Archive for June, 2017
“Senti que Londres foi abençoada por sua amável consideração pelos gatos”
“O que me surpreendeu tanto quanto qualquer coisa eram os gatos gordos que dormiam pacificamente na entrada das lojas em Londres, enquanto as pessoas passavam por eles com cuidado. A Inglaterra deve ser a terra dos gatos, eles permanecem pacificamente por toda parte nas imediações de St John’s Wood.
Em Tânger [Marrocos] ou na Cidade do México, você quase não vê gatos tarde da noite, porque muitas vezes os pobres os pegam e os comem. Senti que Londres foi abençoada por sua amável consideração pelos gatos. Se Paris é uma mulher que foi violada pela invasão nazista, Londres é um homem que apenas fuma o seu cachimbo, bebe a sua stout e abençoa o gato tocando sua cabeça ronronante.”
Excerto de “Desolation Angels”, de Jack Kerouac, publicado em 1965.
Já tive sonhos em que incorporei os mais diferentes animais
Já tive sonhos em que incorporei os mais diferentes animais (inclusive um deles virou conto), ou seja, em que eu não era simplesmente um ser humano. São como presentes que recebo da vida para entender o que é enxergar para além da minha condição humana, das minhas necessidades.
Se meus olhos se voltassem para mim o tempo todo, talvez eu não fosse capaz de ver mais do que a mim mesmo por onde eu andasse. Não gostaria de andar sempre mirando os meus próprios pés. Me esforço para evitar isso.
A ficção pode ser mais real do que a “realidade”
A ficção pode ser mais real do que aquilo que as pessoas muitas vezes entendem como realidade. Pensemos na história dos estados e das cidades brasileiras. Não raramente há mais romantismo nas chamadas “histórias oficiais” do que nas versões qualificadas como ficcionais das histórias dos povos deste país.
Há muitos casos em que um escritor de ficção regionalista tem mais a dizer sobre a realidade do que um livro de história de viés unilateral e ultrarromântico. Além disso, a ficção é uma forma de transcrever a realidade sem o risco de ter que responder a processos impetrados por quem se dispõe a fazer o possível para que certas histórias não venham à tona.
Quando há muitos impedimentos em relação à narrativa fiel dos fatos, a ficção pode ser um belo caminho de reproduzir a realidade, seja ela alegórica ou fidedigna.
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“O gato não é humilde, traz viva a memória da sua liberdade sem coleira”
“Ele fixara em Deus aquele olhar de esmeralda diluída, uma leve poeira de ouro no fundo. E não obedeceria porque gato não obedece. Às vezes, quando a ordem coincide com sua vontade, ele atende mas sem a instintiva humildade do cachorro, o gato não é humilde, traz viva a memória da sua liberdade sem coleira. Despreza o poder porque despreza a servidão. Nem servo de Deus. Nem servo do Diabo.”
Excerto de “A Disciplina do Amor”, de Lygia Fagundes Telles, publicado em 1980.
Exposição e consequência
Quando você se expõe, sempre há o risco de ser atacado, mas, apesar de tudo, naturalmente é um preço ainda baixo a se pagar se o que você transmite é o que você tem de melhor. Às vezes, pode ser difícil lidar com as reações das pessoas, mas se você é honesto a si mesmo e aos outros a sua intenção sempre vai prevalecer.
Um gato no telhado
Existe um gato que mora no telhado. Ele nunca deixa ninguém tocá-lo. Observa a cidade dia e noite, passeando sempre pelo alto, jamais pelo baixo. Seus olhos são incomuns, como esferas de caramelo. Quando o observo tarde da noite, nem preciso ligar a luz porque o que o brilho dos seus olhos reluz perfaz um caminho que ilumina e satisfaz o que a curiosidade conduz.
Às vezes, ele muda de cor. Já o vi caramelo, preto, branco, castanho, verde, azul, púrpura, mas sempre o reconheço pelos seus olhos. Tentaram capturá-lo em vão, sempre em vão, porque ele não quer ninguém, não depende de ninguém. Dizem que tem um traço genético raro que remete aos seus ancestrais selvagens que viviam nas florestas que cercam o Rio Paraná.
