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Richard D. Ryder: “Todos os seres que sentem dor merecem direitos humanos”
“A igualdade das espécies é a conclusão lógica da moral pós-Darwin”
Em 6 de agosto de 2005, o jornal britânico The Guardian publicou um artigo de grande repercussão escrito pelo influente psicólogo, defensor dos direitos animais e escritor britânico Richard D. Ryder, que em 1970 criou em Oxford o termo “especismo”. Intitulado “All beings that feel pain deserve human rights”, ou seja, “Todos os seres que sentem dor merecem direitos humanos”, o texto é uma defesa moral dos direitos dos animais não humanos à vida, além de uma crítica contundente ao desinteresse humano em não considerar os interesses de outros animais. Interesses esses que incluem o natural desejo de não passar por privação, não sentir dor e não ser assassinado; imposições diárias que partem de uma prerrogativa arbitrária humana. Logo abaixo, segue a tradução do artigo na íntegra:
A palavra “especismo” me veio à mente enquanto eu estava deitado em uma banheira em Oxford há 35 anos. Era como o racismo ou sexismo – um preconceito baseado em diferenças físicas moralmente irrelevantes. Desde Darwin, sabemos que somos animais humanos que se relacionam com outros animais através da evolução; como, então, podemos justificar a nossa opressão quase total de todas as outras espécies? Todas as espécies animais podem sofrer dor e angústia. Animais gritam e se contorcem como nós; seus sistemas nervosos são semelhantes e contêm os mesmos componentes bioquímicos que sabemos que estão associados à experiência da dor.
Nossa preocupação com a dor e o sofrimento dos outros deve ser estendida a qualquer “painiente” [indivíduo que sente dor] – sensação de dor – independente de sexo, classe, raça, religião, nacionalidade ou espécie. De fato, se os alienígenas são painientes ou se nós fabricamos máquinas que são painientes, então devemos ampliar o círculo moral e incluí-los. A dor é a única base convincente para atribuir direitos ou, de fato, interesses a outros.
Muitas outras qualidades, como “valor inerente”, foram sugeridas. Mas o valor não pode existir na ausência de consciência ou consciência potencial. Assim, rochas, rios e casas não têm interesses e não possuem direitos próprios. Isso não significa que, claro, eles não têm valor para nós, e para muitos outros painientes, incluindo aqueles que precisam deles como habitats e que sofreriam sem eles.
Muitos princípios morais e ideais foram propostos ao longo dos séculos – justiça, liberdade, igualdade e fraternidade, por exemplo. Mas estes são meros passos para o bem final, que é a felicidade; e a felicidade é facilitada pela liberdade de todas as formas de dor e sofrimento (usando as palavras “dor” e “sofrimento” – intercambiáveis). De fato, se você pensa sobre isso cuidadosamente, você pode ver que a razão pela qual esses outros ideais são considerados importantes é porque as pessoas acreditam que são essenciais para o banimento do sofrimento. Na verdade, às vezes eles têm esse resultado, mas não sempre.
Por que enfatizar a dor e outras formas de sofrimento em vez de prazer e felicidade? Uma resposta é que a dor é muito mais poderosa do que o prazer. Você não prefere evitar uma hora de tortura do que ganhar uma hora de felicidade? A dor é o único e verdadeiro mal. O que dizer então do masoquista? A resposta é que a dor lhe dá um prazer maior que a sua dor!
Um dos importantes princípios do painismo (o nome que dou à minha abordagem moral) é que devemos nos concentrar no indivíduo porque é o indivíduo – não a raça, a nação ou a espécie – que gera o real sofrimento. Por esta razão, as dores e os prazeres de vários indivíduos não podem ser agregados de forma significativa, como ocorre no utilitarismo e na maioria das teorias morais. Um dos problemas com a visão utilitária é que, por exemplo, os sofrimentos de uma vítima de estupro em grupo podem ser justificados se o estupro gerar uma quantidade maior de prazer aos estupradores. Mas a consciência, seguramente, é delimitada pelos limites do indivíduo. Minha dor e a dor dos outros estão, portanto, em categorias separadas; você não pode adicioná-las ou subtraí-las umas das outras. São mundos separados.
