David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘crime’ tag

Vivendo na Vila Alta

without comments

Garotos de 12 anos contam histórias sobre o cotidiano em um dos bairros mais pobres de Paranavaí

A Vila Alta também é um dos bairros mais marginalizados de Paranavaí (Foto: David Arioch)

Vila Alta, um lugar onde crianças passam por situações surpreendentes (Foto: David Arioch)

No último sábado, passei a tarde toda na Vila Alta, um dos bairros mais pobres e isolados de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Foi o suficiente para ouvir muitas histórias sobre a realidade de cinco garotos de 12 anos.

Enquanto brincavam, chamei a atenção de um e perguntei se sabia o significado do símbolo na camiseta que ele vestia. Respondeu negativamente com a cabeça e sanei sua curiosidade explicando que era o logotipo da banda cristã de metalcore (uma mistura de heavy metal com hardcore) Devil Wears Prada, dos Estados Unidos.

Quando questionei sua idade, hesitou um pouco, mas contou que tem 13 anos. O amigo ao lado o corrigiu, dizendo que são 12 anos. “Vixi, você não sabe nem sua idade!”, repreendeu. O garoto que vou chamar de R. para preservar a sua identidade justificou que nunca viu os próprios documentos. “Fica tudo com minha vó, ela que sabe dessas coisas”, se defendeu enquanto coçava a cabeça.

R. continuou falando e ressaltou que foi jogado na rua pela mãe quando tinha três anos. “Ela me batia muito, não gostava de mim. Quem me tirou da rua foi minha avó. Se não fosse por ela, eu ainda ‘tava’ lá”, garante. V. aproveita a confidência do amigo para revelar que seu pai sempre bate na sua mãe. Por isso, hoje só dorme na casa da avó. “Não consigo mais dormir com eles. Não durmo em nenhum outro lugar, só na minha avó”, enfatiza.

R.: "O que mais aparece é gente chamando pra roubar alguma coisa ou vender drogas" (Foto: David Arioch)

R.: “O que mais aparece é gente chamando pra roubar alguma coisa ou vender drogas” (Foto: David Arioch)

R., que abandonou a escola, assim como outros dois garotos de uma turma de cinco amigos, já passou muito tempo nas ruas. Com nove anos, além de usuário de drogas, se tornou “laranja” do narcotráfico. “Eu roubava [furtava] também. Um dia, a gente ‘passou a mão’ em uns canos de alumínio e levamos pra uma dona de um ferro-velho. Falamos que a Copel [Companhia Paranaense de Energia] descartou tudo no “Lixão”. Era mentira. A polícia veio atrás e a gente teve de correr”, explica. As histórias de R., contadas com singela inocência e peculiar ausência de noção moral, são confirmadas por um adulto que o conhece há mais de três anos.

Acostumados a passar bastante tempo fora de casa, é costume os garotos retornarem ao convívio familiar tarde da noite. “Fico na casa do V. até as 22h. Tem época que vou embora só pra dormir”, relata R. O tempo livre é ocupado jogando bola, matando passarinhos e brincando no bosque ou em uma área conhecida como “Barragem”.

O costume de matar animais não domésticos surgiu com a fome, mas acontece também de algumas crianças fazerem isso sem justificativa aparente. “Parei porque não é legal”, comenta A. O mais intrigante é que a maneira como falam sobre o assunto não demonstra crueldade, e sim falta de referência entre certo e errado, o que é permitido ou não.

É proeminente o desconhecimento sobre a importância da vida animal. Dois garotos disseram que raptaram filhotes de quati e diversas vezes perseguiram outros animais no Bosque Municipal de Paranavaí apenas por diversão. Esse tipo de situação é incentivada pelas atitudes dos mais velhos. Exemplo é um episódio protagonizado por um pai de família que aproveitou um incêndio no bosque para matar quatro macacos-prego em fuga. Um vizinho denunciou que o homem cozinhou, assou e comeu os animais, acompanhado da mulher e dos filhos.

