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Hospital João de Freitas, a saúde com face humana
Referência nacional em cardiologia, hospital de Arapongas se destaca pelo atendimento humanizado

No Hospital Regional João de Freitas é fácil encontrar pessoas das mais diversas regiões do Brasil (Acervo: Hospital Regional João de Freitas)
Chego às 8h no Hospital Regional João de Freitas, de Arapongas, no Norte do Paraná, numa manhã nublada e chuvosa. O estacionamento está movimentado e vejo uma moça correndo para dentro do hospital com uma grande bacia cheia de pequenos pedaços de bolo cobertos com papel alumínio. Em pouco tempo, ela retorna para buscar mais. Despreocupada com a água que cai impetuosa e gelada sobre seu corpo, a jovem se inclina, crente de que o mais importante é proteger os alimentos.
A chuva se intensifica e mais pessoas passam rapidamente pela porta de entrada em direção à recepção. Lá dentro, muitos aguardam atendimento sentados em quatro e cinco fileiras de bancos, cadeiras e poltronas. Os mais jovens cedem espaço aos mais velhos que ocupam quase que completamente os assentos. Não há gritaria, desordem, brigas ou queixas.
Em pé, a poucos centímetros da entrada, assisto tudo à minha volta. Escuto risadas, vejo sorrisos, olhares apreensivos, melancólicos e auspiciosos. Cada pessoa tem uma maneira particular de lidar com um grave problema de saúde. Como distração, enquanto não chega a hora do atendimento, alguns contam piadas. Outros relatam a própria história antes e depois da enfermidade. Há também quem prefere se calar, observando atitudes ou mantendo-se disperso nos próprios pensamentos.
Ao meu lado, um senhor diz que gostaria de ter cuidado mais da saúde quando era jovem. “Hoje pago o preço dos meus excessos, da minha falta de cuidados. Deveria ter dado mais importância à vida. Mas tudo bem. O mais importante é que continuo vivo e sou muito bem atendido aqui. Este hospital é um dos poucos que entrei que não tem cheiro de morte”, defende o aposentado João Oliveira, de 87 anos, sorrindo e aguardando internamento para tratar de um problema cardíaco.
Na recepção, ninguém é deixado de lado. Percebo que quem se aproxima para pedir alguma informação é prontamente atendido pelas recepcionistas. Com voz cordial, elas tratam todos com exímia educação. Também chama atenção o fato de não usarem uniformes ou muita maquiagem, garantindo mais informalidade ao ambiente, inclusive fazendo os pacientes sentirem-se mais próximos, como corrobora uma senhora acompanhando o pai.
Por volta das 8h30, uma fila espontânea se forma no fundo da primeira e principal sala de espera. Me aproximo e vejo que estão servindo os alimentos entregues pela mulher que caminhava a passos rápidos na chuva. Além de bolos e pãezinhos, são oferecidos café e chá. Sem necessidade de fiscalização, cada pessoa se limita a pegar uma unidade de cada alimento ou bebida. Quem vai além normalmente entrega o adicional para o pai, mãe ou outro familiar que aguarda atendimento.
Ainda assim, muitas pessoas não consomem nada. Alguns justificam que é importante deixar alimento e bebida disponível para quem não tem condições de pagar pelo café da manhã, já que a qualquer hora alguém pode passar pela porta de entrada com fome. Outra ação de solidariedade é colocada em prática por um jovem proprietário de três restaurantes em Arapongas.
Cumprindo uma promessa de que faria algo por seus semelhantes caso conseguisse abrir um restaurante, o rapaz visita o hospital toda terça-feira, às 12h, onde entrega pessoalmente 50 marmitas para pacientes internados. “Só pega marmita quem realmente precisa. As pessoas aqui têm consciência de certo e errado. Ninguém aceita nada sem necessidade”, justifica a pensionista Maria Neuza Silva.
No Hospital Regional João de Freitas, referência nacional em cardiologia, é fácil encontrar pessoas das mais diversas regiões do Brasil. Além de pacientes do Paraná, alguns informam que vieram de Brasília, Porto Velho, São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Cuiabá e Campo Grande, entre muitas outras cidades. Quem vem de longe para acompanhar algum parente com menos de 65 anos pode ficar na Casa de Apoio mantida pelo hospital, caso não tenha dinheiro para custear hospedagem e alimentação.
