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“Agora fiquei até com vontade de ser pai”

“O semblante não era o mesmo. Quem era aquela criança que tomou o seu lugar?” (Desenho: Nino Andaresta)
Em uma loja, enquanto eu aguardava atendimento, observei um bebê em um bebê conforto ao lado do balcão. Tão lindo com aqueles olhinhos serenos e geometricamente redondos de anime. Sorria sem parar enquanto balançava as mãozinhas e as perninhas curtas simulando bicicletinha. Lindo de ver! Expondo o umbiguinho para fora da camisetinha verde com estampa do Hulk. Vez ou outra, soltava algum gritinho suave, empolgado observando coelhinhos de pelúcia pouco acima de sua cabeça.
— Que linda inocência! Que beleza de criança! Que doçura!
— Agora fiquei até com vontade de ser pai. Que coisinha linda e hipnotizante.
O bebê continuava simulando bicicletinha. Um verdadeiro atleta.
— Esse vai gostar muito de se exercitar. Não tenho dúvida disso!
Fui surpreendido. A criança sorriu pra mim, um daqueles sorrisos raros de comerciais de TV, do tipo enviesado.
— Preciso ser pai, cara! Quero isso na minha vida – monologuei.
Ainda bem que ninguém percebeu que falei mais alto do que imaginei.
Era incrível ver aquele pequeno ser cheio de vida, de vontade de existir. Um mundo de infinitas possibilidades se abria diante dele.
— Esse vai conquistar o mundo, parece bem peculiar.
— Nossa! Preciso ser pai, cara! Isso é demais!
De repente, os olhos da criança mudaram, enturveceram. Pressionou uma mãozinha contra a outra, como se estivesse prestes a esmagar os próprios dedinhos. As bicicletinhas d’antes se transformaram em golpes violentos no ar.
O semblante não era o mesmo. Quem era aquela criança que tomou o seu lugar?
Me afastei a passos cuidadosos quando o bebê começou a gritar e a dar violentas cabeçadas no bebê conforto. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove cabeçadas consecutivas.
— Diabeisso! O que está acontecendo aqui? — pensei, mas não falei.
Preocupado, olhei em volta. Ninguém me olhava. Ainda bem. Assim ninguém acharia que tive algo a ver com a infanta fúria. A criança berrava cada vez mais alto. Que vozeirão sinistro!
— Desse jeito, vai cantar death metal – concluí.
Eu não sabia mais se me afastava ou se me aproximava. Por pouco, a criança não vira o bebê conforto com a força das cabeçadas e dos chutes no ar. Até que sua mãe chegou.
— Não quero mais ser pai. Deixa quieto.
E a vontade passou.
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O policial e a criança
No mercado, vi uma cena que me chamou a atenção enquanto eu estava na fila do caixa rápido. Um policial militar escolhia alguns pães quando um garotinho, acompanhado do pai e da mãe começou a sorrir efusivamente. Consegui ver seus olhos cintilando mesmo eu não estando tão perto.
A mãe e o pai cumprimentaram o policial e falaram que a criança sempre teve grande admiração por policiais. Dava para ver no rosto do garotinho que a figura do policial para ele é a de um herói. Acanhado, mas lisonjeado, o rapaz fardado balançou a cabeça e disse poucas palavras. Nem precisaria dizer nada. A expressão compenetrada e sisuda de antes desapareceu com a chegada do menino.
O sorriso da criança o desarmou. E ele também começou a sorrir sem parar, olhando para a criança e vez ou outra mirando os pais com seus olhos encalistrados. O menininho pediu para dar um abraço no policial e ele concordou. Agachou e envolveu a criança nos braços por alguns segundos.
Mesmo depois que o casal e o filho partiram, o policial continuou sorridente, passou por mim sem conseguir velar o sorriso. Continuava tímido, translúcido, feliz e provavelmente agradecido por um presente inesperado que o impediu de retomar a expressão circunspecta.
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“Mããããe, olha que lindo aquele boi!”
