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Empédocles, um pré-socrático contra o derramamento de sangue dos animais
Em “Retórica”, Aristóteles escreveu que Empédocles era contra a matança de qualquer criatura
Sempre que se fala nos filósofos da Grécia Antiga, e na forma como eles influenciaram o vegetarianismo, surgem controvérsias. Alguns alegam que vários filósofos gregos apontados como vegetarianos somente se abstiveram da carne. Outros dizem que a defesa de uma dieta livre de ingredientes de origem animal normalmente tinha como motivação uma crença espiritual, principalmente a transmigração de almas; assim os julgando como antropocentristas.
Porém, mesmo que isso seja verdade, ainda é possível citar filósofos gregos que, de algum modo, contribuíram para a discussão sobre o vegetarianismo e os direitos animais, mesmo que sob viés polêmico. Ainda que, a princípio, suas ideias tenham sido pautadas a partir das consequências das ações humanas, e o que isso significaria propriamente à humanidade, o filósofo pré-socrático grego Empédocles (490-430 a.C), o pai da retórica, defendia que é preciso seguir o princípio do amor em relação a todas as espécies; portanto, abster-se de violência e derramamento de sangue, o que já figurava como uma defesa da compaixão e do direito dos animais à vida, de acordo com o livro “Animal Suffering: Philosophy and Culture”, da finlandesa Elisa Aaltola.
Rod Preece, autor do livro “Sins of the Flesh: A History of Ethical Vegetarian Thought”, segue pela mesma linha de raciocínio, e diz que, dos pitagóricos, Empédocles foi o que mais dispensou atenção à sensibilidade animal, mesmo que julgado, como ainda pode acontecer hoje, como um filósofo com uma percepção mística dos animais. “Ele era considerado um tipo de xamã em sua prática, e às vezes um extremista em suas visões. Mas podemos ver no mínimo um elemento de ética animal em suas expressões. Naturalmente, suas razões refletem seu ascetismo primário”, declara Preece.
Avesso às religiões tradicionais, Empédocles demonstrava uma forma singular de espiritualidade, até por influência de Pitágoras. O filósofo que tinha como motivação a busca pela verdade e pela virtude, abominava o sacrifício de animais. “Empédocles, como outros vegetarianos órficos-pitagóricos, lembra a Era de Ouro, em que o assassinato, a ira e a discórdia não reinavam, e em que o abate de animais, como particularmente um sacrifício aos deuses, era visto como uma ‘impureza’”, escreveram Kerry S. Walters e Lisa Portmess em “Religious Vegetarianism: From Hesiod to the Dalai Lama”.
Idealista, Empédocles dizia que não era tarde demais para os seres humanos deixarem a caverna em que se aprisionaram e, como Perséfone, conquistarem a oportunidade de experimentar o renascimento espiritual. Porém, a condição maior para essa mudança seria a recusa em continuar derramando sangue. E isso, naturalmente, e em parte, significaria um retorno à dieta vegetariana pacífica da perdida Era de Ouro.

O derramamento de sangue é o pecado de uma poluição que afasta os seres humanos da divindade (Arte: Wellcome Library, Londres)
Na observação feita por Walters e Portmess fica claro que, na defesa de Empédocles, ele apelava à espiritualidade humana e as consequências do consumo para quem via os animais como comida; talvez, não apenas por realmente acreditar nisso, mas também por entender que o ser humano não seria tocado simplesmente pela compaixão pelos animais.
“O derramamento de sangue, afirma ele, é o pecado de uma poluição que afasta os seres humanos da divindade e traz a retribuição do renascimento contínuo. A alma do assassino é forçada a uma cansada e desabrigada ronda de transmigrações. […] e o abate de animais é o que garante a continuidade da violência“, cita o livro “Religious Vegetarianism: From Hesiod to the Dalai Lama”, em referência a fragmentos de um manuscrito do poema “Purificações”, do filósofo grego.
Para Empédocles, se recusando a consumir animais, o ser humano evitaria ter sua alma aprisionada no corpo de um animal; alegando que os corpos dos animais que comemos se tornam, nas próximas vidas, moradas de almas punidas. Apesar dessa perspectiva considerada limitante no contexto do vegetarianismo, o filósofo grego também sugeria que todas as criaturas têm direito à justiça, segundo Gordon Lindsay Campbell no livro “The Oxford Handbook of Animals in Classical Thought and Life”.
Mesmo que citasse deuses e a transmigração de almas em sua defesa da abstenção de carne, e por isso muitos vejam uma relação próxima de Empédocles com o vegetarianismo de viés religioso, o professor Christian Wildberg, da Universidade de Princeton, que tem uma extensa pesquisa desenvolvida na área de filosofia antiga, argumenta que o vegetarianismo de Empédocles foi uma poderosa ferramenta de ataque à religião grega tradicional, condenando massivamente a realização de sacrifícios de animais.
Sendo assim, e também levando em conta que de toda a sua produção restaram apenas dois trabalhos parciais – os poemas “Purificações” e “Na Natureza”, não é possível dizer com certeza qual era a sua maior motivação no que diz respeito ao vegetarianismo; talvez estivessem além do que foi legado à humanidade.
Parafraseando John Rundis em “The Vegetarianism of Empedocles in Its Historical Context”, Stephen T. Newmyer, professor da Universidade Duquesne e pesquisador da questão animalista, argumenta que o vegetarianismo de Empédocles pode ser visto como uma declaração política que se opôs à identificação aristocrática do sacrifício animal. Isto porque o consumo de carne à época já era associado à barbárie e à glutonaria, já que os cidadãos de maior poder aquisitivo sempre “reivindicavam primeiro a maior porção de carne”.
Tal observação pode ser corroborada pelo estilo de vida idealista do filósofo grego. Embora não haja tantas informações sobre sua vida, sabe-se que o pai de Empédocles, Meto, foi um dos responsáveis pela derrubada do tirano Agrigento, que comandou Acragas, na região da Sicília, até por volta de 470 a.C.. Empédocles, deu continuidade à tradição familiar, sendo crucial na deposição de outros oligarcas. Dizem que, mais tarde, quando ofereceram-lhe o comando da cidade, ele recusou.

A questão de parentesco entre seres humanos e animais teve grande peso sobre a consciência do filósofo grego (Arte: Reprodução)
“Empédocles acreditava amplamente em princípios igualitários, era considerado um vegetariano e respeitava os direitos animais, acreditando que todos os seres vivos têm espíritos. Era um forte defensor da democracia. […] Desprezava abertamente a glorificação dos indivíduos e era conhecido por condenar o materialismo consumista e a gula dos cidadãos de Acragas”, escreveu Vincenzo Mormino em 2007 na revista “Best of Sicily”. Há estudiosos que afirmam que filosoficamente as ideias de Empedócles influenciaram o naturalista britânico Charles Darwin a escrever a teoria da seleção natural.
Em “Retórica”, Aristóteles escreveu que Empédocles era totalmente contra a matança de qualquer criatura, alegando que era injustificado e injusto os seres humanos matá-los. A questão de parentesco entre seres humanos e animais teve grande peso sobre a consciência do filósofo grego, segundo o livro “The Animal and the Human in Ancient and Modern Thought: The ‘Man Alone of Animals’ Concept”, de Stephen T. Newmyer. “Empédocles só falou em termos de uma lei universal [nomimon], a lei contra matar animais. É Aristóteles quem escreve a lei de Empédocles como [sendo] natural”, comenta Richard Sorabi em “Animal Minds and Human Morals: The Origin of the Western Debate”.
