David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Produção de bacon é uma das principais causas da matança anual de mais de um bilhão de suínos

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O bacon é a gordura subcutânea extraída originalmente das nádegas do porco após o abate. Com o tempo, passou a ser extraído também das laterais. Depois tornou-se mais usual a extração de bacon da barriga desse animal que preserva inúmeras características de seus ancestrais, principalmente a inteligência e a consciência daqueles que viviam livremente em florestas.

Como a demanda mundial de bacon é muito alta, principalmente nos Estados Unidos, onde 70% do seu consumo ocorre no café da manhã, pode-se dizer que a produção de bacon é uma das principais causas da matança anual de mais de 1,1 bilhão de suínos. No mundo todo, cerca de 23 milhões de porcos são mortos por semana, segundo a organização Animal Ethics, do Reino Unido. China, União Europeia e Estados Unidos respondem por mais da metade da morte de suínos. Em seguida, vem o Brasil.

Dos mamíferos reduzidos a alimentos e produtos, os porcos estão no topo. Mata-se no mundo todo pelo menos três vezes mais suínos do que bois e vacas, de acordo com a AE. Sem dúvida, o consumo de bacon contribui substancialmente para a morte desses seres sociáveis que nascem com aptidão para interagir e viver em grupo, e podem ser mais inteligentes do que os cães.





“Não há nada de origem animal disponível ao consumidor que não tenha envolvido algum tipo de exploração”

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Acervo: Sage Mountain

— Por que você se refere à indústria que produz gêneros alimentícios e outros produtos de origem animal como indústria da exploração animal?

— Bom, acho importante ressaltar sempre que se trata, de fato, de exploração animal, já que estamos falando de criaturas que são condicionadas a viver de acordo com os interesses da indústria, logo a exploração é evidente, é a base. Basta considerarmos que a exploração de animais para fabricação de gêneros de consumo não contempla as necessidades dos animais para além do que é necessário para a fabricação de produtos. Usarei um exemplo clássico. Quando bois e vacas são criados para “fornecer’ carne ou leite, se surge alguma doença, seja febre aftosa, brucelose, carbúnculo, mastite, entre outras, a preocupação maior do criador e da indústria não é prioritariamente o bem-estar desse ser vivo de um ponto vista munificente. Ninguém pensa: “Ah, coitado dele, não quero que ele sofra. Ele não merece passar por isso, tem tanto pra viver”, até porque o seu destino, mais cedo ou mais tarde, é o matadouro. A preocupação é com a baixa na produtividade e a possibilidade de prejuízo no caso da não convalescença animal. Logo os interesses dos animais são claramente secundários, o que revela a óbvia faceta exploratória.

Não se cria massivamente animais com outra finalidade no mundo em que vivemos. Não temos essa cultura, tanto que a cada dia são realizadas novas experiências com animais geneticamente modificados que geram mais lucro em um curto período de tempo. E o que isso significa? Que o ser humano brinca com vidas como se elas não significassem mais do que cifrões. Temos uma quantidade infindável de animais sobre a terra que nunca existiram na natureza. Então, te pergunto, como não se referir a isso como indústria da exploração animal? Por que usar eufemismos, mitigações, suavizações, quando a realidade é tão clara? Animais reduzidos a produtos passam por privação, sofrimento e serão executados quando tornarem-se mais valiosos mortos do que vivos, porque esse é o retrato da mercantilização da vida, sem escusas, tergiversações. Fora que “indústria da exploração animal” é um termo consciencioso que induz à reflexão.

