibilidade de conquista de direitos legais para alguns ou todos os animais não humanos. Waldau relata que atualmente há um ativo debate sobre a frequência e até que ponto nossas diferenças nas sociedades humanas podem permitir específicos direitos legais e outras formas de proteção aos animais.

O pesquisador cita que pessoas influentes no que diz respeito aos direitos animais têm interpretações com diferenças bem pontuais em relação ao termo como uma luta pela conquista de direitos legais. Na perspectiva do autor, ainda é predominante uma concepção genérica de “proteção animal” como “direitos animais”. Por isso, no livro “Animal Rights: What Everyone Needs To Know”, ele busca explicar por que os direitos animais no sentido de direitos morais é, na sua ótica, a maior e mais fundamental questão, já que específicos direitos legais para indivíduos não humanos em muitos casos não abrangem todos os direitos dos animais como direitos morais.

“O debate sobre os direitos animais geralmente é polarizado, mas apenas em alguns círculos. Nesses lugares em que a polarização afeta a forma como as pessoas conversam e ouvem umas as outras, defensores e ativistas em oposição podem alimentar ainda mais essa polarização”, avalia. Por outro lado, o pesquisador aponta que os direitos animais permitem que as pessoas criem uma grande conexão entre elas.

Outra observação feita é que muitas pessoas reconhecem os direitos animais como sendo também pró-pessoas, uma conclusão que pode parecer contraintuitiva para alguns ou até mesmo falsa para outros: “Se você explorar os debates sobre os direitos animais em profundidade, notará que há aqueles que defendem que os direitos animais podem ser pró-humanos de várias maneiras. Alguns argumentam que isso se deve ao fato dos seres humanos serem ‘animais’. Outros argumentam que os direitos dos animais são uma reafirmação da vida, o que, claro, tem decididamente características pró-humanas.”

Contudo, há também aqueles que argumentam que em primeiro lugar deve estar sempre a preocupação em proteger a vida de seres de outras espécies, porque esse posicionamento reforça a nossa natureza ética. “Proteção para outros seres vivos” e “Devemos ouvir a voz dos animais” são algumas das significâncias mais comuns encontradas e justificadas pelas fontes de Paul Waldau em relação ao conceito dos direitos animais: “Estudantes de veterinária frequentemente me dizem que os ‘direitos animais’ são um ‘termo valioso’ mas quando eles o utilizam, correm o risco de serem condenados por alguns colegas de classe e, tragicamente, por membros de sua faculdade de veterinária.”

Muitas pessoas sentem que os direitos animais são inegavelmente atrativos, mas, segundo o autor, essa percepção pode ser comprometida quando ativistas pelos direitos animais usam a violência em nome da causa. “[…] A proteção animal é um movimento social mundial. […] Cidadãos ativos neste movimento desafiam práticas de longa data e valores [que mesmo nocivos aos não humanos são] profundamente apreciados. […] É extremamente necessária a vontade de reconhecer que o debate sobre os ‘direitos animais’ é aquele em que os valores fundamentais estão sendo elaborados. Sem dúvida, algumas pessoas decididamente sentem que a simples menção do termo é um repúdio aos humanos e, portanto, profundamente imoral. Mas descobri que muitas pessoas sentem que esse pensamento profundamente focado nos seres humanos não atende as possibilidades éticas dos seres humanos”, analisa.

A partir do seu trabalho, Waldau percebeu que muitas pessoas encontram múltiplas conexões com o mundo a partir do reconhecimento dos direitos animais. “Porque o termo [direitos animais] funciona para tantos não como um repúdio dos seres humanos, mas como uma afirmação das habilidades especiais dos humanos em se preocuparem com os outros. O termo [direitos animais] abre a porta para um mundo rico, mais do que humano, que está além da nossa espécie”, afirma. Sendo assim, a noção e a crença nos direitos animais não é um exemplo de desconexão com o mundo, como vaticinado, por exemplo, por um senso comum equivocado, mas sim o oposto disso. Ou seja, uma gama de conexões.

O pesquisador cita o historiador inglês Marc Gold que em 1995 escreveu que o termo direitos animais é um tipo útil de taquigrafia para um movimento baseado no reconhecimento de que animais não humanos vivem vidas com propósitos emocionais e são capazes de sofrer como os seres humanos: “Bondade e tolerância para aqueles que são diferentes e mais fracos do que nós estão entre as mais altas aspirações humanas possíveis.”

