Archive for the ‘Literatura’ Category
Cortázar: “Acontece o contrário com os animais. Eles me fascinam. O mundo dos insetos…dos mamíferos”

Cortázar: “Descobrir pouco a pouco afinidades e similaridades…Acho que o gato é o meu animal totêmico e eles sabem disso” (Foto: Reprodução)
Um dos maiores nomes da literatura latino-americana, o escritor argentino Julio Cortázar, homem que chegou a um momento da vida em que deixou de surpreender-se com a humanidade e o mundo, teve muitas conversas com o seu amigo Ernesto González Bermejo.
Mais tarde, esses registros deram origem ao livro “Conversaciones con Cortázar”, publicado originalmente em 1978, seis anos antes da morte de Cortázar. No Brasil, a obra foi lançada em 2002, por iniciativa da Editora Jorge Zahar, sediada no Rio de Janeiro. Dentre os assuntos jamais abordados com franqueza em outra entrevista está o seu amor pelos animais, registrado nas páginas 46 e 47:
“Sempre fui, desde criança, profundamente indiferente ao reino vegetal: nunca distingui muito bem um eucalipto de uma bananeira; gosto das flores, mas não me ocuparia em ter um jardim. Acontece o contrário com os animais. Eles me fascinam.
O mundo dos insetos…dos mamíferos. Descobrir pouco a pouco afinidades e similaridades…Acho que o gato é o meu animal totêmico e eles sabem disso, como pude comprovar muitas vezes ao chegar à casa de amigos que têm cães e gatos. Os cães me tratam com indiferença, mas os gatos me abordam logo na chegada.
Se alguém fizer uma pesquisa de meus livros, vai descobrir uma grande percentagem de animais. Um animal se move fora do tempo – repete ao infinito os mesmos movimentos, e para quê? Por quê? Essas são noções humanas que não valem para um inseto. Dizemos que o animal trabalha, mas a noção de trabalho quem insere somos nós.”
Considerado o mestre do conto curto e da prosa poética, o escritor argentino Julio Cortázar ocupa a mesma posição de destaque na literatura mundial que o seu conterrâneo Jorge Luis Borges. Cortázar entrou para a história como um autor original que inovou na literatura ao se afastar da forma clássica de escrever.
Fugindo da linearidade, se destacou pela perene preocupação em se aprofundar no perfil psicológico de seus personagens, garantindo a eles autonomia e proporcionando ao leitor uma imersão numa criação espontânea que, identificada como realismo mágico, precede qualquer avaliação crítica.
Maior exemplo disso é o seu livro mais famoso. “Rayuela” ou “O Jogo da Amarelinha”, de 1963, que convida o espectador a fazer as mais diferentes interpretações da história surrealista de Horacio Oliveira, baseada em um monólogo interior.
Romain Rolland: “Concedendo aos animais um raio de razão, imagine o quanto o mundo pode ser um pesadelo terrível para eles”
“Ele não podia mais suportar ver uma das cenas mais ordinárias que testemunhara centenas de vezes – um bezerro chorando em uma cesta de vime, com seus grandes olhos salientes, seus tufos brancos encaracolados sobre a testa, seu focinho roxo e suas pernas dobradas.
Havia um cordeiro com as quatro pernas amarradas sendo transportado por um camponês. Pendurado de cabeça para baixo, ele tentava elevar a própria fronte, gemendo como uma criança, balindo e pendendo a língua cinza. Havia aves amontoadas em uma cesta e podia-se ouvir ao longe os guinchos de um porco sangrando até a morte, além de um peixe a ser limpo em uma cozinha.
As torturas inomináveis que os seres humanos infligem a essas criaturas inocentes fez seu coração doer. Concedendo aos animais um raio de razão, imagine o quanto o mundo pode ser um pesadelo terrível para eles: um sonho com homens de sangue frio, cegos e surdos cortando suas gargantas, abrindo-as, eviscerando-os, fatiando-os, cozinhando-os vivos e às vezes rindo da forma como eles se contorcem de agonia. Existe algo mais atroz entre os canibais da África?”
Excertos da página 328 de “Jean-Christophe”, romance de dez volumes produzido entre os anos de 1904 e 1912 pelo escritor francês vegetariano Romain Rolland, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1915.
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H.G. Wells: “Agora não conseguimos suportar a ideia de matadouros”
“No mundo da Utopia, não há carne. Antes havia. Mas agora não conseguimos suportar a ideia de matadouros. E numa população em que todo mundo é culto e com um nível de aperfeiçoamento físico semelhante, é praticamente impossível encontrar alguém que vá talhar um boi ou um porco morto.
Nunca nos acostumamos com a questão higiênica do consumo de carne. Esse outro aspecto fez com que tomássemos uma decisão. Ainda consigo me lembrar, de quando era rapaz, do contentamento que o encerramento do último matadouro gerou.”
A Utopia Moderna (A Modern Utopia), página 174, de H.G. Wells, publicado em 1905. O escritor britânico também é autor de clássicos como A Guerra dos Mundos (The War of the Worlds), A Máquina do Tempo (The Time Machine) e A Ilha do Dr. Moreau (The Island of Dr. Moreau).
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Dostoiévski: “Homem, não se orgulhe de sua superioridade em relação aos animais”
“Compara-se por vezes a crueldade do homem com a dos animais selvagens; é uma injustiça para com estes. As feras não atingem jamais os refinamentos do homem.
O tigre dilacera sua presa e a devora; não conhece outra coisa. Por isso, ame todas as criaturas de Deus, do todo ao grão de areia. Ame cada folha, cada raio de luz. Ame os animais, ame as plantas, ame cada coisa, e assim você conhecerá os mistérios de Deus.
E quando perceber isso, você terá uma compreensão mais completa de que o mundo todo precisa ser amado, de forma abrangente e universal. Ame os animais. Deus deu aos animais uma consciência rudimentar e uma imperturbável alegria. Não se deve chateá-los ou privá-los de sua felicidade.
Não trabalhe contra os intentos de Deus. Homem, não se orgulhe de sua superioridade em relação aos animais. Eles não possuem pecados, enquanto você mancha a terra com tua grandeza, com tua aparição, deixando após ti um rasto de podridão — Ai! Quase todos nós!”
Citações de “Os Irmãos Karamázov”, de Fiódor Dostoiévski, publicado em 1879. Páginas 260, 352 e 353.
Quando um garoto assume o papel de um porco no matadouro
Lexington, um jovem que cresceu como vegetariano estrito, vai a um restaurante e experimenta um prato baseado em repolho e carne de porco. Ele nunca tinha comido aquilo e fica maravilhado com a experiência, tanto que decide descobrir a origem da carne. Então viaja até um matadouro, onde assiste o sofrimento dos porcos preparados para o abate.
O primeiro porco é mantido imóvel por meio de uma corrente que envolve seus pés. E essa corrente é presa a um cabo que se move para cima e para baixo. Logo o porco é arrastado enquanto emite grunhidos desesperados ao longo da linha de abate. Apesar da crueldade, Lexington acha o processo fascinante, enquanto os funcionários da linha de produção se mostram entediados.