Afinal, não há nada de origem animal disponível ao consumidor que não tenha envolvido algum tipo de exploração, até porque os animais não existem, ou não deveriam existir, para atender as nossas pretensas necessidades. Também te convido a fazer um exercício. Converse com pessoas que lucram com a exploração animal e pergunte se alguma delas seria capaz de criar esses animais se eles não pudessem gerar um bom retorno financeiro. Assim você terá outra resposta que explica por que eu me refiro à indústria de produtos de origem animal como indústria da exploração animal. Quem explora animais pode alegar que “ama seus animais”, mas objetivamente sabemos que não matamos nem impomos conscientemente privação e sofrimento a quem amamos, logo isso é insinceridade. O que quem explora animais ama é o retorno financeiro que esses animais são capazes de proporcionar a partir de seu sofrimento e morte. Partindo de um construto moral e ético sob a perspectiva dos direitos animais, toda relação de exploração, por mais “bem tratado” que um animal seja, culmina em aleivosia, ou seja, traição, já que o animal, mais cedo ou mais tarde encaminhado a um matadouro, só reconhece a iminência do fim quando quem o criou o obriga a caminhar pela pista da morte.





“Não rola ser vegano. Você deve ter tempo de sobra pra cozinhar essas coisas”

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Vegetais, legumes e frutas são obviamente mais baratos do que carne

— Não rola ser vegano. Você deve ter tempo de sobra pra cozinhar essas coisas.

— Cozinho mais no domingo. As receitas que publico normalmente são feitas no final de semana. Caso eu tenha pouco tempo no sábado ou no domingo, acordo mais cedo ou então cozinho à noite quando chego em casa.

— Ah, deve ser caro fazer esses hambúrgueres vegetais e esses bolinhos.

— Não é. Uso mais feijões e ervilhas frescas como fonte de proteína para esses hambúrgueres. Pago menos de R$ 5 no quilo do feijão e R$ 6 no quilo de ervilhas frescas. Os demais ingredientes, os temperos, por exemplo, dá pra plantar inclusive em casa, até mesmo dentro de garrafas ou vasos, caso não tenha espaço. E sobre os bolinhos, o que mais uso é aveia, cacau em pó e pasta de amendoim integral. É possível encontrar aveia por R$ 5 o quilo, cacau em pó por menos de R$ 2 cada 100 gramas. A pasta de amendoim pode ser feita em casa (sai em torno de R$ 8 o quilo) ou caso não tenha como fazer, é possível encontrar o quilo por menos de R$ 15, e dura um bom tempo.

— Vegetais, frutas e legumes não são tão baratos.

— São bem mais baratos do que carne, e obviamente mais saudáveis, pode ter certeza. Além disso, você pode procurar por promoções. Entre em contato com pessoas da sua cidade que já se alimentam dessa forma e peça dicas. Pessoas dispostas a ajudar não faltam.

— Tofu é muito caro.

— Faça em casa que sai barato. É possível fazer um quilo de tofu com menos de R$ 10.

— Leite vegetal é caro.

— Leite vegetal é mais barato que leite de vaca. Experimente fazer em um final de semana.

— Ah, mas não tenho tempo pra me exercitar, ir pra academia.

— Durante mais de três anos, acordei às 5h para ir à academia. Depois não pude mais ir de manhã e mudei para o horário da noite. O dia tem 24 horas, você não tem uma hora ou 30 minutos para se exercitar diariamente?

— Não tenho grana pra comprar suplemento proteico vegano. É muito caro.

— Suplemento proteico só é necessário em casos específicos, quando uma pessoa não supre as necessidades diárias a partir da alimentação. Em qualquer outro caso, é desnecessário. Além disso, existe proteína vegetariana bulk, a granel, que é mais acessível. Vamos parar de arrumar desculpas.

 





Written by David Arioch

October 5th, 2017 at 8:20 pm

“Vamos ter que abater uma das vacas, não tem jeito”

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Minha mãe me ligou e contou que encontrou um amigo de longa data que cria gado leiteiro.

— Vamos ter que abater uma das vacas, não tem jeito. Está compensando mais como carne do que como fonte de leite.
— Mas quem vai fazer isso? Você?
— Não, não tenho essa coragem. O peão que vai matar.
— Mas você não é o responsável por ela?
— Não adianta. Não consigo matar nenhum animal. Não consigo nem olhar.
— Você tem entrado no blog do David?
— Sim, mas os textos dele sobre veganismo eu não leio. Só leio os outros.
— Por que não?
— Prefiro não ler. Não quero ficar com isso na cabeça.