Sem experimentar diretamente dores e prazeres, eles não estão realmente lá – estamos contando apenas com suas cascas. Assim, por exemplo, infligir 100 unidades de dor em um indivíduo é, eu diria, muito pior do que infligir uma única unidade de dor em mil ou um milhão de indivíduos, mesmo que o total de dor no último caso seja muito maior. Em qualquer situação, devemos nos preocupar principalmente com a dor do indivíduo que é o sofredor máximo. Não importa, moralmente falando, o que é ou quem é o sofredor máximo – humano, não humano ou máquina. Dor é dor, independentemente do seu hospedeiro.
É claro, cada espécie é diferente em suas necessidades e em suas reações. O que é doloroso para alguns não é necessariamente para outros. Portanto, podemos tratar diferentes espécies de forma diferente, mas devemos sempre tratar o mesmo sofrimento de forma igual. No caso de não humanos, os vemos explorados implacavelmente pela agroindústria, em laboratórios e na natureza. Uma baleia pode levar 20 minutos para morrer depois de ser violentada com um arpão. Um lince pode sofrer por uma semana com a perna quebrada em decorrência de uma armadilha de dente de aço. Uma galinha mantida em gaiola de bateria pode passar a vida toda sem ter a oportunidade de esticar as asas. Um animal em um teste de toxicidade, envenenado por um produto doméstico, pode permanecer em agonia por horas ou dias antes de morrer.
A simples verdade é que exploramos os outros animais e lhes causamos sofrimento porque somos mais poderosos do que eles. Isso significa que se os alienígenas mencionados anteriormente aterrissassem na Terra e se tornassem muito mais poderosos do que nós – os deixaríamos nos perseguir e matar por esporte, diversão, experiências ou nos criarem em fazendas industriais até nos transformarem em saborosos hambúrgueres? Aceitaremos sua explicação de que seria perfeitamente moral que eles fizessem todas essas coisas, pois não somos da mesma espécie?
Basicamente, isso resume à fria lógica. Se nos preocupamos com o sofrimento de outros seres humanos, logicamente também devemos nos preocupar com o sofrimento dos não humanos. É o explorador insensível dos animais, não o protetor de animais, que está sendo irracional, mostrando uma tendência sentimental de colocar a sua própria espécie em um pedestal. Todos nós, graças a Deus, sentimos uma centelha natural de simpatia pelo sofrimento dos outros. Precisamos pegar essa centelha e ventilá-la em um fogo de compaixão racional e universal.
Tudo isso tem implicações, claro. Se gradualmente trouxermos os não humanos para o mesmo círculo moral e legal que nós mesmos, não seremos capazes de explorá-los como nossos escravizados. Muitos progressos foram feitos com uma nova e sensata legislação europeia nas últimas décadas, mas há um longo caminho a percorrer. Estamos atrasados no reconhecimento internacional do status moral dos animais. Existem vários tratados de conservação, mas nada a nível da ONU, por exemplo, que reconheça os direitos, os interesses ou o bem-estar dos próprios animais. Isso deve, e eu acredito que vai, mudar.
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Ao longo de mais de 40 anos, Richard D. Ryder influenciou importantes nomes na luta pelos direitos animais e publicou importantes livros como “Victims of Science”, de 1975; “Animal Revolution: Changing Attitudes Towards Speciesism”, de 2000; “A Modern Morality”, de 2001; “Putting Back Into Politics”, de 2006; e “Speciesism, Painism and Hapiness”, de 2011.
Conversando com crianças e pré-adolescentes sobre veganismo
A convite da professora Rosana Martineli, fui hoje à Escola Estadual Curitiba conversar com crianças e pré-adolescentes sobre história, contos e veganismo. Mais uma vez, uma experiência muito legal. Em um determinado momento, depois de eu falar um pouquinho sobre o que é ser vegano, e por iniciativa dos próprios alunos que tinham muita curiosidade em relação ao tema, um deles me perguntou:
— Mas você não precisa de carne?
— Será? Olhando pra mim, você acha que eu preciso de carne?
Muitos alunos riram.
— Não…humm…vou parar de comer carne também.
Em outro momento, outro aluno me perguntou o que eu faria se estivesse em uma ilha e precisasse comer um animal para sobreviver.
