Archive for the ‘Críticas’ Category
A recompensa e o medo da danação
“E se as pessoas soubessem que não ganhariam nada por serem boas?”
Ao longo da minha vida, tive contato com diversas religiões e algumas antagônicas em certos aspectos. Fiz catequese e participei de escolas dominicais na minha infância e nos primeiros anos da adolescência. Até para minha surpresa, eu costumava estar entre os melhores alunos, embora minhas dúvidas soassem acéticas ou dignas de um infiel para alguns ou muitos. Ainda assim, eu não hesitava em refletir profundamente sobre o que lia e ouvia. Mesmo pequeno, não tinha facilidade em absorver qualquer coisa como verdade inquestionável.
O comportamento humano já me intrigava naquele tempo porque para além das cortinas de fé eu percebia algo nas pessoas que me parecia estranho e paradoxal. “Seja um bom menino que mais cedo ou mais tarde a recompensa aparece”, me diziam muitos quando eu ainda era criança. E esse discurso se repetiu muitas outras vezes e das mais variadas formas. As palavras mudavam, mas não deixavam de transmitir a mesma mensagem. Até que um dia eu comecei a me questionar.
“E se as pessoas soubessem que não ganhariam nada por serem boas? Se descobrissem que se trata de um dever como ser humano e simplesmente isso? E se após a morte lhe fosse reservado um lugar ao lado daqueles que você considera descrentes, ruins e degenerados? Você ainda faria tudo que fez? Seria realmente a mesma pessoa? E se não houver recompensa, não há motivo para ser bom ou justo?”
Me deparo todos os dias com pessoas que sustentam a própria fé e a ideia de fazer o bem como uma moeda de troca para ser beneficiado no futuro ou no pós-morte, como se Deus tivesse assinado algum termo de responsabilidade ou de indenização pela vida terrena que muitos depreciam na ânsia pelo paraíso. Como não encarar isso como uma forma de mercantilização da bondade? Por que não ser bom porque é sensato e condiz com a natureza humana quando ela não é subtraída da própria essência?
Acredito de fato que o ser humano é naturalmente benevolente, quando não o é significa que em algum momento suas características naturais foram corrompidas. Também penso que o justo nem sempre é verdadeiramente justo por um senso moral, por um senso altruísta. Muitas vezes a bondade nasce do medo da punição, da danação, de ser relegado à escuridão eterna. “Foi tarde. Tá ardendo no inferno, no colo do capeta”, já ouvi copiosamente. E que autoridade tem alguém em afirmar isso? Ou até mesmo desejar o mal a alguém? Quem somos nós para definir o que as pessoas merecem?
Diversas religiões falam que o fiel, o bom, ganhará os céus. Mas ser devoto de uma religião não significa ser bom e vice-versa. A bondade, como a caridade, independe de religião. Ela precisa fluir sempre de dentro do ser humano para fora, e mesmo distante de uma igreja há quem faça ela prevalecer até mais do que a de um suposto fiel. Crer que é melhor por ter uma religião reafirma apenas uma posição de devoto de ocasião.
Muitas vezes também li e ouvi pessoas afirmando que Deus há de punir seus desafetos porque ninguém “mexe com um servo ou serva de Deus”. Aí então surge uma curiosa distorção de crenças em que o religioso se coloca numa posição de deidade enquanto a Deus é delegada a função de subserviência, como um servo que deve atender aos caprichos de alguém com uma visão distorcida e particularista de justiça. Assim há seres humanos que não apenas se veem como merecedores de recompensa, mas vão muito além – eles a exigem em retribuição à fé que afirmam possuir incondicionalmente.
A importância da tolerância em tempos sombrios
A maneira como nos expressamos diz muito mais do que imaginamos

“São exatamente os predicados negativos que afetam não apenas nós mesmos, mas todos à nossa volta” (Acervo: Geledés)
Nos últimos dias, algumas pessoas me perguntaram o que eu acho do momento político que vivemos no Brasil. O que eu acho? Acho que existe passionalidade demais de todos os lados, o que na realidade não me surpreende, já que essa é uma característica comum do brasileiro – a de se deixar levar pela emoção, de se exaltar. Há predicados bons e ruins. Mas são exatamente os negativos que afetam não apenas nós mesmos, mas todos à nossa volta.
Quando digo que muitos são dominados pela passionalidade, me refiro em específico ao fato de xingarem e repercutirem a esmo publicações que pouco contribuem para um debate. Exemplo são os textos que partem diretamente da conclusão, que não permitem abertura para o leitor trilhar seu próprio caminho. Esse tipo de material costuma ser deletério porque na realidade ele não te instiga a pensar, mas sim a compartilhar e defender uma opinião já definida.
