Archive for December, 2015
Uma premiada Estrela da Guia
Grupo de folia de reis mantém-se na ativa vencendo dezenas de concursos
Parte de uma tradição que une religião e folclore, o grupo de folia de reis Estrela da Guia, de Paraíso do Norte, surgiu há quase 30 anos. À época, foi criado para honrar uma promessa envolvendo doença. Mas desde o princípio houve tanta dedicação que além de cumprir compromissos religiosos o grupo venceu mais de 50 concursos no Paraná.
Tudo começou na década de 1980, quando o irmão de Hilda Maria da Silva descobriu um grave problema cardíaco. “Ele foi desenganado pelo médico e começou a viver como se esperasse pela morte. Então lembrei que quando nosso pai ficou paralítico, ele fez uma promessa para os três reis magos. Deu tudo certo, e meu irmão foi curado, assim como meu pai”, conta Hilda que em seguida assumiu o compromisso de fundar o primeiro grupo de folia de reis de Paraíso do Norte.
Após a convalescença, o irmão de Hilda cumpriu a promessa de sair com a companhia de reis durante sete anos consecutivos. Gostou tanto da experiência que continuou e se tornou embaixador do grupo. “Fiquei doente pouco tempo depois. Então todos os membros do grupo se ajoelharam e assumiram um novo compromisso”, relata Maria da Silva. No dia seguinte à promessa, Hilda recebeu alta médica e passou o Natal em casa com os familiares.
Ainda com dificuldades para caminhar, a coordenadora da companhia estimulou os confrades a continuarem a tradição. Porém, antes de deixarem a casa, os membros do grupo iniciaram uma cantoria, um ato que representou o desejo de que Hilda carregasse a bandeira da companhia. “Quando a segurei, consegui andar normalmente”, garante a coordenadora que participa todos os anos de concursos de folia de reis.
Festivais
O grupo formado por 14 integrantes já conquistou mais de 50 prêmios em inúmeros municípios do Norte do Paraná. “Vencemos em Paranavaí, Maringá, Sarandi, Nova Esperança, Campo Mourão, São Tomé, Paraíso do Norte, Apucarana, entre muitas outras cidades. A gente sempre ganha algum prêmio. Significa que o nosso grupo é bem aceito”, declara Hilda. Cada concurso de folia de reis tem, em média, 30 companhias. Quando o Estrela da Guia participa de algum festival fora de Paraíso do Norte, a prefeitura se responsabiliza pelas despesas.
Qualquer pessoa pode participar do grupo que tem integrantes de 7 a 70 anos. A diversificação da faixa etária é importante para uma boa encenação que inclui saltos acrobáticos, danças, cantos e declamações. A coordenadora da companhia é a responsável pela confecção da bandeira e dos trajes de todos os membros do grupo: embaixador, contra-embaixador, bastiões e marungos (palhaços).
Doze dias de folia
O grupo de folia de reis Estrela da Guia, de Paraíso do Norte, inicia os festejos em 25 de dezembro e os encerra no dia 6 de janeiro. “Na primeira hora, eu corto um bolo, eles comem e seguem viagem”, conta a coordenadora Hilda Maria da Silva. Ao meio-dia do Natal, depois de passarem a noite em claro, cantando e batendo nas portas, os foliões param pela primeira vez. “Onde estiverem, eles deixam a bandeira e vão almoçar, retornando às 16h”, explica Hilda. Para a companhia, o mais importante não é o morador dar algo para os foliões, mas sim aceitar a bandeira dos três reis magos.
Durante a encenação que tem como trilha de fundo o som do cavaquinho, viola e caixa, o grupo Estrela da Guia já se deparou com outros grupos pelas ruas; momentos em que o duelo é inevitável. “Quando isso acontece, os palhaços se escondem. A gente canta pedindo a bandeira. Quem vencer no verso fica com ela. Enquanto isso os foliões fazem pedidos e os palhaços ficam chorando e enrolando. É uma bagunça”, frisa sorrindo Hilda Maria.
Saiba Mais
O respeito e carinho pelo grupo Estrela da Guia é tão grande que mais de mil pessoas participam das anuais festas realizadas por Hilda Maria.
Folia de reis é um festejo folclórico de tradições cristãs que celebra o encontro dos três Reis Magos com o menino Jesus.
Os reis Baltazar, Belchior e Gaspar, guiados pela estrela de Belém, são os personagens centrais da festa trazida pelos colonos portugueses. A comemoração brasileira foi semelhante a portuguesa até o século XVII, quando o folclore de cada região do Brasil se misturou, de modo peculiar, a folia de reis.
Como o heavy metal me levou para o jornalismo
O que me levou para o jornalismo foi o heavy metal, sim, a vertente mais pesada do rock

Eu à esquerda – “Fiz parte de uma geração de jovens que seguia de fato o ideal do “faça você mesmo” (Foto: Edson Batista Filho)
Às vezes, alguém me pergunta como me interessei por jornalismo e de que forma me tornei jornalista. Me recordo que com 15 anos eu já tinha esse interesse bem definido. Não escolhi essa profissão por acaso ou por falta de opções. Na realidade, acho até curioso quando alguém me questiona sobre isso porque minha história é pouco ou nada usual.
O que me levou para o jornalismo foi o heavy metal, sim, a vertente mais pesada do rock, e um estilo ainda hoje amado por muitos e odiado por tantos outros. Na minha adolescência, eu escrevia para zines, revistas feitas por fãs que entrevistavam bandas, escreviam artigos, resenhas e matérias curtas sobre o gênero. Já tínhamos publicações online, além de impressas.
No final da década de 1990 e início de 2000 era uma alternativa empolgante, uma oportunidade para produzirmos conteúdo sobre bandas que nunca ou raramente veríamos nas revistas brasileiras mais tradicionais de rock. E foi nessa época que fundamos e lançamos através de redes nacionais e internacionais de IRC um zine chamado Marcha Fúnebre, inspirado no conceito da composição de Frédéric Chopin.
Tínhamos uma equipe bem consistente e unida, formada por pessoas de Norte a Sul do Brasil. Embora o projeto tenha alcançado alguns milhares de pessoas, a nossa projeção era maior. No entanto, por causa de outros compromissos, só conseguimos manter o zine ativo por dois anos. Ainda assim foi um período de grande aprendizado porque tínhamos a responsabilidade de produzir material toda semana. A melhor parte de tudo era o intercâmbio cultural.
E foi assim que tive o privilégio de entrevistar, mesmo que de forma amadora, jornalisticamente falando, bandas de mais de 15 países da América do Sul, América do Norte, Oceania e Europa – dos mais distintos subgêneros do heavy metal. Alguns grupos estavam na estrada desde o final dos anos 1980. O respeito que recebi durante aqueles anos fez crescer muito mais a minha admiração por fãs e músicos do gênero.
Fiz parte de uma geração de jovens que seguia de fato o ideal do “faça você mesmo”. Sabíamos que não era necessário ser famoso ou trabalhar em uma revista de grande circulação para estar em contato com bandas que marcaram nossas vidas. Também era divertido viajar para entrevistar os músicos antes ou depois dos shows, ou então filmar a apresentação para depois fazer uma permuta de materiais. Além disso, valorizávamos ao máximo as bandas brasileiras, de nossos estados e cidades.
Com a penetração ainda modesta da internet no Brasil, esse era o tipo de motivação que fazia a diferença em nossas vidas. Em alguns casos, quando a entrevista não podia ser feita pessoalmente, também recorríamos às correspondências, se necessário. Assim as fotos não raramente chegavam impressas dentro de um envelope.
Não havia retorno financeiro. Não ganhávamos dinheiro por esse trabalho, mas a sensação de satisfação, o reconhecimento e a alegria em contribuir de alguma forma fazia tudo valer a pena, até mesmo as nossas despesas que às vezes não eram poucas. Éramos motivados pela forma mais clássica de idealismo.
Me recordo que quando eu estava no segundo ano do curso de jornalismo muitos zines já tinham desaparecido pelos mais diferentes motivos, e o nosso Marcha Fúnebre também acabou sucumbindo diante das adversidades. Então continuei escrevendo como colaborador ocasional de publicações de camaradas que modestamente deram continuidade a esse trabalho no Brasil, Estados Unidos, Suécia e Alemanha.
Expressado o expresso, só me resta declarar que quem me conhece como jornalista não me conheceria se não fosse pelo heavy metal. Na realidade, digo ainda hoje que tudo que faço tem muito a ver com minhas escolhas nos tempos de adolescência – e o heavy metal foi uma das mais importantes delas.
Com ele, aprendi mais sobre solidariedade, abri os olhos para notar a importância dos marginalizados e reconhecer a existência de um submundo. Também sofríamos preconceito em figura explícita e velada, mas acredito que perseveramos diante de centenas de situações que nos empurravam para as mais variegadas formas de uniformização e conformismo.
