David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

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Um presente para a mamãe

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” Será que digo que sou jornalista? Provavelmente ela vai me expulsar da loja… ” (Foto: Luxury Safes)

Saí para comprar um presente para a minha mãe. Fui até uma joalheria, e enquanto eu olhava alguns brincos e colares, uma moça se aproximou e perguntou se eu precisava de ajuda.

— Por enquanto, não…

— Se precisar, estarei aqui ao lado, tudo bem?

— Ah sim. Muito obrigado!

Enquanto eu analisava um belo anel que parecia forjado por um nibelungo, uma mulher pediu que a vendedora me levasse até ela.

— Por gentileza, o senhor pode me acompanhar?

Mesmo sem entender nada, acenei positivamente com a cabeça. “O que será isso, hein?”, pensei.

Diante de um longo balcão acastanhado, uma mulher muito bonita, com pouca maquiagem, e em um longo vestido preto, sorriu e me cumprimentou.

— O senhor não precisa se contentar com as nossas peças mais baratas. Temos algo realmente especial.

— É? — falei, mas ponderei: “E por que eu não me contentaria com as peças mais baratas? E que para mim pareciam bem caras…”

— Sim. Temos uma sala especial para atender pessoas como você. “Não entendi. Pessoas como você? Que tipo de pessoa eu sou?”

— É?

— Sim…me acompanhe, por favor.

Percorremos um corredor à direita do caixa, ela acionou uma senha e uma porta blindada, que mais parecia um cofre, abriu. Entramos.

— Acredito que tudo esteja à sua altura.

— Como assim à minha altura? Será que essa mulher não está me confundindo com outra pessoa? — refleti.

A peça mais barata naquela sala era um par de brincos de R$ 22 mil. Mas ela fazia questão de me mostrar colares que custavam até R$ 120 mil. Talvez fossem feitos de alguma coisa mais valiosa do que vidas? Ela sorria copiosamente, como se acreditasse que eu não sairia de lá sem comprar nada.

— Será que digo que sou jornalista? Provavelmente ela vai me expulsar da loja… — inferi silenciosamente.

— A senhora tem peças realmente bonitas, o problema é que estou bem distante de comprar o par de brincos “mais barato”.

Pensei em quantas crianças famintas poderiam ser alimentadas com o dinheiro a ser pago por aqueles brincos, anéis e colares. Bom, não cabe a mim dizer o que cada um deve ou não fazer com o seu dinheiro. Além disso, a verdade é que estamos todos no mesmo lugar, mas nem por isso fazemos parte do mesmo mundo.

— Não seja modesto….sei que o senhor é rico.

— Como? Até parece. Não entendi.

— Conheci seu pai, parte da sua família…

— Acho que não, hein…

— Conheci sim…não seja assim…

— Certo. Agradeço a confiança em me trazer aqui, mas preciso ir embora…

— Rápido assim? Não vai levar nada? Nem uns fios de ouro para adornar a sua barba?

— Não tenho como levar nada desta sala, senhora. E me desculpe, mas sofro de claustrofobia. Devo dizer que este ambiente não ajuda.

Ela estava bloqueando a saída, e quando percebeu o meu estado de descontentamento, abriu passagem. Atravessei a loja rapidamente, e na saída um homem tocou em meu ombro e indagou:

— Você não é filho do Salim Murat Mesut?

 

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Written by David Arioch

May 14, 2017 at 11:15 pm

Eu e Má (minha mãe)

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Acredito que as minhas melhores qualidades vêm dela

Eu e Má (minha mãe), sempre tivemos um relacionamento muito próximo. Acredito que as minhas melhores qualidades vêm dela. Quando meu pai faleceu em 1997, e eu e meus irmãos éramos praticamente crianças (o Juninho então era um bebê – tinha um ano), ela assumiu a responsabilidade de criar os três filhos sozinha. Antes, ela já havia criado suas duas irmãs.

Acredito que se escrevo hoje em dia, também devo isso à minha mãe, porque ninguém me incentivou mais a escrever do que ela. Sempre achei meu trabalho razoável ou simplesmente aceitável, e ela, que lê tudo que escrevo, sempre fez questão de dizer que não, que não existe nada de ordinário no que faço, e que devo sempre seguir em frente independente do que os outros pensem ou digam.