A conexão com os direitos animais também permite que as pessoas criem uma conexão coletiva e particular com os seres humanos e o mundo ecológico – seja o próprio quintal ou um espaço muito mais amplo. Waldau cita também o caso de crianças que muito cedo manifestam voluntariamente um anseio de que seus pais partilhem com elas a consideração pelos animais. “Essas conexões nem sempre são explícitas. No entanto, mesmo quando essas conexões são apenas implícitas, são reais, pessoais e motivadoras. Tanto os adultos quanto as crianças consideram que os direitos animais são uma maneira de honrar o mundo”, destaca.

O pesquisador sugere que a polarização não seja uma característica dominante no debate sobre os direitos animais. Para ele, há uma questão mais comum que deve ser considerada: “Qual é o sentido da vida?” “Pessoas reconhecem que as ações diárias, as escolhas e o trabalho podem dar vazão à imaginação humana e nossas consideráveis habilidades em cuidar dos outros, e eles sabem que nós prosperamos quando nos conectamos a um projeto maior que começou antes de nossa própria vida e que continuará depois disso. As preocupações éticas com outros seres vivos, humanos ou não, proporcionam tais possibilidades.”

Depois que finalizou o livro “Direitos Animais: O Que Todo Mundo Precisa Saber”, Paul Waldau chegou à conclusão de que muitas pessoas descobriram que a preocupação com os direitos animais não apenas promove virtudes, mas, na prática, contribui para sustentar a propriedade da imaginação humana. Usando também sua experiência como referência, o pesquisador revelou que estudar, investigar e se preocupar também com a vida não humana promove formas saudáveis de pensamento e racionalidade. “Essa experiência de ultrapassar o eu permite que os seres humanos se tornem tão humanos quanto possível. Isto é, humano no contexto de um mundo biologicamente rico e cheio de outros seres vivos interessantes. […] Ao escrever este livro cheguei a entender que os direitos animais, como a maioria das pessoas me descreviam, tratam de conectar-se com o significado da vida”, ponderou.

Saiba Mais

Paul Waldau foi diretor legal do Great Ape Project (GAP), uma organização fundada em 1993 por Peter Singer e Paola Cavalieri que reúne primatologistas, antropologistas e eticistas que visam assegurar direitos para chimpanzés, bonobos, gorilas e orangotangos.

Referência

Waldau, Paul. Animal Rights: What Everyone Needs to Know. Oxford University Press (2001).





Richard D. Ryder: “Todos nós conhecemos pessoas que podem desistir da carne com facilidade”

without comments

Há também a luxúria [do consumo] de carne que é muito forte, digamos que atinge 30% da população humana”

“Agora temos de tentar argumentar contra o preconceito do especismo no resto do mundo, e particularmente nos novos centros de poder econômico como Índia, Brasil e China” (Foto: Kim Stallwood)

Richard D. Ryder é um psicólogo, defensor dos direitos animais e escritor britânico que em 1970 cunhou o termo “especismo”, uma forma de discriminação que se baseia na ideia de que pelo fato do ser humano considerar outros seres inferiores, ele ignora seus interesses em não sofrer, inclusive negando-lhes o direito à vida. Ao longo de mais de 40 anos, Ryder escreveu importantes livros como “Victims of Science”, de 1975; “Animal Revolution: Changing Attitudes Towards Speciesism”, de 2000; “A Modern Morality”, de 2001; “Putting Back Into Politics”, de 2006; e “Speciesism, Painism and Hapiness”, de 2011.

Em 2010, Richard D. Ryder publicou na Critical Society, Issue 2, uma versão comentada e atualizada do seu folheto “Speciesism”, distribuído em Oxford em 1970 como uma reação contrária às experiências com animais. Logo o termo especismo passou a ser estendido a todas as formas de exploração contra animais não humanos, incluindo, claro, criaturas reduzidas a produtos e alimentos.

Na publicação da Critical Society, Ryder afirma que as revoluções de 1960 contra o racismo, sexismo e classismo ignoraram completamente os animais. Todos pareciam estar preocupados em reduzir somente o preconceito contra seres humanos. “Eles não tinham ouvido falar de Darwin? Eu odiava o racismo, sexismo e classismo também, mas por que parar nisso?”, declarou e acrescentou que como cientista ele já sabia que outras espécies de animais também sentem medo, dor e aflição, assim como nós.

A princípio, o panfleto “Speciesism”, que Ryder distribuiu em Oxford, não teve nenhum efeito. Então ele mudou a sua tática. Reimprimiu o texto com uma ilustração de um chimpanzé usado em experiências e infectado com sífilis. “Pedi a um amigo, David Wood, que incluísse seu nome para que o folheto tivesse um endereço universitário e o enviei às universidades. Desta vez tive algumas respostas. Um dos destinatários era um jovem filósofo australiano chamado Peter Singer. Em poucos meses, ele entrou em contato comigo. Muita coisa aconteceu desde então”, revelou.