No local, os hóspedes recebem um tratamento até melhor do que em muitos hotéis espalhados pelo país – com direito a várias refeições. Assim como todo hospital, por melhor que seja, o João de Freitas também tem suas falhas, mas que são facilmente ofuscadas pelas boas qualidades. Referência em cirurgia cardíaca, a prioridade é a humanização e a renovação das esperanças dos pacientes.
“A ouvidoria funciona muito bem. Até me perdi aqui de tão grande que é o hospital. Eles investem no ser humano, têm misericórdia e tratam todos da mesma forma. O atendimento demora um pouco, só que vale a pena. Cirurgias de ponte de safena, por exemplo, podem custar até R$ 80 mil numa clínica particular e aqui o SUS cobre tudo”, declara Maria Neuza que acompanhou o pai na realização de um exame de cateterismo pelo Sistema Único de Saúde. Se tivessem que pagar, teriam de desembolsar de R$ 3 a R$ 8 mil.
Quem chega ao João de Freitas com a guia de internamento precisa aguardar em uma segunda sala de espera a liberação de uma vaga na enfermaria. Lá, cada quarto recebe oito pessoas. E os pacientes se sentem bem mais tranquilos com a companhia, ainda mais levando em conta que acompanhantes são permitidos somente para quem tem 65 anos ou mais. “Isso ajuda a passar o tempo”, garante Maria Neuza.
Além de cinco refeições por dia, os pacientes recebem garrafinhas de suplementos proteicos de fabricação alemã, selecionado pela nutricionista do hospital. “Já me deram duas dessa. Rapaz, cada uma custa de R$ 15 a R$ 20. Eles realmente investem no nosso bem-estar”, comenta João Oliveira sorrindo. Interessante também é ver como os pacientes se ajudam dentro do quarto. Para não sobrecarregar as enfermeiras, os mais saudáveis ajudam os mais debilitados a trocar de roupas e a desinfetar os colchões pela manhã.
Não há queixas contra médicos ou enfermeiras. Muito pelo contrário. Além disso, há uma pesquisa diária avaliando a satisfação de pacientes e visitantes. “O cardiologista visita meu pai todos os dias. E toda hora recebemos enfermeiras checando como ele está se sentindo. O bom humor deles é contagiante, mesmo pra quem está numa situação tão delicada”, afirma a pensionista.
A alimentação não lembra em nada a típica comida de hospital. Segundo João Oliveira, parece mais comida caseira ou de restaurante. “Me sinto em casa, comendo arroz, feijão, cenoura e peito de frango cozido. O mesmo que a gente come, os médicos, as enfermeiras e outros funcionários também comem. Não existe diferença”, garante sem velar a satisfação. Antes de ser internado, o idoso recebeu na sala de espera uma sopa reforçada.
A limpeza também chama atenção. É praticamente impossível encontrar sujeira nas dependências do hospital. “Eles passam álcool em tudo”, assegura Maria Neuza, lembrando que cada quarto tem um líder que é o responsável por conservar o ambiente limpo. Conversando com pacientes do Hospital João de Freitas, muitos declaram que só não morreram porque o maior diferencial é a qualidade do atendimento e o carinho dispensado aos mais fragilizados.
“Só que tem que seguir as regras. Eu, por exemplo, como sou acompanhante, só posso sair em horário de visitação. Tenho uma hora à tarde e uma à noite pra me ausentar do hospital”, revela a pensionista. Entre os pacientes de um quarto da enfermaria está o jovem artista de rua Everton Luiz Rodrigues, de 33 anos. Malabarista desde a adolescência, e sem residência fixa, anualmente ele passa por tratamento no Hospital João de Freitas, onde conhece praticamente todos os profissionais do setor de cardiologia.
Everton, que tem um defeito cardíaco congênito, não pode correr ou fazer qualquer atividade que acelere demais os seus batimentos cardíacos. Ainda assim, vive cada dia como se fosse o último e aprendeu dentro do João de Freitas que sempre há motivos para ter esperanças. No corredor silencioso, aproveitando a pouca movimentação, ele coloca um bonezinho sobre a cabeça e faz uma rápida performance, indo de um lado para o outro, exibindo um sorriso genuíno para a plateia composta por uma pessoa. “Adoro dança e teatro. Artes cênicas são a minha vida”, confidencia.
