Archive for June, 2017
“Não tão preparando nenhuma maldade não, né, fio?”
No centro, encontrei um amigo que eu não via há um bom tempo. Assim como eu, ele também está bem barbudo.
— Mano, leio as histórias da sua barba. Você passa por cada uma, hein? Por que comigo não acontece nada? Ninguém me confunde nem com mendigo, cara.
— Cara, pra ser sincero, não tenho a mínima ideia.
De repente, passou uma velhinha segurando um guarda-chuva.
— Vocês são muito bonitos. São irmãos? Não tão preparando nenhuma maldade não, né, fio?
— Não, que isso, minha senhora…Aqui só tem gente de bem.
— Então tá bom, assim ninguém fica feio, e ninguém precisa juntar os pedaços de ninguém.
Quando a senhorinha se afastou, o amigo arreganhou os dentes:
— Vou andar mais vezes com você, mano.
E foi embora todo feliz por ser chamado de terrorista pela primeira vez.
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“Não, filho. Não pegue coisas do chão”
Na feira, enquanto eu selecionava salsinha, sem que eu o tocasse, um maço caiu da banca. Quando agachei, o peguei e coloquei na cesta, uma senhora chamou-me a atenção:
— Não, filho. Não pegue coisas do chão. Isso nunca é bom.
— Mas por que, senhora? Estou pegando do chão aquilo que veio do chão, que nasceu do chão.
— Hum…olhe, filho, nunca tinha pensado por esse lado – comentou sorrindo.
— Além disso, se ela pulou da banca, é porque quer ir embora comigo, não acha?
— É…acho que você tem razão… mas cuide bem dela. Não faça mal a ela, senão ela vai se arrepender de ter pulado da banca.
— Sim, acho que não posso decepcioná-la…
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“Bom, talvez eu não a tenha assustado tanto”
Terminando o meu treino de mobilidade na academia, enquanto eu estava pendurado em uma barra, notei uma garotinha, uma criança, me observando. Não olhei diretamente porque ela já parecia assustada me olhando.
— Com a barba desse tamanho e musculoso, deve ter se assustado, pensando que sou algum tipo de monstro; ou pelo menos um sujeito bem estranho.
Continuei ali por mais um ou dois minutos. Então caminhei até o outro lado da academia para guardar as minhas coisas na minha bolsa e beber água antes de ir embora. Notei que a garotinha estava novamente do meu lado e, assim como eu, bebendo água da própria garrafinha. Então concluí:
— Bom, talvez eu não a tenha assustado tanto.
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“Henry Ford, que ficou impressionado com a eficiência dos matadouros de Chicago, deu a sua contribuição para a matança de pessoas na Europa”
Henry Ford, que ficou impressionado com a eficiência dos matadouros de Chicago, deu a sua contribuição especial para a matança de pessoas na Europa. Não só desenvolvendo o método de linha fabril que os alemães usaram para matar judeus, mas também lançando uma campanha antissemita que favorecia o holocausto.
O propósito da matança alemã centrava-se no extermínio de seres humanos. Operavam no largo contexto de sociedade de exploração e matança de animais, que eles imitaram. Os alemães não deixaram de matar animais quando começaram a exterminar pessoas.
Auschwitz, sob o comando de Rudolf Hess, era conhecido como o maior matadouro de pessoas que a história já viu; tinha o seu próprio matadouro. Os campos de morte mantinham o seu pessoal [nazistas] bem alimentado com carne.
Sobibor tinha currais de vacas, porcos, etc, que eram ao lado da entrada que levava os judeus à câmara de gás. Em Treblinka, tinham estábulo, e a pocilga junta ao campo das barracas dos auxiliares ucranianos.
Excertos de “Eternal Treblinka”, de Charles Patterson, publicado em 2002 pela Lantern Books.
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Um breve papo sobre musculação
Cara 1 — Quem tem muita massa muscular normalmente não tem muito o que pensar. Não consegue pensar direito.
Cara 2 — Pra que ganhar massa muscular? Quer se mostrar?
Cara 3 — Consigo ganhar massa muscular muito rápido, mas não gosto. Não quero ficar grande. Isso seria ridículo e constrangedor.
Cara 4 — Musculação é de uma futilidade sem tamanho. Coisa de gente que não gosta muito de usar o cérebro.
Eu — Acho que não. Uma pessoa treinando uma hora por dia ou até menos consegue resultados incríveis com a musculação. Ou seja, ela ainda teria outras 23 horas por dia disponíveis. Não sei de onde as pessoas tiram que quem é musculoso passa o dia na academia. Além disso, musculação pode ser vista como uma arte. Em algumas correntes artísticas há obras que são criadas em curto prazo. Isto não existe na musculação porque a matéria-prima não é meramente estática, não é exata. Além das peculiaridades genéticas, perpassa pela volatilidade das questões fenotípicas e somatotípicas. E no contexto do fisiculturismo é algo que exige maturidade muscular e surge sob três conceitos estéticos: volume, simetria e definição. Na minha análise, há princípios semelhantes que encontramos na Grécia Antiga e na Roma Antiga, como bem registrado por muitos escultores; e também em períodos da cultura barroca. Claro, com um basilar e distinto critério, já que nos tempos da contrarreforma se exaltava a opulência.