Ele não aparece para todo mundo, mas todo mundo quer vê-lo. Os mais supersticiosos falam que quem toca o “gato de caramelo” é abençoado com muita alegria e fortuna. Já a fortuna do “gato de caramelo” é não ser tocado por ninguém. Jamais o viram comendo. Falam que ele se alimenta da luz do luar. Não duvido, porque algumas vezes o vi alheio a tudo, simplesmente mirando a lua que lançava sobre ele uma luz anilada que o fazia ronronar por minutos.
É um zíngaro dos telhados. Sim, eu o chamo de Zíngaro, porque acho que combina mais do que “gato de caramelo”. Ele nunca responde aos meus chamados, mas me observa com um olhar de quem não nega e não rejeita o fato de que aquele é apenas mais um dos nomes que recebeu ao longo de sua vida.
Sua idade? Não tenho a mínima ideia, mas sua postura revela a maturidade de um ancião. Talvez seja o gato mais velho do mundo, vivendo em um corpo jovem, ou talvez não, seja apenas um animal que rejeitou a vida doméstica. Será que ele é feliz? A verdade é que isso não importa, porque a felicidade é um parâmetro humano, não felino. Gatos vivem pelos seus próprios termos, e talvez nem vejam sentido na felicidade.
Quem sabe, Zíngaro desapareça nos próximos dias, e retorne no ano que vem. Ele sempre faz isso quando os humanos insistem na indesejada aproximação. O gato não teme ser notado, observado, mas nem por isso deseja ser mais uma vez domesticado. Como será que ele vê os outros animais cativos? Acho que ele não se importa com isso. Talvez entenda que aquela é a vida dos outros, não a dele.
Parece tão tranquilo na cumeeira, com as patas cruzadas, observando o silêncio na baixada. “Boa noite, Zíngaro!”, repito três vezes. Ele não responde, mas lança um último e longo olhar antes de saltar em direção ao telhado vizinho. Zíngaro corre, e vejo a ponta do seu rabo desaparecer. E com ele, toda a liberdade que a noite ajuda a enternecer.
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O que aprendi com meu pai vale por uma vida
Meu pai faleceu quando eu tinha 13 anos, mas o que aprendi com ele vale por uma vida; e isso nem o tempo é capaz de apagar. Sou grato por ter sido uma criança curiosa, atenta e observadora, assim os ensinamentos da minha infância podem me acompanhar até o fim dos meus dias.
A dor de uma pessoa é somente dela
Quando me sinto mal, normalmente penso que há pessoas em situação pior que a minha. Faz sentido? Sim. Resolve? Depende. Mas faço questão de fazer uma observação que considero importante. Muitas vezes há uma tendência a se comparar o sofrimento de uma pessoa com o das outras. Isso é justo? Nem sempre, e não deve ser um padrão.
Por isso, sou da opinião de que a dor de uma pessoa é somente dela, e só ela sabe o que isso representa em sua vida. Quando me coloco no lugar do outro, tenho como parâmetro tal reflexão: “A minha dor não é maior nem menor do que a de ninguém, ela é simplesmente a minha dor.” Isso basicamente diz muito sobre o que penso em relação à individualidade do sofrer.
Acredito que evitar comparações em relação à dor de alguém é importante, porque em vez de ajudar, na tentativa de mostrar a alguém que o seu sofrimento “é inferior ao de outro”, e por isso deve ser assimilado como tal, pode atrapalhar e muito. Nisso subsiste o risco de nivelar a dor do outro por baixo, como se fosse algo insignificante. E como podemos avaliar a dor de alguém quando não partilhamos do mesmo sentimento e experiência em dado momento?
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Machado de Assis X Balzac
Acho injusto quando vejo sites de notícias e de literatura dizendo que um escritor foi ou é melhor do que o outro. Há alguns meses, li um artigo em que alguns especialistas falaram que Machado de Assis foi muito maior do que Balzac, tratando-se de qualidade literária e retrato crítico da realidade.