De fato, abandonei o visual daqueles tempos há anos, o que considero uma mudança natural, já que a transformação é inerente ao ser humano. Contudo, os verdadeiros predicados que o heavy metal me proporcionou hei de carregar por toda a vida, num lugar onde a observação perfunctória nada vê.
A partida de Lemmy Kilmister
É uma pena que o Lemmy Kilmister tenha falecido hoje, aos 70 anos, em decorrência de um câncer no cérebro recém-descoberto. Fiquei realmente chateado. O cara marcou demais a minha adolescência e início da fase adulta. Lembro quando conheci Motörhead em uma locadora de CDs perto da casa da minha tia na década de 1990. À época, eu tinha 14 anos e me surpreendi ao ver três caras na capa com os rostos ocultos no deserto, usando um traje que misturava estilos – uma fusão de cowboy e motoqueiro.
Aquilo parecia badass e gostei tanto que insisti para que o dono da locadora me vendesse aquele CD intitulado Ace of Spades. Depois de tanta perturbação, ele concordou. Saí todo feliz daquela locadora, desesperado para colocar aquele CD prateado num CD player. Conforme a bolachinha girava, eu tentava memorizar os nomes das músicas – começando com Ace of Spades e terminando com a versão ao vivo de Motörhead. Fiquei tão hipnotizado pelo álbum que até no aniversário da minha prima convenci a minha tia a deixar eu e meus amigos ouvi-lo um pouco durante a comemoração.
Foi divertido, inesquecível e histórico, ainda mais levando em conta que tudo isso aconteceu quando ainda não existia mp3 (tínhamos apenas Midi e Wave, mas faltavam bons compressores). Meus amigos ficaram tão animados que pediram que eu tirasse cópias para eles em fita K7. Basicamente esta é a minha história com uma das maiores lendas do rock e do heavy metal.
Nestor e Pompeu
Nestor ria efusivamente conforme as patas traseiras e curtas de Pompeu se moviam para a frente

Nestor caminhava à noite pelas imediações da Praça da Xícara quando viu um jovem ensanguentado (Foto: Helder Shiroshima)
A primeira vez que vi Nestor e Pompeu eu tinha cerca de oito anos. Foi num terreno baldio na esquina de casa, na Rua Pernambuco, onde em meio à capoeira que crescia livremente havia um tanque velho e uma torneira encardida de plástico. Nestor, um rapaz de não mais que 35 anos e estatura mediana, banhava seu cachorro mestiço que imóvel o observava esfregando-lhe o dorso com um pedaço carcomido de sabonete.
Depois do banho, Nestor enrolou Pompeu em uma toalha branca já amarelecida e forrou o chão com um lençol azul-celeste que tirou da mochila. Com as costas escoradas na parede vizinha, sentou e começou a assear Pompeu, tentando reduzir ao máximo a umidade do corpo do cãozinho pardo até então silencioso. O que mais me chamou a atenção naquele dia foi o fato de que a comunicação entre os dois era baseada em olhares, não em palavras. Os dois se entendiam na completude da ausência de diálogos. Quando Nestor sorria, o dorso de Pompeu tremia e o seu rabo chicoteava o ar em regozijo.
Me intrigava a expressão de serenidade, traduzida em um tipo peculiar de satisfação, daqueles dois seres que adotavam todo lugar ou lugar algum como morada provisória. Nestor usava um surrado par de sandálias amendoadas de borracha, uma camiseta bege de algodão e uma calça jeans azul com barras que não chegavam a tocar-lhe os calcanhares, lembrando um tipo pula-brejo. Pompeu tinha porte mediano, aspecto saudável e feições tão expressivas que chegava a parecer um ser humano. Tudo que Nestor comia, ele dividia em partes iguais com Pompeu. A comunicação entre os dois pouco parecia a de espécies diferentes. Juntos, se completavam de maneira singela e curiosa.
Um dia, enquanto chovia, observei Pompeu a metros de distância, saltando no ar com a boca aberta, engolindo a água fria da chuva. Nestor ria efusivamente conforme as patas traseiras e curtas de Pompeu se moviam para a frente – como se impulsionasse o próprio corpo para golpear o nada ou o vazio do alheamento humano. “Simbora, Pompeu, já brincou bastante. Tu vai ficar doente. Vem pra cá!”, disse Nestor ao notar como o focinho do companheiro tornara-se tão fino e pândego por causa da chuva.
Do outro lado da rua, um gatinho abandonado na sarjeta miava tão alto e esganiçado que Pompeu correu até ele mantendo as orelhas em pé para assimilar melhor o som. Assustado, o filhotinho acinzentado e molhado se encolheu diante de uma boca de lobo por onde a água escorria em direção à completa escuridão. Entre um olhar para Pompeu e outro para o bueiro caliginoso, se retraiu ainda mais, inclinando a cabeça em direção ao peito, e aceitou seu destino sem miar outra vez. Pompeu então o segurou pelo couro entre a região do pescoço e do dorso e o carregou até uma cobertura improvisada no terreno baldio na esquina de casa.
Lá, o cão manteve o gatinho aninhado entre suas patas, aquecendo seu corpo trêmulo e diminuto, castigado pela água fria, mas que para ele, um animalzinho nascido há pouco tempo, talvez fosse tão gelada que lhe amofinasse até os ossos. “Vejo que tu fez nova amizade”, comentou o lacônico Nestor ajeitando o boné sobre a própria cabeça. O novo integrante da família recebeu o nome de Curumim em um batismo selado com um pouquinho de ração canina transformada em mingau e servida em uma tampa plástica.
No dia seguinte, pela manhã, corri até a esquina para ver se continuavam no mesmo lugar. Sem graça e sem querer, fiquei frente a frente com Nestor. Ele estava saindo para buscar mais ração. “Ei, amigo! Vou ter que dar uma saidinha. Você pode ficar de olho naqueles dois?”, pediu. Sem dizer palavra, movimentei a cabeça em concordância e caminhei até Pompeu e Curumim que dormiam agarrados um ao outro. Sem mover as patas, Pompeu levantou um pouco os olhos e voltou a dormir, assim como Curumim. Talvez minha presença não significasse risco algum a eles, concluí.
Sentado no chão, tirei o meu boneco Comando Travessia (Hawk) do bolso e comecei a brincar, sem fazer muito barulho, simulando uma incursão por um curto trecho de gramínea. Tudo parecia tranquilo. Eu ouvia o som tênue da brisa que contrabalanceava com o sol que cobria o centro do terreno, iluminando o pouco verde fulgurante e rasteiro que balouçava pejoso.
De repente, senti coceira na mão esquerda. Quando olhei o chão onde me apoiei, vi um bando de formigas enfileiradas transportando alimentos por um trajeto em que a ausência de sol talvez tornasse a jornada menos tortuosa. Apenas mudei de lugar e continuei em silêncio. Olhei para a rua e assisti os passantes nos observando com olhares curiosos e inquisidores. Entre passos céleres e vagarosos, alguns sorriam enquanto outros se protegiam sob feições carrancudas. Carros, motos e caminhões subiam e desciam nas mais distintas velocidades. A pressa de uns, por bem, não era de todo contagiante.
Nestor retornou depois de hora e meia, trazendo mais ração em uma sacola da Casa Moreira. Pompeu comia sem alarde. Observava o entorno e engolia vagarosamente. Afoito, Curumim lambuzava até as orelhas e as patas sobre a pastinha de ração com água. Após uma gargalhada expansiva, destacando bem os dentes, Nestor comentou:
“Curumim é como esses carros e essas pessoas que vimos passar agorinha há pouco. Têm pressa pela simples e ingênua motivação de ter. Não sabem na verdade o porquê e mesmo que soubessem não faria diferença. Não há que se ter pressa para nada. O que a pressa já trouxe de bom? A pressa na verdade diz muito sobre nossas falhas. Curumim ainda é bebê e na idade certa há de aprender. É uma pena que poucos se importam com isso hoje em dia.” Na época, não entendi muito bem, mas achei bonito o discurso.
Nestor possuía cabelos longos e traços indígenas, embora eu desconhecesse sua origem. Seus olhos castanhos eram sempre serenos, mesmo quando alguém o confrontava ou ofendia, o que não era tão raro. Alguns o desprezavam justificando que ele vivia na rua e não tinha trabalho fixo, logo não poderia ser “homem de bem”. O fato de não pedir esmolas pouco pesava na consciência de seus críticos. Nestor não se incomodava. Gozava de seu próprio código de vida, tanto que só aceitava algo se pudesse retribuir.
Mais tarde, numa noite amena, brincando de cabra-cega na varanda de casa com meu irmão e dois amigos, ouvi um barulho vindo da rua. Pedi para minha mãe me deixar ir lá fora ver o que estava acontecendo. Ela autorizou que eu saísse por poucos minutos. Corri até a esquina e encontrei Nestor ensanguentado com as costas escoradas na parede chapiscada do terreno baldio. O sangue, misturado às lágrimas, escorria de seu rosto trigueiro e ele gemia em silêncio, com os braços arroxeados envolvendo Pompeu que emitia um uivo abafado, afônico e lastimoso. Curumim fazia o mesmo, protegido por Pompeu.
Minutos antes, três homens encostaram um Opala preto, desceram e, carregando pedaços de pau, caminharam até Nestor. “Olha, vagabundo, se reagir, a gente mata o cachorro e o gato. Outra coisa, mande eles ficarem quietos senão a coisa vai feder mais ainda pro seu lado, seu índio de merda!”, esbravejou um homem de mais de 45 anos, apontando para o revólver de calibre 38 na cintura, acompanhado dos dois filhos que participaram da selvageria. Assim que Nestor amarrou Pompeu e Curumim com o lençol azul-celeste, tantas vezes usado para servir de abrigo, os três começaram a golpeá-lo.
Caiu desnorteado no chão, ouviu pessoas gritando e viu num átimo anuviado os três agressores correndo em direção ao Opala e partindo bruscamente. Nestor não morreria mais naquele dia. Passado um mês, sentiu-se muito bem após receber atendimento hospitalar e contar com os cuidados da vizinhança que o acolheu com mais desvelo do que nunca.
Algum tempo depois, não sei ao certo quanto, Nestor caminhava à noite pelas imediações da Praça da Xícara quando viu um jovem ensanguentado, caído na calçada. Vítima de assalto, recebeu uma facada no pescoço. Sem pensar duas vezes, Nestor tirou a própria camiseta, fez um torniquete, colocou o rapaz em seus ombros e caminhou até o Pronto Socorro da Santa Casa de Paranavaí. Sua força era prodigiosa. Pesando em torno de 70 quilos, transportou sem dificuldade uma pessoa de 85.
A vítima chegou ao hospital com a tez lívida e jamais teria sobrevivido sem a compassiva intervenção do desconhecido. Ao avisarem que o rapaz não corria mais risco de morte, Nestor deu um breve sorriso veraz e caminhou até a saída do hospital. Logo uma médica o alcançou e disse que uma pessoa queria muito falar com ele. “Foi esse rapaz que salvou seu filho”, revelou ela. Constrangido, o pai da vítima agradeceu, sem olhar diretamente nos olhos de Nestor que sequer piscava diante do homem, observando com bonança e acuidade sua reação.
“Tens aqui seu filho, tão importante para ti como são os meus para mim. Lá fora existe vida em cada centímetro de nossos passos. Não há nada neste mundo que nunca tenha sido tocado pela vida. Ela é sempre maior do que tudo que tocamos e vemos, mesmo quando cegos ou desassistidos pela compreensão. Desconheço algo de maior valor, imagino que também pense assim o senhor. Afinal, o que resta ao homem se não tiver ele o direito de respirar, de caminhar ou de existir onde quiser e como quiser?”, declarou Nestor antes de desaparecer na noite enluarada e estrelada que principiava o fim de um longo período de cerração.
O homem, aflito ao ver Nestor no hospital, foi o responsável por atacá-lo no terreno baldio na esquina de casa. E o rapaz fora de perigo era seu filho, um dos que desferiu-lhe alguns golpes nas costas com um pedaço de pau. “Ajudai-me, óh Manitu, a não julgar meu semelhante antes que eu tenha andado sete dias com suas sandálias”, diz uma oração sioux.
Sabrina, o nascimento de uma mulher
Sorriu como nunca e notou no próprio olhar um brilho diferenciado, de alguém redescobrindo o mundo

“A Alana que tem a mesma idade que eu me ajudou muito. Ela que me batizou com o nome de Sabrina” (Foto: Arquivo Pessoal)
Sabrina tinha 16 anos quando experimentou pela primeira vez um vestido. Se sentiu bonita e realizada diante de um espelho que mostrava não apenas o seu reflexo, mas quem ela realmente era no seu íntimo até então velado. Sorriu como nunca e notou no próprio olhar um brilho diferenciado, de alguém redescobrindo o mundo que lhe parecia negado pela possibilidade de viver uma das mais pungentes formas de preconceito – a homofobia.
Com a mesma idade, começou a fazer programas escondida da mãe. Muitos clientes procuravam sexo enquanto outros pagavam apenas pela companhia. Se aconchegavam em seus braços, conversavam, desabafavam, choravam ou simplesmente se extasiavam com um pouco de calor humano. Outros iam além nos pedidos mais inusitados. “Teve um cara uma vez que pediu pra eu penetrar um pepino na bunda dele”, conta rindo.
Quando Sabrina completou 18 anos, a mãe descobriu tudo. Então a jovem explicou que fazer programas é uma forma de trabalho, justificando que quer alcançar seus objetivos o mais rápido possível para futuramente ter uma vida normal. “Tive experiências muito boas com clientes, mas também algumas estranhas, como ser paga para assistir a pessoa ficar se drogando. Ofereciam pra mim, só que nunca gostei disso”, diz.
Com 1,80m, 60 quilos, pele oliva, cabelos longos e bem alinhados, um rosto fino cuidadosamente maquiado e expressivos olhos pretos, Sabrina chama atenção por onde passa e não nega as transformações que viveu nos últimos anos para ser quem é hoje. “Tenho três litros de silicone no bumbum e nas pernas. Sou uma garota em fase, com seios pequenos. Em breve vou colocar uma prótese de silicone”, garante sem esconder a empolgação seguida por um riso fácil.
Em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, Sabrina integra uma irmandade de 15 jovens que fazem programas. Sempre que necessário, uma protege a outra, principalmente quando aguardam clientes em algumas das esquinas mais movimentadas da cidade. “Tenho amigas que ainda continuam na rua, mas eu já não faço isso com frequência”, informa a jovem que tinha como ponto um dos cruzamentos da Avenida Distrito Federal.
Com clientes fixos, que atende ocasionalmente, e perfis em mídias sociais como Tinder e Badoo, Sabrina não vê necessidade de tanta exposição nas ruas para conseguir dinheiro. “Estou há quatro anos nesta vida. Também fiz programas ao longo de quatro meses em Ponta Grossa [no Centro Oriental do Paraná] por indicação de amigas que me falaram muito bem de lá. Foi ótimo! Conheci várias meninas”, narra com tom de voz vibrante.
Quando não está trabalhando, Sabrina leva uma vida bem tranquila e caseira. Desinteressada em festas e baladas, prefere assistir TV, limpar a casa da mãe, conversar com familiares ou bater papo pelo Whatsapp. “Sim, penso em casar e ter filhos depois que estiver totalmente feita”, confidencia Sabrina que nasceu homem, porém nunca se sentiu como um.
Desde criança já gostava de “coisas de mulher”, só que por receio de sofrer com a homofobia se obrigava a reprimir seus anseios para atender convenções sociais. “Nunca me vi como homem e nunca gostei de nada de homem. Resolvi me assumir pra todo mundo no ano passado, com 19 anos. Estou lutando para ter o que não tenho, o que quero. Odeio a minha parte masculina”, desabafa.
O reconhecimento da identidade feminina veio acompanhado de uma cerimônia realizada pelas amigas da jovem. “A Alana que tem a mesma idade que eu me ajudou muito. Ela que me batizou com o nome de Sabrina. O batismo foi uma forma de simbolizar o carinho dela por mim, de dizer que sempre posso contar com ela”, enfatiza.
Se assumindo como transexual, a jovem começou na mesma época a pesquisar sobre terapia de reposição hormonal e cirurgia de redesignação sexual (CRS). “Nunca me vi como travesti e meu desejo é ser tratada como mulher. Para alcançar meu objetivo, comecei consumindo hormônios como Climene, Mesigyna e Perlutan. Ah! Estou feliz porque em fevereiro vou pra outra cidade aumentar meus seios”, comemora.
Sabrina também tem planos de fazer cirurgia plástica no nariz, com a intenção de afiná-lo e diminuí-lo, e concluir a cirurgia de mudança de sexo antes dos 25 anos. “Quem é trans não é feliz do jeito que nasceu e corre atrás do que quer. Eu mesma tenho certeza do que quero. Ainda não me sinto bem do jeito que sou. Não estou satisfeita”, confessa.
“Olha o veado! Olha o veado!”, grita ocasionalmente algum encrenqueiro em tom de deboche quando vê Sabrina. Ela simplesmente ignora – continua em silêncio e desvia o olhar. Sem se importar com a opinião alheia, desconsidera qualquer piada ou ofensa. “Até hoje o máximo que fizeram foi provocar, xingar e caçoar. Graças a Deus, ninguém foi além disso”, garante.
Por outro lado, na contramão da homofobia, a jovem passou por muitas situações que fazem da sua vida uma gratificante jornada, principalmente quando circula por algum lugar e as pessoas observam com bons olhos a sua transformação.