Written by David Arioch

May 14, 2017 at 10:55 pm

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“Mas o boi tem que morrer? Ele não chora? E a família dele?”

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Arte de Thomas Sidney Copper – Art Gallery Collection

No mercado, perto da fila do açougue, ouvi uma garotinha conversando com a mãe. Com a naturalidade típica das crianças, perguntou por que ela tinha que comer carne.

— Porque você precisa de proteína pra crescer forte e saudável.

— Mas o boi tem que morrer? Ele não chora? E a família dele?

Constrangida, a mulher saiu da fila do açougue com a filha enquanto algumas pessoas riam e outras refletiam.





Quando as pessoas se afastam de alguém que tem uma grave doença

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Fico surpreso quando as pessoas se afastam de alguém que tem uma grave doença. Se eu tivesse uma namorada e descobrisse que ela tem câncer ou até mesmo HIV, é claro que eu não me afastaria dela.

Sempre tive o exemplo da minha mãe que cuidou do meu pai até o último momento, mesmo ele incapaz de se levantar de uma cama, e já não reconhecendo ela em decorrência de um câncer que se espalhou pelo cérebro.

Minha mãe cuidou dele o tempo todo. Ao mesmo tempo, criou eu e meus dois irmãos. À época, o Juninho tinha só um ano de idade. O amor é isso, a doação e a mais genuína forma venusta de empatia que se sobressai a tudo.

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Written by David Arioch

February 8, 2017 at 10:38 am

Posted in Reflexões

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De mãe para filho

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Foto: Arquivo Familiar

Foto: Guimarães Junior

Todo ano, minha mãe escreve uma carta que recebo somente no dia do meu aniversário. É uma tradição. Assim como tenho feito nos últimos anos, faço questão de compartilhar o conteúdo, afinal trata-se de um dos melhores presentes que um filho pode receber:

Sou mãe de três filhos maravilhosos. Já passamos por muitos momentos tristes. Perdemos muitas pessoas queridas, então me apeguei com Deus e meus filhos. Devo dizer que minha força vem da nossa união familiar. Aprendemos a ter gratidão por tudo, mas principalmente por aqueles que estendem a mão, semeando de alguma forma a felicidade.

Só que hoje quero falar de você, David. Hoje é seu aniversário e eu não poderia deixar de escrever uma nova carta. Hoje fiquei lembrando do dia em que o médico o mostrou para mim, tão pequenino e com dois olhos grandes que mais pareciam duas jabuticabas. Um cabelo tão preto que cintilava como se fosse veludo. E o mais incrível é que nasceu com cabelo comprido! Sim, cabeludo de verdade!

Antes de completar um ano já observava tudo ao seu redor e tentava contar histórias. Quando aprendeu a falar, todo dia narrava uma história diferente. Inventava a partir das coisas que via na rua quando saía para brincar ou passear. Já dava sinais de que seria jornalista e um dia escreveria livros.

Obrigado por ser esse filho maravilhoso, meu amigo e meu confidente. Por ser esse ser humano realmente HUMANO e generoso, sempre preocupado com os outros. Sei que se alguém te pedir um tênis na rua, e você tiver somente um par naquele momento, é capaz de você tirá-lo do pé e entregá-lo a quem pediu.

Também se preocupa com os animais como ninguém, e é assim desde criança. Tem um desapego muito grande de coisas materiais. É apaixonado pela profissão de jornalista, por história, literatura, cinema…Sempre falo que você tem o dom da palavra, da escrita. É um devorador de livros.

Está sempre disposto a escrever matérias para ajudar quem precisa. Transformou isso numa ferramenta capaz de transformar vidas. Tenho muito orgulho de você. Sou sua fã. Sou testemunha do quanto você batalha para realizar seus sonhos. Você já é um vencedor e vai conseguir tudo que você merece. Você é uma pessoa do bem. Eu sei que quando se é honesto tudo é muito difícil, mas não impossível para quem crê.

Te amo muito, meu filho.

De sua mãe, Má.

28 de setembro de 2016.

