David Arioch – Jornalismo Cultural

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O centenário de nascimento de Sebastião Bem Bem

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Roza de Oliveira: “Nunca vi outro político assim, que não quer usar dinheiro público”

Sebastião Bem Bem foi vereador na época em que não se ganhava nada para exercer a função (Foto: Acervo Familiar)

Sebastião Bem Bem foi vereador na época em que não se ganhava nada para exercer a função (Foto: Acervo Familiar)

Nascido em 11 de março de 1915, o lavrador Sebastião Bem Bem de Oliveira deixou Monte Alegre, distrito de Santo Antônio de Pádua, no Rio de Janeiro, em novembro de 1948. Se mudou com a família para o Noroeste do Paraná após ser convencido pela irmã de que Paranavaí era a terra do café. Com experiência nas mais diversas lavouras, Bem Bem se arriscou e perseverou. Mais tarde, trocou o campo pela cidade e se tornou um político exemplar numa época em que vereadores não ganhavam nada para exercer a função. Depois de superar muitos obstáculos e ajudar tantas pessoas, o pioneiro faleceu aos 77 anos em 4 de maio de 1992.

“O café estava em evidência e meu pai sempre gostou de trabalhar como lavrador. Quando chegamos a Paranavaí, ficamos na casa da tia Taninha até arrumar um cantinho para morar. Enfrentamos dificuldades e perdemos uma irmãzinha, Ruth, que passou muito mal nos quatro dias de viagem e faleceu dez dias após a chegada”, diz a filha Roza de Oliveira, acrescentando que o trajeto tortuoso foi percorrido de trem e de ônibus.

Quando deixou a residência da irmã, Sebastião Bem Bem hospedou a família em uma humilde casinha construída onde é hoje a Unimed, na Rua Antônio Felipe. “O Paulo [Cesar de Oliveira, fundador do Grupo Gralha Azul e presidente da Fundação Cultural de Paranavaí] nasceu naquele ranchinho de tabuinhas, parede de lascas e chão de terra batida”, relata Roza sorrindo, como se estivesse revivendo o passado.

Bem Bem de Oliveira também trabalhou em Paranavaí como funcionário da Prefeitura de Mandaguari até que se mudaram para a famosa Chácara Progresso. O local era o preferido dos filhos, mas infelizmente o pioneiro teve de vender o imóvel e se mudar para um sítio. “Papai começou a lidar com café na propriedade do seu Antonio José da Silva. Depois fomos colher algodão. A família toda ajudava na lavoura”, lembra a filha.

Durante as colheitas, Bem Bem, que ainda criança aprendeu a manejar enxada, foice e machado, sempre explicava aos filhos a importância de estudar. Não queria que enfrentassem as mesmas dificuldades que ele. “Deixou claro para todos nós que é estudando que se vence. Tinha uma tristeza muito grande por não ter estudado”, confidencia Roza, lembrando que pais como Sebastião Bem Bem eram raros nos anos 1950 e 1960. Os filhos se recordam da alegria do patriarca ao vê-los diante de uma lamparina folheando um livro ou caderno à noite, mesmo que isso custasse acordar com o rosto sujo de tanta fuligem.

Quando Roza completou 15 anos e recebeu uma nomeação do prefeito José Vaz de Carvalho para trabalhar como professora na Casa da Criança, onde é atualmente Colégio Estadual Dr. Marins Alves de Camargo, Bem Bem ficou preocupado porque a filha precisaria percorrer quilômetros a pé para lecionar. Então decidiu se mudar.

Bem Bem sendo homenageado pelo prefeito Benedito Pinto Dias nos anos 1980 (Foto: Acervo Familiar)

Bem Bem sendo homenageado pelo prefeito Benedito Pinto Dias nos anos 1980 (Foto: Acervo Familiar)

Na área urbana, novamente se sentiu perdido porque tinha pouca experiência trabalhando longe do campo. Esperto e inteligente, não se abateu. Ao perceber a chegada de tantas famílias a Paranavaí, Sebastião Bem Bem começou a atuar como corretor de imóveis. Entre altos e baixos, o pioneiro fluminense estava sempre disposto a encarar desafios, tanto que trabalhou até na derrubada de mata em Loanda. Saía de Paranavaí na segunda e retornava apenas no sábado.

“Sempre teve uma capacidade muito grande de auto-superação. Não se entregava de jeito nenhum”, assegura Roza. Enquanto Bem Bem trabalhava como peão, a esposa Elazir Azevedo de Oliveira prestava serviços como lavadeira de roupas para muitas famílias de Paranavaí.

De acordo com o filho Paulo Cesar de Oliveira, com o incentivo dos amigos, Bem Bem de Oliveira concorreu ao cargo de vereador nas eleições de 1952 e ficou como suplente. À época, trabalhou para o candidato a prefeito Herculano Rubim Toledo, vencido pelo médico José Vaz de Carvalho. Logo que assumiu a administração municipal, José Vaz o convidou para uma conversa. “Ele disse que queria meu pai trabalhando com ele, ajudando a administrar Paranavaí. O convite foi aceito e os dois nunca desfizeram a parceria”, garante Paulo Cesar.

Naquele tempo, Bem Bem já realizava trabalhos sociais, contribuía com solicitações de encaminhamento para internações. Nos quatro primeiros anos que viveu em Paranavaí, não teve nenhuma pretensão política, só agia por amor ao próximo. “Ele se tornou um famoso voluntário da ação social e da área de saúde. Não sossegava enquanto não conseguia internar quem o procurava pedindo auxílio”, frisa Roza.

A partir de 1965, com a popularidade alta e o crescente reconhecimento de suas ações, o pioneiro conseguiu se eleger vereador. O desempenho agradou tanto a população que Bem Bem foi reeleito em 1969, 1973, 1977 e 1983. “Foram cinco mandatos consecutivos. De 1975 a 1976, ele foi presidente da Câmara Municipal. Atuou também como secretário da assistência social”, lembra Paulo Cesar de Oliveira.

Quando era vereador, não tinha hora para chegar em casa e recebia os eleitores até de madrugada. Tarde da noite, não era raro os filhos ouvirem vozes vindo da entrada da residência. A visita tinha quase sempre a mesma motivação: “Ô seu Bem Bem, meu pai tá doente. Precisamos da sua ajuda”, clamavam. O vereador se apressava e ia para a Santa Casa de Paranavaí, de onde não saía até garantir que o enfermo fosse internado.

Paulo Cesar se recorda de um episódio cômico em que até o prefeito José Vaz de Carvalho se rendeu aos esforços de Sebastião Bem Bem. “Um dia, o José Vaz, que era médico, estava atendendo na Santa Casa e uma recepcionista chegou falando que o Bem Bem estava nervoso. Então o prefeito disse: ‘Ah, manda ele pra lá”, narra o filho.

Elazir Azevedo de Oliveira e Bem Bem de Oliveira se casaram em 1938 em Santo Antônio de Pádua, no Rio de Janeiro (Foto: Acervo Familiar)

Elazir Azevedo de Oliveira e Bem Bem de Oliveira se casaram em 1938 em Santo Antônio de Pádua, no Rio de Janeiro (Foto: Acervo Familiar)

Se voltando para um paciente, Carvalho justificou que Bem Bem era uma pessoa muito boa, mas que exigia muita atenção. “Ninguém aguenta alguém que quer ser atendido toda hora”, criticou. Quando percebeu que Sebastião Bem Bem já estava entrando, José Vaz mudou o rumo da conversa. “Estou falando. Não tem homem igual o Bem Bem em Paranavaí. Atende ele, menina!”, ponderou.

Respeitado até por adversários políticos, o vereador tinha o hábito de fazer tudo sem usufruir de recursos públicos. Quando conseguia o encaminhamento de pacientes para Curitiba e outras cidades do Paraná, fazia questão de ir junto e ainda dormia ao lado da cama do paciente. “Sempre procurava a hospedaria mais barata. Chegava a ser ridicularizado pelos colegas. Nunca vi outro político assim, que não quer usar dinheiro público. Uma vez, papai dormiu em uma pensão e roubaram a mala dele”, confidencia Roza de Oliveira, evidenciando a bondade e azar do vereador.

O respeito e consideração de Sebastião Bem Bem pela população era tão grande que muitas vezes o pioneiro chegou ao Hospital das Clínicas de Curitiba carregando enfermos nos braços. Como vereador não tinha salário, trabalhou cerca de 16 anos sem ganhar nada. “Sabe o que ele fez na primeira ocasião em que recebeu como vereador? Dividiu mais da metade com os menos favorecidos”, conta rindo o genro Augustinho Borges.

Quem conheceu Sebastião Bem Bem de Oliveira sempre o considerou um guerreiro. Se sobressaía pelo interesse em fazer a diferença quando ainda não existiam políticas específicas para a área da saúde. “Era firme no que acreditava e um comentário só o atingia se tivesse argumentos consistentes, não vaidades”, avalia Rosa. Até hoje, Bem Bem é lembrado pela defesa de leis que garantiram à população o direito de acompanharem os familiares internados na Santa Casa de Paranavaí.

Em ato de coragem, durante uma sessão na Câmara Municipal, o vereador manifestou indignação contra a bancada ruralista no Congresso Nacional e ainda fez questão de chamar a atenção dos que representavam os interesses dos latifundiários na região. Mesmo depois de dedicar 25 anos de vida à população de Paranavaí, Sebastião Bem Bem de Oliveira não conseguiu obter a aposentadoria. “Não se aposentou nem como trabalhador rural, atividade que exerceu por décadas. Também foi guarda do aeroporto, secretário de assistência social e corretor de imóveis. Nada disso garantiu que ele recebesse nem mesmo um salário mínimo na terceira idade”, lamenta Paulo Cesar.

Antes de falecer em 4 de maio de 1992 em decorrência de falência múltipla de órgãos, Bem Bem teve um acidente vascular cerebral (AVC) e passou os dois últimos anos de vida em uma cadeira de rodas. Segundo Roza de Oliveira, o pai sofreu bastante. Teve de fazer hemodiálise e frequentemente precisava ser internado. “Ele era diabético e hipertenso. Um dia, o José Vaz entrou no quarto e falou que o Bem Bem não merecia passar por isso”, testemunha Paulo Cesar de Oliveira.

Família Bem Bem reunida em Paranavaí em 1967 (Foto: Acervo Familiar)

Família Bem Bem reunida em Paranavaí em 1967 (Foto: Acervo Familiar)

Pouco antes de morrer, Sebastião Bem Bem de Oliveira lamentou o arrependimento de não ter se dedicado mais aos filhos. Também questionou se realmente foi um bom pai. “Deixamos claro que ele foi o melhor pai do mundo, que nos ensinou com rigor a importância de sermos honestos e trabalhadores. Apesar de todas as dificuldades, nos ensinou muito sobre Deus, um presente eterno que todo pai deveria dar aos filhos. Foi um momento de emoção, choro e conforto”, assinala Roza.

No dia 6 de maio de 1992, o editorial do Diário do Noroeste expressou pesar pela morte de um dos políticos mais importantes da história de Paranavaí. “Bem Bem de Oliveira entrou pobre na política e assim saiu dela, quando sua saúde já não permitia mais desenvolver as atividades legislativas. Fez um grande trabalho na área social – fato reconhecido até por adversários políticos. E a grande virtude do ex-vereador é que ele realizou este trabalho antes de entrar para a Câmara Municipal e continuou depois de se despedir do legislativo. Foi a política que entrou na vida de Bem Bem e não ele que entrou para a política.”

