David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for October, 2016

Leandro Karnal e a analogia aos esteroides anabolizantes

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Em uma das palestras do Leandro Karnal, vi algo que me chamou a atenção. Ele fez uma analogia aos esteroides anabolizantes para citar um exemplo de conduta antiética. Ele exibiu para centenas de pessoas a foto de um rapaz como sendo a de um usuário de AEs, quando na realidade ele estava mostrando a imagem de um usuário de vitamina ADE, produto de uso veterinário.

Sim, ADE é um exemplo de trapaça quando usada por seres humanos que querem induzir algo enganoso, Porém, não é esteroide anabolizante, é um óleo de aplicação local que independe de atividade física e boa alimentação. Basta aplicar e ganhar uma bolsa de líquidos, já que ele não gera músculos, apenas amplia o volume do braço.

Sendo assim, penso que é preocupante confundir coisas de funções e ações distintas. E não se pode também generalizar AE como sendo fármaco de uso recreativo ou competitivo, ainda mais levando em conta sua aplicabilidade em pacientes com doenças graves como o câncer. Independente da minha opinião sobre o assunto, há documentários que tratam especificamente da recuperação de massa magra em pacientes com tumores malignos. Exemplos disso estão no documentário “Bigger, Stronger, Faster”, de Chris Bell.

Acredito que seja sempre perigoso quando tentamos abordar um tema entrando em outras áreas que não dominamos, ou pelo menos sobre as quais não temos conhecimento que vá além das armadilhas midiáticas. Ao final da palestra, Leandro Karnal não abriu espaço para perguntas, então fui embora com a esperança de que ele tivesse adquirido os direitos de uso de imagem do rapaz com o braço deformado e das outras pessoas que apareceram na projeção durante a palestra. Do contrário, isso também não seria antiético? A propósito, gosto do trabalho dele. São apenas questionamentos que considero válidos.

Written by David Arioch

October 8th, 2016 at 9:20 pm

Uma manhã de sábado na Vila Alta

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Fotos: David Arioch

Fotos: David Arioch

Hoje de manhã, realizamos algumas atividades para crianças e idosos na Vila Alta, na periferia de Paranavaí. Foi uma experiência inesquecível. Tudo foi feito de forma voluntária, graças à parceria da professora Rose Freire e das alunas do 4º ano de Serviço Social da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), do Serviço Social do Comércio (Sesc), através da minha amigaTânia Mara Volpato, da atriz e professora de dança circular Gaty Rocha, da Farmácia Bipharma, do senhor Luiz Gonzaga e sua esposa (moradores do bairro que ajudaram na montagem de tudo e disponibilizaram o equipamento de som).

E claro, do artista plástico Tio Lu ( Luiz Carlos), que é sempre a primeira pessoa que procuramos quando queremos realizar algo na Vila Alta. Também contamos com a participação do meu irmão Guimarães Jvnior, meu amigo Vinicius Vieira, do fotógrafo Elizeu de Moraes e do professor Carlos Alberto João, que também assumiu uma bela responsabilidade com o bairro. Além disso, fizemos doações de muitos livros cedidos pela Paranavaí Cidade Poesia – Fundação Cultural, por meio da Biblioteca Municipal Júlia Wanderley.

A Rose Freire e as alunas da Unespar prepararam um monte de kits para distribuir aos idosos, além de panfletos sobre seus direitos. Também percorremos casas distribuindo kits para aqueles que não tinham condições de se deslocarem até a Rua B, onde o evento ocorreu. Foi uma manhã muito agradável e de muito aprendizado. Tivemos muita música, pula-pula, pernas de pau, apresentações de dança circular, oficinas de artesanato, cuidados estéticos e diversas brincadeiras que hoje são pouco conhecidas pelas novas gerações. O maior presente foi ver tanta gente empolgada em ajudar, assim como tanta gente animada em se divertir.

Written by David Arioch

October 8th, 2016 at 9:14 pm

Lamartine: “Matar os animais é uma das mais deploráveis enfermidades da condição humana”

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“É uma dessas maldições lançadas sobre o homem pelo embrutecimento de sua própria perversidade”

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Lamartine: “Talvez eu esteja em dívida com essa dieta por conseguir preservar requintada sensibilidade e uma doce tranquilidade de humor e caráter” (Foto: Reprodução)

Pioneiro do romantismo francês e considerado um dos maiores poetas da França do século XIX, o escritor e poeta Alphonse de Lamartine era um defensor do vegetarianismo. Em uma de suas obras, “Les Confidences”, ele conta como se tornou vegetariano logo nos primeiros anos de sua vida.

