Archive for the ‘Cotidiano’ tag
O boi e o menino
Dirigindo pelas estradas de Alto Paraná, perto da Água do Cedro, encontrei um menino andando lado a lado com um boi. Encostei o carro, desci, pedi uma informação e perguntei se ele morava longe. Então o garotinho de nove ou dez anos apontou uma porteira aberta e uma casa de madeira no horizonte à sua direita. A postura e os olhos daquele boi me fizeram suspeitar que havia algo realmente incomum sobre ele.
— E esse boi? Ele mora com vocês?
— Sim, senhor.
— Vocês estão passeando?
— Isso mesmo. Como o senhor sabe?
— É que lá de trás vocês já pareciam companheiros. E agora, de perto, vi que esse boi não tem nenhuma marca no corpo.
— Pra que marcar o bicho, né? Eu que não quero ter o couro marcado. Acho que ninguém quer, né?
— Pois é. Realmente…
— Vocês passeiam sempre?
— Ah, não. Só quando ele quer.
— E como você sabe quando ele quer?
— Ele encosta na porteira, e esfrega a orelha. Meu pai diz que ele faz isso desde criança.
— Desde criança?
— Isso.
— Quantos anos ele tem?
— Ah, ele tem 21.
— Nossa! Incrível!
— É o que todo mundo diz – comentou sorrindo.
— Forte desse jeito? E como ele viveu tanto?
— Não sei dizer não, senhor. Deve ser porque a gente nunca judiou dele, deixa ele bem solto no pasto.
— Isso é bom.
— É sim.
— Vocês nunca pensaram em abater ele?
— Não, senhor. Que isso! O Mestre é da família, é bicho que nem a gente.
— Vocês não comem carne?
— Não. A gente só mexe com horta e pomar. Meu vô, meu pai e minha mãe falam que comer o que não nasce de novo não presta. Tá certo não.
— Ninguém da sua família come carne?
— Não, ninguém.
— Sempre foi assim?
— Não. Foi por causa de uma coisa que aconteceu com o bisa antes do meu pai nascer.
— O que aconteceu?
— Meu bisavô tinha um cemitério no fundo do sítio dele. Um dia, uma vaca entrou lá e empurrou um pedaço de bife dentro de um buraco. Depois ela arrastou a terra com a pata pra cobrir o bife. O bezerro dela tinha sido levado fazia acho que duas semanas. Então o bisa chorou quando viu e prometeu nunca mais comer carne, nem mexer com isso. Essa história a gente escuta desde bem pequeno.
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Quem é vegano vem de onde?
Enquanto eu aguardava o fim do trânsito interrompido na saída da cidade, duas moças em uma moto encostaram ao meu lado e começaram a rir. A de trás riu primeiro e cutucou a moça da frente. Tive a impressão de que elas estranharam o fato de eu ouvir música ocidental. Tímido, mantive meus olhos em direção ao horizonte, até que uma delas decidiu falar.
— Oi!
— Oi…
— Desculpe a indiscrição, mas você é turco, moço?
— Não…
— O que você é?
— Sou vegano.
— Quem é vegano vem de onde?
— Do Veganistão.
— Humm…
— É longe?
— É sim.
— Onde fica?
— Na região da Veganícia, na porção setentrional da Eurásia.
— Como é lá?
— Ah, é um lugar onde é proibido explorar, matar e comer animais. Para nós, todos os animais são sagrados.
— Existe mesmo um lugar assim? Nunca imaginei.
— Existe sim. Quem explora animais no Veganistão é preso ou punido com chibatadas, dependendo da gravidade do crime.
— Sério mesmo?
—É sim.
—Que cultura diferente! Que povo radical!
— E vocês comem o que lá?
— Tudo que não venha de animais.
— Diferente isso. Faz tempo que você mora aqui?
— Sim, tem anos.
— Imaginei. Você quase não tem sotaque de estrangeiro.
— É?
— É sim.
— Fale alguma coisa em vegano pra gente.
— Como?
— Falar alguma palavra ou frase em vegano.
— Životinje nisu hrana [Os animais não são comida]
— Nossa! Olha como fiquei arrepiada. Você ouviu o que ele falou? Parece poesia. Ah, seja bem-vindo, moço.
— Obrigado.
— De nada.
Psiu! Psiu!
Assim que cheguei em casa, notei que alguém jogou ou deixou cair um pouco de lixo na calçada. Então recolhi e comecei a organizar tudo com os braços apoiados sobre a lixeira. Um sujeito encostou o carro e chamou a minha atenção:
— Psiu! Psiu!
