David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘História’ Category

A fé do sertanejo

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A autoria da foto é desconhecida até hoje

Embora embutida de poesia, a autoria da foto é desconhecida até hoje

A foto que parece tirada do filme “O Pagador de Promessas”, do grande Anselmo Duarte, na realidade é a imagem de um sertanejo que se mudou para Paranavaí no início da década de 1950 em busca de um futuro melhor. Em meio ao vazio, percebe-se um todo que o migrante sonhava em preencher com a própria esperança.





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January 4th, 2016 at 12:20 pm

Coca-cola foi criada por um médico e farmacêutico

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Pemberton Pemberton era um especialista em técnicas modernas de eliminação de toxinas (Foto: Reprodução)

Pemberton era um especialista em técnicas modernas de eliminação de toxinas (Foto: Reprodução)

Existe algo mais paradoxal do que a Coca-Cola ter sido inventada por um médico e farmacêutico que queria criar um refresco para amenizar cefaleia? E mais, John Pemberton era um estudioso e especialista em técnicas modernas de eliminação de toxinas. Pois é, a contradição nos acompanha desde sempre.

Written by David Arioch

January 4th, 2016 at 12:18 pm

Ephraim Machado presenciou a inauguração da TV em 1950

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“Ouvi muita gente dizendo: ‘Como é que pode, né? O cara lá e a imagem aqui; não dá pra acreditar!'”

Em 18 de setembro de 1950, uma multidão se reuniu em torno de um pequeno televisor (Foto: Divulgação)

Em 18 de setembro de 1950, uma multidão se reuniu em torno de um pequeno televisor (Foto: Reprodução)

O empresário Ephraim Marques Machado, de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, assistiu a inauguração da primeira estação de TV do Brasil. No evento, viu de perto celebridades da Rádio Tupi que migrariam para a televisão. A experiência foi tão marcante que o então jovem se apaixonou pela tecnologia.

No dia 18 de setembro de 1950, em meio a milhares de curiosos de diversas partes do Brasil e do mundo, lá estava Ephraim Machado, participando de um dos momentos mais célebres da história da televisão brasileira: o nascimento da Tupi, de Assis Chateaubriand, que consagrou o Brasil como o quarto país do mundo a ter TV.

“Eu não passava de um jacu que tinha um serviço de alto-falante e saiu do mato para ir a São Paulo ver a inauguração da TV”, conta, às gargalhadas, Machado. O empresário diz considerar esse dia como um dos mais incríveis de sua vida, e ratifica tais palavras com brilho nos olhos.

Ephraim relata que jamais imaginou como seria o primeiro contato com um televisor, objeto nunca visto, nem mesmo em fotografias. De televisão, o pioneiro só tinha ouvido falar. “O impacto foi muito grande, tanto para mim, quanto para outras pessoas. Ao meu lado, ouvi muita gente espantada dizendo: ‘Como é que pode, né? O cara lá e a imagem aqui; não dá pra acreditar!’”, relembra Machado.

Chatô, responsável por trazer a teledifusão ao Brasil (Foto: Reprodução)

Chatô, responsável por trazer a teledifusão ao Brasil (Foto: Reprodução)

À época, o empresário supôs que o televisor fosse simplesmente uma tela parecida com a do cinema. “Pensei também que um cara abria ela. Não tinha nada disso. Por isso me surpreendi tanto”, revela. Contudo, o susto de não foi apenas com o aparelho, mas também com o número de pessoas presentes na inauguração. “Tive uma dificuldade tão grande pra entrar no auditório que você nem queira saber. Tinha gente demais, muita gente mesmo, afinal São Paulo é São Paulo”, comenta.

A experiência foi tão significativa que ele admite ter se apaixonado instantaneamente pela televisão. Inclusive pensou em seguir o caminho do comunicador que tanto admirava: Assis Chateaubriand, proprietário dos Diários Associados. “É um sonho que gostaria de ter realizado. Fiquei muito interessado no produto quando vi. Se naquela época eu morasse numa cidade com potencial de uma metrópole, eu teria dado um jeito de montar uma estação”, assegura.

Quando o governo brasileiro lançou o primeiro edital para pleito de concessões, o pioneiro cogitou a possibilidade de enveredar pela teledifusão. Segundo Machado, havia um bom patrocínio e também inúmeros benefícios. Entretanto, depois de se inscrever para disputar o direito de montar uma emissora, o empresário soube que firmas estrangeiras estavam capitalizando o negócio no Brasil. “Não pude transformar meu desejo em realidade porque vi que não tinha recursos o suficiente para competir com o capital externo. Nunca gostei de sociedade, então desisti”, justifica.

Atraso para entrar no ar

A primeira emissora da TV Tupi, prefixo PRF-3, seria inaugurada às 21h com o programa TV na Taba, mas problemas técnicos causaram atraso de uma hora. “Entrou no ar e saiu do ar. Tudo isso porque a câmera às vezes parava de funcionar. Mesmo assim foi um evento espetacular. Dava gosto ver aquela minúscula telinha”, defende o empresário Ephraim Machado.

Uma das primeiras câmeras da TV Tupi; filme precisava ser revelado (Foto: Reprodução)

Uma das primeiras câmeras da TV Tupi; filme precisava ser revelado (Foto: Reprodução)

Além de assistir ao vivo o primeiro programa televisivo, comandado pelo emblemático Homero Silva, Machado viu de perto dezenas de artistas que fizeram história no rádio, teatro e cinema, como Lolita Rodrigues, Amácio Mazzaropi, Aurélio Campos, Walter Forster e Lima Duarte. “Fiquei deslumbrado quando vi a Hebe Camargo e o J.B. Junior. Deram um rosto para aqueles famosos que tanto ouvíamos na Rádio Tupi”, reitera.

A influência do rádio para a TV também foi explícita, tanto que o pioneiro se recorda de ter visto o apresentador com uma folha de papel em mãos, lendo tudo ao vivo. “Ele parecia não se importar com o que víamos”, brinca o pioneiro, se referindo a um fato de uma época em que ainda não existia videotape.

Tudo era filmado em 35 milímetros e depois o filme era revelado, para então ser transmitido por uma emissora de televisão. A precisão era algo tão distante da realidade na década de 1950 que a filmagem normalmente era veiculada cinco dias depois.

Saiba Mais

A TV Tupi foi a primeira emissora de televisão da América Latina

Todos os equipamentos usados na inauguração da TV eram de origem americana – da Radio Corporation of America (RCA).

No dia do evento, o transmissor foi colocado no topo do prédio do Banco do Estado de São Paulo.

O frei mexicano José Mojica, também cantor, foi a primeira pessoa a se apresentar na TV.

Assis Chateaubriand foi proprietário do Diários Associados, o maior conglomerado de imprensa do Brasil. As posses do comunicador incluíam 36 emissoras de rádio, 34 jornais, 18 estações de televisão, várias revistas infantis, uma agência de notícias, uma editora, a revista O Cruzeiro e a revista A Cigarra.

Neusa Sanches conta a história do Femup

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Neusa fez parte da turma de estudantes que criou um dos festivais mais antigos do Brasil em atividade

Neusa Sanches: “A ideia de se chamar de festival partiu do professor Gomes da Silva” (Foto: Amauri Martineli)

Neusa Sanches: “A ideia de se chamar de festival partiu do professor Gomes da Silva” (Foto: Amauri Martineli)

“Nós éramos a turma pioneira do curso clássico do Colégio Estadual de Paranavaí [CEP]. Nos reunimos em 13 alunos para discutir sobre a formatura e pensamos em realizar alguma promoção”, conta a professora Neusa Sanches, uma das fundadoras do Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup), criado em 1966.

A princípio, por iniciativa de Osvaldo Cruz, vários estudantes cogitaram a possibilidade de fazer um baile, até que Neusa Sanches sugeriu uma noite de artes. Todos concordaram com a ideia e procuraram o professor Gomes da Silva, do Rio de Janeiro, que ministrava aos alunos um curso de oratória e liderança. “Fomos até o Hotel Elite, onde ele estava hospedado. Falamos a nossa ideia e ele achou ótima”, lembra Neusa.

A primeira sugestão da turma foi a abertura de inscrições de poemas inéditos. Como não havia categoria música, a animação do evento era feita por professores e alunos do Conservatório Nice Braga. “A ideia de se chamar de festival partiu do professor Gomes da Silva. Ele disse o seguinte: ‘Façam o primeiro festival e depois deem continuidade’. Começamos o trabalho antes das férias, em junho. Não tivemos muito tempo. Mas tudo deu certo com a orientação dele. Logo saímos às ruas colando cartazes”, relata.

O primeiro festival teve um formato elitizado, já que os convites eram vendidos para pessoas que os alunos consideravam interessadas em arte. Além dos envolvidos na organização, 50 convidados participaram da primeira edição realizada no Paranavaí Tênis Clube. Quem fez a apresentação foi o professor Ângelo Sebastião de Andrade, diretor do Colégio Estadual de Paranavaí.

Gomes da Silva à esquerda e Neusa Sanches ao centro no primeiro festival em 1966 (Acervo: Neusa Sanches)

Gomes da Silva à esquerda e Neusa Sanches ao centro no primeiro festival em 1966 (Acervo: Neusa Sanches)

Dos 16 poemas inscritos, um era “Maria Rio Bahia”, do professor Gomes da Silva.

Neusa declamando no Femup de 1967 (Acervo: Neusa Sanches)

Neusa declamando no Femup de 1967 (Acervo: Neusa Sanches)

Toda a divulgação do evento era feita a pé e o dinheiro arrecadado com a venda de convites era destinado às despesas gerais, incluindo confecção dos pequenos e simplórios troféus. Para evitar imprevistos e desorganização, como a maior parte dos estudantes trabalhava, eles assumiram o compromisso de usar a hora do almoço para contribuir na coordenação do evento. “Eu, por exemplo, fazia o curso clássico à noite e escola normal durante o dia. Ninguém tinha muito tempo. Era preciso fazer sacrifícios”, garante Neusa.

No segundo festival, que teve um público três vezes superior ao primeiro, o radialista Fernando da Silva declamou “João das Dores” e também “Maria Rio Bahia”. “Ele foi excelente e ajudou a dar uma cara popular ao festival. O segundo Femup foi realizado em parceria com o pessoal da turma do clássico do período noturno. Não tinha mais a turma da manhã. A repercussão só foi melhorando”, declara Neusa que se emociona ao se recordar do empenho do professor Gomes da Silva.

A partir do terceiro festival, ainda sob coordenação da turma pioneira do curso clássico, não houve mais cobrança de convite nem de ingresso. O 4º Femup, realizado no Cine Ouro Branco em 1969, e pela primeira vez fora do Paranavaí Tênis Clube, contou com o 1º Concurso de Contos de Paranavaí. O grande vencedor foi o escritor Paulo Marcelo Soares da Silva com o conto “O Cafezal”, publicado no Diário do Noroeste.

Desde as primeiras edições os organizadores convidavam professoras de português para participarem da comissão julgadora. “Sempre tivemos essa preocupação. A professora Maria Alice Penteado, que depois casou com o João Vitorino Franco, depois de estreitarem contato através do festival, teve importante participação na comissão de poesia”, declara Neusa Sanches.

Se nos dois primeiros festivais a participação se restringia mais a Paranavaí, a partir do terceiro o Femup começou a atrair atenção de pessoas de todo o Paraná. “Vinha muita gente de Londrina. E com a criação do concurso de contos o festival cresceu muito. Tínhamos apoio do radialista Fernando da Silva que fazia entrevistas com artistas e organizadores do Femup em horário nobre. O Diário do Noroeste e a Folha de Londrina também ajudaram muito”, garante.

Outra característica que distingue o Festival de Música e Poesia de Paranavaí de muitos outros festivais é que desde o surgimento já existia uma preocupação em publicar os trabalhos vencedores. “Começamos em 1966 com um livrinho bem simples, encadernado, até feinho, feito no mimeógrafo. Fazíamos tudo com material doado, desde a tinta até as folhas. Não tínhamos condições financeiras de ir além”, justifica Neusa, lembrando que só os quatro melhores trabalhos eram premiados.

Após décadas de envolvimento com o festival, a professora Neusa Sanches se afastou para cuidar dos filhos pequenos. “Quando me tornei professora do Colégio Estadual, eu sempre participava das comissões julgadoras de contos e poesia. Mais tarde, preferi me distanciar para não fazer um trabalho mal feito. Mas posso dizer que passei muitos anos sem perder nenhum, era macaca de auditório”, comenta às gargalhadas.

João Franco e Leonar Cardoso se emocionam ao falar do Femup

João Vitorino Franco e Leonar Araújo Cardoso também fizeram parte da primeira turma do curso clássico do Colégio Estadual de Paranavaí (CEP) que criou o Festival de Música e Poesia de Paranavaí (Femup). Os dois se recordam com muita emoção das primeiras edições. “Até então a gente nem pensava em festival. Queria só fazer uma atividade cultural. E a pessoa mais indicada para nos ajudar era o professor Gomes da Silva. Ele abraçou a ideia e explicou o que era preciso fazer”, conta Franco.

Leonar Cardoso: “Tínhamos mais público e mais experiência. Não estávamos mais restritos ao curso clássico e ao Colégio Estadual de Paranavaí” (Foto: Arquivo Pessoal)

Leonar Cardoso: “Tínhamos mais público e mais experiência. Não estávamos mais restritos ao curso clássico e ao Colégio Estadual de Paranavaí” (Foto: Arquivo Pessoal)

Leonar relata que o 1º Femup teve um público modesto, mas que serviu de estímulo para levar a iniciativa mais a sério, ampliando a qualidade do festival. “Procuramos algumas empresas de Paranavaí porque já achávamos importante fazer um troféu para entregar aos vencedores. Todos ajudaram. Só não vou citar nomes dos patrocinadores porque posso esquecer algum e ser injusto”, justifica João Vitorino.