Sim, somos arrogantes e pernósticos todas as vezes em que dividimos uma opinião impositiva, logo autoritária, que não permite qualquer tipo de diálogo ou discussão saudável. A realidade é que vivemos tempos sombrios, em que alguém é capaz de desqualificar o outro, seja nas suas particularidades profissionais ou sociais, por causa de uma opinião ou posição política. Quando alguém age assim, uma questão sempre ecoa pela minha mente: “Será que esse sujeito já pensou que, em menor ou maior proporção, ele absorve cultura de alguém que pensa completamente diferente dele?” Seja por meio de filmes, livros, músicas, etc.
De um lado, vejo pessoas que compartilham frases de Gabriel García Márquez e Julio Cortázar xingando quem se identifica com políticas de esquerda. Do outro, pessoas parafraseando Jorge Luis Borges e Mario Vargas Llosa e ofendendo quem se alinha com políticas conservadoras. O ser humano pouco percebe o quanto recai em contradição quando condena alguém por suas disparidades.
Se você é estoico a ponto de desprezar ou odiar alguém por sua posição política, acredite, você vive uma ilusão, já que é impossível, ainda mais com o advento da globalização, se privar de reconhecer valor em algo gestado por alguém que vá na contramão de sua inclinação política. Você pode não saber, mas você é sim influenciado por pessoas muito diferentes de você em inúmeros aspectos, inclusive políticos. E compreender a complexidade disso é o primeiro passo para entender a importância da diversidade.
Não é novidade que nas mídias sociais pululam muitas ofensas gratuitas, xingamentos ostensivos, desnecessários e generalizados por causa de política. Porém, quem deve ser julgado são os políticos, mas dentro da legalidade, não pessoas que apenas fazem valer o seu direito de pensar diferente de mim ou de você, independente do nível de influência que elas tenham.
Considero a situação preocupante porque me surpreendo cada vez mais com a baixeza das publicações na internet. Pessoas disseminando ódio, trocando ameaças, entrando em conflito com amigos de longa data, tudo isso por indisposições que muitas vezes não chegam nem a ser ideológicas.
Acho justo e imprescindível não rotular pessoas por suas opiniões políticas. A defesa de algo em um momento específico pode e também deve ser encarada como resultado de uma avaliação contextual, ainda mais quando os envolvidos são apartidários. Se você não é capaz de aceitar isso, talvez você não esteja preparado para viver em sociedade.
Hoje em dia, mesmo com todas as facilidades advindas das novas formas de comunicação, muitas pessoas estão mais preocupadas em entrar em conflito por nada ou quase nada – simplesmente porque há uma crença de que algo dentro de você fará com que você se sinta inferiorizado se você não se manifestar, mesmo que de forma obtusa.
Muitos se mostram dispostos a exercer violência – até matar ou morrer por causa de política. Acredite, se você está preparado para chegar a esse ponto significa que você não defende de fato a democracia. Na era da guerra da informação, supor que a solução seja a irrupção de uma guerra nos moldes mais antigos é um retrocesso descomunal, desconsiderado até mesmo por militares que participaram da deposição de Jango em 1964.
Quando você tiver vontade de xingar ou ofender alguém por causa de política, não se esqueça que vivemos em um país democrático onde a maior parte da população quer o fim da corrupção e da impunidade. Não é motivo o suficiente para pelo menos perseverar o respeito? Políticos e seus asseclas são minoria em um país com mais de 200 milhões de pessoas; e muitos são capazes de qualquer coisa para segmentar a população, assim como aconteceu em muitos países.
Outro fator a se considerar é que não se estimula alguém a refletir com xingamentos. Quer que levem sua opinião a sério? Argumente. Do contrário, será apenas mais um desabafo fragilizado ou ofensa vazia. A maneira como nos expressamos diz muito mais do que imaginamos. A forma como você apresenta uma linha de raciocínio pode desqualificar todo o conteúdo se ele transparecer excessos como jactância, intransigência, destempero e excesso de vaidade. Seja tolerante. A tolerância é uma das qualidades mais importantes do ser humano porque ela assegura a manutenção da vida.
Não confunda skinhead com bonehead

Derrick Morgan, até hoje lembrado como um dos maiores nomes do movimento skinhead (Foto: Reprodução)
O rapaz da foto é o jamaicano Derrick Morgan, um dos maiores expoentes do movimento skinhead. Na juventude, ele fez importantes parcerias com músicos como Desmond Dekker, Bob Marley e Jimmy Cliff.