— Bom, acredito que isso não é algo que aconteceria facilmente, mas hipoteticamente se estou em uma ilha, e se nessa ilha há arvores, eu provavelmente recorreria em primeiro lugar aos frutos dessas árvores. Além disso, não há garantia nenhuma de que esse suposto animal seja o meu alimento, e não eu o alimento dele caso ele seja carnívoro. Por quê? Não tenho dúvida nenhuma de que as habilidades naturais de caça de um animal selvagem são muito superiores à humana. Afinal, o ser humano só é bom caçador quando está bem munido para a caça, ou seja, com armas em punho, e preparando-se para atingir um animal de forma traiçoeira, às escondidas, não é mesmo? Eu particularmente desconheço um ser humano que enfrente um animal selvagem com os próprios braços e de frente. Acho que há várias possibilidades que não podem ser descartadas. Mas é importante entender também que veganismo não é baseado em improbabilidades, no que é vagamente possível. É sobre eu fazer o possível para não tomar parte na exploração, na violência contra animais. Quero viver, certo? Eles também querem. Sigo esse caminho de reconhecer que eles também têm esse direito, e por isso não me alimento deles, assim como tenho a preocupação de não usar nada de origem animal.
Breve reflexão sobre o consumo de alimentos de origem animal
Quando as pessoas se alimentam de animais, normalmente elas não consideram que estão se alimentando de algo que foi alguém

Este alguém teve olhos para testemunhar o mundo sob uma ótica não muito auspiciosa (Acervo: la Veganista)
Quando as pessoas se alimentam de animais, normalmente elas não consideram que estão se alimentando de algo que foi alguém; e este alguém teve olhos para testemunhar o mundo sob uma ótica não muito auspiciosa; um mundo que pode ser visceralmente injusto e violento com os mais vulneráveis.
Nós endossamos isso das mais diferentes formas, mas principalmente negando-lhes o direito à vida. Para negar esse direito, não reconhecemos, ou fingimos não reconhecer, a capacidade não humana em sofrer e amargar as implicações de uma privação que termina somente com a morte.
No momento em que alguém leva um pedaço de carne à boca, dificilmente esse alguém vai despender tempo pensando que o bife é parte da coxa ou da traseira de um boi, por exemplo. As pessoas simplesmente comem, seguindo um hábito naturalizado. Não há contestação ou associação com a morte nem com a vida – apenas comida – a dissimulada mecânica da vida.
Definitivamente, não vejo como negar que somos estranhos se refletirmos que nos alimentamos de partes de membros de outras criaturas que, assim como nós, também fazem o que podem para evitar a morte. Afinal, o desejo de viver não é uma prerrogativa restritamente humana.
O preço da nossa carne
Imagine se acordássemos um dia e descobríssemos que a nossa carne literalmente tem um preço. As partes com menos teor de gordura sendo as mais valorizadas, ou não. Na rua, anúncios trazendo seres como nós, fragmentados em outdoors, anúncios na TV e folhetos de supermercado. Olho um encarte com atenção. Ao lado de frutas em promoção, vejo partes de um corpo como o meu à venda. Me falta uma perna. Está lá: Pernil, ornamentado com belas ervas.
Na rua, eu e outro sujeito nos entreolhamos estranhamente. Ele não tem braços. “Fui pego de surpresa. Espetinho”, lamenta. Somos bens de consumo, com um preço modesto, baixo, torpe, pode variar. É a crise. Sinto cheiro rançoso. Reconheço. É bacon na chapa. “É de quando, meu amigo?”, pergunta o freguês. “É fresquinho. De um rapaz que abateram ontem, tinha 18 anos”, responde o dono do carrinho de cachorro-quente. “Tá certo. Manda ver!”
Sequestro de pessoas? Não. Comércio legal de carne humana. O mundo mudou. Hoje você come, amanhã você pode ser comido, dizem. Sabor? Carne de porco, com algumas variações. O direito à vida desapareceu, para não humanos e humanos. Atropelamentos, assassinatos. Cadáveres largados nas esquinas deixados para apodrecer. Ninguém se importa. Não há mais velórios. Os cemitérios desapareceram.
“Morreu? Quantos minutos? Se a carne estiver em bom estado, mande um caminhão para aproveitar o que sobrou.” Carne moída de primeira, segunda, terceira e quarta. Comida. A sua liberdade termina onde a fome do outro começa. “Tem dinheiro?” “Sim!”, “É só apontar o dedo que a gente recolhe”. Um arrastão leva 40 de uma vez. No matadouro, todo mundo tenta fugir. Impossível. Laço de bezerro. Espasmos, olhos vacilantes, pistola pneumática. Abate humanitário.