O segundo festival trouxe novo fôlego e começou a chamar a atenção da população de Paranavaí. “Tínhamos mais público e mais experiência. Não estávamos mais restritos ao curso clássico e ao Colégio Estadual de Paranavaí”, comenta Leonar Cardoso. A comissão organizadora do 3º Femup foi presidida por João Franco que considera um privilégio a oportunidade de organizar um festival que hoje tem abrangência nacional e quase 50 anos. “Se tudo deu certo em 1968 é porque todos os meus colegas contribuíram. A gente ainda não tinha ideia da dimensão que o festival alcançaria. Foram anos inesquecíveis no Paranavaí Tênis Clube e Cine Ouro Branco”, avalia Franco.

Hoje, os ex-alunos do curso clássico do Colégio Estadual acham mais do que justo dizer que o mérito também é de Paranavaí. “A cidade, indireta e indiretamente, tomou consciência do festival a partir da segunda edição e se tornou muito participativa”, defende João Vitorino, lembrando que o festival não existiria hoje sem o apoio da população e da classe artística local.

Neusa Sanches, Leonar Cardoso e João Franco, que estão entre os homenageados do 50º Festival de Música e Poesia de Paranavaí, lamentam apenas a ausência de importantes nomes que ajudaram a moldar o Femup desde a primeira edição. “Dói saber que um amigo como Osvaldo Cruz, uma figura extraordinária, já não está mais entre nós. Mas a vida é assim. Também sentimos a falta de Hermenegildo Garcia que foi embora de Paranavaí há muito tempo. Ele trabalhava na Rádio Cultura e ajudou demais na divulgação. Torcemos para que o Femup nunca chegue ao fim”, declara João Franco.

Primeira página da antologia mimeografada do 1º Femup, resguardada pela professora Elmita Simonetti Pires (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Primeira página da antologia mimeografada do 1º Femup, resguardada pela professora Elmita Simonetti Pires (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Quem era o professor Gomes da Silva

O professor José Gomes da Silva, graduado em letras e professor no Rio de Janeiro, é considerado pelos criadores do Femup como a “alma do festival”. Responsável por ensinar como fazer um bom evento de artes, inclusive como julgar, morou em Paranavaí até o final do terceiro festival. “Uma das declamadoras, a Célia, se casou com ele. Numa das viagens para Curitiba, eles sofreram um acidente e caíram na serra. A Célia morreu e o professor Gomes da Silva conseguiu salvar o bebezinho deles depois de subir a serra para pedir socorro. Eu soube que ele deixou a criança no hospital e desapareceu”, confidencia a professora Neusa Sanches.

Comissão organizadora do 1º Femup

Professor José Gomes da Silva, Alzira Suguino, Clóvis Costa Cordeiro, Edna Parpinelli, Elizeu Petrelli de Vitor, Else Ravelli, Gentil Carraro, Hermenegildo Garcia, João Vitorino Franco, Juarez Echeli, Leonar Araújo Cardoso, Luiz Geraldi Sobrinho, Luiz Volzzi Neto, Mara Watanabe, Neusa Sanches, Osvaldo Cruz (In memoriam), Pedro Jardim e Terezinha Silva de Oliveira.

 Vencedores do 1º Concurso de Contos de Paranavaí

1º lugar – O Cafezal – de Paulo Marcelo Soares da Silva
2º lugar – Simone – de Guido Feuser
3º lugar – O Sorriso de Terê – de Ana Maria Bordim
4º lugar – Erradicação na Sociedade – de Lucas Trenhenhém e Dermeval Chapadura
5º lugar – Soninha – de Paulo Marcelo
6º lugar – A Cozinheira – de Saul Bogoni
7º lugar – A Pasta – de Nêodo Noronha Dias
O conto “O Cafezal” foi publicado na época no Diário do Noroeste. Infelizmente, por causa de um incêndio, foram perdidos todos os registros nesse sentido e eu não guardei o original.

Curiosidades

Na primeira edição o Femup recebeu cerca de 60 inscrições.

Em 1987, o troféu Barriguda, então feito de ferro e desenvolvido pelo artista plástico Saulo Suguimati, foi entregue pela primeira vez aos participantes que ficaram em primeiro lugar no festival.

Outra boa lembrança era frequente participação do declamador José Maria Cavalcanti.

Frases da professora Neusa Sanches

“O falecido Osvaldo Cruz era da linha de frente em 1966. Muito companheiro, assim com o Hermenegildo Garcia.”

“A Elmita Simonetti Pires era pequeninha e já declamava nas primeiras edições. Era muito bonito de se ver.”

“O Paulo Cesar de Oliveira depois injetou mais ânimo no Femup com o Grupo Gralha Azul.”

“Quando o doutor Atílio planejou criar o curso clássico em Paranavaí, a menina dos olhos dele, trouxe muita gente de fora. Veio o professor Apolo e vários outros professores de português, francês e latim que eram de Curitiba. Todos deram sua contribuição.”

“O professor Gomes da Silva foi o melhor orador que conheci na minha vida.”

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O dia em que Pedro Tenório assassinou Alma de Gato e Bartolo no Líder Bar

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Crime aconteceu no centro de Paranavaí no dia 8 de agosto de 1964

Líder Bar (ao fundo), cenário de um dos crimes mais macabros da região na década de 1960 (Acervo: João Carlos Antunes)

Líder Bar (ao fundo), cenário de um dos crimes mais macabros da região na década de 1960 (Acervo: João Carlos Antunes)

No dia 8 de agosto de 1964, um homem bebendo no Líder Bar, na Avenida Paraná, perto do cruzamento com a Rua Getúlio Vargas, no centro de Paranavaí, explicou a um conhecido que estava negociando a venda de uma fazenda que pertencia a uma família de gaúchos em Querência do Norte. “Vou fechar esse negócio, daí pago a minha dívida, né?”, enfatizou o homem, de acordo com Honório Bonfadini, um dos proprietários do Líder Bar na época, que acompanhou a conversa diante do balcão.

Quando chegou a hora de formalizar a venda, o negociante chamado Pedro Tenório se sentiu lesado porque a transação não foi concluída e ele perdeu a chance de ganhar uma boa comissão. Dois dias depois, retornou ao bar por volta do meio-dia. O local estava lotado, tanto que não havia mais cadeiras e mesas disponíveis. Então Tenório se aproximou do balcão e caminhou até dois homens que conversavam. Sem dizer palavra, sacou um revólver de calibre 44, puxou Onofre de Oliveira, mais conhecido como Alma de Gato, pelo braço e deu-lhe um tiro à queima-roupa no peito.

Alma de Gato foi sepultado na gaveta superior e Bartolo na gaveta inferior do Cemitério Municipal de Paranavaí (Foto: David Arioch)

Alma de Gato foi sepultado na gaveta superior e Bartolo na gaveta inferior do Cemitério Municipal de Paranavaí (Foto: David Arioch)

Bartolo Sanches Perez, que estava ao lado do amigo ferido, ficou inerte, com os olhos estalados. Antes que reagisse, também foi alvejado no peito. Os dois caíram lado a lado enquanto o sangue se misturava e se esvaía pelo chão do bar. Durante a ação, alguns fregueses tremiam assustados e encolhidos embaixo das mesas. Outros ficaram tão desesperados que correram em direção à Avenida Paraná. “Todo mundo saiu de perto quando ouviu o primeiro tiro. O atirador não chegou a quebrar nada. Só furou a parede e o forro”, relata Bonfadini.

Com calma, Tenório abaixou o revólver e saiu do bar da mesma forma que entrou, ou seja, calado. “Havia muito sangue no chão e muito medo nos olhos de quem presenciou esse crime”, relata o pioneiro João Mariano. O atirador caminhou com tranquilidade até a Rua Getúlio Vargas, onde foi abordado pelo tenente Walter Porto, da Polícia Militar. Não resistiu à prisão e ainda confidenciou que sua intenção era ir até outro bar assassinar mais duas pessoas que segundo ele faziam parte do grupo que interferiu em seus negócios. Feridos gravemente, Alma de Gato e Bartolo acabaram falecendo no hospital.

O pioneiro e ex-prefeito Deusdete Ferreira de Cerqueira se recorda que foi procurado por João Tenório para testemunhar em favor de Pedro Tenório. “Ele era de família abastada. Eu me dava bem com esse parente dele. Mas um dia ele passou na minha casa e disse: ‘É sobre o Pedro, sei que você faz parte do júri popular e quero pedir que salve ele’. Aí expliquei: ‘Ô Seu João, pra mim é difícil. A única coisa que você pode fazer é pedir pra me tirar do júri porque se eu for lá eu condeno ele. Tenho minha consciência e meu senso de justiça’”, lembra.

Deusdete Cerqueira, Honório Bonfadini e João Mariano conheciam Pedro Tenório e as vítimas (Foto: David Arioch)

Deusdete Cerqueira, Honório Bonfadini e João Mariano conheciam Pedro Tenório e as vítimas (Foto: David Arioch)

Após a condenação, Tenório foi transferido para Curitiba. O que o motivou a matar Alma de Gato e Bartolo foi o desejo de vingança e a sensação de impunidade. “Ele tinha amizade com um juiz e um escrivão que se dispuseram a ajudar ele. Ou seja, tudo gente boa”, ironiza Honório Bonfadini, lembrando que era muito comum as pessoas andarem munidas de revólveres de calibre 22 e 38 em 1964.

O duplo homicídio repercutiu tanto que se tornou o assunto mais falado na região por semanas. Inclusive a polícia exigiu que os Bonfadini fechassem o Líder Bar por alguns dias, reabrindo numa segunda-feira. “E tudo isso por causa da corretagem de uma fazenda. Naquele tempo as pessoas matavam facilmente por causa de comissão de terras. Ainda bem que os outros não quiseram se vingar porque senão ia acabar não sobrando ninguém”, pondera Deusdete.

Vizinho de Bartolo Sanches Perez, o pioneiro João Mariano conta que ele era tranquilo e educado. “Uma vez ele passou por uma situação difícil quando o filho dele foi laçar um boi e o animal o arrastou. Levaram o rapaz ao médico e ele se recuperou, mas ficou sem a mão”, confidencia.

Mariano também defende que Alma de Gato, homem alto e magro que conheceu em 1955, não era má pessoa. “Eu era mais novo que o Alma de Gato e tive o primeiro contato com ele em 1953, um ano depois que cheguei em Paranavaí. A propriedade onde moro hoje [Estância Reno] era do pai dele. Tinham uma fazenda enorme, com muito café e mato. Quando comprei, já tinham loteado. O forte deles sempre foi a cafeicultura”, garante Cerqueira.

Curiosidades

Alma de Gato e Bartolo estão sepultados na primeira seção de gavetas do Cemitério Municipal de Paranavaí.

Alma-de-Gato é o nome de um pássaro originário da Amazônia que tem a cauda longa, o peito acinzentado e a plumagem cor de ferrugem.

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A máfia italiana chega a Paranavaí

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Rastejando, buscaram armas debaixo de suas camas e se posicionaram enquanto uma saraivada de tiros penetrava a sala

Carreador percorrido de jipe pelos membros da Cosa Nostra de Messina em 1943 (Foto: Arquivo)

Carreador percorrido de jipe pelos membros da Cosa Nostra de Messina em 1943 (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Em junho de 1943, o ítalo-brasileiro Vittorino Alambare e os italianos Paolo Vergatti, Battaglia Di Carlo e Sotero Comezzino atravessaram São Paulo e dezenas de cidadezinhas e lugarejos para chegarem ao Noroeste do Paraná. No caminho, encontraram muitos veículos abandonados, se deteriorando. Mas nada chamou mais a atenção dos quatro do que um caixeiro-viajante com idade entre 25 e 30 anos, deitado aos pés de uma bracatinga, ladeado por um jipe com as rodas soterradas.

O rapaz estava morto. Teve os órgãos vitais dilacerados, possivelmente por uma onça. Mas os vestígios de sangue e couro em suas unhas indicavam que lutou com ardor antes de sucumbir. Dentro do veículo, encontraram documentos e uma foto do jovem com a esposa e dois filhos. Paolo se sensibilizou ao ouvir Alambare ler uma carta que o caixeiro jamais entregou à mulher. Na correspondência, Ildefonso Castanho justificou a partida.

“Não quero ser caixeiro-viajante até o dia de minha morte. O que poderia deixar de herança aos nossos filhos? Dívidas? Prometo buscá-los tão logo eu consiga melhorar de situação em um lugar chamado Fazenda Brasileira, onde um amigo me disse ser o direito às terras ofertado a todos que nutrem no coração o sonho de realização. Prometo que lhe enviarei dinheiro o quanto antes. Mande beijos e abraços às crianças e diga que nos encontraremos em breve”, escreveu Castanho, de acordo com o aposentado Genaro Alambare, filho de Vittorino.

Vergatti ficou preocupado com a situação da mulher que teria de criar três filhos sozinha. Em muitos anos, foi a primeira vez que os amigos o viram com olhos marejados por trás de um papel. Enterraram o corpo do caixeiro-viajante na mata, subiram a bordo do jipe Land Rover e seguiram viagem observando o Sol se pondo por trás da densa mata da região de Londrina.

“Onde fica essa Fazenda Brasileira? Seria longe demais? Será que muitas pessoas vivem lá? Parece ser um local pouco habitado. Talvez compense conhecer”, analisou Vittorino Alambare. Os demais também ficaram intrigados. Ainda assim nenhum deles tinha mais interesse no lugar do que Vergatti. O rapaz guardou a carta de Ildefonso Castanho no bolso da calça.

Em Maringá, para onde planejavam se mudar antes do incidente com o caixeiro-viajante, decidiram seguir adiante. No dia 25 de junho, perto de onde surgiria Nova Esperança, um denso nevoeiro matutino atrapalhou a visibilidade da estrada quando Alambare sentiu o impacto e o barulho de algo preso às rodas traseiras. Di Carlo e Comezzino desceram armados e circularam o jipe cautelosamente, revezando olhares em direção à floresta.