Written by David Arioch

September 29, 2016 at 12:04 pm

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Quando eu comprava cigarro para os meus pais

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Suspeitei que o inventor do cigarro tivesse errado a escolha dos ingredientes e criado algo indesejado

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Eu e meu irmão íamos até o bar da Dona Maria comprar Free (Foto: Reprodução)

Na infância, eu comprava cigarro para os meus pais. Sim, eu e todos os meus amigos e colegas que nasceram nos anos 1980 e tinham pais fumantes. Minha mãe abandonou o vício na minha adolescência, mas meu pai, um tabagista inveterado, faleceu em decorrência de um câncer de pulmão. Começou a fumar muito cedo, quando astros de Hollywood ajudaram a transformar o cigarro em um obtuso símbolo de charme, rebeldia e sensualidade.

Nunca perguntei porque ele fumava, só que um dia, ainda criança, comentei com minha mãe que “só o trem a vapor tinha motivo para soltar fumaça, já que o movimento dele dependia da queima do carvão”. Desde pequeno, eu não via graça na ideia de colocar algo na boca simplesmente para soltar fumaça. Eu associava aquela imagem com a da fumaça preta que saía dos escapamentos dos caminhões velhos que víamos nas ruas. Óxido de carbono, óxido sulfúrico, óxido de nitrogênio e hidrocarboneto aromático, fiquei sabendo mais tarde.

“Quem sabe as pessoas que fumam sejam como os escapamentos dos caminhões, a diferença é que soltam menos fumaça porque são menores. E talvez ela seja menos suja porque sai diretamente da boca”, escrevi num caderno quando tinha sete ou oito anos. Nunca coloquei um cigarro na boca. Também não me gabo disso. Não! Minto! Coloquei sim, aquele de chocolate lançado pela pan e que trazia uma criança negra sorrindo na caixinha. Não vou negar. Fingi fumar com o cigarrinho de chocolate entre os lábios. Afinal, a ideia de fumar, por pior que fosse, preservava seu ardil romanesco nas brincadeiras.

Aos dez anos, suspeitei que o inventor do cigarro tivesse errado a escolha dos ingredientes e criado algo indesejado. Quem sabe a ideia inicial fosse fazer com que saísse algo de bom da boca das pessoas em vez de uma fumaça ruça e malcheirosa. E a ironia já subsistia no fato de que a fumaça por si só era suspeita na sua nebulosidade, como um mandrião velando suas verdadeiras intenções.

Comecei a comprar cigarros com sete anos, quando morávamos na Rua Pernambuco. Eu e meu irmão Douglas caminhávamos 100 metros para buscar um ou dois maços de Free em um bar na Avenida Distrito Federal. Por causa da fumaça, entrar lá era como subir num palco instantes antes de um show. A diferença era que o gelo seco não escurecia como a fumaça do cigarro. Nem fedia como aqueles corpos macerados pelo vício em álcool e tabaco.

Alguns sujeitos tossiam como se estivessem prestes a vomitar ou expelir pedaços de tecido do organismo. Aquela era a realidade dos dependentes mais figadais, e me vi diante dela nos primeiros anos de vida. Eu gostava do lugar, de testemunhar a salada social composta por pessoas das mais diferentes faixas etárias – onde pobres e ricos, vagabundos e trabalhadores se misturavam sem formalidades.

Ações, expressões e reações de alegria, tristeza, inconformismo, cólera, sabedoria, ignorância, tudo poderia ser encontrado no bar da Dona Maria, mãe do meu amigo Fabiano. Porém, nenhum sentimento parecia mais destacável do que um híbrido de ilusão e decepção. Naquele lugar, homens de poucas palavras chegavam sorrindo e partiam chorando assim que as aparências descortinavam as essências.

Junto ao balcão, Dona Maria mantinha um taco de beisebol, apelidado de “Juízo”, para conter os desordeiros. Repreendia bêbados, dava conselhos e às vezes alimentava os mais miseráveis. Era visceral a forma como seu semblante mudava de um segundo a outro caso alguém fizesse algo de errado. Chapas (carregadores de mercadorias), vendedores ambulantes e artistas de rua passavam por lá com frequência. Um dia ganhei um quadrinho de madeira com a minha imagem entalhada por Maneta, um escultor que viajava por todo o Brasil de carona.

