David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for June, 2017

Quando se reconhece que não só os humanos têm direito à vida

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Os olhos deixam de ser os mesmos quando vidas já não podem ser assimiladas e aceitas como produtos

A partir do momento que se reconhece que não somente os seres humanos têm direito à vida, desperta-se naturalmente para um novo tipo de sensibilidade e de reconhecimento do valor da existência. Os olhos deixam de ser os mesmos quando vidas já não podem ser assimiladas e aceitas como produtos.

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June 19th, 2017 at 1:32 am

“Não, Peru. Você não pode ficar aqui”

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“Quem sabe, no futuro, quando toda a gente deixar de ser preconceituosa”

Um cachorro entrou no mercado. Circulou por várias seções até encontrar um velhinho e uma velhinha. Enquanto alguns riam e outros achavam aquilo um absurdo, o senhor baixinho apontou o dedo para o cãozinho e disse:

— Não, Peru. Você não pode ficar aqui. Quem sabe, no futuro, quando toda a gente deixar de ser preconceituosa. Eles não sabem como você é limpinho e educado. Mas não há como explicar isso, não é mesmo? Quem vai dar razão pra gente? Ninguém ou quase ninguém. Logo nos encontramos lá fora, tudo bem? Não vamos demorar.

Depois de ouvir as palavras do velhinho, Peru balançou o rabinho, se afastou e saiu por onde entrou.

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June 19th, 2017 at 12:42 am

Você se lembra de mim?

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There Is Always Hope, Banksy

Perto do Banco do Brasil, um rapaz se aproximou de mim sorrindo e perguntou se eu me recordava dele.

— Lembro sim. Você ficou um tempo na rua, não?
— Sim. Então, parei com o crack, mano. Na verdade, parei com tudo.
— Que bom, cara. Muito bom mesmo saber disso.
— É…agora estou bem mesmo. Estou limpo desde o final do ano passado. Não tive nenhuma recaída e estou trabalhando também.
— Você é um exemplo. Pode ter certeza. Isso é uma grande notícia.
— Você acha que estou bonito?
— Está sim. Nem parece o mesmo cara.
— Recuperei todo o peso que perdi enquanto fumava pedra. Olha minha roupa limpinha e nova.
— Ficou muito bem em você.
— Comprei sexta quando recebi o pagamento.
— Que beleza.
— Fiquei mais de ano vagando pela rua, noiado mesmo. Você lembra que eu andava pedindo dinheiro, né?
— Lembro, claro que lembro.
— Isso já passou. Voltei a trabalhar como ajudante de marceneiro também. Tô feliz, cara, de verdade.
— Me desculpe se estou incomodando, falando demais.
— Que isso. Claro que não. É sempre bom receber uma notícia assim. Anima qualquer um com um pouquinho de sensibilidade.
— Valeu mesmo! Vou indo porque amanhã tenho que acordar bem cedo pra trabalhar.
— De nada, cara. Fique bem. Bom trabalho e siga o seu caminho.

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Written by David Arioch

June 19th, 2017 at 12:17 am

Uma lição de vida

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Sempre me emociono quando vejo o vídeo abaixo. Baita lição de vida. E pensar que esses animais são tratados como se fossem isentos de qualquer razão e sensibilidade. Basta pensarmos no uso hediondo deles em laboratórios, em vivissecção. Triste realidade.

 

Written by David Arioch

June 18th, 2017 at 9:12 pm

A mídia e o ódio

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Love Hate, de Zig Paintings

Li algo interessante sobre como a mídia é capaz de alimentar o ódio da população simplesmente repercutindo notícias negativas e sequenciais envolvendo crimes e violência. Conheço pessoas que buscam apenas esse tipo de notícia. Será que isso é saudável? E acredito que nem todo mundo reflete sobre o impacto que isso tem em sua consciência e em sua vida. O mundo pode ser cinzento, mas isso não significa que ele se resume a isso.