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Empédocles é o nome mais importante da escola plurarista, que reconhecia a não existência de um princípio único que explique todo o universo. Ele estudou com Pitágoras e foi um dos primeiros cientistas a sugerir que a luz viaja a uma velocidade constante. Embora Empédocles viveu muitos antes de Arquimedes, os dois tinham muito em comum.
“Purificações” e “Na Natureza”, suas duas únicas obras remanescentes, tinham 5 mil linhas, mas restaram apenas 500; e acredita-se que na realidade “Purificações” seja uma introdução ao poema “Na Natureza”.
Ele afirmava que tudo que compõe a natureza é formado por terra, ar, água e fogo, misturados ou não.
Referências
Campbell, Gordon Lindsay. The Oxford Handbook of Animals in Classical Thought and Life. Oxford University Press (2014).
Cleary, John J. Gurtler, Proceedings of the Boston Area Colloquium in Ancient Philosophy, Volume 7. University Press of America (1992).
Preece, Rod. Sins of the Flesh: A history of Ethical Vegetarian Thought. Página 92. UBC Press (2009).
Walters, S. Kerry. Portmess, Lisa. Religious Vegetarianism: From Hesiod to the Dalai Lama. State University of New York Press (2001).
Aaltola, Elisa. Animal Suffering: Philosophy and Culture. Página 68 (2012).
Newmyer, Stephen. The Animal and the Human in Ancient and Modern Thought: The ‘Man Alone of Animals’ Concept. Routledge (2016).
Newmyer, Stephen. Animals, Rights and Reason in Plutarch and Modern Ethics. Routledge; 1 edition (2005).
http://www.bestofsicily.com/mag/art242.htm
http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus%3Atext%3A1999.01.0258%3Abook%3D8%3Achapter%3D2
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Para o filósofo grego Teofrasto, a humanidade tem uma dívida de justiça para com os animais
Sucessor de Aristóteles dizia que matar os animais é uma forma de perpetuar danos injustificáveis

Sucessor de Aristóteles, o filósofo grego Teofrasto (372 a.C 287 a.C) defendia, segundo Porfírio em “De Abstinentia”, que a humanidade tem uma dívida de justiça para com os animais porque o futuro da existência como um todo depende do equilíbrio entre humanos e animais, o que exige também que os seres humanos se abstenham de sacrificá-los e de comê-los.
Para Teofrasto, explorar, torturar ou matar animais significa privá-los de suas vidas, porque assim perpetua-se um ciclo de danos injustificáveis. A crítica do filósofo grego serviu como referência ao filósofo dos direitos animais estadunidense Tom Regan para argumentar que a morte dos animais é moralmente errada porque é uma forma de privação da oportunidade de experimentar qualquer escolha futura, o que leva à conclusão de que a morte dos animais como consequência da exploração racionalmente humana é uma perda irrecuperável, ou seja, final.
Pesquisador da questão animalista na Grécia Antiga, o filósofo estadunidense Stephen Newmyer, professor da Universidade Duquesne, em Pittsburgh, na Pensilvânia, diz que um dos conceitos-chave desenvolvidos por Teofrasto, e que influenciaria os direitos animais, é o conceito de oikeiotes, que combina ideias de pertencimento, parentesco e relacionamento. As primeiras referências estão registradas em “De Abstinentia”, de Porfírio, quando discorre sobre a filosofia de Teofrasto.
O discípulo de Aristóteles acreditava no parentesco humano com os animais, que necessitavam de um tratamento mais empático e justo por parte dos seres humanos. “Esta mesma compaixão pelos animais como criaturas sofredoras inspirou Teofrasto a desenvolver o conceito de Oikeiotês, que está em evidência no tratamento que Porfírio dá aos animais em ‘De Abstinentia’”, declara Newmyer no livro “Animals, Rights and Reason in Plutarch and Modern Ethics”, publicado em 2005.
Em “De Pietate”, Teofrasto discute as precedentes especulações gregas em torno da racionalidade animal, caminhando para o que se pode chamar de questões de familiaridade na relação entre seres humanos e outros animais. Por isso, assim como “De Esu Carnium”, de Plutarco, “De Pietate” é considerada uma das duas defesas mais antigas do estilo de vida vegetariano – e referência em direitos animais. De acordo com Newmyer, “De Abstinentia”, de Porfírio, oferece uma defesa cuidadosa da ideia de que o homem primitivo só seria capaz de não matar um animal ao reconhecer nele algum tipo de parentesco.
Na ótica de Porfírio, os seres humanos não se assemelham aos outros animais somente no que diz respeito às paixões, pulsões e sentidos, mas também, em níveis distintos, nas faculdades de raciocínio. Portanto, o conceito Oikeiotês concedeu status moral aos animais e os colocou dentro da preocupação moral humana. “A relação que os animais têm com os seres humanos é, em sua opinião, de natureza jurídica, pois os seres humanos devem tratamento justo às criaturas que são relativamente semelhantes a ele em suas capacidades mentais”, reforçou Stephen Newmyer.
Também defendida por Pitágoras, a concepção de parentesco entre seres humanos e outros animais foi ofuscada por Aristóteles que, seguindo por outra via, encontrou maior aceitação em uma sociedade cada vez mais antropocêntrica. “Os agrupamentos irracionais ocorrem tão somente pelo instinto, pois, entre os animais, somente o homem possui a razão, tendo noções de bem e mal, justo e injusto”, simplificou Aristóteles. Afirmações como essa serviram como justificativa para que o ser humano continuasse subestimando a capacidade animal, colocando-os em um nível de inferioridade que influenciaria mais tarde a maneira como os seres humanos continuariam se relacionando com os animais.
No entendimento de Aristóteles, os animais “irracionais” não possuem capacidades mentais para assegurar que seus interesses sejam respeitados. Por outro lado, o seu discípulo Teofrasto, além de reconhecer a existência do intelecto animal, viu exatamente nessa suposta incapacidade animal apontada por Aristóteles uma razão moral para que os seres humanos não se colocassem acima dos animais nem se aproveitassem de sua vulnerabilidade. E esse aspecto da filosofia aristotélica teve continuidade com influentes pensadores como o italiano Tomás de Aquino.
Sendo assim, o interesse de Aristóteles pela questão animal difere substancialmente do interesse de seus discípulos, como Teofrasto, que reconheceu o direito à vida animal. O caso de Aristóteles contra a racionalidade animal possivelmente tinha apenas intenções parcialmente científicas, sem ponderar sobre as consequências morais de seus argumentos.
Porém, foi exatamente essa negação aristotélica que formou parte da base da atitude cristã ocidental em relação aos animais como criaturas que poderiam ser privadas de justiça e da própria existência, e mais – que poderiam ser usadas como o ser humano bem entendesse. Uma conclusão que também é partilhada por Newmyer.
Também foi esse caminho trilhado por Aristóteles, sem antever o futuro, que impediu que teorias filosóficas mais empáticas aos animais, como as de Pitágoras, Teofrasto, Plutarco e Porfírio fossem lançadas à luz, não à escuridão. Assim não é equivocado dizer que a consciência antropocêntrica que persiste ainda hoje é uma consciência de influência aristotélica.