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Fundado em 16 de dezembro de 1993, o Hospital João de Freitas surgiu com o objetivo de suprir a necessidade de um hospital regional com tecnologia e mão de obra especializada. Acesse também: www.hospitaljoaodefreitas.com.br
As verdadeiras academias estão morrendo
O treinador Rob King fala sobre o fim dos bons ginásios e a expansão dos “centros de fitness”

Rob King: “O que é vendido como novo e fresco, acredite, já foi feito antes.” (Foto: Acervo Pessoal)
O treinador Rob King, 40, é um apaixonado por musculação que fundou há alguns anos a Heavyweights Training Center e a Heavyweights Sports Supplements em Mount Pearl, na província de Newfoundland and Labrador, no Canadá. Com a experiência de quem acompanha a expansão mundial da cultura fitness, King afirma que as verdadeiras academias estão morrendo e vê com preocupação o crescimento desenfreado dos chamados “centros de fitness”. Segundo ele, na atualidade, muitas academias vendem mais ilusões do que resultados.
“O que é vendido como novo e fresco, acredite, já foi feito antes. Não existe nenhuma novidade. É o que podemos chamar de falsas reinvenções”, afirma. Rob King ingressou no mundo da musculação há 25 anos. Quando colocou os pés pela primeira vez em uma academia, logo se sentiu intimidado pela atmosfera do ambiente. “Imagine você, eu era um skatista de 15 anos que praticava artes marciais em frente de casa. Queria muito levantar pesos, mas tinha medo de entrar em uma sala de musculação”, diz.
Apesar do receio, o canadense encarou o desafio. Ainda considera o primeiro dia de treino como uma das experiências mais assustadoras de sua vida. “Quando entrei, vi um sujeito de cara fechada que mais parecia um guerreiro. Ele estava levantando pouco mais de 100 quilos no supino reto. Pra mim, parecia que eram mais de 400”, conta.
O temor se dissipou quando Rob se tornou parte de um grupo de marombeiros que treinava diariamente após às 18h. À época, o ginásio não tinha máquinas, com exceção de alguns rústicos aparelhos com cabos. “Quase tudo se resumia a barras, halteres e uma barra fixa. Muitos dos equipamentos pareciam caseiros. Na verdade, acho que eram”, destaca. Não havia esteiras na academia de King. Mesmo assim, ninguém sentia falta. Alguns nem sabiam o que era. Quando surgiram as primeiras, a surpresa foi geral. “Era um negócio enorme, gigante. Agora percebo como estou ficando velho”, comenta em tom bem humorado.

“Defendemos que quanto menor o número de pessoas agindo como hamsters em uma esteira, melhor!” (Foto: Acervo Pessoal)
“As pessoas estão preocupadas em sentir dor”
Quando pondera sobre a realidade atual das academias, lamenta o fato de que o comprometimento com os resultados foi deixado de lado. “As academias de hoje não são ginásios, mas sim ‘centros de fitness’”. As pessoas estão mais preocupadas com a possibilidade de sentirem dor ou ficarem com as mãos calejadas. Até transpirar parece exagerado, o que diriam então sobre fazer ruídos ou deixar os pesos caírem?”, questiona, lembrando que já viu marombeiros serem repreendidos por levarem pó de giz para algumas academias.
A expansão dos “centros de fitness” é definida por Rob King como um fenômeno mundial que pode piorar um pouco mais. E a culpa disso são daqueles que encaram a musculação como um sacrifício, atividade banal, ocasional ou meramente recreativa. Afinal, se esse é o pensamento de quem busca uma academia, com certeza, muitos proprietários vão se aproveitar disso para oferecer um serviço de baixa ou péssima qualidade. “Temos academias ruins porque há clientes que buscam isso. Se muitos dos frequentadores fossem conscientes, bem informados e tivessem bons objetivos, pode acreditar que muita gente pensaria duas vezes antes de se tornar instrutor ou abrir uma academia”, dispara.
“Defendemos o conceito Warehouse Gym”
Por outro lado, Rob King tem fé que no futuro o mundo da musculação seja mais direcionado ao básico. “Não vejo razão para abrir mão daquilo que sempre funcionou muito bem. Aqui na América do Norte, estamos divulgando o máximo possível o conceito Warehouse Gym que se pauta no uso de halteres, trenós, cordas e correntes. Defendemos que quanto menor o número de pessoas agindo como hamsters em uma esteira, melhor!”, destaca.
O mais curioso é que na América do Norte o retorno ao básico encontrou uma grande base de defesa entre pessoas que não são atletas, mas amam treinar. “A diferença está sendo feita por gente que nas horas vagas se dedica ao treino duro e pesado. Propagamos a ideia de que não são necessários muitos equipamentos para proporcionar bons resultados”, conta.