Levando isso em conta, acho válido enfatizar que a cultura skinhead em essência nunca defendeu o uso de violência, muito menos qualquer forma de racismo ou preconceito. Esse tipo de conduta é inerente aos boneheads, um movimento completamente diferente que inclusive se apropria de forma equivocada e ilícita da palavra skinhead, um termo hoje totalmente vulgarizado e descontextualizado por causa da desinformação.
Por isso é muito importante não chamar de skinhead qualquer careca que incentive a violência. Sem dúvida, é uma ofensa tremenda e uma grande injustiça contra muita gente não só do Brasil, mas do mundo todo que contribuiu e continua contribuindo com os ideais de liberdade do movimento. Para quem quiser entender a real história dos skinheads, sugiro que assista ao filme “This Is England”, do cineasta inglês Shane Meadows. Originalmente, os skinheads se identificaram com gêneros musicais como rocksteady, reggae, soul, ska e mais tarde punk-rock.
O mundo seria um lugar melhor sem religiões?
Não há como afirmar que o homem não encontraria outros meios de segregação que compensassem a ausência religiosa
Conversando sobre dialética com um amigo, ele me fez uma pergunta interessante. “Você acha que o mundo seria um lugar melhor sem religiões?” Respondi que acho que seria diferente, não sei se seria melhor. Então pediu que eu explanasse o que penso. Bom, o ser humano é segregacionista por natureza. A partir do momento que nasce, ele é instantaneamente inserido em um contexto social, logo se torna parte de um meio. Sendo assim, tudo que ele faz, de algum modo, tende a incluir e ao mesmo tempo excluir pessoas. Na realidade, todos nós somos segregacionistas.
Há um equívoco muito grande quando se fala em segregação e logo se pensa em preconceito racial ou mesmo racialismo. Vai muito além disso. Até mesmo quando defendemos boas causas somos segregacionistas, pois levamos em conta nossas preferências, conhecimento e experiências de vida para definir o que merece e o que não merece a nossa luta e o nosso tempo. Claro que isso não deve minimizar o esforço de ninguém, mas obviamente merece uma reflexão.
No fundo, o que fazemos é isso, segregar pessoas, sob os mais diferentes aspectos. Temos uma tendência nada equitativa de uni-las e ao mesmo tempo separá-las. Vou citar um exemplo bem simples. Em algum momento da vida, quando alguém convida uma pessoa para fazer parte de um grupo, é possível que se perceba somente o lado positivo, a integração. Na contramão, você também pode estar trazendo a pessoa para um grupo com a intenção de privá-la de fazer parte de outro. Ou talvez algo assim aconteça até involuntariamente.
A verdade é que a partir de suas ações ao longo da vida, mesmo que indiretamente, você define quem vai conhecer, quem merece e quem não merece estar próximo de você. É comum as pessoas optarem por evitar alguém com quem nunca conversaram. No mundo que vivemos a segregação surge de muitas formas. Até mesmo no olhar. Todos os dias nos deparamos com pessoas sendo segregadas pelo gosto musical, visão política, religião, nível cultural, fisionomia, roupas, tipo de cabelo e postura, além de outras dezenas de exemplos que poderiam ser citados.
Como resultado de um meio, começamos a fazer isso logo na infância, quando excluímos uma criança por algum motivo banal. Parece que passamos a vida em busca de aceitação e de aliados, o que não deixa de ser uma forma de guerra social. É inerente ao ser humano encontrar meios de se sentir especial e diferente. Em um nível mais crônico, há ainda a ânsia por fazer parte de um grupo que o faça sentir-se “superior”. Existe um grande desejo de ser observado, de existir socialmente, mesmo em grupos considerados antissociais e até religiosos.

Temos mais de 10 mil religiões no mundo todo, segundo o Boletim Internacional de Pesquisa Missionária (Arte: Kal)
É exatamente o que acontece hoje em dia em mídias sociais. No Facebook, todos os dias vemos pessoas criando grupos, páginas, se empenhando em aumentar o seu círculo virtual de amizades e também em conquistar o maior número possível de “curtidas”. Por outro lado, vemos muita gente desprezando, insultando e banindo quem pensa diferente. Mas aí alguém pode perguntar. “Ok, mas qual é a relação disso com um mundo ser melhor ou não sem religiões?” Bom, na minha opinião, tem tudo a ver. Religiões unem e segregam pessoas há milhares de anos, mas elas não são as únicas a fazerem isso.
