Archive for October, 2017
Tom Regan: “Comer animais, comer sua carne, como eu fazia, certamente encorajava seu abate”
Fora seu pacifismo, Gandhi me fazia um desafio novo, que falava diretamente aos hábitos da minha vida. Embora escrevesse para todo e qualquer leitor, ele parecia estar falando pessoalmente comigo. Era como se ele quisesse saber como eu, Tom Regan, podia ser contra a violência desnecessária, como a da Guerra do Vietnã, quando os seres humanos são as vítimas, mas apoiar este mesmo tipo de violência (violência desnecessária) quando as vítimas são os animais.
“Por favor, me explique, professor Regan”, a voz de Gandhi pedia, da página, “o que aquelas partes de corpos mortos (isto é, ‘pedaços de carne’) estão fazendo no seu freezer? Por favor, explique, professor, como é que o senhor pode reunir ativistas antiguerra na sua casa e lhes servir uma vítima de outro tipo de guerra, a guerra não declarada que os humanos estão empreendendo contra os animais?” Não tenho certeza, mas tive a impressão de detectar um sorriso furtivo e sarcástico no rosto de Mahatma.
Claro que Gandhi estava certo sobre algumas coisas. Comer animais, comer sua carne, como eu fazia, certamente encorajava seu abate, um modo verdadeiramente horrível e violento de morrer, algo que mais tarde eu acabaria conhecendo de perto, quando, mesmo sentindo uma forte aversão ao que estava fazendo, vi porcos, galinhas e vacas encontrarem seu fim sangrento.
Páginas 48 e 49 de Empty Cages (Jaulas Vazias), de Tom Regan.
A surpresa de Tom Regan em sua primeira grande conferência sobre proteção animal
Depois de tornarem-se vegetarianos, o filósofo Tom Regan e a esposa Nancy decidiram participar de uma conferência sobre proteção animal na Universidade de Cambridge no verão de 1978. O tema naquele ano era o “laço que envolve humanos e outros animais”. Regan ficou extremamente empolgado com a possibilidade de conhecer os maiores pensadores da época tratando-se da questão animalista.
Porém, à noite, durante o primeiro jantar realizado pelos organizadores da conferência, Tom e Nancy ficaram chocados quando viram que o prato principal era “filé wellington”, que consiste em filé mignon coberto por massa folhada. O café da manhã oferecido ao casal incluía presunto, bacon, salsichas e arenque. Os almoços contavam inclusive com pâncreas de bezerro e fatias de língua ensanguentada. Na segunda noite, a comissão organizadora da conferência ofertou aos convidados um jantar com carne de veado selvagem. Nos outros dias, serviram perna de carneiro assada e vitela cordon bleu.
Constrangidos nessas situações, Tom e Nancy pediam que lhes preparassem algo livre de qualquer ingrediente de origem animal. O filósofo não considerava correto passar o dia discursando sobre os deveres humanos para com os animais e depois alimentar-se deles. Quando a comissão organizadora foi informada da recusa de Tom e Nancy em alimentar-se de animais, interpretaram aquilo como insolência, um tremendo desrespeito. Na realidade, os poucos vegetarianos da conferência passaram a ser vistos com maus olhos.
Apesar de tudo, a experiência serviu para mostrar ao casal de defensores dos direitos animais que diferentes pessoas entendem a proteção animal de diferentes modos. A importante lição influenciaria o caminho trilhado por Tom e Nancy, e reforçaria o posicionamento dos dois em relação ao que acreditavam e lutariam para defender, mesmo que isso custasse confrontar muita gente ligada à proteção animal.
Passei a minha vida toda em cidades do interior
Passei a minha vida toda em cidades do interior. Por uma questão de preferência, nunca morei em metrópoles, justamente porque tempo é algo importante para mim, além da perpetuação de certos hábitos que considero inerentes ao ser humano. Não cresci comprando coisas demais, frequentando redes de fast food. A verdade é que não cresci dentro de uma cultura muito consumista. Na minha infância, porcarias eram consumidas apenas ocasionalmente. E tal hábito foi mantido e aperfeiçoado.
Não tenho o costume de comer fora, sempre tive uma relação quase litúrgica com a comida, tanto que gosto de cozinhar. Prefiro comprar coisas diretamente de quem produz. Claro, não me considero melhor do que ninguém por causa disso. Produtos industrializados nunca foram uma grande preocupação pra mim, porque essa não é a cultura em que estou inserido, e provavelmente essa minha história de vida me permite não cair em tantas armadilhas que ajudam a perpetuar ou reforçar as mais diferentes formas de exploração.