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Teofrasto, grego de Eresso, em Lesbos, foi o sucessor de Aristóteles na escola peripatética. Ele chegou a Atenas ainda muito jovem, e inicialmente estudou na escola de Platão. Após a morte de Platão, ele se ligou a Aristóteles, que levou os seus escritos a Teofrasto. Quando Aristóteles fugiu de Atenas, Teofrasto assumiu o Liceu.
Ele presidiu a escola peripatética por 35 anos, período em que a escola se desenvolveu bastante -tinha mais de dois mil estudantes. Ele é considerado o “Pai da Botânica”, por causa de seus trabalhos com as plantas.
Após sua morte, os atenienses o honraram com um funeral público. Seu sucessor foi Estratão de Lâmpsaco. Teofrasto faleceu aos 85 anos, de acordo com Diógenes. Uma de suas frases mais famosas é: “Morremos apenas quando estamos começando a viver.”
Referências
Porphyry: On Abstinence from Killing Animals (Ancient Commentators on Aristotle). Bristol Classical Press; Reprint edition (2014).
Newmyer, Stephen. Animals, Rights and Reason in Plutarch and Modern Ethics – Páginas 20 a 25. Routledge; 1 edition (2005).
https://en.wikisource.org/wiki/1911_Encyclop%C3%A6dia_Britannica/Theophrastus
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Aristóteles e sua contribuição à negação dos direitos animais

Em relação aos animais, Aristóteles se precipitou e contribuiu negativamente
O interesse de Aristóteles pela questão animal difere substancialmente do interesse de seus discípulos, como Teofrasto, que reconheceu o direito à vida animal.
O caso de Aristóteles contra a racionalidade animal tinha apenas intenções parcialmente científicas, sem ponderar sobre as consequências morais de seus argumentos.
E foi exatamente essa negação aristotélica que formou parte da base da atitude cristã ocidental em relação aos animais como criaturas que poderiam ser privadas de justiça e da própria existência, e mais – que poderiam ser usadas como o ser humano bem entendesse.
Também foi esse caminho trilhado por Aristóteles, sem antever o futuro, que impediu que teorias filosóficas mais empáticas aos animais, como as de Pitágoras, Teofrasto, Plutarco e Porfírio fossem lançadas à luz, não à escuridão.
Assim não é equivocado dizer que a nossa consciência antropocêntrica que persiste ainda hoje é uma consciência de influência aristotélica.
Voltaire: “Os sofrimentos de um animal nos parecem males, porque, sendo animais nós mesmos, sentimos que deveríamos incentivar a compaixão”
“Animais têm suas faculdades organizadas como nós, recebem a vida e a geram da mesma maneira”

Voltaire: “Eles têm sentidos, sensações, ideias e memórias”
Em 2014, o professor de literatura francesa Renan Larue, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, lançou o livro Pensées Végétariennes (Pensamentos Vegetarianos), que reúne uma compilação de escritos do controverso ensaísta e filósofo iluminista francês François Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire.
“Animais têm suas faculdades organizadas como nós, recebem a vida como nós e a geram da mesma maneira. Eles iniciam o movimento da mesma forma e comunicam-no. Eles têm sentidos, sensações, ideias e memórias. Animais não são totalmente sem razão. Eles possuem uma proporcional acuidade de sentidos”, escreveu Voltaire em Lettres de Memmius à Cicéron (Cartas de Gaius Memmius a Cícero) em 1772.
Para o filósofo francês, animais não humanos são fundamentalmente importantes e devem ser vistos como tal. E o que o impulsionava a defender esse ponto de vista era o seu anseio de mostrar ao ser humano que o antropocentrismo, a ideia de que ele tem lugar privilegiado na natureza, portanto deve dominar outros seres vivos, é um atestado genuíno da jactância humana.
Embora não haja provas consistentes de que Voltaire tenha sido realmente vegetariano, aparentemente ele seguiu as recomendações do filósofo neoplatônico Porfírio. Além disso, ponderava que era um dever da humanidade assegurar o bem-estar dos animais.
Na década de 1760, quando Voltaire se aprofundou nos estudos da Grécia Antiga, incluindo nomes como Plutarco, Pitágoras e Porfírio, ele logo se interessou pelo vegetarianismo enquanto tema de pesquisa. A princípio, por uma questão particularmente dietética, e influenciada por Περὶ ἀποχῆς ἐμψύχων (De Abstinentia ab Esu Animalium), obra escrita entre os anos de 268 e 270, em que o filósofo grego Porfírio fala dos benefícios e da importância da abstinência do consumo de alimentos de origem animal.
A versão lida por Voltaire foi traduzida pelo historiador Jean Lévesque de Burigny, um homem pacífico e considerado um dos grandes acadêmicos franceses de seu tempo. A obra chegou às suas mãos em 1761.
“Você mesmo, quando estava conosco, confessou que uma dieta sem carne contribuía tanto para a saúde como para a resistência dos trabalhos filosóficos; e a experiência testifica que ao dizer isto você disse a verdade. Mas quando fui informado por certas pessoas de que empregastes argumentos contra aqueles que se abstiveram de comida de origem animal, não só padeci, mas fiquei indignado contigo, que, persuadido por certos sofismas frígidos e muito corruptos, se enganou”, escreveu Porfírio.
Com o tempo, Voltaire sentiu-se incomodado com a banalização e legitimação da crueldade envolvida na criação e no abate de animais. Em Traité sur la tolérance (Tratado Sobre a Tolerância), de 1763, ele relata, sem velar o espanto, que homens comiam animais, membro por membro, enquanto estes ainda estavam vivos. O que não é muito diferente do que acontece hoje principalmente com sapos, peixes, crustáceos e outros animais.
Embora muitas pessoas demonstrem ceticismo em relação às inclinações de Voltaire ao vegetarianismo e ao bem-estar animal, livros como Pensées Végétariennes lançam luz sobre a importância que o assunto teve na vida de um dos filósofos mais polêmicos da história da França. Voltaire atribuía ao homem a responsabilidade sobre o sofrimento dos animais que, segundo ele, optavam pelo abate ou massacre, ou ambos.

“Animais não são totalmente sem razão”
O ser humano é embrutecido pela naturalização do destino terrível dos animais que são colocados à nossa mesa. Sobre isso, Voltaire cita como exemplo crianças que choram com a morte do primeiro frango que eles veem matar, mas riem da morte do segundo. No artigo Viande, página 577 de Questions sur l’Encyclopédie (Perguntas Sobre a Enciclopédia), obra publicada entre os anos de 1770 e 1772, o francês questiona:
“Que bárbaro assassinará um cordeiro se esse cordeiro puder se defender num discurso comovente para não ser assassinado e canibalizado?” Crítico mordaz, Voltaire era bastante cético sobre as possibilidades da humanidade um dia aderir em massa ao vegetarianismo. Ele declarou que sob o disfarce da abstinência, até mesmo monges diziam desistir da carne, mas tornavam-se assassinos de solhas, linguados, perdizes e codornizes. Por outro lado, ele reconhecia que o vegetarianismo em essência existiu e poderia frutificar, embora não na proporção desejada.