De repente, por um descuido, uma das pernas do rapaz fica presa a uma corrente e ele é arrastado por um cabo. Os funcionários não se importam, indiferentes ao processo que se repete diariamente. A descrição do que acontece com Lexington é extremamente gráfica e contempla todo o processo de abate. A única diferença é que há um humano no lugar de um porco.
E o maior apelo da história subsiste na associação que o escritor Roald Dahl faz entre suínos e humanos. Sua abordagem vai ao encontro da ciência, que qualifica os porcos como animais inteligentes. Porém, a diferença mais significativa está na incapacidade de terem pensamentos abstratos, serem esperançosos ou recorrerem a Deus. E por isso sua dor é mais avassaladora do que a humana, segundo a própria obra.
Sobre Pig, obra do britânico Roald Dahl publicada em 1960. Ao escrevê-la, o objetivo do escritor era mostrar como a violência humana é legitimada, aceita como parte de um “processo natural”.
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Al-Ma’arri, o poeta “vegano” do século XI
Importante pensador árabe condenava a exploração animal em todos os aspectos

“Ele alcançou a originalidade quando ainda respirava o reminiscente ar de liberdade dos poetas pré-islâmicos da Era da Ignorância” (Arte: Reprodução)
Um dos mais importantes poetas árabes de todos os tempos, o sírio Abul ʿAla Al-Maʿarri ficou conhecido no século XI por sua postura antirreligiosa e por condenar a exploração animal em todos os aspectos. Uma de suas obras mais famosas, e que aborda a sua adoção de uma filosofia de vida que hoje se enquadraria como veganismo, é o poema “Já Não Roubo da Natureza”.
Aos quatro anos, Al-Ma’arri ficou cego depois de contrair varíola. Mais tarde, deixou Ma’arrat al-Numan, sua cidade natal, para estudar. O sírio foi para Aleppo e depois para a Antióquia, onde a cultura predominante era helenista. Também viveu em outras cidades. Até os sete anos, um de seus grandes professores foi Ibn Kalawayth, um famoso erudito persa do século X, referência em gramática árabe e exegese corânica, falecido em 980. Em “Risālat al-Ghufrān”, seu trabalho mais conhecido, Al-Ma’arri lamenta profundamente a morte de seu mestre.
A obra poética que poderia ser traduzida como “A Epístola do Perdão”, assim como o sagrado Livro de Arda Viraf, é considerada uma das obras que possivelmente influenciou Dante Alighieri a escrever “A Divina Comédia”, publicada entre 1304 e 1321. Em “Risālat al-Ghufrān”, Al-Ma’arri narra a viagem de um poeta para o céu e para o inferno, onde ele encontra os maiores nomes da literatura árabe sendo punidos e recompensados por seus trabalhos. Para confrontar as crenças islâmicas, Al-Ma’arri apresenta um céu também ocupado por pessoas não-muçulmanas.
“Ele alcançou a originalidade quando ainda respirava o reminiscente ar de liberdade dos poetas pré-islâmicos da Era da Ignorância. Assim como o autor de Eclesiastes, al-Ma’arri descreveu o mundo a partir de um ponto de vista distanciado, aristocrático e ligeiramente desdenhoso”, analisam Cyril Glassé e Huston Smith na página 278 do livro “The New Encyclopedia of Islam”, de 2008.
Se por um lado, o sírio era visto como um racionalista controverso e pessimista que se dedicava a criticar o cristianismo, judaísmo, islamismo e zoroastrismo, por outro, ele advogada em nome da justiça social e dos direitos animais. As suas principais ferramentas de conscientização eram a sua produção literária e os seus discursos. Se sentia tão incomodado com os rumos da humanidade que chegou a dizer que talvez o melhor caminho fosse a anti-natalidade. No seu entendimento, era a forma mais eficaz de poupar as crianças das dores da vida.
Al-Qifti, renomado escritor egípcio da literatura islâmica medieval registrou que durante viagem para Trípoli, Al Ma’arri visitou um mosteiro perto da Lataquia, onde ouviu um debate sobre filosofia helênica. A discussão despertou nele um sentimento de ceticismo e irreligiosidade. O biógrafo e historiador sírio Ibn al-Adim rejeita essa versão, alegando que Al Ma’arri jamais teve contato com culturas não-islâmicas. Embora não haja consenso sobre esse aspecto de sua vida, ele jamais deixou de criticar a religião em seus versos. Em “As Duas Verdades Universais”, o poeta sírio escreveu:
Erram todos – judeus, cristãos,
muçulmanos e masdeístas:
A humanidade segue duas seitas:
Uma: pensadores sem religião,
Outra: religiosos sem cabeça.
A sua maior rejeição em relação à religião subsistia no fato de que os discursos dos profetas sempre foram baseados em afirmações inquestionáveis. Por essa sua posição, Ma’Arri um dia foi arrastado pelos pés para fora da casa do erudito islâmico e poeta Sharif al-Radi, em Bagdá. O erudito islâmico Ibn al-Kawzi, descendente de Abu Bakr, companheiro do profeta Maomé, o acusou de ser um zindiq, ou seja, alguém contrário aos dogmas islâmicos.
“Em meio a suas meditações sobre a tragédia humana, explodiu o ódio feroz da injustiça, da hipocrisia e da superstição”, avalia o escritor Reynold Nicholson no livro “Studies in Islamic Poetry”, escrito durante a Primeira Guerra Mundial e publicado em 1921. Al-Ma’arri enfatizava que o ser humano buscava refúgio nas histórias religiosas como forma de amenizar a sua solidão espiritual despertada por sua má conduta.
Em síntese, o sírio declarava que a religião era uma instituição humana inventada para atuar como fonte de poder e renda para seus fundadores e sacerdotes. Para isso, em sua concepção, valem-se de documentos falsos atribuídos à inspiração divina.
Abandona a mesquita e evita louvor,
Preces inúteis, sacrifício de ovelhas,
Pois o Destino trará cálice de sono
Ou cálice de insônia. O que vier, beba.
Foi justamente por condenar o sacrifício de animais que Al-Ma’arri se tornou vegetariano aos 30 anos. No entanto, somente décadas depois decidiu registrar o que o levou a se abster de carne e derivados de origem animal. Ele citou como referência um antigo médico grego e, mesmo avesso à religião, mencionou também o Alcorão. Para o filósofo sírio, é inconcebível gerar dor em outros seres para roubar leite e ovos. Al-Ma’arri dizia que ao fazer isso os homens agiam como ladrões.
Como Mahavira e os jainistas, ele acreditava na santidade da vida e definia como um ato de imoralidade causar qualquer prejuízo aos animais. Então se tornou um ferrenho opositor de todas as formas de exploração animal, inclusive de peles como vestuário. Vivendo com 20 dinares por ano, a sua alimentação era baseada em feijões e lentilhas.
