David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Respeito’ tag

Invista em suas próprias batalhas, mas respeite as dos outros

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Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals

Invista em suas próprias batalhas, mas respeite as dos outros. Lutar neste mundo já não é fácil, mas lidar com pessoas criticando suas lutas realmente não é legal. Por isso sou da seguinte opinião: se uma pessoa luta por algo em prol de um mundo mais justo, será que realmente tenho motivos para criticá-la?

E se critico, será que faço isso de forma construtiva ou destrutiva? Será que minha crítica é baseada em um bem maior do que a minha vontade de ter razão ou de fazer oposição? Opiniões contrárias não são um problema; podem acrescentar muito. Mas opiniões que visam a desmotivação infelizmente podem ser lesivas dependendo da forma como as absorvemos.





 

Written by David Arioch

March 27th, 2018 at 7:10 pm

Acredito que o amor aos animais não é prioritário na consideração ao direito à vida não humana, mas sim o respeito

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Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals

Minha linha de pensamento em relação aos animais é semelhante a do J.M. Coetzee. Acredito que o amor aos animais não é prioritário na consideração ao direito à vida não humana, mas sim o respeito. O respeito sim deve ser uma premissa básica. Acho um erro muito grande quando restringimos o discurso em favor dos animais ao amor, até por uma questão óbvia – nem todas as pessoas amam os animais.

E devo condená-las por isso? De modo algum. Muitas pessoas desgostam de outras, mas nem por isso fazem algo contra elas. E por que? Porque em primeiro lugar deve prevalecer o respeito. Outras formas de exploração não chegaram ao fim por causa de amor.

Essa é a realidade do mundo não romanesco em que vivemos. Veganos não precisam amar animais; não precisam tutelar animais, nem mesmo conviver com os animais. O primeiro e mais importante passo é entender que não temos o direito de interferir negativamente em suas vidas. Se uma pessoa cumpre esse papel, ela já está contribuindo.

Entendo também que o meu trabalho não é o trabalho do outro, assim como o dele não é o meu. Cada um cumpre o seu papel de acordo com suas características e potencialidades. Sempre fui a favor da diplomacia. Esse é o meu perfil, e não abro mão dele.

Não tenho interesse em ofender pessoas, xingá-las, independente da circunstância, porque pra mim é perda de tempo. E sei que à medida em que apelo as chances do outro me ouvir diminuem consideravelmente. Claro, você pode discordar, mas siga o seu caminho que eu sigo o meu.





 

Não há respeito na exploração e no consumo de animais

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Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals

Se pesquisar sobre a palavra respeito, você vai perceber facilmente que o seu conceito costuma ser associado à consideração, estima, reverência, aceitação – e, naturalmente, ao entendimento de que não há respeito na arbitrariedade, porque esta é abusiva em essência. Então como alguém pode falar em respeito pelos animais quando toma parte em sua exploração ou morte? Seja por meio do consumo ou do lucro.

Já testemunhei pessoas alegando que matam ou se alimentam de animais, mas os respeitam. Não, isso definitivamente não é respeito. Porém, muitas vezes, ludibriado pela própria consciência o ser humano recria significações para as suas inconsistências. A palavra respeito, por exemplo, tem origem latina – respicere, que significa “olhar outra vez”. Como falar em olhar outra vez quando muitos se negam até mesmo a olhar uma primeira vez?

O respeito não é voltívolo como nossas conveniências. O respeito existe ou não existe em acordo ou desacordo com as nossas atitudes – sem meio termo, concessões ou interpretações que atribuímos para legitimar nossos interesses ou displicências. Se mato um animal ou me alimento dele porque qualifico isso como uma opção que me foi dada, de fato ignoro os interesses daquele animal. Sendo assim, uma violação motivada por uma das facetas mais viscerosas e usuais do desrespeito legitimado.





 

Dizem que boi não fala

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Arte: Betty Mulligan

Na saída de Paranavaí, encontrei um boi tentando se coçar no tronco de uma árvore na entrada de um sítio. Ele parecia solitário, mas ao mesmo tempo tranquilo, sentindo a brisa massageando suas orelhas cendradas. Desci do carro. Não havia ninguém além dele. Ameacei me aproximar e o boi manteve os olhos em minha direção.