Entre seus contemporâneos, o filósofo francês via bons exemplos em regiões da Índia, principalmente entre os fiéis praticantes do bramanismo. Em 1740, ele teve contato com muitas cartas de jesuítas que viajaram pela Índia, China e América. Reunidas em 34 volumes, deram origem ao livro Les Lettres édifiantes et curieuses (Cartas Edificantes e Curiosas), publicadas entre os anos de 1702 e 1776.
Quando estudou sobre a metempsicose ou transmigração de almas, Voltaire começou a crer que o respeito dos indianos pelos animais tinha relação com o receio de matá-los e renascerem noutra vida na forma das criaturas assassinadas. Assim como temiam que isso poderia afetar a passagem e a paz de seus parentes falecidos. Porém, em 1760, quando leu um possível manuscrito dos Vedas, intitulado Ezour Vedam, ele começou a entender que tratava-se de uma filosofia não supersticiosa.
Em 1763, Voltaire publicou um diálogo entre um frango capão e uma galinha. Uma das aves diz à outra que uma serva maldita a colocou sobre seus joelhos, enfiou uma longa agulha em sua nuca, agarrou seu ventre, o girou em volta da agulha, o rasgou e deu para que seu gato comesse. “Sou pacífica e nunca fiz nada de errado. Eu mesma nutri esses monstros, dando-lhes os meus ovos. Por que eu deveria ser castrada, cega, decapitada e assada?”, perguntou a galinha.
Em La Princesse de Babylone (A Princesa da Babilônia), de 1768, Voltaire narra que os pastores das imediações do Rio Ganges viviam em perfeita igualdade e jamais matavam seus rebanhos, porque era considerado um crime horrível matar e comer criaturas que são suas companheiras. No ensaio Il Faut Prendre um Parti (Devemos Tomar Um Partido), escrito entre os anos de 1772 e 1773, o filósofo francês afirma que a capacidade humana de sentir empatia pelos animais deve ser levada em conta quando se discute o conceito de maldade.
Para ele, o ser humano tem o hábito de discutir bem e mal levando em conta apenas a sua relação com seus semelhantes, excluindo o relacionamento que ele tem com outras espécies: “Os sofrimentos de um animal nos parecem males, porque, sendo animais nós mesmos, sentimos que deveríamos estimular a compaixão da mesma forma como se fosse em relação a nós.”
Referências
Voltaire. Renan Larue. Pensées végétariennes. La Petite Collection. Fayard/Mille et une nuits (2014).
Porphyry. On Abstinence From Animal Food. Kessinger Publishing (2006).
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Schopenhauer: “Os animais não são artigos fabricados para o nosso uso”
Eles acreditam e fazem com que os outros acreditem que a conduta humana para com os animais não tem nada a ver com a moral

A contribuição de Schopenhauer à discussão dos direitos animais é inegável (Pintura: Reprodução)
Em 1818, o filósofo alemão Arthur Schopenhauer publicou “O Mundo como Vontade e Representação”, consideradas uma das mais importantes obras da filosofia do século 19, e que influenciou o compositor alemão Richard Wagner e o escritor russo Liev Tolstói a se interessarem um pouco mais pelo vegetarianismo e pelos direitos animais.
Embora não haja provas de que Arthur Schopenhauer tenha sido vegetariano, a sua contribuição à discussão dos direitos animais é inegável, ainda mais levando em conta que ele foi um importante filósofo do Ocidente a abordar esses direitos sob a perspectiva da moralidade. Schopenhauer não concordava com a concepção antropocêntrica de que os animais existem simplesmente para servirem aos seres humanos.
Em seu trabalho, esse debate começou a ganhar bastante visibilidade nos livros “Ontologia” e “Ética”, segunda e quarta obra que compõem “O Mundo Como Vontade e Representação”. À época, o filósofo alemão considerou a moralidade cristã extremamente limitada e obtusa por contemplar somente os seres humanos. Sendo assim, pode-se dizer que a moralidade conveniente ao homem não é moralidade, já que a moralidade genuína depende de você não observar somente a si mesmo e as conveniências que envolvem apenas aqueles que são de sua própria espécie.
Schopenhauer também criticou a coisificação dos seres não humanos, o que acabou destacando não apenas a face predominantemente antropocêntrica da moralidade cristã como também de parte da moralidade filosófica, já que a exclusão de outras espécies também encontrou representatividade entre filósofos de seu tempo, o que vem se estendendo até a atualidade, já que muitos filósofos evitam abordar o tema. Esse tipo de conduta era vista por Schopenhauer como um tipo frequente de moralidade de conveniência.
Animais não são meros meios para quaisquer fins. Ao pensarmos que sim, somos coniventes com a violência contra outras espécies e incentivamos a exploração animal em todas as esferas, sendo permissivos inclusive com formas inimagináveis de privação e crueldade. E esse tipo de conduta em detrimento de outros seres vivos leva a um questionamento a respeito da nossa própria moralidade que não contempla ninguém além de nós mesmos. “É uma vergonha essa moralidade digna de párias […], chandalas, mlechchas e que não reconhece a essência eterna que existe em cada coisa viva, e brilha com significado inescrutável em todos os olhos que veem o sol”, escreveu Arthur Schopenhauer na página 173 do livro “O Fundamento da Moral”, publicado em 1840.
Para o escritor Howard Williams, autor do livro “The Ethics of Diet”, de 1883, e considerada uma das obras mais importantes da história do vegetarianismo ocidental, o que distinguia o filósofo alemão da maioria dos pensadores era a sua perspectiva mais singular e abrangente. Ele fez da compaixão o principal, a fonte exclusiva da ação moral. E a sua reivindicação dos direitos das espécies não humanas, em contraste com o silêncio dos moralistas comuns, é o que sempre lhe dará o direito de assumir posição excepcionalmente elevada entre os reformadores dos sistemas éticos, apesar de seus exageros e desvantagens em outros aspectos, segundo Williams na página 287 de “The Ethics of Diet”.
Na página 375 do livro “Parerga and Paralipomena: Short Philosophical Essays – Volume 2”, que reúne uma coleção de ensaios publicados em 1851, Schopenhauer diz que o mundo não é uma peça de maquinaria e os animais não são artigos fabricados para o nosso uso. “Não se contentarão facilmente em contemplar um animal raro e desconhecido; hão de querer também instigá-lo, irritá-lo, fazer-lhe brincadeiras desagradáveis e isto unicamente para se darem o sentimento da ação ou da reação; mas esta necessidade de excitar a vontade se revela, de modo efetivamente especial, […] expressão verdadeira do lado miserável da humanidade”, consta na página 29 do quarto livro, intitulado “Ética”, de “O Mundo Como Vontade e Representação”.
De acordo com Schopenhauer, a compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de caráter, assim afirmando que quem é cruel com as criaturas vivas não pode ser um bom homem. Além disso, no seu entendimento, tal sentimento flui manifestamente da mesma fonte de onde surgem as virtudes da justiça e da gentileza.
“Os saxões, quando conquistaram a Inglaterra, ainda não eram cristãos. No entanto, a língua inglesa mostra algo análogo no estranho fato de que todos os animais de gênero neutro são citados pelo pronome ‘it’, empregado a eles como se fossem coisas sem vida. Este idioma soa muito censurável, especialmente quando se fala de cachorros, macacos e outros primatas, e é inequivocamente um truque projetado para reduzir os animais ao nível de objetos inanimados”, criticou.