Por causa de suas limitações em decorrência da deficiência visual, Al-Ma’arri contava com o serviço de um ajudante, e permitia que ele levasse a maior parte do seu ordenado, deixando apenas o suficiente para a sua comida. “Os homens de mente acurada me chamam de asceta, mas eles estão errados em sua classificação. Embora eu tenha disciplinado meus desejos, só abandonei os prazeres mundanos porque eles me privavam do melhor de mim”, garantiu.
Publicado há mais de mil anos, o poema “Já Não Roubo da Natureza” é a maior prova de sua “consciência vegana”. Em síntese, um manifesto à vida, já que ele via os animais como seres que não merecem padecer diante da injustiça humana:
Você foi subvertido pela compreensão e pela religião.
Venha a mim, para que você possa ouvir alguma verdade.
Não coma injustamente o peixe que a água sublevou,
E não deseje como alimento a carne de animais abatidos,
Ou o leite branco das mães que pretendiam alimentar seus bebês, não senhoras nobres.
Não aflija as inocentes aves tomando-lhes os ovos;
Pois a injustiça é o pior dos crimes.
E poupe o mel que as abelhas obtêm industriosamente das flores de plantas perfumadas;
Porque elas não o resguardaram para que pudesse pertencer a outros,
Nem o recolheram em troca de presentes ou recompensa.
Lavei minhas mãos de tudo isso; e gostaria de ter descoberto o meu caminho antes do meu cabelo ter ficado grisalho.
Ao longo de três anos vivendo em Bagdá, onde foi muito bem recebido nos mais importantes salões literários, Al-Ma’arri escreveu o livro “Luzumiyyat” ou “Obrigação do que não é obrigatório”, que reúne uma coleção de versos que diferem da tradicional poesia árabe, principalmente pela estrutura irregular.
Enquanto viveu no Iraque, ele ficou decepcionado ao testemunhar como os poetas se rebaixavam por causa de dinheiro. Muitos se dedicavam a escrever panegíricos, ou seja, ode aos seus ricos patronos. Quando reconheceu que aquele era o destino de um poeta em uma metrópole, o sírio decidiu retornar para casa. Sua decisão foi reforçada pela notícia de que sua mãe estava falecendo.
Em 1010, de volta a Ma’arrat al-Numan, ele decidiu não se ausentar mais. Em sua cidade natal, as pessoas gostavam de ouvi-lo ensinar sobre poesia e retórica. Sua popularidade era grande entre estudantes locais. Também se correspondia com estudantes estrangeiros. Niilista e com um humor assumidamente satírico, Al-Ma’arri afirmava não acreditar em alegria ou tristeza, classificando os dois estados emocionais como sendo um só. Mesmo assim, suas obras nunca deixaram de transmitir uma fé piedosa, espiritualidade, singular senso de humanidade e um contumaz anseio por liberdade de expressão.
Uma vez, ele escreveu um pedido de desculpas por qualquer ofensa que seu trabalho pudesse provocar:
“Não tentei enfeitar meus versos por meio da ficção, nem preencher minhas páginas com idílios de amor, cenas de batalhas, relatos de festas de vinho ou coisas do gênero. Meu objetivo é tão somente falar a verdade. Ora, o fim próprio da poesia não é verdade, mas sim falsidade, e na medida em que é desviada do seu próprio fim, sua perfeição é prejudicada. Portanto, devo desejar a indulgência de meus leitores por este livro de poesia moral.”
Mesmo tendo uma vida repleta de controvérsias, Abul ʿAla Al-Maʿarri jamais foi preso ou perseguido, mesmo com uma postura pré-anarquista. De 1010 até 1057, ano em que faleceu, o poeta viveu longos períodos de reclusão, simplesmente escrevendo. Tudo leva a crer que a sua cegueira, aliada à sua bela construção poética, contribuíram para que os líderes muçulmanos fossem indulgentes.
Historiador e arquiteto do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Nasser Rabbat relata que Al-Ma’arri é um dos três principais ateus da história do islamismo. No século 20, o filósofo sírio passou a ser visto como um personagem da mesma estirpe dos grandes pensadores do iluminismo. Inclusive o Ocidente só conheceu o seu legado no Século das Luzes, ou seja, no século XVIII.
Escultura de Al-Ma’arri foi decapitada em 2013
Na década de 1940, o artista plástico Fathi Muhammad criou uma escultura em homenagem ao poeta e filósofo sírio Abul ʿAla Al-Maʿarri. A estátua foi colocada em exibição no Museu de Maarat al-Numan, para que ela pudesse inspirar estudantes, pensadores e poetas sírios. Em uma noite de fevereiro de 2013, a escultura, que tinha duas vezes o seu tamanho natural, foi decapitada por fundamentalistas islâmicos da Frente Al-Nusra, um dos braços da Al-Qaeda. Antes, ela já havia sido alvejada a tiros.
Embora também seja qualificado como um herege e seus trabalhos sejam proibidos em cidades dominadas por fundamentalistas, o legado de al-Ma’arri continua influenciando muitas pessoas, tanto no Oriente quanto no Ocidente. Maior exemplo disso é que ele ainda é considerado um dos maiores nomes da poesia e do pensamento árabe.
Saiba Mais
Abul ʿAla Al-Maʿarri era celibatário e deixou registrado um pedido de que seu corpo fosse cremado quando ele morresse.
O poeta sírio começou a escrever seus primeiros poemas com 11, 12 anos.
Ele era membro da Banu Sulayman, uma importante família de Ma’arrat al-Numan que pertencia à tribo tanūkh. Seu tataravô paterno foi o primeiro qadi da cidade. Alguns outros membros da família Sulayman também foram considerados bons poetas.
Referências
Nicholson, A. Reynold. Studies in Slamic Poetry. Cambridge University Press (1921).
Glassé, Cyril; Smith, Huston. The New Encyclopedia of Islam. Rowman & Littlefield Publishers (2008).
Nicholson, A. Reynold. A Literary History of the Arabs. Routdlege (1962).
Hastings, James. Encyclopedia of Religion and Ethics. Kessinger Publishing (2003).
Gelder, Geert Jan Van; Schoeler, Gregor. Al-Maari, Abu I-Ala. The Epistle of Forgiveness. Volume 2: Hypocrites, Heretics, and Other Sinners (2014).
Tharoor, Kanishk; Maruf, Maryam. Museum of Lost Objects: The unacceptable poet. BBC News (8 de março de 2016).
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Bashevis Singer: “Não sou vegetariano pela minha saúde, mas pela saúde dos animais”
“Vou continuar sendo vegetariano, mesmo que o mundo inteiro comece a comer carne”
Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1978, o escritor polonês Isaac Bashevis Singer foi uma importante voz em defesa dos direitos dos animais no século 20. Vegetariano, o autor de clássicos como “A Família Moscat”, “O Mágico de Lublin”, “Spinoza da Rua do Mercado” e “Gimpel O Tolo”, abordou o animalismo em muitas de suas histórias. Entre as mais impactantes estão “O Açougueiro”, “O Escritor de Cartas”, “Sangue” e “Debaixo da Faca”.