Vista parcial da Brasileira na época em que os italianos compraram uma fazenda (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Vista parcial da Brasileira na época em que os italianos compraram uma fazenda (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Apesar do susto, não havia nada embaixo do veículo. Nas imediações, ouviram apenas um acirrante som de água ecoando entre as copas das árvores. Caminharam alguns metros e encontraram um córrego e uma cristalina mina d’água intocada pelo homem. “Depois do banho, Paolo Vergatti saiu para procurar frutas quando foi surpreendido por uma onça-parda. Com o focinho sujo de sangue, o animal se aproximou dele, o observou, cheirou suas mãos e se afastou, correndo mata adentro. Paolo ficou calado e imóvel, sem entender o que aconteceu”, relata Genaro.

Horas depois de reiniciado o trajeto, encontraram um homem cego de meia-idade sobre um cavalo de pelagem escura. Percorrendo em sentido norte a margem de um carreador da futura Alto Paraná, o sujeito trajava apenas uma calça de estopa. Alambare reduziu a velocidade do jipe e perguntou se havia algum vilarejo por perto. Antes de responder, o homem se apresentou como Adolpho Aureliano. “Perdão se minha voz soa atrofiada, mas faz mais de 20 anos que vivo sozinho. Podem seguir adiante que vão encontrar o que procuram. Não estão longe. Ah! Mas se tiverem fome ou sede, venham à minha casa”, convidou.

Seguiram o galope e a pouco mais de um quilômetro viram um casebre com desenhos esfíngicos nas paredes, registrados com uma mistura de jenipapo e urucum. Dependendo da incidência do sol, as imagens pareciam ganhar vida. “Cada desenho retratava uma fase vivida por aquele homem. Em um deles, o viram arando a terra e recebendo ajuda de crianças. Os cômodos da residência eram divididos por galhos longos, finos e bifurcados”, diz Genaro Alambare.

Após o modesto banquete, Battaglia Di Carlo chamou a atenção dos amigos para uma foto com data de 21 de agosto de 1917 grafada com faca ou punhal na moldura de madeira. Jovial, Aureliano estava sentado em um sofá com a esposa e três filhos. O homem se aproximou e explicou que perdeu a família em 1921. “A maleita levou o que eu tinha de mais importante. A culpa foi minha por ter vindo pra cá em 1913. Não deu tempo de encontrar ajuda. Apesar de tudo, quero ficar aqui até o fim dos meus dias”, frisou.

Impotente e sentindo-se culpado pela morte da esposa e dos filhos que tinham entre cinco e nove anos, Aureliano descampou uma área erma a alguns metros de casa e lá ficou deitado, observando o Sol por horas até perder completamente a visão. “Eu sentia uma queimadura interna tão forte que até anestesiava a queimadura externa. Meu corpo pegava fogo, mas isso não era nada comparado ao meu coração que ardia em chamas”, confidenciou.

No canto da sala havia um piano francês Pleyel bem conservado e coberto por uma capa. Sobre ele, uma partitura de “A Sertaneja”, de Brasílio Itiberê. Sotero Comezzino, que estudou na Accademia Nazionale di Santa Cecilia, em Roma, pediu autorização para tocá-la. Aureliano, que circulava pelo ambiente como se a visão não lhe fizesse falta, acenou em aprovação e exibiu dentes tão brancos que pareciam esmaltados artesanalmente. Nos primeiros minutos, Alambare e Di Carlo ouviram um som estranho vindo do fundo da casa enquanto as mãos de Comezzino percorriam as teclas. Quando se aproximaram, Aureliano estava cuidando dos ferimentos de uma tranquila onça-parda rodeada de filhotes. Sem dizer palavra, se comunicaram com os olhos e voltaram para a sala.

Os sicilianos iam até o centro da colônia apenas quando necessário (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Os sicilianos iam até o centro da colônia apenas quando necessário (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

“Aquele eremita transcendeu de alguma forma. Mesmo cego e solitário, não nutria desprezo pela vida, não praguejava. Meu pai dizia que Aureliano descobriu dentro de si algo que só poderia ser sentido ou compreendido por poucos seres humanos”, enfatiza Genaro. Depois da despedida, seguiram viagem. A floresta se tornou mais densa, tanto que em vários trechos tiveram de arrastar árvores tombadas e desviar de cipoais.

Assim que chegaram à Fazenda Brasileira, chamaram a atenção de curiosos na Avenida Paraná, a via mais movimentada da colônia. Crianças descalças cercavam o jipe e gritavam: “Oi, oi, oi, oi, oi!” e “Ô sinhô, de onde cês são?” Os italianos riam, se recordando da infância em Messina, na Sicília. Paolo Vergatti observou um vento repentino obrigando as mulheres a recolherem as roupas ainda úmidas do varal, evitando que a terra arenosa as sujasse. Alambare, que foi pedir informações em uma casa de Secos e Molhados, voltou dizendo que conheceu um fazendeiro chamado Marcolino Rufião. “Ele falou que tem uma terra boa a pouco mais de 20 quilômetros daqui. Quer vender pra voltar pra São Paulo. Se for viável, fechamos negócio”, sugeriu Vittorino.

No trajeto até a fazenda de Rufião, situada na região onde surgiu o Povoado de Cristo Rei, assistiram crianças saltando sobre pequenos tocos, jogando pião, gargalhando e correndo em círculos. “Aqui seremos homens comuns, passíveis de morrer no anonimato”, pontuou Paolo Vergatti. Quando chegaram à propriedade de pouco mais de 110 alqueires, gostaram do que viram. Só que alertaram Marcolino sobre as consequências de uma suposta trapaça.

“Confiamos na sua palavra e acredito que sua intenção de ir embora seja verdadeira. Só que se por ventura formos enganados ou alguém aparecer por aqui reclamando esta terra, vamos atrás do senhor para saldar a dívida”, prometeu Battaglia Di Carlo usando uma flanela do bolso para limpar cuidadosamente uma pistola Parabellum guardada em um estojo com forro de veludo vermelho. Marcolino pediu calma, sorriu e garantiu que eles não teriam problemas.

Na semana seguinte, Rufião não foi mais visto na Fazenda Brasileira. No entanto, após 15 dias, numa noite de sábado, Vittorino, Paolo, Battaglia e Sotero estavam conversando na sala quando ouviram dois disparos contra a porta principal da casa. Rastejando, buscaram armas debaixo de suas camas e se posicionaram estrategicamente enquanto uma saraivada de tiros penetrava a sala e atravessava a cozinha, causando buracos de diversos tamanhos. Os italianos ficaram em silêncio. Sem reagir, observaram quais eram os pontos menos atingidos pelos invasores.

Os quartos de Vergatti e Comezzino ocupavam as duas áreas menos vulneráveis da casa. Então se dividiram em duplas e aguardaram a aproximação dos atiradores. Em menos de uma hora, os sicilianos mataram os 12 invasores com tiros de curta e longa distância à base de pistola e carabina. Usaram como ponto de partida algumas fendas que permitiam ver quem se aproximava da entrada. A vantagem é que só podiam ser notadas por quem estava dentro da casa. Os dois últimos tiros foram disparados por Sotero que atingiu a cabeça de um invasor que tentou fugir.

Estrada do Cristo Rei que dava acesso à Fazenda Niente, onde viveram Alambare, Vergatti, Di Carlo e Comezzino (Foto: David Arioch)

Estrada do Cristo Rei que dava acesso à Fazenda Niente, onde viveram Alambare, Vergatti, Di Carlo e Comezzino (Foto: David Arioch)

Entre os mortos havia homens de 20 a 40 anos. A maioria se vestia com simplicidade. A exceção era um sujeito que trazia joias e ouro nas mãos, na boca e nos pés. O homem era Marcolino Rufião que num momento de desespero correu para tentar salvar a própria vida. “A inexperiência deles era tão grande que parecia que estávamos abatendo animais indefesos”, comentou Comezzino com os amigos.

Os corpos foram colocados dentro do caminhão de Rufião e enterrados numa área de mata nativa a cerca de dez quilômetros da fazenda, com exceção do cadáver de Marcolino, depositado em um buraco mais distante. O posicionaram com o peito para o chão. Suas pernas e braços foram cruzados e amarrados com retalhos das roupas ensanguentadas dos homens que morreram sob seu comando. Antes de taparem o forame com terra, seguraram a cabeça de Rufião e introduziram em sua boca dezenas de bagas de beladona.

“As pernas e os braços cruzados simbolizavam o desencontro, a perdição. Um desejo de que aquele homem nunca mais encontrasse o seu caminho, nem em outra vida. E os frutos tóxicos colocados em sua boca indicavam que foi condenado a passar a eternidade ébrio. Queriam que ele fosse reconhecido no outro mundo como um perene repositório de erva daninha”, relata Genaro, acrescentando que a boca do fazendeiro foi lacrada com a manga longa de uma camisa encharcada com o sangue do homem mais jovem do bando. Dias depois, o caminhão de Marcolino foi abandonado no Ranchão de Zinco, um cemitério de veículos perto do Porto São José.

Mesmo com o desaparecimento de Rufião, ninguém apareceu na Fazenda Niente, dos italianos. E conhecendo a má fama do homem, a polícia ficou satisfeita com o sumiço. Mais tarde, os quatro amigos foram até a Brasileira fazer compras num armazém na Avenida Paraná. Lá, ouviram uma história sobre uma família de italianos que estava se mudando para a Brasileira, trazendo um baú de barras de ouro. “A última vez que vi Marcolino, ele me disse que tinha uma proposta a fazer a esses italianos”, falou um senhor de olhos miúdos segurando um copo de cachaça durante conversa com um compadre.

A ideia de que Rufião confundiu os sicilianos com outra família de italianos que nunca chegou ao povoado intrigou Comezzino e Bataglia. Sotero gargalhou tanto na saída do armazém que chegou a esticar uma grande cicatriz que possuía embaixo do queixo. Paolo Vergatti se mantinha disperso, alheio às brincadeiras dos amigos. Em julho de 1943, pediu a ajuda de Alambare e pagou a um advogado de origem polonesa para datilografar uma carta com destino a Palmas, no extremo Sul do Paraná. A correspondência foi despachada pelos Correios de Londrina através do motorista da catita que fazia a linha Londrina – Fazenda Brasileira.

Junto da carta, Vergatti, se passando por Ildefonso Castanho, enviou um pouco de dinheiro. Dois meses depois, recebeu uma correspondência de Júlia Ramalho contando como os filhos estavam crescendo. Paolo se extasiava com o carinho e compreensão embutidos à escrita da moça. Era como se a chegada daquele pedaço de papel fosse a razão de sua existência, mesmo ciente de que as cartas eram destinadas ao falecido, não a ele.

Na segunda carta de Júlia, duas das crianças escreveram seus nomes no rodapé. Com o tempo a mulher ficou muito surpresa. Ela recebia por mês até três vezes mais do que o necessário para as despesas familiares. Era um sonho a possibilidade do marido ter se tornado alguém tão bem-sucedido em pouco tempo. Por correspondência, Vergatti se apaixonou por Júlia e adotou a personalidade de um pai de família. A natureza gentil e fraternal da moça o encantava. Júlia estranhou apenas quando o suposto marido pediu-lhe que banhasse a carta em seu perfume antes de enviá-la a ele. Ildefonso talvez fosse amável, mas não parecia dominado pelos rompantes passionais de Vergatti.

Sempre que o questionava sobre o dia em que poderia partir com os filhos para encontrá-lo, ele inventava alguma desculpa. Júlia suspeitou que o marido tivesse outra mulher na Fazenda Brasileira. A verdade é que Paolo temia a reação de Júlia. “À mesa, imagino ela me pedindo para levá-la à vila. No campo, vislumbro Roberto e Paula [filhos de Júlia] me convidando para brincar de esconde-esconde. Ah, Romeu! [o terceiro filho ainda bebê] O embalo no colo e o levo para conhecer os cafezais, onde seus intensos olhos negros, como pequeninos diamantes abissais, idealizam no solo arenoso o arquétipo de um parque. Sinto-me neste momento como um verme; incapacitado, inútil, infrutuoso! Se ei de pertencer a morte, que me leve para os umbrais rapidamente! Irrita-me a espera, mesmo quando o destino é deixar de ser humano para tornar-me húmus para esta terra”, segredou Genaro, citando trechos do rascunho de uma carta.

Em agosto de 1945, completou dois anos que os italianos se dedicavam à produção de café, milho e algodão. Sem contar com ajuda externa, trabalhavam apenas para ocupar o tempo e evitavam interagir com curiosos. Iam até a área urbana da Brasileira apenas quando necessário, passando despercebidos pela maioria. Em fevereiro de 1946, Júlia se irritou porque não recebia cartas do marido há mais de um mês. Então viajou para a Brasileira com o irmão Agnaldo Ramalho e os três filhos.

Graças à ajuda de um rapaz chamado Pedro, que era balconista em uma casa de secos e molhados, ficou sabendo que ninguém conhecia Ildefonso. Mas o jovem percebeu que a descrição do lugar de acordo com a correspondência era a mesma da propriedade de quatro italianos que faziam compras ocasionais no armazém. Então Julia decidiu se arriscar. Achou a fazenda, se aproximou da entrada da casa e antes que chamasse alguém foi recebida por Gernaro Alambare que trazia uma faixa preta no braço. De aspecto taciturno, não se importou em ser visto pálido, com os olhos inchados e vermelhos de tanto chorar.

Paolo Vergatti, Battaglia Di Carlo e Sotero Comezzino estavam mortos desde janeiro de 1946, vítimas de uma epidemia de leishmaniose tegumentar americana (LTA) que assolou a região. “Meu pai pediu que o irmão de Júlia levasse os sobrinhos para passear pelo pomar e contou a verdade a ela. Disse que Ildefonso Castanho morreu em 1943 e por compaixão Paolo Vergatti se passou por ele. Se apaixonou por Júlia, só que não teve tempo de ganhar coragem para relatar toda a história, preferindo se corresponder por dois anos e meio, enviando até três cartas por semana”, menciona Genaro.