“Minha mãe estava convencida, assim como sempre foi a minha convicção, de que matar os animais para nos alimentarmos de sua carne e sangue é uma das mais deploráveis e vergonhosas enfermidades da condição humana. É uma dessas maldições lançadas sobre o homem pelo embrutecimento de sua própria perversidade”, escreveu na página 59 da obra publicada originalmente em 1849.

Lamartine narra que surpreendeu a todos quando chegou aos 11 anos se alimentando basicamente de pão, vegetais e frutas. Nem por isso ele era menos saudável ou teve sua fase de desenvolvimento comprometida. “Talvez eu esteja em dívida com essa dieta por conseguir preservar requintada sensibilidade e uma doce tranquilidade de humor e caráter”, registrou.

Assim como sua mãe, o poeta francês acreditava que os hábitos alimentares que envolvem exploração de animais endurecem o coração humano e comprometem a capacidade de observá-los como seres gentis. “Eles são nossos companheiros, nossos auxiliares […]. Esses apetites sangrentos, essa visão da carne palpitante, são calculados para brutalizar os instintos do coração, tornando-nos ferozes”, observou.

A nutrição baseada na exploração animal era reconhecida por Alphonse de Lamartine como possivelmente mais suculenta e energética. Por outro lado, ele afirmou que essas supostas qualidades também eram as causas ativas da irritação humana e do seu definhamento físico. “Azedam o sangue e encurtam os dias de vida da humanidade”, declarou em “Les Confidences”.

Desde muito cedo, com a intenção de fortalecer a opinião do filho em relação à abstinência de carne, sua mãe contava-lhe histórias de tribos gentis e piedosas da Índia, que se negavam a se alimentar de seres sencientes. Muitos eram pastores ou camponeses e, segundo Lamartine, trabalhavam mais duro do que qualquer outra pessoa. Também possuíam uma genuína inocência. “Para matar o desejo, que mesmo que tivesse existido dentro de mim, ela não usou argumentos, mas recorreu ao instinto, que em nosso cerne é muito mais poderoso do que a lógica”, explicou.

Um dia, ainda jovem, o poeta ganhou um cordeiro de um camponês de Milly, uma comuna francesa da região da Borgonha. Com um estreito laço de amizade com o animal, ele o ensinou a segui-lo por todos os lados. “Se tornou o mais carinhoso e fiel dos cães. Nos amamos com a mesma ternura que toda criança tem pelos animais e vice-versa”, relatou.

No entanto, em uma ocasião, ele ficou chocado quando ouviu um cozinheiro conversando com sua mãe. “Madame, o cordeiro está gordo e o açougueiro veio buscá-lo. Devo entrega-lo a ele?”, questionou. Quando ouviu aquilo, Lamartine começou a gritar, abraçou o animal, perguntou o que era um açougueiro e o que tal pessoa iria fazer com ele.

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“Vi um homem com os braços nus e lambuzados de sangue, batendo na cabeça de um touro” (Arte: Reprodução)

“O cozinheiro disse que era um homem que matava cordeiros, carneiros, novilhos e belas vacas por dinheiro. Eu mal podia acreditar nisso. Orei à minha mãe e facilmente a convenci a pouparem o meu amigo”, admitiu. Na realidade, a mãe do poeta não raramente testava suas convicções.

Mais tarde, Alphonse de Lamartine acompanhou sua mãe até a cidade e, no caminho, atravessaram o quintal de um matadouro. Havia um propósito nisso que o jovem só percebeu depois. “Vi um homem com os braços nus e lambuzados de sangue, batendo na cabeça de um touro. Outros cortavam as gargantas de bezerros e ovelhas, separando seus membros ainda palpitantes. O sangue fluía por todo o pavimento. Um intenso sentimento de pena, misturado com horror, se apoderou de mim. Tive que ser levado rapidamente para fora daquele lugar”, revelou.

A experiência fez com que Lamartine nunca mais deixasse de associar aquela cena à imagem de um prato com carne, tantas vezes visto por ele sobre a mesa. “Embora a necessidade de cumprir as regras da sociedade me fez comer carne [em determinado momento da vida], desde então, tudo que as outras pessoas comem [e que seja de origem animal] me causa repulsa. O que testemunhei me fez sentir completa aversão. Insuflou-me do horror perpetrado pelos açougueiros. Tem sido sempre difícil pra mim não ver no trabalho de um açougueiro a ocupação de um carrasco”, enfatizou em “Les Confidences”.