“Aí já aconteceu de tudo. Teve uma época que a gente vivia fumando maconha lá dentro” (Foto: David Arioch)

“Aí já aconteceu de tudo. Teve uma época que a gente vivia fumando maconha lá dentro” (Foto: David Arioch)

“Aí já aconteceu de tudo. Teve uma época que a gente vivia fumando maconha lá dentro”, salienta R. enquanto aponta em direção a um buraco feito com alicate na cerca lateral do bosque. W. aproveita a “deixa” do amigo para confidenciar que há dois anos testemunhou um assassinato na “Barragem”. “Vi uma turma matando um cara com golpes de ferro de portão. Só me falaram pra sair de lá”, garante. O local é citado pelos moradores mais velhos como uma área neutra, onde facções criminosas resolviam desavenças e se livravam de cadáveres.

Curioso, um garoto ainda mais jovem e que não faz parte da turma pergunta se estou entrevistando eles. Respondo que sim e pede para escrever que o sonho dele é ter duas armas, andar de “carrão” com uma mulher no colo e ir pra “zona” tomar pinga. “É isso que quero pra minha vida”, complementa sorrindo.

Na sequência, R. lembra que há pouco tempo achou no “Lixão” um saco de balas de revólver. “Só tinha bala vermelha”, afirma. Da turma de cinco amigos, M. é o único que não reprovou na escola e se orgulha do feito, considerado raro entre os garotos do bairro que têm a mesma faixa etária. Muitos crescem sem incentivo para estudar.

Não é tão incomum encontrar crianças se alimentando de restos no Lixão (Foto: David Arioch)

Não é incomum encontrar crianças se alimentando de restos no “Lixão” (Foto: David Arioch)

“Falam que é bobeira, que estudar não vai dar em nada. Tem pai até que proíbe de ir pra escola”, assegura R. que mal sabe ler e escrever. Também é preocupante o quadro de analfabetismo funcional. Na Vila Alta, muitas crianças leem, mas poucas assimilam o aprendizado a ponto de explicar o que entenderam. Para reforçar o problema, cito como exemplo outra ocasião em que entrevistei dez garotos e seis disseram que estudaram em sala especial.

Em contraponto, é fácil perceber que muitos jovens do bairro são espertos e tem dons que não são aproveitados ou estimulados. Crentes de que o futuro dificilmente vai melhorar, acabam aceitando o convite para ingressar no mundo do crime. “O que mais aparece é gente chamando pra roubar alguma coisa ou vender drogas. Às vezes, você decide roubar porque ‘tá’ com fome”, destaca R., acrescentando que tem crianças do bairro que passam o dia na rua procurando algo pra comer, principalmente as que vivem a dura realidade do abandono ou ausência familiar.

Um dia, me deparei com uma criança no fim da Vila Alta, no “Lixão”, sentada sobre uma placa de “vende-se”, comendo restos de comida descartados por um restaurante do Centro de Paranavaí. Ela parecia não se incomodar com a presença de um urubu se alimentando da carniça de um cachorro a alguns metros de distância. Me aproximei, dei algum dinheiro, ela agradeceu assustada e foi embora. Moradores das imediações me informaram que essa cena não é incomum. “A sua intenção foi boa, mas pode acreditar que isso não vai acabar assim. Precisamos de muita ajuda aqui”, avalia a dona de casa Maria Cândida de Oliveira.

O dilema da agiotagem

without comments

Bruno Dalólio: “A situação chega a ponto em que o devedor se limita a pagar apenas os juros”

Bruno Dalólio: "Em poucos meses, os R$ 40 mil se transformaram em R$ 115 mil" (Foto: David Arioch)

Bruno Dalólio: “Em poucos meses, os R$ 40 mil se transformaram em R$ 115 mil” (Foto: David Arioch)

Em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, não são poucos os casos de pessoas com restrições de crédito que recorrem aos agiotas para conseguir empréstimos. Nessas circunstâncias, o problema maior surge quando o devedor se torna incapaz de honrar o pagamento mensal da dívida, se submetendo a cobranças de juros que chegam a 10% por mês, uma prática criminosa, de acordo com a Constituição Federal.

