Archive for June, 2017
Estudantes de Santa Maria de Jetibá: “Os animais são seres tão amáveis, e nenhum deles merece ser maltratado”
“Esse trabalho [de conscientização sobre a exploração animal], acaba impactando as famílias, porque os familiares acabam se envolvendo e o assunto é socializado”

Algumas das cartas que recebi dos mais de 20 estudantes de Santa Maria de Jetibá (Foto: David Arioch)
O escritor e professor Antonio Neto, de Santa Maria de Jetibá, no Espírito Santo, realizou um longo trabalho de conscientização sobre a exploração animal com mais de 20 estudantes do 9º ano da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio São Luís. Depois de estudarem o tema, os alunos foram convidados a se corresponder com um ativista dos direitos animais. Para a minha surpresa, recebi o convite para manter contato por carta com dezenas de estudantes que agora têm uma noção de como a humanidade é injusta no tratamento dispensado aos animais.
Em uma das cartas, eles falam sobre a crueldade envolvida na produção da carne de vitela, que só é possível a partir da morte de um bezerro de mais ou menos quatro meses. “A vitela é a carne do bezerro macia, branca e gostosa. Isso é o que todo mundo pensa dela antes de descobrir sua origem. Assim que o bezerro macho nasce, ele já é tirado de sua mãe, que fica mugindo por suas crias durante semanas. Os filhotes são colocados em pequenos estábulos, podendo apenas mexer a cabeça, para assim não criarem músculos e a carne ficar macia. Como se não bastasse, ficam 22 horas por dia sem ver a luz, na tentativa do animal não entrar em desespero e criar úlceras. O ferro é removido de sua alimentação, deixando os bezerros anêmicos. Com quatro meses de vida, mais ou menos, são abatidos sem nunca terem visto a luz do sol. Ficamos indignados com todo esse sofrimento dos bezerros, ainda mais que não é por necessidade, mas sim por capricho das pessoas. Isso tem que parar! Os animais são seres tão amáveis, e nenhum tipo deles merece ser maltratado.”
Os estudantes demonstraram indignação e surpresa ao saber que existe uma suposta iguaria nominada foie gras que é resultado do sofrimento extremo do híbrido pato Mulard. “Aprendemos que o foie gras não passa de um patê gorduroso, feito no fígado do pato ou dos gansos, e que é muito consumido na França. Tudo começou quando os criadores cruzaram o pato-de-pequim e o marreco, nascendo assim o pato Mulard, os pequenos sofredores. São criados em dias, soltos e comem apenas milho. Depois de um longo período, são colocados em pequenas gaiolas, onde só conseguem mover a cabeça. Engaiolados, são forçados a comer mais do que o normal. Na sua garganta, é posto um enorme tubo, que vai ao encontro do seu estômago, e ali é onde é despejada a alimentação. O pato fica nesse tormento por três a quatro meses, e o seu fígado é obrigado a crescer doze vezes mais do que o normal. Na nossa opinião, quem pratica esse ato deveria ser preso por praticar essa crueldade com animais tão inocentes, que nem sequer conseguem se proteger ou expressar a dor que sentem ao passar por esse processo.”
O consumo de carne de cachorro na China, que é comparado ao tradicional hábito ocidental de consumir carne de animais como bovinos, suínos, caprinos, aves e peixes, também foi reprovado. “Na cultura oriental, eles acreditam que quanto mais o cachorro sofre, mais a carne fica macia e gostosa para o paladar chinês. Não concordo porque o cachorro é pra gente dar carinho. Tenho dois cachorros que são da raça pastor alemão.”
Os alunos também ficaram revoltados ao saber que o romantismo em torno das roupas e calçados baseados em peles de animais vela uma realidade nada agradável. “Percebemos que o comércio de peles é uma crueldade com os animais. Eles tiram as peles dos animais vivos e depois os matam. Algumas cenas são muito fortes. A maioria da sala achou isso muito errado. Eles morrem sozinhos. O que traz felicidade para as pessoas pode levar sofrimento para os outros. Uma coisa é você ver animais livres na floresta, e outra é você ver animais sendo torturados por pessoas, e isso tudo só para pegar peles e deixar pessoas ricas e felizes.”
Os estudantes que participaram do projeto se manifestaram contra a tourada, a considerando uma prática extremamente violenta, cruel e desnecessária. “A tourada é um ‘esporte’ da Espanha e do México. Porém, esse esporte maltrata muito os touros. O toureiro ataque ele com uma lança nas costas, fazendo o touro perder muitos litros de sangue. Achamos esse ‘esporte’ uma brutalidade, uma falta de respeito com os animais. Pode até ser a alegria de muitas pessoas, mas é uma tristeza muito grande para os animais.”
Sobre lutas de animais incentivadas por seres humanos, como as rinhas, também não deram outro parecer que não fosse o de contrariedade: “Eu acho isso errado, ficar treinando animais para brigar. Eu acho errado animais, não são para isso, animais são para cuidar, não para ser criado para matar uns aos outros.”
O trabalho sobre a exploração animal coordenado pelo professor e escritor Antonio Neto faz parte do projeto de incentivo à leitura e à escrita “Descobrindo o Ato de Ler o Mundo”. “Propus alguns temas que abordam a crueldade que a humanidade comete contra os animais, como touradas, rinhas, comércio de pele, produção de foie gras e vitela. A turma, a maioria, não tinha conhecimento dessas práticas controversas. Os temas foram sorteados entre os grupos. Cada grupo fez a pesquisa, estudou sobre o tema e fez uma apresentação em PowerPoint em sala de aula. Depois, trabalhei com eles os gêneros textuais carta e cartão”, informa Neto.
O objetivo do trabalho foi despertar a criticidade dos estudantes em relação à normalização da crueldade. No geral, o trabalho trimestral teve e tem grande impacto na vida dos estudantes, que desde o início começaram a se questionar sobre a naturalização de hábitos que custam sofrimento a outros seres vivos. De acordo com o professor, os alunos ficaram chocados e rejeitaram fortemente a exploração animal em muitos aspectos. “As reações foram de repúdio, asco e profundo desacordo. Esse trabalho, na sua execução, acaba impactando as famílias, porque os familiares acabam se envolvendo e o assunto é socializado”, declara.
Como fui escolhido para participar desse projeto como ativista dos direitos animais, agradeço a confiança do professor e escritor Antonio Neto e dos estudantes Higor Koeler, Igor Gonçalves, Jackson Ismeuriky Pintkowsky, Júlia Albertino dos Santos, Kamila Pissigatti Augustinho, Larissa Miguel Usberti, Lenderson Lucas Daróz, Lilian Julia Berger Wutke, Luiza Herzog Tirola, Marcos Antonio de Souza, Mateus Cezar Rodrigues, Matheus Henrique F. Dettmann, Micaela Kuster, Mikael Linkow Graunke, Naely Berger Uhlig, Railane Cristine Trabach, Rodolfo Henrique Erdmann, Thiago Besserte Schwanz, Vanessa Knaak, Walace Amorim Ferreira e Webester Storch.
“As cartas foram enviadas para você para que o estudo dos gêneros carta e cartão ocorressem numa situação real. Escolhi você por causa do seu ativismo em prol dos animais. A ideia é que os estudantes compartilhem suas impressões com uma pessoa de fora do nosso meio, da nossa cidade. Sabendo do seu blog, alguns estudantes pediram que você denuncie as atrocidades que eles descobriram. Já que os animais não têm voz, sejamos nós as vozes deles”, justificou Antonio Neto.
Saiba Mais
O projeto foi realizado em São Luís, zona rural de Santa Maria de Jetibá.
Santa Maria de Jetibá fica na Mesorregião Central Espírito-Santense e conta com pouco mais de 38 mil habitantes.
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“Também num gosto de carne”
Enquanto eu aguardava atendimento em um escritório de advocacia, um garotinho bastante animado, com seus cinco ou seis anos, me observava com um olhar de curiosidade.
— Qual é o seu nome, tio?
— David e o seu?
— Bruno…
— Você é forte, né, tio?
— Eu tento…
— É sim!
— Você deve comer muita carne pra ser forte assim…
— Por que você acha isso?
— Por que minha mãe diz que a gente precisa de carne pra ficar forte. Ah, então acho que você come muita carne.
— Não como não…
— É?
— É sim…
— Não precisa?
— Não, não preciso, ninguém precisa. Só que tem que comer direitinho pra não faltar nada, porque se você não come carne e fica doente as pessoas vão falar que é porque você não come carne. Então tem que se cuidar.
— Também num gosto de carne. Vou falar de você pra minha mãe, tio, e ver se ela deixa eu não comer também.
A secretária assistiu tudo e achou graça da nossa conversa. Quando os pais de Bruno saíram de uma das salas, ele se aproximou deles:
— Mãe, olha aquele tio ali, ele é forte e não come carne. Você disse que quem não come carne morre.
Com um sorriso amarelecido, a mãe não disse nada e o pai riu. Em segundos, atravessaram a recepção em direção à saída. Bruno sorriu mais uma vez.
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Por que você tem uma barba grande?
Hitler não era vegetariano nem amante dos animais
Rynn Berry é um dos maiores pesquisadores dos Estados Unidos quando se fala na história do vegetarianismo e em figuras históricas que eram vegetarianas. Levando em conta que existe um mau hábito na internet de disseminação de inverdades como forma de tentar invalidar o vegetarianismo e o veganismo como escolha natural por parte de pessoas que não concordam com a exploração animal, acho importante dizer que não, o ditador Adolf Hitler nunca foi realmente vegetariano nem amante dos animais. E as provas disso estão no livro “Hitler: Neither Vegetarian Nor Animal Lover”, de autoria de Rynn Berry, e publicado em 2004. Na obra, ele apresenta registros dos hábitos alimentares de Hitler ao longo de sua vida.
Matamos 292 milhões de bovinos por ano
Matamos 292 milhões de bovinos por ano. Os olhos deles são como os nossos. Brilham, refletem, revelam medo, terror, ânsia pela vida. A carne que se come custou o fechamento definitivo desses olhos, que já não verão os seus, a luz do dia, o cair da noite. Basicamente, não verão nada. Serão simplesmente descartados como pedaços de imundície.
Ouvindo Rammstein desde 1999
Curto muito a banda alemã Rammstein. Conheci em 1999 quando eu era molecote e estava em Cuiabá. Como eu já curtia metal industrial, contagiado pelo Ministry, de Al Jourgensen, foi alegria à primeira vista. Por outro lado, me recordo que naquela época era difícil encontrar quem não desprezasse a banda. Prova disso foi a primeira apresentação que eles fizeram no Brasil naquele ano, abrindo o show do Kiss. Jogaram inclusive objetos no palco e chamaram os caras de “palhaços”. Como se ser palhaço pudesse ser uma ofensa; além de uma baita contradição, já que o Kiss era a atração principal.
Muitas bandas que ouvi na adolescência e inclusive na fase adulta ficaram pelo caminho. Quero dizer, parei de ouvir muita coisa, mas Rammstein continua sendo uma banda que considero inesquecível, mesmo que haja períodos em que eu não a escute. Controversa, boas letras (consequência natural de músicos com bom nível cultural em geral – uma coisa que reconheço que não é tão comum na música) e bons clipes. Acho que tudo isso se soma para eu ter a banda em grande estima.
O amor só sobrevive se houver plasticidade
Acredito que o amor só sobrevive se houver plasticidade. Ele deve ser genuíno, mas também deve ser mutável; mutável porque como seres humanos sofremos metamorfoses diárias, até mesmo quando vivemos uma rotina. Então se não houver plasticidade, o amor não sobrevive.
Creio que a singularidade do amor subsiste no vislumbre de querer estar junto de alguém mesmo imaginando a figura humana que materializa esse amor em muitos dos piores cenários possíveis.
Quando achar que ama alguém, imagine aquela pessoa nas mais terríveis das condições e pergunte a si mesmo se ainda assim você gostaria de estar junto dela. Se a resposta for sim, acredito que está aí um amor com chances não apenas de sobreviver, mas de frutificar.
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Coração e razão
Nem sempre é possível, mas quando é, acho mais gratificante chegar até alguém pelo coração do que pela razão, porque a razão cobra a consciência e a inteligência, enquanto que um coração tocado manifesta a pureza da virtuosidade da sensibilidade e da nobreza.
Os animais não matam por um prazer sádico
Um exemplo clássico da conduta humana cotidiana em minimizar o valor da vida animal é dizer que os piores assassinatos parecem trabalho de animais, pela ausência de piedade. Porém, os animais não fazem isso por um prazer sádico, ao contrário de quem comete um assassinato bárbaro.
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A respeito dos meus textos sobre veganismo

Se eu sensibilizar ou levar uma pessoa a ver o veganismo com bons olhos, já terá valido a pena (Foto: SHS Maroon)
Se eu sensibilizar ou levar uma pessoa a ver o veganismo com bons olhos, já terá valido a pena. Não sou o tipo de pessoa que escreve tentando impor nada a ninguém, até porque acho que esse não é o caminho. Se uma pessoa tem uma reação negativa aos meus textos, entendo apenas que pelo menos naquele momento ela não tem nenhuma inclinação ao veganismo ou a refletir sobre a exploração animal.
Talvez isso mude, talvez não. Discutir desnecessariamente ou brigar por causa disso não faz nenhum sentido pra mim, simplesmente porque vencer uma discussão significa apenas que alguém apresentou melhor estrutura de ideias e argumentos, o que não quer dizer exatamente que houve sensibilização ou conscientização. O ser humano é muito complexo, e vencer uma discussão pode ser algo interessante e positivo, mas também pode ser uma vitória solitária.
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