No açougue do mercado, uma criança ficou eufórica ao ver um quadro de um boi sorrindo.
— Mããããe, olha que lindo aquele boi!
— É sim, querida.
A criança coçou a cabeça, olhou para os lados e estranhou o fato de que ninguém mais estava admirando o mesmo quadro que ela. Praticamente invisível.
— Por que será que ele parece tão feliz?
— Não sei, filhinha.
— Já sei, mãe!
— O quê, filha?
— É porque ainda não mataram ele, né?
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Se você tivesse um filho, ele seria criado como vegano?
— Se você tivesse um filho, ele seria criado como vegano?
— Com certeza. Não tenho dúvida nenhuma disso, já que o veganismo é um imperativo moral.
— Mas não seria uma forma de imposição?
— Acredito que imposição seria eu condicioná-lo a se alimentar de animais. Seria uma imposição aos animais que não escolheram morrer em vez de viver.
— Mas e se seu filho não quisesse ser vegano?
— Bom, ele seria criado como vegano, educado com total transparência em relação à exploração animal, ao valor da vida independente de espécie. Mas, se um dia, mesmo depois de receber todas as informações disponíveis sobre o processo que envolve a produção de produtos de origem animal, ele decidir por não ser vegano, não farei nada sobre isso. Afinal, cada um é responsável pelas próprias decisões e consequências quando há discernimento para tais.
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O desabafo de uma criança
Na Vila Alta, ouvi uma coisa que voltou a me surpreender, e esse é um dos motivos pelo qual quero voltar a frequentar a periferia com mais frequência. Enquanto conversávamos com a Dona Maria, uma das lideranças do bairro, ela disse que uma criança de sete anos fez um desabafo doloroso no final de semana.
O garotinho disse que seu pai já lhe causou tanto mal que ele quer crescer logo para descontar tudo isso nas outras pessoas. Que elas vão ter que sentir toda a dor que ele sente. Achei aquilo bem pesado, mas, frequentando a periferia desde 2009, já ouvi crianças do bairro dizendo coisas parecidas.
E muitas vezes elas não têm nenhuma referência, alguém para lhes dar alguma direção, conhecer a realidade deles. E eles precisam de pessoas de confiança, em quem possam confiar, que não estejam lá apenas para desempenhar um trabalho, cumprir um papel profissional; mas que realmente façam questão de conhecer suas mentes e seus corações.
O boi e o menino
Dirigindo pelas estradas de Alto Paraná, perto da Água do Cedro, encontrei um menino andando lado a lado com um boi. Encostei o carro, desci, pedi uma informação e perguntei se ele morava longe. Então o garotinho de nove ou dez anos apontou uma porteira aberta e uma casa de madeira no horizonte à sua direita. A postura e os olhos daquele boi me fizeram suspeitar que havia algo realmente incomum sobre ele.
— E esse boi? Ele mora com vocês?
— Sim, senhor.
— Vocês estão passeando?
— Isso mesmo. Como o senhor sabe?
— É que lá de trás vocês já pareciam companheiros. E agora, de perto, vi que esse boi não tem nenhuma marca no corpo.
— Pra que marcar o bicho, né? Eu que não quero ter o couro marcado. Acho que ninguém quer, né?
— Pois é. Realmente…
— Vocês passeiam sempre?
— Ah, não. Só quando ele quer.
— E como você sabe quando ele quer?
— Ele encosta na porteira, e esfrega a orelha. Meu pai diz que ele faz isso desde criança.
— Desde criança?
— Isso.
— Quantos anos ele tem?
— Ah, ele tem 21.
— Nossa! Incrível!
— É o que todo mundo diz – comentou sorrindo.
— Forte desse jeito? E como ele viveu tanto?
— Não sei dizer não, senhor. Deve ser porque a gente nunca judiou dele, deixa ele bem solto no pasto.
— Isso é bom.
— É sim.
— Vocês nunca pensaram em abater ele?
— Não, senhor. Que isso! O Mestre é da família, é bicho que nem a gente.
— Vocês não comem carne?