— É comigo?
— Sim…
— Pode perguntar.
— Não quero perguntar nada não, meu amigo. Quero te ajudar.
— Me ajudar? Como assim?
— Olhe, lá em casa está cheio de materiais recicláveis. Pode te garantir uma graninha boa.
— É?
— Sim. Você vai gostar.
— Muito obrigado mesmo. Mas eu moro aqui. Só estou recolhendo o lixo que caiu na calçada.
— Não precisa ter vergonha, rapaz. Seu trabalho é muito digno.
— Ok…
— Quer que te leve lá agora?
— Não precisa não. Estou bem aqui mesmo.
— Ah, mas você pode ganhar uma graninha pelo menos pra tirar ou diminuir essa barba numa boa barbearia.
— Como assim?
— Te reconheci pela barba.
— Reconheceu o quê?
— Que você é andarilho.
— Não sou andarilho…
— É sim.
Abri o portão de casa e ameacei entrar.
— Cuidado, vão chamar a polícia pra você.
— Claro que não.
— Claro que sim.
— Ué…
— Então vamos fazer o seguinte. Fica com meu endereço, e quando você quiser é só passar lá pra buscar.
— Ah sim. Muito obrigado pela gentileza.
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Por que você fez isso?
No mercado, enquanto eu lia cuidadosamente o rótulo de um produto, notei uma mulher bem perto de mim. Muito perto mesmo, tanto que por pouco não senti a respiração dela junto do meu pescoço. Então me afastei um pouco e continuei lendo. Ela se aproximou mais uma vez. Achei melhor caminhar até o outro corredor. Impossível. Levei um beliscão na bunda.
— Que isso? O que foi isso?
— Conheço essa barba, esse bumbum, esse corpão, de longe.
— Como é? Quem é você?
— Ah, vai fingir agora, é? Vai ficar de brincadeirinha?
— Nem te conheço, moça. Por que você fez isso?
— Ah, para, né? No ano passado você gostou.
— Nunca te vi, como tu diz uma coisa dessas?
— Ah, nem vem. Aquela vez você gostou e muito.
— Moça, creio que você está me confundindo com alguém.
— Não estou não…
— Tem certeza? Então diga qual é o meu nome.
— Ah, para, né, Yusuf?
— Yusuf? Quem é Yusuf aqui? Meu nome é David.
— Vai mentir o nome agora?
Tirei a minha CNH da carteira e mostrei meu nome. Pensei: “Agora tudo se resolve!“
— Então por que no ano passado você disse que seu nome era Yusuf?
— Quê? Eu nunca disse isso. Nunca disse porque realmente nunca a vi.
— Olha, cara, sei que faz tempo, que depois a gente não se viu mais, mas vamos parar de sacanagem.
— Como assim? Você beliscou a minha bunda e eu que estou de sacanagem?
De repente, uma amiga dela se aproximou.
— Berta, olha quem eu encontrei aqui. É o Yusuf, lembra dele?
— Paula, esse não é o Yusuf. O Yusuf está morando em Ankara, na Turquia.
— Tá de brincadeira comigo?
— Claro que não.
— Sério mesmo?
— Claro que sim.
— Desde quando?
— Desde o ano passado.
— Hummm…
— Olha, moço, nem sei o que dizer, só sentir. Mil perdões pela confusão…
— Moço, desculpe a minha amiga. Ela não é muito boa com fisionomias.
— Tudo bem…
— Mas toma cuidado, viu? Tem mais gente que pode te confundir com o Yusuf.
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“Sim, o plano ainda é o mesmo”
Em uma longa fila, enquanto eu aguardava pacientemente e observava a movimentação, um camarada me ligou.
Eu — Sim, o plano ainda é o mesmo. Não precisa se preocupar.
Eu — Claro que sim. Nada mudou.
Eu — Ele confirmou que vai fazer a instalação.
Eu — Pode confiar. O material realmente é de boa qualidade.
Eu — Melhor, impossível. Com ele, não tem erro.
Eu — Acho que teremos uma explosão daquelas, de felicidade.
Eu — Sim, está tudo acertado. Vai ser uma surpresa tremenda. Só tem que tomar cuidado pra ninguém perceber nada antes.
Eu — Não, creio que não. Ele disse que o trabalho de instalação é garantido. Sim, não precisa ativar nada, vai vir tudo pronto.
Eu — Arriscado? Não, de modo algum.
Conforme a conversa fluía, notei algumas pessoas me assistindo. Mas simplesmente ignorei. Uma senhora com olhar assustado, e que estava logo atrás de mim, apontou o dedo em direção à minha barba, e saiu da fila a passos ligeiros. Não entendi o motivo e continuei a conversa.