Em “O Açougueiro”, que assim como muitos contos de Singer possui elementos surrealistas, ele narra os conflitos de um açougueiro kosher que reconhece a própria negação moral na morte de cada animal reduzido à carne, além da legitimação da injustiça e da naturalização da crueldade. A história se passa no século 19, em um shtetl, ou seja, em uma cidadezinha de população predominantemente judia.
No matadouro, o protagonista começa a ter devaneios com vacas e galinhas se preparando para uma retaliação. Elas querem se vingar por toda a violência perpetrada contra os de suas espécies. Em um determinado momento, os animais berram: “Todo mundo pode matar e todo assassinato é permitido.” Embora tenha sido publicado na revista The New Yorker em 25 de novembro de 1967, “O Açougueiro” continua sendo um conto bastante atual, em que o escritor judeu aborda a realidade da produção de carne e atua como uma consciência moral, uma luz para a sociedade.
Singer dedicou pelo menos 35 anos de sua vida ao vegetarianismo, qualificado por ele como a sua própria religião. Sua principal motivação era a compaixão pelos animais. Antes de falecer em 24 de julho de 1991, aos 88 anos, o polonês concedeu uma entrevista ao escritor estadunidense Rynn Berry que o questionou se ele havia se tornado vegetariano por questões de saúde. “Não sou vegetariano pela minha saúde, mas pela saúde dos animais”, respondeu.
Isaac Bashevis, que escrevia principalmente em iídiche, não raramente questionava em seus contos a hipocrisia humana de consumir carne, e a incapacidade de ponderar sobre o real custo dela. Exemplo disso é um excerto do conto “Sangue”, do livro “Breve Sexta-Feira”, lançado em 1963.
Segurando o ganso, Reuben olhou Risha com intensidade, o olhar subindo e descendo e, afinal, detendo-se no peito. Ainda a fitá-la, golpeou o ganso. As penas brancas tingiram-se de sangue. O ganso torceu o pescoço, ameaçador, e súbito pulou, conseguindo voar alguns metros. Risha mordeu o lábio.
— Dizem que vocês nascem com instinto de assassinos, mas tornam-se açougueiros — disse ela.
— Se é tão delicada assim, por que me trouxe as aves?
— Por quê? Ora, é preciso comê-las!
— Pois para comer carne é preciso matar.

“O Açougueiro”, conto em que o escritor questiona a má relação do ser humano com os animais (Arquivo: The New Yorker)
Em “O Escritor de Cartas”, publicado na revista The New Yorker em 13 de janeiro de 1968, Singer narra a história de Herman Gombiner, um sobrevivente do Holocausto que vive em companhia de um rato. O vínculo entre os dois é tão intenso que Gombiner desenvolve uma consciência animalista: “O que eles sabem? Todos esses filósofos, todos os líderes do mundo? Convenceram-se de que o homem, o pior transgressor de todas as espécies é a coroa da criação. Todas as outras criaturas foram criadas apenas para fornecer-lhe comida e pele, para serem atormentadas e exterminadas. Em relação a elas, todas as pessoas são nazistas. Para os animais, há uma Treblinka eterna.”
O escritor polonês viu semelhanças entre a realidade das vítimas do Holocausto e dos animais transformados em comida, isto porque os dois viveram a experiência do confinamento em espaços apertados, sendo transportados sem água e alimento. “A diferença é que os nazistas tentaram varrer os judeus da face da Terra enquanto os pecuaristas visam sempre aumentar a produção e a quantidade de vítimas”, avalia o escritor Jeffrey Cohan, autor de “Isaac Bashevis Singer, Yiddish Food Writer”.
“Três açougueiros matavam aves sobre uma pia de mármore que refletia a luz de um lampião de querosene, estendendo-as depois a depenadores, que as depenavam e amontoavam-nas, ainda vivas, num cesto.” Excerto de “Debaixo da Faca”, página 66 de “Breve Sexta-Feira”.
De acordo com Isaac Bashevis Singer, quando um ser humano mata um animal para comer, ele negligencia sua própria fome de justiça. “O homem reza por clemência, mas não se dispõe a estendê-la aos outros. Por que então ele deve esperar misericórdia de Deus? É injusto esperar algo que você não está disposto a oferecer”, registrou no texto publicado como prefácio do livro “Diet for Transcendence: Vegetarianism and the World Religions”, de Steven Rosen, de 1987.
Questionado sobre o que diz a Bíblia em relação à sua filosofia de vida, Singer argumentou que a defesa do vegetarianismo pode ser encontrada no Velho Testamento. “Às vezes, eles dizem que Deus quer que animais sejam sacrificados e mortos. […] Mas eu acredito que Deus é sábio e mais piedoso do que isso. E há interpretações das escrituras religiosas dizendo que o vegetarianismo é um grande ideal. Se as pessoas aceitam ou não a interpretação do que é ser vegetariano no contexto da religião, isso não me importa. […] Vou continuar sendo vegetariano, mesmo que o mundo inteiro comece a comer carne”, declarou o premiado escritor na obra “Diet for Transcendence”.
Para Bashevis Singer, ser vegetariano é um protesto, um ato de discordância em relação ao status quo. “Poder nuclear, fome, crueldade, nós temos que nos posicionar contra essas coisas”, recomendou. Mas nada o entristecia mais do que o sofrimento animal. Citava como exemplo o fato dos animais serem capazes de demonstrar benevolência mesmo diante de uma faca ou outra arma a ser usada para matá-los.

“O homem não tem o direito de matar um animal e torturá-lo simplesmente para ‘encher sua barriga de carne'” (Foto: Reprodução)
“Isso me dá um sentimento de miséria e às vezes de raiva em relação a Deus. Você precisa de sua glória para estar conectado com o sofrimento de tantas criaturas ingloriosas, que apenas gostariam de passar alguns anos em paz. Sinto que os animais estão tão confusos quanto nós, exceto que eles não são capazes de comunicar isso”, desabafou em entrevista à revista Newsweek em 16 de outubro de 1978, após receber o Prêmio Nobel de Literatura.
Segundo o escritor polonês, o homem não tem o direito de matar um animal e torturá-lo simplesmente para “encher sua barriga de carne”, ainda mais levando em conta que os animais podem sofrer tanto quanto os seres humanos. Na realidade, a sensibilidade e as emoções animais são ainda mais intensas porque eles não têm a capacidade de verbalizá-las. “Vários religiosos e filósofos tentaram convencer seus discípulos e seguidores de que animais não são nada mais do que máquinas sem alma, sem sentimentos. No entanto, qualquer pessoa que viveu com um animal, seja um cão, um pássaro ou um rato, sabe que esta teoria é uma mentira descarada, inventada para justificar a crueldade”, critica.
