David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘conscientização’ tag

Eu exploro, tu exploras, ele explora, nós exploramos

without comments

Viver é um paradoxo, existir e resistir para não cair em contradição o tempo todo. É não explorar explorando, como um eterno espetáculo que denuncia a exploração, mas é financiado por quem a edifica e a avulta. Tartufismo, mendacidade, jacobice. Vivo imerso nessas palavras que não reconheço.

Eu exploro, tu exploras, ele explora, nós exploramos. É isso. É alentador não cair em armadilhas por alguns instantes. Minutos, talvez horas do dia em que não me torno refém de incongruências, degenerescências legitimadas. Amanhã vai ser diferente. Ou não. Farisaísmo. Arataca. Estratagema.

Não sou tão ruim. Não. Sou muito bom. Fecho os olhos. Me entorpeço com a minha ablepsia, inculpabilidade, condescendência, torpor. Sou ineludivelmente bom. Compro sorrindo o que alguém chorou produzindo. Não sei se quero reconhecer que morreu para ser transformado num algo ausente de i-den-ti-da-de.

Dissociado da verdade. É bonito. Não, é lindo. Mais lindo ainda se acredito que nasceu como produto final, sem gênese. Não tenho do que me queixar se enxergo apenas o que anseio vislumbrar. É só mais um dia, da bonomia à hipocrisia.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Written by David Arioch

September 14th, 2017 at 12:37 am

Promoção no açougue

without comments

“Será que vou conseguir levar alguma coisa?”

Promoção no açougue. Fila imensa. Pessoas sorrindo. Pessoas apreensivas. Medo de não sobrar nada. “Será que vou conseguir levar alguma coisa?”, se perguntavam.

Alguém se acotovelou? Sim, sutilmente e bruscamente. O cheiro da câmara fria amenizava o calor de mais de 30 graus. Trazia um cheiro glacial de osso, de carne. Cheiro de morte? Sim, mas isso não sei se alguém considerou. Menos ainda se a fome dominou.

Faca que corre pelo corpo despedaçado. Serra, serra que não para. E não para mesmo. Vamos ensacar. Sorriso, churrasco, gargalhada. Gargalhada, churrasco e sorriso. Era o assunto do momento. Sem traços de vida. “Não saio daqui com menos de 30 quilos”, comentou um homem de meia-idade. Respirava com dificuldade. Fôlego fraco. Hipertensão? Doença coronariana? Pode ser.

— Com licença, posso lhe mostrar algo rapidamente? Preciso apenas de uma breve opinião.
— Sim, sem problema.
— Que merda é essa? Você é louco? Mostrar isso pra mim na fila do açougue.

Agradeci e caminhei até o próximo da fila. Mais um pedido.

— Que isso, menino! Me respeite que eu poderia ser sua mãe.
— Ok.

Mais um.

— Ah, piá sem noção! Tá maluco? — disse uma moça.

Outro.

— Respeite minha família. Estou com minha esposa e filhos aqui.

Mais.

— Acabou com o meu apetite. Tá satisfeito agora, seu infeliz?
— De modo algum, senhor.

Continuei.

— Ô açougueiro, faça alguma coisa aqui. Chame a gerência, sei lá. Esse cara aqui tá perturbando todo mundo na fila.
— Não, senhor. Pedi licença todas as vezes, e vocês concederam. Bom, acho que já cumpri o meu papel.
— Papel? Isso aí deve ser tudo mentira, coisa encenada. Ou se for verdade, coisa rara que acontece só nos piores lugares.
— Ok.
— Só isso que você tem a dizer?
— Sim. Agradeço a atenção de todos. Não tenho do me que queixar.
— É? Mas nós temos, de você sendo inconveniente.
— Obrigado. Tenham uma boa tarde.

Guardei o celular no bolso, mas antes li uma última mensagem que encerra o vídeo: “A consciência clama pelo que já não descansa.” Cinco pessoas abandonaram a fila.

— Já é alguma coisa — monologuei em direção à saída.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Tertuliano e a boiada

without comments

Pintura: Roz

Em 1951, meu avô conheceu um rapaz em uma fazenda na Água do Cedro. Seu nome era Tertuliano e ele tinha chegado há pouco tempo do interior de São Paulo para atuar como motorista de caminhão. Seu trabalho era buscar mantimentos para três casas de secos e molhados situadas no centro de Paranavaí. Tertuliano era “meio aéreo”, como diziam, e sempre que tinha algum tempo livre, era visto sentado na cabine do caminhão, apoiado sobre o painel escrevendo em um caderninho.

