Archive for the ‘Vila Alta’ tag
Lenhador, uma vida de sofrimento
Péu, Márcio, Egon e Zé descobriram muito cedo que o trabalho pode destruir sonhos e até matar

Zé, Márcio, Egon e Péu sofrem até hoje com as consequências do trabalho como lenhador (Foto: David Arioch)
Por anos, Péu, Márcio, Egon e Zé, moradores da Vila Alta de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, acordaram às 3h para trabalhar. Assim que ouviam a buzina do caminhão às 3h30 em frente de casa, se aproximavam e subiam na cabine carregando as mochilas com as marmitas e as garrafas térmicas com água. A labuta quase sempre começava às 4h15, quando a escuridão impedia que enxergassem as árvores que eram pagos para derrubar e transportar.
No local, se preparavam fazendo uma rápida ginástica laboral e aos poucos se embrenhavam no mato com cuidado, checando a presença de animais, principalmente cobras como cascavel, a mais comum em grandes áreas de eucalipto. “Quando a lenha fica amontoada, não pode chegar batendo a mão. Tem que levantar uma a uma, fazendo barulho. O farolete você leva por conta própria senão algum animal te pega”, avisa Marcelo Martins Melo, o Péu, de 27 anos, que trabalha há mais de nove anos como lenhador.
Mesmo com os cuidados, o perigo sempre foi iminente. Pisadas em cobras, quedas em buracos de tatus e ataques de marimbondos mamangava-de-toco, uma das espécies mais perigosas, acontecem mais cedo ou mais tarde. Maicon Martins Melo, o Egon, de 24 anos, e lenhador desde a adolescência, se recorda das picadas que levou do inseto. Teve de trabalhar o dia todo agonizando, com febre e dor de cabeça. “Cada marimbondo desse dá várias picadas, não só uma. Mesmo assim não pude parar o serviço porque o patrão disse que não me pagaria se eu não ajudasse a carregar toda a lenha”, explica. Os lenhadores também costumam ser picados por escorpiões e aranhas. Tudo isso pode acontecer na primeira hora de serviço de cada manhã, antes do sol despontar no horizonte.

Péu: “Graças a Deus que o pau bateu na cabine e no retrovisor antes de vir pra cima de mim, senão teria aberto a minha cabeça” (Foto: David Arioch)
Preocupados com o horário, colocavam à prova a força e a coragem. Para ganhar tempo, nos primeiros minutos na área de corte, sentavam no chão ou escoravam em uma árvore e abriam as marmitas. Depois de comer rapidamente um pouco de arroz, feijão, carne e salada, o corte e o carregamento prosseguiam por pelo menos seis horas. “Lá pelas 8h, se o cortador estiver muito atrasado, a gente para bem rapidinho pra comer um pouco mais, até em pé mesmo. Daí ajudamos a cortar a lenha pra adiantar o serviço. O cortador retribui ajudando a carregar e descarregar”, conta Péu, acrescentando que os lenhadores nem sempre têm tempo de descanso.
Os adeptos do fumo de corda e do cigarro de palha são dispensados logo no primeiro dia de serviço. A justificativa é que atrasam o trabalho dos outros lenhadores. “Não pode parar pra fumar. Senão a gente já começa a falar: ‘Vamos embora, vamos embora’”, relata Egon. Sem imprevistos, a jornada chega ao fim entre 14h30 e 15h30, assim que os lenhadores descarregam a lenha no local de destino, onde a madeira serve para abastecer principalmente as caldeiras das farinheiras e indústrias de cerâmicas. No entanto, se algo der errado, não chegam em casa antes de anoitecer.
A atividade possui um alto índice de desistência. Além de força, é preciso desenvolver boas técnicas de corte e transporte para controlar a exaustão. “Quando vai descarregar pau pesado, você tem que abraçar ele, ‘macaquear’ pra cima e jogar certinho lá embaixo. Pra ficar bom mesmo leva anos. O cara tem que aprender a suportar o calor, lidar com câimbras e beber muita água pra evitar a desidratação”, recomenda Péu que perdeu as contas de quantos lenhadores viu passando mal e desmaiando na mata por causa da alta intensidade do trabalho.
Apesar do risco de hipoglicemia, alguns lenhadores mais experientes passam o dia em jejum. O objetivo é acelerar o serviço e economizar, já que as refeições no campo são de responsabilidade dos trabalhadores. “Você consegue ganhar cem reais num dia, mas as roupas, algumas ferramentas e a comida são por sua conta. Se pensar bem, o seu lucro não passa de R$ 50”, reclama Márcio Alexandre Santos, de 23 anos, que ingressou no ramo aos 12. Para receber o valor integral da diária, três lenhadores precisam carregar 23 toneladas de lenha. Ou seja, 7,6 mil quilos por pessoa. Uma peça de eucalipto com apenas 1,50m chega a pesar até 80 quilos. “A gente se esforça pra sair da roça antes do meio-dia porque esse horário é terrível. O calor vem com tudo e você começa a sentir muita dor”, garante Péu.
Outro problema comum são os acidentes. Sem equipamentos de segurança, os trabalhadores vivem muitas situações de perigo. Há três anos, José Paulo Silva Pereira, de 18 anos, conhecido como Zé, estava cortando um eucalipto com uma motosserra. Antes que percebesse, o vento jogou sobre ele uma árvore que estava logo atrás, cortada por um companheiro. Lenhador desde os 11 anos, Zé sentiu uma pancada muito forte no ombro e caiu no chão, gemendo de dor. No dia seguinte, mesmo ferido, voltou ao trabalho após a ameaça do patrão de mandá-lo embora. “Até hoje sinto dor no ombro, uma queimação bem forte”, comenta.

Márcio: “Como não temos registro em carteira, os patrões apenas viram as costas. Para segurar você no serviço, eles fazem muitas promessas que não são cumpridas” (Foto: David Arioch)
Em 2007, Péu passou por situação semelhante quando o tronco de uma árvore atingiu-lhe o pescoço, causando uma luxação. Depois de três dias em casa, voltou ao trabalho na segunda-feira. Se embrenhou na mata para carregar uma das primeiras toras derrubadas na madrugada fria e escura. De repente, ouviu um estalo incomum na coluna vertebral e caiu no descampado se contorcendo de dor. “Tinha uns galhos atrapalhando e fiz força demais. Estou com a coluna muito machucada até hoje. Com o tempo foi só piorando”, assegura enquanto muda de posição com receio de não conseguir se levantar até o final da entrevista.
O rapaz também se recorda do episódio em que de forma impensada um colega puxou uma tora de eucalipto que estava sustentando a base da pirâmide de madeiras sobre a carroceria do caminhão. Como resultado, um tronco bateu diretamente no tórax e em seguida nas pernas de Péu. O lenhador desmaiou e teve de ser carregado por colegas. Até melhorar, ficou alguns dias em casa. Quando retornou, o patrão acusou o rapaz de abandono de serviço e se recusou a pagar as diárias atrasadas. “O problema é a velocidade que a madeira cai. Dependendo da altura, uma tora ganha força de 150, 200 quilos. Graças a Deus que o pau bateu na cabine e no retrovisor antes de vir pra cima de mim, senão teria aberto a minha cabeça”, enfatiza.
Independente dos cuidados, é impossível encontrar lenhadores que nunca foram atingidos pela queda de um tronco. Quando o rosto é ferido por galhos a maior preocupação é ficar cego. “Você sente um graveto entrando e saindo como se fosse uma agulha. Não cheguei a perder a visão, mas ganhei uma cicatriz no canto do olho”, revela Péu que se aproxima para mostrar a marca que se assemelha a um borrão vermelho. Apesar disso, há jovens que tiveram experiências ainda piores, como é o caso de Márcio Alexandre Santos que se considera um homem de sorte por estar vivo. Na luta para sobreviver com dignidade, o rapaz enfrentou os primeiros percalços aos 14 anos.
À época, estava trabalhando em uma fazenda perto de Loanda, no Noroeste do Paraná, quando um toco quase arrancou dois dedos de sua mão. Como ainda eram 10h, o homem que contratou Márcio Alexandre não quis ir embora, esbravejando que o prejuízo seria grande. Sem kit de primeiros socorros, enrolaram a mão ensanguentada do adolescente com fita crepe. Com medo de não receber nenhum centavo, continuou chorando de dor enquanto arrastava alguns galhos com a outra mão. “Quando viu o ferimento, o patrão falou que eu podia ir embora, só que sozinho e a pé. Preocupado, usei uma mão para ajudar a descarregar a lenha na farinheira. Fiquei até o final e cheguei em casa lá pelas seis da tarde, totalmente pálido porque perdi muito sangue. Só que o pagamento pelo serviço nunca recebi”, relembra.

Egon: “Um dia quase morri na BR-376. Tinha cinco na cabine, o caminhão ficou sem freio e nos envolvemos em um acidente com uma carreta” (Foto: David Arioch)
Mesmo com as agruras do trabalho, o rapaz estava feliz por ter conseguido comprar uma moto e ainda ajudar nas despesas de casa. Sonhava em conquistar a independência, um ideal que foi interrompido em 12 de julho de 2013. Naquele dia, por volta das 15h, após encher a carroceria do caminhão com lenha, Márcio e mais cinco homens deixaram uma fazenda em Santa Cruz do Monte Castelo, também no Noroeste do Paraná. Muito cansado, cochilou ao lado do motorista na cabine superlotada, até que mil metros adiante na rodovia PR-182 sentiu uma movimentação estranha. Quando olhou pelo retrovisor, a quinta-roda do caminhão quebrou e a carroceria começou a tombar. O motorista tentou reverter a situação, mas era tarde demais.
No acidente, a lenha se espalhou pela rodovia e três pessoas se feriram gravemente. Márcio ficou em pior estado. Só não morreu porque uma família que morava em uma casa à beira da estrada ligou a tempo para o Corpo de Bombeiros. Depois de receber os primeiros socorros no Hospital Municipal de Loanda, o rapaz foi enviado para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Santa Casa de Paranavaí, onde ficou internado por 15 dias. Segundo os médicos, Márcio nunca mais andaria. “Falaram que eu viraria um vegetal. No primeiro mês, meu patrão conseguiu um encaminhamento para o Hospital Angelina Caron, em Campina Grande do Sul [Região Metropolitana de Curitiba], comprou medicamentos três vezes e me deu um colete. Depois nunca mais, inclusive não recebi as últimas diárias. Acho que ele descontou do que gastou”, deduz.
Para Márcio, as maiores consequências foram a perda total dos movimentos do braço direito e cinco fraturas da coluna cervical. Só voltou a andar porque teve muita força de vontade, segundo a mãe Maria de Fátima Oliveira. Sem condições de trabalhar e sem receber nenhum tipo de auxílio, o jovem passou por quatro cirurgias pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e hoje conta apenas com o suporte da família. “Meu braço continua na mesma situação. Como não temos registro em carteira, os patrões apenas viram as costas. Para segurar você no serviço, eles fazem muitas promessas que não são cumpridas”, desabafa o jovem que ganhou uma grande cicatriz que começa no peito e termina perto da orelha. Márcio e outro rapaz envolvido no acidente decidiram lutar por direitos trabalhistas há dois meses, após as recusas do patrão de oferecer assistência. Por enquanto não houve acordo.
O que também mostra a negligência por parte dos comerciantes de lenha, responsáveis por abastecer dezenas de indústrias de Paranavaí e região, é a exigência de que o caminhão não pode retornar com menos de 23 toneladas de lenha, sendo que por medidas de segurança é recomendado não ultrapassar 15 toneladas. “Se você levar 20 mil quilos o patrão fala que não cobre nem as despesas dele”, denuncia Egon. Com o caminhão muito pesado, os riscos de acidente na estrada aumentam por causa da perda de estabilidade. Outro problema é o limite de passageiros que normalmente não é respeitado.