“O vento não era dos mais fortes, e no entanto Cunegunde sabia de onde vinha. Tinha o poder de sentir o odor de carvões fumegantes, carne e outra coisa oleosa e rançosa, cuja fonte somente ela podia perceber. Sua boca desdentada franziu-se num arreganho: “É uma pestilência, uma pestilência. A aproximação da morte…” Excerto de “Cunengunde”, página 138 de “Breve Sexta-Feira”.
Isaac Singer jamais deixou de se surpreender quando lia sobre humanistas, poetas altamente sensíveis, pregadores da moralidade e benfeitores de todos os tipos que sentiam prazer em caçar – perseguindo pobres lebres e raposas, e ensinando seus cães a fazerem o mesmo. “Pessoas dizem que quando se aposentar vão se dedicar à pesca. Falam isso com um entendimento de que a partir de então não farão mais mal a ninguém. Como se uma época de caridade e tranquilidade fosse começar em suas vidas. Nunca lhes ocorre por um momento que esses seres inocentes vão sofrer e morrer por causa de um esporte ‘inocente’. Às vezes, tenho medo de que a caça aos seres humanos também se torne um esporte”, lamentou.
No livro “Food for the Spirit: Vegetarianism and the World Religions”, de Steven Rosen, lançado em 1987, Singer afirmou que os seres humanos não terão paz enquanto continuarem derramando o sangue dos animais. “Foi necessário um pequeno passo baseado na matança de animais para que fossem construídas as câmaras de gás de Hitler e os campos de concentração de Stalin. Todas essas ações foram praticadas em nome da justiça social. Não haverá justiça enquanto o homem empunhar uma faca ou outra arma para destruir seres mais fracos que ele”, queixou-se. Por outro lado, o escritor reconheceu que sempre vão existir pessoas dispostas a protestarem contra a tortura e a matança de animais.
“Antes de morrer, chamou o rabi e os sete anciãos e informou-lhes que seu nome era Reuben, o açougueiro, com quem Risha cometera pecados. Durante anos vagueara ele de cidade em cidade, sem comer carne, jejuando às segundas e quintas-feiras, usando um saco à guisa de camisa e arrependendo-se de suas abominações.” Excerto de “Sangue”, página 31 do livro “Breve Sexta-Feira”.
Saiba Mais
Isaac Bashevis Singer nasceu em 21 de novembro de 1902 em Leoncin, na Polônia, e faleceu em 24 de julho de 1991 em Surfside, Flórida, nos Estados Unidos, em decorrência de um acidente vascular cerebral (AVC).
Em Tel Aviv, em Israel, foi construído o Isaac Bashevis Singer Humane Education. O centro, que possui uma extensa biblioteca e uma grande videoteca, faz um trabalho de prevenção à crueldade contra animais. A entidade possui um programa específico para educar crianças judias e árabes sobre como elas podem ajudar os animais.
Referências
Singer, Bashevis Isaac. Breve Sexta-Feira (1963). Tradução de Hélio Pólvora. Livraria Francisco Alves Editora (1978).
Singer, Bashevis Isaac. The Collected Stories of Isaac Bashevis Singer. Farrar, Straus and Giroux (1983).
Noiville, Florence. Isaac B. Singer: A Life. Northwestern University Press (2008).
Berry, Rynn. Famous Vegetarians and Their Favorite Recipes: Lives and Lore from Buddha to the Beatles. Pythagorean Publishers (1993). Eight Printing (2003).
Rosen, Steven. From Food for the Spirit: Vegetarianism and the World Religions. Bala Books (1987).
Rosen, Steven. Diet for Transcendence: Vegetarianism and the World Religions (1987). Torchlight Publishing; Revised Edition (1997).
Cohan, Jeffrey. Isaac Bashevis Singer, Yiddish Food Writer (20 de novembro de 2012). Disponível em http://forward.com/food/166228/isaac-bashevis-singer-yiddish-food-writer/
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Agnon: “Quem nos ensina mais do que os animais da terra, e nos faz mais sábios que as aves do céu?”
“Para que eu não cometa o erro de desconsiderar qualquer criatura, faço questão de mencionar os animais domésticos, as feras e os pássaros”
Shmuel Yosef Agnon é considerado um dos nomes mais importantes da literatura hebraica moderna. Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1966, o escritor israelense se destacou pela produção de contos e romances que abordam os conflitos espirituais da humanidade e o choque entre tradição e modernidade. Também recorrente em suas obras é o vegetarianismo, definido pelo próprio autor como uma filosofia de vida que preza pelo respeito aos animais.
“Para que eu não cometa o erro de desconsiderar qualquer criatura, faço questão de mencionar os animais domésticos, as feras, e os pássaros. Jó nos disse há muito tempo: ‘Quem nos ensina mais do que os animais da terra, e nos faz mais sábios que as aves do céu?”, discursou Agnon na cerimônia de premiação do Nobel de Literatura de 1966.
Shmuel Yosef dizia que os animais são a maior fonte de aprendizado da humanidade. Uma das lições foi materializada pelo escritor em “O Conto da Cabra”, publicado originalmente em 1925. Na história, que para os ocidentais pode trazer lembranças da parábola “O Lenhador e a Raposa”, um senhor fica maravilhado ao experimentar o peculiar leite de uma cabra. Segundo ele, é tão maravilhoso que tem o sabor do céu, do paraíso.
Ao perceber que o animal sempre desaparece por período inexato, o homem conversa com o filho, crente de que o gosto do leite tem relação com as viagens da cabra. O jovem então decide segui-la. O percurso que parece durar horas, mas pode significar até dois dias, termina em uma caverna, uma passagem para um paraíso inimaginável chamado Terra de Israel.
Extasiado, e ciente de que a véspera do sabat anteciparia a escuridão, ele se vê incapaz de retornar para casa. Preocupado, prende um bilhete na orelha da cabra e pede que ela a entregue a seu pai. Quando vê o animal chegando sozinho, o homem entra em desespero e pragueja a cabra, a quem responsabiliza pelo sumiço do filho. Movido por surto momentâneo, a entrega a um açougueiro. Depois que o animal é assassinado, o bilhete cai da orelha da cabra.
“Ai do homem que rouba de si mesmo a sua própria fortuna, e ai do homem que reivindica o bem com o mal”, gritou o velho arrependido, batendo as mãos na própria cabeça. O luto durou dias. O homem se debruçou choroso sobre o animal e se recusou a ser consolado. Na história, o leite é também uma metáfora dos caminhos e dos descaminhos do homem.
Um autor de gênio inquestionável, Agnon é apontado como um dos maiores contadores de histórias do século 20. Está entre os autores de língua hebraica mais elogiados e influentes da literatura. Sua escrita chama atenção pela forma como ele aborda os conflitos da humanidade e o resgate da tradição. Combinando realidade e surrealismo, Shmuel Josef sempre tratou com muita personalidade de questões filosóficas e psicológicas que até hoje transparecem atemporais.

O escritor vegetariano é apontado como um dos maiores contadores de histórias do século 20 (Foto: Reprodução)
A perda da inocência no mundo moderno, a turbulência espiritual vivenciada por quem se viu obrigado a deixar a própria casa, a pátria e, em alguns casos, até a fé, serviram de inspiração para o escritor judeu. Exemplo disso é a obra “Um Convidado para a Noite”, publicada em 1938. Autobiográfica, a história apresenta um narrador anônimo que retorna à Galícia depois de muitos anos, reencontrando sua cidade natal em estado de desolação. Para escrevê-la, Agnon se inspirou em uma visita que fez a Buczacz, onde nasceu, lugar que ele chamava de “a cidade dos mortos”.
Além de colocar em discussão o velho e o novo mundo que surgia, suas histórias sempre foram ternas, dotadas de um requinte onírico que leva o leitor a questionar se suas narrativas são reais ou fantasiosas. Em “Hakhnasat Kallah,“O Dossel Nupcial”, sua obra mais famosa, reconhecida como uma das pedras fundamentais da literatura hebraica moderna, Shmuel Agnon protesta contra o hábito judaico de servir carne no sabat. Faz isso com sutileza.
“Ele recebeu o sabat com doce canção e cantou melodiosamente sua santificação com vinho de passas. A mesa estava bem distribuída, com todos os tipos de frutas, feijões, matérias verdes e boas tortas…mas de carne e peixe não havia qualquer sinal”, escreveu na página 222.
Para o escritor israelense, o silêncio em face da injustiça equivale à cumplicidade. Sua defesa do vegetarianismo significava reprovar os maus-tratos contra os animais. Por isso, ele usava a sua literatura como forma de ampliar a percepção humana em relação à sensibilidade animal e às questões éticas que permeiam o direito à vida, independente de espécie.
Agnon publicou seu primeiro conto aos 18 anos
Shmuel Yosef Agnon nasceu em Buczacz, então Império Austro-Húngaro (atual Ucrânia), em 17 de julho de 1888. Criado em uma família bem diversificada, que incluía comerciantes poloneses judeus, rabinos e acadêmicos, Agnon não chegou a ingressar em uma escola. Recebeu educação de seu pai, que o ensinou o aggadah, a literatura rabínica, e de sua mãe, que o introduziu na literatura alemã.
Aos oito anos, começou a escrever em iídiche e hebraico. Entre os 15 e os 18 anos, produziu seus primeiros poemas e histórias. Na fase adulta, ao longo de três anos, e com um ritmo de produção mais intenso, escreveu 70 peças em hebraico e iídiche. Nesse período, deixou Buczacz e se mudou para Yafo, atual Jaffa, em Israel, onde adotou um estilo de vida secular.
O seu primeiro conto, intitulado “Agunot”, que significa “Esposas Abandonadas”, foi publicado na Palestina em 1908, um ano depois que adotou o sobrenome Agnon. Em 1913, o escritor emigrou para a Alemanha, onde viveu por 11 anos. Seu estilo agradou primeiro aos mais jovens, que viram qualidade na sua maneira de combinar tradição e modernidade.
A repercussão de seus trabalhos atraiu a atenção do magnata Salman Schocken, que se tornou admirador de Agnon e decidiu patrociná-lo. Sem se preocupar com dinheiro, Shmuel Yosef viveu muito bem logo nos primeiros anos de sua carreira. No entanto, quando um incêndio destruiu sua casa, ele interpretou aquilo como um sinal e tomou a decisão de retornar a Israel, adotando Jerusalém como lar. Em 1929, sua casa foi saqueada durante uma animosidade entre judeus e árabes.
Em 1932, Agnon conquistou prestígio internacional após o lançamento de “O Dossel Nupcial”. Mais tarde, obteve ainda mais reconhecimento quando lançou a antologia, “Days of Awe”, “Dias de Temor”, baseada em histórias de costumes judaicos. O escritor também publicou livros baseados em contos populares inspirados na cultura rabínica, além de contos inspirados na filosofia e nas lendas hassídicas. Vítima de ataque cardíaco, Shmuel Yosef Agnon faleceu em 17 de fevereiro de 1970 em Rehovot, Israel.
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Além do Prêmio Nobel de Literatura, Shmuel Yosef Agnon recebeu o Prêmio Israel de Literatura em 1954 e em 1958.
Referências
Agnon, Shmuel Yosef. The Bridal Canopy (1931). The Toby Press; Reissue Edition (2015).
Agnon, Shmuel Yosef. The Fable of the Goat Whose Milk Taste of Eden (Tale of the Goat). Disponível em http://jhom.com/topics/goats/fable.htm
Agnon, Shmuel Yosef. A Guest for the Night (1938). The Toby Press (2015).
Gross, Aaron; Schwartz, Richard; Kalechofsky, Roberta; Levine, Jay. A Case for Jewish Vegetarianism. Peta Publisher (2012).
Fisch, Harold. S.Y. Agnon. Ungar Pub Co (1975).
Gershon Shaked, Shmuel Yosef Agnon: A Revolutionary Traditionalist. New York University Press (1989).
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Coetzee: “Animais não precisam do meu amor. Não me preocupo com amor, me preocupo com justiça”
“Basta apenas um olhar para que uma criança se torne vegetariana por toda a sua vida”

Coetzee: Dada a chance, as crianças sempre verão além das mentiras com as quais somos bombardeados pelos anunciantes (Foto: Jerry Bauer)
Basta apenas um olhar para que uma criança se torne vegetariana por toda a sua vida. Com essas palavras, o escritor sul-africano John Maxwell Coetzee, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2003, e considerado um dos maiores autores de língua inglesa da atualidade, emocionou uma grande plateia em Sidney, na Austrália, no dia 22 de fevereiro de 2007, quando falou sobre os direitos dos animais. A repercussão foi tão positiva que seu discurso foi publicado em alguns dos mais importantes jornais do mundo.
“Animais felizes transformados de forma indolor em nuggets, o sorriso da vaca do comercial de leite que diz doar o próprio leite para nós. Dada a chance, as crianças sempre verão além das mentiras com as quais somos bombardeados pelos anunciantes. A respeito disso, crianças nos fornecem as mais brilhantes esperanças. Elas têm corações ternos, que não foram endurecidos por anos de conivência com a crueldade e com o comportamento antinatural”, declarou o vegetariano J.M. Coetzee.
Para o escritor avesso a entrevistas, qualquer pessoa disposta a refletir sabe que há algo de muito errado na relação entre os seres humanos e os animais, e isso se tornou mais aberrante nos últimos 100 anos, quando a pecuária se apropriou dos métodos industriais de produção. “A indústria de alimentos supera o comércio de peles e o uso de animais em laboratórios quando falamos em números de vidas animais afetadas. A grande maioria usa e consome produtos dessas indústrias, mas se sente mal quando pensa no que acontece nas fazendas industriais e nos matadouros. Por isso, eles organizam suas vidas de tal maneira que eles evitam pensar nisso. Também fazem de tudo para garantir que seus filhos sejam mantidos na escuridão, porque sabemos que crianças têm bom coração e mudam facilmente”, enfatizou.
