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Sou tímido
Sou tímido e reservado. Sou um cara realmente introspectivo. No decorrer da minha vida muitas vezes encontrei pessoas que disseram: “Aquele cara é metido, orgulhoso” – ou algo do tipo. Então entendi que isso acontecia por eu ser basicamente tímido, reservado, introspectivo.
Não tenho problema em falar em público, para uma multidão, que seja, nem em expor ou defender minhas opiniões. Quando me convidam para discorrer sobre algo, normalmente aceito.
Mas tem coisas a meu respeito, sobre quem eu sou, que realmente não partilho com as pessoas, a não ser por meio dos meus textos. Esse é o tipo de ser humano que sou.
Ser tímido pode ser visto como um defeito por muita gente – talvez. Mas pode não ser também. Depende da leitura que você faz e em que você transforma essa timidez. Desde pequeno observo muito mais do que falo. Acredito que também que é por isso que escrevo.
Também não costumo interagir tanto em redes sociais. Julgo que o tempo é sempre mais curto do que eu gostaria. Honestamente, se me falam para escolher entre produzir ou conversar, sempre opto pela primeira.
Sou um sujeito estranho, não nego e não reprovo, mas também vejo isso como parte das escolhas que fazemos compatíveis com nossas características, predileções e objetivos.
Breve reflexão sobre a depressão
Se tenho ou já tive depressão, isso não faz de mim uma referência em depressão, mas apenas alguém que talvez tenha condições de compartilhar suas experiências e impressões do assunto – ou seja, talvez permitir uma compreensão diferenciada, um algo mais, nem completo nem incompleto. Não creio que isso signifique que eu esteja autorizado a falar em nome de outras pessoas que estão vivendo essa realidade, principalmente se isso for feito de forma pétrea. Afinal, os níveis de depressão e suas motivações podem ser visceralmente diversos.
Quando falo de alguém em determinada situação que conjecturo análoga ao que vivi, considero semelhança não equivalência, porque a minha individualidade, as minhas experiências, se traduzem em especificidade, em recortes pessoais. E recortes são mais subjetivos do que objetivos, assim como seu impacto, mesmo que eu tente fazer parecer o contrário.
A minha experiência não pode ser uma baliza para simplificar e julgar a experiência do outro, mas talvez uma possibilidade para criar uma ponte se não de entendimento, pelo menos de consideração à individualidade, porque, na minha concepção, isso é essencialmente uma manifestação de respeito. Por isso, sou da opinião de que a dor de uma pessoa é somente dela, e só ela sabe o que isso representa em sua vida.
Quando me coloco no lugar do outro, tenho como parâmetro tal reflexão: “A dor de alguém não pode ser medida, qualificada como maior ou menor do que a de ninguém, é simplesmente a sua dor.” Isso basicamente resume o que penso em relação à individualidade do sofrer. Creio que quando damos nomes às coisas, não raramente temos uma tendência a apoucar o seu impacto pessoal, e isso pode ser problemático, porque embora duas pessoas vivam uma chamada “mesma realidade”, por exemplo, isso não significa que o peso seja equivalente.
Alguém diz: “O veganismo ensina as pessoas a respeitarem os animais, mas não as pessoas”
“O veganismo não ensina nada disso, mas tentarei entender o seu posicionamento”

Sim, o veganismo é uma filosofia de vida que se volta em primeiro lugar para o direito dos animais à vida (Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals)
Alguém diz:
— O veganismo ensina as pessoas a respeitarem os animais, mas não as pessoas.
— Me desculpe, meu camarada, mas há um equívoco substancial na sua afirmação. O veganismo não ensina nada disso, mas tentarei entender o seu posicionamento. Creio que você queira dizer que veganos priorizam os animais não humanos. Sim, no contexto do veganismo, naturalmente, porque o veganismo é uma filosofia de vida que se volta em primeiro lugar para o direito dos animais à vida, pelo direito de não sofrer em decorrência da má intervenção humana, mas isso não significa que veganos desrespeitem seres humanos ou não se importem com seres humanos. Porém, vamos considerar um cenário de veganos que desrespeitam pessoas. Seres humanos são seres complexos, têm suas peculiaridades e vicissitudes.
Logo se você busca perfeição entre veganos, devo dizer que está buscando isso no lugar errado. Simplesmente porque perfeição não existe em nenhum contexto. E desrespeitar pessoas é algo que deve ser analisado sob um prisma mais abrangente. Quero dizer, a não ser que você veja alguém exercendo um desrespeito contínuo ou inerente, isso pode ser apenas uma manifestação equivocada e circunstancial. Bom, um sujeito de quem você não goste, ou que você qualifique como “imbecil”, pode sim ser vegano. Afinal, ser vegano não isenta ninguém de ter falhas. Eu mesmo tenho muitas, e é exatamente por isso que não condeno quem defende os animais, mas carregue falhas em seu histórico.
Eu particularmente não conheço nenhum caso de veganos que tenham feito conscienciosamente mal às pessoas. Sim, os seres humanos podem se exaltar em seus discursos, praguejar a humanidade, criticar o descaso humano em relação aos animais não humanos; até mesmo xingar. Claro, há pessoas que se excedem, mas percebo que isso normalmente acontece quando nos deixamos guiar pela emoção e pela situação, então não racionalizamos nosso discurso e agimos impulsivamente. Mas isso não significa que uma pessoa seja ruim ou odeie, de fato, a humanidade. Afinal, não vivemos no pleno ostracismo. Nos comunicamos com alguém em algum momento, não? Ademais, o veganismo é feito por pessoas, logo há essencialmente um senso coletivista.