A importância de Alphonse de Lamartine

O escritor e poeta Alphonse de Lamartine nasceu em Mâcon, na França, em 21 de outubro de 1790. Criado em uma propriedade rural nas imediações de Milly, estudou os clássicos gregos e romanos, além das obras francesas contemporâneas. Sua educação foi uma educação filosófica que ele qualificava como de “segunda mão”, suavizada por sentimentos maternais. Lamartine, que sofreu grande influência de filósofos como Pitágoras, publicou 19 livros, entre poesia, ficção e história.

De todas as obras publicadas pelo francês, “Méditations Poétiques”, de 1820, continua sendo a mais famosa. No livro, o poeta aborda as relações entre o misticismo, a natureza e as emoções. Para ele, a natureza é a mais importante manifestação da grandeza divina.

Despertando para uma formação mais pessoal de espiritualidade, o escritor adotou a simplicidade como estilo de vida, tanto na forma de se vestir quanto de se alimentar. Depois do lançamento de “Méditations Poétiques”, que alçou o nome da Lamartine aos dos grandes nomes da literatura mundial, ele conseguiu uma nomeação para assumir a embaixada francesa na Itália.

Lá, viveu dez anos, e aproveitou o tempo ocioso para produzir literatura, já que seus deveres diplomáticos não exigiam tanto tempo. Em 1828, de volta à França, tentou garantir uma vaga no parlamento, mas foi derrotado. Então tomou a decisão de viajar para o Oriente Médio, onde começou a se interessar por religiões orientais. Reflexo desse período foi registrado no livro “Souvenirs, Impressions, Pensées, et paysages pendant un Voyage en Orient”, escrito em 1832 e 1832, e no romance em verso “La Chute d’un Ange”; obra de 1838 que chegou a ser banida da Igreja Católica pelo viés panteísta e racionalista.

Em um excerto, o poeta diz: “Le plus beau don de l’homme, c’est la Misericorde”. Ou seja, o maior dom do homem é a Misericórdia. Sendo assim, ele jamais deve matar qualquer animal. Lamartine também se inspirava na idealização do amor, suas crenças e sua relação com a natureza. Considerado um dos protagonistas da transição da literatura neoclássica para a romântica, marcada pela paixão e pelo lirismo, ele foi também um historiador. Escreveu sobre a história dos girondinos, importante grupo político que participou da Revolução Francesa entre os anos de 1789 e 1799.

Em 1849, Lamartine teve o privilégio de fazer parte do governo provisório da França na Segunda República, após a deposição de Luís Filipe I. O escritor e poeta liderou as ações que culminaram na abolição da escravidão e no primeiro modelo dos direitos trabalhistas na França, de acordo com o pesquisador Lawrence C. Jennings. Ainda assim, acabou derrotado por Napoleão III na eleição presidencial realizada no mesmo ano. Depois de se aposentar da política em 1851, Alphonse de Lamartine continuou escrevendo até o dia 28 de fevereiro de 1869, quando faleceu em Paris.

Referências

Lamartine, de Alphonse. Les Confidences (1857). Nabu Press (2012).

Lamartine, de Alphonse. Trois Mois au Pouvoir (1848). Nabu Press (2011).

Lamartine, de Alphonse. La Chute d’un Ange (1838). CreateSpace Independent Publishing Platform (2015).

William A. Alcott. Vegetable Diet: As Sanctioned by Medical Men and by Experience in All Ages. Marsh, Capen & Lyon (1838).

Jennings, Lawrence C. French Anti-Slavery: The Movement for the Abolution of Slavery in France, 1802-1848.  Cambridge University Press (2006).

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Na fila do caixa

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“Compre um saco de quarenta quilos de sal grosso e chupe uma pedrinha bem minúscula por dia”

Na fila do caixa do mercado havia um senhor na faixa dos 80 anos, desinibido e conversador. De repente, percebi ele conversando com minha mãe e sorrindo. Curioso, me aproximei e ele comentou: “Que filho mais bonito que a senhora tem! Olhem pra esse rapaz!” Sem falar nada, até porque sou tímido, fiquei sorrindo que nem cachorro de porcelana na estante.

Àquela altura, enquanto muita gente me observava, o senhor emendou: “Quantos filhos a senhora tem?” Minha mãe respondeu três e ele interpelou: “Tudo bonito que nem esse?” Sem dar trégua, o homem chamou a atenção da moça do caixa e disse: “Olhe pra esse rapaz! E essa barba preta, como pode? Nunca vi uma barba preta como essa na minha vida. E como é bonito! Parece um galã!”, repetia. Calado, eu continuava sorrindo e balançando a cabeça, sem saber pra onde, também lembrando aqueles animaizinhos que os taxistas colocam no painel do carro.

“Não case, meu filho, não faça essa besteira. Compre um saco de quarenta quilos de sal grosso e chupe uma pedrinha bem minúscula por dia. Quando acabar o sal, daí sim você pode pensar em se casar”, recomendou. Depois o homem apontou para um senhor ao seu lado e declarou: “Esse aqui é meu filho, já tá feio, coitado! Engordou e nem tem mais cabelo.”

A vítima, conhecendo o pai que tem, só riu, sem esculpir expressão de desconforto. Antes de pagar a moça do caixa e partir, o senhor mais velho sentiu o cheiro de pão quente saindo de um pacote nas mãos de minha mãe. “É pão quente? Posso pegar?” Minha mãe consentiu, abriu o saco, o homem tirou um pão, agradeceu e começou a comer tranquilamente.

Sem demora, caminhou até a saída dando um tapinha amistoso nas costas do filho, que retribuiu o gesto encostando a mão no ombro do pai. Em menos de minuto, desapareceram na escuridão solene, e por assim dizer transparente, da primavera.

Written by David Arioch

October 6th, 2016 at 12:09 am

Kanis, uma boa surpresa no cenário musical paranaense

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Willian Matos: “A verdade é que nunca me liguei muito em definições de gêneros musicais” 

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Hugo Ubaldo, Willian Mattos e Thiago Guglielmi formam atualmente o Kanis (Foto: Rafael Minasse)

Transformar sensações e situações em música. Esta é a proposta do compositor Willian Mattos, idealizador do projeto Kanis, que une rock psicodélico, indie e pop. Músico desde a adolescência, o paranavaiense gravou o primeiro disco este ano em Curitiba. Intitulado “Parceiros, Amigos, Amores”, o EP reúne atributos que agradam desde os fãs mais puritanos até os mais ecléticos do rock. Com personalidade, o projeto é uma boa surpresa no cenário musical paranaense dos últimos anos.

Na versão em CD, além das músicas “Pequenas Coisas”, “Quem Pegou Você”, “Pra Trás” e “Quem Eu Sou”, Willian presenteia os fãs com as faixas “Mirela”, “Pequenas Coisas (Acústica)” e “Ao Lado Dela”. “Tenho um caso de amor com cada música que escrevo. Depois elas se tornam públicas, e aquela paixão fervorosa reacende nas performances ao vivo”, diz.

Embora as quatro músicas principais do EP abordem algum tipo de nostalgia, Mattos não se considera uma pessoa realmente nostálgica. “Mas, como letrista, são elementos que vêm a somar, ainda mais quando percebo que o meu passado pode ser o presente de outras pessoas”, comenta.

Em “Pra Trás” e “Quem Eu Sou”, a dúvida e a esperança são temas que instigam a reflexão. Segundo Willian, estão relacionadas às infinitas possibilidades oferecidas pela vida. “Sou muito mais anseio que esperança. O anseio pode ser agonizante, mas é um sentimento que, na minha visão, não abre espaço para o medo”, avalia.

Naturalidade e minimalismo são características encontradas na música de Willian Mattos, e refletem muito bem no Kanis. “Sou visto como alguém que mistura rock psicodélico, indie e pop. Sim, a rotulação da música sempre acontece, mas a verdade é que nunca me liguei muito em definições de gêneros musicais, até porque costumam ter conceitos bem confusos”, comenta o compositor que gosta muito de improvisar ao vivo, surpreender o público com novas releituras de suas músicas.

Mattos: “Tenho um caso de amor com cada música que escrevo” (Foto: Poliana Bolqui)

Willian Mattos: “Tenho um caso de amor com cada música que escrevo” (Foto: Poliana Bolqui)

Na hora de compor, Willian preza pela simplicidade. Segundo ele, se não fosse para seguir por esse caminho, provavelmente não se dedicaria à música. “O processo de composição nunca é o mesmo. Pode parecer ridículo para os outros, mas trabalho nos meus limites técnicos para soar simples. A simplicidade é mais difícil de ser alcançada do que muitos imaginam. Já as letras, prefiro deixar para o final justamente por considerá-las tão importantes quanto a música. Só consigo me empenhar em escrever a letra se eu estiver bem confiante em relação à música”, pondera.

Questionado se o estúdio onde gravou o EP “Parceiros, Amigos, Amores” é um quarto escuro curitibano, Willian Mattos ri e explica que o local não é escuro nem curitibano. “Na verdade, é um aglomerado de equipamentos que comprei ao longo dos anos. Levo comigo para onde quiser e puder. Então posso dizer que as gravações foram realizadas tanto na casa da minha avó em Paranavaí quanto no apartamento onde moro em Curitiba. Também aluguei um estúdio com mais estrutura para gravar as baterias. Mas, tirando isso, adoro gravar em casas”, revela.

Enquanto ouve “Princesa”, da banda goiana Carne Doce, uma de suas preferidas da atualidade, Willian confidencia que na sua opinião o melhor do cenário musical paranaense está em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, sua terra natal. “Tem uma cena instigante. Sinto muito orgulho do que está sendo construído musicalmente em Paranavaí”, enfatiza.

Willian Mattos: “Sinto muito orgulho do que está sendo construído musicalmente em Paranavaí”

“Sinto muito orgulho do que está sendo construído musicalmente em Paranavaí”

No momento, o compositor está preparando a primeira turnê de divulgação do EP. Também vai lançar em breve alguns vídeos do Kanis no YouTube. “Estou em um momento de trabalho muito intenso. Tenho cinco composições que devem entrar no próximo CD. É uma novidade para 2017”, adianta.

Sobre os parceiros

A trajetória de Willian Mattos com a música começou aos 15 anos, quando ele e o amigo Thiago Guglielmi formaram uma banda nos tempos de colégio. “Fomos aprendendo a tocar e escrever músicas. Convidei ele para embarcar comigo no Kanis, ele topou e tem sido ótimo. Trabalhamos juntos na administração do projeto. Na nossa primeira formação ao vivo, o Thiago atua como baixista. Como ele é um guitarrista brilhante, é provável que no futuro ele assuma o posto de guitarrista solo do Kanis”, relata.

Quem também ingressou no projeto para somar foi o baterista e percussionista Hugo Ubaldo, da banda de rock Sub-Versão, de Paranavaí. “Nos conhecemos há poucos meses e tem sido um prazer imensurável essa parceria. Além de ótimo baterista, é um músico completo, tem ajudado muito a elevar o nível da nossa música ao vivo”, reconhece Willian Mattos.

Sobre a capa do EP

A fotografia que estampa a capa do EP “Parceiros, Amigos, Amores” foi tirada em Santiago, no Chile, pelo fotógrafo Vinicius de Oliveira, conhecido como Capitão. “Estávamos à procura de uma foto e o Thiago [Guglielmi] me mostrou o trabalho do Vinicius. Ficamos mais ou menos uma semana tentando escolher uma entre as muitas fotos incríveis que ele tirou. Foi um trabalho difícil”, garante Willian Mattos.

Frase de Willian Mattos

“Tudo que ouço me influencia de algum modo. Até mesmo coisas que não gosto me servem de parâmetro.”

Formação atual do Kanis

Willian Mattos – vocal e guitarra

Thiago Guglielmi – Baixo

Hugo Ubaldo – Bateria

Saiba Mais

Antes do Kanis, Willian Mattos teve uma banda chamada “Use”, formada em parceria com o guitarrista Thiago Guglielmi.

Para comprar o CD “Parceiros, Amigos, Amores”, que custa apenas R$ 15, entre em contato com a banda.

O CD “Parceiros, Amigos, Amores” está disponível no YouTube.

Contatos

(41) 9690-3121 (Willian Mattos) e (44) 9743-2510 (Thiago Guglielmi)

Facebook.com/KanisOficial

E-mails: contato@kanis.com.br e shows@kanis.com.br

Written by David Arioch

October 3rd, 2016 at 6:22 pm

The Clement guard

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I saw his dark mustache, thick and long like the curtains of the sky

Crossing where Clement saved Beto (Photo: David Arioch)

Crossing where Clement saved Beto (Photo: David Arioch)

When I was six year old, every day there was a guard waiting for us down the street to help us cross. Hundreds of children went through there every day. Clement smiled and reached out with such devotion that even the sunlight seemed more intense, illuminating his forehead and highlighting his snowy teeth.

He took the whistle to his mouth and emitted a short, but effective oxytone sound. It was enough for everyone to stay alert. So Clement held my hand firmly and led me to the school sidewalk, protecting me from motorcycles, cars, vans and trucks. Carefully, he always kept his body closest to the vehicles while my body was hidden by him.

The synchrony between the whistle and the instantaneous stop was surreal, as if choreographed. Few drivers dared to even touch a centimeter of the tire on the crosswalk. If anyone did, Clement took a pocket tape measure, crouched on the asphalt per second, walked to the driver and greeted him with a warm handshake.