Bem Bem amava poesia e adorava noticiários

Obrigado a trabalhar desde criança, Sebastião Bem Bem de Oliveira só estudou até o segundo ano do primário, atual ensino fundamental. Ainda assim, gostava muito de ler e era bom em cálculos. “Ele tinha aquele complexo de achar que não possuía cultura por ter estudado pouco. Apesar disso, gozava de uma capacidade invejável para discursar e evangelizar. Era um homem inteligentíssimo e entendia tudo sobre a bíblia, o seu livro preferido que leu tantas vezes”, diz a filha Roza de Oliveira.

O amor pela poesia e pela declamação, Roza herdou do pai aos cinco anos. A influência foi tão significativa que os filhos cresceram afeiçoados à literatura. Paulo Cesar de Oliveira, fundador do Grupo Gralha Azul, atribui ao pai o seu grande envolvimento com arte e cultura ao longo da vida. Além de leitor inveterado, Sebastião Bem Bem adorava noticiários, tanto que quando comprou a primeira TV “foi como se o paraíso chegasse até ele”, define a família.

Bem Bem também sabia ser bravo e intransigente, principalmente quando ficava com ciúmes. Roza de Oliveira jamais esqueceu o episódio em que estava estudando química em casa com a ajuda do amigo e engenheiro Luís Beletti. “De repente, passa o papai com um cabo de vassoura pra bater no rapaz. Ele achou que estávamos muito perto um do outro. Tinha o coração bom demais, mas um temperamento difícil”, admite Roza às gargalhadas. No dia, a filha chorou a noite toda de vergonha. Ficou tão constrangida que passou um bom tempo sem se aproximar de rapazes. Mais tarde, Bem Bem se arrependeu e convidou o jovem para um almoço.

Um mito em Santo Antônio de Pádua

Nos anos 1970, Sebastião Bem Bem de Oliveira já convivia com o diabetes. Teimoso, se recusava a seguir a dieta. “Ia pra casa do amigo Salomão e comia tudo que não podia. Ele não gostava de se cuidar. Lá pelo início dos anos 1980, só abriu uma exceção e deu uma caprichada quando prometi levar ele e a mamãe para visitar os parentes no Rio de Janeiro”, lembra a filha Roza de Oliveira.

Dona Elazir: “Eu e o Bem Bem enchemos Paranavaí de gente. Tivemos 14 filhos, 17 netos e 22 bisnetos” (Foto: Acervo Familiar)

Dona Elazir: “Eu e o Bem Bem enchemos Paranavaí de gente. Tivemos 14 filhos, 17 netos e 22 bisnetos” (Foto: Acervo Familiar)

Cumprindo o combinado, o levaram para Santo Antônio de Pádua. Apesar de ter deixado a cidade natal ainda muito jovem, a fama de Bem Bem como um homem bondoso e admirável era tão grande que na casa do irmão, onde ficou hospedado, recebeu visitas o dia todo, até de pessoas que não conhecia.

“Chegou muita gente de carro de boi e também a cavalo. Foi aí que percebi o quanto ele era querido em Pádua. De lá, fomos para o Rio [de Janeiro, capital], onde visitamos Jorge de Sá, um de seus melhores amigos. Na volta, passamos ainda em São Paulo para ele rever o ‘Seu Olivier’, outro grande amigo”, descreve Roza, acrescentando que fizeram todas as vontades de Bem Bem durante a viagem.

O que também chamava a atenção no pioneiro era a grande sensibilidade. Era acostumado a chorar com facilidade, principalmente quando reencontrava algum parente ou amigo. Se emocionava até mesmo com figuras públicas que admirava. “Eu tinha 13 anos quando o presidente Getúlio Vargas cometeu suicídio e lembro como se fosse hoje. Morávamos em um ranchinho e o ‘radião’ ficou ligado dia e noite. Papai chorava sem parar”, pontua Roza.

Um traço de personalidade que virou nome

De acordo com a esposa Elazir Azevedo de Oliveira, o pioneiro fluminense Sebastião de Oliveira ficou conhecido como Bem Bem muito cedo pelo jeito afável e querido de ser. “Quando ele era criança o chamavam de benzinho. Mais tarde, começaram a falar Bem Bem”, conta. O genro Augustinho Borges explica que o apelido que depois virou nome ganhou força com o altruísmo do pioneiro fluminense. “Ele era a pessoa que mais se encaixava no ditado ‘faça o bem sem olhar a quem’. Fazia o melhor por qualquer pessoa e tentava sempre ver o lado bom de tudo”, comenta Borges.

Em 1980, Sebastião de Oliveira decidiu fazer uma retificação de nome porque nas últimas eleições perdeu muitos votos quando concorreu a vereador. O problema era que bastante gente o conhecia apenas como Bem Bem. “O sujeito votava, mas os votos não eram considerados porque o que valia era o nome no registro de identidade”, comenta Augustinho Borges.

Com o auxílio do advogado Fuad Esper Cheida, o pioneiro conseguiu fazer a alteração. À época, Augustinho Borges viajou até o Rio de Janeiro para formalizar a mudança e buscar a nova certidão de nascimento do sogro. Na última eleição municipal em que concorreu, Bem Bem superou de longe a quantidade de votos das eleições anteriores, provando que era um dos políticos favoritos da época. Em reconhecimento a tudo que fez por Paranavaí, Sebastião Bem Bem de Oliveira recebeu em 14 de dezembro de 1981 o título de cidadão benemérito de Paranavaí.

Em 2 de setembro de 1987, o pioneiro foi presenteado pela Associação Comercial e Industrial de Paranavaí com uma placa de prata entregue pelo então prefeito Benedito Pinto Dias. A solenidade o reconheceu como o homem público do ano pela Comissão Organizadora das Solenidades da Semana da Pátria. Bem Bem também foi prestigiado com um nome de rua. Uma das vias mais importantes do Jardim Ibirapuera e Jardim Santos Dumont, a Rua Catete recebeu o nome de Rua Sebastião Bem Bem de Oliveira.

Saiba Mais

Sebastião Bem Bem de Oliveira era do Rio de Janeiro, cujo padroeiro é São Sebastião e se mudou para Paranavaí, cidade que também tem o santo como padroeiro. Casou-se com Elazir Azevedo de Oliveira que nasceu em 20 de janeiro, Dia de São Sebastião. Além disso, por pouco “Dona Elazir” não recebeu o nome de Sebastiana.

Sebastião Bem Bem se apaixonou por Elazir quando ela tinha apenas 14 anos. Tentou pedir a mão da jovem em casamento, mas o pai dela recusou alegando que não tinha filha em idade de se casar. Apaixonado, Bem Bem ficou tão abalado que chegou a ser internado em um sanatório. Sebastião de Oliveira não desistiu, tanto que se casaram quatro anos depois.

Em Santo Antônio de Pádua, Sebastião Bem Bem trabalhava cultivando arroz na serra. Apesar das dificuldades, todos os dias ‘Dona Elazir’ percorria longas distâncias e subia morros levando uma cesta de comida para o marido e os companheiros de trabalho.

Paulo Cesar de Oliveira se recorda do episódio em que o pai, Sebastião Bem Bem, estava acompanhando um homem com problemas psicológicos para receber tratamento médico em outra cidade. Na ocasião, o sujeito abriu a porta do carro, desceu e fugiu em direção a um matagal. Bem Bem teve de correr atrás do homem para trazê-lo de volta.

Frase da filha Roza de Oliveira, de 73 anos.

“Um dia, ali perto do Grande Hotel teve um tiroteio e o papai mandou todo mundo deitar no chão. Ficou com medo que alguma bala acertasse a gente. A confusão foi armada por causa de grilagem de terras.”

Frase da esposa Elazir Azevedo de Oliveira, de 94 anos.

“Eu e o Bem Bem enchemos Paranavaí de gente. Tivemos 14 filhos, 17 netos e 22 bisnetos. Fico triste por ter perdido sete filhos, mas também fico feliz de ter uma família tão grande, boa e bonita. Todos me tratam bem, querem o melhor pra mim. São muito queridos. Me sinto uma ilha cercada por netos por todos os lados. Tem hora que fico perdida no meio da turma, né?”

Arqueólogos noruegueses encontram moedas islâmicas em túmulo viking

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Moedas estavam no túmulo desde o ano 950 d.C. (Foto: Museu de História Natural da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia)

Moedas estavam no túmulo desde o ano 950 (Foto: Museu de História Natural e Arqueologia da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia)

No ano passado, de acordo com informações do Museu de História Natural e Arqueologia da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, situada em Trondheim, arqueólogos descobriram na região central da Noruega um túmulo de um viking que faleceu no ano de 950 d.C.. Junto aos restos mortais, encontraram uma espada de alta qualidade, um escudo e uma bolsa de couro com moedas islâmicas.

Os pesquisadores afirmam que as moedas podem estar relacionadas com a chegada dos vikings à Espanha no ano de 800 d.C, quando eles tiveram o primeiro contato com o islamismo. Há também a possibilidade de que as moedas tenham sido compradas.“O escudo tem marcas de combate, claramente de um machado ou espada, mas não sabemos se ele morreu lutando”, explica a arqueóloga Ingrid Ystgaard, do Museu de História Natural e Arqueologia.

Refugiado húngaro criou as maiores obras da Igreja São Sebastião

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Em Paranavaí, Bálint Fehérkúti criou as mais importantes obras da Igreja São Sebastião

Fehérkúti produziu obras em Paranavaí entre os anos de 1966 e 1971 (Acervo: Ordem do Carmo)

Bálint Fehérkúti produziu obras em Paranavaí entre os anos de 1966 e 1971 (Acervo: Ordem do Carmo)

Entre os anos de 1966 e 1971, depois de escapar de um gúlag, campo de trabalho forçado na União Soviética, o artista plástico húngaro Bálint Fehérkúti viveu em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, e produziu as mais importantes obras da Igreja São Sebastião. Com uma sublime capacidade de transmitir sentimentos pessoais por meio da arte, Fehérkúti despertou admiração e repulsa.

“Na via-crúcis tradicional a cena é muito restrita a cruz e mais duas ou três pessoas. Bálint preferiu fazer diferente. Incluiu mais personagens, alguns como se estivessem dialogando. Foi realmente inovador”, conta frei Filomeno dos Santos após analisar a obra de caráter estético arcaico produzida em argila pelo artista húngaro em 1966.

Em essência, a Via-Sacra de Fehérkúti foi pouco compreendida. Com o passar dos anos, os fiéis se dividiram entre favoráveis e contrários à exposição da obra. Alguns alegavam que mesmo muito bonita não despertava piedade. Outros foram mais intolerantes e intransigentes nas críticas. Em 1990, quando a Via-Sacra começou a se deteriorar, o frei Gentil Lima alegou que não encontraram restauradores habilitados para conservar a estética original, então decidiu substituí-la.

Via-Sacra do artista húngaro gerou muita polêmica (Acervo: Ordem do Carmo)

Via-Sacra do artista começou a se deteriorar e foi substituída (Acervo: Ordem do Carmo)

De 1966 a 1971, Fehérkúti produziu as populares esculturas de quatro grandes estátuas de São José, São Sebastião, Maria do Monte Carmelo e Santa Teresa de Lisieux. As estátuas foram finalizadas pelo escultor austríaco Conrado Moser. Para a Ordem do Carmo de Paranavaí, o artista húngaro criou também uma pintura do batismo de Jesus e outra da ressurreição de Cristo. A primeira pode ser vista na capela do batismo e a segunda na cripta embaixo do altar-mor.