E desrespeito muitas vezes é um retrato do momento, um retrato até mesmo difuso. Além disso, todos podemos mudar (ou não), crescer, amadurecer, evoluir, o que quer que seja. Logo quem sou eu para dizer quem deve ou merece ser vegano ou não? Outro ponto. Sua afirmação também carrega uma falha histórica. O vegetarianismo ético, os direitos animais e o veganismo foram idealizados por humanitários. Sim, isso mesmo, por pessoas que antes se preocupavam com seres humanos e entenderam que era importante estender isso aos seres não humanos.
Então realmente não acho muito apropriado dizer que o veganismo ensina as pessoas a não respeitarem pessoas. A história está repleta de personagens protovegetarianos, vegetarianos, protoveganos e veganos que defenderam e defendem os animais humanos e não humanos – o que não significa que defender pessoas seja, de fato, uma premissa ou obrigação. Henry Salt, por exemplo, um dos nomes mais importantes da era vitoriana na defesa dos animais e pioneiro da teoria dos direitos animais, foi o fundador da Liga Humanitária Inglesa.
Não podemos ignorar também que há inúmeras bandeiras específicas em defesa dos humanos, mas só uma em defesa dos animais, e realmente isso faz uma diferença não circunstancial, mas sim substancial. Claro que em um cenário ideal seria muito bom se houvesse respeito a animais humanos, não humanos, uma harmonia verdadeiramente abrangente. Mas creio que as coisas vão evoluindo com o tempo e com as nossas predisposições.
Breve reflexão sobre o ódio
Tenho altos e baixos como qualquer ser humano, mas realmente não costumo nutrir ódio pelas pessoas. Isso faz de mim um ser humano melhor? Não sei, porque não penso criteriosamente a respeito. Porém, creio que o ódio demanda tempo e energia, e honestamente não vejo como me dedicar a isso pode ser positivo. Afinal, odiar também é um exercício, e como todo exercício é preciso despender algo.
Ademais, o ódio, como desdobramento da passionalidade, também pode ser uma forma de impermanência ou fragilidade consubstanciada, e como tudo que é negativamente consubstanciado te priva de algo se você não se esforçar para observar além ou entender que isso naturalmente pode ter mais implicações para você do que para o objeto do seu ódio.
Sendo assim, creio que, de fato, o ódio, para além de ser um agente limitador, não me parece um bom motivador se excita em mim algum tipo de paixão virulenta que me priva da razoabilidade ou mesmo da racionalização. Odiar me parece desnecessariamente laborioso e contraproducente. Há que se considerar também o fato de que o ódio em longo prazo pode ser um agente corrosivo, e mesmo um gatilho de doenças psicossomáticas.
Respeito?
Não deveria, mas respeito é sempre uma questão abstrusa. Isto porque na prática as pessoas tendem a considerar muitas vezes o respeito como uma característica, virtude ou mesmo sentimento associado à conveniência, não contrariedade e até mesmo sujeição. O clássico te respeito à medida em que concordamos, ou te respeito à medida em que você não toque em tal assunto.
Creio que isso seja extremamente comum hoje em dia em todos os aspectos. Basta se posicionar em um espectro ideológico diferente de alguém. Isso já é o suficiente para “existir desrespeitosamente”, ou talvez colher elogios nada amigáveis por “existir desrespeitosamente”. Claro, mesmo que você não esteja desrespeitando ninguém, mas apenas conversando ou articulando opinião, partilhando alguma informação.
Na realidade, e presumo que não seja novidade para ninguém, que isso não raramente acontece até mesmo dentro de um mesmo espectro ideológico quando nossas inclinações e interpretações pessoais, que nem sempre são uma perspectiva expressa da realidade, nos contaminam ou endossam um tipo peculiar de avessa unilateralidade que emerge diante da mais sutil oposição. Pode não haver manifestação de desrespeito por parte do emissor, mas o receptor pode entender que sim e agir, de fato, com desrespeito; e vice-versa.
Acredito que isso acontece porque temos uma tendência a justificar nossas ações, até mesmo aquelas que não são exemplares ou egrégias, com um manto de conspicuidade ou virtude – um falseamento de transigências. Então a crença no desrespeito, mesmo quando inexistente, é uma forma de nos esquivarmos e justificarmos ações ou reações com as quais não queremos lidar, ou não estamos preparados para lidar porque implicam em repensar. Assim o “desrespeito” pode receber uma couraça de elemento “sui generis”, um remendo constante em involução, em um universo de supositícias virtudes e verdades (in)questionáveis.
Umberto Eco, “O Eterno Fascismo” e a política
O Ur-Fascismo, que também é um tipo de culto da tradição, de que falou Umberto Eco em uma conferência na Universidade de Columbia em 1995, ainda me parece bastante atual, até porque não falava apenas do então tempo presente, mas também do futuro, e das armadilhas às quais estamos sempre sujeitos a nos enredar. Eu acredito que nenhuma dessas armadilhas é tão perigosa quanto a passionalidade fundamentada em um desejo imperativo que busca referências até mesmo no desconhecimento. Há muito disso na interpretação do cenário e das nuanças políticas, mas não somente.
Notadamente, quando nossos anseios em externalizar nossas insatisfações, sejam elas singularmente pessoais ou não, passam pelo crivo da nossa latente presunção em nortear a verdade, mesmo que isso custe transmitir algumas impressões um tanto quanto obtusas visando algum tipo de persuasão consciente ou inconsciente. Claro, uma interpretação livre de uma reflexão alicerçada no que Umberto Eco chamava de “O Eterno Fascismo”. Há sempre tentáculos que não enxergamos ou não alcançamos porque estamos preocupados demais com aquilo que nos arranha a superfície.