Zé: “Trabalho com lenha há sete anos e fui tratado como bandido. Me expulsou da casa dele e ainda ameaçou chamar a polícia” (Foto: David Arioch)
O assunto faz Péu se recordar do dia em que iria buscar lenha com dois amigos, mas surgiu um imprevisto e foi substituído por outro companheiro de longa data. Na volta, o motorista perdeu o controle do caminhão que rompeu a proteção da ponte e caiu no Rio Ivaí. Os três rapazes morreram. Depois do acidente, muitos lenhadores cogitaram abandonar a atividade. “Foi em 2012. Fiquei tão assustado que me ocupei com outro tipo de serviço por alguns meses. A verdade é que ainda tenho medo. Você nunca sabe se vai chegar em casa”, afirma Péu.
“O cara pensa até em tirar a própria vida”
Após se ferir gravemente em 2013, o então lenhador Márcio Alexandre Santos entrou em depressão. Se sentiu desnorteado ao saber que não poderia mais trabalhar, se exercitar ou dirigir. “Única coisa que faço hoje é bater uma enxadinha pra fingir que tô carpindo. O médico alertou que se eu cair de mau jeito, sofrer alguma queda, corro o risco de nunca mais levantar. Dizem que não vou mais andar como antes. Tem dia que essa lembrança acaba comigo”, se queixa visivelmente emocionado.
Tão nocivo quanto a dor física, o sentimento de inutilidade também atinge a maioria dos lenhadores em algum momento da vida. O fato de serem jovens e já diagnosticados com diversos problemas de saúde faz com que deixem de acreditar em um futuro melhor ou até mesmo em uma vida longa. “Com 20 e poucos anos você tá pior que cara de 40, 50. Esse é o preço de começar a atuar em serviço pesado na infância ou adolescência. Se ficar encostado, qual mulher vai te querer? Nessa hora o cara pensa até em tirar a própria vida”, admite o lenhador Marcelo Martins Melo, o Péu, que muitas vezes ficou deprimido e inquieto dentro de casa por não estar em condições de trabalhar.
Nos finais de semana a diversão do rapaz era jogar bola com os amigos. Hoje não pode mais porque está com a coluna vertebral severamente comprometida. É a segunda vez que Péu fica impossibilitado de trabalhar por um longo período. “Na primeira, fiquei nove meses debilitado e não recebi nada do patrão. Me machuquei de novo há dois meses e tive que abandonar a lenha. Fiz até um empréstimo pra comprar medicamentos. Rapaz, se faltar remédio eu nem ando!”, confessa enquanto se levanta e caminha a passos curtos e rasteiros.
Há poucos dias, quando Péu foi até a casa do patrão mostrar o atestado e a receita médica, o homem o chamou de mentiroso e vagabundo. Em seguida, virou as costas e fechou a porta. Humilhações são constantes na vida dos lenhadores. “Quando você se machuca, tem patrão que te xinga e sai falando mal pra ninguém te contratar. Na lógica dele, se o cara consegue ficar em pé é porque ainda está bom pra trabalhar, até mesmo no caso de uma árvore prensar sua cabeça e você perder uma orelha. Agora se acertar um pneu e causar algum dano, ele te ameaça e faz você pagar”, lamenta.
O lenhador Maicon Martins Melo, o Egon, conta que um dia o motorista do caminhão de lenha não viu a motosserra deixada no chão e passou por cima, a danificando. Na hora de receber, o patrão descontou R$ 100 de Egon. Só depois o rapaz soube que o motorista o culpou. “O patrão nem quis ouvir a verdade. Pra prejudicar mais ainda, ele nunca dá nota ou recibo de nada. Pra você ter uma ideia da situação, em Paranavaí tem 15 comerciantes de lenha. Desse total, só três respeitam os lenhadores ou dão algum tipo de assistência”, declara Egon.
“Enriqueceram às custas do trabalho de crianças e adolescentes”
Desde que a Vila Alta surgiu nos anos 1970, o bairro se tornou o maior reduto de lenhadores de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Até hoje dezenas de jovens são seduzidos pela promessa de receber um bom pagamento no mesmo dia, logo ao final do serviço. “Vem gente de todos os cantos buscar lenhador aqui. Sempre foi assim. Enriqueceram às custas do trabalho de crianças e adolescentes. Se não fosse os menores de antigamente, eles não teriam nada. Muita gente perdeu e ainda perde a vida na lenha, até porque não leva mais de um ano pra você se machucar”, desabafa Márcio Alexandre Santos enquanto ajeita o braço inutilizado quando trabalhava na área.
Quem também sofreu muito foi o lenhador José Alexandre Silva Pereira, o Zé, que há poucos dias foi até a casa do patrão receber o pagamento das últimas diárias. “Trabalho com lenha há sete anos e fui tratado como bandido. Me expulsou da casa dele e ainda ameaçou chamar a polícia. Me senti tão mal que só virei as costas e parti”, assinala o rapaz que atualmente atua como lombador e dorme na câmara fria de um caminhão nas noites em que passa longe de casa.

