David Arioch – Jornalismo Cultural

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Esculpindo vidas

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Jesus Soares descobriu a identidade artística na figura dos marginalizados

Soares eterniza pessoas com quem se depara no cotidiano (Foto: David Arioch)

Em 1986, quem via o garotinho Jesus Soares esculpindo faces desconhecidas em barrancos, nem imaginava que ele se tornaria um dos grandes nomes das artes plásticas em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, com trabalhos expostos em diversos países da América Latina e Europa.

A relação de Jesus Soares com a arte começou por acaso, aos 11 anos, quando ele e os irmãos Paulo, Gílson e Adauto Soares se divertiam criando os próprios brinquedos e dando novas formas a alguns espaços. O que para a maioria era apenas um cenário ordinário e natural, na perspectiva de Jesus e seus irmãos era um universo de possibilidades de transformação.

“Uma vez vimos a capa de um livro e aquilo nos influenciou a criar algumas faces em barrancos”, conta o artista plástico Jesus Soares. O feito dos quatro irmãos pode ser interpretado como uma peculiar, mas ocasional concepção artística do Monte Rushmore, monumento rochoso situado nos EUA.

À época, ainda crianças, Jesus e os irmãos, que cultivavam uma profunda relação de amizade entre eles, produziam arte sem perceber, perdidos em uma realidade lúdica. “A gente fazia apenas porque gostava, era uma forma de divertimento”, afirma e acrescenta que encarou o próprio trabalho como arte somente a partir de 1998.

Naquele ano a artista Tânia Volpato foi até a residência do artista e se deparou com um presépio. “Quando disse a ela que fui eu quem fiz, a Tânia ficou surpresa, e eu mais ainda porque já tinha feito um monte de peças, mas nunca pensei que fossem arte”,  admite Soares, que se destaca pelo talento em criar esculturas com as mais diversas matérias-primas, como arame, madeira, resina, gesso, sisal e fibra de média densidade (MDF).

Embora já tenha manipulado muitos materiais, Jesus é mais conhecido pelas esculturas em arame, sua marca registrada. “Nessa linha de trabalho, já atendi a Fundação Cultural, Rotary, Faculdade Estadual de Educação, Ciências e Letras de Paranavaí [Fafipa], Universidade Paranaense [Unipar], Secretaria Municipal de Esportes e Lazer e Associação Comercial e Empresarial de Paranavaí [Aciap], além de outros”, acrescenta.

Quem conhece o trabalho de Jesus Soares, logo identifica características do realismo surgido no século XIX. É algo que se deve não ao fato do artista seguir tal tendência, mas sim ter descoberto a identidade artística na figura dos marginalizados. Soares tem o dom de eternizar pessoas com quem se depara no cotidiano, aquelas que parecem inexistir socialmente.

Algumas das obras do artista estão em exposição no corredor do Teatro Municipal (Foto: David Arioch)

Algumas das obras do artista estão em exposição no corredor do Teatro Municipal (Foto: David Arioch)

“Pra mim a escolha de um personagem a ser transformado em escultura depende muito do contexto. Além disso, quando me pedem algum trabalho sob encomenda, já me foco no tema, daí faço um esboço levando em conta questões sociais, históricas e econômicas”, revela o artista que encontra na arte de esculpir um exercício de introspecção e reflexão sobre a vida e o mundo.

É impossível mensurar quantas obras Jesus Soares já produziu, mas muitas estão espalhadas pelo Brasil, além das enviadas para exposições na Áustria, Alemanha, República Dominicana e outros países. “Há poucos dias, recebi o convite para enviar peças ao Chile”, enfatiza o artista.

Material embutido de significados

A escolha do material para se trabalhar a confecção de cada peça carrega alguns significados. Um exemplo são três obras criadas pelo artista sob influência de Guernica, pintura de Pablo Picasso. “Foi uma encomenda que me fizeram em Amaporã. Selecionei três personagens do quadro e criei as peças”, conta.

Em uma das obras recheadas de crítica social, é possível ver uma criança no colo da mãe. O bebê em óbito foi idealizado a partir de uma minúscula colher. Levando em conta o contexto da guerra, principalmente os bombardeios alemães a pequena cidade espanhola de Guernica em 1937, Soares usou o talher para destacar uma metáfora; a infância perdida como sobremesa germânica.