Jane Goodall: “Sou vegetariana porque, você sabe, respeito os animais. Sei que todos eles são indivíduos”
“Parei de comer carne há 50 anos, quando olhei a costeleta de porco em meu prato e pensei: isso representa medo, dor e morte”

“A maioria das pessoas não percebe a indescritível crueldade sofrida pelos animais […]. E aqueles que sabem, não se importam” (Foto: Reprodução)
“Parei de comer carne há 50 anos, quando olhei a costeleta de porco em meu prato e pensei: isso representa medo, dor e morte. Feito, me tornei vegetariana instantaneamente”, contou Jane Goodall em artigo publicado em seu site no dia 28 de abril. Para a primatóloga, um grande e nobre motivo para não consumirmos carne é a contrariedade à exploração animal, a rejeição ao sofrimento imposto arbitrariamente aos seres não humanos.
Ela citou como outra importante razão o impacto causado pela produção de carne ao meio ambiente – incluindo a contribuição às mudanças climáticas. “A maioria das pessoas não percebe a indescritível crueldade sofrida pelos animais […]. E aqueles que sabem, não se importam. As pessoas me dizem que os animais são criados para tornarem-se comida – como se isso significasse que eles não são mais seres sensíveis. Outros me pedem para não falar sobre isso, porque eles ‘amam os animais e são muito sensíveis’ – [pedem isso] para que possam comer porcos, bois e vacas sem sentirem culpa”, lamentou.
Em 14 de janeiro de 2016, Jane Goodall concedeu uma entrevista ao Democracy Now, e disse que assim como não comeria seu cachorro, não seria capaz de comer a carne de outros animais. “Sou vegetariana porque, você sabe, respeito os animais. Sei que todos eles são indivíduos”, declarou e acrescentou que porcos são animais mais inteligentes do que muitos cães.
Jane destacou que vê com estranheza quando alguém diz que não acredita que o mundo está passando por mudanças climáticas em decorrência da displicência humana em relação aos animais e ao meio ambiente. “Esse vasto impacto está sendo causado pela agropecuária. E a fim de alimentar bilhões e bilhões de bois, vacas, porcos, frangos, galinhas. Mesmo que você não se importe com a crueldade, mesmo que se recuse a admitir que esses indivíduos têm sentimentos, que sentem dor e têm emoções, você tem que admitir que grandes florestas são destruídas para cultivar grãos para alimentá-los. A pecuária está transformando florestas em pasto”, reclamou em entrevista ao Democracy Now. No artigo publicado no dia 28 de abril, Jane Goodall citou as secas causadas pelas mudanças climáticas na África Subsaariana. Relatou que a região está se tornando um deserto com grandes áreas suscetíveis à erosão:
“Quantidades enormes de água estão sendo desperdiçadas para transformar a proteína vegetal em proteína animal. […] Os aquíferos subterrâneos também estão diminuindo e se tornando poluídos, e frequentemente por causa do escoamento de produtos químicos agrícolas ou por causa das ‘lagoas’ de resíduos produzidos pelos próprios animais [criados para consumo]. Precisamos considerar a grande quantidade de metano gerada pelo sistema digestivo dos animais, especialmente os bovinos – um gás com efeito estufa muito mais potente do que o CO2. As grandes quantidades de combustíveis fósseis utilizados para manter toda a produção industrial de carne estão aumentando absurdamente os gases do efeito estufa.”
Além desses apontamentos e críticas, há muito tempo Jane Goodall qualifica a dieta vegetariana como mais benéfica para a saúde. Costuma citar a si mesma como exemplo, argumentando que assim que parou de se alimentar de animais, imediatamente sentiu-se melhor e mais leve. “Muitas pessoas me disseram o mesmo”, afirmou em seu artigo. Ao abordar os malefícios do consumo de carne, Jane apresentou como referência os estudos da Harvard Medical School e do Science Daily – que relacionou o alto consumo de carne na atualidade com o aumento da obesidade:
“Alguns dos hormônios e outros suplementos alimentares dados aos animais para aumentar a taxa de crescimento podem ter impacto sobre nós. Os antibióticos agora são fornecidos regularmente para manterem vivos os animais [criados para consumo] em condições de lotação e depressão. Inevitavelmente, as bactérias estão se tornando mais resistentes, e pessoas têm morrido em decorrência de simples infecções que não responderam aos antibióticos usados para curá-las.”