“Quando a dívida se torna acumulativa chega a ponto em que o devedor se limita a pagar apenas os juros, ou seja, a situação fica totalmente fora de controle”, explica o bacharel em direito e estudioso do assunto, Bruno Ricardo Dalólio que há muito tempo acompanha o dilema vivido por inúmeros paranavaienses que emprestaram dinheiro de agiotas.

Um exemplo é uma família de microempresários que enfrentava dificuldades financeiras, mas por estarem com restrições de crédito, pegaram R$ 40 mil de um usurário. “O empréstimo, na realidade, foi feito a um amigo deles. A idéia era dividir o valor, assim cada um pagaria metade todo mês. Só que o tal amigo fugiu com a maior parte do dinheiro e deixou a dívida com essa família”, explica Dalólio, acrescentando que como os devedores não tinham condições de arcar com o pagamento mensal a dívida ganhou proporções inimagináveis.

Em poucos meses, os R$ 40 mil se transformaram em R$ 115 mil e o agiota entrou em contato com a família, tentando coagi-los a pagar o valor total. O primeiro erro da família foi procurar um agiota. E claro, confiar no tal amigo ao ponto de permitir que os convencesse a passar a escritura de um imóvel residencial no nome do agiota, como garantia do pagamento da dívida. “Tudo isso serviu para fazer com que um ato ilegal parecesse legal. Em suma, foi uma prática de enriquecimento ilícito”, argumenta Bruno Ricardo, destacando que a gravidade da situação dificulta e muito a recuperação do imóvel.

A família que prefere não se identificar relata que para não ter problemas com a justiça o usurário mascara o empréstimo como se fosse o pagamento mensal de um aluguel. “É uma situação muito difícil. Nenhum de nós dorme há muito tempo. Estamos vivendo um pesadelo”, admite um dos inadimplentes. A matriarca da família, proprietária do imóvel repassado ao agiota, se emociona e chora durante a entrevista prevendo a possibilidade de perder a casa onde sempre morou. Na última avaliação imobiliária, foi constatado que a residência tem um valor venal de R$ 160 mil. Constrangido, um dos familiares enfatiza que o desespero motiva o ser humano a cometer atos dos quais se arrepende mais tarde.

É difícil provar que se trata de agiotagem (Arte: Reprodução)

Dalólio: “É difícil conseguir provas e testemunhas” (Arte: Reprodução)

Para Bruno Ricardo Dalólio, é importante que pessoas sensibilizadas por problemas financeiros não se deixem seduzir pelo momento, afinal os juros cobrados mensalmente por um agiota ultrapassam até mesmo o limite anual tolerado pelo Sistema Financeiro Nacional, com respaldo no Banco Central e no Conselho Monetário Nacional (CMN). “Na nossa cidade, há muitos outros casos parecidos, inclusive de pessoas que tentaram suicídio”, diz Dalólio. O Instituto Nacional de Defesa dos Consumidores Financeiros (Andif) qualifica a agiotagem como crime e recomenda que qualquer pessoa lesada preste queixe na delegacia.

O problema é que depois de feito o boletim de ocorrência acontece muito da vítima ser surpreendida com a resposta de que nada pode ser feito porque falta os requisitos de materialidade e autoria do crime. “Quando isso não é observado, eles arquivam sem contextualizar o problema”, reclama Bruno Ricardo.

É difícil provar que se trata de agiotagem

Uma das principais dificuldades de quem se envolve com agiotagem é justamente provar que a negociação se enquadra como prática onzenária. “É difícil reunir provas e até mesmo conseguir testemunhas. É o tipo de situação que pode se arrastar por anos na justiça até ter um desfecho”, avalia Dalólio.

Isso acontece porque o direito privilegia a forma. Segundo Bruno Ricardo, só documentos têm valor legal. “Existe muito conservadorismo na nossa justiça brasileira, até por parte dos advogados. É o senso comum teórico dos juristas. E assim, a pessoa perde um direito que deveria ser garantido porque o mais importante é o que está no papel”, lamenta e acrescenta que devido as manobras de agiotas há casos em que o fórum pode se tornar palco de negociação ilícita.