O artista plástico, que também trabalha com cenografia em parceria com os irmãos Paulo e Adauto Soares, está sempre atendendo pedidos de novas encomendas. “Pra ter uma ideia, recentemente fiz cenários para a peça ‘As Aves’, do Grupo de Teatro da Unipar, também criei três obras em MDF e ainda preciso entregar mais de 300”, assinala o artista que cobra de R$ 35 a R$ 150 por peças de 35 a 50 centímetros.

Serviço

Para entrar em contato com o artista plástico Jesus Soares, basta ligar para (44) 8806-9585.

Dedicação à música clássica

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Conservatório Nice Braga levou arte erudita a mais de mil pessoas durante 44 anos

Salas de onde ressoavam os pianos Essenfelder e Schwartzmann (Crédito: David Arioch)

É impossível falar de música erudita em Paranavaí sem citar o saudoso Conservatório Nice Braga. Com uma história de 44 anos, a escola que encerrou atividades no final de 2006 formou mais de mil alunos em piano clássico. E mais, se tornou referência no Noroeste do Paraná, principalmente por usar as metodologias dos conservatórios europeus.

Em 1962, o professor Arnoldo Poll entrou em contato com a Prefeitura de Paranavaí e solicitou um terreno para a implantação de uma escola de música. No mesmo ano, o pedido foi atendido e a construção foi concluída em pouco tempo, graças ao empenho da comunidade que trabalhou sem cobrar nada. Assim surgiu o Conservatório Nice Braga que recebeu tal nome em homenagem a mulher do então governador Ney Braga.

Alguns anos depois, ainda na década de 1960, o professor vendeu o conservatório, a título de direito, para Luzia Guina Machado, também falecida, que administrou a escola durante 38 anos, segundo o ex-auxiliar administrativo do Conservatório Nice Braga, Israel Rodrigues, que entrou na escola de música em 1984 para estudar órgão. “A Luzia me convidou para ajudá-la na administração por dez dias. O tempo passou e fiquei 22 anos”, reitera Israel sorrindo.

Entre 1962 e 2003, sob dedos habilidosos os pianos ressoavam pelas imediações da escola de música, fazendo os transeuntes se sentirem imersos em um universo de beleza e sensibilidade. “Não conhecia música clássica, mas sempre que passava lá em frente ficava encantada”, relata a dona de casa Roberta Castelo. As releituras no conservatório incluíam composições como as clássicas sonatas de Beethoven e o primitivismo de Bartók.

Até o final da década de 1990, foram realizados muitos concursos no auditório da escola, segundo a professora de música Neuza Diogo que se matriculou no Conservatório Nice Braga com o objetivo de concluir o curso de piano clássico iniciado em São Paulo. “Em 1962, eu estava no sétimo ano fundamental e quando terminei me convidaram para dar aula”, lembra. O que começou como uma atividade remunerada casual durou 35 anos.

À época, quatro professores lecionavam na escola de música, mas logo foram contratados mais quatro. Segundo Neuza, a procura pelo curso de piano clássico era tão grande que o interessado tinha de reservar uma vaga em novembro para começar a estudar em janeiro. “Pra você ter uma ideia, só eu como professora assinei mais de 800 diplomas de alunos que concluíram estudos de piano. Em Paranavaí, a maioria dos conservatórios que vieram depois foram fundados por professoras que foram minhas alunas”, frisa.

A escola não era referência apenas para a população local. Professores de música de Nova Londrina, Loanda, Querência do Norte, Paraíso do Norte, Terra Rica, Alto Paraná, Nova Esperança, Nova Aliança do Ivaí e muitas outras cidades se formaram no Nice Braga. A qualificação profissional sempre foi o maior objetivo do conservatório que foi comparado às escolas de música da Europa.”Lembro da carta de uma aluna que se mudou para a Alemanha. Ela nos parabenizou pelo curso porque a nossa grade curricular é compatível com a deles. Houve o caso de um rapaz também que vive na Inglaterra e falou a mesma coisa”, enfatiza Rodrigues.

A professora Neuza Diogo admite ser impossível mensurar com precisão o total de alunos que passaram pelo conservatório. “Foram muitos, provavelmente mais de mil. Mas o auge, sem dúvidas, foi em 1968, quando tínhamos mais de 200 alunos. Dávamos aulas de piano, teclado, órgão, violão, violino, balé e jazz”, pontua.

