David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Sobre boas notícias que fazem o meu trabalho valer a pena

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Written by David Arioch

March 21st, 2018 at 1:32 am

Ativista pelos direitos animais, o ator James Cromwell diz que na cadeia todos reconhecem o seu rosto

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Cromwell participando de um protesto (Foto: Associated Press)

O ator vegano James Cromwell, conhecido principalmente pela interpretação do fazendeiro Hoggett, do filme “Babe”, e de Warden Hal Moores em “The Green Mile”, tem 78 anos e uma invejável vontade de fazer a diferença. Nem a pecha de “ecoterrorista”, que já lhe atribuíram, o incomoda. Pouco o preocupa a iminência de, a qualquer dia, ser enviado novamente para a cadeia por causa de suas intervenções e manifestações em que se acorrenta a alguma propriedade privada ou segura um megafone e discursa sobre a crueldade que infligimos aos animais no nosso cotidiano – diretamente ou indiretamente.

James Cromwell foi preso tantas vezes que já perdeu as contas. Uma de suas campanhas mais bem-sucedidas foi contra a exploração de golfinhos pelo SeaWorld, que gerou comoção internacional. Em entrevista ao The Guardian, publicada no último dia 27, ele disse, em referência aos presos com quem já dividiu a cela: “Todos eles conhecem o meu rosto. ‘Ei, ele é o cara de The Green Mile [No Brasil, À Espera de um Milagre]’. Eu sempre era ‘o cara’”.

A transição do ator para o vegetarianismo ocorreu em 1975, logo depois que ele percorreu o Texas de moto e observou como viviam os animais em confinamento. “Isso é realmente uma porcaria. Não posso fazer parte disso”, ponderou. Depois que retornou da Austrália, após a finalização de “Babe”, que o fez refletir mais profundamente sobre as nossas relações com seres não humanos, Cromwell se viu na obrigação de fazer algo pelos direitos animais. Então iniciou a sua trajetória como ativista.

O ator atuou no resgate de muitos animais, narrou documentários sobre a exploração animal, incluindo “Farm to Fridge”, de 2011, e ajudou santuários. Na visão de Cromwell, negar a um animal o direito à vida e à autodeterminação é uma agressão contra o planeta e todos os seres sencientes. Para o ator, o veganismo é a melhor forma de ajudar os animais.

 





 

Henry Spira: “O sofrimento é invisível para pessoas que comem bifes porque elas não vão até o matadouro escolhê-los”

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“Para nós, o consumo de animais não é uma questão de sobrevivência. Podemos ser saudáveis sem comer outros animais”

Spira: “Elas [as pessoas] não vão às fazendas industriais onde o animal é impossibilitado de se mover desde que nasce até a sua morte.” (Acervo: Alchetron)

Considerado um dos ativistas mais engajados no movimento pelos direitos animais nos Estados Unidos no século 20, o belga Henry Spira ficou famoso principalmente por suas campanhas bem-sucedidas contra a realização de testes em animais. Mas a sua história com a defesa animal começou por acaso, quando ele leu um artigo escrito pelo filósofo australiano Peter Singer, publicado pelo New York Review of Books em 1973.

Spira, que teve uma longa história com o movimento pelos direitos humanos, e durante seis anos editou um pequeno jornal sindical da União Marítima dos Estados Unidos, percebeu que faltava algo na sua luta por justiça. “Eu estava no Mississippi, no Extremo Sul. Fui ativo na luta antiguerra. Quando li o artigo de Peter Singer, consegui ver o que era, de fato, o holocausto para os animais. Ocorreu-me que isso não estava certo, não era justo e algo precisava ser feito”, relatou na rara entrevista “Conversarion With Henry Spira: Draize Test Activist”, concedida a Lynne Harriton para a The Humane Society Institute for Science and Policy em 1981.

Em 1973, Spira participou de uma das aulas de Peter Singer, e em 1974 fundou o grupo Animal Rights International, que conquistou repercussão internacional com a realização de uma campanha contra o uso de gatos em pesquisas científicas no American Museum of Natural History. “O livro dele [Peter Singer], Animal Liberation, tirou os direitos dos animais do sentimentalismo – onde as prioridades se baseavam em quão fofo e popular é um animal, e o colocou em uma posição consistente onde o ponto mais importante não era o amor aos animais. O fato é que como esses animais têm sentimentos, eles devem ter direitos”, declarou.

Para Spira, o movimento pelos direitos animais começou a trilhar um novo caminho quando passou a enxergar a quantidade de animais explorados, assim como a dimensão de seus sofrimentos, independente de aparência e popularidade. Na segunda metade da década de 1970, começou a ficar mais evidente a preocupação com a exploração de animais em níveis industriais, para produção de alimentos e produtos, e também de animais em laboratórios. O ativista acreditava que esse deveria ter sido o foco prioritário do movimento muito tempo antes.

Segundo Henry Spira, as pessoas normalmente exploram animais e causam sofrimento a eles não porque sentem prazer nessa atividade, mas porque a sociedade diz que essa prática é aceitável, e claro, tem como reforço a legitimidade legal: “O sofrimento também é invisível para pessoas que comem bifes porque elas não vão até o matadouro escolhê-los. Elas não vão às fazendas industriais onde o animal é impossibilitado de se mover desde que nasce até a sua morte. Laboratórios [que usam animais] não abrem as suas portas para visitas diárias. Na verdade, acreditamos que se as pessoas realmente soubessem o que está acontecendo as coisas mudariam – haveria uma tremenda fúria e protesto.”

Ele sempre considerou os movimentos pelos direitos humanos e pelos direitos animais bem parecidos em diversos aspectos. “De um lado, você tem pessoas com poder e aparato, e do outro você tem pessoas só com a integridade e suas ideias, e o fato de que estão lutando por justiça – e que têm a possibilidade de atraírem grande simpatia para as suas causas”, disse em entrevista a Lynne Harriton.

O ativista belga que chegou aos Estados Unidos com a família em 1940 via como uma grande contradição o costume de explorarmos outros animais para supostamente garantirmos a nossa própria sobrevivência. Um exemplo comum citado por Henry Spira é a realização de testes em animais, que já deveria ter sido banida em todo o mundo: “Acredito que a nossa sobrevivência será garantida quando mostrarmos preocupação com os outros. […] Levando em conta os sentimentos e interesses dos outros, seguindo políticas baseadas no propósito de não prejudicar os outros, estaremos muito melhores do que agora.”

Spira, assim como outros importantes nomes do movimento mundial pelos direitos animais, sempre dividiram a mesma opinião em relação à abrangência da defesa animal. “A filosofia por trás do movimento dos direitos animais é muito mais ampla do que não prejudicar cães e gatos. […] Para nós, o consumo de animais não é uma questão de sobrevivência. Podemos ser saudáveis sem comer outros animais. Qual é o objetivo de todos esses séculos de civilização se acharmos que se uma barata faz algo, por que nós não podemos?”, questionou.

Saiba Mais

Henry Spira nasceu na Entuérpia, na Bélgica, em 19 de junho e 1927 e faleceu em Nova York em 12 de setembro de 1998.

Em 1980, ele realizou uma grande campanha contra os testes em animais realizados pela Revlon.

Referência

The Humane Society Institute for Science and Policy – Animal Studies Repository – 1-1981 – Conversation With Henry Spira: Draize Test Activist Lynne Harriton





Como avaliar se uma forma de ativismo é eficaz

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Arte: Banksy

Para avaliar se uma forma de ativismo em prol dos animais está funcionando é muito simples. É só analisar a receptividade e os resultados. Se não está funcionando, ou se sua mensagem está chegando somente a quem pensa como você ou simpatiza com algumas de suas ideias, é porque algo está errado. Tenho visto novas formas de ativismo em prol dos animais surgindo, e acho que essas formas terão papel determinante sobre o que vai acontecer positivamente no futuro.





Written by David Arioch

August 16th, 2017 at 12:06 pm

Sobre as mais diferentes formas de ativismo

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Algum tipo de ativismo consolidado no passado te beneficia hoje, não tenha dúvida

Não raramente me deparo com pessoas que são contra as mais diferentes formas de ativismo. Levando isso em conta, pergunto:

— O que você acha que você seria ou o que você acha que você teria se não fosse pelo ativismo feito por tanta gente no decorrer da história? Algum tipo de ativismo consolidado no passado te beneficia hoje, não tenha dúvida. Você pode condenar uma ou outra forma de ativismo, mas é importante entender que nem tudo é totalmente errado, nem totalmente certo. O que precisa ser definido é se esse ativismo foi ou é sincero e honesto. Se foi, ou se é, há uma intenção legitimada que leva à mudança. A evolução da humanidade, claro, há muitas falhas, mas as conquistas ao longo da história só foram possíveis por causa de ativismo. Só o ativismo promove mudanças sólidas na estrutura de uma sociedade. Então se você é contra isso, você naturalmente é contra os outros e quem sabe até contra a si mesmo.

 

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Written by David Arioch

August 9th, 2017 at 8:15 pm

Posted in Reflexões

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Joaquin Phoenix: “Quando somos tocados pelo sofrimento dos animais, aquele sentimento fala bem de nós”

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“Os animais passavam de uma criatura viva e vibrante, lutando pela vida, para uma morte violenta”

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Joaquin Phoenix é vegano desde os três anos (Foto: Getty Images/David Buchan)

O ator Joaquin Phoenix, indicado três vezes ao Oscar, e também muito conhecido como o narrador de um dos documentários mais controversos sobre a exploração animal – Earthlings (Terráqueos), tinha três anos quando se tornou vegano. Em entrevista publicada pela Cover Media em 28 de novembro de 2013, o ator contou que ele e sua família saíram para pescar quando ouviram um peixe se contorcendo e se chocando contra o barco.

“Isso era o que fazíamos para comê-los. Os animais passavam de uma criatura viva e vibrante, lutando pela vida, para uma morte violenta. Reconheci isso, assim como meus irmãos”, relatou em entrevista publicada pela Animal Liberation Front em 14 de novembro de 2006.

Naquele dia, Joaquin e seus irmãos disseram aos seus pais que nunca mais comeriam carne novamente, e foi o que fizeram. “Por que você não disse de onde veio a carne?”, questionou sua mãe à época. Sem saber o que dizer, ela começou a chorar. Com o passar do tempo, ele percebeu que muita gente achava que veganos eram pessoas que praticavam rituais bizarros e que tinham que seguir algumas regras e estilo de se vestir – como se fossem parte de uma seita.

Apesar da incompreensão das pessoas no passado, os direitos animais se tornaram parte de sua vida cotidiana, porque, segundo ele, quando você vive pelo exemplo, naturalmente se cria um certo nível de consciência. Prova disso é que até mesmo amigos com quem ele nunca discutiu sobre vegetarianismo acabaram por adotar uma dieta livre da exploração animal.

“Meu estilo de vida é parte de quem sou e, portanto, algo a se considerar em meu trabalho. Sempre discuto isso com os produtores, e eles são muito complacentes. Há tantas opções livres de crueldade. As pessoas seriam tolas de não aproveitar isso. Também é fácil trabalhar com computadores e animatronics em vez de animais, e isso faz a diferença também. A tecnologia nos permitiu recriar animais – como os tigres em ‘Gladiador’ [filme em que ele interpreta o vilão Cômodo]”, relatou à ALF.

Joaquin Phoenix se recordou que na metade da década de 1990 era estranho ser praticamente o único ator a contestar o uso de peles e a pedir alimentos veganos. “Hoje é diferente. Em todos os lugares onde vou, encontro bons pratos vegetarianos”, comemorou. Entre os seus alimentos preferidos estão tofu e tabule. Ele nunca se interessou em consumir imitações de carne. Também disse que durante muito tempo usou apenas tênis Converse All-Star Canvas porque era difícil encontrar calçados veganos. “Agora parece que a maioria dos sapatos são sintéticos”, comentou à Animal Liberation Front.

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Phoenix em campanha contra o uso de lã (Arte: Peta)

Em outra entrevista, publicada em 13 de novembro de 2014 na Playboy, Phoenix contou não é preciso mais pedir comida vegetariana nos sets de filmagem, porque isso já se tornou comum em praticamente todos os grandes estúdios. “Posso fazer um sanduíche, uma salada e macarrão, mas não sou um bom cozinheiro”, admitiu.

Em 2016, ele foi um dos grandes apoiadores da campanha Be Fair, Be Vegan (Seja Justo, Seja Vegano) e, explicou que a iniciativa teve como objetivo a conscientização sobre nossas atitudes especistas em relação aos animais, estimulando as pessoas a verem que nossas semelhanças com os animais não humanos são muito mais profundas do que julgamos. “Agora, mais do que nunca, o mundo precisa dessa mensagem”, enfatizou em declaração publicada em diversos veículos de comunicação dos Estados Unidos.

Entre as muitas campanhas que tiveram a participação voluntária do ator hollywoodiano, uma das mais recentes e que teve boa repercussão é “Joaquin Phoenix is drowning”, da organização Pessoas Pelo Tratamento Ético dos Animais (Peta). No vídeo, ele aparece sob a água, e o espectador pode perceber o pânico e o terror em seus olhos –  o que representa a forma como os peixes se sentem antes de morrer. Além disso, a intenção é alertar sobre a morte de mais de um trilhão de peixes por ano, consequência da pesca indiscriminada, que além de gerar sofrimento aos animais, tem causado impactos ambientais.

“Os animais exóticos são em sua maioria desconhecidos por nós, assim como o seu sofrimento antes de serem transformados em cintos e bolsas. Todos os anos, milhões de répteis são abatidos para que bolsas, cintos e calçados sejam feitos de suas peles. O bem-estar dos animais não é uma preocupação para aqueles que caçam e comercializam suas peles”, criticou na campanha “Skin Horrors”, da Peta, lançada em 2013. No curta, ele pede que as celebridades parem de usar peles de animais, principalmente de jacarés, lagartos e cobras.

Joaquin Phoenix estrelou outra campanha da Peta no final de 2016, depois de assistir filmagens que mostram a realidade das ovelhas nas fazendas de produção de lã. No vídeo, ele alerta sobre o fato de que não existe uma forma humana de extrair lã. “A única opção é não usar lã”, ponderou.

O curta foi estrategicamente lançado após a denúncia de que trabalhadores da indústria de lã australiana estavam dando socos e chutes em ovelhas, além de feri-las com cortadores elétricos. O que também é apontado como agravante dessa violência é o fato de que os trabalhadores desse ramo recebem por volume de corte, não por hora de serviço.

Na campanha intitulada “Walmart Cruelty”, Joaquin Phoenix aparece em um vídeo mostrando a origem da carne de porco comercializada pela rede Walmart. “Porcas grávidas são confinadas em caixas imundas de metal, são pouco maiores do que seus próprios corpos, e cada momento é como o inferno na Terra”, lamentou.

Em 2005, o diretor Shaun Monson conseguiu convencer Phoenix a narrar o documentário Earthlings porque, segundo ele, o ator era a pessoa ideal para a função. “Nós chegamos como senhores da terra, com estranhos poderes de terror e misericórdia. O ser humano devia amar os animais como o experiente ama o inocente, e como o forte ama o vulnerável. E quando somos tocados pelo sofrimento dos animais, aquele sentimento fala bem de nós, mesmo se o ignoramos. E aqueles que dispensam o amor pelas outras criaturas, como o puro sentimentalismo, ignoram uma parte importante e boa da humanidade. Mas nenhum humano vai perder nada ao ser gentil com um animal. E, na verdade, faz parte de nosso propósito dar-lhes uma vida feliz e longa”, narra Joaquin Phoenix no final de Earthlings.

Saiba Mais

Nascido em San Juan, Porto Rico, em 28 de outubro de 1974, Joaquin Phoenix é irmão dos atores River Phoenix (falecido em 1993), Rain Phoenix, Summer Phoenix e Liberty Phoenix.

Referências

https://sg.news.yahoo.com/joaquin-phoenix-recalls-vegan-choice-003000101.html

http://www.animalliberationfront.com/Saints/Interviews/JoaquinPhoenix.htm

http://www.playboy.com/articles/playboy-interview-joaquin-phoenix

http://www.alternet.org/food/be-fair-be-vegan-most-ambitious-animal-justice-campaign-ever-launched-new-york

http://www.peta.org.uk/blog/watch-joaquin-phoenix-reacts-petas-wool-expose/

http://features.peta.org/joaquin-phoenix-is-drowning/

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Written by David Arioch

March 14th, 2017 at 9:00 pm

Caroline Earle White, uma pioneira da proteção animal

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“Não há dúvida de que sua verdadeira vocação era ajudar os negligenciados, os sem voz: os animais”

Caroline Earle White

Caroline Earle White fundou a Women’s Humane Society em 1869 (Foto: Women’s Humane Society)

Criada em uma família de abolicionistas e sufragistas, Caroline Earle White é um dos nomes mais importantes da história da proteção animal nos Estados Unidos. Em 1869, depois de ter o seu pedido negado para ocupar uma posição de liderança na Pennsylvania Society for the Prevention of Cruelty to Animals (Sociedade da Pensilvânia pela Prevenção da Crueldade aos Animais), e simplesmente por ser mulher, ela fundou a sua própria entidade, Depois criou o primeiro abrigo para animais dos Estados Unidos e a primeira sociedade anti-vivissecção. Em síntese, a sua história é marcada por muita luta e adversidades.

Nascida na Filadélfia, no estado da Pensilvânia em 1833, Caroline Earle White era filha de Thomas Earle e Mary Hussey. Dedicado à causa abolicionista, seu pai era advogado e representava tanto afro-americanos livres quanto fugitivos. Sua mãe, além de abolicionista, também era sufragista. Educada em Nantucket, em Massachusetts, onde estudou astronomia e diversos idiomas, Caroline se interessou ainda muito jovem por questões sociais e humanitárias.

Aos 33 anos, ela se tornou co-fundadora da Pennsylvania Society for the Prevention of Cruelty to Animals (PSPCA), que iniciou suas atividades em 1866. Porém, quando soube que por ser mulher não poderia ocupar nenhuma posição de destaque na entidade, ela optou por se afastar e criou em 14 de abril de 1869 a Women’s Pennsylvania Society for the Prevention of Cruelty to Animals (Sociedade das Mulheres da Pensilvânia pela Prevenção da Crueldade aos Animais).

Segundo informações da Women’s Humane Society, a entidade criada por Caroline White, e guiada por um conselho administrativo formado somente por mulheres, se tornou uma força na comunidade humanitária. Em 1912, a organização abriu um pequeno abrigo para animais abandonados, dando a eles uma chance de ter um novo lar.

O novo abrigo oferecia o primeiro programa de adoção de animais do país, e foi um grande sucesso porque atendeu uma importante necessidade da comunidade. Até então, os animais que viviam nas ruas sofriam muito, porque havia uma política “higienista” nos Estados Unidos que permitia que eles fossem mortos.

“Há muitas pessoas que, quando lhes pedimos para se juntarem a nós, dizem que preferem trabalhar para os seres humanos. Mas nós não estamos trabalhando para os seres humanos? Nós não estamos nos esforçando constantemente para fazer homens e mulheres mais humanos e dispostos a todos os sentimentos de bondade e a ensinar as crianças a serem gentis e misericordiosas?”, disse Caroline Earle White em declaração histórica que pode ser lida no site da Women’s Humane Society, dos Estados Unidos.

Circa 1911 - Caroline Earle White and the women of the WPSPCA…

Protesto contra a crueldade animal liderado por Caroline em 1911 (Foto: Women’s Humane Society)

Após fundar a American Anti-Vivisection Society (Sociedade Americana Anti-Vivissecção) em 1883, como forma de combater a vivissecção, ou seja, operações feitas em animais vivos com o objetivo de realizar estudo ou experimentação, ela começou a produzir e distribuir folhetos com a intenção de chamar a atenção para a inadmissível violência praticada contra os animais.

Em 1893, na Feira Mundial de Chicago, ela distribuiu milhões de panfletos explicando que os animais usados nesses experimentos eram inclusive roubados. A ideia de que poderia ser errado matar animais mesmo com o propósito de obter alimentos desfrutou de uma proeminência considerável, observou Carol Helstosk na página 184 do livro “The Routledge History of Food”, publicado em 2014.

À época, o vegetarianismo começou a ser promovido em todo o país porque os defensores e simpatizantes da causa animal entenderam que não seria possível lutar pelos direitos animais enquanto se alimentavam de animais. Caroline White adotou o vegetarianismo na década de 1890, assim como sua colaboradora Mary F. Lovell, a escritora e anti-vivisseccionista Cynthia Fairchild-Allen e a fundadora da Boston Animal Rescue League, Anna Harris Smith, o que ajudou a fortalecer ainda mais o discurso contra a exploração animal.

“Agora quase todos concordam que os animais inferiores têm certos direitos, tão inalienáveis como os do homem para a vida, a liberdade e a busca da felicidade”, frisou Caroline Earle em citação escrita em um relatório ao Conselho Administrativo da WPSPCA, reproduzida no boletim informativo “The Guardian”, da Women’s Humane Society, em outubro de 2014.

Apesar da sua referência aos animais como “inferiores”, é importante entender que Caroline não via os animais exatamente dessa forma. Talvez ela não tenha usado palavras mais auspiciosas por causa do contexto da época, já que se tratava de uma realidade do século 19. Como ativista, ela também escrevia sobre direitos animais e fez o possível para minimizar o sofrimento dos animais usados principalmente como meio de transporte, que eram vítimas constantes de maus-tratos, assim como cães e gatos.

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Cavalos estavam entre os animais que despertavam sua preocupação (Foto: Women’s Humane Society)

Caroline Earle White garantiu a instalação de fontes de água para cavalos em locais públicos. Em 1909, inauguraram a Caroline Earle White Dispensary, uma clínica que oferecia serviços veterinários gratuitos para equinos e animais menores. Após alguns anos lidando com sérios problemas de saúde, a ativista dos direitos animais faleceu em 7 de setembro de 1916 em Nantucket, Massachussets. “Ela era uma grande mulher com o coração de uma pequena criança. Suas obras a louvam; as milhões de criaturas de Deus que ela salvou do sofrimento cantam em seu louvor”, escreveu a sua sobrinha e poeta Florence Earle Coates.

Apesar da sua morte, as instituições criadas por Caroline continuam na ativa até hoje. Exemplos são a Women’s Pennsylvania Society for the Prevention of Cruelty to Animals, que adotou o nome de Women’s Humane Society em 1988, e a American Anti-Vivisection Society. Segundo a escritora Diane L. Beers, autora do livro “For the Prevention of Cruely: The History and Legacy of Animal Rights Activism in the United States”, Caroline Earle White foi uma pioneira do chamado “feminismo social”.

Ela lutou para que as mulheres tivessem a oportunidade de desempenhar importantes papéis na sociedade, particularmente como fundadoras e líderes de organizações sem fins lucrativos. “Mas não há dúvida de que sua verdadeira vocação em vida era ajudar os negligenciados, os sem voz: os animais. Ela não era apenas prática e inovadora em suas campanhas, mas uma firme e implacável oponente para aqueles que prejudicavam os animais”, definiu Diane L. Beers.

Referências

Beers, Dianne. For the Prevention of Cruelty: The History and Legacy of Animal Rights Activism in the United States. Ohio. Ohio University Press (2006).

Hawthorne, Mark. A Vegan Ethic: Embracing a Life of Compassion Toward All. Changemakers Books (2016).

Mrs. Caroline Earle White, Reformer. Records of the American Catholic Historical Society of Philadephia. Volume 33. Março de 1922 (Página 52).

https://www.womenshumanesociety.org/sites/default/files/5109%20WHS%206%20page_web-10-20-2014.pdf

https://womenshumanesociety.org/history

http://www.museumofanimals.org/caroline-earle-white/3788770

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Joe Duplantier: “Nós podemos ser saudáveis e felizes sem explorar os animais”

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Duplantier: “O melhor conselho que posso dar para quem quer ajudar o meio ambiente é abandonar a carne e os laticínios”

O guitarrista e vocalista Joe Duplantier e seu irmão, o baterista Mario Duplantier, fundadores da banda de metal francês Gojira, cresceram na pequena cidade de Ondres, no sudoeste francês, um lugar de belas paisagens naturais, com um privilegiado panorama do oceano. Essa relação com a natureza, cultivada desde cedo, fez com que Joe começasse a se preocupar com o meio ambiente.

No entanto, foi só mais tarde que ele percebeu que a melhor forma de contribuir seria começando a mudar os próprios hábitos alimentares. “O melhor conselho que posso dar para quem quer ajudar o meio ambiente é abandonar a carne e os laticínios. Não quero falar muito sobre isso porque as pessoas ficam irritadas, mas ao mesmo tempo eu sei que quero falar sobre isso. Então o primeiro passo é se manter informado”, disse Joe Duplantier em entrevista concedida ao Culture Creature Podcast em 14 de julho de 2016 no Saint Vitus Bar, pouco antes do show do Gojira no mesmo local, no Brooklyn, em Nova York.

Ele recomenda que as pessoas realizem pesquisas na internet, leiam livros, assistam documentários e vejam o que realmente acontece. “De acordo com muitas pessoas, uma alimentação baseada em carne é a causa número um da destruição do meio ambiente”, declarou. Apreensivo em relação ao futuro, Duplantier já escreveu muitas músicas que falam sobre a importância do meio ambiente e a tendência humana de destruir o que deve ser preservado. Um grande exemplo é o álbum “From Mars to Sirius”, lançado em 2005. No geral, algumas composições facilmente lembradas são “Vacuity”, “Flying Whales”, “Global Warming”, “World to Come”, “A Sight to Behold”, “Embrace the World”, “Ocean Planet” e “Toxic Garbage Island”.

Em entrevista ao Metalist Magazine, de Israel, em 5 de julho de 2013, Duplantier declarou que amava carne, mas que o melhor e mais justo caminho era seguir em direção oposta. “Parece um pouco louco quando penso que estamos comendo animais quando poderíamos simplesmente consumir plantas, sementes e feijões, sabe? Podemos ser mais saudáveis e felizes sem explorar os animais. O tratamento que damos a eles é completamente insano”, lamentou.

Para se ter uma ideia do engajamento do Gojira em questões envolvendo o meio ambiente, a banda é parceira da Sea Shepherd Conservation Society, organização sem fins lucrativos que trabalha em prol da preservação da vida marinha, principalmente baleias, golfinhos e tubarões. Em países onde a Sea Shepherd é atuante, os shows do Gojira contam com um estande da organização para distribuição de material para os fãs da banda.

Saiba Mais

Fundada em 1996, e considerada hoje a maior banda de metal da França, Gojira, que sempre fez questão fugir de uma proposta musical mais ortodoxa, surpreende pela criatividade e versatilidade ao enveredar por vários subgêneros do heavy metal, como technical death metal, progressive metal, thrash metal e posthrash metal. Entre as temáticas da banda, outra constante é a espiritualidade.

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Élisée Reclus :“Não é um equívoco relacionar os horrores da guerra com o massacre do gado”

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“A porca chorava sem cessar, e de vez em quando soltava gemidos tão desesperadores que parecia simular a fala humana”

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Reclus: “Ainda me recordo desse lúgubre quintal onde homens assustadores andavam de um lado para o outro com grandes facas” (Foto: Reprodução)

Considerado um dos maiores geógrafos do século 19, o francês Élisée Reclus é o autor da obra-prima “Nova Geografia Universal: a Terra e os Homens”. Composto em 19 volumes, o trabalho exigiu quase 20 anos de dedicação. Embora sua principal contribuição tenha sido na área da geopolítica, Reclus foi um ativista vegetariano que em 1901 publicou “À propos du végétarisme”, um ensaio impactante sobre o vegetarianismo e os direitos animais.

Modesto, Élisée Reclus diz que escreveu o ensaio para transmitir suas impressões pessoais que, de algum modo, coincidem com a de muitos vegetarianos. “Me moverei dentro do círculo de minhas próprias experiências, parando aqui e ali para fazer alguma observação sugerida pelos pequenos incidentes da vida”, informa.

Quando o francês ainda era um garotinho, ele foi enviado para buscar um pedaço de carne no açougue da aldeia. Com toda sua inocência, procurou alegremente fazer o que lhe pediram. “Entrei no pátio onde estavam os matadouros. Ainda me recordo desse lúgubre quintal onde homens assustadores andavam de um lado para o outro com grandes facas. Eles enxugavam o sangue em suas próprias blusas. Pendurada sob um alpendre, uma enorme carcaça me parecia ocupar um espaço extraordinário. De sua carne branca, um líquido avermelhado escorria pelas sarjetas”, conta.

Tremendo, Reclus notou que o pátio estava repleto de sangue. Se viu incapaz de seguir adiante ou de fugir. Mais tarde, soube apenas que desmaiou e um açougueiro o levou até sua casa. O francês narra que ele não pesava mais do que um dos cordeiros que o homem abatia todas as manhãs. As cenas vividas no matadouro jamais foram esquecidas, assim como as lembranças dos porcos criados pelos camponeses que atuavam como açougueiros amadores. Segundo Reclus, eles conseguiam ser mais cruéis que os açougueiros profissionais. “Lembro-me de um deles sangrando o animal lentamente, de modo que o sangue escorria gota a gota, pois para fazer pudins negros, eles dizem que é preciso que o animal tenha sofrido bastante. A porca chorava sem cessar, e de vez em quando soltava gemidos tão desesperadores que parecia simular a fala humana. Era como ouvir uma criança”, relata.

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“Mimado, o porco cresce gordo e retribui com afeição sincera todo o cuidado dispensado a ele”

Élisée Reclus não conseguia evitar de enxergar o ser humano como um animal traiçoeiro na sua relação com os animais. Cita como exemplo os porcos criados como membros de família por um ano ou um pouco mais antes de serem enviados para o abate. “Mimado, ele cresce gordo e retribui com afeição sincera todo o cuidado dispensado a ele. Mal sabe que sua criação tem apenas um objetivo – muitos centímetros de tiras de bacon.[…] Quando o afeto é retribuído pela boa mulher que cuida do porco, acariciando-o, e conversando carinhosamente com ele, ela é considerada ridícula, como se fosse absurdo e até degradante amarmos um animal que nos ama”, reclama.

O francês dizia que não era necessário ir longe para contemplar os horrores dos massacres que constituem a diária alimentação humana. Segundo o geógrafo vegetariano, especialmente quem viveu em cidades provincianas, teve a oportunidade de ver esses atos bárbaros cometidos em nome do consumo de carne. Se a princípio são imagens que chocam na tenra idade, com o tempo tal sentimento desaparece. As pessoas cedem diante da infeliz influência da educação diária, que tende a conduzir o indivíduo a reconhecer como normal algo que não deveria ser.