No panfleto, o psicólogo afirma que desde Darwin os cientistas têm concordado que não há uma diferença essencialmente “mágica” entre seres humanos e outros animais, falando biologicamente. “Por que então moralmente fazemos uma distinção quase total? Se todos os organismos estão em um contínuo físico, então eles também devem estar no mesmo contínuo moral”, defendeu.

No panfleto, Richard D. Ryder faz uma observação bem crítica em relação ao especismo ao frisar que sob condições especiais de laboratório talvez seja possível acasalar um gorila com um professor de biologia. “Será que a prole peluda será mantida em uma gaiola ou em um berço? […] É costume descrever o homem de Neandertal como uma espécie diferente de nós, uma especialmente equipada para sobreviver à Era do Gelo. No entanto, a maioria dos arqueólogos agora acredita que essa criatura não humana praticava o enterro ritual e possuía um cérebro maior que o nosso. Suponha que o elusivo e abominável Homem das Neves, quando apanhado, acabe por ser o último sobrevivente desta espécie de Neandertal, daríamos a ele um assento na ONU ou implantaremos elétrodos em seu cérebro super humano?” As questões levantadas lembram os conflitos e a “evolução” do símio Peter apresentada por Franz Kafka no conto “Ein Bericht für eine Akademie” ou “Um Relatório para a Academia”, publicado em 1917.

Exemplos hipotéticos como os citados anteriormente por Ryder podem chamar a atenção para a falta de lógica da nossa posição moral em relação à exploração animal. Independente do direito à vida, ele pondera que um critério moral claro é o sofrimento, o sofrimento ocasionado pelo confinamento, medo, tédio e dor física, entre outros exemplos.

Se assumirmos que o sofrimento é uma função do sistema nervoso, então é ilógico argumentar que outros animais não sofrem de maneira semelhante a nós. Na realidade, é precisamente porque alguns outros animais têm sistemas nervosos tão parecidos aos nossos que eles são extensivamente estudados. Em relação aos argumentos a favor de experiências com animais, Ryder aponta inúmeras inconsistências. Há cientistas que dizem que o avanço do conhecimento justifica todos os males. Será que realmente justifica?

Suponhamos que em um determinado experimento as chances de sofrimento de um animal são mínimas, e as probabilidades dessa experiência auxiliar a medicina aplicada é excelente, ainda assim isso não seria especismo? “E como tal é um argumento emocional egoísta, não fundamentado. Se acreditamos que é errado infligir dor a animais humanos inocentes, então a única lógica, falando filogeneticamente, é estender a nossa preocupação sobre direitos elementares aos animais não humanos”, escreveu Richard D. Ryder no panfleto publicado originalmente em 1970.

Além de lutar pela proibição de testes em animais, Ryder, que tem mestrado em psicologia experimental e doutorado em ciências políticas e sociais pela Universidade de Cambridge, se envolveu diretamente em campanhas contra a criação de animais para consumo, e campanhas de proteção aos elefantes, baleias e focas. Desde 1985, o psicólogo qualifica a sua posição moral como painism (painismo), que diz respeito ao reconhecimento de direitos para todas as criaturas que sentem dor, um assunto que é exaustivamente abordado no seu livro “Speciesism, Painism and Happiness”, de 2011.

Na perspectiva do psicólogo, o painismo é uma terceira via entre a posição utilitarista do filósofo australiano Peter Singer e a visão deontológica de direitos do filósofo estadunidense Tom Regan, já que combina a visão utilitarista de que o status moral vem da capacidade de sentir dor com a proibição sob a ótica de direitos de que é errado usar outros seres sencientes como meios para um fim, desconsiderando as implicações disso para vítima.

O painismo considera o utilitarismo falho porque nesse sistema ético a tortura ou estupro é “justificável quando os benefícios totais compensam as dores da vítima”, o que é um absurdo, segundo Ryder, se considerarmos que os limites da experiência são os limites do indivíduo. Ou seja, não é porque várias pessoas tiveram prazer em um ato que o sofrimento de uma vítima pode ser considerado secundário. Uma ação não deixa de ser errada ou imoral porque dezenas, centenas ou milhares foram beneficiados.

Embora o trabalho de Richard D. Ryder contra a objetificação animal tenha ganhado mais visibilidade nas últimas décadas, a sua luta começou há muito tempo. Em 1969, ele participou de um protesto contra a caça às lontras em Dorset, no sudoeste da Inglaterra. Foi nessa época que ele realmente se interessou pela questão dos direitos animais e enviou três cartas sobre o assunto para o jornal The Daily Telegraph. Em um dos textos, intitulado “Rights of Non Human Animals” ele usou como referência o seu próprio trabalho como pesquisador para condenar as pesquisas com animais.

A romancista Brigid Brophy, também defensora dos direitos animais, leu as cartas de Ryder e o apresentou a Rosalind Godlovitch, Stanley Godlovitch e John Harris, três estudantes de pós-graduação da Universidade de Oxford que estavam editando a obra “Animals, Men and morals: An Inquiry into the Maltreatment of Non-Humans”, uma coleção de ensaios sobre direitos animais lançada em 1971.

O grupo que mais tarde recebeu o nome de Oxford Group, e atraiu novos membros, sedimentou o caminho de Ryder como ativista pelos direitos animais. Eles não apenas produziam material, mas também realizavam encontros, reuniões, imprimiam e distribuíam folhetos em crítica à exploração animal. Logo a luta contra exploração de animais para consumo se tornou uma das prioridades, assim como à rejeição à experimentação animal.

Em 1973, Peter Singer escreveu uma resenha do livro “Animals, Men and morals” para o The New York Review of Books, enfatizando que o artigo “Experiment on Animals”, que integra a obra, e escrito por Richard D. Ryder, era um apelo à criação de um movimento de libertação animal. O trabalho influenciou Singer a escrever o livro “Animal Liberation”, de 1975. Na obra, Singer aborda o especismo no quinto capítulo; o que ajudou a popularizá-lo mundialmente, passando mais tarde a ser incluído inclusive nos mais importantes dicionários.

Em 1977, Richard D. Ryder assumiu a posição de chairman do conselho da Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals (RSPCA) e ajudou a coordenar a primeira conferência acadêmica de direitos animais realizada em agosto de 1977 em Cambridge. O resultado foi a criação de uma “Declaração contra o Especismo”, assinada por 150 pessoas. Com a ajuda de Ryder, o conselho, que se dedicava principalmente à proteção de animais de companhia, passou a dar grande importância às questões envolvendo fazendas industriais, experiências laboratoriais caça e esportes com animais.

Em 9 de março de 2011, a “AR Zone – A Record of Rational Discourse” publicou uma entrevista histórica e bastante esclarecedora com Ryder. O psicólogo relatou que uma tática usada por ele para divulgar o termo “especismo” foi mencioná-lo sempre que era convidado a dar alguma entrevista. “Naquele tempo, a mídia gostou porque era algo novo, mas o meio acadêmico demorou para reagir em relação a isso”, comentou.

Segundo Richard D. Ryder, o especismo ainda não chegou ao fim, embora as pessoas estejam se tornando mais conscientes, porque existe um consolidado discurso que atrela a existência dos animais à utilidade em benefício humano. “Há também a luxúria [do consumo] de carne que é muito forte, digamos que atinge 30% da população humana. Essas pessoas vão lutar com unhas e dentes para proteger o seu ‘direito’ de comer carne. Eles ficam muito irritados se forem desafiados. A carne é uma forma genuína de dependência? Ou é basicamente um impulso básico carnívoro que está geneticamente incorporado em alguns seres humanos, mas não em todos nós? Realmente não sei se essa pesquisa foi feita. Todos nós conhecemos pessoas que podem desistir da carne com facilidade, e sem sentir falta. Mas também há outros que determinam as políticas que parecem ‘precisar’ de carne tanto quanto sexo. Eles desejam isso! Esse problema requer pesquisa”, informou em entrevista à AR Zone.

Para Ryder, se quisermos realmente fazer a diferença na vida dos animais, não devemos ter medo de expressar nossas opiniões sobre isso. “Entre em contato com deputados, professores e editores, assim aumentando a importância moral dessa questão. Agora temos de tentar argumentar contra o preconceito do especismo no resto do mundo, e particularmente nos novos centros de poder econômico como Índia, Brasil e China”, escreveu na versão atualizada do panfleto “Speciesism”, publicado em 2010.

Saiba Mais

Richard D. Ryder se candidatou duas vezes ao parlamento inglês. Também é conhecido por suas incansáveis campanhas para convencer os partidos políticos a tratarem a proteção animal como uma questão política.

Referências

Ryder, Richard D. Speciesism (1970). Privately printed leaflet. Oxford (2010).  

Ryder, Richard D. Speciesism, Painism and Happiness: A Morality for the 21st Century. Societas. Imprint Academics (2011).

The Encyclopedia of Animal Rights and Animal Welfare. The Oxford Group. Páginas 261-262 (2009).

Ryder, Richard D. The Struggle Against Speciesism (1979).

Singer, Peter. Animal Liberation (1975). New York Review Books. Página 269.

http://www.62stockton.com/richard/index.html

Professor Richard Ryder Interview