Vittorino a levou para ver os túmulos dos três amigos, enterrados lado a lado, numa área coberta por acácias, a sudoeste da casa principal. Não havia nada escrito nas modestas e pequenas lápides brancas que traziam o mesmo desenho de três punhos unidos. Confusa sobre tudo que ouviu, e com as pernas trêmulas, Júlia agarrou o próprio vestido com as unhas e começou a chorar e soluçar diante do túmulo de Vergatti.

Sozinho, Alambare, que nunca entendeu porque a doença não o matou, retornou para Santos. Antes entregou a Júlia todo o dinheiro de Paolo Vergatti, guardado em uma mala escondida numa tulha. Acompanhada da família, a moça se mudou para a propriedade com o consentimento de Vittorino. Em pouco tempo, aprendeu a amar o homem que nunca conheceu. Todos os dias pela manhã, Júlia carregava um banquinho de cedro até o túmulo de Paolo Vergatti. Sentava ao seu lado e lia as dezenas de cartas enviadas por ele. Foi assim até outubro de 1967, quando Júlia faleceu em decorrência de um acidente vascular cerebral (AVC).

Vittorino recebeu a notícia em dezembro do mesmo ano, junto com a informação de que os filhos dela venderam a fazenda. Em janeiro de 1968, o novo proprietário demoliu a casa, as lápides e as acácias, relegando ao esquecimento a passagem dos amigos italianos por Paranavaí.

Sicilianos articularam o assassinato de um líder da Ndrangheta

Membros de um clã da Cosa Nostra de Messina, na Sicília, Paolo Vergatti, Battaglia Di Carlo, Sotero Comezzino e Vittorino Alambare ocupavam posições de destaque na organização. De acordo com Genaro Alambare, Vergatti e Di Carlo eram caporegimes (capitães) especialistas em minimizarem conflitos entre as famílias, evitando guerras desnecessárias.

Comezzino, conhecido como o “carrasco de sottocapo”, era um dos soldados mais temidos da Sicília nos anos 1930, considerado o responsável pela morte de cinco subchefes da Camorra e da NDrangueta. Alambare era um associado da Cosa Nostra e contrabandista com passagem livre pelo Porto de Santos.

O irmão mais velho de Battaglia, Domenico Di Carlo, foi um guerrilheiro da Resistência Italiana que ajudou a capturar e assassinar o ditador italiano Benito Mussolini. Os três fugiram da Itália após articularem o assassinato de um dos principais líderes da Ndrangheta, a máfia calabresa. O clã de Paolo, Battaglia e Sotero era contra a exploração de crianças que se expandia pelo país.

Curiosidade

Mesmo depois de Paranavaí ser desmembrada de Mandaguari em 1951, muitos ainda se referiam ao município como Fazenda Brasileira por causa do nome que surgiu na década de 1930.

Os marginais da colonização

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“Éramos assim, vagabundos e marginais aos olhos de um mundo já corrompido pela ganância”

Pavão que trouxe Toninho, Beto e Maneco a Paranavaí em 1946 (Foto: Acervo da Fundação Cultural de Paranavaí)

Pavão que trouxe Toninho, Beto e Maneco a Paranavaí em 1946 (Foto: Acervo da Fundação Cultural de Paranavaí)

Toninho, Beto e Maneco são três personagens desconhecidos da história de Paranavaí. Jovens na década de 1940, seguiam na contramão da maioria da população. Sentiam prazer em não ter propósitos comuns, apenas viviam o presente. Distantes da ambição que atraía tantos migrantes e imigrantes a Paranavaí, vagavam como marginais, curtindo a vida à sua maneira.

Depois de menos de um ano em Londrina, Toninho, Beto e Maneco decidiram partir para o Noroeste do Paraná, destino que na concepção dos três tinha tudo para garantir muita diversão. “Éramos solteiros e ouvíamos falar muito do Norte Novíssimo do Paraná. Diziam que era um lugar muito diferente. Ficamos curiosos e pensamos em ver isso de perto”, explica Beto.

Na manhã fria de 29 de julho de 1946, desembarcaram do pavão no Ponto Azul em Paranavaí. Carregando sacos de estopa com poucas peças de roupa, os três se conheceram em Londrina enquanto aguardavam o ônibus. “Ficamos rindo quando vimos que os nossos sacos eram iguais”, explica Toninho que deixou a família em Paranaguá para conhecer Londrina. Beto e Maneco fizeram o mesmo. Um saiu de Santos e o outro de Joinville.

Quando colocaram os pés no chão de terra batida, um garoto de 12 anos, conhecido como Amendoim, se aproximou e, assim que viu uma velha cigarreira despontando do bolso da camisa branca de Maneco, gritou: “Ô senhor, me dá um desse aí!” O rapaz então acendeu um Lincoln com um leve riscar de palito velado sob o dedo. Disse que o cigarro seria de Amendoim se conseguisse segurá-lo pela ponta do filtro durante um arremesso. Habilidoso, o garoto o pegou no ar sem queimar os dedos. Depois ajeitou a boina parda surrada, agradeceu, colocou o cigarro na boca e seguiu o trio.

No mesmo dia alugaram uma casa perto da entrada da Vila Operária, na região que ficaria conhecida na década de 1950 como Zona do Baixo Meretrício, um reduto de bordéis onde a agitação começava quando o restante da cidade se silenciava. “Era uma casinha, coisa simples, só pra gente ter um lugar pra ver a vida passar sem pressa”, comenta Toninho.

Ponto Azul, onde o trio desembarcou e conheceu o garoto Amendoim (Foto: Acervo da Fundação Cultural de Paranavaí)

Ponto Azul, onde o trio desembarcou e conheceu o garoto Amendoim (Foto: Acervo da Fundação Cultural de Paranavaí)

Em pouco tempo, Beto teve a ideia de fabricar rapé artesanal no fundo de casa. O desejo surgiu meses antes, quando leu o romance “Eugênia Grandet”, do francês Honoré de Balzac, e o conto “O Bote de Rapé”, de Machado de Assis. No início buscava parte da matéria-prima em Londrina. Misturava as folhas de tabaco com as cinzas das cascas de árvores que selecionava em Paranavaí e processava tudo em um moedor caseiro. “A gente inalava uma vez por dia usando o polegar e o dedo indicador. Era como uma liturgia de purificação. Chegava a ficar com as unhas encardidas”, confidencia Beto rindo e mostrando com a mão direita como se consumia.

Ocasionalmente os três se juntavam aos peões que atuavam na derrubada de mata, mas só até reunirem uma boa quantidade de cascas para o preparo do rapé. A verdade é que não gostavam de trabalhar. Encaravam como forma de aprisionamento todo serviço que impusesse ao ser humano uma rotina que não permitisse o autoconhecimento, a visão periférica do mundo e a fluência da vida. “Éramos assim, vagabundos e marginais aos olhos de um mundo já corrompido pela ganância. E de fato nos víamos como marginais, o que nunca foi ofensa pra nós”, declara Maneco.

Ao longo de duas semanas de trabalho na mata, testemunharam cinco pessoas com intensos calafrios e pele amarelada, vítimas de malária. Para evitar despesas ao ter de percorrer mais de 50 quilômetros de carreador até o hospital, e seguindo recomendação do patrão, o fiscal preferiu ignorar a situação dos enfermos e ameaçou atirar em quem parasse o serviço para tentar ajudá-los. Dois não resistiram à doença e morreram lá mesmo, agonizando silenciosamente, com seus corpos encharcados de suor. Preocupado com o mau cheiro, o homem obrigou seis peões a enterrarem os mortos – dois rapazes de 18 e 19 anos.

As valas improvisadas foram forradas com galhos e folhas. Quando cobriram as covas com terra, Toninho pediu autorização ao fiscal para dizer algumas palavras em memória dos falecidos. O sujeito não aceitou, bateu o chapéu contra a perna e ordenou que continuassem o serviço. “Já morreu, não significa mais nada. O que vale é nóis que tamo vivo”, justificou o fiscal enquanto talhava com um facão um naco de carne seca. Depois daquele dia nenhum dos três atuou como peão. Porém, jamais esqueceram a expressão de desilusão nos olhos de tantos homens que trabalhavam até 16 horas por dia ajudando a desmatar a região.

Avenida Paraná quando os jovens chegaram à colônia (Foto: Acervo da Fundação Cultural de Paranavaí)

Avenida Paraná quando os jovens chegaram à colônia (Foto: Acervo da Fundação Cultural de Paranavaí)

Em casa, transformaram o ambiente em um lugar que deram o nome de “La Mancha” em homenagem ao eterno Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Passavam boa parte do tempo lendo, escrevendo, cantando, criando invenções, dançando e consumindo absinto, rapé, ópio, chá de ayahuasca e soltierra, uma bebida à base de raízes e flores silvestres. “Acredito que foi a primeira bebida inventada no Noroeste do Paraná. Só que consumíamos apenas entre nós. Ela ajudava a restabelecer o equilíbrio entre os sentidos”, confidencia Beto que comprava papoula sonífera de um turco conhecido como Symancora Katifoi que conheceu em São Paulo em 1945 por intermédio de um primo.

No interior da La Mancha, uma casa ordinária por fora e extraordinária por dentro, havia o mínimo possível de móveis, quase tudo criado ou lapidado pelos três amigos. As paredes internas eram adornadas por trepadeiras que cresciam livremente. Até frutas como melancia de cipó, melãozinho do mato, maracujá, uva e fava de arara brotavam dos ramos nas paredes. “Todos puderam se servir delas, tirando direto da natureza”, rememora Maneco. O clima no local era tão ameno que nem as mais severas ondas de calor alteravam o frescor dentro da casa.

No entanto a solitude dos três não durou tanto quanto imaginavam. Em outubro de 1946, duas jovens que trabalhavam em um prostíbulo a 150 metros da La Mancha estavam caminhando quando sentiram um aroma acre e adocicado. Curiosas, se aproximaram e bateram palmas. Toninho, Beto e Maneco, que nunca tinham recebido visita em meses, a não ser do garoto Amendoim, se surpreenderam com o desembaraço das moças. Ao mesmo tempo ficaram receosos. “O que vocês tão preparando aí? É de beber?”, questionou uma loira chamada Lara. Toninho respondeu que era um chá para cefaleia. A moça então insistiu que gostaria de experimentá-lo e acabaram cedendo.

As duas entraram e todos foram para o primeiro cômodo da casa, uma saleta separada das outras dependências por uma longa cortina verde. A conversa se estendeu por pelo menos duas horas e os três relataram que eram estudantes tirando um ano sabático para repensarem a vida. Lara também deu detalhes de sua história. Teve uma briga séria com os pais e deixou Prudentópolis, no Sudeste do Paraná, para conhecer Paranavaí, onde uma amiga já trabalhava em um bordel.

Após a despedida, pediu que as deixassem retornar. Sem noção das intenções da moça, concordaram, só que não velaram a resistência. Ainda assim, Toninho, Beto e Maneco receberam mais de 50 pessoas na casa antes do Natal de 1946. A maior parte chegava através do vínculo de confiança que o trio criou com Lara. Para entrarem no local, era preciso dizer uma senha – Papilio Innocentia, uma referência à obra poética homônima do paranaense Emiliano Perneta.

Beto começou a fabricar rapé artesanal no fundo de casa (Foto: Reprodução)

Beto começou a fabricar rapé artesanal no fundo de casa (Foto: Reprodução)

Os frequentadores da La Mancha eram pessoas simples, personagens anônimos da história de Paranavaí, mas principalmente damas da noite e peões que enxergavam um paraíso na modesta casinha de tábuas escuras – um espaço peculiar onde podiam extravasar anseios, emoções reprimidas e buscar ajuda.

“Alguns começaram a nos ver como curandeiros. Claro que nunca nos vimos assim, só que para não decepcionar aquela gente atendemos cada um. À nossa porta vinham desde vítimas de acidentes de trabalho até pessoas com sífilis e gonorreia. Outros queriam auxílio espiritual. Deu pra ajudar um pouquinho”, enfatiza Beto que admite ter usado substâncias alucinógenas na composição de diversos medicamentos caseiros. Em vez de cobrar pela ajuda, o trio deixava uma cumbuca sobre a mesinha na saleta. Assim cada um contribuía da forma que pudesse ou quisesse.

No dia 26 de julho de 1947, um sábado, Toninho, Beto e Maneco prepararam uma festa para 20 pessoas. Amendoim, Lara e quatro amigas estavam entre os presentes. A comemoração na La Mancha começou por volta das 18h e se estendeu até as 23h. “Uma celebração tranquila, com cantoria, gaita, boa conversa, troca de confidências, muitas bebidas e outras coisinhas mais”, pontua Toninho com um sorriso acintoso.

Antes do fim da noite o trio revelou aos convidados que a festa era uma despedida. Tinham acertado tudo para partir na segunda-feira pela manhã. A notícia desapontou os muitos miseráveis que viam a La Mancha como refúgio e os três jovens como parte importante de suas vidas. Lara e Amendoim não conseguiram esconder as lágrimas que escorriam como chuva de verão. “Se acalmem! Não é o fim do mundo. Um dia vamos nos encontrar e também podemos nos corresponder”, anunciou Maneco com voz indolente enquanto vertia uma sobra de absinto do fundo de um cálice de barro.

A festa acabou cedo porque no dia seguinte os três acordariam às 3h. Em meio à escuridão serena, ouviram o som de um jipe Land Rover encostando em frente ao casebre. Era João José, um senhor de quem alugaram o veículo por dois dias, assumindo o compromisso de mais tarde deixá-lo atrás de uma tulha em uma propriedade rural na entrada de Maringá, onde o proprietário do jipe poderia buscá-lo.