Me recordo que quando Gilles Lipovetsky criou o termo caos organizador ele disse que o ser humano se dividiria entre o progresso e o regresso na hipermodernidade. E é isso que testemunhamos todos os dias. Quando penso nisso, às vezes rememoro os escritos ficcionais de Knut Hamsun sobre anticivilização, uma anticivilidade telúrica que o levou ao Nobel.
Uma boa experiência na clínica cardiológica
Me consultando com o cardiologista, como tenho feito a cada seis meses, ele me passou uma lista de exames.
— Dr. Alexandre, o senhor pode incluir também exames de B12, homocisteína, como das outras vezes? É que não como nada de origem animal, sou vegano.
— Sério? Que maravilha! Você vai viver bem até os 100 anos.
— Muito obrigado – comentei sem conter o sorriso largo diante da situação.
— E consegue se desse tamanho sem comer nada de origem animal?
— Dá pra ter um pouquinho de massa muscular.
— Muito bom mesmo. Bom saber disso. Continue assim.
“Não rola ser vegano. Você deve ter tempo de sobra pra cozinhar essas coisas”
— Não rola ser vegano. Você deve ter tempo de sobra pra cozinhar essas coisas.
— Cozinho mais no domingo. As receitas que publico normalmente são feitas no final de semana. Caso eu tenha pouco tempo no sábado ou no domingo, acordo mais cedo ou então cozinho à noite quando chego em casa.
— Ah, deve ser caro fazer esses hambúrgueres vegetais e esses bolinhos.
— Não é. Uso mais feijões e ervilhas frescas como fonte de proteína para esses hambúrgueres. Pago menos de R$ 5 no quilo do feijão e R$ 6 no quilo de ervilhas frescas. Os demais ingredientes, os temperos, por exemplo, dá pra plantar inclusive em casa, até mesmo dentro de garrafas ou vasos, caso não tenha espaço. E sobre os bolinhos, o que mais uso é aveia, cacau em pó e pasta de amendoim integral. É possível encontrar aveia por R$ 5 o quilo, cacau em pó por menos de R$ 2 cada 100 gramas. A pasta de amendoim pode ser feita em casa (sai em torno de R$ 8 o quilo) ou caso não tenha como fazer, é possível encontrar o quilo por menos de R$ 15, e dura um bom tempo.
— Vegetais, frutas e legumes não são tão baratos.
— São bem mais baratos do que carne, e obviamente mais saudáveis, pode ter certeza. Além disso, você pode procurar por promoções. Entre em contato com pessoas da sua cidade que já se alimentam dessa forma e peça dicas. Pessoas dispostas a ajudar não faltam.
— Tofu é muito caro.
— Faça em casa que sai barato. É possível fazer um quilo de tofu com menos de R$ 10.
— Leite vegetal é caro.
— Leite vegetal é mais barato que leite de vaca. Experimente fazer em um final de semana.
— Ah, mas não tenho tempo pra me exercitar, ir pra academia.
— Durante mais de três anos, acordei às 5h para ir à academia. Depois não pude mais ir de manhã e mudei para o horário da noite. O dia tem 24 horas, você não tem uma hora ou 30 minutos para se exercitar diariamente?
— Não tenho grana pra comprar suplemento proteico vegano. É muito caro.
— Suplemento proteico só é necessário em casos específicos, quando uma pessoa não supre as necessidades diárias a partir da alimentação. Em qualquer outro caso, é desnecessário. Além disso, existe proteína vegetariana bulk, a granel, que é mais acessível. Vamos parar de arrumar desculpas.
Diante do semáforo
De manhã, diante do semáforo, ao meu lado havia um fusquinha bege bem conservado. Ao volante, um senhorzinho já bem idoso. Enquanto o sinal não esverdeava, ele levantou a pequena mão da esposa e a beijou delicadamente. Ela sorriu e ajeitou a gola da blusa dele. Quando o sinal ficou verde, o fusquinha seguiu o seu caminho, sem pressa, ignorando as ultrapassagens. Naquele momento, pensei: “Realmente, nós que fazemos a velocidade da vida; nos entorpecemos ou nos sublimamos com ela.”
Aos animais a liberdade

Bilhões de animais criados para consumo no mundo todo escutavam isocronicamente um som jamais ouvido antes
Sonhei que bilhões de animais criados para consumo no mundo todo escutavam isocronicamente um som jamais ouvido antes; um tipo de chamamento que fazia com que nada temessem, apenas reconhecessem a sua força em evidência por uma subitânea expansão da consciência.
Arrebentavam gaiolas, grades, correntes, atravessavam pastos e cidades. Se articulavam como nunca, como seres sociais que são. Fugiam de matadouros e laboratórios. Não podiam mais ser tocados, mas simplesmente observados. Aos seres humanos, incapazes de se moverem por um artifício romanesco, restava o direito e a obrigação de assistir tudo como meros espectadores.
A cada passo dos sobreviventes em direção à vida, os seres humanos eram presenteados com flashes da libitina, do decesso, da ortotanásia, da morte; não da própria morte, nem de mortes humanas, mas da finitude dos familiares daqueles animais que remanesceram. Os olhos de uma vaca que corria em celeridade, mesmo com os úberes morrudos e quase tocando o chão, projetavam titânicos hologramas de crianças mortas. Todos os seus filhos executados ao longo de anos de ordenha.
Uma galinha sem bico e com olhos cor de terra projetava o exato momento de sua debicagem, calvário que perdurou por semanas. Na cumeeira, no ponto mais alto de muitas cidades, havia projeções colossais de pintinhos sendo triturados em máquinas. Não paravam de cair, não paravam de morrer. Lembranças de um passado hodierno.
Pessoas tentavam cobrir suas cabeças, temendo que o sangue das pequenas criaturas pudesse lavar suas ignorâncias, insipiências. O obnóxio apedeutismo sufocaria. Mas o ser humano é recalcitrante. Pessoas de todas as idades persistiam; tentavam vendar os olhos, seus e dos outros. Não era mais possível abrenunciar a realidade.
Aqueles que privaram os filhos da verdade também amargaram consequências; as crianças não foram poupadas. Por que seriam? Os animais corriam, e os hologramas se expandiam. A morte evidenciada visceralmente por todos os lados, sem romantismo, sem subversão conscienciosa. A verdade avançava. O céu virou um painel.
Cenas de peixes sufocados em tralhas e devolvidos (ou não) ao mar agonizavam, incapazes de sobreviver por mais do que minutos sempiternos. O fim chegaria, mas custaria. Oceanos, mares e rios cuspiam a humanidade, seus barcos, suas bargas e tralhas. Porquinhos soluçavam pendurados sobre grilhões. Era o último registro do último matadouro. Caprinos e ovinos saltavam sobre os carros; amassavam latarias e corriam.
Aos animais a liberdade, à humanidade o reconhecimento da fealdade. Mais adiante, animais telúricos desapareciam através de tocos de árvores transformados em troncos que se alargavam e funcionavam como portais. Nas águas, os não humanos atravessavam crateras, furnas e lapas quiméricas que repeliam os indesejados. Do outro lado, na terra, na água ou no céu, não havia humanidade, somente reciprocidade semeada pela vontade.
Na minha infância
Na minha infância, um dia a professora chamou a minha mãe para denunciar que eu tinha colado em uma prova. Então fomos para a orientação. Chegando lá, a professora com toda a certeza que lhe cabe, começou:
— O David colou na minha prova. Dei uma folha para ele responder sobre um livro que leu e ele pediu mais cinco folhas para escrever sobre o livro “O Escaravelho do Diabo”, da Coleção Vagalume. Ele chegou a citar páginas inteiras do livro.
— Isso não significa nada — respondeu minha mãe.
— Como não? Ele tem nove anos. Nunca conseguiria fazer algo assim sem colar.
— Confio no meu filho e acho que ele pode provar que a senhora está errada.
— Como? Então prove!
Narrei mais de dez páginas do livro e a professora ficou me olhando com expressão estrambótica.
— Posso narrar ele inteiro se a senhora se quiser. São 128 páginas.
A orientadora então interrompeu a narrativa. A professora se desculpou comigo e com minha mãe. Mas, pelo seu olhar que ainda rememoro, continuou achando estranho o que aconteceu.
Quando meu pai me colocava de castigo, eu aproveitava para ler, e o castigo logo não era mais castigo. Assim eu acabava decorando parcialmente ou integralmente o conteúdo dos livros. Então poderia consultá-los dentro da minha própria mente.