— Não. A gente só mexe com horta e pomar. Meu vô, meu pai e minha mãe falam que comer o que não nasce de novo não presta. Tá certo não.
— Ninguém da sua família come carne?
— Não, ninguém.
— Sempre foi assim?
— Não. Foi por causa de uma coisa que aconteceu com o bisa antes do meu pai nascer.
— O que aconteceu?
— Meu bisavô tinha um cemitério no fundo do sítio dele. Um dia, uma vaca entrou lá e empurrou um pedaço de bife dentro de um buraco. Depois ela arrastou a terra com a pata pra cobrir o bife. O bezerro dela tinha sido levado fazia acho que duas semanas. Então o bisa chorou quando viu e prometeu nunca mais comer carne, nem mexer com isso. Essa história a gente escuta desde bem pequeno.
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“Também num gosto de carne”
Enquanto eu aguardava atendimento em um escritório de advocacia, um garotinho bastante animado, com seus cinco ou seis anos, me observava com um olhar de curiosidade.
— Qual é o seu nome, tio?
— David e o seu?
— Bruno…
— Você é forte, né, tio?
— Eu tento…
— É sim!
— Você deve comer muita carne pra ser forte assim…
— Por que você acha isso?
— Por que minha mãe diz que a gente precisa de carne pra ficar forte. Ah, então acho que você come muita carne.
— Não como não…
— É?
— É sim…
— Não precisa?
— Não, não preciso, ninguém precisa. Só que tem que comer direitinho pra não faltar nada, porque se você não come carne e fica doente as pessoas vão falar que é porque você não come carne. Então tem que se cuidar.
— Também num gosto de carne. Vou falar de você pra minha mãe, tio, e ver se ela deixa eu não comer também.
A secretária assistiu tudo e achou graça da nossa conversa. Quando os pais de Bruno saíram de uma das salas, ele se aproximou deles:
— Mãe, olha aquele tio ali, ele é forte e não come carne. Você disse que quem não come carne morre.
Com um sorriso amarelecido, a mãe não disse nada e o pai riu. Em segundos, atravessaram a recepção em direção à saída. Bruno sorriu mais uma vez.
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“Bom, talvez eu não a tenha assustado tanto”
Terminando o meu treino de mobilidade na academia, enquanto eu estava pendurado em uma barra, notei uma garotinha, uma criança, me observando. Não olhei diretamente porque ela já parecia assustada me olhando.
— Com a barba desse tamanho e musculoso, deve ter se assustado, pensando que sou algum tipo de monstro; ou pelo menos um sujeito bem estranho.
Continuei ali por mais um ou dois minutos. Então caminhei até o outro lado da academia para guardar as minhas coisas na minha bolsa e beber água antes de ir embora. Notei que a garotinha estava novamente do meu lado e, assim como eu, bebendo água da própria garrafinha. Então concluí:
— Bom, talvez eu não a tenha assustado tanto.
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Quem eu era na infância ainda vive dentro de mim
Sempre que termino a musculação, faço treino de mobilidade por 10 a 15 minutos. Como não havia espaço no local onde sempre realizo esse treinamento, deitei perto do espelho que fica em frente à polia. Então prestei bastante atenção no meu rosto, e sorri sozinho, porque reconheci que quem eu era na infância ainda vive dentro de mim.
Percebi isso nos meus olhos, e me senti realmente grato, porque perder isso seria perder a minha própria identidade. Às vezes, se olhar no espelho não tem nada a ver com narcisismo, ainda mais se o que quero ver somente o reflexo não pode me oferecer.
“Mas o boi tem que morrer? Ele não chora? E a família dele?”
No mercado, perto da fila do açougue, ouvi uma garotinha conversando com a mãe. Com a naturalidade típica das crianças, perguntou por que ela tinha que comer carne.
— Porque você precisa de proteína pra crescer forte e saudável.
— Mas o boi tem que morrer? Ele não chora? E a família dele?
Constrangida, a mulher saiu da fila do açougue com a filha enquanto algumas pessoas riam e outras refletiam.