Claro, hoje temos mais de 10 mil religiões no mundo todo, segundo o Boletim Internacional de Pesquisa Missionária, publicado em 2012, o que é um indicativo de que a segregação cresce a cada ano e reforça sua posição multifacetada. Então o amigo em questão me perguntou se eu acredito que há alguma razão específica para um número tão alto. Muitas religiões e igrejas surgiram a partir de um viés curioso, a dissidência. Ou seja, novas formas de segregação que nasceram dentro das próprias instituições religiosas fizeram com que por incompatibilidade de ideias e condutas muitos optassem por criar suas próprias igrejas e religiões.
Vivemos uma época em que principalmente na internet muita gente critica todas ou algumas religiões, qualificando-as como os grandes males da humanidade. Há uma crença de que o mundo seria muito melhor sem igrejas e sem religiões. Supõe-se que as pessoas realmente viveriam em harmonia e se respeitariam, pois as diferenças diminuiriam ao ponto de renascer um mundo de paz. Em teoria, parece algo bonito, e que sem dúvida lembra a canção “Imagine”, de John Lennon.
No entanto, distante de uma visão romanceada e mais realista do mundo, acredito que isso seja não apenas utopia, mas também a simplificação e superficialização dos problemas do mundo. Na ausência das religiões, não há como afirmar que o homem não encontraria outros meios de segregação que compensassem essa ausência, até porque surgiria um embate com a questão existencialista humana que é a inerência à fé e à crença, mesmo quando não direcionada a Deus.
Em síntese, admito que as religiões também têm peso negativo sobre a vida em sociedade, mas não podem ser responsabilizadas por todos os males da humanidade, até porque desde o início da civilização vemos nossos ancestrais distorcendo bons preceitos coletivos para benefício individualista. Infelizmente, é algo que acontece em todas as esferas da vida em sociedade e não apenas na religião. Ao longo dos séculos, quantas teorias e ideologias que nasceram de boas intenções perderam o seu valor pela distorção conceitual ou popularização da sua pobreza prática?
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
Garota de programa, intemperança e transtorno de personalidade

Está cada vez mais fácil encontrar pessoas com transtorno de personalidade no meio virtual (Foto: Francesco Pirrone)
Hoje, li uma notícia sobre uma moça que atuava como garota de programa em Uberlândia, Minas Gerais. Ela foi assassinada porque chegou atrasada ao encontro com um cliente. No Facebook, um homem com cerca de 35 anos e uma foto de perfil em que aparece sorrindo com dois filhos e a esposa comentou exatamente o seguinte: “Que sirva de exemplo para essas quengas kkkk.”
E há quem se pergunte o que existe de errado na sociedade atual. Pessoas aparentemente normais, bastante sociáveis, muitas vezes se tornam irreconhecíveis na internet. Alimentam a intolerância e deixam bem claro que nutrem desprezo pela vida daqueles que lhes são diferentes.
Se você é afeiçoado à generalizações, incapaz de dialogar abertamente ou de aceitar e discutir diferenças sem apelar para clichês, estereótipos ou senso comum, há grandes chances de que você seja um inimigo do conhecimento e do livre-arbítrio.
Infelizmente, ter uma visão limitada do que deve ou deveria ser o mundo revela um tipo peculiar de intemperança e até de megalomania. No fundo, todos nós temos nossos pré-conceitos e preconceitos. No entanto, o problema se torna crônico quando nos recusamos a entender ou analisar em profundidade algo que poderia nos tornar pessoas melhores.
Hoje em dia, o que tem chamado muita atenção de estudiosos do comportamento humano é a tal dissonância entre quem você é na internet e quem você é fora dela. É um assunto preocupante porque nos últimos anos descobriu-se que em âmbito online houve um crescimento imensurável dos mais diversos tipos de transtorno de personalidade.
Para situar melhor, acho plausível citar um exemplo que considero o mais comum na atualidade. Se uma pessoa conversa com outra fora da internet e a primeira diz que a segunda age de modo completamente diferente quando está online, surge aí um grande indício de que a segunda sofra de algum tipo de transtorno de personalidade.
Acredito que hoje a vantagem é que comportamentos suspeitos são facilmente monitorados pela internet. Então quando uma pessoa tem uma atitude nociva em uma mídia social ou faz apologia à violência, ela não apenas mostra quem realmente é como também pode correr o risco de um dia ser responsabilizada por um comentário inconsequente.