Written by David Arioch

September 29th, 2017 at 11:52 pm

“É intrigante a forma como tratamos certos animais, não?”

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Acervo: Animal Equality

— Posso fazer uma pergunta?
— Sim, sem problema.
— O que o senhor vê nessa imagem?
— Um animal selvagem sendo morto.
— E o que o senhor acha disso?
— Claro que acho terrível. É uma coisa grotesca. Inadmissível!
— Entendo.
— E o que o senhor acha dessas outras imagens?
Mostro imagens de um boi, um porco e uma galinha sangrando durante o abate.
Silêncio.
— É intrigante a forma como tratamos certos animais, não?
— É sim…mas é a nossa cultura, né? Afinal, a maioria come carne.
— Entendo…realmente.
— Agora convido o senhor a pensar em uma outra situação. E se o animal que as pessoas mais comessem fosse aquele da primeira imagem?
— Isso não seria possível.
— Por quê?
— Porque seria doentio, nojento.
— Mas não é carne também?
— Sim, mas não é inerente à nossa cultura. Comemos bois, vacas, porcos, frangos, galinhas…animais comuns, que existem para isso.
— Pois é. Mas neste caso não é um condicionamento, uma construção cultural, alimentar-se de um animal e não de outro?
— Talvez, pode ser.
— Será realmente que os animais concordam com essa perspectiva de que eles existem para nos servir? Sendo isso um fato, eles não deveriam morrer felizes, trazendo nos olhos uma expressão de contentamento e nobreza?
— Isso eu não sei, mas creio que não importe tanto pra maioria.
— E se eu disser ao senhor que do ponto de vista da ciência tanto o animal da primeira imagem quanto os demais estão em níveis muito próximos de senciência? Sentem medo, ansiedade, desespero. Enfim, reagem a dor e, sempre que possível, resistem à morte.
— É triste, mas fazer o que…
— Se possível, peço que o senhor reflita sobre essa dissonância na maneira como julgamos que uns animais têm direito à vida e outros não. Realmente precisamos matar? Devemos matar? Ou podemos viver muito bem sem matar nenhuma criatura? É só uma sugestão de reflexão. Obrigado.
— Tudo bem…

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O sofrimento animal na indústria do café de civeta

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Os grãos de café de civeta são comercializados livremente na internet, inclusive em sites como Amazon, Ali Baba e Mercado Livre, entre outros.

Kopi luwak ou café de civeta é o café mais caro do mundo, mas o que chama a atenção sobre esse produto é que a sua fabricação está associada à morte e captura de milhares de civetas, mamíferos noturnos que são nativos da Ásia e da África.

O que tem a ver uma coisa com a outra? Acontece que no processo de fabricação esses pequenos animais são mantidos confinados em locais distantes da área urbana e condicionados a comerem grãos de café que mais tarde serão defecados, coletados e limpos. O diferencial é que civetas têm a habilidade natural de selecionar os melhores grãos para se alimentarem.

Como eles não digerem a semente do café, mas somente a polpa, o grão consumido por esses animais passou a ser visto como um produto com grande valor de mercado, até pelo fato do grão sofrer um “especial” processo de modificação no processo digestório.

De acordo com informações da World Animal Protection, em decorrência disso, civetas começaram a ser perseguidos, confinados e até mesmo mortos depois de cumprirem o seu papel. Por mais incrível e chocante que pareça, os grãos de café de civeta são comercializados livremente na internet, inclusive em sites como Amazon, Ali Baba e Mercado Livre, entre outros. Em sites do Brasil, cada 100 gramas desse café custa até R$ 368.

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Como é possível e necessário ser vegano

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Não há como fugir da exploração no mundo em que vivemos. Então como é possível ser vegano nesse contexto?

Só o veganismo pode minimizar a privação e o sofrimento imposto aos animais

Às vezes, algumas pessoas falam em ser ou não ser 100% vegano, e essa confusão e descrença é algo que agrada a indústria da exploração animal, porque ninguém mais do que ela deseja que as pessoas vejam o veganismo como inviável em suas vidas, ou que questionem o seu papel como veganos. Não raramente, alguém diz: “Não me sinto como se fosse realmente vegano.” Minha pergunta é: “Você faz o que está ao seu alcance?” Se sim, está tudo bem.

O veganismo foi gestado em âmbito urbano, dentro de uma realidade pós-revolução industrial. Não há motivo para o complicarmos. Claro que dúvidas são importantes, e se elas nos levam adiante, isso é positivo. Porém, nada do que é dito a respeito do que é ser ou não ser vegano, apresentando prováveis impossibilidades e contradições, deveria nos incomodar tanto. Há dúvidas e questionamentos que sem dúvida são pertinentes, mas há outros, como por exemplo, que compõem o que podemos chamar de literatura anti-vegana, que podem ser capciosos ou condutores de ideias equivocadas. Normalmente, muitas críticas ao veganismo esbarram em um ponto que considero importante –  entender o veganismo sob a ótica vegana. Mas obviamente que sou bem consciente de minhas limitações, e nenhuma delas me leva a desacreditar no veganismo, e simplesmente porque realmente acredito que não há motivo.

Mesmo quando o veganismo surgiu na Inglaterra em 1944, ninguém disse que veganos seriam pessoas perfeitas, que nunca tomarão parte na exploração animal em suas vidas. Não se trata disso. Se alguém aponta o dedo pra mim e diz: “Ah, cara, você não tem como evitar exploração o tempo todo. Como pode ser vegano?” Sim, eu não tenho como evitar tomar parte na exploração o tempo todo, porque naturalmente existe um sistema que é maior do que todos nós, mas é justamente por isso que sou vegano, porque é uma luta constante.

Se eu não precisasse questionar nada, isso significaria que o mundo já é vegano (também não usaríamos tal termo mais), e ninguém que é contra a exploração animal teria do que se queixar. Mas se reclamamos e até encontramos dificuldades nessa jornada, é porque ainda temos muito o que fazer. Acima de tudo, é a insatisfação e a exigência de novas alternativas que levem às mudanças, não à aceitação, rótulos ou apego ideológico. Veganismo é sobre redução de impactos.

É preciso fazer tudo que está ao nosso alcance para não tomarmos parte na exploração animal, simplesmente. Ou seja, é sobre dedicação, força de vontade, empatia. Evita-se comer tudo de origem animal, assim como usar qualquer produto de origem animal. Porém, há situações que fogem do nosso conhecimento e do nosso controle por vivermos em uma realidade baseada em um sistema que usa os animais até para as finalidades mais desnecessárias.

A maioria da população não tem a mínima ideia de como os animais não estão apenas em seus pratos, mas praticamente em tudo que elas usam, tudo mesmo. Quando um animal explorado pela indústria morre, muitas vezes não há o que enterrar, porque tudo que um dia fez parte de uma vida é transformado em algum produto. Isso não é estranho? Tem gente que qualifica isso como consequência e aproveitamento. Mas ignora-se que quanto mais um animal é qualificado como produto, mais ele se distancia de ser visto como vida para ser definido como objeto. E isso é extremamente absurdo.

A Primeira Revolução Industrial ocorreu entre 1760 e 1840 e a Segunda Revolução Industrial entre 1850 e 1945, e com elas surgiu toda uma cultura que intensificou o uso de animais como produtos, e a níveis inimagináveis. E isso não teve impacto somente para os animais não humanos, como podemos perceber em obras como “The Jungle”, de Upton Sinclair, que relaciona as duas formas de exploração, humana e não humana, por entender que são vilmente análogas em muitos aspectos.

Claro, o uso de animais como produtos também é um infeliz fator cultural, já que se trata de prática socialmente legitimada, mas é exatamente esse fator da depreciação da vida que nos leva à banalização de tantas coisas. Se um vegano é, por uma eventualidade, obrigado a usar algo que seja proveniente da exploração animal, por não haver alternativas, isso não significa que ele não é vegano, mas sim que há muito a ser feito e cobrado. Sendo assim, ser vegano neste mundo não é apenas possível como necessário.

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Written by David Arioch

September 21st, 2017 at 11:25 am

Não adianta ser vegano no mundo em que vivemos? Adianta sim!

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Os animais merecem a nossa consideração e respeito

— Cara, não adianta ser vegano neste mundo em que vivemos. Há muita exploração, não tem como fugir disso. Você acha que está fazendo uma grande diferença, mas na realidade isso é uma ilusão.

— Bom, eu não acho que estou fazendo uma grande diferença, eu acredito que estou fazendo a minha diferença. Quero dizer, faço o que faço porque acredito que é certo. Se serve para motivar outras pessoas, que bom. Mas mesmo que não servisse, eu não teria motivo para não seguir esse caminho. Mesmo que todas as pessoas à minha volta me contrariassem, eu continuaria. Afinal, minhas escolhas não são baseadas no que a maioria pensa. Até porque, se fosse, provavelmente não teríamos essa conversa.

Sim, a exploração está por todos os lados, mas é interessante notar que a cada dia cresce o número de pessoas que já não querem se limitar a viver ignorando essas mazelas, mazelas que muitos dizem que são secundárias, justificando que nesse caso evidencia-se o sofrimento animal em detrimento do humano, o que, sobretudo, não é verdade. Porém, essa leitura é esperada e normalmente surge em um contexto que pode ter duas explicações ou associações – desconhecimento ou interesse (que pode ser fundamentado ou não na falácia).

O desconhecimento é aceitável, porque não é malicioso, é mais facilmente mutável a partir de uma abertura conscienciosa. Já o interesse, nem tanto, porque subsiste na defesa do indefensável, que é o argumento capcioso usado por quem defende um status quo, ou seja, que tem algum interesse individual, pessoal, profissional ou coletivo na perpetuação de uma prática evidentemente perniciosa que é a exploração animal.

Sobre o veganismo ser uma ilusão, enquanto uma filosofia que preconiza justiça para seres vivos não humanos, devo discordar, evidentemente. Creio que ilusão é não rejeitar a exploração animal quando temos recursos para mudar pelo menos nossos hábitos. Quero dizer, no mínimo partir de algum lugar e aperfeiçoar a rejeição de acordo com nossas possibilidades e força de vontade.

Sem dúvida, é um equívoco encarar a exploração de animais como parte de um processo natural, quando, natural, de fato, é permitir que outros seres vivos vivam o seu pleno potencial sem a má intervenção humana. Há poucas coisas naturais no mundo quando falamos de nossas relações com os animais, começando pelo processo de domesticação forçada de outras espécies. A maioria dos animais que as pessoas comem e exploram hoje em dia, não surgiram assim na natureza. Podemos dizer que são criações humanas.

Outro ponto a se considerar é que nos iludimos diariamente com a ideia de que os animais criados para consumo, ou qualquer outra finalidade exploratória, são felizes em nos servir, quando eles não manifestam prazer nisso. Afinal, qual animal nasce com o anseio de tornar-se vítima de outra espécie? Nenhum. Todos querem viver sem sofrer, sem passar por privação. Inclusive vítimas de ações inevitavelmente predatórias.

Usamos a nosso favor o fato de que animais não humanos explorados exaustivamente são incapazes de verbalizar qualquer insatisfação. Podemos inclusive mentir sobre como eles se sentem, levando em conta seus movimentos e expressões incertas ou dúbias na nossa perspectiva. É mais fácil ainda quando estamos diante de alguém que não se importa muito com vidas não humanas, que já está imerso na legitimação e aceitação da objetificação.

Sabemos que há muitos casos, cotidianos ou não, envolvendo condicionamento animal que podem nos levar à reflexão sobre a dissimulação que impomos a outras criaturas. Coloque uma criança diante de um animal adestrado para proporcionar-lhe algum tipo de divertimento, seja uma criatura há muito domesticada ou não.

Provavelmente, o animal fará algo que, aos olhos ingênuos de uma criança que desconhece a natureza daquela vida não humana, pareça divertido, alegre ou bonito. Mas não é, pelo menos não para o animal, isto porque forjamos e falseamos até mesmo impressões de satisfação, júbilo e prazer. Naturalmente porque o animal não pode nos contrariar.

Esse fato costuma ser explorado de forma artificiosa ou sofística por quem lucra a partir da exploração de outras espécies. Já que as queixas não humanas, mesmo que existam, e sejam expressas de algum modo, permitem o surgimento de controvérsias e o levantamento de dúvidas por parte daqueles mais céticos e insensíveis ao sofrimento animal. Sendo assim também um terreno fértil para a desinformação.

Não é incomum nos depararmos com exemplos de criaturas “brincando” sem querer brincar, ou tendo uma atitude que inspire artificialmente algo de positivo, porque assim foram condicionadas. “Que lindo o que ele faz! Deve ter gostado muito de mim”, comentaria alguma criança, diante de uma ação bela, mas não natural de um animal. E nisso ignora-se o fato de que o que foi testemunhado não foi uma ação espontânea, mas condicionada, assim como muitas que endossam a crença de que somos superiores, logo temos o direito de fazermos o que quisermos com outras espécies, não importando se elas estão sendo obrigadas a tomarem parte em algo não natural.

Em síntese, a naturalização da exploração permite às pessoas olharem o condicionamento, a privação, o sofrimento e a morte de seres não humanos como consequência aceitável de um pretenso bem maior. A dissimulação quando é alicerçada em uma construção histórica e cultural faz da ilusão não apenas verossimilhante, mas uma própria expressão da realidade aos olhos de tanta gente, que partindo do pressuposto de que animais não são “explorados em vão”, mas sim para beneficiar a humanidade, tudo parece válido, principalmente porque é permitido não tomar conhecimento de como isso acontece.

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Written by David Arioch

September 20th, 2017 at 8:54 pm

Sobre a exploração de ovelhas e carneiros

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Ovelhas e carneiros são tosquiados ao longo de toda a vida, assim servindo como matéria-prima para a indústria de lã. Porém, é importante considerar que há um mercado consumidor para o cordeiro, que é o carneiro ainda filhote. A carne de cordeiro é bastante valorizada quando o animal tem entre cinco e seis meses. No caso de animais da raça Dorper o abate é feito a partir de três meses.

Porém, o que determina o envio para o abate é a qualidade da carne e se o produtor tem interesse em usá-lo ou não como reprodutor. Caso contrário, mata-se nos primeiros meses um animal com expectativa de vida de 12 anos. No mais tardar, carneiros com dois anos e ovelhas com seis anos são enviados ao matadouro. Isto porque como os níveis de reprodução de ovelhas e carneiros caem nessa faixa etária, eles são considerados velhos e financeiramente inviáveis pelos produtores.

Como não são mais vistos como “boa matriz”, o destino desses animais, que muita gente pensa que são simplesmente tosquiados e têm uma vida feliz até os seus últimos dias, é o matadouro. Em qualquer parte do mundo, carneiros e ovelhas explorados pela indústria morrem precocemente, independente da finalidade da criação. Não é difícil chegar a essa conclusão se considerarmos que eles são mortos nos primeiros anos de vida, mesmo tendo uma expectativa de vida de 12 anos que pode ser estendida a 20 anos caso haja boa qualidade de vida.

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Quando alguém aponta o dedo para um vegano…

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Quando alguém aponta o dedo para um vegano, que não o agrediu ou ofendeu, e aqui me refiro a alguém que escolheu essa filosofia de vida por querer o melhor para os animais, esse alguém deve pensar o seguinte: Qual é a minha filosofia de vida? Será que estou empenhado em fazer a diferença na vida de outras pessoas? De outros seres vivos?

Estou tentando contribuir para um mundo melhor? Fiz alguma grande coisa este ano sem pensar em ser recompensado por isso? Mudei alguma vida? Se a resposta para todas as perguntas for não, o que essa pessoa está fazendo é uma crítica rasa e iníqua. Se aponto o dedo para o outro, tenho sempre que observar primeiro aquele que mantenho apontado para mim.

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Written by David Arioch

September 14th, 2017 at 12:48 am