Jane Goodall defende que há muitas razões para uma pessoa se tornar vegetariana ou vegana, e sempre que possível pede encarecidamente para que reflitam a respeito: “Continuo pedindo que as pessoas considerem o que essa escolha realmente significa em um nível moral para os animais e o meio ambiente. É a escolha de mudar nossas vidas, o que por sua vez trará enormes benefícios para toda a humanidade e todas as outras criaturas com quem compartilhamos a nossa casa.”
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Jane Goodall nasceu em Londres, na Inglaterra, em 3 de abril de 1934. Ao longo de sua carreira, recebeu dezenas de prêmios, títulos e homenagens. O primeiro prêmio foi o World Wildlife Award for Conservation em 1980, e o mais recente foi o International Cosmos Prize em 2017.
Envio de 27 mil bezerros para a Turquia pode abrir um precedente para uma situação ainda mais crítica

Para quem lucra com esse tipo de negociação, desde que tenha sido muito bem pago, pouco importa o destino desses animais (Foto: Divulgação)
O envio de 27 mil bezerros para a Turquia pode abrir um precedente para uma situação ainda mais crítica. Se essa megaoperação for considerada “bem-sucedida” o Brasil pode se tornar um grande fornecedor de bezerros para a indústria estrangeira de carne. O que isso significa? Que no futuro a vida dos bovinos, que já é terrível partindo da objetificação, pode ser ainda mais curta.
Vivemos em um país onde os produtores de carne sempre alegam desvantagem quanto ao abate de bezerros. Porém, com um mercado estrangeiro ávido por esse tipo de carne, e que “paga bem”, tanto que a Turquia reduziu de 60% para 10% a tarifa sobre importação de gado, provamos que nossos subjetivos escrúpulos, que já ignoram o direito dos animais à vida, são sempre negociáveis. Sendo assim, podem tornar-se um pouco mais deletérios.
Por outro lado, essa situação também traz luz à desonestidade da indústria da carne. Qual seria? Essa ação reforça o fato de que o “abate humanitário” sempre foi um engodo, já que não apenas enviamos animais para a morte, mas também de acordo com o “gosto do cliente”. Se isso significa degolar crianças de outras espécies, que assim seja, não é mesmo?
Para quem lucra com esse tipo de negociação, desde que tenha sido muito bem pago, pouco importa o destino desses animais. Já os bezerros, enviados para uma jornada que termina com suas cabeças separadas dos corpos, em breve serão consumidos e esquecidos como se jamais tivessem existido. Se nada for feito, muito mais bezerros terão o mesmo destino.
O que a grande mídia fez para favorecer o transporte dos 27 mil bezerros para a Turquia:
— A maioria não citou que são bezerros, o que acredito que, por estranhamento e associação, poderia ter despertado alguma reflexão sobre a exploração e o consumo de animais.
— Falou do que isso pode representar economicamente.
— Citou como a exportação de animais vivos pode beneficiar o Porto de Santos
— Ouviu somente os envolvidos na megaoperação.
— Publicou apenas fotos do navio ainda vazio e de poucos animais no Porto de Santos.
— Deu ênfase no trabalho da Minerva Foods, destacando a grandiosidade da exportadora responsável pelo envio dos animais.
— Descreveu positivamente a estrutura do navio, endossando o embarque dos animais. Porém, não citou a área destinada a cada animal.
— Citou cifras, cifras e mais cifras para fazer todo o resto parecer insignificante.