Não parecia incomodado com a minha presença. Cheguei perto e ele parou de se coçar e ficou me olhando por um instante, sem mover qualquer parte do corpo, como uma estátua de carne e osso. Cheguei mais perto. Continuou se esforçando em vão. Ainda mais perto. O boi não achou ruim. Ousei e massageei sua cabeça adornada por um belo par de chifres, uma verdadeira raridade num universo onde cornos são cerrados logo cedo.

Quando encostei a mão em seu dorso, ele abaixou a cabeça e depois a levantou. Então passei a mão exatamente onde ele não conseguia se coçar. Seu corpo tremia como de uma criança recebendo carícias. Depois de alguns minutos, me afastei, até que um homem se aproximou.

— Ele é manso mesmo. Só tem essa cara que às vezes dizem que assusta, mas é bom de tudo. Não tem maldade nenhuma, diferente da gente.
— É o senhor que mora aí?
— Não…era a casa do Seu Barbosa. Só que ele já morreu e o boi ficou.
— Como assim? E nunca tentaram matar ele?
— Esse aí? Esse aí é o Tucurunda. É boi, mas a vizinhada cuida dele e respeita por causa da história dele.
— Que história?
— Ele salvou um menino de morrer afogado.
— Como assim?
— O Joinha foi criado junto com ele, o filho do Seu Barbosa, e há muito tempo ele os primos foram brincar no açude ali pra baixo. Quando o menino pisou em falso e afundou, o boi tava na margem e começou a mugir, mugir bem alto, até que o Seu Barbosa ouviu e veio correndo. Ele pulou na água e deu tempo de puxar o menino ainda com vida. Graças ao Tucurunda, né?
— Que história incrível…
— Pois é…e dizem que boi não fala.

 

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Para ser vegano, não é preciso amar os animais, basta respeitá-los

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Arte: Alok Appadurai

Um amigo — Cara, eu até acho legal quem é vegano, mas a verdade é que não amo animais. Para ser honesto, nem gosto muito de animais. O negócio é eles lá e eu aqui. Como isso poderia funcionar? Não vejo como.

Eu — Não há problema nenhum nisso. Você não precisa gostar de animais, tutelar animais, resgatar animais ou algo do tipo. Basicamente, você não precisa querer conviver com animais. Claro, muitos veganos fazem isso, mas não é uma regra ou algo do tipo. Para ser vegano, você precisa apenas ter a consciência de que os animais não humanos merecem viver, não morrer.

Para ser mais preciso, não merecem ser explorados. Então o seu papel como vegano seria esse, se empenhar em não contribuir com a exploração animal.  A questão é você entender, reconhecer isso e colocar em prática. O amor pelos animais realmente é uma coisa nobre e bonita, mas a consciência sobre justiça nesse contexto é imprescindível, logo mais importante. Isto porque ela tem forte apelo junto ao discernimento moral e ético em uma sociedade construída sobre valores equivocados que levaram ao antropocentrismo e consequentemente ao especismo.

Independente de alguém se reconhecer ou não como superior a outras formas de vida, o que é preciso entender em relação a isso é que não interessa qual animal é mais inteligente, qual é mais amável ou qual é mais sensível. O entendimento que se deve ter é de que o direito à vida deve ser assegurado e que não cabe a nós decidirmos quais animais devem viver ou morrer levando em conta nossas pretensas necessidades ou preferências. Eles são conscientes, sencientes e merecem viver à sua maneira.

Nossa interferência deve ocorrer apenas quando eles precisam de nós, sem subjugação. Se esforçar para não impactar negativamente na vida dos animais é uma forma de aperfeiçoamento civilizatório, porque se você é capaz de respeitar honestamente a vida de um animal que não é capaz de falar, isso te conduz a respeitar mais a vida em geral. Gostar ou amar animais é uma questão de pessoalidade. Você pode desenvolver isso ou não, e sem que isso prejudique ninguém. Por outro lado, é a falta de entendimento de que os animais não existem para nos servir que tem perpetuado práticas desnecessárias que anualmente custam a vida de bilhões de animais.