O Silêncio do Nice Braga

Em 2006, o Conservatório Nice Braga perdeu a magia de outros tempos. Com apenas oito alunos matriculados, a impossibilidade de manter a escola aberta crescia a cada dia. Em um passeio pelas pequenas salas do conservatório, tornou-se comum encontrar os belos e bem conservados pianos Essenfelder e Schwartzmann, que antes pareciam ter vida própria e emocionavam os passantes, aposentados, relegados ao ostracismo. Lá fora, até mesmo vizinhos estranharam o silêncio.

O auxiliar-administrativo do Conservatório Nice Braga, Israel Rodrigues, diz acreditar que tudo foi uma consequência natural do desinteresse pela música clássica. Para ele, era como se as pessoas tivessem um bloqueio em relação ao erudito. “Se divulgar que teremos uma audição do gênero, acredite, apenas estudantes de música vão participar. Os demais não se importam”, lamenta. Opinião também dividida pela professora de música Neuza Diogo. “Hoje em dia, os alunos querem apenas o popular”, frisa.

Espaço agora abriga Escola Municipal de Música Luzia Guina Machado (Crédito: David Arioch)

Espaço agora abriga Escola Municipal de Música Luzia Guina Machado (Crédito: David Arioch)

Os primeiros sinais de mudanças surgiram na década de 1990, e dez anos depois as dificuldades aumentaram. Segundo Rodrigues, não sobrava mais dinheiro para suprir despesas com manutenção, limpeza e jardinagem. Até 2003, a situação foi contida porque os gastos eram proporcionais ao número de aprendizes. “Até o último momento, tínhamos oito alunos. Mas a situação já era insustentável e o jeito foi fechar a escola”, destaca.

Com o fechamento do Conservatório Nice Braga, o município reassumiu a propriedade e repassou R$ 12 mil aos familiares da ex-diretora Luzia Guina Machado pela realização de benfeitorias ao longo de décadas. Mantido pela Fundação Cultural, hoje o espaço é sede da Escola Municipal de Música Luzia Guina Machado, onde dezenas de crianças e adolescentes participam gratuitamente de oficinas de música. Além disso, as características originais do imóvel foram mantidas, preservando a história do conservatório.

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De Bamberg a Paranavaí

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Enfermeiro da Segunda Guerra Mundial cumpriu missão e encontrou paz no Brasil

Padre era tímido e não gostava de ser fotografado sozinho (Foto: Acervo da Ordem do Carmo)

Padre era tímido e não gostava de ser fotografado sozinho (Foto: Acervo da Ordem do Carmo)

Depois de enfrentar as tragédias da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o padre e enfermeiro alemão Bonaventura Einberger veio a Paranavaí com a missão de construir um seminário em Graciosa, distrito de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Além de concluir o trabalho, adotou o Brasil como pátria e aqui viveu ao longo de 31 anos.

Em meados de 1953, o frei alemão Ulrico Göevert, que já vivia em Paranavaí, pediu para a Ordem dos Carmelitas na Alemanha enviar um padre apto a construir um seminário em Graciosa. “O frei Bonaventura mal chegou e já foi visitar propriedades nas imediações da igreja. Ali ele escolheu um sítio. No dia seguinte, começaram a derrubada da mata”, conta a pioneira Francisca Schiroff.

Entre o início da construção e a inauguração, passaram nove meses. A maior parte do investimento veio da Ordem dos Carmelitas da Alemanha. De acordo com Francisca, quase todos da comunidade ajudaram, mas o destaque maior foi o frei Bonaventura que viveu em função do Seminário Imaculada Conceição.

Antes de chegar a Graciosa, onde a quietude se contrastava apenas com o som preponderante da natureza, Einberger ainda mantinha fresca em suas lembranças os sons de bombas, metralhadoras e gritos exasperados, consequência de dores, na maioria das vezes, irremediáveis.

Tudo começou em meados da década de 1940, quando o frei Bonaventura foi convocado a compor um grupo de enfermeiros em um navio do Terceiro Reich. Segundo a pioneira, o padre cuidou de centenas de soldados alemães que se feriram na linha de frente.

A guerra fez com que Bonaventura Einberger perdesse o contato com os familiares, principalmente com os irmãos Otto Einberger, inspetor-chefe da SS (Schutzstaffel), unidade de elite da polícia nazista, e o caçula Heinrich Einberger, soldado do Exército alemão.