Em 2006, durante visita à Paróquia São Sebastião, atual Santuário do Carmo, me surpreendi com a intrigante pintura de “A Última Ceia”, inspirada no afresco de Leonardo da Vinci. A imagem que ocupa uma parede inteira do refeitório foi idealizada pelo húngaro em 1970. Quem observa a pintura com atenção percebe que pouco acima da cabeça de Jesus Cristo há um par de olhos, chifres e um focinho. A primeira pessoa que notou a suposta figuração do demônio foi um padre franciscano que visitou a paróquia em 1990.

Ninguém sabe se a representação foi intencional ou não, já que é muito comum o inconsciente se revelar durante uma prática artística. “Acredito que simboliza a tentação que Judas sofreu em trair Jesus”, interpreta frei Filomeno. Na “Última Ceia” de Bálint, a aparência clássica e hermética dos apóstolos foi substituída por feições mais familiares dos padres alemães que viviam em Paranavaí.

“Na sala de recreação, uma grande pintura com uma vista de Bamberg [cidade de origem de muitos padres que viveram em Paranavaí] testemunha a sua capacidade, assim como a pintura que está no altar da Igreja Nossa Senhora das Graças [situada em Graciosa, distrito de Paranavaí]”, escreveu o frei alemão Alberto Föerst no livro Erinnerungen eines Brasilienmissionars, lançado na Alemanha em 2012.

Ultrapassando estilos, técnicas e formas, Fehérkúti encontrou na subjetividade da arte um meio de tentar se reencontrar, dialogar consigo mesmo e registrar a própria história, além de materializar em desenhos, pinturas e esculturas as impressões e cicatrizes deixadas pelo passado.

Escultor, pintor e desenhista, Bálint era acima de tudo um artista múltiplo, apto a enfrentar qualquer desafio. Ousado, sabia como se lançar em cada obra de forma implícita e explícita. Não hesitava em apresentar uma perspectiva mais contemporânea e pessoal de tudo. Manipulava os mais diferentes materiais com uma facilidade impressionante.

"A Última Ceia", obra que mais tarde gerou muita polêmica (Acervo: Ordem do Carmo)

“A Última Ceia”, obra que mais tarde gerou muita polêmica (Acervo: Ordem do Carmo)

Surpreendia trabalhando com pinturas em aquarela e têmpera, lápis sobre papel, vitrais, mosaicos e esculturas em pedra, cerâmica e madeira. Padres que conviveram com o artista em Paranavaí confidenciaram que possivelmente as obras retratam o sofrimento de Fehérkúti antes de chegar ao Brasil.

De acordo com o frei Tiago Correia, da Ordem do Carmo, o húngaro fez muitos trabalhos de temática religiosa, envolvendo passagens das sagradas escrituras, imagens de Jesus Cristo e da Virgem Maria. No entanto, há também projetos de mobiliários e muitas pinturas de paisagens e rostos de pessoas comuns. “Sim, Bálint era um artista realmente distinto e polivalente”, registrou Föerst na obra Erinnerungen eines Brasilienmissionars.

Pintura da Cidade de Bamberg, situada na sala de recreação do Santuário do Carmo (Acervo: Ordem do Carmo)

Arte fiel da Cidade de Bamberg, situada na sala de recreação do Santuário do Carmo (Acervo: Ordem do Carmo)

Somando-se as obras de grande expressão que podem ser vistas em Paranavaí, Graciosa e no Museu da Abadia de São Geraldo, no Jardim Colombo, em São Paulo, na capital paulista, Bálint deixou um legado de mais de 50 criações históricas e inovadoras. São trabalhos que foram catalogados pela Ordem dos Carmelitas. Em 1951, Fehérkúti participou e se destacou na 1ª Bienal Internacional de São Paulo. Em 1968, atraiu muita atenção no XXXIII Salão Paulista de Belas Artes.

Embora tenha passado quase despercebido pela população de Paranavaí, Bálint está entre os maiores nomes da arte húngara contemporânea. Em Budapeste, na Hungria, algumas de suas obras fazem parte dos acervos do Museu de Artes Aplicadas (Iparművészeti Múzeum) e Universidade Húngara de Belas Artes (Magyar Képzőművészeti Egyetem). O trabalho do artista também integra a Biblioteca Europeana, fundada pela União Europeia em 2008.

Pintura que pode ser vista na Capela do Batismo da Igreja São Sebastião (Acervo: Ordem do Carmo)

Pintura que pode ser vista na capela do batismo da Igreja São Sebastião (Acervo: Ordem do Carmo)

Fehérkúti foi considerado um inimigo da União Soviética

Bálint Fehérkúti nasceu na Hungria em 5 de novembro de 1923. Nos anos 1940, já atuava como artista plástico, designer de objetos e arquiteto. Com a iminente derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) invadiu a Hungria, aliada dos alemães, e assumiu o controle da capital Budapeste em 13 de fevereiro de 1945.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a União Soviética começou a perseguir e prender nazistas e simpatizantes até que surgiu um problema operacional. Para a manutenção de cada gulag (campo de concentração), os soviéticos precisavam de pelo menos dois mil prisioneiros. Então muitas vezes a cota não era atingida. Para alcançar a meta, o Exército Vermelho decidiu prender alemães étnicos não nazistas e húngaros nativos, de origem magyar.

“A serviço dos vencedores da Segunda Guerra Mundial, a imprensa mundial virou as costas para os fatos e concordou em divulgar apenas que o Exército Vermelho era formado por libertadores. Nos países ocupados pela União Soviética, quem ousasse dizer o contrário era punido”, garante o pesquisador e professor universitário húngaro Károly Szerencsés, doutor em história da Hungria no século XX pela Universidade Eötvös Loránd, de Budapeste.

Ao longo de anos pesquisando sobre o assunto, o historiador descobriu que a interferência econômica e a destruição patrimonial provocada pelos soviéticos custaram 40% das riquezas da Hungria. “Foi um longo período de pobreza, privação e terror. Temos uma estimativa de que entre 1945 e 1948 até 200 mil mulheres húngaras foram estupradas pelo Exército Vermelho”, revela o professor e escritor estadunidense Peter Kenez, autor do livro Hungary From The Nazis To The Soviets e doutor em história da Rússia e do Leste Europeu pela Universidade Harvard.

Em pouco tempo, a vida de Bálint Fehérkúti mudou. Ainda muito jovem, o artista foi considerado um inimigo da União Soviética. Perseguido e condenado com base em provas forjadas, o deportaram para um gulag na Sibéria por volta de 1946. “Cidadãos húngaros foram enviados a dois mil campos de prisioneiros. Do total, 64 ficavam na Sibéria. Muitos morreram antes de chegarem ao destino. O número de pessoas que jamais retornaram à Hungria ultrapassa 380 mil”, explica Szerencsés. Os gulags eram considerados colônias corretivas em que os prisioneiros eram escravizados 14 horas por dia em minas, derrubadas de árvores e projetos de construções de canais e ferrovias.

Bálint Fehérkuty também era especialista em vitrais (Acervo: Ordem do Carmo)

Bálint Fehérkúti também era especialista em vitrais (Acervo: Ordem do Carmo)

“Tinham de trabalhar sob constante ameaça de fome e execução. As árvores eram cortadas com serrotes ruins e o solo congelado era escavado com picaretas primitivas. Os homens que trabalhavam extraindo carvão ou cobre só podiam usar as mãos. Quem inalava o pó de minério com frequência, logo contraía doenças pulmonares dolorosas”, enfatiza o pesquisador e professor universitário estadunidense Roy Rosenzweig, doutor em história pela Universidade Harvard e autor do projeto Gulag: Many Days, Many Lives, considerado um dos mais ricos trabalhos de pesquisa sobre os campos de concentração da União Soviética.

Inúmeros historiadores defendem que é mais fácil uma pessoa ganhar na loteria hoje do que um prisioneiro escapar de um gulag siberiano. “Eram mal alimentados, espancados e executados por motivos diversos. A cada ano havia uma queda de 10% do total de prisioneiros. Estimamos que de 15 a 30 milhões de pessoas morreram nesses campos de concentração entre 1918 e 1956”, declara Rosenzweig.

Pintura feita para a Paróquia São Sebastião em 1968 (Acervo: Ordem do Carmo)

Pintura feita para a Paróquia São Sebastião em 1968 (Acervo: Ordem do Carmo)

Provavelmente, Fehérkúti vivenciou as piores experiências de sua vida em um gulag siberiano. A região tinha a fama de ter as prisões mais aterrorizantes da União Soviética. Era preciso suportar um inverno com duração de nove meses e temperatura média de 50 graus Celsius negativos, chegando a ultrapassar 60 entre os meses de dezembro e janeiro. “Os presos viajavam até lá de trem, mas havia uma época do ano em que o frio era tão intenso que os serviços de transporte eram interrompidos”, frisa Roy Rosenzweig.

Artista fugiu de um gulag na Sibéria e veio para o Brasil

Segundo o pesquisador Károly Szerencsés, aos olhos das autoridades soviéticas, a vida dos prisioneiros não tinha valor algum. “A substituição era rápida porque o sistema podia encontrar mais pessoas para reposição nos campos de trabalho”, comenta. Entre 1949 e 1950, ciente de que não continuaria vivo por muito tempo, Bálint Fehérkúti preparou um plano de fuga e decidiu se arriscar pela primeira vez, mesmo sabendo que caso fosse capturado a pena seria aumentada em pelo menos dez anos.

Supostamente, por sorte ou artifício do destino, conseguiu fugir carregando apenas uma corda. A usou para se amarrar embaixo do trem que o levou até a Sibéria como prisioneiro. Sem poder retornar para casa, vagou pela Europa e se distanciou de países ocupados pelos soviéticos até chegar a Portugal. “De lá, embarcou em um navio com destino ao Brasil. Em São Paulo, Bálint foi acolhido pela comunidade húngara”, relata frei Filomeno dos Santos.

Pintura que garantiu destaque ao artista na 1ª Bienal Internacional de São Paulo (Acervo: Ordem do Carmo)

Trabalho que garantiu destaque ao artista na 1ª Bienal Internacional de São Paulo (Acervo: Ordem do Carmo)

Na capital paulista, Fehérkúti recebeu ajuda e voltou a trabalhar como artista, arquiteto e designer de objetos. Mais tarde, fez amizade com o arquiteto Eugênio Szilágyi e o engenheiro Karl Kögl, imigrantes que deixaram a Hungria no final da Segunda Guerra Mundial, fugindo das perseguições, e vieram para o Brasil.

Em 1960, a convite da Ordem dos Carmelitas, Szilágyi e Kögl aceitaram o desafio de construir em Paranavaí a Igreja São Sebastião. “A pedra fundamental foi colocada no mês de outubro. Demorou cinco anos até que pudéssemos mudar para a nova casa de Deus, projetada de forma ampla e útil”, narra o frei alemão Joaquim Knoblauch no livro “Os 25 Anos dos Carmelitas da Província Germaniae Superioris no Brasil”, escrito em 1976.

Os húngaros projetaram e construíram também o convento. Um ano após a inauguração, padres alemães da Ordem dos Carmelitas de Paranavaí conheceram o trabalho de Bálint Fehérkúti e pediram a Eugênio Szilágyi e Karl Kögl que o trouxessem a Paranavaí. O artista foi além das expectativas, tanto que criou obras para a paróquia local ao longo de cinco anos. Alberto Föerst, que conviveu com Fehérkúti por meses, registrou muitos elogios ao húngaro no livro Erinnerungen eines Brasilienmissionars.