Violência, psicopatia, justiça e individualismo

Em Maringá, motorista perseguiu uma moto e causou uma tragédia por motivo torpe (Foto: Blog Leandro Oliveira)
Ontem à noite, em Maringá, no Norte do Paraná, um motociclista atingiu o retrovisor de um Volkswagen Golf próximo ao Parque do Japão. Irritado, o motorista de 24 anos perseguiu o motociclista, atingiu a moto e a arrastou por metros. O rapaz de 18 anos que estava na garupa da moto faleceu no hospital e o condutor de 21 anos segue em estado grave. É mais um caso que revela claramente a falta de empatia das pessoas, a incapacidade de se colocar no lugar do outro, reconhecer falhas e ser tolerante com as vicissitudes do mundo atual.
Há estudos afirmando que 1% da população mundial possui transtorno de personalidade antissocial. Ou seja, 70 milhões de pessoas. Será mesmo que esses dados são precisos? Se levarmos em conta os fatos do cotidiano, não é difícil inferir que nos deparamos todos os dias com os mais distintos casos de manifestações de sociopatia e psicopatia. Sendo assim, é difícil crer que há somente 70 milhões de pessoas com tal transtorno em meio a uma população de sete bilhões. Livros como “The Sociopath Nextdoor”, lançado por Martha Stout em 2006, e “Snakes in Suits: When Psychopaths Go To Work”, de Paul Babiak, de 2007, reforçam o meu raciocínio e fazem refletir sobre a possibilidade do número de psicopatas chegar a pelo menos 10%.
Há mais de 20 anos, muitos pensadores da chamada hipermodernidade preconizaram que isso aconteceria hoje em dia. O mundo está se tornando um semeadouro de impaciência e todos os dias pessoas perdem um pouco mais de sensibilidade e plasticidade. A cada ano que passa a vida vale um pouco menos. Muitos se consideram aptos a decidir quem merece viver e quem merece morrer.
Mas o problema maior subsiste no fato de que com o crescimento dessa linha de pensamento é inevitável pensar na possibilidade de que o mundo pode se tornar um lugar muito pior. Vejo isso como um retorno ao primitivismo. Já não é mais velado o desejo do retorno da Lei de Talião, do Código de Hamurabi.
A violência insufla as pessoas de um tipo peculiar de medo que faz com que elas matem ou desejem a morte de outrem não porque acham que é a única forma de sobreviver, mas sim porque são alimentadas diariamente pela ideia de que a vida tem pesos diferentes e valores estimáveis.
No início dos anos 2000, me recordo que em âmbito acadêmico ainda se falava muito em disfunção narcotizante que é a incapacidade de se sensibilizar com a violência a partir do momento que ela se torna fato recorrente do cotidiano. Por exemplo, é o caso de uma criança que convive com assassinatos e por isso em certo ponto da vida os considera normais.

Muitos são alimentados diariamente pela ideia de que a vida tem pesos diferentes e valores estimáveis (Arte: Reprodução)
Mais de dez anos depois, o problema se tornou um pouco mais grave. Há muitas pessoas que não apenas consideram a violência como algo intrínseco à realidade, como acham justo tomar parte dela. É aquela consciência de que se as leis não funcionam corretamente, posso criar as minhas próprias. Ou seja, serei o senhor de meus atos e ninguém terá o direito de me deter, já que rejeito e condeno os mecanismos de justiça da atualidade.
Outro agravante é o fato de que se todos alimentarem um senso de justiça individualista, não há de tardar para as pessoas menosprezarem um pouco mais a vida. Sendo assim, um indivíduo pode achar justo matar alguém porque invadiu sua casa. Outro pode considerar plausível assassinar uma pessoa porque lhe deve dinheiro ou porque arranhou a pintura do seu carro em um acidente. O justo seria um criminoso aos olhos do injusto e vice-versa. Sendo assim, não seria tão obtuso acreditar no futuro como o prólogo do fim da humanidade.
Desigualdade, empatia, descomedimento e humanidade

Ofxam International alerta que 50% das riquezas do mundo estarão nas mãos de 1% da população mundial em 2016 (Foto: Reprodução)
A Organização Não Governamental Oxfam International divulgou esta semana uma pesquisa revelando que há grande probabilidade de que até o ano que vem 1% da população mundial assuma o controle de 50% das riquezas do mundo.