Caminhão de lenha que tombou na PR-182 estava com sobrecarga e superlotado (Foto: Acervo de Márcio Santos)
Em Paranavaí, um comerciante de lenha vende cada carga por R$ 2,1 mil, o que garante pelo menos R$ 1,3 mil de lucro diário, livre de despesas. “Um patrão com quatro caminhões e que faça uma viagem por dia ganha mais de R$ 100 mil por mês. Se for duas viagens, o lucro passa de R$ 200 mil”, destaca Péu que atua no ramo desde 2006. O que torna o mercado realmente lucrativo é que cada empresa que compra lenha tem uma demanda diária de até 200 toneladas.
“Vamos ralar o peito dele”
Uma prática que os lenhadores mais conscientes tem se esforçado para banir do campo é o “rala peito” que consiste em jogar toras de árvores sobre os mais jovens, obrigando-os a ganhar força rapidamente. Incentivada por comerciantes de lenha, a brutal forma de iniciação de lenhadores costuma ser aplicada principalmente em crianças e adolescentes nos 15 primeiros dias de trabalho. “Eles viam um novato e já gritavam ‘vamos ralar o peito dele’. Isso aí judia demais. Tem que ajudar a evitar de se machucar, não o contrário”, reprova Péu.
De acordo com Egon, é impossível um lenhador não se deparar com injustiças no cotidiano. “Um dia quase morri na BR-376. Tinha cinco na cabine, o caminhão ficou sem freio e nos envolvemos em um acidente com uma carreta. O carreteiro morreu e ficamos até as 2h juntando lenha, morrendo de fome. Cheguei em casa às 4h. Você acha que o patrão me deu algum extra? Pagou só pelo primeiro carregamento e ainda reclamou do prejuízo”, narra o rapaz que até hoje se recorda de um companheiro que morreu prensado entre toras de eucalipto.
Os lenhadores são unânimes em sugerir que os motoristas mantenham distância de caminhões que transportam lenha. Argumentam que já viram toras cair sobre automóveis e motocicletas. “Quando você atravessa uma cidade o risco de algo dar errado é ainda maior. Alguém tem que ficar sempre na porta, observando a carga. Se um pau mudar um pouquinho de posição, o motorista precisa parar pra você alinhar tudo”, sugere Márcio.
Egon também faz questão de mencionar o dia em que um cabo de aço amarrado a uma árvore arrebentou e passou de raspão pela sua cabeça. O companheiro de serviço foi atingido violentamente no queixo e na boca. Como o jovem estava desmaiado e sangrando muito, os demais lenhadores aproveitaram a ausência do patrão para levar o rapaz ao Pronto Atendimento Municipal de Paranavaí. Mais tarde, receberam o recado de que a diária não seria paga.
Frases dos lenhadores
“Duvido chegar um lenhador e falar que o corpo é filé. Não é. Tem problema nas costas, no joelho, no ombro e no cotovelo.”
Marcelo Martins de Melo, o Péu, 27.
“A lenha é tão pesada e cruel que você perde até o vigor físico pra praticar um esporte e se exercitar.”
Márcio Alexandre Santos, 23.
“Quando o pessoal começa a se machucar e espalhar os riscos do serviço, o patrão dispensa todo mundo e monta uma equipe nova.”
Maicon Martins Melo, o Egon, 24.
“Acontece de cortar e amontoar num dia e falarem pra voltar só no outro dia pra carregar. Daí você ganha só uma diária, mesmo trabalhando dois dias.”
José Paulo Silva Pereira, o Zé, 18.
Saiba Mais
O número de lenhadores para o corte e transporte de uma carga pode oscilar de 3 a 6.
De acordo com os quatro lenhadores entrevistados, os caminhões que transportam lenha raramente passam por manutenção.
Um vídeo que mostra brevemente uma parte da rotina dos lenhadores de Paranavaí:
Lelinho: usuário de drogas, ladrão e possível aidético
Rapaz se tornou refém do narcotráfico com 12 anos e hoje não pode sair às ruas quando quer
Ao longo dos anos, vi muitas vezes na Vila Alta, na periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, um garoto magricela de estatura mediana com as pupilas dilatadas, olhar sempre desconfiado, cabelos desgrenhados, rosto relativamente sujo e pés encardidos, que há muito tempo não recebem outro calçado que não seja um velho par de chinelos surrados. Para preservar sua identidade, o chamo de Lelinho. Hoje, com 18 anos, não gosta de ser observado, apesar de não reclamar, mas há muito tempo deixou de ser sociável. A forma como percorre as ruas do bairro em horários estratégicos denuncia que é procurado por integrantes de uma facção criminosa. Usuário de drogas, Lelinho está devendo, só que nem a camaradagem dos tempos de “laranja” do narcotráfico é capaz de garantir a sua integridade física. De vez em quando chega em casa todo machucado, com hematomas dos pés à cabeça.
Por enquanto o jovem está autorizado a viver. Até quando? Ninguém sabe. Já recebeu inúmeras visitas de homens armados avisando que qualquer dia a dívida vai ser cobrada com muito sangue. Refém do vício em crack, Lelinho já invadiu muitas casas para furtar fiação elétrica. Dava preferência por residências com placas de “aluga-se”. Quando os espólios eram insuficientes para sustentar o vício, apelava aos mais próximos. Chegou a furtar uma coleção de calcinhas novas de uma tia. Também vendeu o chuveiro de casa, as galinhas da avó e as ferramentas de ferraria e marcenaria do pai e do avô. Em síntese, “tudo virava pedra”.
Durante algum tempo trabalhou recolhendo produtos recicláveis. Motivado pela dependência química ainda furtava materiais e ferramentas que encontrava em áreas de construções. Ocasionalmente Lelinho circula de bicicleta por outros bairros e pelo centro de Paranavaí. Não se incomoda com o som ruidoso, o desconforto e os perigos das duas rodas sem pneus. Inclusive usa um rabicho improvisado para arrastar um carrinho barulhento, sem os aros de borracha. Sempre que recebe uma nova ameaça se afasta das ruas e se esconde dentro de casa por pelo menos um mês. Tem o apoio dos avós que se negam a reconhecer que o neto é usuário de drogas.
Um dia o avô pediu a um vizinho para chamar a polícia, alegando que Lelinho teve um surto e estava quebrando tudo dentro de casa. Quando a viatura chegou o idoso sorriu e tentou explicar que era só pra dar um susto no neto. “Não leva ele não, por favor!”, suplicou, se negando a admitir a seriedade da situação. Diariamente, assim que a escuridão toma conta de uma das ruas mal iluminadas da Vila Alta, Lelinho caminha até a entrada da casa de um vizinho, se agacha e recolhe as sobras de alguns cigarros de maconha. Em seguida, pacientemente transforma os restos misturados à fuligem e sujeira em um “baseado”. Depois de acendê-lo, senta sobre uma calçada estreita de cimento e ignora tudo à sua volta, até mesmo a presença de outras pessoas. É surpreendente o seu empenho em se distanciar da realidade.
O artista plástico Luiz Carlos Prates já tentou ajudá-lo muitas vezes, só que o rapaz se nega a ouvi-lo. “Entrou num estado profundo de decomposição social e moral. Quando não está se drogando, ele passa muito tempo dormindo. Acorda de madrugada e fica vagando por aí”, lamenta Luiz Carlos. Na época em que comercializava crack, a entrada da casa dos avós virava ponto de venda. Sentado em uma cadeira na calçada, e entre um gole e outro de cachaça, o avô virava o rosto e fingia que não via nada. Ao anoitecer, encostavam carros, motos e bicicletas de vários bairros de Paranavaí. “Parecia um ‘enxame de abelhas’, onde tem droga tem gente. Era aquele desfile. Lá encostava cada carrão”, garante o artista plástico.
Mesmo atuando no narcotráfico, o rapaz nunca conseguiu comprar nada, inclusive se tornou laranja porque ficou devendo para a mulher que lhe deu as primeiras pedras de crack. Em uma rara ocasião o garoto apareceu na casa do artista plástico para mostrar o “presente” que recebeu. Ingênuo e orgulhoso exibiu um telefone celular. Um aparelho velho sem a tampa traseira. “Tu não vê que essa mulher só quer te usar? Ela só lucrando e você aí na merda, se afundando cada vez mais. Te deu essa porcaria pra tu avisar ela quando a polícia chega e te complicar mais ainda. Vai ficar andando todo sujo com esse chinelo de dedo velho até quando?”, disse Prates exaltado e preocupado. Mais tarde, a traficante que o introduziu no mundo das drogas foi expulsa do bairro, o que não o livrou desse caminho porque o garoto começou a trabalhar em outra “boca de fumo”. Hoje não atua mais no narcotráfico, mas ainda é perseguido pelas dívidas que contraiu com o vício.
Ontem o artista conversou com Lelinho e o irmão mais velho do rapaz. Os dois usuários de drogas saíram há poucos dias da prisão por envolvimento com furtos. “O verdadeiro malandro sou eu que estou nesta vida com 85 anos e nunca fui preso, nunca usei drogas, nunca fumei. Tu acha que é malandragem estar preso, sem liberdade pra fazer nada? Perde os melhores anos de sua vida na cadeia, uma luta inglória, não ganha nada!”, aconselhou Luiz Carlos. Para piorar, Lelinho e o irmão tiveram relações sexuais com uma moça do bairro diagnosticada com Aids. Ainda assim o jovem evita falar sobre o assunto e deixa claro o seu desinteresse em procurar ajuda médica. “Está cada vez mais seco e vive fedendo. Quem cuida das roupas dele é uma prima que busca, lava e passa. Faz até compras no mercado pra ele. Segue nessa vida de dependência química há seis anos. Não percebe que isso o destruiu”, destaca o artista plástico.
“Olha, filho da puta, quando eu crescer vou comprar um 22 e te dar um tiro na cara”
Morador da Vila Alta, na periferia de Paranavaí, Lelinho começou a ficar agressivo aos sete anos, quando o pai o levava para a escola. Com o tempo o garotinho não quis mais saber de estudar. Rebelde, corria o máximo que podia, se embrenhando na mata do Bosque Municipal de Paranavaí. Para coibir as fugas, um vizinho se dispôs a ajudar. Ia atrás de bicicleta para segurá-lo, caso corresse.
Em uma das vezes que foi segurado pelo braço e não conseguiu escapar o menino esbravejou: “Olha, filho da puta, quando eu crescer vou comprar um revólver 22 e te dar um tiro na cara.” Apesar das ameaças, até hoje nunca segurou uma arma. Nem mesmo reagiu nas muitas vezes em que foi espancado depois de se tornar usuário de drogas. Quando Lelinho estava com 10 anos, o artista plástico Luiz Carlos Prates o convidou para participar da Oficina do Tio Lú, projeto que ensina crianças e adolescentes a criarem obras de madeira. O garoto concordou. Na realidade, mais do que isso, ficou eufórico. Logo se tornou um dos melhores alunos da oficina, tanto que Luiz Carlos se emociona ao se recordar da dedicação de Lelinho. “Fazia cada coisa linda. Era caprichoso demais”, lembra.
No entanto, houve um período em que o artista plástico precisou interromper a Oficina do Tio Lú para produzir obras a serem comercializadas na ExpoParanavaí. Com o fim da feira agropecuária que exigiu dez dias de dedicação do artista, Luiz Carlos procurou Lelinho e logo ficou receoso por não encontrá-lo. “Um traficante foi preso e a mulher dele assumiu a boca de fumo, então ela começou a iludir crianças e adolescentes para entrarem no esquema. Uma dessas crianças era o meu aluno que na época não tinha completado nem 12 anos”, revela. Lelinho não era mais o mesmo. Não queria mais conversar com Luiz Carlos e adquiriu o hábito de se esconder. Quando passava perto da casa do artista, atravessava a rua ou virava o rosto.
“Tentei falar com os avós do menino, contar que o comportamento dele era de um usuário de drogas. Não quiseram acreditar. Só que não demorou pra ele começar a furtar. Quando eu tentava aconselhar, justificavam que tinha gente tentando incriminar o garoto”, enfatiza Prates que até hoje não desistiu de livrá-lo do mundo das drogas. Outro agravante na vida de Lelinho é a falta de estrutura familiar. A mãe abandonou o filho e o marido para viver com outro homem. Quando o relacionamento não deu certo, o amante encomendou o assassinato da mulher. Para não morrer, ela fugiu para São Paulo e só retornou quando pararam de procurá-la. “O pai dele era um homem bom. Não posso dizer o mesmo da mãe que nunca se importou com o filho e o marido. Hoje ela circula pelo bairro como um farrapo humano e ainda virou traficante. Só anda com drogados. Não sei se está louca ou finge estar”, comenta Luiz Carlos.
Quem mais se importava com Lelinho era o pai, falecido recentemente em Arapongas, no Norte Central Paranaense, em decorrência de um acidente vascular cerebral (AVC). De acordo com Prates, um homem trabalhador e de boa índole. O problema era o vício em cocaína, mal que o matou com apenas 36 anos. “Apesar de tudo, ainda vejo bondade no Lelinho. Se a família desse uma força, tenho certeza que conseguiriam recuperá-lo. Eles estão em negação, preferem fazer vista grossa. Não percebem que a qualquer momento o menino pode morrer de overdose ou ser morto”, reclama Luiz Carlos Prates.
Frase do artista plástico Luiz Carlos Prates
“Todo viciado é ladrão. Pode ser podre de rico, ainda assim ele sente necessidade de furtar ou roubar.”
Uma manhã em algum lugar da Vila Alta
Um breve relato de histórias e experiências inusitadas na periferia de Paranavaí