Written by David Arioch

June 18th, 2017 at 9:11 pm

Posted in Reflexões

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Nem todos os jovens que cometem delitos são irrecuperáveis

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Arte: Banksy

Me recordo que na minha adolescência eu e alguns amigos assistíamos aqueles filmes em que professores realizavam trabalhos de recuperação social dos piores estudantes em escolas dos Estados Unidos. Alguns alunos eram usuários de drogas, ladrões, entre outros. Isso emocionava toda a gente.

Achavam lindo ver aquela transformação na telinha. inclusive quando os filmes eram exibidos nas escolas, todo mundo ficava emocionado. Alguns até choravam. As pessoas amavam esse tipo de filme. Será que é porque era apenas ficção e se passava nos Estados Unidos? Quero dizer, se for algo real e próximos de nós, não devemos cogitar a possibilidade de um trabalho de recuperação?

Acredito que podemos sim. E posso citar como exemplo a minha experiência. Frequento a Vila Alta, um dos bairros mais pobres de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, desde 2009, onde tento contribuir como posso, e de forma voluntária. Quero dizer, não ganho nada pra isso. Nunca ganhei. Claro, a não ser satisfação em contribuir. Inclusive fiz reportagens, artigos e documentários sobre essa realidade.

Lá, conheci dezenas de garotos que já cometeram delitos, e muitos são recuperáveis. Posso citar inúmeros que não praticaram mais nenhum crime. Um deles mudou de vida depois que conseguimos uma mochila e uma porção de materiais escolares. Então, sim, em oito anos mantendo contato com jovens que já se envolveram em “coisas erradas”, posso dizer com alguma propriedade que vale a pena acreditar nessa molecada, nem todos estão perdidos. Se você não acredita, que tal se perguntar o que você pode fazer para ajudar a mudar isso?

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Written by David Arioch

June 18th, 2017 at 8:52 pm

Considerações sobre a violência

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A violência é uma forma de descontrole

Agressividade, violência, são formas de descontrole. Se você não tiver controle sobre isso, isso terá controle sobre você. E quando você achar que está dominando alguma coisa ao fazer uso da agressividade ou da violência, estará apenas sendo subjugado pelo que te priva da sua própria humanidade, sem que você perceba. As consequências disso podem ser o seu próprio definhamento.

Uma briga escusada que poderia ser evitada, mas que chega às vias da violência física, é sempre uma derrota, tanto para quem vence quanto para quem perde. Para quem perde, porque a violência física dificilmente é esquecida ou deixa de ser materializada em trauma ou grande frustração. Para quem vence, porque suplantado pelo impulso também provou que não teve controle sobre as próprias emoções, assim cultivando uma inimizade que pode perdurar por toda a vida.

Orgulho de bater em alguém. Por que eu teria orgulho de bater em alguém? O que muda o ser humano para melhor é tocar a sua consciência, não o seu corpo. Se bato em alguém, significa que não tenho mais nada a oferecer além dos meus punhos. Ademais, é estranho reconhecer que há quem revele desprezo e raiva por quem defende a não violência.

Sobre violência, faço questão de compartilhar uma história real que vivi aos 19 anos (Faz parte de uma crônica intitulada “Briga de Rua”). Acredito que não existe melhor forma de desarmar alguém do que subverter expectativas.

“Com 19 anos, fui colocado à prova num início de noite na Avenida Paraná, em frente à antiga Imobiliária Gaúcha, onde alguns amigos marcaram um encontro. Na realidade, era uma armadilha de jovens ébrios. Chegando lá, um deles inventou histórias a meu respeito. Me provocou em vão, pois não reagi. Em silêncio, observei as atitudes dos três que me instigavam a brigar. Sem mover os pés da calçada, me mantive calmo num ambiente hostil. Ainda assim, um deles se aproximou de mim e acertou um soco na minha boca.

O sangue escorreu pelos meus lábios espessos. Experimentei a queimadura do corte no canto superior direito. Na mesma posição, passei o polegar direito pelos lábios, vi o sangue denso, levantei meu dedo banhado em carmesim e perguntei: “Cara, por que você fez isso? É uma pena…” Meu amigo Edson quis bater no agressor, só que eu o impedi porque nada naquele momento me causava medo. “A Morte tinha desaparecido de sua frente e em seu lugar via a luz”, refleti, lembrando-me de Ivan Ilitch, de Tolstói.