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Written by David Arioch

August 10th, 2017 at 8:11 pm

Quando temos filhos…

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Pintura: Peaceable Kingdom, de Edward Hicks

Quando temos filhos, gostamos de contar-lhes histórias de amor e respeito aos animais; de amizade entre todas as espécies; de narrar historietas sobre a harmonia entre os seres vivos, o respeito a todas as formas de vida.

Porém, nossa própria realidade e nossos hábitos, mais cedo ou mais tarde deixam claro que tudo que foi dito ou lido era apenas ficção, um frágil e ilusório pseudo-alimento para a mente. Provamos com atitudes que não acreditamos naquilo.

E logo as crianças crescem e esquecem o que os pais disseram, e os pais esquecem o que disseram aos filhos. As histórias desaparecem, ou não. Talvez sejam lembradas como artifício jocoso, risível, alegórico ou mesmo insignificante e utópico.

E a vida segue diante de uma mesa em que celebramos os nossos, porque nós somos importantes, e os outros existem para nos servir; para figurar como coadjuvantes de suas próprias vidas.

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Written by David Arioch

June 28th, 2017 at 9:26 pm

Uma lição de vida

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Sempre me emociono quando vejo o vídeo abaixo. Baita lição de vida. E pensar que esses animais são tratados como se fossem isentos de qualquer razão e sensibilidade. Basta pensarmos no uso hediondo deles em laboratórios, em vivissecção. Triste realidade.

 

Written by David Arioch

June 18th, 2017 at 9:12 pm

A importância da convivência pacífica

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Talking it Over, de Enoch Wood Perry

A convivência pacífica seria facilmente alcançada se tentássemos oferecer aos outros o que temos de melhor, não de pior. Não que seja necessário se doar, mas simplesmente ser mais humano, ter mais empatia. Acredito que seria mais vantajoso para todos se nos empenhássemos em não tentar diminuir, desdenhar ou prejudicar os outros. Até porque além disso ser ruim para os outros, também é pra nós, mesmo que não percebamos.





Written by David Arioch

June 17th, 2017 at 6:50 pm

Se tivéssemos aulas de direitos animais nas escolas

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Foto: Elena Shumilova

Se tivéssemos aulas de direitos animais nas escolas, ou pelo menos uma disciplina de ética que realmente incluísse os direitos animais, acredito que a violência contra animais não seria tão banalizada, e creio também que isso teria bom peso no que diz respeito à violência contra seres humanos.

Quando um jovem transgressor faz piada de algum ato praticado contra os animais, por exemplo, isso nem sempre significa maldade, mas sempre significa ignorância. Além disso, o ato normalmente depende de um fator cultural de permissividade.

E a forma como os jovens são criados diz muito sobre isso. Se um filho vê o pai chutando um cachorro, naturalmente ele vai entender que o cão pode ser chutado, e que isso não é errado. Afinal, pelo menos até certo ponto da vida, as crianças se desenvolvem observando as ações parentais.

Talvez a criança nem chegue a considerar a possibilidade da dor do animal, se a empatia por outros seres vivos não for estimulada. Então creio que em situações como essa, quando os pais são omissos, uma disciplina de direitos animais, ou que incluísse os direitos animais, poderia fazer uma boa diferença.

Acredito nisso porque ao longo dos anos conheci crianças e adolescentes que levaram bons valores para casa, fazendo os pais se questionarem sobre suas más ou equivocadas ações praticadas de forma impensada ou herdadas de outras gerações.

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Written by David Arioch

April 29th, 2017 at 5:16 pm

Francisco de Assis: “Todas as criaturas são nossos irmãos e irmãs”

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O frade italiano não via os animais como seres com menos direito à vida do que os humanos

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O amor dele por Deus se manifestava por meio do seu amor por todas as criaturas (Pintura: Hans Stubenrauch)

Independente de religião ou irreligião, é inegável o fato de que a história do jovem italiano que abandonou a riqueza, e mais tarde ficaria conhecido como Francisco de Assis, ao longo da história do cristianismo motivou muita gente a ter compaixão pelos animais em um contexto religioso predominantemente especista. Nascido em Assis, na Itália, em 1181 ou 1182, Francisco de Assis teve uma juventude conturbada e atuou brevemente como soldado, até que tornou-se frade e renunciou à riqueza de sua família para dedicar sua vida a cuidar dos pobres, dos doentes e dos animais.