Muitos personagens do bairro circulam diariamente pela estrada de terra ao lado do Bosque Municipal (Foto: David Arioch)
Ligo à noite para o artista plástico Luiz Carlos Prates e combinamos de conversar pela manhã na sua casa, na Vila Alta, periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. O papo seria sobre a Oficina do Tio Lú, um projeto de recuperação de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. Chego antes das 9h e percebo que o portão está cadeado. Um vizinho acena e grita que o “Seu Luiz” pegou a “magrela” e foi ao centro. Faço outra ligação para o Tio Lú e ele pede que eu o aguarde. Enquanto isso fico em frente à Casa 10 da Rua B observando o movimento de pessoas, veículos e animais. À esquerda, uma estrada de terra que dá acesso à Farinheira Cassava possui o maior fluxo de veículos do bairro. Carros, caminhões, picapes e motos circulam dia e noite pelo local. Do outro lado, é possível ver o Bosque Municipal de Paranavaí, inclusive alguns macacos e pássaros que se aproximam da cerca de arame que separa a mata nativa da rua.
Nos primeiros minutos após a minha chegada, três garotinhas com idade entre 12 e 13 anos me chamam a atenção enquanto percorrem uma estrada de terra. Se esforçam para se defender das cortinas de poeira deixadas por uma sequência de caminhões. Tenho a impressão de ver cada uma carregando uma boneca enquanto conversam. Só percebo o engano quando ouço um choro intervalado. Não eram bonecas, mas sim bebês. Quando as três descem um pouco mais, um rapaz me diz que duas das meninas já têm dois filhos. “Essas novinhas engravidaram dos vizinhos lá da rua de baixo. Isso não é anormal aqui, acontece com frequência”, explica. Quando o rapaz vai embora, a simpática Dona Lindinalva, namorada do Seu Luiz, estaciona a bicicleta, me cumprimenta e faz questão que eu pegue uma cadeira para não precisar esperar em pé.
Assim que ela se despede para cuidar dos afazeres domésticos, chega R.D.S., um garoto de 13 anos que conheci em 2012. “Vi você descendo de carro lá na rua de cima, então vim pra cá”, diz sorridente enquanto segura uma gaiola com um coleirinho chamado Maverick. O passarinho foi capturado por R.D.S. que gosta de domesticá-los. Ocasionalmente os vende pela melhor oferta. Depois de mudar a gaiola de posição três ou quatro vezes, evitando expor a ave ao sol, ele grita para um vizinho. “Ô véi, quer comprar coleirinho?” O rapaz então pergunta o preço e R.D.S. responde que aceita R$ 30. A negociação se estende por um bom tempo, até que o vizinho diz que paga pelo coleirinho o que tiver no bolso. “E aí, topa ou não? É pegar ou largar”, desafia.
R.D.S. fica tentado em aceitar, mas tem receio de que o rapaz não tenha dinheiro algum. Na Vila Alta, quem concorda com esse tipo de transação não pode desfazer o negócio se a surpresa for desagradável. “Sei não, viu? Acho que você tá me ‘zuando’”, desconfia o garoto. O sujeito gargalha e se cala. O silêncio sincronizado parece atrair a atenção de Maverick que começa a cantar e voar de um lado para o outro da gaiola. Ao ver a agitação do coleirinho, pergunto a R.D.S. por que ele prende o passarinho dentro da gaiola. “Pra cuidar dele. Ensino a cantar melhor ainda. Sou bom nisso, tanto que eles andam em cima do meu ombro, braço e cabeça”, argumenta e acrescenta que com o tempo abre a gaiola e deixa o pássaro livre.
R.D.S. tem boas lembranças da época em que passava horas observando as aves numa área conhecida como “barragem”, bastante frequentada pelos jovens do bairro. Para chegar ao local é preciso ir até o final da Vila Alta e atravessar um brejo a pé. “A ‘barragem’ foi abandonada quando começaram a matar gente lá. O pessoal ficava com medo. Depois de muito tempo melhorou de novo”, garante R.D.S. que brincava no lugar quase todos os dias. Em seguida, o garoto assobia para o coleirinho que retribui cantando em um tom ainda mais elevado. R.D.S. confidencia que muita gente também gostava de fumar maconha na “barragem”. Jovens com idade entre 8 e 15 anos recebiam o produto de um mesmo fornecedor. “A gente pagava R$ 5 em três cigarros grandes de maconha. Tinha época que queria fumar toda hora. Não dava vontade de fazer mais nada. Ficava ‘relaxadão’”, revela.
Para sustentar o vício, R.D.S. percorria o lixão da Vila Operária e o da Vila Alta procurando fios de cobre. Com a venda, ia até uma “boca de fumo” e comprava maconha. Por vontade própria e incentivo de bons amigos, o garoto parou de fumar há seis meses e já está se preparando para voltar a estudar. O que motivou o adolescente a passar a maior parte do tempo nas ruas e também a se tornar usuário de drogas ainda na infância foi o mau relacionamento familiar. R.D.S. mora com os avós e desde que aprendeu a andar teve de aceitar a ausência da mãe e a convivência com um avô alcoólatra que o xinga diariamente. “Sempre diz que sou lixo, que atrapalho a vida dele e nunca vou ser ninguém. Pra ele, eu não sirvo pra nada”, reclama em tom de mágoa.
Um dia o garoto teve uma intoxicação alimentar e precisou ser socorrido pelo artista plástico Luiz Carlos Prates. No Pronto Atendimento Municipal explicaram que o caso era grave e se tivessem demorado um pouco mais o adolescente poderia ter morrido. “Meu pai é legal. Gosta de me dar presentes. A gente mora na mesma cidade, mas ele só vem me buscar uma vez a cada dois meses”, explica. O relacionamento com a mãe sempre foi tenso. Por isso, apesar dos conflitos, R.D.S. ainda prefere morar com os avós.