Um dia, fizeram uma proposta para que ele transportasse uma boiada até um matadouro na saída para Nova Aliança do Ivaí. A missão de Tertuliano era buscar os animais na Fazenda Alto Remanso em Alto Paraná. Precisando de dinheiro, não pensou duas vezes. Quando chegou ao local de manhã, os animais já estavam prontos para partir. Um homem gritou: “Tá no jeito!”

Tertuliano desceu a rampa parda e resistente de madeira e assistiu a boiada a subindo lentamente. Hesitação. Resistência. Um dos animais empacou no limiar da rampa. Quatro peões reuniram forças para que o boi, que tinha apelido de Teimoso, aceitasse o seu malquisto destino. Antes de desaparecer dentro da carroceria, o animal observou Tertuliano. Ele desviava o olhar, mas o boi persistia com seus olhos escuros.

— Você leva esses que depois a gente acerta — disse o administrador da fazenda.
— Sim, senhor.
— Quer que alguém te acompanhe?
— Não. Já tá tudo certo do lado de lá.
— Então tá bom. Pode ir.

Tertuliano subiu na cabine. Antes deu outra olhadela nos bichos. Silêncio desconfortável. O incomodava saber que os animais não reagiam mais. Sem barulho. Não odiavam os seres humanos, nem Deus, se houvesse um para eles.

— Que diacho de vida é essa? Sabe que vai morrer e vai aceitando assim?

Durante o percurso, parou o caminhão na estrada. Circulou pela carroceria e ouviu a respiração ruidosa de um deles.

— Será que tá com medo? — questionou.

Quis subir na carroceria para ver melhor a boiada. Feito. Lá em cima, nenhum deles movia os cascos, mas somente os olhos em sua direção.

— Por que num chora, num grita, num berra, num odeia? — questionou assistindo a boiada.
— Será que sabem mesmo pra onde vão? Será?
— Talvez sim, talvez não.
— Tô é ficando louco, falando com boi. Melhor seguir viagem.

Demora. Estrada estreita de terra. Animais silvestres atravessando carreadores e se escondendo na mata. Na saída para Nova Aliança do Ivaí, Tertuliano parou o caminhão e observou a pouco mais de 300 metros um barracão onde funcionava o matadouro. Não gostou do que viu. Hora da despedida. Ou não.

Desistiu da entrega. Seguiu viagem. Parou em um sítio em Graciosa, onde comprou ração e pediu água. Dirigiu até o Porto São José. Chegou depois de quatro dias. Em outro sítio, a boiada desceu a rampa sem medo. Deram alguns passos pasto adentro e deitaram sobre a braquiária. Verde, verde, verde. Sol morno. Sem medo.

— Olhe aí, pai! Parece criança.
— E não são? — indagou o velho acendendo um palheiro.

Não perguntou a origem da boiada. Talvez não quisesse saber, ou não tivesse relevância.

— O senhor pode cuidar deles pra mim?
— Deixe, onde come cinco, come até vinte, acho — respondeu sorrindo.
— Tá certo.

Teimoso, que não era mais teimoso, mugiu brevemente pela primeira vez quando o rapaz virou as costas. Avisou ao pai que era preciso resolver a situação.

— Dá-se um jeito — garantiu o velho.

Na semana seguinte, Tertuliano decidiu retornar a Alto Paraná para resolver a situação na Fazenda Alto Remanso. Perto de Guairaçá, encontrou galhos na estrada e desceu para movê-los. Emboscada. Sete tiros de carabina. Três homens. No banco do caminhão havia um pequeno saco de estopa, dinheiro que seria entregue como forma de compensação.

Agonizando e deixado para morrer, resfolegou. Um novilho atravessou a cerca e se aproximou. Lambeu seus olhos. O rapaz sorriu e sucumbiu. Sua história real não seria contada. Ganhou fama de ladrão de gado quando o que menos queria era roubar vidas. Até os anos 1980, ainda havia uma cruz onde Tertuliano morreu. Trazia a frase: “Se vive para não ver, não há o que querer.”

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Não entre em um relacionamento alimentando falsas esperanças

without comments

Se você conhece alguém que espera de você algo que você não pode oferecer, simplesmente não seja sem noção. O que quero dizer? Não entre em um relacionamento alimentando falsas esperanças. A carência pode levar as pessoas a cometerem equívocos que trazem sérias consequências. Uma delas pode ser magoar profundamente alguém que espera de você mais do que você pode oferecer. Creio que muitos relacionamentos começam errado por causa disso.

Um relacionamento para dar certo deve partir do princípio de que duas pessoas querem a mesma coisa, têm objetivos em comum na relação e não estão pensando em obstáculos que já podem minar a relação. Quem entra em um relacionamento sério para trair, ou pelo menos pensando nessa possibilidade, pode muito bem deixar claro para a outra pessoa essa sua inclinação. O que significa que isso não cabe em um relacionamento monogâmico.

Assim como não cabe ser egoísta e individualista a maior parte do tempo. Claro, é impossível nunca ser egoísta e individualista, mas é possível não ser a maior parte do tempo, bastando apenas refletir a respeito e fazer um pouco de esforço em prol de algo que não diz respeito apenas a si mesmo.

Relacionamentos muitas vezes não dão certo por falta de comunicação e honestidade. E claro, empatia, já que não se colocar no lugar do outro permite que as pessoas tenham atitudes totalmente incompatíveis com uma relação saudável. Não é monogâmico? Então encontre pessoas que também não são. Não tem segredo. É só acreditar no respeito e colocar isso em prática.

Se tratando de relacionamentos, não acho que as pessoas devam ser iguais. Na minha opinião, o que elas devem, em primeiro lugar, é ter uma forte razão para estarem juntas. O que acontece a partir daí, vai depender do esforço, da vontade e da inclinação de cada um.





Written by David Arioch

September 10th, 2017 at 11:02 pm

Sobre o meu trabalho com o veganismo

without comments

Foto: Ed Wray/Getty Images

Até hoje nenhuma pessoa que conheço me ofendeu ou me tratou com desrespeito por escrever ou falar sobre veganismo. As ofensas que recebi, e que considero inclusive poucas em relação à quantidade de conteúdo que produzo diariamente, são mínimas, e vieram de desconhecidos, inclusive fakes. Já pensei, e às vezes ainda penso, em parar de escrever sobre isso por outros motivos que prefiro não explicar detalhadamente agora.

Gosto de escrever com liberdade, sem obrigação de responder a algum tipo de padronização ou hierarquia ao que diz respeito à defesa dos direitos animais. Às vezes, vejo pessoas falando de veganismo e direitos animais como se alguém tivesse alguma obrigação tácita e moral de seguir um programa que supostamente seria o melhor para todos. Isso simplesmente não funciona pra mim.

O que deve predominar, pelo menos no meu entendimento, é a honestidade, sensibilidade, comedimento e sinceridade de cada um em relação ao que se expressa. E isso independe de fórmula. Claro, todos devemos evoluir, mas cada um dentro daquilo que se propõe a fazer, principalmente se estiver dando resultados.

Não me vejo como alguém que representa um movimento, um grupo ou uma entidade. Não estou aqui para normatizar o trabalho de ninguém. Sou apenas alguém escrevendo livremente sobre os animais e o direito à vida. Quem acompanha o meu trabalho sabe que não tenho limites quanto a estilo e formato. E muito do que produzo surge naturalmente, pode ser uma reportagem, um artigo, uma crítica, uma crônica, um conto, uma reflexão ou um aforismo.

Quando você escreve profissionalmente e diariamente há mais de uma década, o que significa dezenas de milhares de páginas, e isso se torna parte de você, muitas vezes você não precisa de mais do que seus próprios olhos, um olhar sensível e ponderado para dentro de si mesmo e dos outros para usar como ponto de partida para a conscientização e a sensibilização. E se isso está funcionando em algum nível, pra mim isso é um bom indicativo.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





1120 pessoas afirmaram que foram influenciadas pelo meu trabalho

without comments

Arte: Study Breaks Magazine

Sempre que uma pessoa me diz que se tornou vegetariana ou vegana por influência dos meus textos eu faço questão de registrar isso. Na semana passada, uma moça bem educada me revelou que faz dois meses que não consome nada de origem animal. Ela acompanha o meu trabalho há seis meses. Contando com ela, e levando em conta meus registros, já são 1120 pessoas que disseram que as conscientizei a seguirem por esse caminho.

Não imponho nada a ninguém, simplesmente escrevo, e fico muito feliz por esses resultados, apesar de já ter cogitado parar algumas vezes. Que eu possa levar algo de bom para mais pessoas, que elas possam reconhecer que podem viver muito bem sem consumir nada de origem animal.





Written by David Arioch

September 10th, 2017 at 2:14 am

Seu Santo contra a matança de animais

without comments

Pintura: Ivanici Emília Gonçalves

No final dos anos 1940, meu avô conheceu uma fazenda de café em Paranavaí onde era proibida a matança de animais. Havia dezenas de casebres, e quem quisesse trabalhar e viver ali era obrigado a aceitar o fato de que não era permitido se alimentar de animais. Qualquer morte de animal era punida com expulsão. O dono da fazenda era conhecido como “Seu Santo”.

Ele andava mancando porque em 1944 levou uma mordida de onça na perna direita, perdendo parte de massa muscular e de massa óssea. No dia do acontecido, a onça saltou sobre uma árvore assim que ouviu o barulho de um Ford movido a gasogênio. Logo dois jovens desceram armados e se posicionaram para abatê-la.

Ciente de que ela seria morta, Seu Santo apenas gritou com os filhos: “Deixa ela. Tá no direito dela. Foi a gente que invadiu isso aqui.” O deitaram na carroceria do caminhão e partiram rumo ao Hospital do Estado. Esse lugarejo existiu por mais de 30 anos, até ser abandonado em decorrência das últimas grandes geadas. Hoje resta apenas quiçaça e uma história que parece recôndita sob a terra fragilizada.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Mulheres, vegetarianismo e veganismo

without comments

Mulheres que são ou foram protovegetarianas, vegetarianas ou veganas, e que escreveram sobre os direitos animais ou que realizam ou realizaram algum tipo de ativismo ou projeto educacional em defesa dos animais não humanos. Escrevi sobre pouco mais da metade das mulheres desta lista. Sobre outras, ainda pretendo escrever.

Colagem: David Arioch

01 – Mary Shelley
02 – Aphra Behn
03 – Asenath Nicholson
04 – Gertrude Colmore
05 – Annie Besant
06 – Anna Kingsford
07 – Margaret Fuller
08 – Ellen G. White
09 – Louisa May Alcott
10 – Caroline Earle White
11 – Charlotte Despard
12 – Lizzy Lind af Hageby
13 – Margaret Damer Dawson
14 – Ruby Brown
15 – Brigid Brophy
16 – Sally Shringley (co-fundadora da Vegan Society)
17 – Tatyana Pavlova
18 – Audre Lorde
19 – Rosa Parks
20 – Coretta Scott King
21 – Angela Davis
22 – Alice Walker
23 – Jane Goodall
24 – Carol J. Adams
25 – Josephine Donovan
26 – Leah Leneman
27 – Sônia T. Felipe
28 – Nina Rosa

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Artistas que usam as artes plásticas como forma de ativismo ou conscientização em prol dos direitos animais

without comments

Colagem: David Arioch

01 – Dana Ellyn
02 – Sue Coe
03 – Jo Frederiks
04 – Hartmut Kiewert
05 – Jackson Thilenius
06 – Roma Velarde
07 – Erica Floyd
08 – Marlaina Mortati
09 – Ryohei Hase
10 – Roger Olmos
11 – Vanni Cuoghi
12 – Xavier Bayle
13 – Louis Gedo
14 – Liu Qiang
15 – Larry Torro
16 – Raj Singh Tattal
17 – Nana Índigo
18 – Ruby Roth
19 – Dan Piraro
20 – Tommaso Ausili
21 – Vegan Sidekick
22 – Tommy Kane
23 – Mark Cawood
24 – Michael Mararian

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Quando você influencia as pessoas até por acaso

without comments

Arte: Louis Gedo

A caminho do Porto Maringá a trabalho, passei no Porto São José para conversar com um senhor que era o meu contato naquele lugar. O encontrei em uma peixaria de sua propriedade, às margens do Rio Paraná.

— Você não vai querer levar um peixe?
— Não, obrigado. Não como peixe.
— Não?
— Não…
— Posso saber o motivo?
— Não como nada de origem animal. Sou o que chamam de vegano.
— Aé? Mas nem leite, ovo, nada?
— Nada.
— E consegue ser forte assim? Olhe, tô surpreso.

Apenas sorri.

— Vou te falar uma coisa. A única carne que como faz tempo é peixe. Só como peixe e vegetais, nada mais. Você tá certo. Fora que hoje em dia enchem a bicharada de antibiótico, não é bom pra eles nem pra gente. Mas fiquei interessado nessa coisa de vegano aí.

Entreguei o meu cartão com o endereço do meu blog para o dono da peixaria e sugeri que ele entrasse em contato comigo caso tenha alguma dúvida. Ele agradeceu e nos despedimos com um aperto de mão.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar: