David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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“Virei vegano naturalmente. O trauma marcou a minha existência”

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“Minha mãe me mandou ir ao matadouro comprar cérebro de boi” (Arte: Boi, de Mykola Pymonenko)

Um camarada me relatou uma experiência que ele viveu há 44 anos em Alegre, Espírito Santo:

“Eu tinha 10 anos; minha mãe me mandou ir ao matadouro comprar cérebro de boi. Chegando lá, vi o boi ser amarrado ao poste central. Foi enfiado um punhal em sua jugular, ele começou a sangrar, foi perdendo as forças, ajoelhou e então olhei em seus olhos. Depois de morto, foi içado e os assassinos enfiaram uma mangueira em um buraco feito não sei como; então o cérebro saiu inteirinho. Finalmente, eles enfiaram o cérebro em um saco plástico e me entregaram. Peguei e paguei. Quando cheguei em casa, minha mão fez o cérebro e me obrigou a comer. Virei vegano naturalmente. O trauma marcou a minha existência.”





Written by David Arioch

April 27th, 2017 at 12:59 am

O boi e a família

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Obra “Mr Moo”, de Ruth Aslett

Rubens parou o carro na beira da estrada. Ele, a esposa e os três filhos desceram para admirar um boi que coçava a cabeça em uma porteira a poucos metros de distância. Se aproximaram e perceberam que o animal era bem manso.

Então as três crianças acariciaram sua cabeça e riram como nunca. Não imaginavam que um animal daquele tamanho pudesse ser tão dócil. Sem se incomodar, o boi apenas os observava com seus olhos cristalinos.

Duas horas depois, já estavam em casa almoçando, servindo-se de bifes grelhados, sorrindo e se lembrando da doçura do boi que roçava a cabeça suavemente sobre uma porteira que trazia no cerne uma cruz de madeira. E, mais uma vez, como tantas outras, a beleza da vida foi celebrada com morte.

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Written by David Arioch

February 15th, 2017 at 11:12 pm

A exploração animal na arte barroca de Rembrandt

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Obra de Rembrandt chocou os espectadores em 1655

Em 1655, o holandês Rembrandt Harmenszoon van Rijn, ou simplesmente Rembrandt, um dos maiores pintores europeus de todos os tempos, pintou o quadro “Boi Abatido”. A obra-prima apresenta um grande pedaço de carne pendurado em uma construção de madeira em um quarto sombrio que funciona como matadouro.

O boi foi esfolado e aparece decapitado, sem órgãos e cascos, simplesmente um oco cadavérico. A carcaça é iluminada por uma fonte de luz que não pode ser identificada pelo espectador. Na porta, há uma mulher com um chapéu branco, e ela parece observar tanto o boi morto quanto o espectador.

Para transmitir a aspereza e a contumácia da situação, Rembrandt pintou a obra com traços espessos, garantindo mais realismo à pintura, e talvez fazendo uma referência à brutalidade do açougueiro.

“Boi Abatido” é um exemplo da genialidade do pintor barroco que, com uma porção de traços grossos, conseguiu chocar os espectadores no século 17 ao registrar uma situação tão funesta e ao mesmo tempo recorrente, não somente naquele tempo como na atualidade, já que sua obra até hoje gera repercussão e controvérsias.

A atmosfera sepulcral, que transmite pesar e ao mesmo tempo frieza, assim como a distribuição de cores que fazem referência aos vestígios de sangue ainda fresco do animal, deixa evidente que ali não há nada mais importante do que a carcaça de um ser que horas antes respirava.

Saiba Mais

A obra de Rembrandt está em exposição no Museu do Louvre, instalado no Palácio do Louvre, em Paris.

Written by David Arioch

January 29th, 2017 at 12:26 am

Liev Tolstói e a realidade dos matadouros

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Quando o boi não caiu onde o açougueiro queria, ele gritou: “Maldito diabo!”

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Tolstói: “Mas o açougueiro marchava atrás, pegou a cauda e a torceu; rangeram as vértebras” (Foto: Reprodução)

Em um de seus vários relatos sobre suas experiências em matadouros, o escritor russo Liev Tolstói escreveu que uma vez, quando observava um rebanho, ele notou que o primeiro animal se destacava pela beleza, robustez e cor alva com manchas e extremidades pretas.

“Um jovem animal musculoso e enérgico. Quando tiraram a corda, ele abaixou a cabeça e se deteve com decisão. Mas o açougueiro marchava atrás, pegou a cauda e a torceu; rangeram as vértebras. O boi lançou os que prendiam a corda, jogando-os contra o chão, e se deteve de novo olhando para os lados com seus olhos negros cheios de fogo”, relatou.

Sua cauda foi violentada mais uma vez, e ele avançou. Quando chegou onde queria, o açougueiro se aproximou, apontou e o golpeou. O mau golpe não fez o boi ceder. Ele agitou com força a cabeça, mugiu e, sangrento e furioso, se soltou e inclinou-se.

Segundo Tolstói, quem estava perto da porta fugiu. Acostumados com o perigo, os açougueiros pegaram a corda e mais uma vez puxaram a cauda do animal. Depois de enganar o boi, fizeram com que ficasse exatamente onde queriam. E de lá, ele não poderia escapar. Um dos açougueiros golpeou o belo animal que, cheio de vida, moveu a cabeça e as pernas enquanto o degolavam e o esfolavam.

Quando o boi não caiu onde o açougueiro queria, ele gritou: “Maldito diabo!”, e cortou a pele da cabeça do animal. Cinco minutos depois, a cabeça preta estava vermelha e aqueles olhos, que cinco minutos antes brilhavam com tanta força, estavam vítreos e apagados.

Depois, Tolstói foi ao matadouro de ovelhas, um grande prédio com pavimento asfaltado. Ele viu mesas com apoios, e sobre elas as ovelhas e os bezerros eram degolados. Naquele local com forte odor de sangue, o trabalho tinha terminado e havia somente dois açougueiros.

“Um deles soprava a perna de uma ovelha morta e esfregava com a mão o ventre inchado do animal. O outro, que era moço e levava o avental cheio de sangue, fumava um cigarro. Seguiu-me um homem que parecia um antigo soldado. Levava um cordeiro de um dia, preto, com uma mancha no pescoço e as patas amarradas, e o pôs sobre a mesa”, relatou o escritor russo.

O cordeiro continuava imóvel como a ovelha morta e inchada enquanto eles cumprimentavam-se e conversavam. De acordo com Tolstói, a única diferença era que o animal movia vivamente a pequena cauda e ocasionalmente as laterais, com celeridade.

“O soldado, sem fazer esforço, apoiou a cabeça do pequeno animal na mesa, e o açougueiro, sem parar de falar, segurou com a mão esquerda a cabeça do cordeiro e lhe cortou o pescoço. A vítima agitou-se, a cauda ficou rígida e parou de se mover. Enquanto o sangue descia, o açougueiro acendeu o cigarro”, testemunhou.

Tolstói se surpreendeu com a tranquilidade daqueles homens. Quando o sangue parou de escorrer, o cordeiro se agitou de novo e a conversa prosseguiu sem cessar nem por um segundo.

Referência

Tolstói, Liev. O Primeiro Passo (1892).

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Written by David Arioch

January 14th, 2017 at 3:15 pm

Charretes se destacavam na década de 1950

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Meio de transporte era muito usado pela população de Paranavaí

Charretes circulavam principalmente pelas regiões do Ponto Azul e Zona do Baixo Meretrício (Acervo: Fundação Cultural de Paranavaí)

Nos anos 1950, o meio de transporte mais usado pela população de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, era a charrete. O serviço que tinha um custo baixo ficava disponível o dia todo em três pontos da cidade. Pioneiro lembra que os charreteiros tomavam conta de todas as ruas numa época em que os automóveis eram acessíveis a poucos.

As charretes surgiram em Paranavaí na década de 1940, mas se popularizaram em 1950, quando houve um bom crescimento populacional registrado a partir de 1948. Com o aumento do número de moradores, surgiu a necessidade de um serviço de meio de transporte que facilitasse a vida em comunidade. “Foi aí que alguns migrantes tiveram a ideia de trabalhar como charreteiros. Quase ninguém tinha carro, e como tudo ainda era longe, já que nem todo mundo tinha condições de morar na região central, o jeito era pagar pelo serviço de charrete”, relatou o pioneiro cearense João Mariano, acrescentando que o preço de uma “corrida” era acessível.

Por volta de 1955, havia em Paranavaí mais de 80 charreteiros que se dividiam em três localidades: Ponto Azul, Avenida Paraná e Zona do Baixo Meretrício, quase em frente à Boate da Cigana [onde se situam os prédios Catuay e Guarapari]. Muitos dos pioneiros que atuavam no ramo eram ex-peões que trabalharam na abertura de estradas e derrubada de mata.

Aqueles que não deram certo como comerciantes e produtores rurais também usavam cavalos e bois para outra finalidade. “O serviço de peão era pesado e sofrido, então acontecia do sujeito guardar um dinheirinho, comprar um cavalinho, uma carroça velha, mandar reformar e transformar em charrete”, explicou Mariano. Outros compravam madeiras, procuravam materiais que podiam ser aproveitados e a construíam por conta própria.

Os charreteiros eram contratados principalmente para levar passageiros ao Ponto Azul e ao Aeroporto Edu Chaves [atual Colégio Estadual de Paranavaí (CEP)], além de transportar pessoas até a Zona do Baixo Meretrício. “Uma charrete chegava a fazer até dezenas de viagens num dia. Tinha época que tinha muito serviço, mas de vez em quando diminuía um pouco por causa de alguma crise agrícola”, relatou o pioneiro, acrescentando que o modelo da carroça variava conforme a situação financeira do carroceiro.

Enquanto algumas ofereciam o mínimo de conforto, como um assento estofado, muitas eram mais simples, com bancos de madeira. “Numa corrida curta quase ninguém se importava com isso, mas se o trajeto fosse um pouco mais longo ficava desconfortável. Tinha peão que chegava a descer da carroça com o corpo duro”, brincou João Mariano que nunca se esqueceu das muitas oportunidades em que viu as ruas da cidade tomadas por dezenas de charretes.

Segundo o pioneiro, estranho era o som de um motor em meio a tantos animais trotando, galopando e relinchando. “Quando fazia muito calor, e no fim da tarde os charreteiros voltavam pro ponto, às vezes traziam um vento que levantava a poeira das ruas de chão batido. O céu avermelhava enquanto o solo arenoso as donas de casa castigava, sujando toda a roupa do varal, mas fazer o que se era mais um dia de trabalho normal?”, poetizou João Mariano.