Caras 1, 2 3 e 4 — O que você disse aí?
Eu — Nada…
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Camurça
Camurça é um dos animais mais belos dos bálcãs. O material camurça recebeu esse nome porque originalmente surgiu a partir da exploração e morte desses animais para a extração de pele.
Guerras podem buscar a paz, mas…
Guerras podem buscar a paz, mas se fosse simplesmente pela paz muitas jamais aconteceriam, já que dificilmente o Estado ou algum grupo dominante gastaria em algo que não traga outro retorno. A guerra, na minha opinião, tem se tornado cada vez mais um negócio, e não excepcionalmente é mais uma questão de territorialidade e imposição ideológica do que de paz.
As guerras surgiram não apenas por questão de sobrevivência, mas também com um viés tolo, vil e mesquinho. Alguns dos primeiros conflitos que inspirariam as chamadas guerras eram travados por pessoas que naturalmente viviam no campo e criavam animais. Quando a área de suas propriedades lhes parecia insuficiente, eles invadiam as propriedades vizinhas.
Caso a família que teve a área invadida reagisse, o conflito se armava, e pessoas matavam ou morriam simplesmente pelo anseio de ter mais espaço para criar animais para consumo e comércio. Não raramente, tais ações tomavam proporções inimagináveis, e inspiravam ações muito maiores, desencadeando guerras. Essa preocupação é algo que já era manifestado e registrado na Grécia Antiga por filósofos como Sócrates e Platão.
Se voltando para o nosso tempo, um exemplo contemporâneo do microcosmo da guerra é o livro “Prilli i Thyer”, ou “Abril Despedaçado”, do escritor albanês Ismail Kadaré. Na minha opinião, o romantismo da guerra sempre vai ser muito mais de caráter ficcional do que real, e obviamente que atendendo a objetivos que podem ser claros ou não; e que também podem atender a uma ou várias propagandas ideológicas. Creio que guerra somente pela paz é das coisas mais raras do mundo contemporâneo. “Para a maioria dos homens, a guerra é o fim da solidão. Para mim, é a solidão infinita”, dizia o escritor francês Albert Camus.
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Quando alguém faz piada sobre a preocupação com as mudanças climáticas
Acho que você tem razão, a natureza deve ser espoliada a níveis alarmantes e nunca amargaremos as consequências disso, não é mesmo? Acredito que muito do que acontece de ruim no mundo tem relação com a destruição do meio ambiente e, consequentemente, de outras vidas. Você concordando ou não, e independente do nível de informação, a preocupação com as mudanças climáticas, mesmo quando singela, é uma manifestação do anseio por um mundo melhor, menos agressivo com todos os seres vivos que habitam a Terra.
Não é preciso nenhum relatório para deixar claro que a natureza não é uma subalterna da humanidade, que deve ser explorada exaustivamente. Sem limites, o ser humano continuará se preocupando apenas com o que lhe convém. Ouso até dizer que uma das piores doenças do mundo contemporâneo é a ganância, porque ela infla muitas pessoas com um individualismo tão abjeto que faz com que nada seja mais importante do que o próprio ego. Isso é muito perigoso porque arrasta consigo a ideia equivocada de superioridade, que também é a raiz de muitos males.
Ao longo da história, quanto a humanidade investiu em guerras? E quanto ela investiu na preservação e recuperação do meio ambiente? Gosto de fazer essa pergunta para quem faz piada de relatórios sobre problemas ambientais como as mudanças climáticas. Não adianta falar que isso é uma preocupação meramente contemporânea porque essa reflexão já existia na Grécia Antiga. A diferença é que tudo que foi dito no passado sobre o respeito ao meio ambiente foi ignorado. E, claro, como consequência, não apenas prejudicamos nós mesmos, como também muitas outras espécies que não tomaram parte nos danos ao meio ambiente.
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Hoje é aniversário do Tio Lu

Tio Lu usa a arte como meio de afastar crianças e adolescentes das ruas, das drogas e do crime (Foto: David Arioch)
Hoje é aniversário do Tio Lu, da Oficina do Tio Lu. Fui até a Vila Alta dar um abraço nele e conversar um pouco. Ele está muito feliz de chegar aos 87 anos com pique para trabalhar e para ajudar a garotada do bairro. Tio Lu, que foi tema do meu documentário “Oficina do Tio Lú“, usa a arte como meio de afastar crianças e adolescentes das ruas, das drogas e do crime.