Toninho, Beto e Maneco aproveitaram a ausência de brisa e o calor matutino que principiava breve estiagem. Como o silêncio da natureza os privilegiava, atearam fogo em tulhas e cafezais de cinco propriedades rurais de alguns dos homens mais ricos da região. Um era o responsável por contratar o sujeito que deixou os dois jovens peões morrerem à míngua, de malária, no seio da mata. Quando o fogo começava a se alastrar, saltavam sobre o jipe e partiam sem qualquer remorso.

Entre as lavouras destruídas estava a de um fazendeiro ciumento que feriu várias partes do corpo de Lara com um punhal, na tentativa de assassiná-la. Em uma noite da semana anterior o homem berrou e exigiu que a jovem não atendesse mais nenhum outro cliente. Ela não aceitou. Ensandecido, só foi contido graças à intervenção do Capitão Telmo Ribeiro que tomou a arma da mão do sujeito, o agarrou pelo pescoço e deu-lhe um vigoroso soco no estômago.

No final da tarde de terça visitaram a residência do fiscal a quem culpam até hoje pela morte dos peões vitimados pela maleita. Pensaram em atear fogo em sua casa. Mudaram de ideia quando viram três crianças brincando no quintal descampado e sem cerca. Ao lado, uma jovem mãe esfregava fervorosamente a calça bege do marido em um tanque improvisado. “Vamos largar esse pra lá. A vida se encarrega de fazer justiça. O que é dele tá guardado”, sugeriu Maneco. Toninho e Beto concordaram.

À noite, por volta das 21h, receberam a confirmação de que os estragos nas lavouras e tulhas eram enormes e ainda inestimáveis. Recolheram os pertences e anteciparam a partida. Estavam entrando no jipe quando ouviram a suplicante voz de Lara. Segurando uma malinha amarelada, a moça pediu para deixá-la partir com eles. Hesitaram um pouco, mas, como se tornara tradição, cederam ao pedido da jovem.

Paranavaí parecia mais serena do que nunca. A população dormia enquanto o jipe atravessava as ruas de terra da cidade, deixando pequenas cortinas de poeira clara que cobriam com sutileza os cães deitados próximos das soleiras das casinhas de tábuas. “Foi um sonho intenso. Vivemos em Paranavaí algumas das maiores dores e alegrias de nossas vidas. Agradeço por estarmos vivos, por ter a chance de contar pela primeira vez com detalhes a fase mais emocionante da nossa história. Talvez amanhã não estejamos mais aqui, então cabe a você compartilhar com outras pessoas”, aconselha Toninho, aos 89 anos, com a voz embargada e um olhar úmido e cristalino.

Saiba Mais

Toninho e Beto tinham 20 anos quando chegaram a Paranavaí. Maneco, o mais jovem, estava com 19, assim como Lara.

Os três amigos moram em Curitiba e mantêm contato frequente até hoje. Toninho é médico veterinário aposentado. Beto também se aposentou, mas como engenheiro florestal. Maneco continua trabalhando como artista plástico e escritor.

O trio retornou a Paranavaí a passeio somente 32 anos após a partida.

Lara se casou com Toninho em 1949. Viveram juntos até 1995, quando ela faleceu em decorrência de um câncer de mama.

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Uma manhã de sangue e morte no Bar do Beni

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Traídos por amigos, Canjerana e Macaúba foram assassinados a tiros em 4 de julho de 1955

Manoel Canjerana quando ainda morava em São Paulo nos anos 1930 (Foto: Acervo Familiar)

Manoel Canjerana quando ainda morava em São Paulo nos anos 1930 (Foto: Acervo Familiar)

No dia 4 de julho de 1955, uma segunda-feira, Manoel Rocha, o Macaúba, trajava a sua inseparável capa de gabardine, a mesma usada pelos mafiosos sicilianos da década de 1920, quando passou de manhã na casa de Manoel Alves Canjerana e o convidou para ir até o Bar do Beni, atual Cartório Tomazoni, na Rua Marechal Cândido Rondon, ao lado da Banca do Wiegando. Nem o frio e a chuva que enturveciam Paranavaí, no Noroeste do Paraná, impediu os dois amigos baianos de percorrerem o centro da cidade.

Antes de sair, Canjerana ajeitou a postura, o paletó, o lenço no pescoço e um chapéu de feltro da Casa Ferreira. Chegando ao local, Macaúba entrou no bar e Canjerana ficou do lado de fora, sentado em um banco de madeira enquanto Daniel, um garotinho de não mais que 12 anos, engraxava suas botas. “Ele tinha o costume de ir lá. Só usava botas e gostava de deixar elas brilhando”, conta a filha Nair Alves Silva que estava com 20 anos.

Quando ouviu um tiro, Canjerana, que pela primeira vez saiu desarmado de casa, se levantou rapidamente para checar o que estava acontecendo dentro do bar. Não teve tempo nem de dar alguns passos quando recebeu dois balaços no peito, atravessando o seu pulôver cinza como o céu daquele dia de inverno. Com as costas escoradas sobre as tábuas do boteco, tentou resistir, mas escorregou vagarosamente até cair sentado e cabisbaixo, com o chapéu caído e as pernas entreabertas.

A esposa, Ana, aos 40 anos não imaginava que o marido não retornaria para comer a marmita quentinha que ela preparou e deixou em cima do fogão à lenha, o aguardando. Aos 54 anos, Canjerana estava morto, vitimado por hemorragia interna, transfixação do miocárdio e pulmão, segundo a certidão de óbito. Quando escutou que o seu pai tinha sido alvejado, Jurandir, de 13 anos, correu até o Bar do Beni. Era tarde demais.

Crime aconteceu na Rua Marechal Cândido Rondon, onde é hoje o Cartório Tomazoni (Foto: Acervo Familiar)

Crime aconteceu na Rua Marechal Cândido Rondon, onde é hoje o Cartório Tomazoni (Foto: Acervo Familiar)

Macaúba, de 47 anos, que antes levou um tiro certeiro no ouvido disparado por Pedrinho, um rapaz que também era amigo das vítimas, foi socorrido por quatro homens e carregado com os braços abertos, o rosto mirando o céu e as mãos cobertas pelas mangas longas da capa de gabardine. Ainda com vida, o colocaram sobre a carroceria de um caminhão usado no transporte de madeira, onde dividiu o espaço com o amigo já morto. No Hospital Professor João Cândido Ferreira, atual Praça da Xícara, o homem faleceu.

O autor do assassinato de Canjerana se chamava Napoleão, um rapaz que na noite anterior sentou-se na beira da cama do baiano. “No domingo, meu pai não estava bem e ele veio aqui em casa desejar melhoras. Pegou comida direto do nosso fogão à lenha e comeu com a gente. Meu pai o tratava como um filho”, confidencia Nair. À época, Manoel Canjerana recebeu um convite para trabalhar no Mato Grosso. Recusou porque queria aguardar o nascimento do neto. “Ele achou que seria menino. Tive uma filha que ele nem chegou a ver”, enfatiza.

População cercou o caminhão usado para transportar Canjerana e Macaúba (Foto: Acervo Familiar)

População cercou o caminhão usado para transportar Canjerana e Macaúba (Foto: Acervo Familiar)

Dias após o crime, quando estava preso, Napoleão pediu para a mãe de Nair ir até a delegacia porque ele queria se desculpar. “Minha mãe não foi. Disse que isso não tinha perdão. Pra gente foi uma situação tumultuada porque eu estava grávida da minha primeira filha e passei muito mal, tanto que ela nasceu na outra semana”, revela. A família preferiu esquecer o passado e seguir a vida, até porque dos seis filhos de Canjerana a única adulta era Nair Alves.

Um ano depois souberam da libertação de Napoleão e Pedrinho. A soltura foi motivada por influência política. O duplo homicídio teve tanta repercussão no Paraná que jornalistas dos principais veículos de comunicação do estado vieram a Paranavaí. “O que aconteceu foi terrível para as duas famílias. O Macaúba tinha quatro ou cinco filhos”, lamenta Nair Alves Silva, acrescentando que ninguém sabe quais foram os motivos do crime.

Canjerana conheceu Paranavaí em 1949

Nascido em 1900 em Bom Jesus da Lapa, na Bahia, Manoel Alves Canjerana se mudou para São Paulo com Ana Alves em 1930. No mesmo ano, trouxe de Recife, Pernambuco, uma garrafa de pinga de porcelana feita no Engenho São João, um artigo que até hoje está conservado em ótimo estado. “Minha mãe tinha 18 anos quando deixou a Bahia. Eles se casaram em Jabuticabal, São Paulo, e de lá foram para Piquerobi, onde ele trabalhou de guarda-livros, o contador da época”, relata a filha Nair Alves.

Nair Alves com o pulôver usado pelo pai no dia do assassinato (Foto: Amauri Martineli)

Nair Alves com o pulôver usado pelo pai no dia do assassinato (Foto: Amauri Martineli)

Anos depois, se mudaram para Presidente Venceslau, onde Manoel Canjerana atuou como fiscal de colonos em fazendas de café. Só saiu do interior de São Paulo quando o candidato a prefeito que apoiou perdeu a eleição, custando-lhe o emprego. “Ele era doido por política. Saiu procurando serviço, mas não encontrou. Ouviu falar da Fazenda Brasileira [atual Paranavaí] e veio pra cá sozinho em 1949. Em 6 de janeiro de 1951, trouxe todo mundo. Dos seis filhos, eu era a mais velha”, destaca Nair.

A família se surpreendeu ao se deparar com uma “cidadezinha” com casinhas cobertas de tabuinhas. “Ficamos em um hotel perto de onde é hoje os Correios porque não tínhamos arrumado uma casa ainda”, afirma. Na Brasileira, Canjerana começou a atuar como fiscal de peões para um homem de sobrenome Saião. “Depois trabalhou para o comendador Remo Massi”, frisa a filha. Em Paranavaí, conheceu o também baiano Manoel Rocha, o Macaúba, que desempenhava a mesma função. Logo se tornaram vizinhos e amigos.

O baiano fiscalizava uma turma de peões na mata

Em 1954, Manoel Canjerana levava para a mata uma caderneta comprida de capa dura escura em que anotava todas as despesas dos peões. Tudo era cobrado, até mesmo a comida e a enxada usada no serviço de capina. Detalhista, o baiano registrava o máximo possível de informações. Ao final, anotava o valor da dívida e quanto cada peão poderia receber pelo serviço. Alguns chegavam a gastar mais do que ganhavam, o que deixava o trabalhador comprometido com o dono da fazenda.

A filha Nair se recorda das vezes em que viu o caminhão partindo com uma turma de peões e muitos fardos de alimentos, principalmente jabá. Na mata a comida era preparada por uma cozinheira conhecida como Dona Alaíde. Quando retornavam a Paranavaí, após até mais de dois meses longe de casa, a chegada dos peões na madrugada era marcada por grande euforia em cima do caminhão. Do alto da carroceria, o som de uma sanfona, a cantoria e as muitas batidas de pé acordavam dezenas de famílias nas imediações da Avenida Rio Grande do Norte.

Caderneta em que o baiano anotava todas as despesas dos peões (Foto: Amauri Martineli)

Caderneta em que o baiano anotava todas as despesas dos peões (Foto: Amauri Martineli)

De vez em quando Canjerana convidava amigos, colegas de trabalho e autoridades locais para almoçarem em sua residência perto dos Correios. “Não dispensava a carne de jeito nenhum e odiava verduras. Sempre que faço salada lembro que ele dizia que não comia mato”, revela Nair.

“Falavam que meu pai e o Macaúba eram jagunços”

Na década de 1950, Manoel Canjerana e Manoel Macaúba eram nomes que inspiravam muito medo nos moradores de Paranavaí. “Falavam que meu pai e o Macaúba eram jagunços. Sei que eles saíam pra derrubar mato. Alguns diziam que os dois eram chamados para expulsar invasores de fazendas. Se um dia trabalharam para grileiros, isso eu nunca soube”, garante Nair Alves Silva que sempre teve uma imagem bem diferente do pai e também de Macaúba, a quem considerava o amigo mais fiel, educado e cordial de Canjerana.

A filha se recorda das vezes em que viu os dois amigos felizes, cantando música caipira nos bares de Paranavaí. A preferida era “Chico Mineiro”, de autoria de Tonico e Tinoco, um hino caboclo que celebra a amizade. Nair admite que tinha mais liberdade para conversar abertamente sobre qualquer assunto com o pai do que com a mãe. “Ele falava sorrindo: ‘Filha, tô vendo alguém passar ali e não sei não, hein? Acho que ele quer alguma coisa. E já sem graça eu respondia: ‘Ah pai, nem vi!’”, confidencia.

No dia em que o namorado de Nair decidiu pedi-la em casamento, o rapaz ouviu muitas críticas de amigos e conhecidos. “Você tá namorando a filha daquele homem? Aquele sujeito é um perigo!”, narra a filha de Manoel Canjerana. Apesar da campanha contra, o rapaz insistiu. Combinaram um jantar, mas na hora o jovem ficou hesitante. Já impaciente, depois de coçar a barriga algumas vezes, Canjerana falou: “Ué, você não veio falar um negócio aqui comigo? Então fala!” Assim que explicou que queria pedir a mão de Nair em casamento, o baiano comentou: “Então tá falado. Tô dando a mão dela em casamento!” Surpreso com a resposta, o rapaz sorriu e saiu mais do que satisfeito da casa da família Canjerana.

Saiba Mais

Nair Alves Silva nasceu no distrito de Vera Cruz, em Marília, São Paulo, mas foi criada em Pequerobi e Presidente Venceslau.

Foi a filha Nair quem fez o pulôver usado por Canjerana no dia do assassinato.

Outros fiscais que trabalhavam com o baiano eram conhecidos como Preto e Galvão.

Curiosidade

Canjerana e macaúba são nomes de árvores. A primeira possui uma madeira vermelha mais nobre do que o cedro e a segunda é uma palmeira conhecida como o “ouro brasileiro”.