Enquanto alguns sentavam diante das mesas laterais, outros preferiam o balcão, sentindo o aroma das conservas, ouvindo o som dos congeladores e da TV com caixa de madeira. Incomum era encontrar alguém no bar que não fumasse. Eu ziguezagueava pelo espaço, tentando evitar inalar a fumaça que se movia pelo ambiente como uma serpente tentando me engolir. Pior ainda era quando meu nariz entupia por causa da rinite alérgica.

Diante do balcão, eu sentava em um banquinho, balançava as pernas, pedia dois maços de cigarro e observava os doces das vitrines. Assim que Dona Maria me entregava as duas carteiras de Free, eu pagava, guardava os maços no bolso esquerdo da bermuda e o troco no bolso direito. Saía de lá desviando da fumaça e ouvindo gargalhadas e gritos de três ou quatro homens entretidos em uma partida de truco. “Ladrão! ladrão! Isso que tu é, seu porco malandro!”, berrou numa tarde um homenzarrão barbudo com voz tão grave que meus tímpanos latejaram. Me senti como se estivesse diante do próprio demônio.

Ele sentava sobre duas cadeiras em vez de uma, e sua mão chegava a ser maior do que a cabeça dos seus adversários. Assustado, assisti as cartas miúdas desaparecendo entre suas mãos. Era como se fossem miniaturas em papel. De repente, o sujeito olhou para mim e disse: “Que foi, garoto? Perdeu alguma coisa?” Sem abrir a boca, movimentei a cabeça negativamente e me afastei. Antes de pisar na calçada, vi ele tirando um Belmont do bolso da camisa, o acendendo e o tragando com tanta sofreguidão que em poucos segundos o cigarro foi reduzido às cinzas, restando apenas um filtro diminuto resvalando dentro de um cinzeiro de madeira.

Sua boca também era descomunal. Quando ele mirou o teto e expirou a fumaça, foi como se uma nuvem pesada demais para suportar a própria sustentação se formasse sobre sua cabeça, como uma névoa eivada e gulosa. Aquele era o Terebintina, fumante e bebedor profissional, diziam. Trabalhou para as maiores empresas de tabaco e destilados do Brasil na década de 1980. Não era difícil encontrar jovens e até pessoas mais velhas que sonhavam com essa vida. Beber, fumar e nada mais, sim, era o ideal de muita gente. Em casa, enquanto minha mãe sovava uma massa de pão na cozinha, comentei o que aconteceu no bar. Ela se divertiu com o meu relato embora não conhecesse o gigante mal-encarado.

Naquela época, cheguei a acreditar que o mundo era dos fumantes. Por onde eu andasse, falava-se em cigarro. Na TV, no rádio e nos outdoors perseverava a glamourização do fumo. No centro, na saída da escola, eu sempre via embalagens vazias e bitucas de cigarro próximas do meio-fio. Ofereciam até amostras grátis. E, claro, alguns tabagistas eram mais educados do que outros. Minha mãe, por exemplo, evitava fumar perto de mim e do meu irmão. Quando notava que eu o observava, meu pai copiosamente passava o cigarro da mão direita para a esquerda, tentando ocultar a fumaça por trás do livro, e declarava: “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.”

Pela manhã, vez ou outra, eu assistia minha mãe trocando os lençóis queimados pelas brasas do cigarro. Talvez aqueles furos com bordas negras significassem mais do que imaginávamos. Afinal, eram disformes e incertos como pequenos tumores. “Ontem, disse para mim mesmo que era o último. Eu não quis imaginar que seria o fim, que eu não fumaria mais até a minha morte. Preferi pensar que se eu parasse agora, teria a possibilidade de fumar de vez em quando”, escreveu Henri-Pierre Jeudy em “O Último Cigarro”.