Eu — Você avisou?
Eu — Eles vão correr onde depois?
Eu — Eles já tinham me avisado.
Mais duas pessoas saíram da fila.
Eu — Sim, ele não quer que o grupo leve crédito por nada. Já pediu anonimato.
Eu — Claro que não. Não tem a menor chance. Vai acontecer como planejado.
Mais uma pessoa se afastou.
Antes de desligar o celular, Roberto comentou:
— Uma pena que eles não poderão participar por causa do treino, mas espero que o braço mecânico funcione e que o Seu Zé goste, porque deu tanto trabalho pra conseguir um.
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“Também num gosto de carne”
Enquanto eu aguardava atendimento em um escritório de advocacia, um garotinho bastante animado, com seus cinco ou seis anos, me observava com um olhar de curiosidade.
— Qual é o seu nome, tio?
— David e o seu?
— Bruno…
— Você é forte, né, tio?
— Eu tento…
— É sim!
— Você deve comer muita carne pra ser forte assim…
— Por que você acha isso?
— Por que minha mãe diz que a gente precisa de carne pra ficar forte. Ah, então acho que você come muita carne.
— Não como não…
— É?
— É sim…
— Não precisa?
— Não, não preciso, ninguém precisa. Só que tem que comer direitinho pra não faltar nada, porque se você não come carne e fica doente as pessoas vão falar que é porque você não come carne. Então tem que se cuidar.
— Também num gosto de carne. Vou falar de você pra minha mãe, tio, e ver se ela deixa eu não comer também.
A secretária assistiu tudo e achou graça da nossa conversa. Quando os pais de Bruno saíram de uma das salas, ele se aproximou deles:
— Mãe, olha aquele tio ali, ele é forte e não come carne. Você disse que quem não come carne morre.
Com um sorriso amarelecido, a mãe não disse nada e o pai riu. Em segundos, atravessaram a recepção em direção à saída. Bruno sorriu mais uma vez.
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Por que você tem uma barba grande?
“Não tão preparando nenhuma maldade não, né, fio?”
No centro, encontrei um amigo que eu não via há um bom tempo. Assim como eu, ele também está bem barbudo.
— Mano, leio as histórias da sua barba. Você passa por cada uma, hein? Por que comigo não acontece nada? Ninguém me confunde nem com mendigo, cara.
— Cara, pra ser sincero, não tenho a mínima ideia.
De repente, passou uma velhinha segurando um guarda-chuva.
— Vocês são muito bonitos. São irmãos? Não tão preparando nenhuma maldade não, né, fio?
— Não, que isso, minha senhora…Aqui só tem gente de bem.
— Então tá bom, assim ninguém fica feio, e ninguém precisa juntar os pedaços de ninguém.
Quando a senhorinha se afastou, o amigo arreganhou os dentes:
— Vou andar mais vezes com você, mano.
E foi embora todo feliz por ser chamado de terrorista pela primeira vez.
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“Não, filho. Não pegue coisas do chão”
Na feira, enquanto eu selecionava salsinha, sem que eu o tocasse, um maço caiu da banca. Quando agachei, o peguei e coloquei na cesta, uma senhora chamou-me a atenção:
— Não, filho. Não pegue coisas do chão. Isso nunca é bom.
— Mas por que, senhora? Estou pegando do chão aquilo que veio do chão, que nasceu do chão.
— Hum…olhe, filho, nunca tinha pensado por esse lado – comentou sorrindo.
— Além disso, se ela pulou da banca, é porque quer ir embora comigo, não acha?
— É…acho que você tem razão… mas cuide bem dela. Não faça mal a ela, senão ela vai se arrepender de ter pulado da banca.
— Sim, acho que não posso decepcioná-la…
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“Bom, talvez eu não a tenha assustado tanto”
Terminando o meu treino de mobilidade na academia, enquanto eu estava pendurado em uma barra, notei uma garotinha, uma criança, me observando. Não olhei diretamente porque ela já parecia assustada me olhando.
— Com a barba desse tamanho e musculoso, deve ter se assustado, pensando que sou algum tipo de monstro; ou pelo menos um sujeito bem estranho.
Continuei ali por mais um ou dois minutos. Então caminhei até o outro lado da academia para guardar as minhas coisas na minha bolsa e beber água antes de ir embora. Notei que a garotinha estava novamente do meu lado e, assim como eu, bebendo água da própria garrafinha. Então concluí:
— Bom, talvez eu não a tenha assustado tanto.
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