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Renato Esteves, um soldado pacifista no Oriente Médio

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Conhecido como Sete Metros, jovem de Paranavaí se destacou no Batalhão de Suez e recebeu condecoração da ONU em 1962

Renato Esteves ingressou no Batalhão de Suez com 23 anos (Foto: Acervo Familiar)

Renato Esteves ingressou no Batalhão de Suez com 23 anos (Foto: Acervo Familiar)

Em 1961, Renato Esteves Oliveira tinha 23 anos quando foi selecionado para ser um dos boinas azuis da Organização das Nações Unidas (ONU) no Canal de Suez, no Oriente Médio. O soldado deixou Paranavaí, no Noroeste do Paraná, porque queria ajudar a acabar com a guerra entre judeus e árabes, intensificada em 1956, quando Israel invadiu o Egito.

“A gente morava na fazenda e um dia o meu marido Joaquim [Mariano Silva] foi entregar leite e parou na venda de um português conhecido como ‘Seu Augustinho’, perto da Sanepar [Companhia de Saneamento do Paraná]. O comerciante disse que o meu irmão avisou que iria para o Canal de Suez [que liga o Mar Mediterrâneo ao Mar Vermelho]”, conta a aposentada Maria Aparecida Oliveira Silva.

Com a 7ª Companhia do 3º Pelotão do Batalhão de Suez, Renato Esteves, que era conhecido pela família como Lula e pelos amigos como Sete Metros porque tinha 1,92m de altura, precisou suportar uma viagem de navio com duração de 25 dias até chegar ao Oriente Médio, onde começou a patrulhar na Linha de Demarcação do Armistício (LDA). “Lembrei muito de vocês. Foram muitos dias e noites vendo apenas água, mas deu pra passar na África e na França. Se Deus quiser, vou a Jerusalém na Semana Santa. Também quero levar pra vocês um pouquinho de água do Rio Jordão”, prometeu Renato Esteves à família em carta de 19 de novembro de 1961.

Na LDA, o trabalho do soldado era ajudar a garantir a paz. Ou seja, não permitir que a zona neutra fosse ocupada por israelenses e árabes, caso surgissem provocações ou tentativas de transposição. Se houvesse alguma suspeita, deveria avisar os superiores. Como era voluntário, Sete Metros viajou para o Egito sem se preocupar com salário, mas quando chegou lá ficou feliz com a remuneração paga pela ONU. “Sinto saudade de Paranavaí, mas gosto muito daqui porque o ordenado que ganho em um mês equivale ao salário de um ano no Brasil. Já estou com quinhentos dólares na caixa”, escreveu em carta de novembro de 1961.

Sete Metros com um pé no Egito e outro em Israel (Foto: Acervo Familiar)

Sete Metros com um pé no Egito e outro em Israel (Foto: Acervo Familiar)

De natureza pacífica, o soldado, também chamado de Pracinha 4307 por causa do seu número de identificação, se orgulhava de não ter matado ninguém em 1961 e 1962, período em que fez parte do Batalhão de Suez. Na fronteira do Egito com Israel, teve de aprender a lidar com o perigo. Era preciso resistir ao calor escaldante, às frequentes e violentas tempestades de areia e às minas terrestres instaladas nas áreas de patrulhamento. À noite, dormiu muitas vezes em uma barraquinha de tecido branco ao lado da guarita B17. Independente das dificuldades, Sete Metros tentava resolver qualquer situação da forma mais amistosa possível. Só ficava feliz em empunhar uma arma quando era para ser fotografado. Gostava de impressionar a família, amigos e as moças com quem se correspondia.

Na fronteira, teve de aprender a lidar com o perigo (Foto: Acerco Familiar)

Na fronteira, teve de aprender a lidar com o perigo (Foto: Acerco Familiar)

Em 23 de novembro de 1961, o soldado afirmou que quando estava de folga passava o dia escrevendo cartas. “Cida [irmã], compre a revista Sétimo Céu que você vai ver o meu nome na última página. Já recebi mais de 300 cartas. Tem muitas moças aí do Brasil querendo me conhecer. Pergunte ao Sandro [um amigo] se ele ainda está levando um papo com aquela mineira. Estou levando um papo firme com uma de Itajubá [Minas Gerais]. Tem mais algumas de outros estados que vão me esperar na Praça Mauá quando o navio [Soares Dutra] atracar no Rio de Janeiro”, relata. Naquele tempo, como Paranavaí não tinha agência dos Correios, as correspondências eram retiradas na Casa Lusitana na Rua Manoel Ribas ou na Casa Moreira na Avenida Distrito Federal.

Trabalhando no Canal de Suez, Renato Esteves fez muitas amizades com egípcios e israelenses. À época, os boinas azuis tinham à sua disposição um avião para viagens de lazer. “Estou gostando bastante da minha vida aqui. Já conheci Beirute, no Líbano, e também o Cairo, a capital do Egito, além da Grécia. Da última vez, encontramos o presidente Juscelino Kubitschek assim que chegamos. Ele veio visitar o nosso batalhão e nos parabenizar”, narra em carta enviada à irmã no dia 13 de janeiro de 1962, acrescentando que a viagem do Cairo até Jerusalém levava 40 minutos de avião.

Enquanto viveu no Oriente Médio, nada abalou mais o pracinha do que a notícia de que o irmão João Ramos Oliveira morreu envenenado. “O meu irmão era meu amigo. A gente estudava junto e ele morreu. Falei pra ele não ficar triste com a minha partida porque eu voltaria logo”, confidenciou dias depois. Em tributo ao irmão, agendou uma missa em uma igreja católica ortodoxa de Jerusalém e tirou uma foto ajoelhado e orando. O que ajudou Sete Metros a lidar com a perda foi a amizade com uma criança egípcia de menos de dez anos. Todos os dias o soldado recebia a visita do menino que percorria quilômetros a pé para vê-lo. Quando o garotinho não podia visitá-lo, Renato Esteves ia até ele. Os dois se tornaram inseparáveis.

No canto à esquerda, o soldado acompanha a chegada de Juscelino Kubitschek (Foto: Acerco Familiar)

No canto à esquerda, o soldado acompanha a chegada de Juscelino Kubitschek ao Oriente Médio (Foto: Acerco Familiar)

Embora tivesse pai, o menino viu no brasileiro uma nova figura paterna. “O Lula ficava muito tempo em uma guarita e quase sempre aquela criança o acompanhava. Levava o menino para o acampamento, comia com ele, dava presentes. O pai do garotinho também ia de vez em quando e gostava do relacionamento dos dois. Ele via uma rara bondade no meu irmão”, assinala Maria Aparecida.

Uma das brincadeiras preferidas da dupla era deitar no chão quando surgia alguma rápida tempestade. Em poucos segundos, seus corpos sumiam na imensidão desértica, cobertos pela areia. A criança ficou tão apegada ao pracinha que um dia pediu que o trouxesse ao Brasil. Como o garotinho tinha família, Esteves admitiu que não poderia fazer isso. “Você me põe dentro de uma caixa e fecha. Quando for passar na vistoria, eu vou com você”, sugeriu.

Renato em missa em memória do irmão em Jerusalém com os amigos do Batalhão de Suez (Foto: Acervo Familiar)

Rodeado de amigos do Batalhão de Suez na missa em memória do irmão (Foto: Acervo Familiar)

Sete Metros se sentiu tentado a trazer o menino, mas sabia que seria errado. Durante algum tempo ainda trocaram correspondências, até que as mudanças da vida fizeram com que perdessem contato. Quando retornou ao Brasil, o soldado passou um período no Rio de Janeiro, atuando no Exército. De volta a Paranavaí, quis seguir carreira militar. Então foi para Maringá, onde se tornou policial. “Como morávamos em uma fazenda e meu irmão gostava muito de viajar, ele sempre tinha um quarto reservado em um hotel perto do Terminal Rodoviário de Paranavaí. Era tudo muito bonito e bem arrumado”, explica Aparecida.

Após alguns anos, começou a namorar uma moça em Paranavaí, sem saber que a jovem também estava envolvida com outro homem. Um dia, os dois rapazes se encontraram e se estranharam. A discussão terminou em luta e Sete Metros sacou a arma primeiro e atirou no seu agressor que faleceu no local. Familiares de Esteves testemunham que a moça manipulou a situação, colocando um contra o outro. Depois da tragédia, o rapaz que fazia parte do Destacamento Policial de Nossa Senhora das Graças, na microrregião de Astorga, se entregou na delegacia de Paranavaí, alegando que estava preparado para ser punido pelo que aconteceu. Renato Esteves admitiu a culpa e aceitou a sentença.

Se ajoelhou e orou pelo irmão em uma igreja em Jerusalém (Foto: Acervo Familiar)

Orou por João Ramos em uma igreja ortodoxa em Jerusalém (Foto: Acervo Familiar)

Maria Aparecida acredita que o destino poderia ser diferente se o irmão não tivesse retornado a Paranavaí. Pelos serviços prestados no Canal de Suez, Sete Metros recebeu uma condecoração de soldado de destaque da ONU no Rio de Janeiro. O prêmio proporcionou grande visibilidade. “Sempre tinha gente tentando arrumar confusão com ele. Havia muita inveja. O Lula me contava que até os colegas de trabalho implicavam muito com ele”, frisa a irmã que até hoje não entende como o irmão, alguém tão calmo, educado e pacífico se colocou em uma situação tão antagônica à própria natureza.

Quando estava preso em Paranavaí, antes de receber a sentença, foi ameaçado muitas vezes. “Cansado e preocupado, ele pediu que eu falasse com o [deputado federal] doutor José de Alencar Furtado para acelerar a transferência dele”, revela a irmã. Após a mudança para a Penitenciária Central do Estado (PCE), em Piraquara, na região metropolitana de Curitiba, a família começou a visitá-lo aos sábados. “Eu ia sempre à noite, daí amanhecia lá e o encontrava pela manhã”, enfatiza Aparecida Oliveira que não ficava muito tempo sem ver o irmão.

Com o garoto egípcio que se tornou seu melhor amigo (Foto: Acervo Familiar)

Com o garoto egípcio que se tornou seu grande amigo (Foto: Acervo Familiar)

Só que tudo mudou no dia 6 de janeiro de 1970, quando Sete Metros estava na fila do refeitório segurando uma bandeja e aguardando o momento de pegar a comida. Um detento conhecido como Mergulhão que estava logo atrás o golpeou três vezes nas costas com um “estoque” de ferro. Quando o rapaz caiu no chão, um amigo correu para socorrê-lo. Desprevenido, também foi golpeado várias vezes. Os dois morreram no refeitório da penitenciária sem a intervenção de ninguém, nem mesmo de funcionários do complexo prisional.

Mais tarde, a família de Renato Esteves descobriu que o crime foi encomendado por um tenente de Paranavaí. “Meu irmão virou notícia em praticamente todas as emissoras de rádio do Paraná. Fiquei muito revoltada porque os soldados e policiais que eram amigos dele ficaram sabendo da morte no dia do acontecido e não avisaram a gente. Quando eu soube, fui até a barbearia frequentada por eles e discuti com todo mundo. O único que se preocupou em nos procurar foi o compadre Jobi, um ex-soldado já falecido”, garante Aparecida.

Em Curitiba, o deputado federal José de Alencar Furtado designou o próprio motorista para acompanhar a irmã de Renato Esteves até Piraquara. “Foi muito gentil e disse que o motorista poderia me levar onde eu precisasse”, comenta. Na penitenciária, Maria Aparecida entregou uma carta escrita por Alencar Furtado. Se emocionou quando viu que do irmão restou apenas uma mochila pequena com poucos pertences. Muitos itens pessoais foram furtados, não se sabe se por outros detentos ou por funcionários da prisão.

Maria Aparecida: "O Lula ficava muito tempo em uma guarita" (Foto: Acervo Familiar)

Maria Aparecida: “O Lula ficava muito tempo em uma guarita” (Foto: Acervo Familiar)

O corpo de Sete Metros foi transferido do Instituto Médico Legal (IML) para um caixão grande e azul. Antes taparam com algodão os três ferimentos causados pelos golpes. Também o vestiram com uma de suas roupas preferidas, limpinha e perfumada, embora já não pudesse mais senti-la. Na viagem a Paranavaí, a ambulância que trouxe o corpo do rapaz parou em Alto Paraná, onde a família de Renato Esteves era bem conhecida. “Quando chegamos lá, muitos que estavam próximos da prefeitura se aproximaram e falaram: ‘Nossa! Esse é o filho do Aureliano!’”, lembra Maria Aparecida visivelmente emocionada.

Depois de avisar os amigos, a família o velou por uma noite e o sepultou no dia seguinte. A mãe de Sete Metros, a portuguesa Maria Esteves, que já tinha perdido o filho João Ramos Oliveira em 1962, não resistiu a mais uma perda e adoeceu gravemente. Em 1970, faleceu alguns meses após a morte do filho Renato Esteves Oliveira que partiu sem imaginar que em 1988 o Batalhão de Suez receberia o Prêmio Nobel da Paz.

Soldado escrevia todos os dias para a família em Paranavaí

Se tornou amigo de árabes e israelenses (Foto: Acervo Familiar)

Fez amizade com árabes e israelenses (Foto: Acervo Familiar)

Enquanto prestava serviços para a Força de Emergência das Nações Unidas (Unef) no Oriente Médio, o soldado Renato Esteves Oliveira, conhecido como Sete Metros, escrevia todos os dias para a família em Paranavaí. Também gostava de enviar presentes. Curiosamente, as encomendas que saíam do Brasil para o Egito sempre chegavam, mas as que partiam do Canal de Suez para cá muitas vezes eram extraviadas. “O avião que leva as encomendas só vem aqui uma vez por mês. Elas chegam através do Ministério da Guerra, no Rio de Janeiro”, explicou o pracinha em carta de 1º de janeiro de 1962, seis meses antes de retornar ao Brasil.