Dicas do Instituto Nacional de Defesa dos Consumidores Financeiros (Andif)

1 – Fuja dos agiotas e classificados de jornal que ofereçam dinheiro fácil.

2 – Jamais passe a escritura de um imóvel ou outro bem, a título de garantia, para nenhuma pessoa.

3 – Nunca peça dinheiro emprestado por telefone ou internet.

4 – Não assine notas promissórias, cheques, duplicatas em branco ou confissões de dívidas.

5 – Nunca forneça dados pessoais por telefone.

6 – As pessoas lesadas por práticas onzenárias (agiotagem) devem registrar, em primeiro lugar, queixa em um posto policial. Depois devem procurar um órgão de defesa do consumidor que pode fazer uma representação junto ao Ministério Público.

7 – Para os consumidores que passarem seus bens aos agiotas há recursos jurídicos que possibilitam reaver os imóveis.

“O pessoal dizia é meu e era mesmo”

with one comment

Pioneiros falam sobre a grilagem de terras nos anos 1940 e 1950

Tirapeli: “Naquele tempo, levava de um a dois anos para cortarem o terreno” (Acervo: Fundação Cultural)

Em 1946, o mineiro Enéias Tirapeli passou por uma situação vivida por muitos outros pioneiros de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, entre as décadas de 1940 e 1950: teve as terras griladas durante uma viagem de visita aos familiares.

Tirapeli contou que quando chegou a Paranavaí a colônia era administrada pelo marceneiro curitibano Hugo Doubek, também responsável por emitir documentações de imóveis que asseguravam o direito de posse. “Naquele tempo, quando um lote não custava nada, levava de um a dois anos para cortarem o terreno”, garantiu o pioneiro mineiro.

Certa vez, Tirapeli viajou até São Paulo para visitar a sogra e quando retornou a Paranavaí tinham grilado seus oito imóveis. “Perdi até as mandiocas que tinha plantado. O pessoal dizia é meu e era mesmo. Ninguém contrariava. Já tinha polícia aqui, mas não adiantava porque o costume era o sujeito construir em cima e se declarar dono”, afirmou o mineiro.

De acordo com a pioneira paulista Isabel Andreo Machado, era muito comum nas décadas de 1940 e 1950, as pessoas assumirem propriedades de terras sem terem qualquer documentação. “Havia muita briga e morte. Eu cheguei a ver o assassinato do sogro do Mauro Valério em frente à Caixa Econômica Federal por causa disso”, revelou a pioneira fluminense Palmira Gonçalves Egger.

Conforme palavras do pioneiro cearense João Mariano, o período mais intenso de crimes motivados pela posse de terras perdurou por mais de dez anos, de 1945 até 1956. “A partir de 1957 que a coisa começou a melhorar porque já havia uma boa força policial na cidade. Antes disso, Paranavaí era uma terra onde cada um fazia o que bem entendia. Quando o crime era causado por gente graúda a polícia não ousava interferir”, enfatizou Mariano que viu muita gente conhecida morrer em conflitos com grileiros por não querer abrir mão de um terreno.

João Mariano: “Algumas riquezas nasceram do sangue derramado na época da colonização” (Acervo: Fundação Cultural)

O cearense ainda declarou que em Paranavaí há pessoas que fizeram fortuna sobre a infelicidade alheia. “Algumas riquezas nasceram do sangue derramado na época da colonização. Mas cada um tem a sua consciência e sabe o que fez para chegar onde chegou. É uma justiça que não cabe aos homens colocar em prática”, comentou, acrescentando que alguns grileiros tinham amizade até mesmo com governadores e outras autoridades.

João Mariano frisou que sobreviveu ao período da grilagem de terras porque nunca se envolveu em conflitos de posses. “A vida vale mais que um pedaço de chão, ainda mais quando você tem uma família pra sustentar”, salientou. Em 1950, querer fazer justiça com as próprias mãos, bancar o corajoso e enfrentar tudo de “peito aberto” era quase um chamado para a morte. “Muitos grileiros nem sujavam as mãos, andavam rodeados de capangas que faziam o serviço por eles. Alguns a gente nunca soube quem eram. Os jagunços de quem se ouve falar eram como os laranjas do tráfico de drogas, ou seja, mesmo que morressem, isso não mudaria a realidade porque pois tinha gente grande por trás” disse Mariano.