Quando Rob King decidiu fundar a sua primeira academia, ele alugou um pequeno salão. À época, tinha apenas uma gaiola de agachamento, um pneu grande, algumas cordas e modestos equipamentos de pequeno porte. “O que não me faltava era a capacidade de criar, me divertir e me desafiar”, explica, acrescentando que nunca se preocupou em comprar aparelhos aeróbicos.
O interesse pela musculação levou o treinador a participar de competições de bodybuilding e powerlifting. “Comecei aprendendo e continuo aprendendo. Viajo muito e invisto na minha educação. Estou sempre em contato com os melhores do ramo. O conhecimento constante é essencial para quem quer ajudar as pessoas”, garante.
“Odeio ver tanta gente sendo enganada”
Segundo o treinador canadense, é animador ver o aumento da popularidade da cultura fitness nos últimos anos. Afinal, isso mostra que há muita gente querendo entrar em forma. Em contraponto, o interesse também fez surgir novas e grandes empresas que priorizam o lucro. “Não me entenda mal, sou totalmente a favor do fitness, mas vejo que estamos sendo engolidos pelas ‘big boxes’ ou o que chamo de walmart das academias”, reclama.
Exercícios incoerentes, uma infinidade de máquinas, atividades aeróbicas em que a pessoa não sai do lugar e treinos repetitivos por longos períodos são algumas das características dos “centros de fitness”, na perspectiva de King. “Por incrível que pareça, tudo isso me deu mais fôlego para tentar fazer a diferença. Odeio ver tanta gente sendo enganada por essas bobagens”, desabafa.

“Estamos sendo engolidos pelas ‘big boxes’ ou o que chamo de walmart das academias.” (Foto: Acervo Pessoal)
“Jurei a mim mesmo que me superaria”
Na adolescência, com uma precoce obsessão por músculos, Rob se inspirou em Arnold Schwarzenegger, após ser hipnotizado pela interpretação do ex-bodybuilder no filme “Conan, O Bárbaro”, de 1982. Quando não podia ir ao ginásio treinar, corria para o quarto do irmão, onde se exercitava com um par de velhos halteres de concreto. Depois, começou a ler tudo que encontrava sobre musculação, até que surgiu a oportunidade de trabalhar na área administrativa de uma academia. Cansado de ficar atrás de uma mesa, se graduou e se tornou treinador.
“No meu quarto, eu tinha uma prateleira com 200 dólares em suplementos. E foi assim que ingressei no ramo de vendas. Anotava tudo que comercializava em uma caderneta. Mais tarde, me mudei para Vancouver e percebi que estava infeliz”, ressalta. O próximo passo foi voltar para a casa do pai e abrir uma loja de suplementos. Sem dinheiro e sem orientação, se arriscou. Dividia o tempo entre a recém-aberta Heavyweights Sports Supplements e o trabalho de treinador em uma academia.
“Jurei a mim mesmo que me superaria, que faria de tudo para transformar a vida de muita gente. Me comprometi em torná-los mais fortes e saudáveis. Encontrei a minha verdadeira paixão e nunca olhei para trás”, confidencia. Hoje, King tem o próprio ginásio, uma boa equipe e se orgulha de ter mudado a vida de milhares de pessoas. Além de treinador e empresário, também é palestrante e autor de mais de dez livros sobre fitness, saúde e qualidade de vida.
O encontro com Arnold Schwarzenegger
Em 1999, Rob King usou todas as economias para viajar para Columbus, em Ohio, nos Estados Unidos. Naquele ano em que o grande vitorioso foi o lendário bodybuilder alemão Nasser El Sonbaty, o objetivo de King era conversar com Arnold Schwarzenegger no Arnold Classic. “Foi a melhor experiência que tive aos 25 anos. Sem dúvida, mais um sonho realizado”, enfatiza.
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Rob King é colaborador dos sites T-Nation, EliteFTS, Schwarzenegger, JasonFerrugia, BretContreas, PTPower, KickBackLife, Super-Trainer, DeanSomerset, InsideFitnessMag, ExerciseForInjuries, FixingMuscleImbalances, FitProInferno e da revista Muscle-Insider.
Dicas de Rob King para quem sonha em abrir uma academia
Você não precisa de muitas esteiras
Você não precisa da aprovação de ninguém
Você não precisa ter um ginásio crossfit
Você não precisa de um ginásio grande
Você precisa gostar de ajudar os outros
Você precisa ter uma mente aberta
Você precisa ter uma fome constante de melhorias
Você precisa querer fazer a diferença
Entenda, todas as grandes coisas começaram como pequenas
Comece agora!