Entre os produtos enviados por Sete Metros estavam tapetes, chinelos, navalhas, roupas e brinquedos. “Ele enviou ‘chinelo de dedo’ pra gente numa época em que aqui ainda não existia. Mandou também uma réplica de um camelinho bem bonitinho para o Pedrinho [sobrinho já falecido]. Depois de mais de 50 anos, ainda guardo com carinho”, assegura a irmã Maria Aparecida Oliveira Silva.

Sete Metros comemorando o aniversário em 10 de abril de 1962 (Foto: Acervo Familiar)

No Egito, comemorou o aniversário em 10 de abril de 1962 (Foto: Acervo Familiar)

Em 1961, o pracinha experimentou pela primeira vez uma cerveja em lata no Egito, versão que os brasileiros conheceriam só em 1971. Gostou tanto da bebida que em 10 de abril de 1962 comemorou o aniversário rodeado de amigos e uma mesa repleta de latinhas. “Como aqui não existia, ele trouxe de lá. Junto veio um baú com tapetes e roupas para toda a família. Tinha muitas novidades, coisas que não se via no Brasil”, conta Aparecida, lembrando que o irmão geralmente pedia para enviarem jornais, cigarros e revistas, principalmente O Cruzeiro, uma de suas preferidas. No entanto, as remessas não podiam ultrapassar 20 quilos.

Teve de resistir ao calor escaldante, violentas tempestades de areia e minas terrestres (Foto: Acervo Familiar)

Resistiu ao calor escaldante, violentas tempestades de areia e minas terrestres (Foto: Acervo Familiar)

Em carta de 25 de novembro de 1961, Renato Esteves pediu que o pai fosse a uma barbearia para perguntar o preço da navalha alemã Solingen. “Aqui é muito barato. Eu mando pra ele vender. Vou enviar também um embrulho com tapete que não existe aí. Diga para o pai repassar por dois mil cruzeiros. Quem não quiser comprar, é só mandar vir buscar aqui no Egito”, ironizou. No Canal de Suez, o traje tradicional de Sete Metros incluía farda, boina, anel de formatura, cachecol e um cinto de couro com uma pistola 45 e uma submetralhadora INA. “Nunca deixei de mandar uma resposta pra ele. Tenho um pacote enorme de cartas que me enviou. Estão todas velhinhas e amarelas”, revela a irmã.

Sete Metros abominava injustiças

Foi justamente por abominar injustiças que Renato Esteves Oliveira, o Sete Metros, optou por deixar o trabalho no campo para se tornar soldado e depois policial. Nos anos 1960, a Polícia Militar do Paraná não tinha uma divisão específica para lidar com situações de alta gravidade, então no Norte do Paraná convocavam Sete Metros que logo ficou famoso por prender alguns dos criminosos mais perigosos que atuavam na região.

Apesar da curta carreira como policial militar, Renato Esteves desmantelou inúmeras quadrilhas de assaltantes e sequestradores. “Era temido pelos bandidos porque sabia como reagir em qualquer situação. Foi o responsável por acabar com ondas de tiroteios e outras ações criminosas em cidades como Nossa Senhora das Graças, Jaguapitã e Colorado”, garante a sobrinha Maria Neuza Silva. Mesmo quando estava de folga, o policial costumava intervir em casos de injustiça.

Maria Neuza se recorda das vezes em que na infância ela e o irmão Luiz Ademir saíam com o tio para comer pão com sardinha. “Era a comida preferida dele. Ele também adorava o seu jipe e gostava muito de mecânica. Foi criado na roça, mas não se identificava com o campo”, comenta a sobrinha.

Trecho de uma carta escrita por Renato Esteves em 19 de novembro de 1961

Renato Esteves na rampa do navio Soares Dutra quando chegou ao Brasil (Foto: Acervo Familiar)

Renato Esteves na rampa do navio Soares Dutra quando chegou ao Brasil (Foto: Acervo Familiar)

Saudações,

prezada irmã Cida. É com muito prazer que pego na pena para responder a sua cartinha recebida há poucos dias. Que bom saber que todos estão com saúde. Também vou bem graças a Deus. Fiquei muito contente de saber que recebeu carta minha e que continua me escrevendo. Quando for na Casa Lusitana, procure carta no nome do pai porque escrevi muitas. Cida, quero que tu me mande umas cinco revistas, daí quando eu receber vou te mandar um corte de vestido que aí no Brasil não tem desse pano. Tu fala para a mãe que eu mando um pra ela também. O Tim [irmão] mandou eu levar um revólver pra ele. Manda ele preparar a grana que na volta eu passo na Itália e compro a arma direto da fábrica.

Você disse na carta que o Zé [irmão] ainda não voltou e que o Francisco [cunhado] já está bom. Eu desejo felicidades pra eles. Cida, você falou que o pai conseguiu o endereço do Feliciano. Ele foi meu colega quando servimos o Exército no Rio de Janeiro. Ele queria vir pra Suez. Aqui o ordenado de um soldado é de 32 contos por mês e se Deus quiser vai vir aumento pra nós agora com a saída do Jânio Quadros. Você falou na carta que está chovendo aí. Aqui passa até um ano sem chuva. Começou o frio agora em novembro e vai até março. Quando vocês estão jantando, aqui é meia-noite e eu já estou dormindo. Deixo a minha benção ao pai, mãe e meus sobrinhos. Lembranças para todos daí.

Saiba Mais

45 anos após sua morte, o túmulo de Renato Esteves Oliveira, tio-avô do autor da reportagem – David Arioch, ainda recebe muitas visitas no Cemitério Municipal de Alto Paraná.

Sete Metros era tão respeitado que uma semana após a sua morte alguns detentos se uniram e mataram o criminoso conhecido como Mergulhão.

Frases de Renato Esteves Oliveira

“Cida [irmã], quando me escrever, mande perguntar na Fazenda Ouro Verde se tem família nova. Se alguma colega da Clarisse perguntar de mim, dê o meu endereço que é pra eu treinar a caligrafia porque a minha letra está um pouco ruim.”

Nos anos 1950 e 1960, era muito comum os casos de envenenamento em Paranavaí e região. Então um dia Renato disse: “Ô Pai, nunca tome nada que te derem para beber sem antes ver a pessoa abrir a garrafa na sua frente.”

Por que os soldados brasileiros foram enviados para o Canal de Suez?

De acordo com o Manual do Expedicionário Brasileiro em Suez, a Força Internacional das Nações Unidas enviou soldados brasileiros para fazer uma interposição entre árabes, israelenses, franceses e ingleses. O objetivo era evitar que guerreassem. Em 1956, o desentendimento entre os quatro povos teve como estopim a nacionalização do Canal de Suez pelo presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, apoiado pela União Soviética. Com isso, franceses, ingleses e israelenses não poderiam mais usar o canal como rota estratégica de navegação para Ásia, África e Europa.

Com o apoio dos Estados Unidos, França, Inglaterra e Israel se uniram para atacar o Egito. Preocupada com a possibilidade do conflito se transformar em uma Terceira Guerra Mundial, a ONU agiu rapidamente e enviou tropas de paz para o Canal de Suez. Lá, brasileiros trabalharam em parceria com soldados da Noruega, Suécia, Dinamarca, Finlândia, Iugoslávia, Índia, Colômbia e Indochina.

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Anita Prestes: “Existe muita propaganda mentirosa sobre o que é o socialismo”

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Historiadora afirma que o Brasil vive um momento de pobreza de lideranças e partidos de esquerda

Anita vai lançar uma nova biografia sobre Luiz Carlos Prestes em maio ou junho (Foto: Amauri Martineli)

Anita dedicou a carreira a estudar o legado do pai Luiz Carlos Prestes (Foto: Amauri Martineli)

No início do mês, a professora, pesquisadora e escritora Anita Leocádia Prestes, filha de Luiz Carlos Prestes e Olga Benário, dois dos mais importantes personagens da história brasileira do Século XX, esteve em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, ministrando uma palestra sobre os 80 anos da Aliança Nacional Libertadora (ANL), movimento que lutou para tentar mudar os rumos da política brasileira, combatendo o autoritarismo e denunciando a miséria, pobreza e exploração dos menos favorecidos.

Na tarde do dia 3 de março, antes do início do evento que fez parte das atividades de greve do curso de história da Universidade Estadual do Paraná (Unespar) e levou mais de 450 pessoas para o Teatro Municipal Dr. Altino Afonso Costa, tive a oportunidade de entrevistá-la no saguão do Hotel Elite, no centro de Paranavaí. Pontual, Anita já me aguardava para uma longa e proveitosa conversa.

Professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutora em história pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Anita Prestes nasceu na prisão feminina do campo de concentração de Barnimstraße, em Berlim, na Alemanha, após ser separada da mãe, a alemã Olga Benário. Judia e comunista, Olga veio ao Brasil para ajudar Prestes, mas foi entregue grávida aos nazistas pelo governo brasileiro e executada aos 34 anos em um campo de concentração de Bernburg em 23 de abril de 1942.

Motivada pelo legado familiar, Anita dedicou a maior parte da vida acadêmica a pesquisar sobre os 70 anos de atuação política do pai Luiz Carlos Prestes, falecido aos 92 anos em 1990. Ao longo da carreira, publicou inúmeros livros. O mais recente, “Luiz Carlos Prestes – O Combate por um Partido Revolucionário”, lançado em 2012, aborda o período de 1958 a 1990. Atualmente a pesquisadora está terminando a biografia mais completa sobre a história de Prestes. O livro que reúne informações coletadas em mais de 30 anos tem previsão de lançamento para maio ou junho pela Boitempo Editorial, de São Paulo.

"Uns endeusam, outros atacam. A verdade é que o Getúlio Vargas foi uma figura muito complexa" (Foto: Amauri Martineli)

“Uns endeusam, outros atacam. A verdade é que o Getúlio Vargas foi uma figura muito complexa” (Foto: Amauri Martineli)

Gentil e eloquente, Anita respondeu com naturalidade questões sobre o passado político da família, Levante Comunista, papel de Getúlio Vargas após a Revolução de 1930, exílio, obras baseadas na vida de Luiz Carlos Prestes e Olga Benário, socialismo, política atual e o novo livro, além de outros assuntos. Confira:

Quando e por que a senhora decidiu pesquisar sobre a história política do seu pai, Luiz Carlos Prestes?

Eu quis ingressar na universidade para estudar história quando voltei do exílio em 1979, o que é até curioso porque a minha primeira formação foi em química. Só que nunca trabalhei na área [risos] devido a perseguição que surgiu com o golpe de 1964. Naquele tempo, meu pai já estava com mais de 80 anos e tinha uma memória extraordinária sobre os acontecimentos da Coluna Prestes. O problema é que ele resistia em escrever. Então segui por esse caminho e defendi a minha tese de doutorado sobre a Coluna Prestes em 1989. Depois disso, continuei trabalhando na universidade. Ainda muito interessada na história do Brasil contemporâneo, pesquisei sobre tenentismo, movimentos militares e me aprofundei na história do PCB [Partido Comunista Brasileiro], até porque a partir de 1930 não tem como estudar a vida do Prestes sem relacioná-la ao PCB e vice-versa.

Como imagina que seria o Brasil se o Levante Comunista de 1935 tivesse sido melhor articulado e bem sucedido?

A realidade é que hoje, após estudar o assunto por tantos anos, posso afirmar que não havia a menor condição para êxito desse movimento. Eram pessoas bem intencionadas que lutaram aguerridamente e muitos morreram, mas não havia reais condições para uma vitória. Os comunistas da época e seus aliados da Aliança Nacional Libertadora [ANL] fizeram uma avaliação equivocada da situação política. Achavam que havia uma situação revolucionária no Brasil, o que não correspondia com a realidade.

Getúlio Vargas é um dos personagens mais controversos da história contemporânea do Brasil, tanto que até hoje divide muitas opiniões. Como a senhora avalia o papel de Vargas antes e depois da Revolução de 1930?

"O Getúlio Vargas e o grupo que ele representava foram os maiores responsáveis pela extradição da minha mãe" (Foto: Amauri Martineli)

“Tenho que levar em conta que o Filinto Müller era apenas um funcionário do governo, um chefe de polícia com algum poder” (Foto: Amauri Martineli)

Uns endeusam, outros atacam. A verdade é que o Getúlio Vargas foi uma figura muito complexa. Ocupou uma posição importante na história do Brasil do século XX e que deve ser avaliada nas suas condições. Ele era representante da elite brasileira. Entrou para a política porque fazia parte da oligarquia agrária do Rio Grande do Sul. Foi muito influenciado na década de 1930 por ideologias de caráter autoritário e fascista que estavam em ascensão no mundo. E, claro, foi o que serviu de base para atingir os objetivos propostos pelo grupo que ele representava. No entanto, a cabeça pensante do grupo era o general Pedro Aurélio de Góes Monteiro, criador da chamada doutrina Góes Monteiro, hoje pouco conhecida. O objetivo da doutrina era a reconstrução do Brasil a partir de um estado autoritário centralizador e corporativista. E foi o que colocaram em prática com a Revolução de 1930, chegando ao auge com o Estado Novo. Uma das promessas da doutrina era fazer com que o Estado desse um salto no processo de industrialização. Até 1930, tínhamos um país com indústrias leves. A partir dessa política, o Brasil começou a investir em indústrias pesadas, o que era muito importante para a defesa nacional. O Góes Monteiro viu isso também como um instrumento de combate às manifestações. Para criar um cenário favorável à industrialização, o governo estabeleceu um arrocho salarial e uma série de medidas prejudiciais a maior parte da população e benéfica ao desenvolvimento capitalista. Houve resistência dos setores populares e as insatisfações foram combatidas com bastante repressão.

Há quem diga que Filinto Müller apenas recebia ordens quando deportou sua mãe para a Alemanha. Até que ponto ele tem culpa sobre o destino de sua família?