Brian May: “Porcos, bois e cordeiros são criados puramente como mercadorias, prontos para o brutal matadouro”

“Diariamente, me torno impopular com várias pessoas, que ainda acreditam que os animais foram colocados na Terra para serem usados e abusados pelos seres humanos” (Foto: Brian May Official Website)
No dia 5 de dezembro de 2010, o jornal britânico Sunday Express publicou um artigo intitulado Why I have to speak for the Animals (Por que eu tenho que falar pelos animais), assinado por Brian May, guitarrista e compositor da lendária banda de rock Queen, além de astrofísico. No texto, May, que há muito tempo se tornou um ativista pelos direitos animais, fez duras e contundentes críticas à exploração animal, versando sobre a redução de animais a alimentos, caça e experiências laboratoriais. Logo abaixo, segue o artigo traduzido na íntegra:
Alguém me perguntou recentemente como eu gostaria de ser lembrado. We Will Rock You? Tocando no Palácio de Buckingham? Eu disse, dada a escolha, que prefiro ser lembrado por acelerar o fim da crueldade contra os animais e por ter semeado as sementes de verdadeiro respeito em relação a maneira como tratamos todas as criaturas. Parece uma mudança radical de carreira para mim, não é? Meu amor pela música é inabalável, juntamente com meu amor pela astrofísica, estereoscopia e Photoshop, mas o meu amor pelos animais me levou a deixar a minha guitarra em segundo plano para tentar dar voz aos animais. Então, diariamente, me torno impopular com várias pessoas, que ainda acreditam que os animais foram colocados na Terra para serem usados e abusados pelos seres humanos. Humano é o nome que damos a nós mesmos, e há um adjetivo derivado disso, implicando compaixão, sensibilidade e justiça: a palavra “humano”.
Ao longo da história, o homem tentou justificar o seu comportamento em relação a outros humanos e outros animais. Na Era do Iluminismo, ele justificou que mulheres eram queimadas por estarem possuídas pelo diabo. Ao escrever a Constituição dos Estados Unidos, ele justificou que os escravos deveriam ser mantidos porque “eles não eram iguais a nós”, e que a sociedade entraria em colapso sem a escravidão. Os homens justificaram tantos comportamentos terríveis: tortura de prisioneiros políticos, degradação das mulheres, abuso de crianças, vitimização das minorias e a quase erradicação dos povos nativos.
Esses abusos horríveis são vistos hoje de forma vergonhosa. Como poderíamos pensar que por um ser humano ter uma aparência diferente, ele não tem sentimentos, direito à liberdade, comida, respeito e igualdade de oportunidades? Outra revolução está acontecendo agora. Começamos a perceber que outras criaturas neste planeta têm tanto direito de viver, respirar e aproveitar o seu tempo quanto nós. Mas estamos no primitivo início dessa realização. Enquanto escrevo, milhões de animais estão sofrendo nas mãos dos seres humanos. A indústria animal (leia “Comer Animais”, de Jonathan Safran Foer) envolve o abuso de milhões de criaturas todos os dias, com sentimentos semelhantes aos nossos.
Ian Redmond, zoologista renomado mundialmente, diz que há uma geração atrás, qualquer biólogo que atribuísse “sentimentos e comportamento maternos” a uma macaca abraçando a sua prole seria acusado de antropomorfismo e jamais seria levado a sério novamente como cientista. Esse não é mais o caso. O mapeamento recente dos genomas revelou a surpreendente semelhança entre a composição humana com a dos primatas, e apenas um pouco menos semelhante a de mamíferos como ratos e camundongos. Agora não é mais aceitável a ideia de que os animais agem simplesmente por instinto enquanto os “seres humanos pensam e se comportam racionalmente”.
Em 2004, depois de 100 anos desde que pessoas iniciaram um trabalho de cuidados aos animais, o Hunting Act foi aprovado neste país [Inglaterra], proibindo o “esporte” covarde e desprezível da caça à raposa, juntamente com a caça às lebres e a caça aos cervos com matilhas. Recentemente, vimos a indignação do público em relação ao assassinato sem sentido de um magnífico veado, e banalmente por causa dos seus chifres. Mas esta é apenas a ponta do iceberg; milhões de criaturas altamente inteligentes, mais inteligentes do que cães e gatos que esta nação tanto ama, estão sendo abusadas na Grã-Bretanha neste momento.
Porcos, bois e cordeiros são criados puramente como mercadorias, prontos para o brutal matadouro. Frangos e galinhas são criados em gaiolas sem a indulgência de uma vida ou morte decente [natural]. Todos os animais de criação são agora espécies criadas pelo ser humano para atender a demanda por mais produtividade e mais e mais dinheiro sem qualquer preocupação com o seu bem-estar. Aqueles perus, que serão abatidos neste Natal, nunca irão andar [em referência ao fato de que muitos engordam tanto em pouco tempo que são incapazes de se locomover, além de sofrerem com as articulações fragilizadas].
Outras aves são criadas em gaiolas, e depois libertadas para viverem uma vida lamentavelmente curta que termina com tiros de espingarda, só por diversão. Milhões de primatas, que são nossos parentes mais próximos, são usados em experiências, mantidos em gaiolas em laboratórios, campos de concentração que chamamos de “humano” [Brian May faz uma crítica a banalização do termo ‘humane’, normalmente usado na tentativa de banalização do sofrimento animal. O termo humano traz embutida a ideia de que um animal é bem tratado antes de morrer, o que é uma contradição em essência, já que nenhuma criatura explorada morre feliz]. E temos um governo que quer trazer de volta a caça às raposas (alegando que isso é humano, pedindo “provas” de que as raposas sofrem).
Referência
May, Brian. Why I have to speak for the animals. Sunday Express. Publicado em 5 de dezembro de 2010.
Um aperitivo polêmico
Na minha infância, quando estava com a minha família em Porto Rico, um dia serviram algo de graça para as pessoas provarem em um restaurante.
De longe, notei que era um tipo de carne e fiquei assistindo a movimentação perto de um bambuzal. Ao final, depois que as pessoas terminaram de comer, mostrando-se satisfeitas, o homem que ofereceu o “aperitivo” disse que tinham acabado de comer carne de gato. As pessoas ficaram revoltadas e começaram a cuspir e a amaldiçoar o homem.
Então ele olhou para elas e disse:
“Eu poderia ter dito que era carne de lebre. Aposto que ninguém acharia ruim. Mas como é de gato, vocês reclamam, né? Come carne todo dia, tá reclamando de que? Não adianta fazer careta”, criticou o homem gesticulando em frente a uma pequena churrasqueira.
Dezembro é o mês mais violento para os animais

No Natal, as pessoas desejam o melhor umas às outras, menos aos animais, que devem continuar cumprindo o seu papel enquanto comida
Dezembro é o mês mais violento para os animais. O mês em que é celebrado o Natal, o espírito natalino, um tempo de paz, é marcado por muita violência. Mas como assim? É em dezembro que a demanda por carne é muito superior a de qualquer outro mês. Há muitas encomendas, de animais inteiros, com olhos, com boca, decapitados, eviscerados, fatiados, etc. Vai do gosto e da (in)sensibilidade do freguês.
Pelo menos no Ocidente, é costume as pessoas encherem os carrinhos de carne nessa época do ano. Compram quilos e mais quilos de aves, bovinos, suínos, ovinos, caprinos e “peixes nobres”, preparados das mais diferentes maneiras. Em muitas casas, é possível juntar pedaços de animais e fazer um presépio. “É preciso oferecer uma mesa farta”, dizem apontando para uma grande variedade de carnes, que nada mais são do que partes fatiadas ou inteiras, e normalmente assadas, de espécies mortas (você pode preferir abatidas) para a celebração do nascimento de Jesus.
Segundo a tradição cristã, quando Jesus nasceu, os animais estavam bem próximos à manjedoura, e o calor de seus corpos o aqueceu. Atualmente, no Natal, são as pessoas que aquecem os corpos desses animais, mas nas brasas da churrasqueira, no forno, na grelha. Com a chegada do Natal, mais do que nunca, bebês, pais e mães de outras espécies são servidos sobre uma mesa.
Antes há muitos abraços. As pessoas desejam o melhor umas às outras, menos aos animais, que devem continuar cumprindo o seu papel enquanto comida, e sendo rejeitados como seres sencientes e conscientes. Às vezes, com sorte, pode ser que dividam o mesmo espaço sobre a mesa. Claro, não na mesma forma ou travessa, mas talvez nas imediações, pedaços sem vida combinando a poucos centímetros. Seria uma baita coincidência, não? Talvez um gesto inconsciente de bonomia? Difícil dizer.
No Natal, o espírito de solidariedade e fraternidade emerge como nunca. Sorrisos, lembranças e olhares que miram grandes pedaços de carne, mas que se recusam a racionalizar que cada fragmento já foi parte de uma vida; da vida de uma criatura que até o seu último momento não desejou morrer precocemente, assim como qualquer outro animal, humano ou não.