Para Coetzee, o primeiro sinal de que os animais já não eram mais vistos como algo além de produtos apareceu no século 19, com o surgimento das primeiras fazendas industriais. Desde então, a humanidade tem se negado a reconhecer que animais não são meras unidades disponíveis à exploração humana. “Este aviso veio tão alto e claro que parecia ser impossível ignorá-lo. Mais tarde, um grupo sanguinário da Alemanha [em referência aos nazistas] teve a ideia de adaptar a metodologia dos currais industriais. Eles foram pioneiros nesse sistema que eles não chamavam de matadouro, mas sim de área de processamento de seres humanos”, assinalou.
Segundo o escritor, naturalmente esse horror chocou a humanidade. Muitos diziam: “Que terrível! Tratar seres humanos como gado!” Considerando isso, ele observou que se talvez as pessoas tivessem refletido um pouco mais à época, a queixa teria sido bem diferente: “O mais justo seria falar: ‘Que crime terrível! Tratar seres humanos como meras unidades de um processo industrial.’ E assim veríamos com outros olhos a proporção desse crime, já que é um crime contra a natureza resumir qualquer ser vivo a uma unidade de um processo industrial”, ponderou.
Independente do que diz os utilitaristas, Coetzee argumentou que a pecuária tradicional sempre foi suficientemente brutal. Sobre a exploração animal, pessoas sempre dirão: “Sim, é terrível a forma como vivem as porcas reprodutoras e os vitelos. Mas, quem vai, em seguida, encolher seus ombros e perguntar: ‘O que posso fazer sobre isso?’”, criticou o escritor sul-africano.
O papel do movimento em defesa dos direitos dos animais é oferecer opções para que as pessoas saibam o que fazer logo que descobrem o que acontece com os animais. “As pessoas precisam saber que há alternativas aos produtos de origem animal. Que essa alternativa não exige sacrifícios em saúde e nutrição, e nem mesmo são caras. O único sacrifício envolvido nisso é dos próprios animais não humanos”, destacou J.M. Coetzee.
O escritor também apontou para um fenômeno alentador. O fato de que atualmente as indústrias que exploram animais estão sendo empurradas para a defensiva. Ou seja, hoje, elas são sempre questionadas sobre suas ações. “As organizações de direitos dos animais mostram que as práticas indefensáveis e injustificáveis da indústria têm tão e somente motivações econômicas. A indústria está indo ladeia abaixo e já prevê que uma tempestade vai arrastá-la. Na medida em que há uma guerra de relações públicas, a indústria prova que já perdeu essa guerra”, analisou.
No dia 30 de junho de 2016, J.M. Coetzee também abordou os direitos dos animais no auditório do Museu Reina Sofia, em Madrid, na Espanha. “Eu não sou um amante dos animais. Animais não precisam do meu amor. Não me preocupo com amor, me preocupo com justiça”, informou Coetzee de antemão. Vegetariano, o escritor sul-africano tem ajudado a promover os direitos dos animais há várias décadas.
Uma de suas obras mais importantes, e que fala justamente sobre o assunto, é a novela metaficcional “The Lives of Animals”, publicada pela editora da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, em 1999. A obra de caráter filosófico gira em torno dos conflitos vividos por uma professora e conferencista vegetariana que, ao advogar os direitos dos animais, encontra resistência no âmbito familiar e no trabalho. “Humanos pensam que são muito mais importantes do que os animais. Por isso, rejeitam a consciência animal. As pessoas precisam cultivar sua empatia”, defendeu J.M. Coetzee.
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John Maxwell Coetzee nasceu em 9 de fevereiro de 1940 na Cidade do Cabo, na África do Sul.
Referências
Coetzee, J.M. Exposing the beast: factory farming must be called to the slaughterhouse. Opinions – Article. The Sydney Morning Herald, Austrália (22/02/2007).
Coetzee, J.M.. Animals can’t speak for themselves – it’s up to us to do it. Opinions – Article. The Age, Austrália (22/02/2007).
AFP. Nobel laureate J.M. Coetzee speaks against animal cruelty. Daily Mail, Reino Unido (01/07/2016).
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Magalhães Lima: “Somarão milhões as folhas em que se encontram os nomes de vegetarianos que foram faróis do seu tempo”
“Desde que a nossa civilização pôde gravar seu rastro na história, a tradição do vegetarismo jamais se interrompe completamente”
Admirador de Liev Tolstói, a quem conheceu quando viajou à Rússia, o escritor português Jaime de Magalhães Lima foi um defensor e pesquisador do vegetarianismo. Ao longo da vida, publicou 30 livros, começando por “Estudos sobre a Literatura Contemporânea”, de 1886.
O encontro com Tolstói foi narrado no livro “Cidades e Paisagens”, de 1889. Inclusive a consciência vegetariana do escritor russo teve grande influência sobre o pensamento do português. “Uma das mais doces e encantadoras recordações da minha vida”, escreveu Magalhães Lima. Amigo do proeminente escritor Eça de Queiroz, com quem trabalhou na “Revista de Portugal”, e também do médico Amílcar de Sousa, para quem produziu muitos artigos publicados na revista “O Vegetariano”, Jaime Magalhães se tornou um importante ativista vegetariano, principalmente a partir de 1912, quando lançou o ensaio “O Vegetarismo e a Moralidade das Raças”.
“Que crime horrível lançar em nossas entranhas as entranhas de seres animados, nutrir na sua substância e no seu sangue o nosso corpo! Para conservar a vida a um animal, porventura é mister que morra um outro? Porventura é mister que em meio de tantos bens que a melhor das mães, a terra, dá aos homens com tamanha profusão, prodigamente, se tenha ainda de recorrer à morte para o sustento, como fizeram ciclopes, e que só degolando animais seja possível cevar a nossa fome?”, registrou o escritor na página 3 do ensaio, parafraseando o poeta romano Ovídio.
De formação cristã, Jaime Magalhães descobriu uma forma pessoal de espiritualidade. Influenciado pelo panteísmo que também mudou a vida de muitos escritores vegetarianos nos séculos 18 e 19, ele viu na adoração da natureza umas das mais importantes vocações do ser humano. “Percorre montes e vales, preferindo sentir a aspereza dos caminhos a percorrê-los sobre quatro rodas, ele que possui o primeiro automóvel de Aveiro”, consta na página 17 do Boletim Municipal de Aveiro, publicado em 1986.
De acordo com Jaime de Magalhães Lima, o vegetarianismo foi e é uma das características do zênite moral das civilizações, e como tal o aceitaram, proclamaram e praticaram os gênios que mais fundamente as compreendem e mais brilhantemente as serviram.
“Por certo, somarão milhões as folhas impressas em que se encontram os nomes de vegetarianos que foram na história dos povos da Europa, como sinais de sua grandeza, juízes e faróis do seu tempo e dos tempos futuros. E o vegetarismo, tendo já os seus altares e o seu punhado de fiéis em todos os países que atingiram a sua sensibilidade moral e religiosa, está infelizmente longe de ter penetrado na concepção vulgar das obrigações humanas, como é mister para a redenção de tantos e tão dolorosos males que nos afligem e perseguem por culpa da nossa cegueira e obscuridade”, observa o português.