“Tem gente que faz você se sentir bonita só com o olhar. Recebo muitos elogios, e assim vou me sentindo uma garota mais realizada. Passei a maior parte da minha vida sem saber o que é ser desejada e isso mudou. Você se sente bem consigo mesma quando começa um relacionamento e vê que um cara gosta de você pelo que você é”, afirma sorrindo.
“Não sinto desejo por mulher”
Sabrina sempre teve o apoio da mãe que lidou muito bem com a situação quando soube da homossexualidade do filho – antes de se tornar transexual. “Ela só ficou muito preocupada com a parte de transgênero. Tinha medo da reação do povo, sabe? Como a sociedade iria reagir. Fui sincera e falei que era assim que me sentia bem e iria ser feliz. Então ela acabou entendendo. Hoje minha família me aceita como sou”, conta a jovem de Paranavaí, onde vive desde que nasceu.
O que endossa a identidade sexual de Sabrina é o fato de que ela nunca se interessou por mulheres. “Nunca aconteceu. Não sinto tesão, desejo ou atração. Não sinto nada por mulher. Sempre gostei de homem. Só que pra gente namorar é complicado. Não é fácil pra pessoa assumir isso e tive várias decepções, desentendimentos, mas a gente consegue levar”, pondera.
A jovem que se define como simpática, extrovertida e ao mesmo tempo estressada e casca grossa admite que hoje é mais reservada porque foi muito magoada. “Sou fácil de se lidar. Só não gosto mais de mostrar demais meus sentimentos. Me dou bem com todo mundo, nunca fui de briga. Não gosto disso. E não nego que às vezes me acho um pouquinho. Isso acontece porque gosto de me sentir bonita”, revela com uma voz bem feminina e descontraída, seguida por um riso efusivo.
Sobre homens, Sabrina diz que o mais importante é o jeito do cara. Ser educado, simpático e carinhoso está entre os predicados de maior relevância. “Não ligo muito pra sexo. A maioria dos homens liga. Acho que legal mesmo é o cara saber tratar uma pessoa. E claro que se ele te trata bem, ele vai ser bem tratado”, argumenta, numa referência incidental da ética da reciprocidade, também conhecida como regra de ouro.
Depois de abandonar o colégio no ensino médio, Sabrina pretende voltar a estudar em 2017. No entanto, reclama que os colégios de Paranavaí não estão preparados para receber jovens na mesma situação que ela. “Eles evitam falar disso nas escolas. O preconceito sempre existe. Nunca tive problemas porque sempre ignorei quem tentava me ofender. Seria bom ter algum tipo de orientação nesse sentido. Ser homossexual não é opção, não é nenhum bicho de sete cabeças. Você nasce assim e não pede mais do que compreensão e respeito”, defende.
Frases de Sabrina
“Há jovens de Paranavaí se prostituindo em muitas cidades e estados do Brasil”
“Para quem é travesti ou trans, a parte de apoio é muito difícil. Seria bom se isso mudasse”
“Acho que temos uma boa união entre transgêneros em Paranavaí. Nos vemos como iguais. Isso faz a gente se sentir mais segura”
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Uma pequena história de Natal
Quanto mais eu andava pelo local, mais me sentia circulando pela loja do avô de Nell Trent
Aconteceu em Paranavaí quando eu tinha 14 anos. Caminhando pela Rua Pernambuco na véspera de Natal, a chuva caía fina sobre o movimentado centro da cidade. Eu olhava para o céu túrbido e não entendia como a água que tocava meu corpo podia ser morna enquanto a que umedecia minha cabeça impactava um curto frio intervalado e solene.
Fiquei intrigado e enxerguei um propósito. As gotas que se chocavam contra o meu couro cabeludo e minha testa, escorrendo entre meus olhos, deslizando pelo meu nariz e perfazendo os contornos de minha boca, antes de saltarem do meu queixo até o meu peito, reduziam a minha sonolência e me enviavam sinais de alerta, como se exigissem minha atenção por onde eu passasse.
Até então eu caminhava como um tipo peculiar de sonâmbulo incorrigível. Tinha dormido menos de cinco horas e sentia meus olhos cálidos, defessos e afogueados. Meu reflexo nas vitrines das lojas revelava um aspecto enleado e abstrato. Ouvia vozes agudas, suaves, graves e oscilantes por todos os lados, mas não identificava palavras. “Será que estão falando realmente português?”, ecoava a questão que despontava da minha consciência.
Misturado à gotejada de chuva, ora violenta, ora calma, que caía dos galhos das árvores que sombreavam a estreita calçada, o inopinado cheiro da terra molhada na Rua Minas Gerais me sopitava. Os piscas-piscas ligados coloriam as gotas que retomavam a natural transparência quando se soltavam de seus hospedeiros de plástico e de vidro. A verdade é que eu percebia somente o que cintilava ou amplificava meus sentidos.
Pessoas falavam comigo. Eu não sabia quem eram ou o que diziam. Confuso, eu me limitava a sorrir na medida do possível, sem mostrar demais os dentes. Me sentia muito cansado e meus olhos turvos e amiudados pouco me ajudavam a lidar adequadamente com a interação humana naquela manhã.
Depois de muito caminhar, cocei meus olhos com sofreguidão e parei diante de um espelho de uma lojinha de antiguidades. “Ah! Agora estou melhorando de verdade. Logo mais vou me sentir 100%”, concluí. Uma senhora simpática me convidou para conhecer o local. A entrada era estreita, mas o espaço interno se alongava de maneira tão convidativa e misteriosa que tive um abrupto anseio de passar horas ali.
Entre fragrâncias de cravo, baunilha, âmbar, sândalo e almíscar, distribuídas em vários pontos do antiquário, conduzindo o visitante a se sentir como parte de uma realidade dividida em fragmentos, com olências que ciceroneavam os objetos, a dona da loja perguntou se eu gostaria de ver algo em especial. Respondi que não e ela me deixou bem à vontade, explicando antes que dedicou muitos anos de sua vida comprando e reunindo objetos das décadas de 1910 a 1970.
“Sabe, meu pai faleceu há mais de 30 anos. Ele era um colecionador de coisas que as pessoas consideravam ultrapassadas ou de pouco valor. ‘Como algo que marcou um período, exigiu do ser humano dias e até meses de esforço pode algum dia ser visto como insignificante? Não há nada no mundo que mereça tal depreciação’, dizia ele”, comentou Marta, a dona do antiquário antes de se afastar para atender uma cliente que procurava um caixinha de música.
Quanto mais eu andava pelo local, mais me sentia circulando pela loja de antiguidades do avô de Nell Trent, imortalizada por Charles Dickens. Por um momento, também me recordei do filme “A Felicidade Não Se Compra”, de Frank Capra. Bom, no meu caso e naquele momento, comprava sim. Porém a realidade era uma suplantadora de desejos. Abri minha carteira ruça e surrada, contei as notas e as moedas que balouçavam dentro do meu bolso e rapidamente tive certeza de que nada ali se encaixava no meu orçamento.
A tristeza me atingiu sobremaneira. Me fez transpirar, umedecendo minhas mãos e as poucas notas de baixo valor que eu observava cabisbaixo. As moedas perderam o brilho, como se fossem impotentes, inutilizadas pela circunstância. De longe, Marta notou o momento em que eu rapidamente me encolhi para guardar o dinheiro e sair do antiquário.
Ela me interrompeu e perguntou se não apreciei nada. Titubeante, disse que gostei sim. “Ué, e por que não vai levar nada?” Hesitei por alguns segundos e me senti encurralado como um animalzinho indefeso. Notando no seu rosto uma expressão reconfortante de benevolência, acabei confidenciando que não tinha dinheiro para comprar nada em sua loja. “Como não? Quanto você tem aí?” A contragosto, minhas mãos tremiam vaporosamente quando tirei as notas e as moedas do bolso. Marta sorriu e pediu que eu mostrasse qual dos objetos mais me agradou.
Caminhei até o fundo da lojinha de antiguidades e sem jeito mostrei a ela um velho bauzinho acastanhado de madeira que custava mais do que o dobro das minhas economias. “Pra quem você vai dar? É um belo presente de Natal! Você tem bom gosto!”, avaliou Marta, me fazendo corar. Expliquei que seria para minha mãe. Então ela perguntou se havia mais alguma coisa em meu bolso. Retirei um pedaço de papel branco que trazia um pequeno poema de minha autoria chamado “Criança de Faiança”.
Marta o leu com atenção, sorriu e, para minha surpresa, declarou que a “obra” cobria o restante do valor. Antes de sair, pediu que eu autografasse o poema e a ajudasse a colocá-lo em uma moldura dourada de inspiração barroca. “Agora temos um quadro de bom valor”, enfatizou.
Nos despedimos e ela me acompanhou até a entrada da lojinha, onde a vi sorrindo graciosamente até o momento em que desapareci do seu campo de visão. Segui animado pela Rua Getúlio Vargas e voltei para casa assistindo o sol clareando a manhã nebulosa, secando o asfalto e iluminando o cenário, os veículos, as pessoas e os animais, cobertos pelo mesmo manto morno e cadenciado.