O cearense lembrou um episódio chocante vivido por uma família que morava na zona rural de Paranavaí em setembro de 1953. Para evitar problemas, preferiu não citar nomes. “Eram meus vizinhos, sete pessoas, dois adultos e cinco crianças que trabalhavam como colonos numa roça perto de Alto Paraná. O homem tinha conseguido juntar um dinheirinho ao longo de anos pra comprar uma chácara perto da cidade”, relatou. Uma semana depois da negociação, a família foi surpreendida por três capangas que tentaram expulsá-los de suas terras.

Como a visita inesperada aconteceu à tarde e havia vizinhos observando, inclusive o pioneiro João Mariano, os homens foram embora e retornaram de madrugada. Invadiram o casebre e assassinaram a tiros toda a família, deixando rastros de sangue pela casa. “Não pouparam nem as crianças que tinham entre cinco e doze anos. Me falaram que uma delas estava segurando uma bonequinha de espiga de milho toda ensanguentada. Teve gente que entrou lá pra ver, mas eu não tive coragem. A polícia só apareceu no local dois dias depois do crime”, reclamou João Mariano, confidenciando que jamais esqueceu o “cheiro” de tantas mortes.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Um crime sem solução

with 3 comments

Mulher foi assassinada na propriedade onde construíram a Escola Elza Caselli

Cenário de um crime nos anos 1950 (Foto: David Arioch)

Nos anos 1950, muitos migrantes chegavam a Paranavaí, no Noroeste do Paraná, sem qualquer documento de identificação. Então quando acontecia algum homicídio era muito difícil reconhecer a vítima ou criar uma lista de suspeitos. Dependendo da situação, o caso sequer era solucionado. Exemplo foi o assassinato de uma mulher na propriedade onde foi construída a Escola Municipal Professora Elza Grassiotto Caselli.

Certo dia, uma criança que deixou o Ceará e se mudou para Paranavaí com a família estava guiando o gado pelas imediações de uma área erma e silvestre. Ao sentir um mau cheiro que vinha do matagal logo em frente, o garoto, mesmo curioso, não teve coragem de adentrar a mata. Quando chegou em casa contou ao irmão mais velho e pediu que fossem juntos até lá para descobrir a causa de tanto odor.

Segundo pioneiros, à época, o lugar ainda estava coberta por mata virgem, o que justificou o medo do garoto em entrar no local sozinho. Depois de caminharem dezenas de metros, os dois irmãos viram um cadáver já em estado avançado de decomposição. O corpo estava irreconhecível e só foi possível saber que era uma mulher por causa das roupas.

Não havia nenhum documento de identificação junto ao cadáver, somente inúmeras garrafinhas de fortificante Biotônico Fontoura. Hipoteticamente, a mulher era uma jovem migrante de origem humilde que veio a Paranavaí em busca de melhores condições de vida. O corpo foi encontrado poucos dias depois do crime. Suspeita-se que a moça sofreu assédio, não cedeu e acabou assassinada.

À época, o local era coberto por mata virgem (Foto: David Arioch)

Infelizmente, a mulher foi tratada como indigente e logo a polícia desistiu das investigações. O caso jamais foi solucionado. A partir desse assassinato, a população local se uniu e tomou a iniciativa de exigir que todos os moradores de Paranavaí portassem documentos, o que era raro numa época em que muita gente negociava apenas com a garantia da palavra.

Entretanto, quem não concordasse em tirar os documentos não poderia fixar residência na cidade. Anos depois, com o desenvolvimento de Paranavaí, o matagal que um dia serviu como palco de um crime contra uma jovem migrante foi derrubado, dando espaço a Escola Municipal Professora Elza Grassiotto Caselli, no Jardim Farroupilha, nas imediações da “Rodoviária Nova”.