O advogado e escritor paranavaiense Paulo Campos ainda se recorda das poucas vezes em que escalou um muro nas imediações da Igreja São Sebastião para observar Fehérkúti. “Eu era menino e muito curioso. Para mim, aquele artista foi uma figura enigmática e intrigante, ainda mais porque não sabíamos quase nada sobre ele”, confidencia Campos.

Fehérkúti faleceu com apenas 53 anos em 30 de março de 1977 (Acervo: Ordem do Carmo)

Fehérkúti faleceu com apenas 53 anos em 30 de março de 1977 (Acervo: Ordem do Carmo)

Introspectivo e praticamente ostracista, o húngaro passava a maior parte do tempo trabalhando. Raramente era visto fora da Igreja São Sebastião ou do convento. Föerst escreveu que a única fraqueza de Bálint Fehérkúti era o alcoolismo. Bebia para tentar esquecer os traumas da perseguição na Hungria e da vida desumana em um gulag. “Após o fim da Guerra [Segunda Guerra Mundial], ele teve de suportar muitas dificuldades. Isto o marcou a longo prazo”, pondera frei Alberto na obra Erinnerungen eines Brasilienmissionars.

Com o tempo, a dependência alcoólica se tornou o maior obstáculo na vida de Fehérkúti. No dia 30 de março de 1977, em São Paulo, o artista que escapou de um campo de trabalho forçado na Sibéria faleceu com apenas 53 anos em decorrência de problemas de saúde causados pelo alcoolismo.

Saiba Mais

O arquiteto Eugênio Szilágyi e o engenheiro Karl Kögl foram os responsáveis pela construção da Embaixada da Hungria no Brasil. Situada em Brasília, foi inaugurada em 21 de agosto de 1972.

A ocupação soviética da Hungria chegou ao fim somente em junho de 1991.

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As dificuldades de ser bancário em Paranavaí nos anos 1950

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Segundo Adelchi Ferrari, trabalhar em banco era uma ilusão que inebriava os jovens 

Adelchi Ferrari: "O banco era o trabalho da época, o sonho dos jovens. Você ingressava como bancário e logo era classificado como alguém da sociedade" (Foto: David Arioch)

Adelchi Ferrari: “O banco era o trabalho da época, o sonho dos jovens. Você ingressava como bancário e logo era classificado como alguém da sociedade” (Foto: David Arioch)

Andar bem vestido – com paletó alinhado, sapatos sempre engraxados e cabelos cuidadosamente penteados, ser respeitado pela sociedade e convidado para os eventos sociais mais importantes da cidade era o que motivava muitos jovens a se tornarem bancários nos anos 1950. O perfil de pessoa considerada letrada, informada, articulada e versada em números também agradava aos mais entusiasmados.

Era um privilégio e um grande contraste em um país com uma população de mais de 50% de analfabetos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A imagem de bancário ajudava até mesmo na conquista da simpatia das moças. O status era mais atrativo do que o próprio salário oferecido pelas instituições financeiras, principalmente privadas.

“O banco era o trabalho da época, o sonho dos jovens. Você ingressava como bancário e logo era classificado como alguém da sociedade, pura ilusão. Trabalhava que nem um miserável e não ganhava bem pelo que fazia. O ordenado era ruim. Quero dizer, dava para sobreviver, mas não sobrava”, conta o ex-bancário Adelchi Benedito Ferrari que fez parte da primeira geração de bancários de Paranavaí, no Noroeste do Paraná.

Naquele tempo, o expediente começava bem cedo e terminava só à noite. Sem energia elétrica, o costume era ter sempre uma vela ou lampião ao alcance das mãos. “O rosto chegava a ficar coberto de fuligem. Trabalhei assim por 15 anos. Era normal sair meia-noite do banco. Não esqueço que fui convidado a passar o Natal com a família de um amigo e não pude ir porque tivemos que trabalhar até de madrugada”, explica Ferrari.

"Trabalhava que nem um miserável e não ganhava bem pelo que fazia" (Foto: David Arioch)

“Trabalhava que nem um miserável e não ganhava bem pelo que fazia” (Foto: David Arioch)

O ex-bancário também se recorda do episódio em que o filho do empreendedor Remo Massi chegou ao Banco Noroeste quase no final do expediente. “Rapaz, ele voltou de São Paulo com uma pasta cheia de dinheiro, daí o gerente mandou a gente depositar e refazer todo o relatório. A noite foi longa. Tinha vela e lampião por todos os lados”, destaca.

Em uma ocasião, Adelchi Ferrari confidenciou à esposa Mercedes que iria pedir demissão porque não estava mais suportando a intensa jornada de trabalho. “Tinha muita pressão. Certa vez, terminei um relatório meia-noite e apareceu um cara lá com dinheiro para pagar. Fiquei nervoso e esbravejei: ‘Não vou pagar merda nenhuma!’”, relata.

Pelo menos para os funcionários do Banco Noroeste de Paranavaí, a situação começou a melhorar nos anos 1960. Um dia, por volta das 8h, chegou ao banco um senhor de São Paulo conhecido pelo sobrenome Godoy. “Entrou, veio em minha direção, perguntou meu nome e função”, conta Adelchi.

Na tarde daquele dia, o movimento era tão intenso que havia dezenas de cavalos amarrados nas grades ao lado da entrada. Por volta das 16h, Godoy se aproximou do caixa e disse: “Pode virar o carimbo e continuar amanhã”, o que na linguagem da época significava não atender mais nenhum cliente.

Irritado com a cena, o gerente Raul Piccinin se aproximou e desafiou o homem. “Não, senhor! Sou o gerente aqui e quem manda sou eu. Vocês vão trabalhar até a hora que eu quiser!”, narra Ferrari, citando as palavras usadas pelo chefe.

“Tinha muita pressão. Certa vez, terminei um relatório meia-noite e apareceu um cara lá com dinheiro para pagar. Fiquei nervoso e esbravejei: ‘Não vou pagar merda nenhuma!’" (Foto: David Arioch)

“Tinha muita pressão. Certa vez, terminei um relatório meia-noite e apareceu um cara lá com dinheiro para pagar. Fiquei nervoso e esbravejei: ‘Não vou pagar merda nenhuma!’” (Foto: David Arioch)

Godoy então perguntou a Piccinin se ele pagava hora extra aos funcionários. Imediatamente respondeu que não. “Não? Então o que você é mesmo?”, questionou o homem. Quando Raul confirmou que era o gerente, Godoy se apresentou como auditor e disse que veio a Paranavaí justamente por saber que os funcionários estavam sendo explorados no Banco Noroeste.

Antes de retornar para São Paulo, o auditor ficou mais 15 dias em Paranavaí acompanhando a situação dos bancários. “Qualquer coisa que ele exigir, vocês podem me telefonar que eu resolvo a situação”, prometeu Godoy. Após as advertências do auditor, nenhum funcionário do Banco Noroeste recebeu ameaças ou foi obrigado a fazer hora extra. De acordo com Adelchi Ferrari, funcionários do Banco Comercial, Banco América do Sul e Bradesco também sofreram trabalhando no período da noite. “A única exceção era o Banco do Brasil”, frisa.

Saiba Mais

O Banco Noroeste se situava onde é hoje o pátio do Banco Bradesco.

Adelchi Benedito Ferrari nasceu em 23 de fevereiro de 1930 em Promissão, interior de São Paulo.

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O assassinato de Raphael Azambuja na Areia Branca do Tucum

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Amigo de Leonel Brizola e primo de Erico Verissimo, empreendedor foi assassinado em 1962 durante negociação de terras na região de Paranavaí

Alan Azambuja: "Desferiu cinco tiros à queima-roupa contra meu pai, um homem de bem e que andava desarmado." (Foto: Acervo Familiar)

Alan Azambuja: “Desferiu cinco tiros à queima-roupa contra meu pai, um homem de bem e que andava desarmado” (Foto: Acervo Familiar)

Em 1962, o empreendedor gaúcho Raphael Verissimo Azambuja costumava vir a Paranavaí, no Noroeste do Paraná, pelo menos uma vez por mês para comprar terras e investir no desenvolvimento da Gleba Areia Branca do Tucum, às margens do Rio Paraná. Sempre telefonava do Rio Grande do Sul pedindo que o gerente da Reta Táxi Aéreo, Augustinho Borges preparasse um avião para levá-lo até o local.

“Ô Augustinho, e no domingo, tal hora, você me pega lá pra eu tomar o avião da Varig para o Rio Grande do Sul, mas antes ligo confirmando”, lembra Borges, reproduzindo as palavras de Azambuja na primeira semana de julho de 1962. O então gerente estranhou que o final de semana terminou e não recebeu nenhum telefonema de Raphael Verissimo.

Na segunda-feira de manhã, logo depois de levar alguns pilotos e passageiros para o Aeroporto Edu Chaves, o telefone tocou. Era o governador do Rio Grande do Sul. “Ô meu jovem, é o seguinte: Falei com a diretoria da Reta em Londrina e eles recomendaram que eu entrasse em contato com você. Preciso que me faça um grande favor”, disse Leonel Brizola.

O governador explicou que o seu amigo Raphael Verissimo Azambuja foi assassinado no sábado. “Perguntei o que ele queria que eu fizesse. ‘Olha, arruma o corpo, põe dentro do avião e manda ele pra mim. Pago todas as despesas aqui’”, prometeu Brizola após detalhar a situação.

Surpreso com a educação e cordialidade do governador que preferiu resolver tudo por conta própria em vez de transferir a responsabilidade para alguém, Borges se tornou fã do político. “Levei um susto. De todos os homens públicos com quem conversei até hoje, o Brizola foi o que mais se destacou pra mim. Tinha grandes valores e conversava com todo mundo de igual para igual”, justifica Augustinho Borges.

De acordo com Augustinho Borges, Azambuja era um sujeito excepcional, de caráter inquestionável (Foto: Amauri Martineli)

De acordo com Augustinho Borges, Azambuja era um sujeito excepcional, de caráter inquestionável (Foto: Amauri Martineli)

Naquele tempo, Azambuja tinha uma fazenda que ficava próxima a Nova Londrina e Marilena. Acostumado a viajar pela região, o empreendedor de 53 anos não imaginava que seria assassinado por um amigo na manhã do dia 7 de julho de 1962. A traição aconteceu quando o homem percebeu que as terras que vendeu a Raphael Verissimo conquistaram um bom valor de mercado em pouco tempo. “O sujeito de sobrenome Volpato ficou enciumado e desferiu cinco tiros à queima-roupa contra meu pai, um homem de bem e que andava desarmado”, afirma Alan Verissimo Azambuja.

Sobre o episódio, o conceituado escritor Erico Verissimo declarou que a discussão começou quando o suposto amigo de Azambuja exigiu um reajuste de preços por compensação. “Meu primo disse que o negócio estava feito e pronto. Quando se recusou a concedê-lo, o outro meteu-lhe vários balaços no corpo, matando-o quase instantaneamente”, escreveu Verissimo na biografia Solo de Clarineta, lançada em 1973.

De acordo com Augustinho, Azambuja era um sujeito excepcional, de caráter inquestionável. No entanto, foi iludido pela própria ingenuidade, pois não sabia que a Gleba Areia Branca, nas imediações do Porto São José, tinha uma das piores famas do Paraná. “A demanda de terras naquele lugar era tão grande quanto a criminalidade. Era violência em cima de violência. Pra você ter uma ideia, meus parentes moravam lá e chegavam a juntar sacos de cápsulas de balas”, confidencia Borges.