No mês seguinte, chamei minha mãe para conhecer o antiquário. Quando chegamos lá, não havia mais nada no lugar, somente uma placa de aluga-se. “Um vislumbre de rostos passageiros flagrados pela luz de uma lâmpada ou pela janela de uma loja é frequentemente melhor para os meus propósitos do que a sua total revelação à luz do dia”, escreveu Dickens em “A Loja de Antiguidades”.
Ephraim Machado presenciou a inauguração da TV em 1950
“Ouvi muita gente dizendo: ‘Como é que pode, né? O cara lá e a imagem aqui; não dá pra acreditar!'”

Em 18 de setembro de 1950, uma multidão se reuniu em torno de um pequeno televisor (Foto: Reprodução)
O empresário Ephraim Marques Machado, de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, assistiu a inauguração da primeira estação de TV do Brasil. No evento, viu de perto celebridades da Rádio Tupi que migrariam para a televisão. A experiência foi tão marcante que o então jovem se apaixonou pela tecnologia.
No dia 18 de setembro de 1950, em meio a milhares de curiosos de diversas partes do Brasil e do mundo, lá estava Ephraim Machado, participando de um dos momentos mais célebres da história da televisão brasileira: o nascimento da Tupi, de Assis Chateaubriand, que consagrou o Brasil como o quarto país do mundo a ter TV.
“Eu não passava de um jacu que tinha um serviço de alto-falante e saiu do mato para ir a São Paulo ver a inauguração da TV”, conta, às gargalhadas, Machado. O empresário diz considerar esse dia como um dos mais incríveis de sua vida, e ratifica tais palavras com brilho nos olhos.
Ephraim relata que jamais imaginou como seria o primeiro contato com um televisor, objeto nunca visto, nem mesmo em fotografias. De televisão, o pioneiro só tinha ouvido falar. “O impacto foi muito grande, tanto para mim, quanto para outras pessoas. Ao meu lado, ouvi muita gente espantada dizendo: ‘Como é que pode, né? O cara lá e a imagem aqui; não dá pra acreditar!’”, relembra Machado.
À época, o empresário supôs que o televisor fosse simplesmente uma tela parecida com a do cinema. “Pensei também que um cara abria ela. Não tinha nada disso. Por isso me surpreendi tanto”, revela. Contudo, o susto de não foi apenas com o aparelho, mas também com o número de pessoas presentes na inauguração. “Tive uma dificuldade tão grande pra entrar no auditório que você nem queira saber. Tinha gente demais, muita gente mesmo, afinal São Paulo é São Paulo”, comenta.
A experiência foi tão significativa que ele admite ter se apaixonado instantaneamente pela televisão. Inclusive pensou em seguir o caminho do comunicador que tanto admirava: Assis Chateaubriand, proprietário dos Diários Associados. “É um sonho que gostaria de ter realizado. Fiquei muito interessado no produto quando vi. Se naquela época eu morasse numa cidade com potencial de uma metrópole, eu teria dado um jeito de montar uma estação”, assegura.
Quando o governo brasileiro lançou o primeiro edital para pleito de concessões, o pioneiro cogitou a possibilidade de enveredar pela teledifusão. Segundo Machado, havia um bom patrocínio e também inúmeros benefícios. Entretanto, depois de se inscrever para disputar o direito de montar uma emissora, o empresário soube que firmas estrangeiras estavam capitalizando o negócio no Brasil. “Não pude transformar meu desejo em realidade porque vi que não tinha recursos o suficiente para competir com o capital externo. Nunca gostei de sociedade, então desisti”, justifica.
Atraso para entrar no ar
A primeira emissora da TV Tupi, prefixo PRF-3, seria inaugurada às 21h com o programa TV na Taba, mas problemas técnicos causaram atraso de uma hora. “Entrou no ar e saiu do ar. Tudo isso porque a câmera às vezes parava de funcionar. Mesmo assim foi um evento espetacular. Dava gosto ver aquela minúscula telinha”, defende o empresário Ephraim Machado.
Além de assistir ao vivo o primeiro programa televisivo, comandado pelo emblemático Homero Silva, Machado viu de perto dezenas de artistas que fizeram história no rádio, teatro e cinema, como Lolita Rodrigues, Amácio Mazzaropi, Aurélio Campos, Walter Forster e Lima Duarte. “Fiquei deslumbrado quando vi a Hebe Camargo e o J.B. Junior. Deram um rosto para aqueles famosos que tanto ouvíamos na Rádio Tupi”, reitera.
A influência do rádio para a TV também foi explícita, tanto que o pioneiro se recorda de ter visto o apresentador com uma folha de papel em mãos, lendo tudo ao vivo. “Ele parecia não se importar com o que víamos”, brinca o pioneiro, se referindo a um fato de uma época em que ainda não existia videotape.
Tudo era filmado em 35 milímetros e depois o filme era revelado, para então ser transmitido por uma emissora de televisão. A precisão era algo tão distante da realidade na década de 1950 que a filmagem normalmente era veiculada cinco dias depois.
Saiba Mais
A TV Tupi foi a primeira emissora de televisão da América Latina
Todos os equipamentos usados na inauguração da TV eram de origem americana – da Radio Corporation of America (RCA).
No dia do evento, o transmissor foi colocado no topo do prédio do Banco do Estado de São Paulo.
O frei mexicano José Mojica, também cantor, foi a primeira pessoa a se apresentar na TV.
Assis Chateaubriand foi proprietário do Diários Associados, o maior conglomerado de imprensa do Brasil. As posses do comunicador incluíam 36 emissoras de rádio, 34 jornais, 18 estações de televisão, várias revistas infantis, uma agência de notícias, uma editora, a revista O Cruzeiro e a revista A Cigarra.
Os torneios da Games House
Compenetrado e tenso, selecionei Blanka, um personagem improvável e até depreciado
Na minha infância, houve uma época em que eu ia toda semana até a Games House jogar videogame. Nos finais de semana, lá era o ponto de encontro de dezenas de crianças e adolescentes de Paranavaí que participavam de campeonatos de Street Fighter, Mortal Kombat e Fatal Fury. Os melhores jogadores ganhavam locações de cartuchos ou podiam levar para casa por um final de semana algum videogame de sua preferência.
Eu saía de casa cedo nos dias de torneio. Subia a Rua Sílvio Meira e Sá Bezerra, descia a Cândido Berthier Fortes e virava à direita na Manoel Ribas. Caminhava empolgado, saltava e imitava golpes de lutadores como Dhalsim, Scorpion e Joe Higashi. E o sol contribuía, iluminando meus braços por onde eu passasse, me banhando em fantasia e fazendo eu me sentir imponente. Não era tão anormal quanto pareceria hoje, já que esses jogos eram tão populares que muitas vezes as pessoas reconheciam minhas imitações.
Um dia, eu e meu irmão Douglas descemos correndo pelo gramado da Escola Jean Piaget, simulando uma luta entre Guile e Blanka. Um senhor de aproximadamente 50 anos chamou nossa atenção ao ver a cena. “O brasileiro tem que ganhar nessa. Dá um choque nele, filho! Não pode dar mole pra esses americanos”, disse o homem rindo, movimentando uma velha moeda entre os dedos e andando vagarosamente até a Avenida Juscelino Kubitschek.
Quando chegamos à Games House havia bastante gente. A verdade é que era praticamente impossível encontrar a locadora vazia. Mesmo pequena, era um dos locais preferidos de muitos jovens da minha geração. Me sentia inebriado pelo misto de musiquinhas eletrônicas dos jogos, o que mais parecia aos ouvidos treinados um mashup bem cadenciado de variedades oitentistas e noventistas.
Intrigante também era a olência profusa que tomava conta do ambiente. Aromas de hortelã, menta, cereja, melancia, uva e tutti-frutti se enleavam, proporcionando uma experiência sui generis de sensações. Dentro da locadora, esquecíamos completamente do mundo que existia lá fora, já que tínhamos o nosso próprio, formado por uma grande família de amigos, conhecidos e desconhecidos unidos por horas de diversão.
Era difícil circular em meio a tanta movimentação, mas pouco nos importávamos. Era como se a natureza de nossa realidade não pudesse ser menor do que aquela. A beleza subsistia na entropia, na grazinada, no eco de nossas ações que reverberavam a completude da justa desordem das coisas. Falar, rir, gritar, zombar, pular, agachar, sacolejar, dançar – tudo era permitido desde que o respeito não fosse substituído pela alarvaria.
Ao meu redor, eu observava rostos juvenis com expressões absortas, espontâneas, caricatas e difusas; dignas do expressionismo de Lang, Murnau e Wiene. A motivação? Uma luta entre Ken e Zangief. Segurando o controle com paroxismo, Hélio nem piscava sentado em uma cadeira de madeira.