“Isso tira tudo o que se destina à formação de uma personalidade original. Os pais, professores, oficiais, médicos, amigos, para não falar do poderoso indivíduo que chamamos de ‘todos’, trabalham juntos para endurecer o caráter da criança com respeito a este alimento de quatro patas que, no entanto, ama como nós, sente como nós e, sob nossa influência, progride ou regride como nós”, defende.

Os animais reduzidos à carne estão tão distantes de sua vocação natural que muitos deles talvez nem se reconheçam como parte genuína de uma espécie. Para corroborar essa reflexão, Reclus faz referência ao bovinos que, com muitas dificuldades de locomoção, habitam os pastos do mundo: “Eles foram transformados pelos criadores de gado em massas ambulantes de formas geométricas, como se projetados de antemão para a faca do açougueiro. É para a produção de tais ‘monstruosidades’ que aplicamos o termo ‘reprodução’. É assim que o homem cumpre a sua missão como educador, em relação aos seus irmãos, os animais.”

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“A dieta dos indivíduos corresponde precisamente às suas maneiras. O sangue exige sangue”

Observando e estudando o comportamento animal, o geógrafo francês chegou à conclusão de que para a manutenção do nosso hábito de comer carne, até mesmo a inteligência animal é visceralmente degradada. É inevitável por causa do estilo de vida antinatural imposto a eles. Ademais, Reclus via uma grande contradição estética nos açougues. Em tempos de festas, era comum se deparar com carcaças desarticuladas e pedaços de carne decorados com guirlandas rosas.

“Não é um equívoco relacionar os horrores da guerra com o massacre do gado e os banquetes de carne. A dieta dos indivíduos corresponde precisamente às suas maneiras. O sangue exige sangue”, declara Élisée Reclus, referindo-se à ferocidade humana e a irreflexão na hora de suplantar o inimigo. Traçando um paralelo, ele faz menção ao fato de que na guerra é muito comum os feridos serem mortos e os prisioneiros serem obrigados a cavarem suas próprias sepulturas antes de serem alvejados a tiros.

“Quem são esses espantosos assassinos? São homens como nós, que estudam e leem como nós, que têm irmãos, amigos, esposa ou namorada. Mais cedo ou mais tarde, corremos o risco de encontrá-los, de tomá-los pela mão sem ver nenhum vestígio de sangue nela. Mas não há alguma relação direta de causa e efeito entre os alimentos desses carrascos que se chamam de agentes da civilização?”, questiona.

Valendo-se de suas pesquisas, o geógrafo vegetariano argumenta que aqueles que incentivavam as guerras tinham o hábito de elogiar a carne que sangra, a considerando geradora de saúde, força e inteligência. Essas mesmas pessoas entravam nos matadouros, onde o pavimento era sempre vermelho e escorregadio, sem sentir qualquer repugnância. Lá, respiravam o doentio e doce odor do sangue.

“Existe então tanta diferença entre o cadáver de um novilho e o cadáver de um homem? Os membros amputados, as entranhas que se misturam umas às outras, são muito parecidos. A matança do primeiro facilita o assassinato do segundo, especialmente quando a ordem de um líder soa, de longe, como as palavras de um mestre coroado: ‘Seja impiedoso!’”, enfatiza Reclus.

No ensaio “À propos du végétarisme”, quando discorre sobre a violência nas guerras, o geógrafo compara o racismo com o especismo. Usa como referência as invasões ocidentais no oriente, principalmente na Ásia, onde a vida de um oriental não tinha o mesmo valor que a vida de um homem branco, na perspectiva predominantemente europeia. “Não é nossa moralidade, como aplicada aos animais, igualmente elástica? Ouvir cães rasgando uma raposa ensina ao cavalheiro como fazer seus homens perseguirem um fugitivo chinês. Os dois tipos de caça pertencem a um mesmo ‘esporte’”, lamenta.

Saiba Mais

Élisée Reclus nasceu em 15 de março de 1830 em Sante-Foy-la-Grande, no Departamento de Gironde, e faleceu em Torhout, na Bélgica, em 4 de julho de 1905 em decorrência de uma doença cardiovascular.

Referências

Reclus, Elisée. À propos du végétarisme (1901). Mazeto Square (2016).

Cornuault, Joël. Élisée Reclus, géographe et poète. Eglise-Neuve d’Issac (1995).

Chisholm, Hugh. Reclus, Jean Jacques Elisée. Encyclopædia Britannica. Cambridge University Press (1911).

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Bernard Shaw: “Animais são meus amigos…e eu não como meus amigos”

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Enquanto formos os túmulos vivos dos animais assassinados, como poderemos esperar uma condição ideal de vida nesta terra?

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Shaw: “A vida me foi oferecida na condição de comer bifes. Mas a morte é melhor que o canibalismo” (Foto: Reprodução)

Embora pouco conhecido no Brasil, o irlandês George Bernard Shaw foi um dos maiores nomes da literatura inglesa dos séculos 19 e 20. Com uma bibliografia idealista e humanitarista pautada na sátira heterodoxa e na singular beleza poética, o autor recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1925 e um Oscar em 1938, pela adaptação de Pygmalion para o cinema. Um literato que vivia o que escrevia, Shaw também compartilhava suas inclinações e reflexões sobre o vegetarianismo.