Saiba Mais

O garoto que encontrou o corpo da jovem assassinada é irmão do pioneiro Joaquim Ferreira.

O covarde assassinato de Alcides de Sordi

with 9 comments

Jovem idealista foi morto na entrada da delegacia com a conivência da polícia

Capitão Telmo assumiu autoria do assassinato de Alcides de Sordi (Foto: Reprodução)

Em 1947, o jovem Alcides de Sordi ficou conhecido em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, como defensor dos interesses dos mais pobres. No ano seguinte, por representar uma ameaça ainda maior aos abastados, foi assassinado dentro da delegacia com a conivência das autoridades.

Paranavaí ainda era distrito de Mandaguari quando houve aqui um dos crimes mais polêmicos da história local, lembrado até hoje pelos pioneiros: o homicídio de Alcides de Sordi, de 21 anos, membro da União Democrática Nacional (UDN). Alcides começou a chamar a atenção da colônia por ter uma participação política bastante ativa.

Naquele tempo, Paranavaí era administrada pelo marceneiro Hugo Doubek que depois foi transferido para Curitiba. “Na oportunidade, o Capitão Telmo Ribeiro decidiu colocar o João Carraro para assumir a inspetoria de terras”, lembrou o ex-prefeito Ulisses Faria Bandeira em entrevista à Prefeitura de Paranavaí décadas atrás.

A partir daí, nasceu uma animosidade entre o capitão Telmo, membro do Partido Social Democrático (PSD), e o grupo político de Alcides que não concordava com a substituição, tanto é que realizaram um abaixo-assinado e colheram mais de cem assinaturas para tirar o novo inspetor do cargo.

A iniciativa surgiu quando Alcides de Sordi descobriu que Carraro estava dando terras de uma área conhecida como Água Nova para amigos do governador Moisés Lupion, com a conivência do engenheiro Alberto Gineste. João Carraro não aguentou a pressão e deixou a função pouco tempo depois. Alcides aproveitou a oportunidade para entrar em contato com Hugo Doubek, o convencendo a reassumir o cargo em Paranavaí. Ao retornar de viagem, Telmo Ribeiro soube do acontecido. “Ele fez uma promessa de passar uma bala na cabeça do Alcides. Com medo, muita gente foi embora daqui”, relatou o pioneiro mineiro Arlindo Francisco Borges em entrevista à prefeitura.

A polêmica sobre quem assumiria em definitivo o cargo de administrador do distrito durou mais de um mês, até que Doubek decidiu voltar para Curitiba. Então Alcides de Sordi fez um convite a Faria Bandeira para comandar a inspetoria. Ulisses Faria hesitou, mas depois aceitou. “Aqui dava medo porque o povo andava de carabina de dia e de noite”, revelou o pioneiro paraibano Cincinato Cassiano Silva.

Após alguns meses, a situação parecia normalizada e ninguém mais comentava sobre o conflito político. À época, Telmo Ribeiro, que representava o Governo do Paraná na colônia, tentou subir o preço dos títulos de terras. “O alqueire custava 80 mil réis e ele quis aumentar para 500 mil. O Alcides achou que era muito dinheiro para o pessoal daqui, pois a maioria era pobre”, assinalou o pioneiro paulista João da Silva Franco, complementando que grande parte dos moradores de Paranavaí tinha condições de pagar no máximo 150 mil réis por alqueire. Indignado, de Sordi viajou até Curitiba para registrar uma queixa formal contra o capitão Telmo.

Telmo Ribeiro assume autoria do homicídio

No dia 12 de outubro de 1948, poucos dias depois de retornar de viagem, quando estava em casa plantando feijão, Alcides de Sordi recebeu um convite para ir até a delegacia conversar com o sargento Marcelino, a maior autoridade policial da colônia. “Falaram a ele que o sargento faria uma viagem e precisava que ele o substituísse por um tempo”, frisou João Franco.