Sócrates e o consumo de carne como símbolo da injustiça e das desigualdades
A redução dos animais à comida seria um gatilho para minar as condições de construção de uma sociedade mais justa

Sócrates: “Esse hábito de comer animais não exigiria que abatêssemos animais que conhecemos como indivíduos” (Arte: Reprodução)
Um dos fundadores da filosofia ocidental, o filósofo ateniense Sócrates ficou conhecido principalmente pela sua contribuição no campo da ética e da epistemologia. Suas crenças e ideias tornaram-se mundialmente famosas por meio de seus diálogos e discursos registrados por seus discípulos Platão e Xenofonte. Embora não seja possível afirmar se Sócrates foi vegetariano ou protovegetariano, na obra “A República”, escrita por Platão, está clara a sua preocupação sobre as consequências do consumo de carne e da exploração animal, além das implicações desse hábito na saúde humana.
Na página 77 de “A República”, Sócrates comenta com Glauco que levando em conta a forma como as pessoas viviam nas cidades, logo seria considerada imprescindível a criação de gado de todos os tipos. “Mas, levando este tipo de vida, teremos necessidade de muito mais médicos do que antes”, diz Sócrates a Glauco, que concorda com a associação do consumo de carne com o surgimento de problemas de saúde.
Sócrates também critica o hábito dos pastores da época de treinarem os cães para auxiliá-los no trabalho com os rebanhos de carneiros, reconhecendo que esse costume poderia endurecer a natureza dos animais, excitando a intemperança dos cães e tornando-os seres brutos. “A fome ou qualquer hábito vicioso os levaria a fazer mal aos carneiros e a tornarem-se iguais aos lobos [que apenas agiam instintivamente] dos quais os deveriam proteger”, declarou o filósofo ateniense na página 147 de “A República”. A observação de Sócrates revela uma preocupação com o fato da humanidade subverter a natureza animal para benefício próprio.
Na segunda parte de “A República” Platão apresenta Sócrates como um sujeito preocupado com as implicações morais do abate de animais, embora ele demonstre que, primariamente, o que o incomodava era a possibilidade de que o consumo de animais pudesse corromper cada vez mais a humanidade, a distanciando de sua natureza justa e complacente. “Esse hábito de comer animais não exigiria que abatêssemos animais que conhecemos como indivíduos, e em cujos olhos poderíamos olhar e ver-nos refletidos, apenas algumas horas antes de nossa refeição?”, questiona, ao que Glauco responde prontamente: “Esse hábito exigiria isso de nós.”
A coisificação dos animais não humanos é apontada por Sócrates e Glauco como algo capaz de impedir a humanidade de alcançar a felicidade. “E, se seguirmos esse modo de vida, não teremos de visitar o médico com mais frequência?”, questiona o filósofo, que recebe a confirmação de Glauco: “Teríamos tal necessidade.” Sócrates prevê ainda que o hábito de comer animais e criá-los com a finalidade de vendê-los transformaria o ser humano em alguém não somente ambicioso, mas ganancioso a ponto de espoliar propriedades vizinhas para ampliar suas pastagens:
“Se nosso vizinho seguir um caminho semelhante, não teremos que ir à guerra contra o nosso próximo para garantir maiores pastagens? Porque as nossas não serão mais suficientes para o nosso sustento, e nosso vizinho terá a mesma necessidade e entrará em guerra conosco?” Glauco corrobora o receio do ateniense ao confirmar que sim, deixando subentendido que a humanidade se tornaria mais suscetível à decadência e às tentações de uma sociedade imersa em desigualdades. Para Sócrates, a redução dos animais à comida seria um gatilho para minar as condições de construção de uma sociedade mais justa – e um distanciamento cada vez mais crescente da forma mais genuína de felicidade.
Essas reflexões de Sócrates envolvendo a exploração animal e o consumo de carne vão ao encontro do estudo da virtude. Ele dizia que é mais importante a busca do desenvolvimento humano do que a busca pela riqueza material – um dos principais motivos da exploração de animais enquanto produtos. Sócrates acreditava tanto nisso que nem mesmo quando foi sentenciado à morte por questões políticas, segundo as obras “Apologia” e “Críton”, de Platão; e pessoais, de acordo com Xenofonte, cogitou curvar-se ao júri ou fugir em vez de enfrentar a injusta condenação. Nascido em 470 a.C., Sócrates, que preferiu à morte ao exílio, faleceu em 399 a.C, depois de ser obrigado a ingerir cicuta após 30 dias preso.
Referências
Platão. A República. Nova Fronteira (2014).
Platão. A República – Parte II. Escala Educacional (2006).
The Republic of Plato. Translation by F. Sydenham and T. Taylor, revised by W.H.D. Rouse. With introduction by Ernest Barker. London – Methuen (1906).
Kofman, Sarah. Socrates: Fictions of a Philosopher (1998).
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