Após o crime, os funcionários da fazenda de Azambuja encaminharam o corpo para uma funerária de Nova Londrina. De lá, Augustinho o trouxe a Paranavaí, onde preparou um quadrimotor de Havilland DH.114 Heron para 16 passageiros. “O avião tinha o apelido de Constellation Baiano. Aluguei ele com piloto e copiloto para levar o caixão porque naquela época não tinha aeronave própria pra esse tipo de transporte”, explica Borges que contou com a ajuda da Star Taxi Aéreo, de Londrina.

Erico Verissimo: "“Comprou terras de um sujeito de maus bofes que ele, Raphael, na sua boa-fé, julgava seu amigo" (Foto: Acervo Familiar)

Erico Verissimo: “Comprou terras de um sujeito de maus bofes que ele, Raphael, na sua boa-fé, julgava seu amigo” (Foto: Acervo Familiar)

Como não podia se ausentar do trabalho, Augustinho relatou a situação para o Major Valle, responsável por comandar o trabalho policial na região de Paranavaí. “Falei que veio um pedido do Brizola para que o major acompanhasse o transporte do corpo. Então o comandante contou que tinha medo de andar de avião, tanto que nunca entrou em um”, destaca.

Para convencer o Major Valle a embarcar na aeronave, Borges o levou até um boteco em frente ao Aeroporto Edu Chaves. Lá, garantiu que o homem ganharia coragem depois de tomar algumas doses de uma pinga com cascavel. “O couro da cobra chegava a balançar no fundo da garrafa. Consegui arrumar tudo e coloquei ele dentro do avião. Mas, rapaz, quando era mais ou menos 6h recebi um telefonema”, enfatiza.

Augustinho despertou com os berros do Major Valle. O homem gritava: “Filho da puta, você vai me pagar quando eu chegar aí. O avião pegou fogo na descida, perto de uma mangueira. Esfumaçou tudo!”, recorda Borges às gargalhadas. Apesar dos imprevistos, o comandante cumpriu a missão. Em Porto Alegre, entregou o corpo de Raphael Azambuja para o governador Leonel Brizola que o agradeceu pessoalmente e cobriu todas as despesas.

Ainda assim, o Major Valle se recusou a voltar de avião e embarcou em um ônibus. Chegou bravo em Paranavaí, mas se acalmou e convidou Augustinho para tomar chimarrão. “Só me deu uns tapas na cabeça por ter que ficar mais de oito horas passando medo dentro da aeronave”, conta sorrindo.

Azambuja queria transformar o Noroeste no celeiro do Brasil

Segundo o filho Alan Verissimo Azambuja, Raphael Verissimo Azambuja acreditou tanto no desenvolvimento da região de Paranavaí que abriu mão de ser ministro da agricultura quando o amigo João Goulart assumiu a presidência do Brasil. “Mesmo com os apelos dos mais próximos, meu pai preferiu dedicar-se integralmente ao grande projeto de sua vida que era transformar o Noroeste do Paraná no celeiro do Brasil. Seu empreendimento colonizador ia de vento em popa”, assinala.

Raphael Azambuja se casou com Marion Mitterling, sobrevivente da Segunda Guerra Mundial e da Ocupação Soviética na Romênia (Foto: Acervo Familiar - 1958)

Raphael Azambuja se casou com Marion Mitterling, sobrevivente da Segunda Guerra Mundial e da Ocupação Soviética na Romênia (Foto: Acervo Familiar – 1958)

No livro Solo de Clarineta, de 1973, o escritor Erico Verissimo narrou que nos últimos anos de vida a atenção e energia de Azambuja se voltaram para a região de Paranavaí. “Comprou terras de um sujeito de maus bofes que ele, Raphael, na sua boa-fé, julgava seu amigo. Organizou loteamento de terras e fez ruas com entusiasmo e esperança. Quando nos encontrávamos, me expunha seus planos para o futuro: novas cidades, fundação de um banco e construção de um grande edifício. Acreditou sempre no futuro do Brasil e costumava lançar longe o dardo de seus bem arquitetados sonhos”, registrou Verissimo, falecido em 1975.

No livro, o escritor relata que de uma das janelas da casa onde morava em Cruz Alta, no Rio Grande do Sul, avistava o cemitério onde o corpo do primo foi enterrado. “Raphael, assim como tantos outros amigos, como a minha própria mãe, na realidade não se encontra em seu túmulo. Com maior ou menor intensidade, continua ainda vivo dentro de mim. Por um desses milagres da memória, eu o tenho sempre ao meu lado”, poetizou.

Raphael Verissimo coordenou as campanhas de Brizola

Raphael Verissimo Azambuja nasceu em Cruz Alta, no Rio Grande do Sul, em 1º de março de 1909. Nos anos 1940, trabalhou como assistente do ministro João Alberto de Lins e Barros e desempenhou os cargos de chefe do Setor do Abastecimento Nacional e do Serviço de Fiscalização de Preços do governo federal. Atuou também na chefia de propaganda do Partido Social Democrático (PSD). À época, chegou a receber uma carta de agradecimento do presidente da República, Eurico Gaspar Dutra.

Em 1947, quando estava hospedado em um hotel em frente a um lago em Velden am Wörther See, na Áustria, Azambuja conheceu a jovem Marion Mitterling, antes chamada Doina Sturza. Era uma jovem romena que perdeu pai, mãe e seis irmãos na Segunda Guerra Mundial e na Ocupação Soviética da Romênia.

Marion trabalhava como assistente da rainha da Bélgica e estava de férias na Áustria no mesmo período em que Raphael Verissimo chefiou uma missão diplomática de seleção de estrangeiros dispostos a se mudarem para o Brasil. “Ele a convidou para um passeio de barco a remo e ela aceitou. Assim começou um grande romance”, frisa Alan Verissimo Azambuja, o primeiro filho, nascido em 1948.

Em 1950, o casal deixou Salzburgo, na Áustria, e se mudou para o Rio de Janeiro, onde Raphael Azambuja trabalhou no Ministério da Agricultura. Em 1955, se tornou chefe do jornal O Clarim, de Porto Alegre, e coordenador das campanhas eleitorais de Leonel Brizola.

A partir de 1956, desempenhou muitas atividades. Comandou o Departamento de Administração e Finanças do Instituto Nacional de Imigração e Colonização e, atendendo a um pedido do governador Brizola, assumiu a Comissão Interestadual para Estudos dos Problemas da Bacia Paraná-Uruguai. “Em 1960, ele foi chefe de assessoria técnica do Ministério da Agricultura e no ano seguinte o nomearam como ministro interino”, cita Alan Azambuja.

Um gaúcho à frente do seu tempo

Um gaúcho à frente do seu tempo é a expressão que melhor define o perfil de Raphael Verissimo Azambuja. “Foi o primeiro sujeito em Cruz Alta [no Rio Grande do Sul] a sair à rua sem chapéu, chocando os nativos. ‘Que desaforo!’, ‘Que desrespeito para com as famílias!’, exclamavam as comadres”, escreveu o primo e escritor Erico Verissimo na biografia Solo de Clarineta.

Azambuja era conhecido como um sujeito questionador, que herdou a inteligência do pai e a vivacidade e capacidade de fazer amigos da mãe. “Ganhou dos dois a coragem para opinar. Nunca deixou de manifestá-la livremente. Era ávido leitor e quando se tornou homem maduro passou a acreditar na vida e na capacidade do ser humano de traçar o próprio destino”, testemunhou Erico Verissimo na obra.

Nos bailes, desde a mocidade atraía atenção pelo costume de dançar com todas as moças menos desejadas. “Ele as enlaçava e saia a rodopiar pelo salão. Dizia coisas agradáveis. Fazia elogios à beleza ou à elegância. Em suma, tornava-as felizes”, declarou o escritor que também fez menção à maneira impecável como o primo se vestia. Azambuja era habilidoso para escrever, mas nunca pensou em dedicar-se à literatura.

Frase de Erico Verissimo sobre o primo Raphael Azambuja

Desde mocinho revelara uma grande generosidade, dessas que se manifestam nas menores coisas.”

Agradecimento especial

Alceu O. Annes, autor da Genealogia dos Annes Verissimo – material que serviu como principal fonte de pesquisa para a elaboração da reportagem.

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Anjo da Morte pode ter morado em Graciosa em 1954

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Pioneiros de distrito de Paranavaí suspeitam que médico nazista viveu no Seminário Imaculada Conceição

Pioneiros do distrito de Paranavaí acreditam que o médico nazista Josef Mengele viveu no Seminário Imaculada Conceição

O médico misterioso raramente deixava o seminário (Acervo: Ordem do Carmo)

Em 1954, um grupo de criminosos armou uma emboscada para assassinar o comerciante Ludovico Selhorst na colônia germânica Graciosa, distrito de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Para não serem identificados, os homens usaram máscaras e se esconderam em uma roça de milho nas imediações do comércio de Selhorst.

À noite, assim que o comerciante ficou sozinho, aguardaram alguns minutos, atiraram nele e fugiram. Quando Ludovico caiu, quem estava próximo do local estranhou o barulho e correu até lá para saber o que aconteceu. “Ele foi atingido perto do braço e não teve tempo nem de ver de onde a bala saiu”, relata a pioneira Francisca Bruning Schiroff que à época tinha 19 anos. Os irmãos da vítima, inclusive Jacob Selhorst que era o delegado do distrito, foram os primeiros a socorrer Ludovico, assim como João Bruning, pai de Francisca, que pediu para alguém chamar um médico hospedado no Seminário Imaculada Conceição.

“Ficamos sabendo desse doutor. Só que ninguém sabia quem era”, conta a pioneira. Descrito como alto, forte e aparentando ter mais de 40 anos, o médico pouco comunicativo estancou o sangramento, aplicou um antibiótico injetável e o encaminhou para o Hospital Professor João Cândido Ferreira, conhecido como Hospital do Estado, em Paranavaí. Para transportá-lo, como não havia ambulância naquele tempo, o colocaram sobre um colchão em cima de um caminhão. A princípio, Ludovico reagiu bem, mas não resistiu e faleceu na manhã seguinte.

Francisca Schiroff: "Ele ficou mais ou menos um ano em Graciosa" (Foto: Reprodução)

Francisca Schiroff: “Ele ficou mais ou menos um ano em Graciosa” (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

A suspeita é de que os envolvidos no assassinato trabalhavam explodindo pedreiras com dinamite. “Achamos que o crime foi cometido por homens contratados para retirarem pedras de um rio perto de Graciosa. Eles estavam atuando na construção do seminário e se desentenderam na hora do pagamento. Me parece que queriam receber mais, então é provável que tenha sido um ato de vingança”, declara Francisca.

A pioneira se recorda do dia em que o frei Bonaventura Einberger falou sobre a chegada de um médico alemão para ajudar os mais necessitados. “Explicou apenas que o médico, assim como ele, também participou da guerra. Como a gente era bem jovem, ninguém tinha coragem de perguntar demais. Além disso, o ‘frei Bona’ não gostava de comentar sobre a Alemanha do período nazista”, relata. Apesar do conhecimento básico de português, o médico não enfrentou nenhum problema no distrito, até porque nos anos 1950 muitos moradores de Graciosa se comunicavam mais em alemão do que em português.

Frei Bonaventura explicou apenas que o médico, assim como ele, também participou da guerra (Acervo: Francisca Schiroff)

Frei Bonaventura explicou apenas que o médico, assim como ele, também participou da Segunda Guerra Mundial (Acervo: Francisca Schiroff)

“Ele se vestia com simplicidade, acho que até para não chamar a atenção. Só que era fácil perceber que não era um médico comum”, avalia Francisca que certo dia foi até o seminário acompanhada da mãe para se consultar com o alemão de quem ninguém sabia o nome.

O médico demonstrava muita experiência profissional, tanto que soube lidar com todos os problemas de saúde dos pacientes. “As consultas com ele eram rápidas e quem não sabia alemão ia acompanhado de um intérprete. Me recordo que a primeira pergunta dele para a minha mãe foi: ‘Como está se sentindo?’”, cita a pioneira.

Polido, parcimonioso e reservado, o médico atendeu praticamente todas as famílias que viviam em Graciosa em 1954. Ainda assim, um fato curioso chamou a atenção dos moradores. O misterioso alemão não registrava prescrições médicas em papel nem pedia que alguém o fizesse para que ele apenas assinasse. “Era tudo falado, de boca mesmo”, garante Francisca Bruning Schiroff.

No distrito, o médico auxiliava o frei Bonaventura na distribuição gratuita dos medicamentos enviados da Alemanha pela Caritas Internacional, entidade de promoção e atuação social que trabalha na defesa dos direitos humanos, da segurança alimentar e do desenvolvimento sustentável solidário. “Eles também levavam remédios para o frei alemão Ulrico Goevert em Paranavaí. Era uma assistência muito boa. Realmente fazia a diferença”, pondera a pioneira.

Após ajudar muita gente em situação de carência social, um dia o homem partiu. A notícia foi lamentada pelos moradores de Graciosa. “Ele ficou mais ou menos um ano aqui. Ninguém sabe exatamente quando chegou nem quando foi embora”, confidencia Francisca. No distrito, o médico morou em um pequeno quarto no Seminário Imaculada Conceição. Poucas vezes foi visto em outros locais.

Lidia Selhorst reconheceu o médico como sendo Josef Mengele (Foto: Reprodução)

Lidia Selhorst reconheceu o homem como sendo Josef Mengele (Foto: Reprodução)

Alguns meses depois, Lidia Selhorst, esposa de Ludovico Selhorst, e também falecida, foi surpreendida ouvindo rádio, quando o locutor noticiou que estavam procurando o médico nazista Josef Mengele, conhecido como Todesengel, Anjo da Morte. A descrição era a mesma do médico que morou em Graciosa. “Falaram que o Mengele tinha inclusive uma cicatriz perto do pescoço. Quando ele se abaixou para prestar atendimento ao Ludovico, a Lidia viu essa cicatriz”, enfatiza Francisca Schiroff.

Como o frei Bonaventura Einberger foi enfermeiro da Wehrmacht, Forças Armadas da Alemanha nazista, até o final da Segunda Guerra Mundial, pode ser que eles tenham se conhecido anos antes. “Não dá pra afirmar até que ponto o ‘frei Bona’ o conhecia, mas a partida do médico foi suspeita. Acho que o frei ficou com medo de alguma coisa e recomendou que o homem partisse para outro lugar”, supõe a pioneira.

“Ele preferia crianças, gêmeos e anões”

Nascido em 11 de março de 1911 em Günzburg, na Alemanha, Josef Mengele se tornou um dos personagens mais famigerados da Segunda Guerra Mundial. Discípulo do geneticista Otman von Verschuer, com quem trabalhou em Frankfurt, Mengele tinha um doutorado em antropologia e outro em medicina.

Bonaventura Einberger, ex-enfermeiro da Wehrmacht, pode ter conhecido o médico muitos anos antes (Acervo: Francisca Schiroff)

Ex-enfermeiro da Wehrmacht, Bonaventura Einberger pode tê-lo conhecido muitos anos antes (Acervo: Francisca Schiroff)

Em 1937, ingressou no Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP) e se voluntariou para trabalhar na SS Medical Corps como pesquisador de genética no reassentamento da Província de Posen, na Polônia. O papel de Mengele consistia em preservar a pureza racial dos membros da Schutzstaffel (SS). Sendo assim, casamentos só eram aprovados após análises invasivas e estudos sobre a árvore genealógica da noiva.

Em 1942, enviaram Josef Mengele para atuar na Frente Leste como cirurgião da 5ª Divisão Panzer. Ferido em combate, teve de ser transferido para o Oeste. Na Alemanha, foi promovido a capitão e se juntou mais uma vez ao geneticista von Verschuer no Instituto Kaiser Wilhelm, onde se concentravam os maiores estudos de antropologia, hereditariedade e eugenia da Alemanha, temas com os quais Mengele se identificava muito.

No instituto, o médico seguiu uma hermética linha de pesquisa baseada na qualificação racial e limpeza étnica. O seu trabalho foi determinante na criação do Aktion T4, programa de eutanásia e esterilização voltado para a identificação de pessoas consideradas “inaptas a se reproduzir ou viver”.

Meses mais tarde, transferiram Mengele para a rede de campos de concentração de Auschiwtz-Birkenau, na Polônia. Com o apoio incondicional do governo alemão, realizou experiências com pessoas que ele mesmo escolhia e qualificava como fracas ou inúteis. Documentos do The National WWII Museum, de Nova Orleans, nos Estados Unidos, responsabilizam Josef Mengele pelo envio de 400 mil pessoas para as câmaras de gás dos campos de concentração. “Ele preferia crianças, gêmeos e anões, pessoas com quem ele fazia experiências sem qualquer tipo de remorso”, comenta o pesquisador e historiador estadunidense Tom Gibbs.

Tom Gibbs: "Ele fazia experiências sem qualquer tipo de remorso" (Foto: Reprodução)

Tom Gibbs: “Ele tinha o hábito de presentear crianças com leite e doces” (Foto: Reprodução)

Von Verschuer e outros cientistas receberam de Mengele muitos cadáveres, órgãos, esqueletos e amostras de sangue de crianças judias e ciganas. “Ele gostava de ‘cortejar’ suas vítimas, tanto que oferecia melhores condições de moradia e alimentação. Também tinha o hábito de presentear crianças com leite e doces”, relata Gibbs.

Em janeiro de 1945, após a evacuação de Auschwitz-Birkenau, Mengele percorreu alguns campos menores até ser capturado. Ficou preso na Alemanha até junho do mesmo ano, quando conseguiu fugir para a Argentina com um nome falso. Mais tarde, partiu para o Paraguai e depois se mudou para o Brasil. Supostamente, Mengele morreu afogado em 7 de fevereiro de 1979 em Bertioga, no litoral paulista. No entanto, até hoje há pesquisadores que refutam o motivo e a data da morte.

Enterrado no Cemitério do Rosário, em Embu das Artes, na grande São Paulo, Josef Mengele teve os ossos exumados em 1985, quando uma equipe de especialistas do Instituto Médico Legal (IML) de São Paulo e da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (USP) confirmou a sua identidade. Em 1992, foi feita uma ratificação por meio de análise em DNA.

Saiba Mais

Há inúmeros relatos de moradores de Graciosa e de Paranavaí que viram o médico caminhando sozinho pelo Bosque de Graciosa em 1954.

Mengele quando já estava vivendo na América do Sul (Foto: Reprodução)

Mengele quando já estava vivendo na América do Sul (Foto: Reprodução)

O que também despertou a suspeita dos moradores de Graciosa é que o misterioso alemão raramente circulava pela área central do distrito.

A 137 quilômetros de Paranavaí, pioneiros de Mamborê, no Centro Ocidental Paranaense, afirmam que Josef Mengele, usando o nome de Josef Kanat, trabalhou como médico no então distrito de Campo Mourão em 1956.

No mundo todo, o médico nazista inspirou livros, filmes, documentários, músicas e programas especiais para a TV. No Brasil, a obra mais conhecida é o filme “Meninos do Brasil”, de 1978. Em 2013, a cineasta argentina Lucía Puenzo lançou o filme “Wakolda”, também inspirado na vida do médico, principalmente em sua passagem pelo Sul da Argentina.

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Bandeira fez mais do que os primeiros “traçados” de Paranavaí

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É importante não transmitir às novas gerações uma ideia errada sobre uma importante figura histórica

Em parceria com Hugo Doubek, Bandeira fez a demarcação territorial de Paranavaí a pé (Foto: Reprodução)

Em parceria com Hugo Doubek, Bandeira fez a demarcação territorial de Paranavaí a pé (Foto: Reprodução)

Um senhor concedeu uma entrevista para a TV falando sobre o aniversário de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, e disse que o pioneiro Ulisses Faria Bandeira não sabia o que estava fazendo quando criou os primeiros “traçados” do município. Acho no mínimo preocupante você desdenhar o trabalho de uma pessoa como forma de “homenagear” a cidade onde vive. Faria Bandeira não era um sujeito qualquer. Então seria justo ter feito uma ressalva, até para não transmitir às novas gerações uma ideia errada sobre uma figura de suma importância para a história local.

Ulisses era um agrimensor da Inspetoria de Terras do Paraná, nomeado pelo interventor federal Manoel Ribas, função que à época equivalia a de governador. Sim, ele poderia ter ponderado mais sobre o progresso de Paranavaí quando fez os primeiros “traçados”. Não imaginou que de certa forma o seu projeto criado nos anos 1940 teria consequências futuras, “engessando” um pouco o desenvolvimento urbano.

Porém, naquele tempo os prazos para a realização desse tipo de trabalho eram curtos, ou seja, o Governo do Paraná exigia respostas rápidas, até porque, ao contrário de outras cidades da região, Paranavaí foi colonizada pela iniciativa pública, não privada, o que acabava acirrando a concorrência e gerando animosidade com colonizadoras baseadas em capital estrangeiro.

Embora Ulisses Faria Bandeira tenha se precipitado um pouco, foi ele que em parceria com o pioneiro Hugo Doubek chegou a passar semanas longe da então colônia, margeando rios e córregos a pé para fazer a demarcação territorial de Paranavaí. O prestígio do inspetor de terras junto à população era tão grande que Bandeira foi estimulado a disputar as eleições municipais de 18 de novembro de 1956, concorrendo ao cargo de prefeito. Obteve 4071 votos contra 4029 de Herculano Rubim Toledo.

“Foi uma campanha pesada e acirrada”, admitiu no mesmo ano. Ulisses Faria Bandeira conquistou muita popularidade pelo hábito de interagir com os moradores, principalmente nos finais de semana, quando participava de partidas de futebol no antigo Estádio Natal Francisco, localizado onde é hoje a Praça dos Pioneiros.

Então afirmo aqui que o considero uma pessoa que merece ser lembrada nesta data pelo que fez de bom, não pelas suas falhas. Quantos homens nos anos 1930 e 1940 se arriscariam a comandar algum tipo de trabalho que tivesse responsabilidade sobre o futuro de uma cidade e sobre a vida de tantas pessoas? Ainda mais na época em que Paranavaí se resumia a um povoado no meio de uma selva habitada por aventureiros, sonhadores, oportunistas e criminosos. Em síntese, uma diversidade até perigosa.

Written by David Arioch

December 14th, 2014 at 11:51 am

“Ô Seu Luiz, quer comprar milho?”

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Uma história de furto de milho com crianças de três e nove anos

Luiz Carlos: "Achei o preço bom, até porque crio aves e preciso de milho para alimentá-las”

Luiz Carlos se arrependeu de alimentar as galinhas com o milho comprado por R$ 15 (Foto: David Arioch)

Há pouco tempo, o artista plástico Luiz Carlos Prates, morador da Vila Alta, na periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, estava trabalhando no atelier no fundo de casa quando ouviu alguém o chamando em frente ao portão. Foi ver quem era e se deparou com dois garotos sobre uma carroça cheia de sacos de milho. Um deles gritou: “Ô Seu Luiz, quer comprar milho?”

O artista perguntou o preço e o garoto respondeu que cada saco custava R$ 15. “Achei o preço bom, até porque crio animais e preciso de milho para alimentá-los”, explica. Satisfeito pelo bom negócio, Luiz Carlos ficou intrigado no dia seguinte quando os garotos retornaram oferecendo para a sua namorada, Lindinalva Silva Santos, que mora na casa ao lado, um saco de milho por R$ 5.

“Estranhei porque o preço mudou muito rápido de um dia pro outro. Não consegui ver lógica nisso, mas deixei passar”, comenta. No terceiro dia, os garotos apareceram novamente com uma carroça cheia de milho e ofereceram ao artista quatro sacos por R$ 15. “Depois dessa, não tive dúvida e falei pra eles: ‘Vocês tão furtando milho, né? De onde tá saindo todo esse milho que não acaba mais? Não adianta vir com conversa fiada, pode falar a verdade”, esbravejou Prates, preocupado com a procedência do cereal.

Os garotos entraram em conflito na hora de se justificar. Um falou que o milho foi repassado para revenda e o outro declarou que encontraram os sacos abandonados em uma mata não muito distante do bairro. “Sabia que era mentira porque conheço bem essa molecada. Pra você ter uma ideia, tinha tanto milho que eles ficaram uma semana vendendo. Repassaram o produto até pra outras pessoas comercializarem”, destaca.

Ao longo de sete dias, Luiz Carlos perdeu as contas de quantas carroças encontrou pelo bairro, guiadas por crianças que ofereciam sacos de milho para quem criava animais como galinhas, patos, porcos e cavalos. “Lá pra cima já ouvia a criançada gritando: “Olha o milho, olha o milho, olha o milho, baratinho, baratinho, baratinho”, relata.

Preocupado, o artista decidiu investigar a origem do produto. Descobriu que os dois garotos que lhe ofereceram o milho tinham invadido um depósito de cereais em uma fazenda nas imediações da Vila Alta. “O mais incrível é que eles tinham só nove anos. Fizeram um buraco na parede do depósito e a irmã de um deles, prestes a completar três anos, passou pela abertura e abriu uma das janelas para eles entrarem”, enfatiza. Enquanto furtavam o milho, a irmãzinha ficou na janela, à espreita, vendo se não aparecia ninguém.

Quando Luiz Carlos ainda não sabia a verdade, a garotinha viu o cereal na casa do artista e disse ao irmão: “Olha aqui, o tio Lú tem um saco de milho. A gente que pegou aquele dia, lembra? Igual aquele que você levou pra casa!” Evasivo, o garoto de nove anos retrucou: “Você tá enganada! Aquilo que levei pra casa era travesseiro, não era saco de milho não!”

Bravo com a situação e também por ter sido enganado, Luiz Carlos despejou todo o milho em um terreno baldio e reuniu todos os envolvidos na ação criminosa e na venda do produto. “Dei um sermão neles e expliquei que isso não se faz. É errado, é coisa de bandido”, lembra. Uma das ironias da história é que o milho despejado no terreno deu origem a um pequeno milharal abandonado que se desenvolveu sem qualquer cuidado ou supervisão.

Mais tarde, uma das crianças que articulou a invasão ao depósito contraiu sarna. Um dia, chegou até a casa do artista plástico com o corpo repleto por feridas. Sensibilizado, Luiz Carlos cuidou do garoto ao longo de uma semana. “Fui até a casa dele para conversar com a família. Me falaram que os pais dele tinham ido embora para uma Vila Rural. Quando expliquei para a avó que o caso do menino era grave, ela disse o seguinte: ‘Leva esse traste daqui. Pega ele pro senhor, não quero ele mesmo.’”

Surpreso, o artista foi informado que o garoto dormia fora de casa, no quintal, em companhia de diversos animais. Para convencer a criança a receber um tratamento diário à base de sal e limão, Luiz Carlos e a namorada, Lindinalva, prepararam lanches para alguns garotos do bairro a semana inteira. “É só oferecer comida que a criançada vem. Deu tudo certo e na semana seguinte ele sarou. Hoje o menino mora com os pais em uma Vila Rural”, revela o artista plástico.

Written by David Arioch

November 6th, 2014 at 6:50 pm

O dia em que Maria Norinha desafiou o patrão

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Maria Norinha na infância, quando vivia na área rural de Paranavaí (Foto: Acervo Familiar)

Maria Norinha na infância, quando vivia na área rural de Paranavaí (Foto: Acervo Familiar)

Maria Norinha tinha 13 anos quando morava em uma colônia a pouco mais de 20 quilômetros da área urbana de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Na época, trabalhava nos cafezais de um dos fazendeiros mais ricos da região. “Comecei na roça com sete anos. Com o tempo percebi que ganhavam muito dinheiro explorando a gente”, relata.

Em um dia de 1969, a jovem foi ao centro de Paranavaí e se apaixonou por um sofá que viu em uma loja. A viagem de retorno para casa foi percorrida a pé, mas com satisfação. “Coloquei na minha cabeça que iria comprar aquele sofá”, conta sorrindo. Quando chegou em casa, um ambiente simples com chão de terra batida, e que nunca acomodou um sofá, explicou ao pai que iria comprar o móvel, mas o homem não concordou e afirmou que o patrão também não concordaria.

Maria Norinha conversou com o fazendeiro e pediu que ele fosse o avalista da compra, justificando que se dedicava à sua roça de café há seis anos. Ainda assim, o sujeito recusou. Obstinada, Norinha foi até o Centro de Paranavaí a pé e comprou o sofá. Na hora da negociação, o gerente da loja disse: “Mas você precisa que o seu patrão seja o avalista. Será que ele vai fazer isso?”

A jovem respondeu: “Ele vai ter que concordar. A gente trabalha pra ele há muito tempo e até hoje não temos sofá em casa.” No dia, os moradores da colônia assistiram a chegada do caminhãozinho que trazia sobre a carroceria um sofá marrom de quatro lugares, cuidadosamente embalado.

Em meio aos olhares curiosos, Norinha pediu que o motorista fosse direto para a casa principal da fazenda, onde vivia o patrão. Chegando lá, mostrou ao fazendeiro que a compra já tinha sido feita e pediu que ele assinasse um documento, assumindo o compromisso como avalista. “Ele hesitou, fez cara feia, mas acabou cedendo”, lembra.

Maria Norinha ficou feliz com a compra. O problema depois foi lidar com a incompreensão do pai e a retaliação do patrão. Por causa do sofá, o fazendeiro a tratou mal por pouco mais de dois meses. “Como nossa casa não tinha piso, eu forrava a base do sofá com plástico e todos os dias o limpava com um pano molhado”, comenta, acrescentando que pagou sozinha pelo produto. O pagamento foi parcelado em 24 meses.

Naquele tempo, sofá era considerado um artigo de luxo na colônia, tanto que muita gente fez questão de ir até a casa de Maria Norinha para checar de perto o conforto do móvel. “Isso era normal numa época em que se ganhava mal e os colonos se endividavam com facilidade, principalmente nos armazéns mantidos pelos próprios patrões. O pagamento era tão ruim que meu irmão teve de trabalhar um ano pra comprar o sapato que ele tanto queria”, revela.

As famílias de colonos costumavam trabalhar de segunda a sexta para custear despesas básicas. Já o final de semana era dedicado aos “bicos” em outras lavouras. “A gente trabalhava sábado e domingo pra juntar um dinheirinho e comprar alguma roupa”, destaca.

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Written by David Arioch

November 4th, 2014 at 12:44 pm

Um homem marcado pela tragédia

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Quando a riqueza material ofusca a importância da vida

Paranavaí quando Hésio Azeredo viveu aqui uma sucessão de tragédias (Foto: Toshikazu Takahashi)

Paranavaí quando Hésio Azeredo viveu aqui uma sucessão de tragédias (Foto: Toshikazu Takahashi)

Na infância, meu avô me contou uma história que jamais esqueci. É sobre um homem que teve a vida transformada por uma sucessão de tragédias em 1958 e 1959. Até o ano passado, sempre me questionei se o que ouvi quando criança era verdade ou não. A confirmação chegou até mim há alguns meses, quando encontrei uma sobrinha do protagonista desta sinistra e pitoresca história.

Hésio Oscar Azeredo era um investidor de grandes posses que vivia com a família em uma fazenda a pouco mais de 20 quilômetros da área urbana de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Passava o tempo todo ocupado, tentando encontrar novas formas de multiplicar os lucros. Havia época em que dormia menos de três horas porque achava que repousar mais o impediria de alcançar seus objetivos. “Ele tinha uma boa família e era uma boa pessoa, mas colocava o dinheiro e a ambição acima de tudo”, diz a sobrinha Maria Aparecida Lorelli.

Hésio Oscar era filho único de um falecido casal de multimilionários que até as primeiras décadas do século XX administrava investimentos de capital estrangeiro no Brasil. Ainda jovem, já possuía propriedades rurais em sete estados, além de fazendas no Paraguai e Argentina. Algumas eram maiores do que muitas cidades do Brasil. Também investia em beneficiamento de grãos e cereais, telefonia e transportes fluviais. Era muito influente, tanto que na sua biblioteca particular, um ambiente inspirado no gabinete do presidente dos Estados Unidos – o Salão Oval, deixava em destaque uma grande foto em que aparecia ladeado pelo ex-presidente Dwight Eisenhower.

“A moldura do quadro era de ouro maciço. Poucas pessoas podiam entrar lá. Somente alguns familiares conheciam o lugar. Meu tio ainda pedia que por discrição ninguém falasse sobre o que viu lá dentro”, declara Maria que na infância e adolescência teve três oportunidades de visitar o local. Apesar do apego aos bens materiais, o investidor era considerado pelos empregados como um patrão rigoroso, mas justo. Fazia questão de acompanhar de perto todos os seus negócios. Ainda assim, muitos boatos se espalhavam sobre o Tymbara, apelido que um místico colono de origem kaingang deu a Hésio Azeredo. “Era o único índio da nossa turma. Ele inventou esse apelido e não explicou o significado. Só que ninguém nunca teve coragem de chamar o ‘Dr. Hésio’ de Tymbara, então isso ficava mais entre a gente”, comenta o ex-colono aposentado Inácio Durval Reis que naquele tempo era mais conhecido como Mizim.

Nos anos 1950, o investidor construiu um escritório inspirado em Eisenhower e no Salão Oval (Foto: Reprodução)

Nos anos 1950, o investidor construiu um escritório inspirado em Eisenhower e no Salão Oval (Foto: Reprodução)

Em 1957, já circulava entre os colonos um boato de que Azeredo se referia ao dinheiro como se fosse um tipo de deidade. “Falavam que ele tinha um altar cheio de dinheiro e que não saía de lá sem se ajoelhar e rezar pra ganhar mais um punhado a cada dia”, conta Mizim, acrescentando que talvez tenha sido apenas conversa fiada de gente à toa.

Há quem diga que uma cozinheira da fazenda jurou ter visto paredes forradas com notas de cem dólares em alguns dos cômodos da casa principal. “Todo mundo ouvia falar. Só que não conheço ninguém que testemunhou isso. Sei que tinha cômodos da casa que o ‘Dr. Hésio’ não permitia a entrada de ninguém, nem das empregadas”, enfatiza Reis. Embora as lembranças não estejam mais tão frescas na memória, Maria se recorda com carinho da tia Clara e dos primos Tadeu e Joaquim. “Eram bem espertos e adoravam correr pelo campo. Na fazenda, perto de uma bica de mina, tinha um morrinho coberto por uma grama bem verdinha onde eles adoravam escorregar e rolar. Às vezes eu e uma babá cuidávamos dos dois”, comenta.

Tadeu, de cabelos negros que chegavam a azular com a incidência do sol vespertino, era bem comunicativo e agitado. Já Joaquim, de cabelos loiros, era calmo e parcimonioso. Os dois sofriam de heterocromia. “Tadeu tinha um olho preto e um azul. Joaquim possuía um olho preto e um verde. Por causa disso, eu ficava sabendo de muitas bobagens ditas pelos mais ignorantes”, lembra Maria Lorelli. Hésio Azeredo pouco participava do cotidiano familiar. Assistia ao desenvolvimento dos filhos como um espectador desatento. Tinha o hábito de viajar antes do amanhecer, retornando apenas semanas mais tarde e normalmente de madrugada. A pressa era tanta que nem se despedia dos filhos. Se o lucro fosse muito alto e exigisse mais tempo fora de casa, não se importava em se ausentar por alguns meses. Uma vantagem é que o empresário sempre teve pessoas de sua confiança para garantir o bom andamento dos seus muitos empreendimentos.

Criado em uma família que há várias gerações se dedicava a multiplicar riquezas, Azeredo foi o primeiro a romper o ciclo, e não por vontade própria, mas por uma sucessão de acontecimentos que transformaram sua vida. Em dezembro de 1958, após uma séria discussão com o marido, Clara chamou os dois filhos e disse a eles que iriam passar alguns dias na casa da avó em Curitiba. “Ajudei eles a arrumarem as malas e os acompanhei até o aeroporto da família, onde um avião e um piloto estavam sempre à disposição”, relata Maria. No último momento, apesar da resistência em deixá-los partir, Hésio Oscar achou que contrariar a mulher poderia piorar a situação. No início da noite, se arrependeu amargamente ao receber a notícia de que o piloto Julião Martins Bastina sofreu um mal súbito e perdeu o controle da aeronave. O avião que caiu na região dos campos gerais foi encontrado por um caminhoneiro que viu uma criança ensanguentada acenando e gritando por socorro.

“A tia Clara, o Joaquim e o piloto não resistiram aos ferimentos. Acho que morreram na hora do impacto. O Tadeu sobreviveu por um milagre. Ele teve só escoriações e não precisou ficar internado”, destaca Maria Aparecida. A maior parte do sangue sobre o corpo do garoto era do irmão e da mãe que o envolveu nos braços instantes antes da queda. Pelo menos por dois meses após o enterro, a tragédia fez de Azeredo um homem incomunicável, agressivo e ostracista. Não tinha vontade de ver ninguém, nem mesmo o filho sobrevivente. Depois retornou à rotina sem avisar ninguém. E não aceitava que falassem das mortes da mulher e do filho, negando a si mesmo a partida dos dois, mesmo tendo participado da cerimônia fúnebre.

Avião com a mulher e os filhos de Hésio caiu nos Campos Gerais (Foto: Reprodução)

Avião com a mulher e os filhos de Hésio caiu nos Campos Gerais (Foto: Reprodução)

Sem saber como lidar com a vida pessoal, até mesmo esquecendo que tinha família, se afundou ainda mais em trabalho. Esqueceu muitas vezes que Tadeu continuava morando na mesma casa. “O pai dele tinha atitudes de alguém que perdeu tudo. Em vez de se basear naquele exemplo para mudar de vida, fez exatamente o contrário. Fiquei muito nervosa com a situação”, desabafa a sobrinha. Isolado por Hésio Oscar, Tadeu começou a agir como se o irmão Joaquim continuasse com ele. Maria Lorelli foi a primeira a perceber que o primo divagava e tinha alucinações. Parecia falar com outras pessoas, mesmo quando estava sozinho. Quem o via de longe, pensava que havia alguém acompanhando o garoto.

“Ele corria lá pelos lados das plantações. Se embrenhava no meio do cafezal e brincava de se esconder. Lembro que perguntei se tinha mais alguém com ele. Me respondeu que era o irmão. Achei que fosse uma traquinagem inocente, nem comentei com ninguém”, revela Mizim. Episódio semelhante se repetiu uma semana mais tarde, quando Tadeu estava sozinho no quarto, escondido e cochichando dentro do guarda-roupa. Com a insistência dos mais próximos, Azeredo concordou em procurar um tratamento psiquiátrico para o filho. Tadeu foi diagnosticado com transtorno do estresse pós-traumático. Mesmo com acompanhamento médico, o estado do garoto só piorou. Embora se preocupasse com a situação, Hésio preferia deixá-lo aos cuidados de familiares e empregados.

Um dia, quando se machucou ao saltar sobre uma cerca, a perna de Tadeu começou a sangrar. Ele se aproximou do pai e disse: “Por que o senhor não gosta de mim? É por que o que sai do meu corpo é um líquido vermelho sem valor? Mas e se fosse amarelo e brilhante como ouro?” Azeredo não respondeu. Surpreso, se calou e abraçou o filho, clamando por perdão. A cena foi testemunhada ao longe pela prima Maria. Na semana seguinte, três dias antes de completar 12 anos, Tadeu foi encontrado deitado na própria cama, abraçado a uma foto em que ele aparecia brincando com a mãe e o irmão. Havia um pequeno frasco de estricnina ao seu lado. Tadeu estava morto e com os olhos fechados, como se estivesse se preparando para dormir. Quando viu o filho de pijama e sem vida, Hésio saltou pela janela do quarto que ficava no andar superior. O impacto provocou apenas um corte na cabeça, escoriações e um desmaio que durou cerca de duas horas. Ao acordar, teve uma cefaleia intensa que desapareceu só no fim da noite.

Maria Lorelli tentou conversar com o tio sobre a necessidade de velar e enterrar Tadeu, mas Hésio não quis dialogar. Deixou claro que não precisava da ajuda de ninguém, assumindo o compromisso de fazer tudo sozinho. Só exigiu que dois empregados levassem um enorme refrigerador horizontal, que estava na maior despensa da casa, até um quarto ao lado do seu. Mandou que todos saíssem, tomou Tadeu nos braços e o carregou para a sua suíte. Chaveou a porta do quarto e disse aos familiares que retornaria em algumas horas. Antes que alguém fizesse alguma pergunta, entrou em um jipe Land Rover e desapareceu na escuridão, retornando antes do amanhecer, acompanhado de um húngaro misterioso e com um forte sotaque a quem chamava de Gazda. Transferiram Tadeu para o quarto ao lado da suíte e não permitiu que ninguém entrasse no local.

Modelo do jipe usado por Azeredo em 1959 (Foto: Reprodução)

Modelo do jipe usado por Azeredo em 1959 (Foto: Reprodução)

No dia seguinte pela manhã, Azeredo estava mais calmo e convidou parentes e amigos mais próximos para participarem de enterro do filho no cemitério particular da família. Estranharam a atitude porque Hésio nem mesmo havia planejado o velório. Por comiseração e até por medo de uma má interpretação, ninguém cogitou questioná-lo por não deixar ninguém ver Tadeu antes de fechar o caixão. Algumas das pessoas que participaram da cerimônia, segundo Maria Lorelli, comentaram que Azeredo parecia mais lúcido e provavelmente, após o rompante de desespero, logo entraria na fase de aceitação. Quando todos os parentes foram embora, Azeredo dispensou parte dos empregados, justificando que como estava sozinho não precisava mais de tantas pessoas trabalhando na casa principal. Maria insistiu em continuar com o tio por mais alguns dias, mesmo ciente de que talvez não fosse mais bem-vinda. “Desconfiei de algo estranho acontecendo porque o tal húngaro que ninguém conhecia ficou na casa quase uma semana. Além disso, ele não parecia o tipo de pessoa com quem o tio costumava negociar”, argumenta.

Algumas horas antes de Gazda partir, Maria o ouviu cochichando algumas palavras ininteligíveis a Hésio. Sem motivo para prolongar a estadia, a jovem partiu para Curitiba, onde ingressou no curso de medicina da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Nas férias, Maria sempre passava alguns dias na fazenda do tio para saber como ele estava e também para reviver lembranças do tempo em que ajudava a tia Clara e os primos Tadeu e Joaquim. Azeredo estava mais comunicativo e não viajava com muita frequência. Na realidade, raramente deixava a fazenda. A propriedade do empresário se tornou o seu mundo, tanto que as negociações diminuíram consideravelmente. Em 1962, apenas nove dos empregados continuaram trabalhando na propriedade. Era o suficiente para manter a operacionalização das atividades locais.

No final daquele ano, por intermédio dos pais, Maria ficou sabendo que Hésio, sem dar explicações, desfez de grande parte dos imóveis e empresas que possuía. Mas a surpresa maior veio em janeiro de 1963, quando Maria encontrou a fazenda abandonada. As plantações estavam morrendo e não havia ninguém no campo. Na casa principal, a sobrinha sentiu um forte mau cheiro vindo da cozinha, onde muitos alimentos estragaram há bastante tempo. Maria também se deparou com móveis cobertos por lençóis brancos. Nada disso pareceu tão estranho quanto uma bem disposta e linear trilha de notas de cruzeiro que começava no cemitério particular da família e terminava no quarto de Hésio Azeredo.

Maria Lorelli seguiu as notas e quando abriu a porta do quarto viu o tio deitado na cama abraçado com o filho Tadeu. Mesmo sem vida, o garoto estava com a aparência do dia em que foi encontrado morto. “Como participei do enterro dele três anos antes, pensei que eu estivesse louca. Até a expressão no rosto de Tadeu ainda era a mesma”, comenta. Após o susto, Maria viu que Hésio também estava morto. Ao lado do corpo, somente um frasco quase vazio de estricnina. Preocupada com a repercussão, a família de Maria evitou comentários e fez o possível para impedir que a história fosse divulgada. Até mesmo no registro de óbito consta que a causa da morte foi um ataque cardíaco. O caixão onde supostamente colocaram o corpo de Tadeu em 1959 sempre esteve vazio. O substituíram por outro e realizaram uma nova cerimônia fúnebre para pai e filho. Desta vez, com a participação de cinco pessoas. Antes de morrer, Hésio Azeredo deixou um testamento destinando 80% da fortuna para orfanatos, asilos e entidades sociais que cuidavam de crianças de rua.

O restante foi dividido entre sete familiares e dois irmãos de criação. Em um bilhete queimado no mesmo dia em que foi lido, Hésio explicou brevemente que o húngaro Gazda era um artista da matéria humana que lhe proporcionou, mesmo que por pouco tempo e com certo requinte ilusionista, se comunicar e se despedir do filho de uma maneira que ninguém jamais entenderia. Anos depois, Maria Lorelli ouviu novamente falar de Gazda em São Paulo. Então soube que o homem misterioso foi um dos mais revolucionários taxidermistas do Leste Europeu, onde trabalhou para czares, aristocratas e líderes socialistas. Se mudou para o Brasil nos anos 1940, fugindo da perseguição nazista aos ciganos.

Curiosidade

Tymbara é uma palavra de origem tupi-guarani que significa “aquele que enterra”.

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