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A casa queimada e o início da alvorada

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Glutão, o fogo tomou conta do local, formando vultosas labaredas que chamuscavam as paredes

Esquina da Rua Antônio Fachin, onde eu morava em 1985 (Foto: David Arioch)

Esquina da Rua Antônio Fachin, onde eu morava em 1985 (Foto: David Arioch)

No dia 6 de novembro de 1985, quando eu ainda era bebê e estava dormindo, minha mãe conversava na sala com um amigo chamado Jamil. De repente, meu irmão, também pequeno, se aproximou e disse: “Nossa! Tem um vermelhão enorme lá na cozinha. Vai lá ver!” Quanto mais se aproximava, mais minha mãe sentia cheiro de queimado. Glutão, o fogo tomou conta do local, formando vultosas labaredas que chamuscavam as paredes nevadas e limpas. Obscurecia tudo sem reservas e derrubava sobre o piso quente e úmido os restolhos que abrasava sem muito esforço.

Sem pensar nos danos materiais, minha mãe me pegou em seus braços, chamou o Jamil e gritou o nome do meu irmão algumas vezes: “Douglas! Douglas! Venha aqui! Venha aqui! A casa está pegando fogo. Vamos sair! Vamos sair!” E continuei dormindo no caloroso aconchego materno que me protegia da destruição que se intensificava. Minha fisionomia persistia serena. Era cedo demais para reconhecer uma tragédia. Estava imerso num mundo cândido de sonhos onde crianças são sempiternas.

Só abri os olhos grandes, pretos e redondos como duas jabuticabas quando estava fora de casa, como se ainda não me fosse permitido testemunhar os infortúnios da vida. Balancei as pernas no colo de minha mãe e num sorriso singelo e desdentado tentei consolá-la involuntariamente. Estiquei os braços para tocar-lhe o queixo, mas eram curtos demais. Mesmo assim, lágrimas mornas escorriam pelo seu rosto e desciam pelos meus braços curtos que formavam uma ponte disforme.

Soltei uma curta gargalhada e minha mãe voltou sua atenção pra mim. Percebeu que as águas salinas que desciam dos seus olhos me levaram ao riso assim que invadiram uma das aberturas da minha camisetinha regata, tocando minhas axilas e fazendo cócegas. Ela riu e me asseou com uma fralda que trazia uma estampa do Pernalonga comendo cenoura. Passivas, muitas pessoas se aproximavam para assistir a desfortuna como se estivessem prestigiando um espetáculo de piromania. As paredes da casa de madeira da Rua Antônio Fachin, perto da antiga Antarctica, em Paranavaí, caíam uma a uma, como num jogo de dominó. Vencidas pelo fogo, retumbavam e deitavam sobre o chão calcinado, expondo ao público a destruição de um todo que exigiu milhares de horas de trabalho.

Em meio ao intenso bodum de queimado, todos sentiam o sutil aroma dos pães que minha mãe fazia todos os dias. Alheia aos cochichos dos estranhos, ela se mantinha inerte, observando o empenho dos bombeiros. Nada mais podia ser feito. Tarde demais. O rompimento do teto e a queda violenta das telhas de cerâmica vermelha ecoavam um som labiríntico seguido por cortinas de poeira trigueira que velavam um vazio vertical. Tudo parecia rasteiro, menos a tristeza de minha mãe que se amplificou com a chegada das suas irmãs Paula e Smaida e do seu pai João. Eles também moravam na casa e não conseguiam acreditar no que viam. Paula que chorou desesperadamente trouxe na cesta da bicicletinha Caloi verde alguns pães caseiros que não teve tempo de vender naquele dia.

Antes que minha mãe pudesse contabilizar os estragos, alguns repórteres se aproximaram e perguntaram como ela se sentia ao ver a casa em ruínas. Apesar da voz fragilizada e rareada, respondeu educadamente: “Me sinto mal. Muito mal. Tudo que eu tinha estava lá dentro.” Minha mãe, com 27 anos, se afastou da plateia e me carregando no colo caminhou em direção aos escombros. A cada passo, sentia uma pontada no peito. O corpo estremecia e ela resistia, mais pela família do que por si mesma.

“Ainda bem que queimou só essa casa aí. Imagine se o fogo se espalhasse até as nossas? Hunf!”, comentou uma mulher. Com a chegada da polícia, os curiosos foram dispersados. Quando ficamos sozinhos, minha mãe circulou por mais de hora no centro da residência que não existia mais. Observava tudo atenciosamente e caminhava com sapatos sujos entre os detritos, tentando encontrar algo que pudesse ser aproveitado. Meu irmão, minhas tias, Jamil e meu avô faziam o mesmo. Mas a verdade era uma suplantadora de crenças e expectativas, reforçada por duas tábuas caídas no chão. Com pregos mirando o chão, formavam uma cruz acinzentada. Então minha mãe, responsável por criar dois filhos e duas irmãs, não chorou mais.