Mantinha os olhos agigantados em direção à tela de um televisor de caixa cinérea de 21 polegadas. Assim que o Zangief de Beto deu um pilão giratório em Ken, quase o eliminando do torneio, Hélio se levantou e levou seu lutador até o canto esquerdo. Respirou fundo, ignorou as bolhas dos polegares e, com mãos trêmulas e suadas, venceu o adversário com uma sequência de hadouken e shoryuken; sim, com punhos flamejantes.
Para comemorar, levantou uma latinha de 7 Up e tomou um gole enquanto recebia congratulações, reclamações, leves tapinhas nas costas e na cabeça. Menos competitivo e mais circunspecto, Beto também foi elogiado, apesar do sarro tradicional. Calmo, se levantou, sorriu e declarou: “Quem não perde, não aprende a viver, diz meu pai.” Então caminhou até um expositor de jogos de Super Nintendo e começou a ler os encartes.
Quando chegou a minha vez de jogar, sentei na mesma cadeira de Beto e observei que o movimento na locadora tinha aumentado ainda mais. Notei a presença de muitas garotas da minha idade, o que não era tão comum em dias de torneio. Compenetrado e tenso, selecionei Blanka, um personagem improvável e até depreciado por uma maioria que o via como um vilão exatamente pelo seu aspecto carrancudo e burlesco. Eu não! Blanka pra mim representava um contraponto, um anti-herói que mais parecia uma versão brasileira do Hulk.
“Putz, pegou logo o Blanka! Vai apanhar fácil…”, comentou Bruno, campeão do último torneio, que selecionou Ryu, o favorito de sete entre dez garotos que frequentavam a Games House. A escolha do personagem já garantia uma plateia cativa que assobiava, ria e motivava o adversário. Eu seguia na contramão da obviedade, com menos torcedores. O fato de ter tanta gente apostando em Ryu aumentava a minha motivação, me fazia querer vencer mais do que nunca. Não me preocupava a ideia de mais tarde ser eliminado do torneio, mas eu precisava provar que o meu personagem não era inferior.
Apanhei bastante no primeiro round, o que fez muita gente crer que a derrota seria iminente. Bruno tinha um estilo de jogo que privilegiava os mesmos dois golpes de sempre, o que entre meus amigos era chamado de “apelão”. Ele inclinava o corpo pra frente, se aproximando mais da tela, emitia sons miméticos com a boca e mudava de posição frequentemente, alegando que o televisor era muito pequeno para projetar seu talento. Bruno era um showman mirim.
Mais reservado, eu jogava calado, mordendo furtivamente os lábios quando me sentia encurralado. No segundo round, o nível de confiança do meu adversário subiu demais e num átimo de epifania descobri como neutralizar seus golpes mais certeiros. Blanka já não apanhava mais e sua defesa se tornara intransponível. De personagem coadjuvante, foi elevado a protagonista da própria luta. Na minha cabeça ecoava de antemão sua frase clássica: “Now you realize the powers I possess!”, seguida por uma eclética sequência de golpes altos e rasteiros que incluíam electric thunder, lightning cannonball e outros três tipos de ataques de rolamento.
Ryu foi castigado nos dois rounds seguintes, ganhando um curioso aspecto toldado e carunchento. Blanka? Não! Parecia mais fornido, refulgente e faustoso, como se renascesse para provar naquele momento o seu valor subestimado pela sua fisionomia grosseira. “Acho que a pele dele agora tá bem mais verde e o cabelo mais laranja”, “Tá enorme! O Ryu ficou franzino perto dele!”, “Que força insana!”, “Louco demais esse Blanka!”, “Parece que tá possuído de tão forte!”, comentavam crianças e adolescentes da plateia.
A minha vitória, a mais importante de Blanka no torneio, foi selada com um choque elétrico que fez o favorito Ryu desfalecer no canto esquerdo da arena de tábuas velhas. Assim que Blanka comemorou com várias cambalhotas no ar, um repentino silêncio tomou conta da locadora. Bruno ficou calado olhando para o televisor, sem acreditar no que aconteceu. Meu irmão Douglas e alguns amigos gritaram: “Blanka! Blanka! Blanka! Blanka!”
Discreto, só me levantei e sorri, sem dizer palavra, enxergando a presença de novos espectadores na entrada da Games House. Eliminado, Bruno coçou os olhos, tentou disfarçar a decepção, mas levou quase um minuto para soltar o controle do Super Nintendo e aceitar a derrota. Foi minha última vitória naquele dia. Eliminado na semifinal por um Dhalsim mais atilado, não lamentei.
Sem grande alarde, comemorei o fim da hegemonia Ryu, Ken e Guile, celebrada com o triunfo de um pachorrento e engenhoso E. Honda comandado por Augusto, garotinho também subestimado que se identificava com a forma física do lutador de sumô. “Hoje eu sou E. Honda e E. Honda sou eu. Só me resta sorrir diante do meu raro apogeu”, poetizou com simplicidade o campeão, um filho de argentinos que adorava ler “Discurso do Urso”, de Julio Cortázar.
Mirão, um antigo caso de amor ao esporte
Valdomiro Pereira, o homem que dedicou a maior parte da vida ao esporte de Paranavaí

Mirão: “Era uma vida difícil. A gente acabava formando time pra jogar fora e repartir o dinheiro” (Foto: David Arioch)
Em comemoração ao aniversário de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, celebrado no dia 14 de dezembro, nada mais justo que homenagear um dos homens mais importantes do futebol e do futsal de Paranavaí. Valdomiro Pereira, mais conhecido como Mirão, começou a sua história no esporte local em 1960, pouco antes de completar 20 anos.
Para conversar sobre o assunto, Mirão diz que não é preciso agendar horário. “É só chegar”, avisa, me convidando para ir até a sua casa na esquina da Rua Maria Anchieta de Morais. Lá, encontro o pacato e hoje aposentado desportista sentado em uma “cadeira de área”, observando a movimentação tranquila da manhã na Rua do Aeroporto, principal via de acesso ao Jardim Ipê.
Com voz remansosa, o icônico Mirão me cumprimenta e coloca em cima da cadeira uma coleção de publicações sobre a sua trajetória. Em 1955, quando chegou a Paranavaí vindo de São Paulo, um fato lhe chamou a atenção. O Atlético Clube Paranavaí trazia na sua formação seis ou sete titulares paraguaios. “Era interessante isso. Um time do interior do Paraná que tinha mais jogadores estrangeiros do que brasileiros. E eram todos muito bons. Jogavam por amor ao esporte”, afirma.
Em 1959, o desportista fez amizade com os jogadores e a diretoria do ACP. Segundo Mirão, era o tempo dos paraguaios. “Comecei a treinar com eles, mas eu era muito ruim e o Seu Ferreira, um senhor que realizava bingos para arrecadar recursos para o clube, me convidou para ser massagista”, narra. Quando explicou que não entendia nada da profissão, Seu Ferreira argumentou que “tudo se aprende na vida”. “Deixa eu ver sua mão. Sim! Como pensei! Quem tem mão grande serve pra ser massagista”, comentou Ferreira, se valendo de uma crença popular.
À época, Mirão desempenhava qualquer atividade em benefício do clube. Fazia cobranças, ajudava na secretaria e na venda de cartelas. Foi assim até 1976, quando proibiram a realização de bingos. “Lembro que em 1960 fomos disputar o campeonato em Apucarana porque o nosso campo era com cerquinha e a Federação Paranaense de Futebol não aceitava. Então o time treinava no Estádio Natal Francisco [atual Praça dos Pioneiros] e jogava em Apucarana. Daqui a Maringá a estrada era de terra. Imagine só a dificuldade”, relata.
Naquele tempo, como os jogadores e os funcionários do ACP recebiam apenas por quatro ou cinco meses, o jeito era improvisar. “Era uma vida difícil. A gente acabava formando time pra jogar fora e repartir o dinheiro. Alguns conseguiam bons contratos, só que não era fácil. Só uma ou duas firmas colaboravam com o clube e nunca teve isso de alguém se oferecer para pagar um atleta por conta própria”, desabafa.
Nos anos 1960, o que ajudava o atlético a se manter na ativa era o fato de que alguns atletas de Paranavaí jogavam de graça. “Um exemplo era o Lauro Machado. Ele e mais alguns outros trabalhavam em outras áreas porque sabiam que era impossível viver do clube”, confidencia Mirão que considera o ACP de 1960 como um dos melhores de todos os tempos, assim como o de 1968 que conquistou uma vaga na primeira divisão do Campeonato Paranaense. O desportista se queixa apenas que a equipe já era formada em cima da hora, dificilmente se preparando com dois ou três meses de antecedência. “Uma vez contratamos 10 jogadores de um time faltando apenas alguns dias para o campeonato. Infelizmente em cidade pequena é assim, o futebol funciona aos empurrões”, lamenta.