Seu Luiz: “Homens ricos, principalmente de meia-idade, vêm aqui pra iludir e se aproveitar dessas meninas” (Foto: David Arioch)
Enquanto conversamos, uma senhora com pelo menos 60 anos desce a rua da Farinheira Cassava equilibrando um botijão de gás sobre a cabeça. Ao lado, um cãozinho mestiço de pelagem escura a acompanha como se fosse um guarda-costas. Minutos mais tarde, Seu Luiz chega de bicicleta e quatro jovens se aproximam. Depois de sentar em uma cadeira sobre a calçada, o artista plástico mostra uma mulher caminhando ao lado do Bosque Municipal. Aparentando ter no máximo 30 anos, a jovem já teve mais de 15 filhos. “É uma moça que poderia ter se esforçado e seguido por um caminho diferente. Ela comandava uma casa de prostituição em São João do Caiuá [a menos de 30 quilômetros de Paranavaí]. Veio pra cá porque a expulsaram de lá. Teve uma época em que o trabalho dela era aliciar as meninas do bairro para se tornarem prostitutas”, confidencia Seu Luiz.
Pela mesma rua percorrida pela moça chega à esquina um senhor com cerca de 70 anos conhecido como Didi. Espancado na noite anterior, o idoso perdeu quase todos os dentes. Restaram apenas dois ou três e algumas lascas ainda presas à gengiva. Visivelmente bêbado e com as pernas trêmulas, Didi tenta articular algumas frases confusas enquanto sorri e levanta os braços em direção ao céu. Parece viver o seu momento em um mundo tão pequeno que fica alegre ao perceber que é observado por algumas pessoas. “Meu nome é Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgina Mufumbbo. Isso mesmo! Mufumbbo com b duplo e Mocó com acento no segundo o!”, comenta aparentemente “anestesiado” pela embriaguez. Quando falam com ele, o homem fica eufórico, sente-se importante por receber um pouquinho de atenção.
Com a partida de Didi, Seu Luiz relata a história do dia em que pediu a um dos seus alunos para lhe arrumar um cachorro preto. “Expliquei que queria um animalzinho com essa descrição para me fazer companhia”, enfatiza. Uma semana depois do pedido atendido, o artista plástico estranhou que o cachorro estava com a pelagem opaca e ficando esbranquiçado. Foi quando se deu conta que como o garoto não conseguiu encontrar nenhum cachorro preto, ele pegou um cão branco e o pintou. “A tinta foi desaparecendo. Nem acreditei no que tinham feito”, lembra rindo.
Antes de eu ir embora, dois adolescentes começam a falar baixo durante a passagem de um homem de não mais que 20 anos. O rapaz de sorriso enviesado, estatura mediana, magro e cabeça raspada só anda pelo bairro em horários estratégicos. Marcado para morrer por uma facção criminosa, o jovem segue a vida enquanto pode. “Não chama o doido aqui não. Se os caras ‘emparelharem’ ele aqui, todo mundo vai levar bala junto”, reclama um rapaz alto e corpulento que abandonou o crime há alguns anos. Sem demora, o jovem dobra a esquina e não o vemos mais. No chão por onde passou, ficam apenas as marcas irregulares da sola do par de chinelos. Ninguém sabe se ele vai sobreviver a mais um dia ou se vai ser encontrado assassinado em algum lugar da periferia de Paranavaí.
Por volta das 11h30, uma picape Ford F-350 preta cruza a Rua B. Mais adiante, uma moça desce do veículo e rapidamente entra dentro de casa. “Aqui é assim. Muitos homens ricos, principalmente de meia-idade, vêm aqui pra iludir e se aproveitar dessas meninas. São sujeitos casados, com filhos e que ‘vendem mentiras’. Sonhadoras, elas acreditam que eles gostam delas, que vão mudar de vida, mas quase sempre são descartadas como se fossem lixo”, critica Tio Lú, acrescentando que não são poucos os homens de alto poder aquisitivo que procuram garotas menores de idade no bairro.
Pouco antes das 12h, dou uma carona para o Seu Luiz até o centro de Paranavaí. Deixamos a Rua B e subimos em direção à Vila Operária. Faltando 200 metros para sair da Vila Alta, vemos um senhor aparentando ter entre 55 e 65 anos abrindo a porta de uma picape Hilux branca para uma adolescente entrar. “Essa menina tem 15 ou 16 anos”, revela o artista plástico. Alguns segundos depois o homem acelera e a picape desaparece em uma curva a 100 metros do Centro da Juventude de Paranavaí.
Uma noite no fliperama
Frequentar a Play Time me garantia uma aula semanal de “experiência mundana”
Em 1993, meu pai levava eu e meu irmão mais velho, Douglas, uma vez por semana na Play Time, uma famosa casa de fliperamas situada na Rua Manoel Ribas, no centro de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Chegando ao local, um paraíso juvenil de mais de 20 máquinas do tipo arcade que mais lembrava o cenário de um filme teenager estadunidense dos anos 1980, ele falava para formarmos uma concha com as mãos e distribuía dez fichas para cada um. Enquanto jogávamos, nosso pai ficava ao lado, no Bar Toyokawa, mais conhecido como Bar do Kengo.
Eu era pequenino, tinha menos de dez anos e estudava na Escola Vicentina São Vicente de Paulo numa época em que as professoras, principalmente freiras, colocavam os alunos de castigo por mau comportamento. O meu mundo era tão minúsculo quanto eu fui na infância. Cheio de limites, me fazia ter uma visão bem canhestra da realidade, embora eu fosse muito curioso. Por isso o fliperama significava mais do que diversão baseada em jogos eletrônicos.
Foi nas idas noturnas à Play Time que conheci crianças da minha idade que já bebiam, fumavam e se drogavam. Tinham uma linguagem própria que fazia eu me sentir um pouco estrangeiro. Era um universo que me intrigava e ao mesmo tempo me amedrontava. Eu os via de longe e às vezes deixava de jogar apenas para observá-los. Encostavam suas caixas ao lado das máquinas e acompanhavam os jogadores com os olhos. Davam palpites na tentativa de ganhar a confiança, uma oportunidade e quem sabe até uma ficha.
Lembro quando um desses garotos se aproximou de mim. Era um engraxate de não mais que 12 anos. Eu estava entretido com um jogo de tiros com cowboys chamado Sunset Riders, um dos mais disputados do lugar. De repente, ele cutucou meu ombro e disse: “Ei, você pode me deixar jogar? Sou bom nisso. Passo fácil essa fase aí. Deixa, vai!” Acabei cedendo. Era um garoto negro, franzino, de cabeça raspada e com as unhas cheias de vestígios de graxa. Conforme ele jogava, eu prestava atenção em suas mãos e expressões faciais. Era melhor que eu. Jogava com muita vontade.
A impressão que tenho até hoje daquele momento é de que enquanto aquele garoto não vencia na vida ele merecia pelo menos vencer no jogo. E era o que acontecia. A verdade é que não o deixei jogar pensando se ele passaria de fase ou não. Tanto que depois comecei a dividir metade das minhas fichas com ele, independente do desempenho. Em troca, conheci um pouquinho do seu mundo numa permuta não declarada. Me contou que trabalhava das sete até as oito da noite – nem sempre recebia pelo serviço que prestava. Às vezes tinha que fugir para não apanhar dos clientes mais abusivos.
O chamavam de Graxinha e me recordo, numa reminiscência enuviada e parcial, quando revelou que nasceu e foi criado na Vila do Sossego, atual Vila Alta, na periferia de Paranavaí. “É um lugar pra lá do buracão. Moro do lado, numa barraca. Mas nem dá nada. Não vou pra casa sempre. Acostumei a dormir por aí, em banco de praça ou na rodoviária. Assim não preciso ir e voltar todo dia”, relatou. Ficou atônito, ou pelo menos fingiu, quando um dia me pediu um isqueiro e expliquei que não tenho. “Ué, você não fuma? Vai me dizer que também não bebe?”, questionou. Quando respondi sem jeito que não, Graxinha fez uma expressão mimética de surpresa, se calou por segundos e soltou uma gargalhada. Fiquei envergonhado. Só balancei a cabeça e dei um sorriso acanhado.
Desinibido, mas cuidadoso, circulava por Paranavaí só em turma. Dizia que era perigoso andar sozinho porque “de noite a vida do marginal vale menos do que durante o dia”, algo assim. O grupo era formado por sete ou oito engraxates, todos menores de idade. Meu pai conhecia cada um e sempre pagava algo para eles comerem e beberem. Acho que fazia muito mais do que isso. Com o tempo, me dei conta que meu pai, que um dia também foi engraxate, não me levava apenas para jogar, mas também para aprender mais sobre a vida e o mundo. O contato com esses garotos garantia isso. Era como uma aula semanal de “experiência mundana”.
No mesmo período eu soube que muitos dos engraxates de Paranavaí que tinham essa faixa etária inalavam cola de sapateiro, tíner e benzina. Uns diziam espontaneamente que era o jeito de suportar a vida na rua ou o frio rigoroso que chegava no final de junho, ainda que pudesse afetar a mucosa do nariz. Ingenuamente outros se “fantasiavam” de adultos com um cigarro em uma mão e um copo de cerveja na outra. Na ausência de referências, eram precoces que viviam à sua maneira numa época em que crianças podiam tranquilamente comprar bebida alcoólica ou tabaco.
Apesar disso, sempre vi esses garotos como bastante amigáveis. Apenas tentavam sobreviver com o que conseguiam engraxando sapato até tarde da noite. Me pareciam destemidos, mesmo quando estavam agachados e cabisbaixos nas esquinas, armazenando suas ferramentas de trabalho dentro de caixas personalizadas com palavras aleatórias, frases e desenhos feitos à caneta. Na Play Time e em muitos outros estabelecimentos comerciais, alguns clientes os desprezavam tanto que os xingavam e iam embora quando eles chegavam. Os engraxates não gostavam de briga, então só ignoravam. Felizmente, o Eduardo, proprietário da casa de fliperamas, sempre os recebia com cordialidade e respeito.
Um dia, sem avisar ninguém, Graxinha desapareceu. A última vez que o vi ele estava sorrindo e acenando enquanto pegava carona no estribo de uma Caloi Cross branca como a cor do seu boné. Uns afirmam que foi embora de Paranavaí, outros comentam que o assassinaram. Quase 20 anos depois, conheci o lugar onde o jovem engraxate viveu. Não havia mais nada. No local, só um vazio, alguns restos mortais de cães e gatos, uma placa com um trecho do salmo 22, um pouco de lixo e um céu que parecia mais baixo e nebuloso do que em qualquer outra parte da cidade.
Funk faz jovens da Vila Alta sonharem com o sucesso
Adolescentes cantam sobre desejos de riqueza e a difícil realidade da periferia de Paranavaí
Foi numa terça-feira às 9h que estacionei o carro em frente a uma casa da Rua B, na Vila Alta, periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Danilo Medeiros França, de 15 anos, estava ansioso, sentado em uma cadeira sobre a calçada aguardando a minha chegada para uma entrevista. Como o conheço há anos, o jovem logo ficou à vontade para conversar sobre uma transformação cultural que tem chegado a todos os bairros marginalizados de Paranavaí. Estou falando da expansão do funk e o que o gênero representa para uma juventude cada vez mais suscetível ao mundo do crime e das drogas.
Na internet e nas rodinhas de discussões de quem não vive a realidade da periferia, o gênero é bastante criticado. Não faltam pessoas se empenhando em desqualificá-lo culturalmente. O acusam de ser imoral, contraventor, de objetificar as mulheres, de usar linguagem obscena, de fazer apologia ao crime e também de abordar temas superficiais. Em meio a tanto preconceito por se identificarem com um estilo musical ainda impopular em Paranavaí, jovens que moram na Vila Alta estão se unindo para mostrar que o funk vai muito além do senso comum. É um gênero com muitas ramificações e algumas surgiram da necessidade de sonhar e lutar contra a invisibilidade social.
Em Paranavaí, desde os anos 1990 o rap era o gênero preferido dos jovens da periferia, realidade que começou a mudar no final da década passada. Dois fatores podem ser apontados como determinantes para o crescente interesse local pelo funk. Um é a facilidade de acesso à internet, o que permitiu que os jovens da Vila Alta acompanhassem e se identificassem com o mundo dos funkeiros das periferias de São Paulo e Rio de Janeiro que viviam na pobreza e conquistaram o sucesso. O outro é a influência de migrantes paulistanos e cariocas que constantemente chegam aos bairros periféricos de Paranavaí. Junto com suas aspirações econômicas, ou seja, de um futuro melhor, trazem também uma bagagem cultural que desperta sonhos e admiração.
Hoje o funk é adotado por esses jovens como símbolo de contestação social. E até mais do que o rap porque tem um poder de popularização ainda maior, além de garantir um retorno financeiro mais rápido e maiores chances de ascensão social. Ainda assim, é unânime o desejo dos funkeiros da Vila Alta de Paranavaí, onde a cultura paranaense se mistura e se confunde com a paulista, de não abandonarem a periferia. “Se pudesse, ‘fechava’ lá pra São Paulo e ‘caía’ pra show. Já era! Depois é só voltar pra cá, construir uma casa e continuar morando aqui”, diz o funkeiro Danilo França, mais conhecido como MC Neguin da VL.
Garoto prodígio das rimas e considerado uma das promessas do funk local, Neguin começou a cantar com dez anos quando seu irmão mais velho lhe mostrou “os piás das quebradas mandando a letra”. “Pensei comigo: ‘Po, tenho o dom. Por que não vou cantar? Comecei aqui mesmo, também com o incentivo do MC Luan”, explica. Para “destravar”, termo que os funkeiros usam em referência ao momento em que conseguem rimar sem gaguejar, Neguin, que na época era chamado apenas de Danilo, ia todos os dias até o Bosque Municipal de Paranavaí, onde aproveitava a solitude e o anonimato garantido pela mata densa para cantar sem constrangimento.