Mais tarde, Seu Dino, um alemão supersticioso que morava na Rua Minas Gerais e era amigo da minha família, nos procurou para dizer que uma casa queimada marcava o início de uma alvorada. “Não fiquem tristes. Olhe, o fogo queima todo o azar e com ele leva o arremedo de um pesar. Marca um renascimento, um sinal de reavivamento”, profetizou e citou a lenda de Benu, o pássaro egípcio nascido do coração de Osíris e que se aninhava entre ervas aromáticas antes de ressurgir após atear fogo em si mesmo.

Trinta minutos depois que Seu Dino partiu, o calor primaveril deu trégua e o sol complacente desapareceu atrás da copa de um enorme pé de manga que cobria e arrefecia nossa casa. A brisa repentina e duradoura afastou o mau cheiro de crestado, trazendo junto com o frescor da tarde, no seio do descampado, um chuvisco vaporoso com gosto adocicado.

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De mãe para filho

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É interessante como uma carta sempre diz mais do que um e-mail ou mensagem por mídia social

Eu e Má

Eu e minha mãe (Foto: Guimarães Junior!

No dia 28 de setembro de 2015, data do meu aniversário, recebi uma carta da minha mãe, escrita com tinta azul marinho num papel branco fino, quase transparente como sua intenção. É interessante como uma carta sempre diz mais do que um e-mail, do que uma mensagem por mídia social. Talvez o motivo seja o fato de que o próprio papel já chega até a mão embutido de um significado específico.

O formato elevado e relevado das letras parecem mais carregados de intenção e emoção, até mesmo independente da construção e combinação das palavras. Não sou um saudosista, mas há coisas e hábitos que merecem ser preservados. Como minha mãe é aquela com quem tenho o privilégio de ter o relacionamento mais longo da minha vida, faço questão de compartilhar o conteúdo que interpreto como um presente para a vida toda, mas principalmente para os momentos de dúvida. Que mais pais sejam diáfanos com os filhos como minha mãe.

“David, cada semana que passa você me surpreende mais com seu dom de pensar a vida. Você é um pensador. Tem uma capacidade rara de sabedoria e de sensibilidade em enxergar o que as outras pessoas não veem. Sei que tem um gosto muito apurado por histórias. É um apaixonado pelas letras e pela escuta. A leitura é o alimento da sua alma e tenho muito orgulho de você, do ser humano que é, algo raro hoje em dia, em um mundo onde as pessoas se preocupam apenas com si mesmas. Você é alguém que está sempre preocupado com os menos favorecidos. Abre mão de muitas coisas pelos outros. Faz o possível e o impossível para ajudar de algum modo. Sei que só não faz mais por falta de incentivo e sei também que por isso fica chateado às vezes. Só que nunca esqueça que as histórias que você escreve são as suas próprias lições de incentivo. Você é um vencedor. É incrível ver como você faz tantas coisas sozinho, sem ajuda de ninguém. Sou sua fã número 1. Te desejo toda a felicidade do mundo. Que Deus te proteja e te ilumine sempre.”

Te amo.

Sua mãe.

Written by David Arioch

October 4, 2015 at 7:24 pm

Meu pai e eu, a despedida que não aconteceu

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Quando segurava sua mão, eu a sentia fria e frágil. Queria apertá-la, mas temia lhe ferir os dedos

Douglas, meu pai e eu dois anos antes de descobrirmos a doença (Foto: Acervo Familiar)

Douglas, meu pai e eu dois anos antes de descobrirmos a doença (Foto: Acervo Familiar)

No dia 21 de setembro de 1997, domingo, uma semana antes do meu aniversário, eu dormia em um colchão no quarto do meu irmão Douglas quando ouvi minha mãe chamando. Olhei para a porta e a vi nos observando naquela manhã que nem a primavera antecipada garantiu o sol aquecendo nossa janela. As luzes estavam apagadas, assim como o sol que costumava invadir nossa casa com um esplendor enternecido e jubiloso.

Cães e gatos, que se engalfinhavam por brincadeira todas as manhãs, também endossavam um silêncio que ecoava um vazio inenarrável. “David, Douglas, preciso muito dizer uma coisa… É muito sério… Seu pai não resistiu e morreu…”, revelou minha mãe com olhos afogueados e um tom de voz aluído que denunciavam ter ensaiado aquele momento por várias horas. Nos calamos por segundos que pareciam minutos. Então ela se afastou, se esforçando para reprimir a emoção.

Levei as mãos ao rosto e esfreguei os olhos que formigavam mais do que lã em eczema. “Poderia ser apenas uma alucinação, vai saber.” Prossegui com a fleuma, me negando a aceitar a gravidade da situação. Afinal, na minha concepção juvenil de finitude ninguém morria até que eu o visse morto. “Não, ele não pode ter morrido. É meu pai e pais não podem viver menos de 100 anos. Como ele tem 56, ainda restam 44. Não sei onde ele tá, mas tenho certeza que vai se levantar.”

Apesar da descrença no passamento, me sentei, aproximei os joelhos do peito e divaguei pelo passado recente. Lembrei das vezes em que fiquei de castigo sentado no chão ao lado da cabeceira enquanto meu pai lia um dos quatro ou cinco livros escolhidos a cada semana; um castigo que não era tão castigo porque me permitia ler junto. Recordei também das noites em que eu tinha de tocar polca no quarto. Com o passar das horas, parecia um martírio e eu só pensava em dormir. Criança que era, não tinha a mínima ideia de que um dia sentiria falta de suas cobranças, castigos, reprimendas, discursos bravios e das vezes em que simulou me bater e judiou da cama.

Algum tempo depois, me levantei, fui até o quintal e observei o céu. Apesar de tudo, ele continuava igual, na sua apatia que prenunciava a aurora primaveril. Até a pequena plantação de hortelã seguia galharda, exalando profuso frescor. Aquilo era uma ofensa pra mim que perdi meu pai na madrugada. “Vou lá fora!”, pensei. Abri o portão, coloquei os pés na calçada e notei que o mundo não mudou porque meu pai partiu. Crianças atravessavam a rua rindo e correndo. Cães de diversos tamanhos latiam e mostravam os dentes entre as grades dos portões, tudo para tentar intimidar os passantes.

Logo ouvi o sino da igreja simulado por um disco de vinil e dezenas de pessoas caminhando até ela, assim como se repetia todo domingo. A padaria a 50 metros de casa estava aberta, recebendo os fregueses. “Por que ninguém se importa?”, me perguntei enraivecido. Quando vi sombras e vozes em frente ao portão de casa, me afastei e retornei a passos rápidos para o quarto do meu irmão.

Deitei no colchão e fiquei por lá, aventando minhas voláteis conclusões: “Claro! Se tá tudo igual é porque meu pai não morreu. Deve ser algum tipo de engano.” Então mirei o teto com a visão ligeiramente difusa e pensei que talvez fosse uma boa ideia ir até o hospital vê-lo. Em poucos minutos, veio um novo choque de realidade. Minha mãe retornou e perguntou se preferíamos ir ao velório ou ficar em casa.

Ilusão desfeita, eu e meu irmão nos entreolhamos e hesitamos por alguns instantes. No entanto, numa situação como essa, a resposta era previsível. “Prefiro ficar…”, respondemos juntos. Ela entendeu e respeitou nossa decisão, pois desde sempre não tínhamos o hábito de ir a velórios nem a enterros. No caso do meu pai em especial, a ideia de jamais vê-lo morto não era simplesmente uma forma de preservar a imagem que tínhamos dele, mas também a esperança de que um dia ele poderia retornar.

Por um momento, fui até o quarto do meu irmão Juninho, contíguo ao da minha mãe, e o observei no berço. Balançava as perninhas rechonchudas com o vigor de uma pedalada. Seus olhos grandes, redondos e castanhos cintilavam como avelãs envernizadas. A agitação hasteava a camisetinha com estampa do “Tico e Teco”, expondo a barriguinha farta. Nascido há um ano, sorria com doçura, mostrando a vivaz gengiva nua e os poucos dentinhos enquanto apontava a mão para um móbile de animaizinhos que giravam sobre sua cabeça.