Pitágoras, Percy Shelley, Élisée Reclus e Liev Tolstói foram considerados pelo escritor como arautos do vegetarianismo, que chamaram a atenção de multidões escravizadas pela primitiva animalidade, aviltados em sórdidos prazeres. “Desde que a nossa civilização pôde gravar seu rastro na história, a tradição do vegetarismo jamais se interrompe completamente. Em mais de vinte e cinco séculos, a sua taça passa de mão em mão, e ora se expõe à luz de sol erguida por austeros e hercúleos sacerdotes cuja rectidão e fôrça nos subjugam, ora é guardada devota e humildemente em solitárias ermidas, mas jamais se partiu ou sequer arrefeceu desamparada do alento de lábios que nela busquem beber a essência do vigor do corpo e do espírito”, defende.
Abordando a busca da superioridade moral elencada pelo filósofo grego Pitágoras, Magalhães Lima menciona que seis séculos antes de Cristo, já existia uma consciência que almejava a pureza moral e a abstinência da carne, assim como de todo o derramamento de sangue. “Não pode restar a menor dúvida de que nas origens da civilização se encontra imposta, como preceito fundamental, a abstinência da carne aos que pretenderem seguir na vida o caminho da dignidade”, declara na obra “Vegetarismo e a Moralidade das Raças”.
Havia em Crotona, um homem da ilha de Samos que se exilara da pátria pelo ódio que tinha aos tiranos. Tinha com os deuses aturado comércio. O que sabia comunicava-o a uma multidão de discípulos que em grande silêncio o admiravam. Foi o primeiro que condenou o uso de comer a carne dos animais: doutrina sublime, e tão pouco apreciada, cuja paternidade se lhe atribuía. Deixai, mortais, dizia, deixai de vos servir de manjares abomináveis: dão-vos os campos searas abundantes; para vós vergam de frutos as árvores com os mais belos pomos e produzem uvas as vinhas. Tendes legumes dum suave gôsto, excelentes alguns quando cozidos. […] Enfim para vós, a terra é pródiga de suas riquezas e oferece-vos toda a espécie de alimento sem que necessiteis para sustentar-vos de recorrer à morte e à carnagem, narra Ovídio.

“Não pode restar a menor dúvida de que nas origens da civilização se encontra imposta, como preceito fundamental, a abstinência da carne” (Foto: Reprodução)
Para Jaime de Magalhães Lima, um dos monumentos da dignidade humana são as obras morais do filósofo grego Plutarco, que versam sobre o vegetarianismo como última forma de legitimidade moral e fisiológica. O português, assim como outros vegetarianos como o médico estadunidense John Harvey Kellogg, também condenava o consumo de álcool, alegando que a bebida afasta o ser humano do seu estado natural. “Hoje, como então, a carne e o vinho são companheiros e cúmplices nessa embriaguez do nosso sangue”, sentencia.
Na ótica do escritor, somente aos animais convêm o consumo de carne. E, mesmo assim, poucos se sustentam dela. “Os cavalos, os bois e as ovelhas vivem só de ervas; apenas as feras, os tigres, os leões, ursos e lobos fazem da carne seu sustento habitual. […] Que a piedade não seja sacrificada à vossa gula, que para vos saciar não expulseis dos seus corpos as almas dos vossos pais nem vos alimenteis do seu sangue…”, enfatiza.
Sêneca, o intelectual romano a quem o escritor português admirava, dizia, inspirado em Focion, que o homem precisa reconhecer a sua capacidade de encontrar alimentos sem o derramamento de sangue. Do contrário, a crueldade há de ser mantida como hábito, já que a prática da carnificina passa a ser primeiramente associada ao prazer do apetite.
“Acrescentava ele que é nosso dever limitar os materiais da luxúria. Que, todavia, a variedade de alimentos é nociva à saúde e não é natural ao nosso corpo. Se estas máximas [da escola de Pitágoras] são verdadeiras, então nos abstermos da carne dos animais é animar e promover a inocência; se mal fundadas, ensinam-nos ao menos a frugalidade e a simplicidade da vida. E que perdeis vós perdendo a nossa crueldade? Apenas vos privo do alimento dos leões e dos abutres”, cita Magalhães Lima. Depois de mais de um ano de abstinência de alimentos de origem animal, Sêneca disse que não apenas era fácil ser vegetariano, como delicioso. Alegou também que as faculdades do seu espírito se tornaram mais ativas.
É acostumar-nos a derramar o sangue humano degolar animais inocentes e ouvirmos sem piedade seus tristes gemidos. É desumanidade não nos comovermos com a morte do cabrito, cujos gritos tanto se assemelham aos das crianças, e comermos as aves a que tantas vezes demos de comer. Ah! quão pouco dista d’um enorme crime!, transcreve Magalhães Lima, fazendo menção a Ovídio.
Outro argumento que reforça o posicionamento do português em relação à abstenção de carne é o fato de que para ganhar sabor é preciso submetê-la a um processo de transformação. “Qualquer dama de mãos mimosas que trinca com delícia uma costeleta coberta de pão e embalsamada em louro, em cravo, em salsa, em cebola, pimenta e limão, empalidece de náusea sentindo o cheiro do açougue, considera imundície um pedaço de carne crua nos seus vestidos, e foge mais depressa da praça do peixe do que da montureira que aduba a horta”, critica.
Na perspectiva de Magalhães Lima, na cozinha vegetariana ocorre o oposto. O esmero e a perfeição consiste em conservar inalterável o sabor próprio de cada alimento. “Muitos e muitos [crianças] que seriam incapazes de roubar de qualquer salgadeira um grama de toucinho, não resistem à tentação de se aproveitarem do primeiro cacho de uvas que lhes esteja à mão. Os assaltos às hortas e pomares são frequentes, e de tal forma isso parece estar na ordem natural que grande número dos homens rudes não lhes associe nem de longe a noção do crime. Longos séculos de corrupção da dieta não conseguiram atrofiar essas tentações de uma antiguidade bíblica, as mesmas que desgraçaram Adão e Eva”, compara.
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Jaime de Magalhães Lima nasceu em 15 de outubro de 1859 em Vera Cruz, Aveiro, e faleceu em Eixo, também em Aveiro, em 26 de fevereiro de 1936.
Referências
Lima, Jaime de Magalhães. O Vegetarismo e a Moralidade das Raças (1912). Editora Ônibus Mágico (2015).
Lima, Jaime de Magalhães. Cidades e Paisagens (1912). Biblioteca Digital (2015).
Lima, Jaime de Magalhães. Entre Pastores e nas Serras. Editora Portucel (1986).
Lima, Archer de. Magalhães Lima e a Sua Obra – Notas e Impressões (1911).
Boletim da Aderav, Aveiro, n.º 15 (1986).
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