Tenho que levar em conta que o Filinto Müller era apenas um funcionário do governo, um chefe de polícia com algum poder. A verdade é que o Getúlio Vargas e o grupo que ele representava foram os maiores responsáveis pela extradição da minha mãe e de muitos outros presos políticos perseguidos e torturados naquela época. Filinto Müller nunca teria feito o que fez sem o respaldo do Getúlio.

Como era o relacionamento do seu pai com Carlos Marighella e Jorge Amado?

Foram várias fases, né? Quando o Partido Comunista Brasileiro foi legalizado em 1945, com a vitória da União Soviética e seus aliados, os comunistas ganharam espaço. Carlos Marighella e Jorge Amado se tornaram deputados da bancada do PCB, então havia um grande relacionamento de camaradagem entre eles e o meu pai. No decorrer da luta, esses dois comunistas seguiram caminhos diferentes. O Jorge Amado, um escritor renomado, se afastou do partido e se tornou muito amigo de políticos à direita como o Antônio Carlos Magalhães. Também fez amizade com o José Sarney. Eu diria que se tornou alguém que se integrou ao sistema capitalista, deixou de ser um combatente e se afastou do Prestes. O Carlos Marighella preferiu outra direção. Se desesperou com a grave derrota de 1964 e perdeu a perspectiva de um trabalho de longo prazo. Tentou ganhar sem ter condições pra isso e repetiu o erro do PCB em 1935. No fim, acabou derrotado e morto.

"Não tenho nenhuma cerimônia em dizer que o senhor Daniel Aarão Reis é um canalha" (Foto: Amauri Martineli)

“Não tenho nenhuma cerimônia em dizer que o senhor Daniel Aarão Reis é um canalha” (Foto: Amauri Martineli)

O Livro do Fernando Morais sobre a história de sua mãe e o filme de Jayme Monjardim fazem justiça a quem foi Olga Benário?

O meu pai sempre achou o livro muito bom, bastante comprometido com a verdade. Houve um trabalho sério de pesquisa. O Fernando Morais tem uma grande capacidade de emocionar as pessoas, prender a atenção. Já o filme, como todo filme, tem suas limitações. O próprio Monjardim declarou que não estava interessado em política, história do Brasil ou na vida do Prestes, mas sim em retratar uma história de amor que ele achou bonita. Claro, tem coisas ali que poderiam ser melhores, mas ele desempenhou sim um papel importante. Conquistou o público e ajudou a resgatar a história da minha mãe.

Há mais verdades ou factoides na biografia sobre Luiz Carlos Prestes lançada pelo historiador Daniel Aarão Reis?

Como trabalho de historiador, é algo que se pode rasgar e jogar fora. Ele divulga muitas mentiras e informações que não foram comprovadas. O que percebi foi uma intenção de desmoralizar o Prestes, a família do Prestes e a minha mãe. Ele inventou uma história de que a Olga deixou um filho em Moscou [na Rússia] e não apresentou nenhum documento como prova. Estive em Moscou há dois anos, pesquisando no arquivo da Internacional Comunista. Tirei cópia da pasta integral que existe lá sobre a minha mãe e não há nada disso. Conheci muitos amigos e amigas da minha mãe em Moscou e todos eles afirmaram que ela nunca teve outro filho. Do dia que nasci até o dia em que ela morreu, a Olga se preocupou comigo o tempo todo. Minha mãe é uma pessoa admirada pelo seu heroísmo e coragem. Nunca faria algo assim. Esse sujeito tentou manchar a imagem dos dois. Não tenho nenhuma cerimônia em dizer que o senhor Daniel Aarão Reis é um canalha.

Luiz Carlos Prestes sempre recusou qualquer pensão ou indenização. A senhora também fez o mesmo?

No início da década passada, solicitei que fosse contado o meu tempo de serviço no período em que estive no exílio para que mais tarde eu pudesse me aposentar. O pedido foi atendido com base legal e junto vieram R$ 100 mil de indenização. Me senti incomodada em aceitar o dinheiro porque trabalho, tenho condições de me manter. Então doei para o Instituto do Câncer que é uma entidade séria do Rio de Janeiro. Quanto ao meu pai, ele nunca aceitou voltar para o Exército e nunca quis nenhuma das pensões que lhe ofereceram. No final dos anos 1980, a última tentativa foi do Saturnino Braga, ex-prefeito do Rio de Janeiro. Meu pai recusou e justificou que não poderia receber pensão enquanto o funcionalismo público estava com dificuldades, sem dinheiro para pagar os salários dos servidores. Após meu pai morrer, a viúva [Maria do Carmo Ribeiro] solicitou a integração do meu pai ao Exército [Prestes foi capitão até 1936], mesmo contra a vontade dele em vida. Como forma de desmoralizar ainda mais o Prestes, o Exército o promoveu. Ou seja, o general da Coluna Prestes foi promovido a coronel de pijama do Exército. Achei um desrespeito muito grande à memória dele. Meu pai nunca quis dinheiro do governo. Pelo papel político que desempenhou, por tudo que ele lutou, seria uma grande contradição. Nos anos 1990, me chamaram e me ofereceram a minha parte da pensão, mas recusei.

"Após meu pai morrer, a viúva [Maria do Carmo Ribeiro] solicitou a integração do meu pai ao Exército [Prestes foi capitão até 1936], mesmo contra a vontade dele em vida" (Foto: Amauri Martineli)

“Meu pai nunca quis dinheiro do governo” (Foto: Amauri Martineli)

Como foi a experiência no exílio na União Soviética?

Bom, passei por vários exílios, inclusive nasci no exílio [risos]. Enfim, é sempre melhor você estar na sua terra e viajar para o exterior quando quiser, com boas condições e opções para estudar e conhecer lugares. No caso do exílio, você é forçado a estar fora, então é bem diferente. Mas posso dizer que sempre recebi uma solidariedade muito grande.

Nos últimos anos de vida, seu pai estava satisfeito com os rumos da política brasileira?

Em 1989, no último ano de vida dele, mesmo doente, ele participou das campanhas do Brizola e do Lula. Não tinha como estar satisfeito com a política brasileira, até porque o Collor foi eleito. Inclusive tomou posse alguns dias depois da morte do meu pai.

Antes de falecer, o Prestes ainda tinha algum sonho com relação ao futuro do Brasil?

Sonho, eu não diria, mas ele era um homem que achava que os processos de transformações das sociedades humanas teriam que levar à vitória do socialismo. Quando, como e de que jeito, isso é outra coisa. Sempre acreditou que um dia surgiriam as condições para que se lutasse e realizasse essas transformações. Era uma pessoa extremamente otimista.

Se tratando de política de esquerda, o Brasil hoje tem algum partido realmente representativo?

Olha, acho que não. Há uma pobreza muito grande de lideranças e de partidos. Existe muita propaganda mentirosa sobre o que é o socialismo, além da indiscutível falsificação da história. Muitos se aproveitam disso. O que temos hoje é o PCB, um partido pequeno, pouco representativo e que tem como atual secretário geral o Ivan Pinheiro que faz um bom esforço de organização popular, mas enfrenta muitas dificuldades.

A senhora considera pequena ou grande a parcela de jovens interessados no socialismo e no legado de Luiz Carlos Prestes?

De uma maneira geral, a mídia tem um grande poder de influenciar e desinformar os jovens, mas tenho notado principalmente nas universidades que uma parcela significativa da juventude está estudando de verdade o marxismo, interessada em saber o que ele realmente significa e representa. Tenho ministrado palestras pelo Brasil afora e a recepção tem sido muito boa. Sou recebida por 400, 500 e até mil pessoas em cada evento, o que significa que há sim um grande interesse dos jovens pelas políticas de esquerda.

Por que quando se fala em políticas de esquerda, principalmente na internet, as pessoas trocam agressões com tanta facilidade?

O papel da mídia é muito poderoso. Há um conjunto de meios que influem na mente das pessoas. Mas não há nada como a realidade, né? Na medida em que as próprias contradições do capitalismo se acentuam, as pessoas começam a ver a necessidade de mudança. Com isso, muita gente chega ao marxismo e percebe a necessidade de lutar por transformações mais profundas na sociedade.

"Há sim um grande interesse dos jovens pelas políticas de esquerda" (Foto: Amauri Martineli)

“Há sim um grande interesse dos jovens pelas políticas de esquerda” (Foto: Amauri Martineli)

Na sua opinião, o neoliberalismo se opõe à democracia?

Vejo o neoliberalismo como um eufemismo do capitalismo. Quando o capitalismo surgiu havia um anseio de democracia, mas de democracia voltada para as elites, para a burguesia, não para os trabalhadores. Um exemplo foi o que aconteceu na Revolução Francesa. Hoje vivemos um período em que a burguesia se sente a perigo porque vê que há mais insatisfação e contestação social. A realidade é que nesse ambiente de luta crescem também as probabilidades de haver menos democracia e mais repressão. Sem dúvida, a democracia no Brasil ainda é só para os poderosos.

O socialismo pode reacender no Brasil no futuro?

Mais cedo ou mais tarde, a luta vai ser intensificada. Acredito que as lideranças populares do Brasil têm condições de estudarem mais, se prepararem, se organizarem e conduzirem o país para o verdadeiro caminho do socialismo. Acho que Cuba é uma grande referência porque lá o socialismo ainda sobrevive, apesar de todas as dificuldades. Eles sofrem muito porque é um país pobre, sem recursos naturais, uma pequena ilha perseguida e bloqueada ao lado dos Estados Unidos. Além disso, como diz o próprio Fidel Castro, não existe receita para a construção do socialismo. Logo cometem-se muitos erros que precisam ser corrigidos. Eles reconhecem isso e se empenham em aperfeiçoar o sistema.

As vitórias do Syriza na Grécia e do Podemos na Espanha representam mais proximidade com os ideais socialistas?

Independente das vitórias desses partidos, não acredito que Grécia nem Espanha estão a caminho de um governo socialista. Os próprios partidos não têm posições socialistas. São dois países vivendo um renascimento da social-democracia, com políticas que no fundo mascaram a exploração capitalista, o que não contribui efetivamente para a emancipação dos trabalhadores.

Como a senhora qualifica o papel da mídia brasileira nas mudanças políticas das últimas décadas?

"Mais cedo ou mais tarde, a luta vai ser intensificada" (Foto: Amauri Martineli)

“Mais cedo ou mais tarde, a luta vai ser intensificada” (Foto: Amauri Martineli)

A mídia continua nas mãos das classes dominantes, favorecendo os interesses da burguesia. No Brasil, há uma grande resistência do Congresso Nacional que não quer a democratização da mídia porque defende os interesses das elites reacionárias, de direita. A TeleSUR, emissora de televisão da Venezuela, tem um convênio assinado com o Brasil desde 2005 para transmitir os seus programas pela TV Brasil. O acordo não sai do papel por causa da resistência da diretoria da emissora e do congresso. Eles não querem que os brasileiros conheçam a versão venezuelana dos fatos. A Argentina já transmite programações de emissoras da Venezuela e da Rússia. A RT, por exemplo, que é uma TV russa, faz oposição ao Ocidente. É importante ter a oportunidade de comparar apresentações antagônicas sobre um mesmo acontecimento. Essa infeliz unilateralidade das informações também se aplica ao que acontece na Ucrânia.

O trabalho da Comissão da Verdade e as revisões sobre os acontecimentos do período da ditadura militar significam avanços?

Acho que foi um avanço pequeno e atrasado, diferente do que aconteceu na Argentina, Uruguai e Chile. Nesses países, generais e torturadores foram condenados e presos. Aqui no Brasil houve uma anistia muito problemática, tanto para a esquerda quanto para os torturadores, o que é uma coisa absurda. Afinal, a tortura é um crime inafiançável. Infelizmente o Supremo Tribunal Federal declarou há dois ou três anos que não se pode mexer na lei da Anistia. Reconheço que a Comissão da Verdade esclareceu alguns casos e movimentou o assunto, mas ainda precisamos de uma revisão da Lei da Anistia e o julgamento dos torturadores que estão vivos. Falta também um posicionamento da Anistia Internacional e da ONU.

"Para a nova biografia, tive que reavaliar todo o material de pesquisa acumulado em mais de 30 anos (Foto: Amauri Martineli)

Historiadora vai lançar uma nova biografia sobre Luiz Carlos Prestes em maio ou junho (Foto: Amauri Martineli)

O PCB antigamente mantinha bastante contato com partidos internacionais. Ele ainda mantém a tradição?

Ele mantém sim. O PCB tem bastante contato com partidos comunistas internacionais. No geral, com partidos de esquerda da América Latina e da Europa.

Existe a possibilidade de haver uma unificação dos partidos de esquerda, seguindo o exemplo da Internacional Comunista?

Já foi levantada essa questão e está ainda em discussão. Realmente não é uma coisa fácil de se colocar em prática.

O que o Instituto Luiz Carlos Prestes realizou em comemoração aos 90 anos da Coluna Prestes?

Realizamos muitas atividades desde o ano passado. Tenho viajado bastante pelo Brasil, passando por universidades. Celebramos este mês os 80 anos da criação da Aliança Nacional Libertadora e estamos abordando todos os desdobramentos de suas ações, incluindo o levante antifascista de novembro de 1935. Para falar sobre o assunto, já percorremos o Paraná, Rio de Janeiro e alguns estados do Nordeste.

Como estão os preparativos para o lançamento da nova biografia sobre o Luiz Carlos Prestes?

A previsão é de que saia em maio ou junho, pela Boitempo Editorial, de São Paulo. Tive que reavaliar todo o material de pesquisa acumulado em mais de 30 anos. Fui para Brasília em setembro do ano passado e recebi uma grande ajuda da presidente do Superior Tribunal Militar que me disponibilizou DVDs com muitas informações sobre os acontecimentos de 1935. A biografia já tem mais de mil notas de rodapé citando fontes. Não tinha como ser diferente porque a trajetória do meu pai começou no tenentismo e foi até 1990. Ele participou de diferentes movimentos políticos no Brasil e no cenário mundial. Era um importante membro da comissão executiva da Internacional Comunista, assim como minha mãe.

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