“Todas as criaturas são nossos irmãos e irmãs”, dizia Francisco de Assis, que embora não haja confirmação de seus hábitos alimentares, afirmava não ver os animais como seres com menos direito à vida do que os humanos, tanto que ele compartilhava a mesma pregação com pessoas e animais. O amor dele por Deus se manifestava por meio do seu amor por criaturas humanas e não humanas.

As suas raras qualidades atraíram muitos seguidores, e em 1209 ele criou uma nova ordem religiosa, conhecida como Ordem dos Frades Menores ou Ordem de São Francisco. “São Francisco via a sacralidade até mesmo em um inseto”, disse o escritor e filósofo alemão Max Scheler. O frade cuidou de muitos leprosos e também tentou estabelecer a paz entre cristãos e muçulmanos no decorrer da Quinta Cruzada (1217-1221), embora sem êxito.

Considerado o protetor dos animais e da ecologia, um dia atravessou um vale em Spoleto e, perto de Bevagna, na região da Umbria, ele viu uma multidão de pássaros dos mais diferentes tipos reunidos. Sensibilizado com a cena, Francisco de Assis correu até eles e os cumprimentou como se compartilhassem da razão humana. Como os pássaros não fugiram, ele se aproximou de cada um e tocou suas cabeças e corpos com sua túnica, os abençoando.

Enquanto o frade falava, dizem que os pássaros se moviam à sua maneira, esticando o pescoço, abrindo as asas, o bico e o observando como se reagissem às suas palavras. A partir daquele dia, ele não parou mais de abençoar os animais ou tentar se comunicar com eles, além de socorrê-los quando necessário.

Em 4 de outubro de 1226, Francisco de Assis faleceu em sua cidade natal. Em 16 de julho de 1228, ele foi canonizado pelo Papa Gregório IX. Até hoje, milhões de pessoas peregrinam até seu túmulo, na Basílica de São Francisco de Assis, reconhecendo a importância de suas lições sobre o amor e respeito pelas mais diferentes formas de vida.

Em 1979, o Papa João Paulo II elevou o frade italiano a Padroeiro dos Ecologistas. Em um discurso posterior, encorajou os católicos a seguirem o exemplo de São Francisco, incentivando-os a verem os animais, humanos e não humanos, como membros de uma única família.

“O respeito pela vida e pela dignidade da pessoa humana estende-se também às demais criaturas que são chamadas para juntarem-se ao homem […]. São Francisco convidou todos os animais, plantas, forças naturais, inclusive o irmão Sol e a irmã Lua, para honrar e louvar ao Senhor. O pobre de Assis nos dá um impressionante testemunho de que ao estarmos em paz com Deus somos muito mais capazes de edificar essa paz com toda a criação, que é inseparável da paz entre todos os povos”, declarou o papa em celebração do Dia Mundial da Paz em 1º de janeiro de 1990.

Saiba Mais

O Dia de Francisco de Assis é comemorado em 4 de outubro.

Em “Os Irmãos Karamázov”, de Dostoiévski, e em “Fausto”, de Goethe, há referências a Francisco de Assis.

Referências

The Humane Society of the United States. St. Francis of Assisi. A profile of the patron saint of animals and encology. (http://www.humanesociety.org/about/departments/faith/francis_files/st_francis_of_assisi.html)

La Santa Sede (Vatican). Message of his holiness Pope John Paul II For The Celebration of the World Day of Peace. (1º de janeiro de 1990). (https://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/en/messages/peace/documents/hf_jp-ii_mes_19891208_xxiii-world-day-for-peace.html)

Brady, Ignatius Charles. Saint Francis of Assisi. Encyclopædia Britannica Online. (https://global.britannica.com/biography/Saint-Francis-of-Assisi)

Robinson, P. St. Francis of Assisi. In The Catholic Encyclopedia. New York. Robert Appleton (2009).

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