MC Rodrigo: “O pessoal do bairro curte e incentiva pra fazer as músicas mais ‘massa’” (Foto: David Arioch)
Quando perdeu a timidez e ganhou a habilidade de fazer “rima na hora”, começou a escrever as primeiras músicas. “Quem trouxe as ideias pra gente foi o MC Caíque, de São Paulo. Ele ensinava a gente sobre o funk. Falava como era, como funcionava e incentivava a cantar. Se hoje temos isso na Vila Alta, foi graças a ele”, garante e acrescenta que o amigo retornou para São Paulo. Da primeira parceria entre MC Luan, MC Neguin e MC Caíque, nasceu a composição “Vem com nós, bandida”, uma música que convida uma moça para um passeio. “O refrão é assim: ‘Vem com nós, bandida! Vem com nós, bandida! Esbanjar de Santa Fe e se preferir na Captiva’. Fizemos essa, mas depois não quis mais saber desse funk não”, comenta Neguin que escreveu a letra quando ainda trabalhava fazendo fretes com uma carroça.
Sobre a vertente ostentação, o funkeiro gosta de falar de automóveis, motos e casas que sonha em ter um dia. Cita como exemplos Lamborghini Gallardo, carros de luxo da Mercedes-Benz e motos Honda CB 600 (Hornet), Suzuki Hayabusa, Yamaha R1 e Honda CBR 1000 Repsol. São veículos que Neguin costuma ver enquanto navega pela internet. “No mundo que a gente vive, você só existe e é respeitado pelo que tem”, destaca o adolescente, justificando porque os jovens da periferia gostam de falar de ostentação.
Enquanto converso com o funkeiro, outros garotos com idade entre 12 e 15 anos se aproximam e dão depoimentos que confirmam o fato de que conversar sobre riquezas e ouvir músicas sobre o tema faz com que se sintam melhor, esperançosos de uma vida completamente diferente da atual. “Acho que falar de riqueza atrai riqueza, né? São coisas boas”, frisa o menor da turma que usa um chinelo de cada cor e de tamanhos diferentes. De acordo com MC Neguin da VL, que atualmente está no primeiro ano do ensino médio e ocupa o tempo com cursos e oficinas gratuitos, o funk é mais uma chance de conquistar melhores oportunidades. “Com dinheiro, dá pra estudar até em faculdade particular. Respeito a gente já tem, pelo menos aqui na ‘quebrada’. Só falta o dinheiro”, pontua com uma risada expansiva.
Com apenas 15 anos, o MC tem conquistado popularidade na periferia por cantar sobre a realidade da Vila Alta. Neguin une a sonoridade do funk com a consciência social do rap. Quando o pai estava preso, costumava visitá-lo no Setor de Carceragem Temporária (Secat) da 8ª Subdivisão Policial (SDP) de Paranavaí. Lá, o adolescente ouvia histórias sobre a vida dos presos. “Comecei perguntando pro meu pai como era a vida lá dentro. Então trazia na ‘mente’, chegava aqui e ‘destravava’. Eu era muito curioso sobre a rotina desses caras”, argumenta. Uma das preferidas do MC Neguin da VL e de muitos moradores da Vila Alta é a música “Essa é a vida do Magrão” que fala de um homem que deixou Foz do Iguaçu, veio a Paranavaí praticar um assalto e acabou preso. “O Primeiro Comando da Capital [PCC] pegou o ‘bonde’ pra ir pro presídio e os outros ficaram. Daí planejaram uma fuga, houve rebelião e ele acabou morto”, confidencia Neguin.
Se um dia surgir uma oportunidade de gravar uma música em estúdio, o adolescente diz que “Essa é a Vida do Magrão” deve ser a primeira a ser lançada. “Vou te passar um trecho: ‘A minha coroa chora toda noite. É só decepção. E nessa vida louca é só momento de tensão. Não é fácil não. Não é fácil não’ e vai indo. Falo também da mulher dele que agora ficou sozinha”, exemplifica e ressalta que as suas maiores distrações são um caderno e uma caneta.
Além do homem conhecido como Magrão, MC Neguin da VL escreveu mais seis músicas sobre presos que estão no Secat da 8ª SDP. “O dia que cantei pra eles, alguns choraram e falaram: ‘Ô louco, que som da hora!’ Meu caminho é mostrar que o mundo do crime não vale a pena. É pura ilusão e não traz nada de bom. Por isso falo das coisas da cadeia e da vivência, principalmente quando tudo acaba mal”, defende o adolescente que escreveu 46 composições de funk em cinco anos. Cada letra levou de duas a três horas para ficar pronta.
Entre as músicas do MC que agradam principalmente os adolescentes da Vila Alta também estão “Os magnatas”, “Será que nasci pra folgar”, “Minha história em cima do funk”, “As minas do poder” e “Os mais mais da quebrada”. “Aqui em Paranavaí a gente fica mais na Vila Alta. Não temos onde ir pra mostrar o nosso funk. A chance só aparece quando tem comício, essas coisas. Daí ficamos o tempo todo perto do palco pedindo um tempinho pra cantar”, relata Neguin da VL.
O MC gosta de percorrer as ruas do bairro incentivando a garotada ociosa a “soltar a rima”. O objetivo é fazer com que percam a vergonha e se ocupem com alguma atividade que os afaste do mundo das drogas e do crime. “Vejo a molecada à toa e falo: ‘Rapaz, vamos mandar uma rima aqui pra ver’. Tem muito piá aqui com 10, 11 anos que já ‘manda bem”, avalia. Alguns ficam empolgados com a iniciativa, outros demonstram descrença. Se queixam que em Paranavaí ninguém vai querer ajudar na divulgação. “Pensam que isso só dá certo em São Paulo. Tento animar eles e digo: ‘Mas por que o Paraná não pode? Não! Isso tá errado. Tem que ter aqui também”, enfatiza Neguin.
A primeira experiência do MC se apresentando fora da Vila Alta foi no Jardim Oásis, em uma lanchonete. “Me perguntaram se não tinha putaria na música. Expliquei que não e subi pra cantar. Foi bem legal. No final, o dono da lanchonete me deu os parabéns e disse que ajudei com a freguesia”, comemora. Na Vila Alta, até quem não é afeiçoado ao funk admira o empenho de Neguin que detém o recorde de 16 minutos rimando sem parar. O funkeiro treina todos os dias e de vez em quando participa de disputas de rimas com MCs de outros bairros. “Lá no Jardim Santos Dumont, a gente geralmente marcava encontro em uma lan house. É divertido participar desses duelos”, afirma. Além da Vila Alta, o cenário do funk em Paranavaí tem representantes no Jardim Santos Dumont, Ipê, Renascer, Morumbi, Coloninha e Matarazzo.
Sem dinheiro para investir em produção profissional, Neguin da VL se reúne com Leonardo Matheus Alves, o MC Leozinho, e Rodrigo Weslley Silva Bento, o MC Rodrigo, para improvisarem nas gravações. Juntos, percorrem uma estrada de terra até chegaram ao fim do bairro, onde tiram os telefones celulares dos bolsos, entram no aplicativo MPC, selecionam uma das nove bases musicais oferecidas pelo programa e iniciam a gravação. “É fácil, mas a qualidade não é boa. A gente também coloca uns vídeos no YouTube, filmados com a câmera do celular. Conecta um cabo em uma caixa pra dar mais batida, liga o microfone e manda ver. Depois edita no Video Trim e já era. Só no improviso”, esclarece Neguin.
O que também pode ajudar o adolescente a ganhar projeção é a parceria com funkeiros de outras cidades e estados. Há pouco tempo o rapaz recebeu um convite para gravar com um conhecido grupo de São Paulo. “Ainda não posso divulgar o nome, mas a vantagem é que isso pode chamar atenção pra minha música”, acredita. Outro diferencial é que Neguin da VL mantém contato com MC G3, MC Boy do Charmes, DJ Perera e DJ Wilton, nomes famosos entre funkeiros de todo o Brasil. “Tô na luta, não posso parar não”, reforça.
“Nossa, louco aí, ó. Só escutando o MC Guimê e pá, vixi”
Quando eu estava terminando de conversar com o MC Neguin da VL, chega Rodrigo Wesley Silva Bento, o MC Rodrigo, de 15 anos, que encosta a bicicleta personalizada rente ao meio-fio. Com um cabelo trançado e um estilo inconfundível, o adolescente conta: “Comecei junto com o Neguin. Eu tinha uns 12 anos. Nossa, louco aí, ó. Só escutando o MC Guimê e pá, vixi. Curtia, né?”, lembra enquanto ajeita o corpo sobre o banco de uma bicicleta vermelha que traz no quadro uma arte feita com barbante. No bairro, a garotada usa a criatividade para se destacar das mais diversas formas. Sem dúvida, um jeito de mostrar que é possível ser original mesmo sem grana.
Rodrigo é quem produz as músicas de Neguin. Se considera um curioso e está sempre pesquisando na internet sobre edição de som. “A primeira dele que produzi foi no ano passado. Antes ele só cantava por aí, daí dei a ideia da gente gravar com o celular até surgir um recurso melhor. O pessoal do bairro curte e incentiva pra fazer as músicas mais ‘massa’”, assegura e faz questão de definir o funk do amigo como suave, ‘de boa’, ‘não pesadão’. O adolescente está aprendendo a usar o Fruity Loops Studio, um aplicativo de edição profissional. “É difícil, mas estou me esforçando. Não podemos gravar as músicas em celular pra sempre. Eu e o Danilo ajudamos um ao outro. Só que quem tem o dom para o funk é ele, né?”, avisa.