Acredito que a ideia da Oxfam seja propor um debate sobre o assunto, claro que já deixando transparecer uma crítica prenunciando os desdobramentos mais severos do que chamam hoje em dia na Europa de bancarrota social, só para ser o mais objetivo possível na minha análise superficial. Daí em redes sociais surgem pessoas com comentários de campina envolvendo meritocracia ou indo um pouco mais além e declarando:
“É isso aí, também quero fazer parte desse 1%”, “Fala mal, mas queria estar no lugar deles” ou “Se não consegue se juntar a eles é porque não tem capacidade pra isso.” São comentários que poderiam simplesmente ser qualificados como individualistas, triunfalistas, egocêntricos, mas não é só isso. Está além disso.
É possível fazer uma observação usando a empatia como exemplo. Sim, ela parece cada vez mais fortuita como mostra a internet, principalmente em mídias sociais como Facebook. Chega a ser digna de abjeção em muitos casos. Diuturnamente, sofre por ser extirpada e privada da própria semântica.
Hoje em dia, na chamada hipermodernidade, é grande o número de pessoas que se colocam numa posição de figura proeminente do digitalismo. Há opinião para tudo e sobre tudo, mesmo sobre aquilo que sequer dedicou alguns minutos de pesquisa. É preciso cultivar um mínimo de senso laborial.

A ausência de empatia aliada a outros fatores exemplifica bem porque é tão difícil diminuir as desigualdades sociais (Foto: Reprodução)
Mídia social se tornou território fértil dos tribunais online. Tudo há de ser julgado com embasamento em senso particularista, “moral” que se confunde muitas vezes com amoral e imoral, e principalmente empirismo inconsistente. Na ausência do confronto físico, é comum o pensamento de que não há motivo para ser educado ou respeitoso. Na realidade, o descomedimento é atroz, “natural” em conceito distorcido e pluralizado.
Quem age de maneira inquisitória ou negligente costuma não ter dúvidas porque nunca teve perguntas. Se contenta com meias certezas, meias verdades de um mundo talvez até plano, como defendia Ptolomeu nos tempos do Renascimento. É alguém que refuta a complexidade, se nega a aceitar o poder da subjetividade, as nuanças que podem travestir mentira de verdade e vice-versa. Esses mesmos indivíduos não acreditam na possibilidade das divergências complementares das forças que regem o pensamento humano.
O Facebook nos prova que há quem prefira o anacronismo de um mundo paralelo e falsamente simplificado. Muitos não permitem discussões construtivas nem críticas. Aprendi na adolescência que crítica se fundamenta em argumento, desde então tomo isso como um referencial do que fazer, mas principalmente do que não fazer.
Numa sociedade tão desnivelada, e ainda fortemente influenciada pelo fatalismo e determinismo, acredito que o ser humano há de continuar perseverando como grande exemplo e símbolo do que eu acho adequado chamar de paradoxo existencial. No entanto, o que mais preocupa é que hoje em dia muita gente ensaia a própria humanidade, pois optou por se despir dela. Sendo assim, cresce a incapacidade humana de verdadeiramente sentir-se humano.
Charlie Hebdo, Siné e liberdade de expressão
Dizem que o jornal francês Charlie Hebdo defende a liberdade de expressão acima de tudo. Tudo bem. Então por que demitiram o cartunista Siné em 2009? O demitiram porque ele fazia críticas ao semitismo. Ou seja, assim como muitos veículos de comunicação, o Charlie Hebdo também tem seus interesses bem definidos, e não se trata apenas de liberdade de imprensa.
É algo mais subjetivo, embora muita gente prefira encarar a situação sob uma perspectiva simplista e radicalmente maniqueísta. Há pessoas até divagando e comparando os cartunistas ao Carlos Martel, o tal herói que livrou a Europa da expansão islâmica na Idade Média. O que chama atenção também é que o jornal lançou três milhões de exemplares em 16 idiomas na edição seguinte ao atentado em Paris, no dia 7 de janeiro de 2015. Uma enorme discrepância com a edição anterior, limitada a 60 mil cópias.
Mesmo sediado em Paris, o Charlie Hebdo sempre foi considerado um veículo com um orçamento modesto, tanto que enfrentou inúmeras crises financeiras para não fechar as suas portas. Sendo assim, quem financiou isso tudo? E com qual interesse?
A mídia tradicional não funciona sem geração de lucros e muito menos com dívidas. Visibilidade e comunicação se constituem em formas de poder, logo é difícil crer que o foco do semanário satírico seja apenas a liberdade de expressão. Torço apenas para que a tragédia do ano passado não tenha sido usada para alimentar interesses escusos.