 Pygmalion, Major Barbara, Arms and the Man, The Devil’s Disciple e Man and Superman são algumas das obras mais importantes do irlandês que em uma carta de 30 de dezembro de 1929 se mostrou enraivecido com a possibilidade de ser homenageado com um banquete. “Um jantar! Que horrível! Estão me usando como pretexto para matar todos aqueles pobres animais. Obrigado por nada. Agora se fosse um jejum solene de três dias, em que todos ficassem sem comer animais em minha honra, eu poderia pelo menos fingir que estou desinteressado. Mas não, sacrifícios de sangue não estão na minha lista”, reclamou.

O escritor se tornou vegetariano em 1881, e aparentemente por influência de uma palestra do ativista H.F. Lester e das obras do poeta britânico Percy Shelley que ele conheceu no Museu Britânico, em Londres. O que também teve peso sobre sua decisão foram os artigos do compositor alemão e ativista vegetariano Richard Wagner, de quem o irlandês era fã. “Minha situação é solene. A vida me foi oferecida na condição de comer bifes. Mas a morte é melhor que o canibalismo. Meu testamento contém instruções para o meu funeral, que não vai ser conduzido por um agente funerário, mas por bois, ovelhas e aves de capoeira, todos vestindo um lenço branco em homenagem ao homem que preferiu perecer do que comer seus semelhantes”, escreveu em seu diário.

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“Vivissecção é um mal social porque ela garante o avanço do conhecimento humano às custas do caráter humano” (Foto: Reprodução)

Quando viajava pela Inglaterra, Bernard Shaw sempre ficava satisfeito ao encontrar dúzias de restaurantes vegetarianos, como bem descritos em seus registros pessoais. No entanto, o mesmo não ocorria quando ele viajava para países como Alemanha e Itália. Com uma alimentação diversificada, o irlandês que adorava doces também consumia cerveja de gengibre, limonada, sopas, nozes, pães, mingaus, bolos, cogumelos, lentilhas, arroz, vegetais, frutas e feijões. Apesar da sua predileção pelo que não era muito saudável, Shaw viveu 94 anos. Do total, 66 foram dedicados ao vegetarianismo.

Ao longo da vida, o escritor lutou contra a vivissecção e a prática de “esportes” envolvendo animais. “Vivissecção é um mal social porque ela garante o avanço do conhecimento humano às custas do caráter humano. Atrocidades não deixam de ser atrocidades porque são realizadas em laboratórios e chamadas de pesquisas médicas. Animais são meus amigos…e eu não como meus amigos. Enquanto formos os túmulos vivos dos animais assassinados, como poderemos esperar uma condição ideal de vida nesta terra? Quando um homem mata um tigre, ele chama isso de esporte, mas quando um tigre mata uma pessoa dizem que isso é ferocidade”, registrou em seu diário.

E a consciência vegetariana do escritor irlandês sempre o acompanhou em tudo que ele fez. Um exemplo é um excerto de um diálogo da peça The Simpleton of the Unexpected Isles: A Vision of Judgement, lançada em 1934.

Uma jovem mulher: Você sabe, para mim esse é um tipo engraçado de almoço. Você começa com a sobremesa, nós começamos com as entradas. Eu suponho que esteja tudo certo, mas eu tenho comido tantas frutas, pães e outras coisas que não sinto falta de qualquer tipo de carne.

Padre – Nós não a serviremos com nenhuma carne. Nós não comemos carne.
 
Uma jovem mulher – Então como você mantém a sua força?
 
Padre – O que servimos já garante boa disposição.
Publicados entre 1878 e 1881, os primeiros quatro livros de Shaw – My Dear Dorothea, Immaturity, The Irrational Knot e Love Among the Artists, foram praticamente ignorados por editoras, críticos e leitores. Sua renda era tão insignificante que ele teve de contar com subsídios de sua mãe para continuar escrevendo. Ainda assim, manteve-se fiel ao que acreditava. No auge da carreira como dramaturgo, Shaw conheceu Mahatma Gandhi. Os dois, de origem completamente distintas, porém com o humanitarismo e o amor aos animais em comum, trocaram elogios e tornaram-se amigos, como num complemento entre o Ocidente e o Oriente.

Em 1924, durante entrevista ao biógrafo, professor e amigo Archibald Henderson, Shaw foi questionado sobre o motivo dele parecer tão jovem aos 68 anos. “Eu não! Acredito que pareço com alguém da minha idade. São as outras pessoas que parecem mais velhas do que realmente são. O que você pode esperar de quem come cadáveres e bebe espíritos?”, replicou o homem que se manteve vegetariano até o dia 2 de novembro de 1950, quando faleceu em decorrência de falhas renais após sofrer uma grave lesão ao cair da árvore que podava em seu jardim.

Saiba Mais

George Bernard Shaw nasceu em Dublin, na Irlanda, em 26 de julho de 1856 e faleceu no vilarejo de Ayot St Lawrence, na Inglaterra, em 2 de novembro de 1950.

Ele deixou a barba crescer na época em que se tornou vegetariano.

Referências

Henderson, Archibald. George Bernard Shaw: Man of the Century. N.Y. Appleton-Century-Crofts (1956).

Adams, Elsie Bonita. Bernard Shaw and the Aesthetes. Columbus: Ohio State University Press (1971).

Carr, Pat. Bernard Shaw. New York: Ungar (1976).

Martin, Stanley. George Bernard Shaw. The Order of Merit. London: Taurus (2007).

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