MC Luan: “Mesmo que um dia eu conquiste o meu espaço, não vou abandonar a Vila Alta” (Foto: David Arioch)
Estudante do primeiro ano do ensino médio e aluno de um curso técnico de informática, Rodrigo sonha com dias melhores. “Nos reunimos todo sábado e domingo pra cantar, gravar alguma coisa ou compartilhar o que aprendemos. Tomara que venham boas oportunidades pra gente”, frisa o jovem que tem preferência pelo funk que fala da “realidade das quebradas”. Outro adolescente, também de 15 anos, que chega animado à Rua B para falar do assunto é Leonardo Matheus Alves, o MC Leozinho. Incentivador, é o responsável por gravar alguns vídeos do MC Neguin da VL.
“Já faz um tempo que estou aí com os moleques. A gente filma, dança e se vira como pode. Tem que ajudar pra ver no que vai dar na vida aí, né, não, Neguin?”, diz sorrindo. Leozinho se esforça para divulgar o trabalho do amigo no YouTube e no Facebook. Admite que apesar das limitações técnicas fica feliz quando as pessoas curtem, compartilham e comentam os vídeos. “O funk é ‘massa’, né, ‘véi’? Curtição, né? É legal quando fala de ostentação, mas é melhor ainda quando é sobre a realidade do povo da periferia”, enfatiza.
Ao final da entrevista, quando eu estava indo embora, ouvi um homem gritando: “Danilo, chega aí! Rapidinho!” O convite era para ajudar a empurrar um carro em uma estrada de chão, no cruzamento com a Rua B. Enquanto sonha com a ostentação, Danilo Medeiros França, o MC Neguin da VL, faz questão de mostrar que quem busca o sucesso não pode virar as costas para os amigos e os problemas da comunidade. “Tem que ajudar, valorizar as origens, né?”, assinala.
“A inspiração vem da ‘quebrada’ mesmo. O que eu vejo vira letra”
Uma semana depois da primeira bateria de entrevistas com os funkeiros da Vila Alta, eu e o MC Neguin da VL deixamos a Rua B e subimos pouco mais de 500 metros até chegar a um conjunto habitacional onde mora Luan Ferreira Silva Lomes, o MC Luan da VL. Com apenas 18 anos, o funkeiro é o pioneiro do gênero na Vila Alta. Tímido, demora um pouco para se sentir à vontade, mas faz questão de esclarecer logo no início da conversa que canta porque quer ajudar a população do bairro. “Mesmo que um dia eu conquiste o meu espaço, não vou abandonar a Vila Alta. Tem muita gente necessitada aqui. A comunidade está cheia de crianças sem nada pra vestir ou comer. Meu sonho é fazer a diferença”, garante o rapaz que teve como primeira referência o MC paulistano Zóio de Gato, falecido em um acidente de trânsito aos 16 anos em 2009.
Há seis anos cantando funk, MC Luan é uma importante influência para Neguin da VL. Quando começou a se interessar pelo gênero, Luan foi incentivado por MC Caíque, de São Paulo, que morou um bom tempo na Vila Alta. “Falou que minhas rimas têm bastante qualidade. Aquele era um piá firmeza, hein?”, declara o rapaz que tem seis músicas bem conhecidas no bairro.
O primeiro funk do MC Luan, que cita como inspiração MC Lon, um dos ícones do funk ostentação, foi “O sabadão chegou”. Escrita há quatro anos, a música fala dos prazeres do final de semana. “Hoje a inspiração vem mais da ‘quebrada’ mesmo, da nossa realidade. O que eu vejo vira letra”, justifica. Se pudesse gravar uma de suas composições, o MC gostaria de lançar “Ela é a mais mais”, composição sobre uma moça do bairro que gosta de baladas. Quando saem pelas ruas da Vila Alta cantando, MC Luan e MC Neguin alternam rimas e beatbox. “Por enquanto improviso no celular, gravo brincando. Se um dia aparecer uma boa oportunidade, vou levantar as mãos pro céu e agradecer muito”, promete MC Luan da VL.
Letra parcial de uma música do MC Neguin da VL. A composição foi inspirada na história de um morador da periferia de Paranavaí.
“Deus, me perdoa. Entrei nessa vida simplesmente à toa. Mulheres lindas e o bolso sempre cheio. Whisky na balada e as mulheres no meio. Dinheiro fácil nem sempre é bom. Mundo das drogas, não passa de ilusão. Cheio de malote, eu nunca ligava se pegava cinco, pegava tudo e gastava. As patricinhas tudo vindo atrás. Meu poder ia crescendo a cada momento. Cheguei a ser gerente do grande movimento. Minha responsa era foda e eu não podia vacilar. Num triste dia minha casa caiu. Fecharam minha cachanga com mais de 20 fuzil. Desespero era foda, não aguentava correr. Mas ao mesmo tempo eu sabia que podia morrer. Me entreguei e hoje estou aqui dentro. São várias amizades no mundo lá dentro. Naquele mundo de mulheres, eu só tinha mulher boa. Hoje quem me faz visita é só minha coroa. Só quero sair daqui, nem vou me vingar. Deus sabe o que faz, só quero me libertar.”
Curiosidade
O VL no nome artístico dos funkeiros é uma homenagem ao bairro de origem, a Vila Alta.
Contatos
MC Neguin da VL: (44) 9750-6899
MC Luan da VL: (44) 8806-9585
Oficina do Tio Lú no Encontro com Fátima Bernardes
Artista plástico de Paranavaí recebeu a equipe do programa ontem
Anteontem, eu estava retornando de Curitiba, quando parei em Califórnia por volta das 22h para atender uma ligação. Era o Tio Lú, artista plástico da Vila Alta, de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, que faz um trabalho de recuperação de crianças em situação de vulnerabilidade social. Feliz, me contou que ontem de manhã receberia a equipe de jornalismo do programa Encontro Com Fátima Bernardes, da Rede Globo. Emocionado, me agradeceu várias vezes pela divulgação da sua oficina em texto e vídeo.
Depois pediu que eu fosse até a casa dele antes das 9h para dar uma força. Gostei muito da experiência. Fiquei emocionado em ver que após seis anos acompanhando a Oficina do Tio Lú, o trabalho do Seu Luiz vai ter uma repercussão muito maior. Outra felicidade foi encontrar o artista plástico Jesus Soares que teve importante participação nesse processo. Inclusive foi quem me apresentou ao Tio Lú há seis anos. Jesus fez questão de contribuir, tanto que dedicou a manhã toda e parte do início da tarde.
Admito que não tenho o hábito de assistir TV, mas fiquei grato em ver o carinho e a sensibilidade da equipe do programa com todo mundo que participou e testemunhou esse trabalho que findou só por volta das 14h. Tiveram uma grande preocupação em conhecer a fundo o projeto do Tio Lú. Recolheram fotos, vídeos produzidos de forma independente e checaram todos os outros materiais já publicados sobre o assunto.
É muito legal saber que o Seu Luiz, já com 84 anos, dois joelhos problemáticos e diagnosticado com uma hepatite C no final de dezembro, continua lutando pelos seus ideais, se esforçando para fazer a diferença em um mundo cada vez mais individualista e materialista. A garotada também merece só elogios. Deram um grande show de comprometimento e gratidão. A reportagem gravada em Paranavaí vai ao ar no programa Encontro com Fátima Bernardes na terça-feira.
Link do vídeo produzido pela equipe do Encontro Com Fátima Bernardes (atualizado no dia 21-04-2015):
http://globotv.globo.com/t/programa/v/gabriela-lian-mostra-trabalho-de-artesao-de-84-anos/4124935/
Conheça um pouco mais o trabalho do Tio Lú nos links abaixo:
//davidarioch.com/2014/02/22/oficina-do-tio-lu/
//davidarioch.com/2014/10/14/ajudando-jovens-em-situacao-de-risco/
Periferia, sonho, funk e invisibilidade social

Almoço organizado por Tio Lú rendeu um bom bate-papo com crianças e adolescentes da Vila Alta (Foto: David Arioch)
Ontem, na Vila Alta, na periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, o artista plástico Luiz Carlos Prates de Lima, o Tio Lú, preparou um almoço para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social que participam de uma oficina de artesanato em madeira. Aproveitei a oportunidade para conversar algumas horas com a garotada, já que normalmente a turma se divide no decorrer da semana.
Após o almoço, perguntei a cada um dos 15 garotos quais são seus sonhos. Eric, um garotinho de 12 anos, me respondeu com um sorriso tímido: “Ah, meu sonho mesmo é ser MC.” Então interpelei: “Sério? Que tipo de MC? Me dê um exemplo, só pra eu ter uma ideia. A resposta foi a seguinte: “Igual o MC Daleste!” Ingênuo e sonhando com um futuro melhor, Eric não sabia que o seu ídolo, MC Daleste, foi assassinado em 2013. Ficou surpreso quando contei.
Sobre o conteúdo das letras do MC, Eric disse apenas que nunca entendeu muito bem, mas que o estilo sempre o agradou pela “batida” e também porque fala de “coisas” que ele gostaria de ter um dia. Tem gente que prefere generalizar e dizer que quem gosta de funk é isso ou aquilo. Quando se conhece a realidade desses jovens, por exemplo, você percebe que a identificação com o funk tem a ver com um mundo de sonhos, a ingênua vontade do ter para poder existir. “Se eu ganhar um bom dinheiro, não serei mais humilhado”, comentou Tales, de 15 anos.
“Não tenho nada, então as pessoas não me enxergam”, disse outro garoto de 14 anos. Robson, de 12 anos, que adotou um visual de MC e descoloriu os cabelos para ficar parecido com um ídolo, explica que quando um pobre faz sucesso com funk significa que eles também têm uma chance de conseguir se destacar. O gênero também é condenado por quem vive na Vila Alta, mas lá muitos reconhecem que é sim uma forma de cultura, mesmo que famigerada, já que dita paradigmas, tendências, costumes e até mesmo linguagens.
Dos 15 garotos com quem conversei, só um me disse que acredita que um dia vai para a faculdade. Felipe, de 15 anos, que também adotou um visual de MC, gosta do estilo, mas não quer saber de virar funkeiro. Ele sonha em ser engenheiro. A maioria afirma acreditar que não vai conseguir terminar o ensino médio. “Não sei até onde vou chegar, mas aqui muitos pais falam que estudar é perda de tempo”, comenta Robson que tatuou sozinho os nomes dos pais nos braços, apesar de ter sido deixado na rua pela mãe quando tinha só três anos.
Inocência e carência
Quando eu estava indo embora, Yuri, de seis anos, e Gabriel, de oito anos, chamaram a minha atenção: “Ô tio, dá uma carona pra gente até ali em cima.” Então respondi: “Claro, podem entrar!” Yuri e Gabriel sorriram e abriram as portas do carro. Tive que estender a mão para o Yuri subir porque ele é bem pequeno. Os dois se ajeitaram no banco traseiro e começaram a rir, segurando dois pratos de plástico que levaram para participar do almoço na casa do Tio Lú.
Duas quadras depois, Gabriel falou: “É aqui, tio! A gente mora logo ali.” Os dois agradeceram, mas antes de fechar a porta, Gabriel perguntou: “Ô tio, quando é que você volta? Você vai voltar, né?” Respondi que sim e saíram rindo, balançando os pratos de plástico. O que eles queriam não era exatamente a carona, mas passear de carro, mesmo que por um minuto, e também receber mais um pouquinho de atenção antes de partirem para casa.
Ivan & Rose fecha a trilogia Realidade da Periferia
Lançado hoje no YouTube, o documentário Ivan & Rose fecha a trilogia da série Realidade da Periferia. O curta-metragem faz parte de um trabalho que iniciei no ano passado na Vila Alta, um dos bairros mais pobres de Paranavaí, no Noroeste do Paraná.
O filme aborda a história dos catadores de materiais recicláveis Ivan Martins e Rose Santos que vivem em um barraco construído há 20 anos na Vila Alta, na periferia de Paranavaí. No local, um ambiente escuro e pouco arejado, a mobília se resume a itens já deteriorados e retirados da sarjeta. Quando chove, é difícil se abrigar da água que invade o barraco, arrastando até a lama da rua e do quintal.
Além da situação de pobreza extrema, o casal é obrigado a lidar com graves problemas de saúde. Ivan, que já sofreu acidente vascular cerebral (AVC), infarto e convive com um enfisema pulmonar, só é capaz de se manter em pé quando se apoia sobre o carrinho que ele chama de “cadeira de rodas”.
Rose é epilética, tem labirintite e problemas severos na coluna vertebral. Quando é acometida por alguma crise, chega a ficar dias acamada. Apesar disso, o casal continua na luta, coletando recicláveis que garantem um lucro semanal de R$ 70. Enquanto Rose se responsabiliza pela coleta, Ivan guia o carrinho. “O papelão podia render pelo menos 25 centavos por quilo. Pra gente ter uma vida razoável, né?”, reclama Rose.
Ivan & Rose é um documentário cru, sem artificialismos, que integra uma trilogia que inclui os filmes Oficina do Tio Lú e Vila Alta.
“Ô Seu Luiz, quer comprar milho?”
Uma história de furto de milho com crianças de três e nove anos