Ao final da Segunda Guerra Mundial, Einberger desconhecia o paradeiro dos irmãos. “Otto, que tinha 38 anos, foi capturado pelo Exército soviético. Ele ficou oito meses em uma prisão russa próxima de Moscou, até que foi encontrado morto depois do fim da guerra”, revela Francisca, referindo-se ao fatídico dia 13 de outubro de 1945.

Bonaventura, inconformado com a morte do irmão, decidiu buscar o corpo para enterrá-lo em Bamberg, sua cidade natal. O corpo de Heinrich nunca foi encontrado e a única conjetura possível é a de que foi alvejado em um confronto terrestre com os soviéticos.

Em 1953, depois de perder os pais e os irmãos, surgiu uma oportunidade de deixar tudo para trás. Acompanhado pela cunhada e três sobrinhos, filhos do irmão Otto Einberger, o frei Bonaventura veio a Paranavaí. “Eles compraram um sítio de cinco alqueires aqui em Graciosa e fixaram residência, com exceção do frei que vivia no seminário”, garante Francisca.

Einberger era discreto e reservado

Quando chegou a Graciosa, o frei Bonaventura Einberger foi recebido por todos os moradores do distrito. “Ele falou muito obrigado em português”, relembra a pioneira Francisca Schiroff que durante décadas guardou um grande baú de madeira que pertenceu ao frei.

O objeto foi doado para a Fundação Cultural de Paranavaí e colocado em exposição no Museu Histórico de Paranavaí que funciona na Casa de Cultura Carlos Drummond de Andrade. “Ele trouxe grandes caixas de madeira. Veio com toda a mudança. A ideia dele já era se fixar aqui”, destaca Francisca.

Quando aprendeu a falar fluentemente em português, o frei Bonaventura visitou todas as capelas da região. “Ele ia a cavalo, não tinha pressa. Inclusive quando o animal ficava com fome e havia algo na beira da estrada, ele parava e deixava o cavalo comer. Tinha dó”, conta Francisca sorrindo. O equino foi o principal meio de transporte do frei durante sete anos, até que ganhou um jipe da Ordem dos Carmelitas.

Segundo a pioneira, Einberger era bastante amistoso e jamais teve qualquer tipo de inimizade. “Acho que todo mundo gostava dele justamente por não se envolver com política e assuntos familiares. Só ajudava quando lhe era solicitado, algo constante”, informa, referindo-se a uma época em que padre desempenhava papel de conselheiro.

No entanto, Bonaventura Einberger era bastante reservado e tímido. A pioneira conta que o padre era acanhado a ponto de evitar ser fotografado sozinho. “Me recordo também que festas para ele tinham de ser surpresa, do contrário, ele fugia”, enfatiza em tom de nostalgia.

Frei alemão adotou pátria brasileira

Quando, por curiosidade, questionavam o frei Bonaventura Einberger sobre as agruras vivenciadas durante a Segunda Guerra Mundial, a expressão do padre mudava na hora. Hesitante e apreensivo, se limitava a dizer que era algo horrível.

Einberger torcia para que qualquer guerra jamais chegasse ao Brasil, citando a experiência de ter visto tantas pessoas morrendo. “Falava também que viu muitas casas sendo bombardeadas, noite após noite”, reitera a pioneira Francisca Schiroff.

Quando o assunto era o Brasil ou nova pátria, como ele mesmo dizia, o frei Bonaventura, com um sorriso cândido e olhar profundo, afirmava que não errou em escolher um país que tem tudo para estar entre os melhores do mundo. “Dizia que aqui é muito bom para se viver. Era algo muito sincero, tanto que ele esteve com nós até o dia de sua morte”, lembra a pioneira Francisca Schiroff emocionada.

O frei Bonaventura Einberger faleceu em 14 de novembro de 1984, aos 80 anos, em decorrência de algumas complicações envolvendo rins, pulmão e coração. “Agradecemos por ele não ter ficado muito tempo acamado. Foi uma grande perda, ainda mais se tratando de uma pessoa que dedicou sua vida ao povo de Graciosa e de Paranavaí”, enfatiza Francisca.

Saiba Mais

O frei Bonaventura Einberger está enterrado na cripta da Igreja São Sebastião em Paranavaí.

Ele nasceu em Bamberg no dia 15 de fevereiro de 1904 e se tornou sacerdote em 29 de junho de 1929.

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