De acordo com Mirão, inesquecíveis eram as partidas no Estádio Natal Francisco, onde a torcida lotava as arquibancadas de madeira com capacidade para até 10 mil pessoas. “Eu morava no estádio quando era solteiro porque o treino começava às 6h. Alguns jogadores também viviam lá, já que o clube não tinha condições de pagar hospedagem em hotel. Nosso campo somava 110 metros de comprimento e 80 metros de largura. O pessoal era tão fanático por futebol que onde o clube ia a torcida ia atrás”, revela.
Em 1970, a situação financeira do time não era das melhores, tanto que o ACP foi disputar uma partida em Nova Esperança e tiveram de entrar em campo com apenas 10 jogadores porque nem todos atletas estavam registrados. “Ainda assim ganhamos de um a zero. Era muito bom. Participávamos de amistosos em todo o Paraná, além de Presidente Prudente, Marília e cidades de Santa Catarina e Mato Grosso do Sul. Nossa rivalidade maior era com Maringá e Mandaguaçu. Time de fora quase nunca ganhava aqui porque o campo do Natal Francisco era muito grande, uma das nossas armas”, enfatiza Mirão.
Na esteira da falta de recursos, o atlético desde o início contava com trabalho voluntário, principalmente de médico e fisioterapeuta. O time levou alguns anos para conseguir contratar um preparador de goleiros, garantindo mais profissionalismo ao clube. “Se precisasse de alguém pra ir lá na segunda-feira arrancar grama, eu e o Paulinho íamos. Fazíamos o mesmo empenho se fosse necessário ficar com atleta em hotel na véspera do jogo pra fazer massagem. O time ficava em primeiro lugar nas nossas vidas”, declara.
Embora não ganhasse nada para ajudar, o desportista estava sempre disponível ao ACP no período da tarde, quando o treinamento era intensificado. “Uma das minhas recompensas foi pisar duas vezes no Maracanã. Jogamos lá contra o Madureira e o Olaria. Ganhamos um jogo e perdemos o outro. Depois aproveitamos pra assistir uma partida do Atlético Mineiro contra o Flamengo e outra do Fluminense contra a Portuguesa. Nunca imaginei que isso aconteceria”, rememora Mirão emocionado.
O que também motivava Mirão a continuar ajudando o ACP era a solidariedade dos atletas. Nos anos 1960, alguns chegavam a dividir tudo que recebiam com Mirão e Paulinho. “Tínhamos um grande meia-esquerda que foi para o Corinthians. O apelido dele era Paraná. Não ficava com nada do que recebia. Tinha uma situação financeira boa e se preocupava porque via que a gente ganhava uma mixaria. Se tenho alguma coisa hoje foi graças aos conselhos do Paraná, um cara que se preocupava com os menos favorecidos”, pontua.
O desportista não esconde a satisfação ao se recordar das conversas com o icônico Natal Francisco, fundador do Atlético Clube Paranavaí. “Era um velhinho muito bom que construiu o estádio com as próprias mãos. O filho dele, Tonico, jogava bem no ACP. Uma pena que em 1983 mudaram o estádio para o [distrito de] Sumaré. Os jogos eram muito bons, só que a torcida parou de acompanhar tanto o time. Nunca mais foi a mesma coisa”, reclama.
Para o desportista, quem também se tornou um dos nomes mais importantes do clube foi o jogador Chico Venâncio, o Biga, que à época chegou em Paranavaí sem grandes pretensões. “Ele veio pra jogar pelo Atlético e acabou virando treinador. Na realidade o Biga era mais que treinador, era o pai de todo mundo. Gostou tanto de Paranavaí que viveu aqui até os seus últimos dias”, defende. Pela dedicação ao esporte, Mirão recebeu em 2006 uma homenagem da diretoria do Atlético Clube Paranavaí e outra do Rotary Fazenda Brasileira. Além disso, o prêmio maior do Campeonato Amador de Futebol da Liga de Paranavaí leva o nome de Troféu Valdomiro Pereira.
O jogo mais marcante do Vermelhinho
Para Mirão, o jogo mais marcante da história do Atlético Clube Paranavaí foi contra o Atlético Paranaense em 1968. O ACP venceu por 2 a 1, com dois gols de Aluísio, um jogador do São Paulo que veio a Paranavaí por empréstimo.
“Busquei ele em São José do Rio Preto e depois tive que ir até São Paulo preparar a documentação na Confederação Brasileira de Futebol [CBF]. De lá, fui pra Curitiba entregar em mãos na Federação Paranaense de Futebol [FPF]. Até recebemos dinheiro do Coritiba pela vitória”, confidencia Mirão às gargalhadas.
Aluísio era um dos maiores jogadores da época. No entanto, seu salário era tão caro que conseguiram mantê-lo em Paranavaí somente por um ano. “Tinha mais de 100 pares de sapatos e mais de 100 camisas. Falou que jogaria pra nós, mas não aceitava ficar em república. Reunimos vários apoiadores pra pagar o salário dele”, garante.
Lacerdinha completa 40 anos
O desportista Valdomiro Pereira, o Mirão, que ajudou na construção do Ginásio de Esportes Antônio Lacerda Braga (Lacerdinha), fundado no dia 14 de dezembro de 1975, se recorda com saudosismo dos primeiros jogos há quase 40 anos. “A primeira disputa foi de handebol, nosso cartão de visita. Valeu a pena toda aquela correria, gente trabalhando 24 horas por dia. A prefeitura fez tudo no ‘grito’ e o ginásio ficou pronto em 100 dias. Tivemos o suporte do 8º Batalhão de Polícia Militar. Foi tudo muito bem organizado. Não dá nem pra acreditar que tínhamos ali o Colégio Marins [Alves de Camargo] e depois o [Colégio] Newton Guimarães”, comenta.
No mesmo ano, Mirão foi convidado pelo jornalista Saul Bogoni para coordenar em Paranavaí os Jogos Abertos do Paraná. À época, a cidade tinha uma das melhores seleções de handebol feminino do estado. “Fomos campeões estaduais em 1974 e em 1975. Em Paranavaí, era um esporte até mais popular que o futsal. Fiquei muito feliz em organizar os jogos porque Paranavaí chegou nas finais em quase todas as modalidades. Naquele tempo, só não conseguíamos superar cidades como Londrina e Curitiba. Ficamos em terceiro lugar no geral”, relata e acrescenta que Paranavaí foi a primeira cidade do Paraná a ter os jogos abertos transmitidos pela televisão. A cobertura da TV Tibagi mostrou o desempenho de atletas de 68 cidades.
O melhor time de futsal de Paranavaí
Com a experiência de quem acompanhou a evolução do esporte no Noroeste do Paraná, Mirão defende que o Demafra foi o melhor time de futsal de Paranavaí. “Era um time com boas condições financeiras, dava emprego para jogadores, mas tinha que ser bom. Ninguém passava dificuldade trabalhando para o Demafra. E tinha uma tática interessante que era misturar jogadores de campo e de salão. Não esqueço quando fomos campeões da Taça Tigre em Joinville [Santa Catarina], desbancando grandes equipes de todo o Brasil”, diz Mirão.
Na sequência, o desportista aponta o São Lucas como um bom clube, citando o desempenho da equipe em 2011, quando obteve o segundo lugar no Campeonato Paranaense de Futsal. Em 2006, a equipe ficou em quinto lugar. O clube também traz no currículo conquistas como o vice-campeonato da Taça Paraná em 1982 e o terceiro lugar em 1991. “Gostei muito do time que o São Lucas montou em 1994. É uma pena que não temos condições de segurar bons atletas”, lamenta.
“A sede da Liga de Paranavaí era dentro da minha Brasília”
No final dos anos 1970, quando tinha um escritório no Ginásio Lacerdinha, o chefe de transportes da Secretaria de Educação da Prefeitura de Paranavaí, Mirão, percebeu que a garotada tinha o costume de invadir o local para praticar vandalismo.
Em vez de repreendê-los ou chamar a polícia, ele usou uma tática diferente. Convidou a molecada a formar times e disponibilizou a eles uma hora diária de uso gratuito do ginásio. “Vou dar a vocês uma missão. Vocês podem jogar aqui, mas em troca peço que cuidem do ginásio. Não deixem ninguém fazer nada de errado aqui, tudo bem?” À época surgiram dois novos times em Paranavaí: o Time dos Engraxates e o Time dos Moradores de Rua.
Naquele tempo, a quadra do Lacerdinha era considerada a melhor do Paraná e Mirão se empenhava para evitar que alguém comprometesse essa imagem. “Eu e o zelador da época não deixávamos ninguém entrar na quadra usando kichute ou sapato. Eu fazia amizade com todo mundo, tanto que nunca mais nenhum garoto jogou pedra no ginásio”, garante. Uma vez Mirão levou ao Lacerdinha o célebre lutador Ted Boy Marino, atraindo um público de milhares de pessoas.