Para o filósofo alemão, a moralidade conveniente ao homem não é moralidade (Imagem: Reprodução)
Por outro lado, o filósofo citou como contraponto a realidade dos antigos egípcios que dedicavam todos os seus dias à religião e estavam acostumados a colocar um crocodilo, entre outros animais, na mesma abóbada com a múmia humana. “Na Europa, é um crime, uma abominação, enterrar um cão fiel no mesmo local onde repousa seu mestre, embora seja lá que talvez ele, com uma fidelidade e um apego desconhecido pelos filhos dos homens, aguardasse seu próprio fim”, declarou.
O pensador alemão também relatou que um dia leu sobre um caçador inglês que depois de matar um macaco não conseguiu mais esquecer o olhar moribundo que a criatura lançava sobre ele. Movido por remorso, jamais atirou em outro animal. “As pessoas de delicada sensibilidade, ao perceberem que em um ataque de mau humor ou raiva, ou sob a influência do vinho, puniram seu cão, seu cavalo ou seu macaco imerecidamente, desnecessariamente ou excessivamente, são apreendidas pelo remorso. Sentem a mesma insatisfação em relação a si mesmos, como quando estão conscientes de terem feito algum mal a um de seus companheiros. A única diferença – puramente nominal – é que, neste último caso, esse remorso, essa insatisfação é chamada de voz da consciência que se ergue em repreensão”, analisou Schopenhauer que qualifica essa reação como a voz da moralidade que surge mais docemente a partir da compaixão.
O britânico William Harris, um dos caçadores mais famosos de seu tempo, contou em sua biografia publicada em Bombaim, na Índia, em 1838, que nos anos de 1836 e 1837 viajou para longe no coração da África com a mera intenção de perseguir animais, algo que ele definia como uma de suas paixões. Em uma passagem, ele descreveu como atirou em seu primeiro elefante, uma fêmea. Na manhã seguinte, indo procurar seu alvo, ele descobriu que todos os elefantes tinham fugido da localidade, exceto um jovem elefante que passou a noite toda ao lado de sua mãe morta.
Vendo os caçadores, ele esqueceu completamente do medo e, com os mais claros e vivos sinais de tristeza desconsolada, caminhou até eles. Então moveu seu minúsculo tronco em direção a eles, como se pedisse ajuda. Sobre o episódio, narrou Harris: “Eu estava cheio do mais verdadeiro remorso pelo que tinha feito e me senti como se eu tivesse cometido um assassinato.” Para o filósofo alemão, reações como essa eram mais comumente encontradas nos ingleses que, segundo ele, eram mais compassivos que os outros povos europeus.
No livreto do Congresso da União Vegetariana Internacional (IVU) de 1957, consta um excerto em que Arthur Schopenhauer assinala que o esquecimento imperdoável ao qual os animais não humanos são relegados pelos moralistas da Europa é bem conhecido. Eles fingem que os animais não têm direitos. Acreditam e fazem com que os outros acreditem que a conduta humana para com os animais não tem nada a ver com a moral, que o ser humano não tem dever algum em relação aos animais.
“Uma doutrina revoltante, grosseira e bárbara. Não conheço oração mais bela do que a que os hindus de outrora usaram para fechar seus espetáculos públicos. Era: ‘Que todos os que têm vida sejam libertos do sofrimento…’”, enfatizou. Observações e reações como essa acompanharam Schopenhauer por toda a sua vida, fazendo com que ele ficasse conhecido como o maior intérprete das ideias budistas e hinduístas na Europa.
Embora não tenha fundado nenhuma escola de filosofia, o filósofo alemão exerceu grande influência sobre o existencialismo e a psicologia, principalmente a partir do quarto livro de “O Mundo como Representação e Vontade”. Na página 409 da obra completa, ele citou que quando Buda, ainda como Bodisatwa, colocou pela última vez uma sela sobre um cavalo para fugir da casa de seu pai em direção ao deserto, ele falou ao animal: “De longa data, tu me auxilias na vida e na morte; mas doravante cessarás de levar-me e de trazer-me. Leve-me daqui ainda uma vez, ó Kantakana, e quando tiver conquistado a lei [ou seja, quando ele for o Buda] não me esquecerei de ti.”
Sob a ótica das crenças do Ocidente e do Oriente, outra referência que realça a distinção no tratamento dado aos animais não humanos é a alusão à transmigração das almas, que fala que todos os sofrimentos que infligimos às outras criaturas devem ser expiados. O filósofo cita na obra “Ética”, do livro “O Mundo como Vontade e Representação”, que sob a perspectiva da metempsicose, a má conduta obriga o ser humano a retornar ao plano terreno sob a forma da criatura sofredora e desprezada, o que pode ser qualquer tipo de ser vivo, humano ou não.
Em 1872, o teólogo e exegeta (intérprete religioso) alemão David Strauss publicou o livro “Der alte und der neue Glaube”, que significa “A Velha e a Nova Fé”. Na obra, ele registrou que a história da violência e da criminalidade mostra que muitos torturadores e assassinos foram antes torturadores de animais. Para Strauss, a forma como uma nação trata outras espécies é um medidor do seu nível real de civilidade. “As raças latinas como sabemos, saem mal neste exame, nós alemães, não muito bem. O budismo fez mais nesta direção do que o cristianismo, e Schopenhauer mais do que todos os filósofos antigos e modernos juntos. Essa serena simpatia pela natureza senciente, que permeia todos os escritos de Schopenhauer, é um dos aspectos mais agradáveis de sua […] filosofia”, escreveu.
Referências
Schopenhauer, Arthur. O Mundo Como Vontade e Representação (1818).
Schopenhauer, Arthur. O Fundamento da Moral (1840).
Schopenhauer, Arthur. Parerga and Paralipomena: Short Philosophical Essays – Volume 2. Clarendon Press (2001).
Williams, Howard. The Ethics of Diet (1883).
Strauss, David. Der alte und der neue Glaube (1872).
http://www.ivu.org/history/europe19b/schopenhauer.html
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Vegetarianos na filosofia
Alguns dos maiores filósofos da humanidade, se não eram vegetarianos, pelo menos defendiam ou simpatizavam com o vegetarianismo. A mim, isso diz muito. Não que por terem sido vegetarianos eram superiores ou algo do tipo. Muito pelo contrário. Justamente porque não se viam como melhores que outras espécies que se debruçavam sobre importantes questões da existência que eram ignoradas por outros.
Agostinho da Silva: “Evito comer animal, coitado do bicho, que culpa tem ele que eu exista?”
Em 1990, o filósofo, poeta e ensaísta português Agostinho da Silva foi entrevistado por Herman José no programa “Conversas Vadias”, da Rádio e Televisão de Portugal (RTP), de Lisboa. Em um determinado momento, o apresentador perguntou a Agostinho como ele se alimentava, que tipo de cuidado ele tinha com a alimentação para ter chegado aos 84 anos em forma estupenda.
O filósofo deixou claro que não tinha nenhum cuidado em especial com a alimentação, simplesmente evitava comer animais. “Evito comer animal, coitado do bicho, que culpa tem ele que eu exista?”, declarou quando José o questionou sobre o motivo.
Outra curiosidade é que o pensador recusava que o chamassem de guru, visionário ou profeta. “Considero-me uma pessoa que tenta ser o mais simples possível, que deixa que a vida lhe traga os problemas que vai tentar resolver se puder. Mais nada”, respondeu a Herman José.
Vegetariano, Agostinho da Silva é tema da biografia “O Estranhíssimo Colosso”, de Antônio Cândido Franco, lançada em 2015 pela Quetzal Editores, de Portugal. Como bem observado pelo autor, Agostinho acreditava que os animais são nossos companheiros, não nossos escravos e vítimas.
O livro dividido em quatro segmentos aborda também o vegetarianismo do filósofo português que ficou famoso por andar indocumentado, prezar pela liberdade em suas mais variadas formas e dedicar sua vida a seguir na contramão da “normalidade”.
De acordo com Antônio Cândido, Agostinho da Silva se mudou para o Brasil em 1947, instalando-se em São Paulo e depois na Serra da Itatiaia, no Rio de Janeiro. Enquanto estudava entomologia, trabalhou no Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, e lecionou na Faculdade Fluminense de Filosofia (FFF). Entre os anos de 1952 e 1954, foi professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em João Pessoa.
Em parceria com o médico, historiador e escritor português Jaime Cortesão realizou um grande trabalho de pesquisa sobre a vida do diplomata brasileiro Alexandre de Gusmão. Agostinho continuou no Brasil até 1969, então retornou a Portugal, onde viveu até falecer em 3 de abril de 1994.
De acordo com o professor Nuno Sotto Mayor Ferrão, Agostinho da Silva foi não apenas um intelectual, mas também um empreendedor, já que no Brasil ele se empenhou na criação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Universidade Nacional de Brasília (UNB). “Ele também criou centros de estudos que ampliaram a compreensão da importância da lusofonia”, enfatizou Ferrão.
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Plutarco: “Só para ter um pedaço da sua carne, os privamos da luz do sol, da vida para que nasceram”

Plutarco: “Tomamos por inarticulados e inexpressivos os gritos de queixume que eles soltam e voam em todas as direções” (Arte: Reprodução)
“Chamas selvagens e ferozes outros carnívoros, os tigres, os leões e as serpentes, enquanto manchas no sangue as tuas mãos, e em espécie alguma de barbárie lhes ficas inferior.
E para eles, todavia, o assassinato é apenas o meio de se sustentarem; para ti, é uma lascívia supérflua. Aos inocentes, aos mansos, aos que não têm auxílio nem defesa — a esses perseguimos e matamos.
Só para ter um pedaço da sua carne, os privamos da luz do sol, da vida para que nasceram. Tomamos por inarticulados e inexpressivos os gritos de queixume que eles soltam e voam em todas as direções, quando na realidade são instâncias e súplicas e rogos que cada um deles nos dirige dizendo:
— Não é da verdadeira satisfação das vossas reais necessidades que queremos livrar-nos, mas da complacente luxúria dos vossos apetites.”
Excerto de “Do Consumo de Carne – Discurso Primeiro”, de Plutarco, escrito no final do século I.
Plutarco, que mais tarde adotou cidadania romana, foi um biógrafo e ensaísta grego, conhecido por obras antológicas como “Moralia” e “Vidas Paralelas”. Como filósofo, se inspirava principalmente em Platão. Seus trabalhos se voltam mais para a discussão de questões religiosas e morais. Esta segunda o levou a tornar-se um defensor do vegetarianismo. A Plutarco é atribuído o entendimento moderno do que foi a Grécia Antiga.
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Al-Ma’arri, o poeta “vegano” do século XI
Importante pensador árabe condenava a exploração animal em todos os aspectos

“Ele alcançou a originalidade quando ainda respirava o reminiscente ar de liberdade dos poetas pré-islâmicos da Era da Ignorância” (Arte: Reprodução)
Um dos mais importantes poetas árabes de todos os tempos, o sírio Abul ʿAla Al-Maʿarri ficou conhecido no século XI por sua postura antirreligiosa e por condenar a exploração animal em todos os aspectos. Uma de suas obras mais famosas, e que aborda a sua adoção de uma filosofia de vida que hoje se enquadraria como veganismo, é o poema “Já Não Roubo da Natureza”.
Aos quatro anos, Al-Ma’arri ficou cego depois de contrair varíola. Mais tarde, deixou Ma’arrat al-Numan, sua cidade natal, para estudar. O sírio foi para Aleppo e depois para a Antióquia, onde a cultura predominante era helenista. Também viveu em outras cidades. Até os sete anos, um de seus grandes professores foi Ibn Kalawayth, um famoso erudito persa do século X, referência em gramática árabe e exegese corânica, falecido em 980. Em “Risālat al-Ghufrān”, seu trabalho mais conhecido, Al-Ma’arri lamenta profundamente a morte de seu mestre.
A obra poética que poderia ser traduzida como “A Epístola do Perdão”, assim como o sagrado Livro de Arda Viraf, é considerada uma das obras que possivelmente influenciou Dante Alighieri a escrever “A Divina Comédia”, publicada entre 1304 e 1321. Em “Risālat al-Ghufrān”, Al-Ma’arri narra a viagem de um poeta para o céu e para o inferno, onde ele encontra os maiores nomes da literatura árabe sendo punidos e recompensados por seus trabalhos. Para confrontar as crenças islâmicas, Al-Ma’arri apresenta um céu também ocupado por pessoas não-muçulmanas.
“Ele alcançou a originalidade quando ainda respirava o reminiscente ar de liberdade dos poetas pré-islâmicos da Era da Ignorância. Assim como o autor de Eclesiastes, al-Ma’arri descreveu o mundo a partir de um ponto de vista distanciado, aristocrático e ligeiramente desdenhoso”, analisam Cyril Glassé e Huston Smith na página 278 do livro “The New Encyclopedia of Islam”, de 2008.
Se por um lado, o sírio era visto como um racionalista controverso e pessimista que se dedicava a criticar o cristianismo, judaísmo, islamismo e zoroastrismo, por outro, ele advogada em nome da justiça social e dos direitos animais. As suas principais ferramentas de conscientização eram a sua produção literária e os seus discursos. Se sentia tão incomodado com os rumos da humanidade que chegou a dizer que talvez o melhor caminho fosse a anti-natalidade. No seu entendimento, era a forma mais eficaz de poupar as crianças das dores da vida.
Al-Qifti, renomado escritor egípcio da literatura islâmica medieval registrou que durante viagem para Trípoli, Al Ma’arri visitou um mosteiro perto da Lataquia, onde ouviu um debate sobre filosofia helênica. A discussão despertou nele um sentimento de ceticismo e irreligiosidade. O biógrafo e historiador sírio Ibn al-Adim rejeita essa versão, alegando que Al Ma’arri jamais teve contato com culturas não-islâmicas. Embora não haja consenso sobre esse aspecto de sua vida, ele jamais deixou de criticar a religião em seus versos. Em “As Duas Verdades Universais”, o poeta sírio escreveu:
Erram todos – judeus, cristãos,
muçulmanos e masdeístas:
A humanidade segue duas seitas:
Uma: pensadores sem religião,
Outra: religiosos sem cabeça.