“How are you? All right? It’s hot today, huh? I suppose you’re in a hurry, of course, who isn’t nowadays, right, my friend? So I understand why you have the two front tires on the track. It happens. The hurrying makes you commit these little slips. Take a look here, you just invaded 25cm. I believe that you, like me, know it will not guarantee that you get anywhere faster. Of course, now we don’t have many children on the street, but there are times when this small space has a lack you can’t imagine. Can I count on your cooperation? “, he said in early afternoon, returning the driver’s compliance with a nod and a frugal smile.

During the crossing with Clement, I raised my head, looking at the sky with his nose, and watched him. Small, I believed he could touch that wild blue yonder with the top of his cap. I saw his dark mustache, thick and long like the curtains of the sky. The clouds moved near his head, reaffirming the idea that at least during the crossing he was the supreme authority, and beyond him there was no one.

After 5.30 pm, when the school bell was triggered, warning that the classes were ending, we did the same path. Hours passed, and Clement kept smiling and extending his hands. He never showed fatigue, irritation or boredom. He was so polite, that sometimes drivers parked their vehicles and walked up to congratulate him for the good work.

That made him one of the most remarkable characters of my childhood, someone who could serve as an inspiration for me to become a worthy human being. It was not uncommon to see people giving gifts to him. Committed to his work ethic, he always thanked with brightened eyes and refused, unless gifts made by hand, a simple food or a homemade sweet.

At that time, I had never heard of racism until I asked my classmate Bob why he and other boys never held Clement’s hand. I remember one day that I saw him taking the guard’s hand over his shoulder. “Why? Because he’s black! My father said that black guards should not exist because these people are not reliable; because the only white part of their body is their palm. Furthermore, they have a bad smell and wiry hair”, he replied spontaneously.

Startled, I was silent. During recess, without knowing what it meant, I sat in a corner of the yard and thought about Bob’s words. I realized that Clement really was a black man, the first I have seen since I was born, but so what? A few days later, Bob gave me an ultimatum, saying that I could not walk anymore with him and three other classmates if I kept holding Clement’s hand. I ignored his advice, and over the next month I was excluded from the games on the playground. When it was time to play indoor football, Bob convinced all the other kids to leave me out.

A month later, I had not seen Clement at the crossing, wich was his workplace. He never returned. In his place, they put a blond and clear-eyed boy, who devoted his attention to teenage girls who circulated the vicinity. Bob’s father had intervened, and Clement was transferred  to another city. They invented an excuse for lack of guards and convinced him to leave.

Later, on saturday, Bob was walking and sucking a popsicle when he was surprised by a runaway car that invaded the sidewalk at the crossing of Pernambuco Avenue and Souza Naves Street. Stunned, he threw the stick, closed his eyes and cringed his body. Bob didn’t see Clement coming out of the market, throwing his bags and jumping with him on the asphalt.

The guard had superficial wounds throughout his body. Seeing Bob unharmed, he smiled, regardless of the torn clothes. Embarrassed and with haggard eyes, the kid remainded in the fetal position. He discovered that the rejected hand is the one that more should have been stroked.

Written by David Arioch

October 2nd, 2016 at 5:11 pm

Um convite no semáforo

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Sem tempo de entender nada, senti uma luz esverdeada em minha direção

Sem tempo de entender nada, senti uma luz esverdeada em minha direção

Saindo do mercado, parei em um semáforo na Avenida Rio Grande do Norte. De repente, um sujeito encostou o seu carro bem próximo do meu. Havia bastante espaço, mas ele preferiu ficar bem perto de mim. Ok! Não me preocupei. Continuei ouvindo música.

Para minha surpresa, o rapaz começou a acelerar sucessivas vezes enquanto o sinal continuava vermelho. Ele estava me desafiando, me convidando para um racha. Como o vidro do meu carro tem uma película bem escura, à noite é quase impossível ver quem está dentro.

Então pensei que talvez fosse uma boa ideia abaixar o vidro e fazer um aceno de mão cordial, mas desinteressado. Assim que o vidro desceu, o sujeito pareceu amedrontado e se desculpou. Sem tempo de entender nada, senti uma luz esverdeada em minha direção – o sinal abriu. Segui meu caminho ouvindo “Sistem te laže”, do Beogradiski Sindikat. Pelo retrovisor, notei que o rapaz continuava no mesmo lugar.

Written by David Arioch

October 2nd, 2016 at 1:51 pm

Amílcar de Sousa: “A carne não é o alimento do homem”

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“A maior parte da gente […] se visse morrer os animais, não se banquetearia com tão grande gáudio…”

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Amílcar de Sousa fundou a Sociedade Vegetariana de Portugal em 1908 (Foto: Reprodução)

Foi em 1908 que o médico Amílcar Augusto Queirós de Sousa, defensor do vegetarianismo, fundou na Avenida Rodrigues de Freitas, na cidade do Porto, a Sociedade Vegetariana de Portugal. No ano seguinte, Sousa inaugurou a revista “O Vegetariano”, periódico mensal que circulou até 1918 e teve boa repercussão na Europa e no Brasil.

Especialista em dietética e nutrição, Amílcar escreveu que da velha confusão de teorias médicas, da grande época obscura do empirismo, como um dogma da ciência de então, uma forma errónea e cheia de preconceito, como se fora um mandado religioso e por isso mesmo eivado de má fé, surgiu com esta frase perturbante: o homem é omnívoro. Como à boca se pode levar tudo que queira, daí resultou essa monstruosidade deturpante da humanidade. Tal reflexão consta na página 45 da 4ª edição da revista “O Vegetariano”, publicada em 1912.  À época, Sousa já realizava conferências e palestras em defesa do vegetarianismo.

No livro “As Hortaliças na Medicina Natural”, lançado em 1992, Alfons Balbach e Daniel S.F. Boarim narram que Amílcar de Sousa foi um grande apologista do regime frugívoro: não só ele, como toda a família, só se alimentavam de frutas. “Na sua revista intitulada ‘O Vegetarianismo’ tem feito propaganda das mais inteligentes e proveitosas em favor deste regime, e o número de adeptos que conseguiu converter ao regime frugívoro orça por muitas centenas em tempo relativamente curto”, registraram.

Na obra “O Livro Negro do Açúcar – Algumas Verdades Sobre a Indústria da Doença”, de 2006, Fernando Carvalho observa que Amílcar de Sousa, um médico do século XIX, estava melhor informado do que seus colegas da atualidade. “Desde a forma dos dentes à capacidade do estômago e às dimensões do intestino, como dados anatómicos em referência à comparação da série animal de que o homem é primaz – tudo demonstra que o gênero humano não é omnívoro. A dentadura é semelhante à dos símios antropoides que se alimentam de frutos; e se os obrigarmos a serem carnívoros, imediatamente estigmas de degenerescência se notam, doenças de pele, a queda dos pelos, o reumático e outras manifestações de artritismo”, argumenta Sousa no artigo “O Homem é Frugívoro”, de 1912.

Em setembro do mesmo ano, o médico publicou “O Caldo de Carne”. No artigo da revista “O Vegetariano”, ele afirma que a carne não é o alimento do homem. Se fosse, o ser humano deveria ter condições de matar os animais com mãos e garras, triturando os ossos ou lacerando os músculos ainda quentes com os dentes, assim como faz a hiena. “Desprovido de armas cortantes e do artifício da culinária, o homem não pode utilizar-se da carne nem do peixe”, justifica.

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Periódico em que Sousa divulgava suas ideias e descobertas em relação ao vegetarianismo (Foto: Reprodução)

Segundo o médico português, para uma consciência límpida e um espírito moral, ver morrer um boi é um espetáculo canibalesco e incompatível com a humanidade. “Assistir ao assassinato dum cordeiro é, sem dúvida, barbaridade infame. Queremos acreditar que a maior parte da gente que bebe às colheres a sopa, ou corta com a faca um pedaço de vaca, se visse morrer os animais, não se banquetearia com tão grande gáudio…”, defendeu no artigo “Caldo de Carne”.

Um homem revolucionário, Amílcar de Sousa é considerado pela Associação Vegetariana Portuguesa (AVP) o maior impulsionador do vegetarianismo e do naturismo em Portugal. “Ele conseguiu mobilizar outros médicos e personalidades da burguesia para o estilo de vida natural e saudável”, reconhecem Gabriela Oliveira e Nuno Metello no artigo “Vegetarianos há mais de um século”, publicado no semanário português SOL em 2011.

Em 1923, Sousa publicou a novela naturista “Redenção”, que aborda a importância da proximidade do ser humano com a natureza. Na obra, ele defende uma consciência ética universal, em que os animais têm assegurado o direito de não serem mortos simplesmente para atender maus hábitos culturais e alimentares da humanidade.

“Mas por que é que estas ideias [do vegetarianismo] não as tem defendido a classe médica? É simples a resposta. É que não há pílulas de sol, nem injecções de exercício, nem tão pouco vacinas de ar… e é preciso viver dos doentes. O médico do futuro é só aquele que nada receitar. Ensinem os doentes a viverem conforme a natureza e os sãos a não se desviarem dela. O medicamento fez já as suas provas. São negativas”, declarou na revista “O Vegetariano” em abril de 1912.

Segundo Amílcar de Souza, o melhor que os pais podem deixar aos filhos é a saúde. Portanto, para que os filhos não tenham doenças, o ideal é ensiná-los a seguir um regime natural, valorizar a vida ao ar livre e praticar exercícios regulares. “A alimentação humana tem sido desvirtuada pelo preconceito. [O leite] não é alimento do homem, mas sim dos filhos das vacas, dos cabritos, dos jumentos etc., antes de terem dentes para comer as ervas dos montes e prados! […] A velha fábula de Prometeu que roubou o fogo do céu para comer os cadáveres dos animais cozinhados, eis a base em que assenta toda a errónea conduta da humanidade”, enfatizou em publicação da revista “O Vegetariano” de 5 de julho de 1912.

O pioneiro do vegetarianismo português

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Maria Feio: “[Amílcar de Sousa] Dispõe de uma resistência hercúlea. Caminha dezenas de quilómetros a pé sem a menor fadiga” (Foto: Reprodução)

Amílcar Augusto Queirós de Sousa nasceu em Cheires, Alijó, em 1876. Graduou-se em medicina pela Universidade de Coimbra. Mais tarde, em Paris, estudou a relação entre a nutrição e as doenças. Considerado o pioneiro do vegetarianismo português, correspondeu-se com outras personalidades que advogavam em defesa do vegetarianismo. Entre os quais, o famoso médico estadunidense John Harvey Kellogg, o naturalista alemão Ernst Haeckel e o médico francês Paul Carton. Pacifista, também criticou Primeira Guerra Mundial. “Dispõe de uma resistência hercúlea. Caminha dezenas de quilómetros a pé sem a menor fadiga”, escreveu Maria Feio sobre Amílcar de Sousa.

Obras publicadas por Amílcar de Sousa

“O Naturismo”, “A Saúde pelo Naturismo”, “A Cura da Prisão do Ventre”, “A Redenção”, “Arte de Viver”, “Banhos de Sol” e “O Naturismo em Vinte Lições”.

Saiba Mais

Amílcar de Sousa era amigo do poeta brasileiro e também defensor do vegetarianismo Carlos Dias Fernandes, com quem se correspondia frequentemente.

Adepto do pedestrianismo, o médico chegou a viajar de Lisboa a Sines a pé, percorrendo mais de 160 quilômetros. Além disso, gostava de caminhar descalço. Faleceu na cidade do Porto em 1940.

Sousa considerava Pitágoras o maior filósofo da história da humanidade. Para ele, Jean-Jacques Rousseau, que defendia a importância do contato das crianças com a natureza, era o melhor educador.

Referências

O Vegetariano: Mensário Naturista Ilustrado – Volumes I a IV. Sociedade Vegetariana de Portugal (1912).

Boarim, Daniel S.F.; Balbach, Alfons. As Hortaliças na Medicina Natural (1992).

Oliveira, Gabriela; Metello, Nuno. Vegetarianos há mais de um século. Semanário SOL. Páginas 40 e 41 (30 de setembro de 2011). Disponível em http://www.avp.org.pt/notiacutecias/vegetarianos-h-mais-de-um-sculo

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Editorial Enciclopédia. Volume 29. Página 761.

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A ética e a “ética”

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Leandro Karnal veio a Paranavaí ministrar palestra sobre ética (Foto: Reprodução)

Ontem, assisti uma palestra sobre ÉTICA, ministrada pelo professor Leandro Karnal na Universidade Estadual do Paraná (Unespar), campus de Paranavaí. Lá fora, encontrei carros estacionados em fila dupla. E mais adiante, no primeiro semáforo, quando eu dirigia de volta para casa, mantive meu carro na fila à esquerda, a única correta para um veículo que seguiria reto.

Um sujeito, que também estava na palestra do Karnal, não quis aguardar na fila à esquerda (porque ele seria o oitavo da fila). Então ele ultrapassou todos os carros pela direita e seguiu reto, mesmo ciente de que a faixa da direita é destinada a quem vai virar à direita. Chamo isso de a “arte” de assistir uma palestra e ainda assim não aprender nada.

Written by David Arioch

October 1st, 2016 at 12:32 am