“A sede da Liga de Paranavaí era dentro da minha Brasília. Eu organizava o campeonato e os jogos. Fundei e fui presidente por 26 anos, inclusive hoje ela tem uma sala com meu nome – Valdomiro Pereira”, destaca em tom de orgulho. O desportista foi mesário por muitos anos, tanto no futebol de campo quanto de salão. Como trabalhava para a prefeitura de Paranavaí, muitas vezes atuava na arbitragem em finais de semana e feriados sem receber nada.
“Às vezes ligava gente de Curitiba para a prefeitura pedindo minha liberação para que eu fosse pra lá apitar em algum campeonato juvenil. Era bom porque entrava um bom dinheiro. Nos Jogos Abertos, por exemplo, eu ganhava em um mês o que equivalia a seis meses de salário na prefeitura”, segreda. Outro ponto positivo é que Mirão se divertia bastante. Encarava o trabalho como uma oportunidade de viajar e conhecer outros lugares.
Era um contraponto na rotina atribulada como chefe de transportes. Em Paranavaí, Mirão se responsabilizava pelos 14 ônibus da prefeitura usados no transporte de estudantes. “Tinha de ficar disponível das 4h às 23h. Se desse algo errado, saía com o mecânico atrás do ônibus. A gente cobria uma área de 900 quilômetros de estradas. Muitas vezes vim pra casa dormir lá pelas 11 horas da noite”, ressalta.
Frases de Valdomiro Pereira, o Mirão
“Temos o mau hábito de vender jogadores por preços muito baixos. Os atletas costumam sair daqui quase de graça. Só me lembro de uma exceção em 1968, quando vendemos o Didi para a Portuguesa. Foi uma negociação um pouco mais justa.”
“O São Paulo veio jogar aqui em 1959 e em 1965 foi a vez do Corinthians. Não esqueço também que o Ferroviária, de Araraquara já disputou um torneio em Paranavaí, assim como o Prudentina, de Presidente Prudente. Foi uma época inesquecível.”
“Com 16 anos eu jogava no time do Mário de Souza. Tinha bons jogadores. Aí fomos jogar contra o ACP e perdemos. Então decidimos acabar com o time.”
“Uma vez o treinador Muca encheu uma Kombi com jogadores de um time de Lins [no interior paulista] e trouxe pra cá porque o campeonato estava prestes a começar e o Atlético não tinha jogadores.”
“Sempre ajudei todos os esportes de Paranavaí. Não priorizava mais um ou outro. Só diminui o ritmo quando me aposentei depois de 32 anos trabalhando na prefeitura.”
Olha o cafezinho do amor…
Voluntárias da Igreja Internacional Emanuel preparam café da manhã para 1,2 mil pessoas toda semana

Voluntárias são unânimes em dizer que é muito gratificante e prazeroso participar do Café do Amor (Foto: David Arioch)
São 7h30 e na Igreja Internacional Emanuel seis senhoras bem animadas estão reunidas na cozinha preparando café, leite, chá e pão. Entre conversas, sorrisos e muita disposição em fazer a diferença, elas embalam os alimentos e armazenam as bebidas em garrafas térmicas. Essa é a rotina do grupo de voluntárias da igreja na segunda, terça e quarta-feira.
A partir das 8h, colocam tudo dentro do carro e levam ao Centro Regional de Especialidades (CRE), na Rua Rio Grande do Sul, ao lado da Santa Casa de Paranavaí. Usando coletinhos azuis, elas caminham sorrindo e distribuindo bom dia para todas as pessoas ao seu redor. Na entrada do CRE, são recepcionadas por uma jovem segurança que retribui a gentileza.
No local, o tratamento que recebem de funcionários e pacientes aguardando atendimento mostra que elas já fazem isso há um bom tempo. Algumas são chamadas até pelo nome quando passam carregando as garrafas térmicas, os copos brancos descartáveis e os pãezinhos.
Sem demora, elas desaparecem pelos corredores lotados, onde as pessoas abrem espaço para os “anjos”, como são chamadas por muita gente, passarem. Entre pedidos de leite, café e chá, o sorriso no rosto de quem toma o primeiro gole é tão gratificante que emociona e justifica o trabalho iniciado na cozinha da Igreja Internacional Emanuel antes das 6h.
Junto às voluntárias, observo a reação de muita gente que vem de outras cidades receber atendimento em Paranavaí e normalmente não tem dinheiro para pagar por um cafezinho nos bares e lanchonetes mais próximos. “É muito bom isso. Já conhecia elas. São gente fina”, diz o aposentado Manoel Francisco da Silva, de São João do Caiuá.
A desempregada Tainara Venâncio da Silva, de Paraíso do Norte, relata que para quem sai de casa antes do dia clarear o cafezinho ajuda a suportar a espera. “Vou ser atendido lá pelas 10h, então é uma coisa boa ter elas aqui. Faz tempo que fazem isso”, comenta o motorista Celso Lepre.
Enquanto converso com pessoas na fila, as voluntárias não param. Percorrem todos os corredores e anunciam a plenos pulmões: “Olha o cafezinho do amor…olha o cafezinho do amor…” A cada passo alguém estende a mão para receber um copo. “Isso aqui é gostoso demais. Excelente! O dia que eu puder, quero contribuir também com esse projeto”, declara o atleta João Alexandrino, conhecido como Garrincha, da Associação de Corredores de Paranavaí e Noroeste do Paraná (Acorrenor), sentado em uma maca segurando um copo recém-esvaziado.

Manoel Francisco e Garrincha elogiam o trabalho das voluntárias e a qualidade do Café do Amor (Fotos: David Arioch)
A fisioterapeuta do CRE, Luciara Fontana, não esconde o entusiasmo e sorri ao falar da importância do projeto Café do Amor. “Temos muitas pessoas carentes aqui e o café é uma forma de acolhimento. Acho o trabalho delas muito lindo”, enfatiza Luciara.
Depois do Centro Regional de Especialidades, que abriga o maior número de beneficiados pelo projeto, as voluntárias levam cafezinho para os pacientes da Santa Casa de Paranavaí, incluindo a Clínica de Olhos, e Pronto Atendimento Municipal (PA). “Nosso trabalho termina lá pelas 10h. São duas horas de preparo e duas de distribuição. Temos uma equipe de 11 pessoas, mas às vezes ficamos desfalcadas porque as voluntárias também têm outras responsabilidades”, informa a coordenadora Ilma Telles da Silva, acrescentando que o projeto foi criado há um ano e seis meses.
Projeto está precisando de doações e voluntários
Há um ano e seis meses, a coordenadora Ilma Telles da Silva apresentou a proposta de criação do projeto Café do Amor ao pastor Carlos Henrique Santos que gostou da ideia e ofereceu todo o suporte necessário. “Levamos 400 copos por dia. É um pouco difícil porque dependemos de doações, mas o projeto foi bem aceito desde o início e acho que outras entidades também poderiam fazer algo parecido”, avalia Ilma. As mulheres são unânimes em dizer que é muito gratificante e prazeroso participar do Café do Amor.

Para Tainara Venâncio, de Paraíso do Norte, o cafezinho ajuda a suportar a espera (Foto: David Arioch)
O que motiva mais ainda o trabalho das voluntárias é o vínculo criado com quem busca atendimento no CRE, Santa Casa e Pronto Atendimento Municipal. “Tem gente que chega aqui às 4h. Então já ficam na esperança de chegarmos lá por volta das 8h pra entregar o café. A expectativa envolve desde crianças até idosos”, garante Ilma que prevê a criação de um projeto para distribuição contínua de sopão em 2016, um trabalho já realizado esporadicamente na periferia de Paranavaí.
Questionada sobre o que as uniu em torno do projeto,
Ilma Telles argumenta que viu bastante gente percorrer longas distâncias para receber atendimento. Sem dinheiro, muitos chegavam a ficar até o dia todo sem comer nada. “É uma situação difícil e triste. Não podíamos ficar de braços cruzados. Hoje as pessoas dizem até que sentem nossa falta se ficarmos um dia sem fazer a distribuição”, revela Ilma sorrindo.
Atualmente o projeto mantido pela Igreja Emanuel e que recebe ajuda da Santa Casa de Paranavaí, por meio do diretor Héracles Alencar Arrais, e de alguns advogados, está aceitando doações e também o ingresso de novos voluntários. “Poderíamos preparar e distribuir o Café do Amor todos os dias se tivéssemos condições. Precisamos desde copos até embalagens e alimentos. Toda doação é bem-vinda”, pondera a coordenadora.
Uma vez por mês cinco voluntárias da Igreja Internacional Emanuel que participam do Café do Amor realizam um bazar beneficente. Todo o dinheiro arrecadado com a venda de roupas e calçados é destinado ao projeto. Para fazer doações ou tirar dúvidas, ligue para (44) 3045-4111 ou 9135-7665.
Equipe do Café do Amor
Ilma, Elza, Maria, Teresinha, Eurides, Marli, Célia, Val, Franciele, Sílvia e Natália.