A sua maior rejeição em relação à religião subsistia no fato de que os discursos dos profetas sempre foram baseados em afirmações inquestionáveis. Por essa sua posição, Ma’Arri um dia foi arrastado pelos pés para fora da casa do erudito islâmico e poeta Sharif al-Radi, em Bagdá. O erudito islâmico Ibn al-Kawzi, descendente de Abu Bakr, companheiro do profeta Maomé, o acusou de ser um zindiq, ou seja, alguém contrário aos dogmas islâmicos.
“Em meio a suas meditações sobre a tragédia humana, explodiu o ódio feroz da injustiça, da hipocrisia e da superstição”, avalia o escritor Reynold Nicholson no livro “Studies in Islamic Poetry”, escrito durante a Primeira Guerra Mundial e publicado em 1921. Al-Ma’arri enfatizava que o ser humano buscava refúgio nas histórias religiosas como forma de amenizar a sua solidão espiritual despertada por sua má conduta.
Em síntese, o sírio declarava que a religião era uma instituição humana inventada para atuar como fonte de poder e renda para seus fundadores e sacerdotes. Para isso, em sua concepção, valem-se de documentos falsos atribuídos à inspiração divina.
Abandona a mesquita e evita louvor,
Preces inúteis, sacrifício de ovelhas,
Pois o Destino trará cálice de sono
Ou cálice de insônia. O que vier, beba.
Foi justamente por condenar o sacrifício de animais que Al-Ma’arri se tornou vegetariano aos 30 anos. No entanto, somente décadas depois decidiu registrar o que o levou a se abster de carne e derivados de origem animal. Ele citou como referência um antigo médico grego e, mesmo avesso à religião, mencionou também o Alcorão. Para o filósofo sírio, é inconcebível gerar dor em outros seres para roubar leite e ovos. Al-Ma’arri dizia que ao fazer isso os homens agiam como ladrões.
Como Mahavira e os jainistas, ele acreditava na santidade da vida e definia como um ato de imoralidade causar qualquer prejuízo aos animais. Então se tornou um ferrenho opositor de todas as formas de exploração animal, inclusive de peles como vestuário. Vivendo com 20 dinares por ano, a sua alimentação era baseada em feijões e lentilhas.
Por causa de suas limitações em decorrência da deficiência visual, Al-Ma’arri contava com o serviço de um ajudante, e permitia que ele levasse a maior parte do seu ordenado, deixando apenas o suficiente para a sua comida. “Os homens de mente acurada me chamam de asceta, mas eles estão errados em sua classificação. Embora eu tenha disciplinado meus desejos, só abandonei os prazeres mundanos porque eles me privavam do melhor de mim”, garantiu.
Publicado há mais de mil anos, o poema “Já Não Roubo da Natureza” é a maior prova de sua “consciência vegana”. Em síntese, um manifesto à vida, já que ele via os animais como seres que não merecem padecer diante da injustiça humana:
Você foi subvertido pela compreensão e pela religião.
Venha a mim, para que você possa ouvir alguma verdade.
Não coma injustamente o peixe que a água sublevou,
E não deseje como alimento a carne de animais abatidos,
Ou o leite branco das mães que pretendiam alimentar seus bebês, não senhoras nobres.
Não aflija as inocentes aves tomando-lhes os ovos;
Pois a injustiça é o pior dos crimes.
E poupe o mel que as abelhas obtêm industriosamente das flores de plantas perfumadas;
Porque elas não o resguardaram para que pudesse pertencer a outros,
Nem o recolheram em troca de presentes ou recompensa.
Lavei minhas mãos de tudo isso; e gostaria de ter descoberto o meu caminho antes do meu cabelo ter ficado grisalho.
Ao longo de três anos vivendo em Bagdá, onde foi muito bem recebido nos mais importantes salões literários, Al-Ma’arri escreveu o livro “Luzumiyyat” ou “Obrigação do que não é obrigatório”, que reúne uma coleção de versos que diferem da tradicional poesia árabe, principalmente pela estrutura irregular.
Enquanto viveu no Iraque, ele ficou decepcionado ao testemunhar como os poetas se rebaixavam por causa de dinheiro. Muitos se dedicavam a escrever panegíricos, ou seja, ode aos seus ricos patronos. Quando reconheceu que aquele era o destino de um poeta em uma metrópole, o sírio decidiu retornar para casa. Sua decisão foi reforçada pela notícia de que sua mãe estava falecendo.
Em 1010, de volta a Ma’arrat al-Numan, ele decidiu não se ausentar mais. Em sua cidade natal, as pessoas gostavam de ouvi-lo ensinar sobre poesia e retórica. Sua popularidade era grande entre estudantes locais. Também se correspondia com estudantes estrangeiros. Niilista e com um humor assumidamente satírico, Al-Ma’arri afirmava não acreditar em alegria ou tristeza, classificando os dois estados emocionais como sendo um só. Mesmo assim, suas obras nunca deixaram de transmitir uma fé piedosa, espiritualidade, singular senso de humanidade e um contumaz anseio por liberdade de expressão.
Uma vez, ele escreveu um pedido de desculpas por qualquer ofensa que seu trabalho pudesse provocar:
“Não tentei enfeitar meus versos por meio da ficção, nem preencher minhas páginas com idílios de amor, cenas de batalhas, relatos de festas de vinho ou coisas do gênero. Meu objetivo é tão somente falar a verdade. Ora, o fim próprio da poesia não é verdade, mas sim falsidade, e na medida em que é desviada do seu próprio fim, sua perfeição é prejudicada. Portanto, devo desejar a indulgência de meus leitores por este livro de poesia moral.”
Mesmo tendo uma vida repleta de controvérsias, Abul ʿAla Al-Maʿarri jamais foi preso ou perseguido, mesmo com uma postura pré-anarquista. De 1010 até 1057, ano em que faleceu, o poeta viveu longos períodos de reclusão, simplesmente escrevendo. Tudo leva a crer que a sua cegueira, aliada à sua bela construção poética, contribuíram para que os líderes muçulmanos fossem indulgentes.
Historiador e arquiteto do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Nasser Rabbat relata que Al-Ma’arri é um dos três principais ateus da história do islamismo. No século 20, o filósofo sírio passou a ser visto como um personagem da mesma estirpe dos grandes pensadores do iluminismo. Inclusive o Ocidente só conheceu o seu legado no Século das Luzes, ou seja, no século XVIII.
Escultura de Al-Ma’arri foi decapitada em 2013
Na década de 1940, o artista plástico Fathi Muhammad criou uma escultura em homenagem ao poeta e filósofo sírio Abul ʿAla Al-Maʿarri. A estátua foi colocada em exibição no Museu de Maarat al-Numan, para que ela pudesse inspirar estudantes, pensadores e poetas sírios. Em uma noite de fevereiro de 2013, a escultura, que tinha duas vezes o seu tamanho natural, foi decapitada por fundamentalistas islâmicos da Frente Al-Nusra, um dos braços da Al-Qaeda. Antes, ela já havia sido alvejada a tiros.
Embora também seja qualificado como um herege e seus trabalhos sejam proibidos em cidades dominadas por fundamentalistas, o legado de al-Ma’arri continua influenciando muitas pessoas, tanto no Oriente quanto no Ocidente. Maior exemplo disso é que ele ainda é considerado um dos maiores nomes da poesia e do pensamento árabe.