Contrariando todas as expectativas, me calei, lavei minha boca em uma torneira instalada no mesmo local e fui em direção à Praça dos Pioneiros, retornando com a roupa avermelhada em algumas partes. Não senti raiva, apenas um misto de pesar e náuseas. Em casa, o sangue foi lavado com lágrimas pachorrentas que já não se repetiam mais. Observava no espelho a abertura no lábio com olhos grandes, então amiudados, e o palato esbraseado pela nebulosa bonomia. Tudo que era palpável no fundo era impalpável. Ao longo de 10 anos, assisti cada um dos envolvidos no episódio aparecer no portão de casa pedindo desculpas.”

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Written by David Arioch

June 18th, 2017 at 8:40 pm

A transformação de um ex-líder de um grupo racista dos EUA

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Mudança radical de Bryon Widner

Bryon Widner era um dos líderes de um dos grupos racistas mais violentos dos Estados Unidos. Seu corpo era todo coberto por tatuagens que faziam apologia ao racismo e à violência em suas mais variadas formas. Um dia, ele percebeu que se continuasse nesse caminho não viveria muito tempo. Então decidiu mudar de vida.

Uma entidade conseguiu patrocínio para a remoção da maior parte das tatuagens de seu corpo. Ele passou por 25 cirurgias. Nesse ínterim, teve a oportunidade de reencontrar um dos homens negros que espancou. Widner pediu desculpas e o rapaz comentou: “Eu já o tinha perdoado.”

Para conhecer a história de Bryon Widner, assista ao documentário “Erasing Hate”, lançado em 2011 por Bill Brummel:

http://documentarylovers.com/film/erasing-hate/

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Written by David Arioch

June 18th, 2017 at 6:34 pm

Gandhi, Martin Luther King, Coretta King e a não violência

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Gandhi, Martin Luther King e Coretta King – três símbolos da não violência

Gandhi defendia a não violência, e o seu assassino foi morto por enforcamento. Ele nunca quis isso, mas ignoraram seu último pedido antes do suspiro final. Martin Luther King foi assassinado e sua esposa Coretta King jamais cogitou que a família fizesse justiça com as próprias mãos. A história mostra que há exemplos de seres humanos que viviam plenamente a não violência. Não era apenas discurso ou retórica.

Em 1942, quando ainda era uma criança, Coretta viu a própria casa ser incendiada por um grupo de brancos racistas no Dia de Ação de Graças. Apesar disso, seu pai, assim como seu avô, jamais sentiu ódio ou tentou se insurgir contra os agressores. “Seu exemplo de perdão ampliou minha compreensão de que devemos ter o compromisso de usar o amor para triunfar sobre o ódio”, ponderou.

 

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Written by David Arioch

June 18th, 2017 at 6:25 pm

Uma gatinha bem linda

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Comet, de Cara Bevan

Passei na casa da minha tia e, para minha surpresa, lá havia uma gatinha bem linda. Meu primo Felipe que a resgatou. Ela parecia tão doce deitada em sua caminha que acabei por fazer algumas carícias.

Ela ronronava e quase sorria pra mim. Empolgado, logo pensei: “Vou fazer um carinho nela com a minha barba.” Depois de duas acariciadas, a gatinha deu uma dentada na minha barba e uma unhada na minha orelha direita. Bateu um desespero tão grande que imaginei que ela já estava mastigando 1/3 da minha querida barba.

Quando a coloquei no chão, comemorei por continuar com a barba intacta, com exceção de alguns fios que ela arrastou como se fosse megahair de bigode. A gatinha ainda me olhou com expressão de satisfação e se afastou, chicoteando o ar com o rabinho cor de caramelo.

Assim que cheguei em casa, sentei em minha poltrona e Kali saltou sobre mim. Quando sentiu um cheiro estranho, me deu duas unhadas no pescoço, subiu sobre a mesa e saltou janela afora.

 

Written by David Arioch

June 17th, 2017 at 7:40 pm