A vida me parecia um jogo de chegadas e partidas. “Mas por que a partida tinha de ser do meu pai?”, reclamava. E assim minha mãe assumia total responsabilidade sobre três crianças que sabiam nada ou quase nada da vida, do mundo e dos seres humanos. Apesar de tudo, eu e Douglas não choramos, não gritamos, não brigamos com ninguém. Seguimos nossas vidas em silêncio. Nem mesmo na escola tocamos no assunto. Entre nós a reticência também era imperativa. Por que deveríamos dizer algo a alguém? Era um mundo distorcido, tanto quanto uma pintura do Otto Dix.

Com o tempo a consternação se intensificou, despertada num rompante insólito. A ausência tinha consequências progressivas – fustigava e dava lições de vida e morte. Crescia aos poucos, abrindo espaços entre o coração e o cérebro, como se formasse raízes no cerne da existência. O vácuo deixado pelo meu pai amplificava a impressão de um mundo oco em que não é dado aos bons seres a oportunidade de corrigirem suas falhas e renascerem. Com 13 anos, concluí e amarguei no coração diminuto, como uma noz prestes a ser esmagada, a ideia de que o mundo nunca foi justo porque não cabe a ele fazer qualquer tipo de justiça. Apenas segue de acordo com o curso das nossas ações, independente do nosso estado de consciência ou passionalidade.

Tardiamente, me via na esteira da dualidade, interpelando: “Que seja! Por que a vida não poderia imitar um jogo de videogame? Continuar de onde paramos. A morte deveria ser sinônimo da vida, um reinício e não um fim.” Era impossível esquecer que durante um ano e oito meses vi meu pai definhando aos poucos. Ele se esforçou para tentar levar uma vida normal. Quando recebeu a notícia de que estava com câncer de pulmão, deu um sorriso e, com um olhar sereno, comentou: “Vai dar tudo certo. É só um probleminha passageiro.”

Em Maringá, acompanhei meus pais até o Hospital Paraná em muitas sessões de quimioterapia e radioterapia. No começo, tudo ia bem. Meu pai continuava se alimentando normalmente e fazia brincadeiras enquanto aguardava atendimento. Em meses, perdeu os cabelos, mais de 20 quilos e sua pele que era rosácea se tornou translúcida e esquálida. As maçãs do rosto se afundaram a ponto de abrir fendas nas laterais que raleiam o maxilar.

Ele continuava acreditando na própria recuperação, assim como nós. Após um ano recebemos a melhor notícia de nossas vidas. Meu pai estava curado! Saímos até para festejar. Era incrível! Então a doença voltou… Depois de buscar métodos alternativos que não funcionaram, ele começou um novo tratamento no Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo. O resultado foi ainda mais agressivo e o seu peso caiu pela metade.

Era difícil reconhecê-lo, e eu já não o via tanto porque precisava ir para a escola. Em casa, meu pai repousava em um quarto adaptado à sua situação. Quando segurava sua mão, eu a sentia fria e frágil. Queria apertá-la calorosamente, mas temia lhe ferir os dedos. Seus olhos estavam mais baixos do que nunca. Quebrantado, fazia poucos movimentos com a boca e seus lábios tinham de ser umedecidos constantemente para não ficarem ressequidos e sangrarem.

Seu corpo escanzelado ocupava pouco espaço em um colchão d’água que evitava escoriações na pele delgada. Era azul como o mar e o céu que contemplou tantas vezes com uma expressão enlevada. Um dia, quando eu estava ao lado da cama sentado em uma cadeira, me pediu, com a voz embargada e paulatina, para ler um trecho de “O Andarilho das Estrelas”, do Jack London.

“…Sorri para mim mesmo um imenso sorriso cósmico e mergulhei na imensidão da pequena morte que fazia de mim o herdeiro de todas as eras e o cavaleiro de reluzente armadura a cavalgar o tempo.” Meu pai me olhou, fechou os olhos e dormiu sem desfazer o terno sorriso. Foi a última vez que conversamos.

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