Saiba Mais
Abul ʿAla Al-Maʿarri era celibatário e deixou registrado um pedido de que seu corpo fosse cremado quando ele morresse.
O poeta sírio começou a escrever seus primeiros poemas com 11, 12 anos.
Ele era membro da Banu Sulayman, uma importante família de Ma’arrat al-Numan que pertencia à tribo tanūkh. Seu tataravô paterno foi o primeiro qadi da cidade. Alguns outros membros da família Sulayman também foram considerados bons poetas.
Referências
Nicholson, A. Reynold. Studies in Slamic Poetry. Cambridge University Press (1921).
Glassé, Cyril; Smith, Huston. The New Encyclopedia of Islam. Rowman & Littlefield Publishers (2008).
Nicholson, A. Reynold. A Literary History of the Arabs. Routdlege (1962).
Hastings, James. Encyclopedia of Religion and Ethics. Kessinger Publishing (2003).
Gelder, Geert Jan Van; Schoeler, Gregor. Al-Maari, Abu I-Ala. The Epistle of Forgiveness. Volume 2: Hypocrites, Heretics, and Other Sinners (2014).
Tharoor, Kanishk; Maruf, Maryam. Museum of Lost Objects: The unacceptable poet. BBC News (8 de março de 2016).
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Leandro Karnal: “Os vegetarianos são insuportáveis”
“Eles ficam querendo pregar que a vaca tem direito e a cenoura não”
Está disponível no YouTube uma palestra do professor Leandro Karnal intitulada “Os Novos e os Velhos Pecados”. Em um determinado momento, o historiador diz que “Os vegetarianos são insuportáveis. Eles ficam querendo pregar que a vaca tem direito e a cenoura não.” Quando você compara um animal com uma cenoura, você está querendo dizer que um animal sofre tanto quanto uma cenoura, ou seja, há uma banalização do sofrimento e da violência. Agora imagine o que isso pode representar na cabeça de um jovem que já não gosta muito de animais.
Bom, achei uma pena vê-lo fazendo esse tipo de comentário satírico e sem embasamento, ainda mais levando em conta que ele costuma viajar pelo país ministrando palestras sobre moral e ética. Pelo jeito, ele precisa estudar sobre direito animalista, que também versa sobre moral e ética. Karnal costuma citar filósofos gregos em suas palestras, e parece-me que ele não sabe que era comum entre eles uma alimentação isenta de carne, e por uma questão moral – o que contrapõe sua observação mais do que irônica.
Em seus artigos e palestras, também há inúmeras citações a Arthur Schopenhauer. Creio que se ele conhecesse profundamente o trabalho do filósofo alemão jamais teria ignorado o fato de que Schopenhauer escreveu que animais não são artigos fabricados para o nosso uso, de acordo com informações da página 375 do livro “Parerga and Paralipomena: Short Philosophical Essays – Volume 2 .
Animais não são meros meios para quaisquer fins. Ao pensarmos que sim, somos coniventes com a violência contra outras espécies e incentivamos a exploração animal em todas as esferas, sendo permissivos inclusive com formas inimagináveis de privação e crueldade. E esse tipo de conduta em detrimento de outros seres vivos leva a um questionamento a respeito da nossa própria moralidade que não contempla ninguém além de nós mesmos.
Schopenhauer via isso como um tipo frequente de moralidade de conveniência. Sendo assim, pode-se dizer que a moralidade conveniente ao homem não é moralidade, já que a moralidade genuína depende de você não observar somente a si mesmo e as conveniências que envolvem apenas aqueles que são de sua própria espécie.
“É uma vergonha essa moralidade digna de párias […], chandalas, mlechchas e que não reconhece a essência eterna que existe em cada coisa viva, e brilha com significado inescrutável em todos os olhos que veem o sol”, escreveu Arthur Schopenhauer na página 173 do livro “O Fundamento da Moral”, publicado em 1840.
Seria mais honesto o historiador Leandro Karnal dizer: “Dane-se os animais e os vegetarianos”, que parece ser o que ele pensa, mas não fazer piadas sobre pessoas simplesmente por serem vegetarianas. É curioso reconhecer que já vi ele falando de moralidade e citando Tolstói. Provavelmente ele não sabe que o autor de “Guerra e Paz” e “O Primeiro Passo” era vegetariano.
A segunda obra que citei, publicada pela primeira vez em russo em 1883, fala justamente da nova concepção moral que Tolstói alcançou com o vegetarianismo. Então observo com certo pesar quando alguém discorre sobre moralidade e faz chacota do vegetarianismo, já que a moralidade vegetariana preza pelo bem-estar animal. Ou seja, tenta expandir a compreensão ética e moral para além daquela que abarca somente seres humanos.
Não é a primeira vez que vejo o Karnal cometendo esse tipo de deslize. Uma vez, quando assisti uma de suas palestras, ele confundiu esteroides anabolizantes com vitamina ADE, e usou a imagem de um rapaz para abordar o tema. Ou seja, é importante termos o cuidado de não abordarmos assuntos sobre os quais não temos conhecimento. Também é ético não expor pessoas à situação vexatória, mesmo que por meio de imagens.
O problema na atualidade é que há pensadores falando sobre assuntos que desconhecem. Seria muito mais interessante e proveitoso para todos se eles se preocupassem basicamente em transmitir informações sobre aquilo que estudaram e sobre o qual desenvolveram um raciocínio valorosamente crítico.
Algumas pessoas me disseram que o Karnal não disse nada de mais ao fazer piada sobre vegetarianos e os direitos animais, já que ele defende, mesmo que sem argumentos, o ponto de vista dele. Bom, se ele tivesse um programa de stand-up, eu não me importaria com o que ele falou. A diferença é que ele é um formador de opinião que viaja pelo país discutindo sobre moral e ética. Ademais, direitos dos animais tem tudo a ver com moral e ética. Logo se ele vai falar alguma coisa sobre isso, é importante sim estudar sobre o assunto.
Além de desconsiderar meu texto e não apresentar argumentos, Karnal continuou debochando de todos que o questionaram sobre o vídeo em que ele satiriza vegetarianos e os direitos animais. Pelo jeito, o historiador não sabe que vegetarianos e veganos, que se recusam a se alimentar de animais por uma questão moral, naturalmente defendem inclusive o direito à vida dos insetos. Parece que houve uma confusão com um entendimento particularista de especismo. Uma pena, mas cada um conhece a sua própria consciência.
“Se o problema é dor, bastaria dar sonífero para as vacas e matá-las ao som de Mozart, certo? Seria uma carne sem dor.” Muita sensibilidade vinda de alguém que discorre sobre filosofia. Ainda bem que na contemporaneidade tivemos e temos filósofos como Agostinho da Silva, Sônia T. Felipe, Peter Singer e Tom Regan, só para citar alguns, que foram e vão na contramão disso. Outro fato inesperado é que Leandro Karnal deletou os comentários de veganos e vegetarianos o questionando sobre o assunto.
Passagem em que Leandro Karnal ironiza vegetarianos e os direitos dos animais:
https://www.youtube.com/watch?v=ZAjKScwJvVc
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