“Meu objetivo era fazer com que as famílias se fixassem aqui”
Otávio Marques de Siqueira veio a Paranavaí por recomendação do major Fernando Flores
O médico gaúcho Otávio Marques de Siqueira, responsável pela construção do Hospital Professor João Cândido Ferreira, onde é hoje a Praça da Xícara, se mudou para Paranavaí em 1949, a pedido do major Fernando Flores. Além de se responsabilizar pela saúde da população, Siqueira foi incumbido de convencer os migrantes a fixarem residência em Paranavaí e não em Alto Paraná.
Otávio Marques de Siqueira veio a Paranavaí pela primeira vez no tempo da Fazenda Brasileira, em 1941, após participar da inauguração da primeira balsa do Porto São José, um recurso que intensificaria as relações entre Paraná e Mato Grosso. Em entrevista à Prefeitura de Paranavaí décadas atrás, Siqueira relatou que naquele ano quando chegou à Brasileira se deparou com um imenso vazio. “Não havia nada por aqui, só quiçaça e capoeira”, afirmou o pioneiro gaúcho que chegou ao povoado por meio da única estrada que existia à época, reaberta pelo Capitão Telmo Ribeiro em 1939.
Siqueira conheceu em Londrina o diretor da 4ª Inspetoria de Terras do Estado, Francisco de Almeida Faria, que lhe mostrou um mapa retangular de Paranavaí. “Ele olhou com o jeitão dele e falou: ‘Isto está muito monótono’, então traçou duas diagonais no mapa e saiu duas avenidas, uma era a Paraná”, enfatizou o médico que teve os primeiros contatos com o cotidiano da colônia em 1945, mas se mudou para Paranavaí em 1949, a convite do major Fernando Flores que em Londrina lhe falou sobre a necessidade de se construir um hospital em Paranavaí.
“Antes de vir pra cá, eu exercia o cargo de diretor da Santa Casa de Londrina”, destacou Siqueira que coordenou a construção do extinto Hospital Professor João Cândido Ferreira, o Hospital do Estado, em área onde está atualmente a Praça Dr. Sinval Reis, conhecida como Praça da Xícara. Após a inauguração, o pioneiro assumiu o cargo de diretor do hospital. “O Dr. Siqueira era um médico muito bom”, comentou o pioneiro gaúcho Severino Colombelli, acrescentando que Otávio Marques salvou muitas vidas.
Siqueira não veio a Paranavaí apenas para atuar como médico. “Meu objetivo era fazer com que as famílias se fixassem aqui e não em Alto Paraná”, revelou. Pioneiros lembram que esse tipo de missão era muito comum, pois todos aqueles que vinham ao povoado para assumir alguma liderança também tinham o papel de atrair novos moradores. A publicidade mais apregoada em Paranavaí era a de que cada propriedade valeria até cem vezes mais no futuro. Porém, muitos diziam que isso não passava de utopia.
A colônia era um local tranquilo em 1949, quando os principais pontos comerciais pertenciam a Carlos Faber, Severino Colombelli, Luiz Ambrósio e José Francisco, irmão de Natal Francisco, segundo o médico que nunca se esqueceu da vez em que pioneiros pegaram uma jaguatirica nas imediações do antigo Cine Ouro Branco.
Em 1950, o desenvolvimento local chamou a atenção do governador Moisés Lupion que enviou a Paranavaí um funcionário encarregado de vender imóveis. “Deu liberdade para que ele fizesse o que bem entendesse, desde que atraísse pessoas com muito dinheiro”, pontuou Siqueira. Logo surgiu uma onda de assassinatos motivados pela posse de terras. De acordo com o médico, as propriedades eram tomadas na marra. “Eu não me preocupei, nem me meti nisso”, declarou.
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Otávio Marques de Siqueira nasceu em 18 de julho de 1914 em Santa Maria, no Rio Grande do Sul.
Congelando o tempo no âmago da vida
Ninguém escapa do tempo, mas o ser humano tem a seu favor a jovialidade espiritual
Quando se fala de velhice, os mais jovens ficam despreocupados, pois ainda estão desfrutando dos prazeres propiciados pela jovialidade. Já quem tem idade avançada começa a se preocupar com os traços do tempo que afetam o perfil estético. A consequência é que muitas pessoas passam a encarar a vida com uma visão pessimista envolta por piedade, medo e constrangimento; uma nebulosidade que começa a transcender.