Luiz Carlos se arrependeu de alimentar as galinhas com o milho comprado por R$ 15 (Foto: David Arioch)
Há pouco tempo, o artista plástico Luiz Carlos Prates, morador da Vila Alta, na periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, estava trabalhando no atelier no fundo de casa quando ouviu alguém o chamando em frente ao portão. Foi ver quem era e se deparou com dois garotos sobre uma carroça cheia de sacos de milho. Um deles gritou: “Ô Seu Luiz, quer comprar milho?”
O artista perguntou o preço e o garoto respondeu que cada saco custava R$ 15. “Achei o preço bom, até porque crio animais e preciso de milho para alimentá-los”, explica. Satisfeito pelo bom negócio, Luiz Carlos ficou intrigado no dia seguinte quando os garotos retornaram oferecendo para a sua namorada, Lindinalva Silva Santos, que mora na casa ao lado, um saco de milho por R$ 5.
“Estranhei porque o preço mudou muito rápido de um dia pro outro. Não consegui ver lógica nisso, mas deixei passar”, comenta. No terceiro dia, os garotos apareceram novamente com uma carroça cheia de milho e ofereceram ao artista quatro sacos por R$ 15. “Depois dessa, não tive dúvida e falei pra eles: ‘Vocês tão furtando milho, né? De onde tá saindo todo esse milho que não acaba mais? Não adianta vir com conversa fiada, pode falar a verdade”, esbravejou Prates, preocupado com a procedência do cereal.
Os garotos entraram em conflito na hora de se justificar. Um falou que o milho foi repassado para revenda e o outro declarou que encontraram os sacos abandonados em uma mata não muito distante do bairro. “Sabia que era mentira porque conheço bem essa molecada. Pra você ter uma ideia, tinha tanto milho que eles ficaram uma semana vendendo. Repassaram o produto até pra outras pessoas comercializarem”, destaca.
Ao longo de sete dias, Luiz Carlos perdeu as contas de quantas carroças encontrou pelo bairro, guiadas por crianças que ofereciam sacos de milho para quem criava animais como galinhas, patos, porcos e cavalos. “Lá pra cima já ouvia a criançada gritando: “Olha o milho, olha o milho, olha o milho, baratinho, baratinho, baratinho”, relata.
Preocupado, o artista decidiu investigar a origem do produto. Descobriu que os dois garotos que lhe ofereceram o milho tinham invadido um depósito de cereais em uma fazenda nas imediações da Vila Alta. “O mais incrível é que eles tinham só nove anos. Fizeram um buraco na parede do depósito e a irmã de um deles, prestes a completar três anos, passou pela abertura e abriu uma das janelas para eles entrarem”, enfatiza. Enquanto furtavam o milho, a irmãzinha ficou na janela, à espreita, vendo se não aparecia ninguém.
Quando Luiz Carlos ainda não sabia a verdade, a garotinha viu o cereal na casa do artista e disse ao irmão: “Olha aqui, o tio Lú tem um saco de milho. A gente que pegou aquele dia, lembra? Igual aquele que você levou pra casa!” Evasivo, o garoto de nove anos retrucou: “Você tá enganada! Aquilo que levei pra casa era travesseiro, não era saco de milho não!”
Bravo com a situação e também por ter sido enganado, Luiz Carlos despejou todo o milho em um terreno baldio e reuniu todos os envolvidos na ação criminosa e na venda do produto. “Dei um sermão neles e expliquei que isso não se faz. É errado, é coisa de bandido”, lembra. Uma das ironias da história é que o milho despejado no terreno deu origem a um pequeno milharal abandonado que se desenvolveu sem qualquer cuidado ou supervisão.
Mais tarde, uma das crianças que articulou a invasão ao depósito contraiu sarna. Um dia, chegou até a casa do artista plástico com o corpo repleto por feridas. Sensibilizado, Luiz Carlos cuidou do garoto ao longo de uma semana. “Fui até a casa dele para conversar com a família. Me falaram que os pais dele tinham ido embora para uma Vila Rural. Quando expliquei para a avó que o caso do menino era grave, ela disse o seguinte: ‘Leva esse traste daqui. Pega ele pro senhor, não quero ele mesmo.’”
Surpreso, o artista foi informado que o garoto dormia fora de casa, no quintal, em companhia de diversos animais. Para convencer a criança a receber um tratamento diário à base de sal e limão, Luiz Carlos e a namorada, Lindinalva, prepararam lanches para alguns garotos do bairro a semana inteira. “É só oferecer comida que a criançada vem. Deu tudo certo e na semana seguinte ele sarou. Hoje o menino mora com os pais em uma Vila Rural”, revela o artista plástico.
O homem que sobreviveu a três tentativas de assassinato
Nebrão: “Dei como certa a minha morte. Ouvi só o barulho acionado pelo gatilho, mas a bala não veio”

Na Vila Alta, quem ingressa no mundo do crime precisa de sorte para chegar aos 25 anos (Foto: David Arioch)
Quem conversa com o pacato Nebrão, de 33 anos, não imagina que ele já foi um dos homens mais perseguidos da Vila Alta, na periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Comunicativo e de fala mansa, hoje se orgulha da vida tranquila e também de ter evitado que crianças e adolescentes entrassem ou continuassem no mundo do crime.
“Saí desse caminho errado graças a Deus. Já fui ladrão sim. Também me envolvi em outras coisas erradas. Não posso negar meu passado, mas me distanciei dessa vida sem futuro”, garante enquanto exibe inúmeras cicatrizes, principalmente marcas de facadas. De origem pobre e sem estrutura familiar, Nebrão é um raro exemplo de sobrevivência, ainda mais levando em conta que no bairro onde foi criado quem se torna criminoso precisa de sorte para chegar aos 25 anos.
O rapaz perdeu muitos amigos de infância e adolescência nos anos 1990, quando uma onda de terror tomou conta do bairro. Naquele tempo, a Vila Alta era conhecida como Vila do Sossego. “Muita gente foi pra debaixo da terra e outro monte pra cadeia. Era bandido matando bandido. É até difícil citar uma rua onde não morreu ninguém na época”, afirma. Os assassinatos no bairro sempre tiveram relação com o narcotráfico ou rixas entre facções do crime organizado. “Aqui é bem tranquilo para quem não se envolve com essas coisas, mas o ‘bicho pega’ se tu seguir a vida do crime e der mancada”, garante e cita o exemplo de um garoto de 13 anos que morreu após levar um tiro na cabeça enquanto estava escorado sobre um tanque, bebendo água da torneira.

Os assassinatos no bairro sempre tiveram relação com o narcotráfico ou rixas entre facções do crime organizado (Foto: David Arioch)
O adolescente foi morto porque furtou uma trouxinha de drogas. A tolerância é zero, tanto com quem tenta enganar algum traficante quanto com quem consome e não paga pelo produto. “A quantidade nunca interessa. Pra eles, o mais importante é impor medo e respeito, mostrar que a punição é mortal”, enfatiza. Enquanto converso com Nebrão, ele faz questão de caminhar alguns passos e me mostrar onde três adolescentes foram executados porque “cresceram os olhos” sobre os lucros do chefe. “Quem se envolve com a bandidagem tem que respeitar também a lei do crime”, explica.
Por muito tempo, Nebrão foi conhecido como o maior “ladrão de água e de energia elétrica da Vila Alta”, atividade que depois lhe trouxe problemas com a Companhia Paranaense de Energia (Copel), Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) e polícia militar. Autodidata, se tornou uma espécie de mestre das gambiarras. “Só de olhar, eu sabia o que tinha de fazer. Por R$ 35, eu resolvia o problema de qualquer um. Só ficava sem água ou sem luz quem quisesse”, lembra e acrescenta que já atendeu cerca de 1/3 do bairro.
Famoso pelo serviço rápido, o rapaz desde cedo demonstrou talento em montar e desmontar objetos. Chegou a ser contratado para furtar pontes de córregos. “Dependendo do tamanho, ele não precisava nem de uma hora para desmontar e levar embora”, garante um amigo que entre sorrisos testemunha a conversa. Envolvido com furtos, roubos e receptação de mercadorias desde a adolescência, Nebrão declara que só está vivo porque Deus quis assim. “Quem tem um histórico parecido com o meu não vive muito. Sou um sobrevivente”, garante.

Nebrão falando dos anos 1990: “Difícil era citar uma rua onde não morreu ninguém” (Foto: David Arioch)
O rapaz tem motivos para pensar assim. Perdeu as contas de quantas noites dormiu sem saber se acordaria. Uma vez atearam fogo em sua casa de madrugada. Nebrão percebeu o incêndio a tempo e escapou da morte, apesar dos prejuízos materiais. “Comecei a ser perseguido porque um cara delatou dois traficantes e deu o meu nome como se fosse o dele. Ele queria me ‘ferrar’”, revela.
Quando tudo parecia ter voltado à normalidade, Nebrão foi surpreendido na rua por dois homens armados. No momento da execução, apesar da insistência dos atiradores, nenhum dos revólveres disparou. “Dei como certa a minha morte. Ouvi só o barulho acionado pelo gatilho, mas a bala não veio. Corri e vieram no encalço com pedaços de pau. Tentaram me derrubar golpeando minhas pernas. Não caí por milagre e consegui escapar mais uma vez”, confidencia o rapaz que é alto e corpulento, o que também pode ter ajudado na fuga.
As histórias de Nebrão são confirmadas por outros vizinhos que se aproximam para ouvir a conversa. Apesar das tentativas de homicídio, continuou no bairro, próximo da família e dos amigos. Mais tarde, um conhecido apareceu na casa do rapaz e gritou: “Ô, nego, chega aí. Quero falar contigo, é papo reto, coisa rápida.” Em seguida, a irmã de Nebrão disse: “Tenha fé, meu irmão. Deus me disse que hoje você vai amarrar o diabo.”
Quando abriu o portão, o sujeito apontou o revólver para Nebrão que começou a orar enquanto mantinha os olhos fixos sobre o atirador. “Ele abaixou a arma, chorou e disse que não aguentava mais aquela vida. Decidiu se entregar para a polícia”, relata Nebrão que em diversas situações foi perseguido por falsas denúncias de delação de traficantes.
Naquele dia, o homem enviado para matar Nebrão já tinha assassinado cinco pessoas na periferia de Paranavaí. Preocupado com o futuro, Nebrão se distanciou do crime, parou de beber, fumar e se tornou evangélico. Admite que atualmente ganha pouco para sobreviver, mas está feliz por não dever nada a ninguém. “É um dinheiro honesto. Quando a situação aperta, trabalho até na roça nos finais de semana”, assegura.
Hoje, se empenha em fazer alguma diferença na vida de crianças e adolescentes que se tornam ladrões ou ingressam no mundo das drogas. “‘Mando a real’ na molecada. Explico que esse caminho não traz nada de bom. É uma ilusão, e se continuar nele vai morrer sem aproveitar a vida. Aos traficantes e ladrões que conheço, peço pra não oferecer droga nem serviço pra eles. O que posso fazer é aconselhar e pedir”, comenta Nebrão que já conquistou bons resultados com essas ações.
Saiba Mais
Nebrão é um apelido fictício para preservar a identidade do entrevistado.