Considero isso equivocado, até porque o estilo de Machado de Assis, por exemplo, foi influenciado por Balzac, e ele mesmo admitia isso; e nunca buscou tal comparação. Augusto dos Anjos, por vezes considerado por brasileiros como maior que Rimbaud, também admitiu influência daquele que foi um dos nomes mais enigmáticos e controversos do simbolismo. Sou contra esse ufanismo literário.
Não vejo razão em dizer quem é melhor que quem. São rivalidades desnecessárias, até porque os critérios são imprecisos, e nesse sentido pouco se leva em conta as particularidades de cada um, o ritmo de produção e o zeitgeist, que é o espírito de uma época. E não acredito que bons escritores escrevem para serem considerados melhores do que os outros. Creio que a intenção da maioria é sempre tocar o leitor, ser entendido pelo leitor, simplesmente isso.
A rivalidade na literatura surgiu com os críticos, e a crítica infelizmente não contribui em nada nesse tipo de debate, já que pouco interessa ao leitor quem foi maior que quem. O mais importante era e é o que cada escritor tem a oferecer.
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“Vou compartilhar as fotos íntimas dela na internet”
Há duas semanas, um amigo de longa data veio conversar comigo na hora do almoço. Me disse que foi traído pela namorada e que estava pensando em publicar fotos íntimas dela na internet, além de compartilhá-las pelo Whatsapp.
— Sério mesmo ou você está brincando?
— É sério sim.
— Então ela te traiu mesmo?
— Sim. Ninguém me disse. Eu vi tudo.
— Isso realmente não é legal. Mas compartilhar essas fotos vai reparar o erro dela?
— Não, mas pelo menos posso retribuir de alguma forma o que ela me fez.
— E como seria essa retribuição no seu entendimento?
— Ué, simples. Vou expor a intimidade dela e isso vai machucá-la de alguma forma, assim como ela me machucou.
— Tem certeza que existe alguma proporcionalidade nisso?
— Como assim?
—Ela o traiu, e por pior que você se sinta hoje isso ainda vai passar. Mas fotos íntimas, uma vez lançadas na internet, não desaparecem assim. Quero dizer, é natural que você tenha algum sentimento negativo em relação a ela. Mas agora você está exaltado, sente raiva, e sem dúvida não quer ser o único a se sentir mal diante de tudo, então sua primeira reação é a vingança. Você acha que ferir o outro pode te trazer alguma sensação de bem-estar. Só que infelizmente isso não vai acontecer. Se defender atacando nunca é uma coisa boa, e revela mais sobre suas fraquezas do que sobre as fraquezas dela. Deixe ela viver a vida dela e vá viver a sua. Você não precisa disso, menos ainda se você sempre foi um sujeito honesto e fiel a si mesmo. Por que macular isso com um comportamento nocivo?
— Sempre fui fiel a mim e a ela. Nunca fiz nada para que ela me sacaneasse e estou puto da vida.
— É compreensível. Mas reflita sobre um ponto. A sua raiva vai passar, e talvez daqui uma semana, um mês ou um ano você se arrependa de ter divulgado as fotos dela. O que você poderá fazer sobre isso? Nada, porque você não vai ter como impedir que as fotos dela continuem circulando. Você também não será visto como é hoje, e se você for realmente um bom sujeito, como sei que é, terá vergonha de si mesmo. Vale a pena? Você definitivamente não precisa disso. Nem deve fazer isso.
— E como eu fico nessa situação? Devo deixar quieto? Cara, eu vomitei quando vi os dois se pegando.
— Você fica como sempre ficou, sendo fiel ao que existe de mais verdadeiro dentro de você, e não se entregando a uma emoção arrebatadora, destrutiva e transitória.
— Não sei não, cara. Estou muito mal e preciso fazer alguma coisa a respeito.
— Então faça o seguinte. Me prometa que vai esperar uma semana, só uma semana antes de fazer qualquer besteira. Se você ainda estiver se sentindo da mesma forma então conversaremos sobre isso. Mas não faça nada antes, nada mesmo.
— Tudo bem. Vou tentar.
Na semana passada, ele me avisou que apagou todas as fotos íntimas da ex-namorada do celular, do PC e do notebook.
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