Enquanto alguns acreditam que a temporalidade é um grande inimigo para quem não quer envelhecer, outros preferem aceitá-la, defendendo que é a melhor forma de encarar a vida de forma saudável. Pessoas assim creem que ninguém deve preocupar-se, sequer com o tempo, porque isso pode impedi-lo de aproveitar a vida.
Um exemplo de quem optou por viver sem grandes preocupações é o escritor belorizontino João de Freitas, 50, que escreveu o livro “A fonte da juventude” que traça um paralelo entre tempo, idade e saúde. “Nunca fiquei pensando que daqui a tantas décadas vou estar velhinho. Procuro agir da forma que acho mais adequada para minhas energias não se esgotarem rápido”, diz.
A fonte da juventude tem origem mitológica e explica que Júpiter, o deus dos deuses, transformou a ninfa Juventa em uma fonte cuja água devolvia a mocidade. Mas Júpiter escondeu a fonte, e ninguém sabia onde a encontrar. Isso mostra que alguns mitos representam o sonho da humanidade de “driblar” um de seus maiores receios e ter controle sobre o que lhe foi imposto como fator da natureza.
Muitas pessoas já devem ter assistido algum filme ou lido algum livro que mostra uma mística fonte em que qualquer pessoa que beber daquela água vai ter a oportunidade de retardar o envelhecimento e assim manter-se jovem para sempre. Pois é, essa fonte ao certo a maioria não sabe se existe ou onde pode ser encontrada, mas especialistas afirmam que para envelhecer com saúde é preciso boa alimentação e prática regular de atividades físicas. Assim poderão trilhar o caminho da velhice “de mãos dadas com o tempo”.

João de Freitas “Nunca fiquei pensando que daqui a tantas décadas vou estar velhinho” (Foto: Arquivo Pessoal)
Das mudanças físicas trazidas pela inexorabilidade do tempo ninguém escapa, mas o ser humano ainda possui a seu favor a tenaz vivacidade de manter a jovialidade espiritual. “Depois do trabalho chego em casa cansado, tomo banho e logo em seguida me sinto como se tivesse 50 anos, isso porque mantenho uma vida ativa, o trabalho faz com que eu me sinta assim”, explica o empreiteiro João Mariano, 80.
A temporalidade que pode fazer do homem jovem de hoje um ancião no futuro é o triunfo de quem consegue enxergar o lado positivo com o avanço da idade. “O indivíduo vai ganhando mais sabedoria. O conhecimento é o que podemos acumular de bom com o tempo. Se eu soubesse desde a infância tudo que sei hoje, poderia estar em posição muito mais vantajosa”, conta Freitas.
Em contraponto, o tempo traz a finitude, um dos grandes medos da humanidade, fazendo com que porventura cada um se agarre em explicações que para si pareçam as mais “plausíveis”. “Diante da certeza da morte, uns pensam em ressurreição, outros em reencarnação, e ainda há aqueles que acreditam na sobrevida à morte, cada ideia visa amenizar a grande certeza que temos, que um dia morreremos”, frisa o escritor.
O médico e escritor norte-americano Peter kelder fez um estudo sobre o assunto e lançou um livro em 1939 intitulado “A fonte da juventude”. Na obra, os princípios básicos para se envelhecer com saúde estão em rituais milenares tibetanos que mantêm o corpo em harmonia por meio de sete vórtices localizados no corpo humano, assim retardando o envelhecimento. Além disso, o autor explica que a boa alimentação por meio de alimentos naturais, e pouco variados, é de suma importância para se alcançar a longevidade.
Bons hábitos alimentares devem estar positivamente adequados ao organismo do indivíduo. É imprescindível para evitar problemas que surgem com o tempo. Apesar do empreiteiro de 80 anos nunca ter lido o livro de Peter kelder ou ter recebido recomendação médica, revela que come pouca carne vermelha, pois prefere carne branca como frango ou peixe, e evita ingerir refrigerantes, doces, enlatados e conservas.
Os cuidados com a saúde, envolvendo atividades físicas e alimentação, além da busca da paz espiritual, são algumas das formas encontradas pelo ser humano que tem o desejo de prolongar a vida em substituição da mitológica fonte da juventude que por enquanto ninguém sabe onde Júpiter escondeu, nem mesmo os cientistas. Mas para se chegar a terceira idade arraigado no âmago da vida basta cada um buscar a sua própria “fonte da juventude”, afastando-se dos preceitos determinados pela crescente cultura do comodismo que leva somente à displicência.