Naquele dia, Cincinato Cassiano foi levar comida para o cunhado que estava trabalhando em uma chácara. No caminho, encontrou Alcides indo ao encontro do sargento. “Houve uma discussão na delegacia e quando o de Sordi estava saindo meteram-lhe uma bala pela nuca que varou pela testa”, enfatizou Arlindo Borges, acrescentando que a morte foi instantânea. Outros pioneiros dizem que o rapaz levou sete tiros e logo após o acontecido Telmo Ribeiro, Oscar Camargo e o engenheiro Alberto Gineste fugiram em um automóvel e se esconderam na Fazenda Tabajara, nas imediações de Guairaçá.

Especula-se que pouco antes do crime tenham pressionado Alcides para não se envolver mais com política. Além de Ribeiro, Camargo e Gineste, estavam José Francisco, o sargento Marcelino, os soldados Olívio e Francisco e o paraguaio Marciano. Há suspeitas de que Frutuoso Joaquim de Salles, o baixinho Idalécio e outros pioneiros não identificados estavam no local do assassinato. “Tudo foi preparado e quem estava lá sabia o que iria acontecer”, informou Franco. Mesmo após o assassinato, nenhuma das testemunhas saiu em defesa de Alcides.

Parte da população soube do crime durante cerimônia de crisma (Foto: Reprodução)

Naquele dia, o bispo de Jacarezinho, Dom Geraldo de Proença Sigaud, estava realizando uma cerimônia de crisma em Paranavaí. Durante a solenidade muita gente chorou pela morte do rapaz. Todos aqueles que eram do grupo político de Alcides de Sordi deixaram Paranavaí dias depois. “Quase cem pessoas foram embora, largando sítio e até família”, comentou Borges.

O capitão Telmo Ribeiro assumiu a autoria do assassinato. Em primeira instância, foi condenado a doze anos de reclusão. Recorreu e foi absolvido em 10 de março de 1950. Ribeiro trabalhava para o governo paranaense e tinha grande influência política. Esperto e carismático, o capitão cultivava amizade com o ex-interventor federal Manoel Ribas e com o governador Moisés Lupion. “O Telmo assumiu, mas quem deu o primeiro tiro foi o engenheiro Alberto Gineste que viveu em Paranavaí até morrer de desgosto”, testemunhou João da Silva.

Franco lembrou que muita gente queria se juntar para matar Ribeiro. João de Sordi, pai de Alcides, não concordou. Disse que entregava a Deus porque acreditava que ele faria justiça. De acordo com a pioneira fluminense Palmira Gonçalves Egger, homens armados percorreram a colônia o dia todo ao longo de 20 dias após o acontecido. Alguns pioneiros afirmaram que eram membros de um grupo conhecido como “Capa Preta” que simpatizava com Alcides de Sordi. “Isso assombrou a cidade”, ressaltou Palmira. Mais tarde, o fato fez com que Telmo Ribeiro se afastasse da política.

Saiba Mais

Em 1950, segundo relatos de pioneiros, o advogado Accioly Filho, deputado estadual pelo PSD, que representou o réu Telmo Ribeiro, expediu um boletim com as palavras: “…e assim senhores do Conselho de Sentença, em nome do Partido Social Democrático, eu vos peço que absolvam este nosso correligionário que se acha no banco dos réus, porque ele, embora seja um criminoso, é do governo.”

Curiosidade

Alcides de Sordi era filho do casal João de Sordi e Angela Locatelli de Sordi, de São José do Rio Pardo, interior paulista, que se mudaram para Paranavaí em 1947. O casal veio com o mesmo objetivo de outros pioneiros, proporcionar melhor qualidade de vida aos cinco filhos. Na colônia, o primeiro negócio da família foi a instalação de uma máquina beneficiadora de arroz.

Frases dos pioneiros sobre Alcides de Sordi

Enéias Tirapeli

“Coitado do rapaz, estava plantando feijão e mandaram chamar ele lá. Foi o maior tiroteio. Ele caiu morto perto da porta da cadeia. Foi por causa de política, ele era um rapaz muito bom, do PTB.”

João da Silva Franco

“Alcides de Sordi era um rapaz muito bom, solteiro, humilde e inocente. O povo contava que achavam o Alcides competente para ser o administrador geral da colônia.”

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar: