David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘criança’ tag

O rato e a criança

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O rato e o chocolate

Vi um rato indo em direção à boca-de-lobo com um pedaço de chocolate. Uma garotinha se aproximou e gargalhou sem maldade. O roedor se esquivou e a criança chorou. Ninguém se entendia, parecia. Anormal e natural, dizia a lágrima que descia. Enquanto um se desprendia, o outro, coagido pela dureza vida, não se rendia.





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April 20th, 2017 at 1:19 am

Minha mãe conta…

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Minha mãe conta que quando eu era criança, não sei exatamente a série, a professora de matemática me perguntou se um dia eu não gostaria de ganhar muito, mas muito dinheiro. Hesitei por um instante, na minha inocência característica, e respondi:

— Não, num quero!
— Mas por que não, David?
— Porque vou ter que parar de brincar só pra juntar papel.

Written by David Arioch

April 11th, 2017 at 12:24 am

Ativista vegano de 12 anos tem chamado a atenção no Canadá

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Daniel: “Seu corpo é o seu templo, então você precisa comer os alimentos certos”

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Daniel Bissonnette é vegano desde que nasceu (Foto: Divulgação)

Aos 12 anos, o estudante Daniel Bissonnette está se tornando um dos mais conhecidos ativistas veganos do Canadá. Depois de passar oito anos sendo chamado de “garoto estranho” por causa da sua alimentação livre de ingredientes de origem animal, atualmente, sempre que possível, ele viaja pelo país compartilhando suas experiências com o veganismo.

Depois de sofrer preconceito por alguns anos, na 3ª série uma de suas professoras o convidou para fazer uma apresentação para a classe, falando sobre sua alimentação e os benefícios do veganismo. “A senhora Stanley veio até mim e disse que seria uma ótima ideia. Percebi que eu tinha certas capacidades que outras crianças não tinham, certas forças que vêm da forma como me alimento”, relatou a David Bell, da CBC News.

Nem por isso Daniel se vê como melhor que as outras crianças, porém, ele declarou que por meio de uma alimentação vegana suas habilidades cognitivas estão melhores do que nunca – seu cérebro tem adquirido o combustível certo. Os três alimentos mais importantes na alimentação do garoto são mirtilo, óleo de coco e cacau. “Que é do que todo chocolate é feito. [Esses alimentos] estimulam a memória, o foco e a concentração, então você pode dar o seu melhor em um exame escolar ou em um projeto em que esteja trabalhando”, declarou.

Bissonnette, que vive perto de Vancouver, importante cidade litorânea da Colúmbia Britânica, deixa claro que seu maior objetivo é inspirar outros jovens a mudarem sua alimentação e a sentirem o impacto positivo do veganismo. “Estou realmente apaixonado por ensinar as crianças a comerem um café da manhã saudável, porque eu sei que muitas têm medo de que outras crianças zombem delas por se alimentarem assim”, comentou.

Daniel, que é vegano desde que nasceu, tem compartilhado suas experiências se pautando principalmente em uma alimentação saudável e livre de ingredientes de origem animal. Segundo ele, as crianças são muito negligentes em relação ao café da manhã, que é uma refeição de extrema importância no rendimento cotidiano. “Seu corpo é o seu templo, então você precisa comer os alimentos certos e, se seus amigos o chamarem de estranho, encontre melhores amigos”, recomendou em entrevista a David Bell.

Saiba Mais

Daniel Bissonnette tem se apresentado em eventos veganos e vegetarianos e feito o seu ativismo em canais de mídia social. Ele também publicou um livro intitulado “Daniel’s Breakfast Burst”.

Referências

http://www.cbc.ca/news/canada/calgary/daniel-bissonnette-calgary-health-show-1.3999718

http://vegnews.com/articles/page.do?pageId=9117&catId=1

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Written by David Arioch

March 14th, 2017 at 12:06 pm

Humanize a criança que você colocou no mundo

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Não a deixe enclausurada no universo dos bichos domésticos (Arte: Donald Zolan)

Se você colocou uma criança no mundo, a humanize por meio da cultura, da arte. Apresente o mundo da cultura popular, da literatura, do cinema, da música, do teatro e das artes plásticas. Não há maior exemplo de diversidade do que a arte.

Sensibilize vossa criança antes que ela seja embrutecida por vias desconhecidas. Desde cedo, a estimule a se tornar uma pensadora, não uma repetidora de discursos fragilizados. Mostre que ela não está sozinha no mundo, que ela pode se reconhecer no outro, assim como o outro é capaz de se ver nela.

A leve também para conhecer os menos favorecidos. Desperte nela o entendimento de que o ser humano, independente de posição social, tem sua história e seu valor para além dos descaminhos.

Sobre os animais, não a deixe enclausurada no universo dos bichos domésticos. Mostre que todo animal tem aptidão para viver à sua maneira, e não cabe a nós julgá-los sob os enganosos augúrios da nossa superioridade e racionalidade.

Deixe claro que é na inaptidão da fala que eles se mostram mais cordiais e mais sensíveis do que nós, até porque, diferentemente do ser humano, desconhecem a pesporrência.

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Written by David Arioch

January 17th, 2017 at 2:15 pm

Em frente à Santa Casa

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Hoje, caminhando em direção à recepção da Santa Casa, uma mulher olhou para mim e falou para a amiga: “Nossa! Que barba mais linda!” Pensando que poderia ser uma piada, segui meu caminho ao me lembrar da criança que ontem me entregou um prestobarba no mercado.

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January 16th, 2017 at 1:50 pm

O Papai Noel e o muçulmano

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Na entrada do mercado, uma criança veio em minha direção e me cutucou. Sem entender, perguntei se ela queria alguma coisa. “Por que você pintou a barba de preto, Papai Noel? Por quê? Por quê?” E o tom de voz da criança crescendo e ficando cada vez mais estridente, revelando irritação.

Constrangido, e notando algumas pessoas me observando, senti um alívio quando a mãe da criança se aproximou a passos céleres. A mulher se desculpou, pegou a filha pela mão e partiu. Mais adiante, ainda ouvi um princípio de conversa entre as duas: “Ele não é papai noel, filhinha. Ele é muçulmano, e muçulmanos não gostam de Papai Noel!”

Written by David Arioch

October 20th, 2016 at 10:28 pm

O gato da Vila Paraná

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Foto: Reprodução

Querubim ouviu tiro de espingarda seguido de miado. Lá fora, na rua de terra arenosa, Ranulpho nem se mexia, estatelado sobre uma porção de folhas miúdas de sibipiruna. A boca continuava entreaberta, denunciando que a dor da morte não poupava nem os mais inocentes.

Com receio de parecer sentimental demais, o menino engoliu o choro. Fez tanto esforço que as quentes lágrimas que ameaçavam escorrer dos cantos dos olhos desapareceram. Nem conquistaram o princípio de liberdade. Encolerizado, Querubim observou Matias sobre o pé de manga, sorrindo e mirando a espingarda em sua direção. “Você quer também? Dou em você, trouxa!”, avisou o moleque. Querubim não disse nada. Só coçou a cabeça, sem se importar com a nuvem poeirenta que se formava ao redor de sua cabeça, como névoa alaranjada.

De costas para o assassino, o menino agachou e fez carícias na barriga do gato que já não sentia suas mãos sobre o pelo claro. Onde havia um par de olhos azuis, restaram pequenas massas disformes. Duas lágrimas caíram pejosas, umedecendo a boca seca do felino. Era tarde demais.

As horas passavam, e a natureza sepultava Ranulpho, cobrindo seu corpo com o solo arenoso, pouco a pouco transportado do bosque pelo vento sul. “Ô Querubim! Leva esse bicho daqui. Já vai começar a feder”, diziam. Ele só acenava com a cabeça em concordância, sem sequer mover as pernas alinhadas sobre o meio-fio.

Quando a terra arrastada pela aragem invadia a boca do gato, o menino se aproximava e a limpava usando uma toalhinha umedecida com água. No final da tarde, tentou enterrar Ranulpho no canteiro de plantas de sua mãe. Foi repreendido enquanto cavava a terra com a colher de pedreiro de seu avô. “Tá louco, menino! Aqui não é lugar de enterrar bicho!”, reclamou o avô.

O velho pegou o gato morto pelo couro do dorso e o lançou dentro de uma sacola grossa e escura. Parecia um saco para cadáver em PVC. A pendurou no guidão da bicicleta de aros tortos e pedalou até o lixão do bairro mais próximo. Retornou sem dizer palavra. Entrou na cozinha, tomou um gole de café amargo e deitou na rede.

Querubim assistia o velho, querendo saber o que ele fez com Ranulpho. Sem coragem de perguntar, lembrou de uma lei imposta na Vila Paraná na década de 1970, quando três cães de grande porte mataram dois bebês. “Ninguém mais pode entrar aqui com animais. E se alguém matar, não pode chorar nem enterrar, senão vai se ver comigo”, declarou Mandino Conselheiro, a quem a população recorria sempre que surgia algum problema no bairro.

Sob um pé de mamão, Querubim observou o avô até a hora em que o velho dormiu na rede. Chorou e gritou com a mão na boca. Também açoitou as próprias pernas e costas com os galhos do mamoeiro. Ninguém ouvia. Os vergões se multiplicavam. Ele não se importava. Deitou na terra e sentiu gosto acre na boca, misto de terra e sangue.

Amanheceu no seu colchão velho, enrolado num lençol branco encardido e cheio de furos. Pelo buraco no teto, o sol mirava pacotinho de ração ladeado por tampa com água. Querubim levantou e correu até a entrada do barraco onde vivia com a mãe e o avô. O casebre ameaçava cair há anos, porém resistia.

Sentou no chão e usou pedaço de graveto para desenhar Ranulpho. Quando terminou, cochilou com as costas escoradas na cerca de madeira e arame farpado. Em sonho, ouviu um ronronar que lhe arrepiou até os pelos que não possuía. Abriu os olhos e, sob sua mão esquerda, Ranulpho marcava território mais uma vez, esfregando o pelo sujo e macio.

O odor de lixo passou despercebido, não o miado de fome. Chorando, Querubim tomou o gato cego e derreado nos braços. O levou para dentro de casa e de lá não saiu mais naquele dia. A história de Ranulpho e Querubim mudou a Vila Paraná no final dos anos 1990: “Quem não vê amor num animal, não vê amor em si mesmo”, disse Neto Conselheiro, filho de Mandino.

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Written by David Arioch

September 24th, 2016 at 5:57 pm

Paulinho e a fazendinha das abelhas

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“Cadê o dourado do sol cobrindo a fazendinha das abelhas?”

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Parou de lacrimejar e sorriu, levantando as mãos para o firmamento, onde o zunido da última abelhinha ecoou como um tipo de agradecimento (Pintura: Delilah Smith)

Até os sete anos, a maior alegria de Paulinho era acordar cedo para comer algumas bolachinhas de mel, tomar um copo de suco de laranja e sair para brincar com os amiguinhos. O doce sabor do alimento fazia sua língua acidular. Com satisfação, ele sempre dizia: “Eita, delícia!”

Iogurte com mel, banana com mel, panqueca com mel, bolo de mel, torta de mel e bala de mel. Tudo que tinha o néctar das abelhas o alegrava. E depois de comer, não era raro o garotinho ludibriar os pais, fugindo da obrigação de escovar os dentes. Entrava no banheiro, fechava a porta, molhava a escova de dentes e a esfregava contra a palma da mão esquerda, fazendo barulhinho ardiloso.

Após dois ou três minutos, saía de lá sentindo-se vitorioso, roçando a língua entre os dentes e absorvendo o aroma de mel da própria boca. “Amo mel! Queria que minha boca nunca perdesse o cheiro de mel”, refletia copiosamente.

E era verdade. Paulinho gostava tanto de mel que seu quarto foi decorado como se fosse a mais romanesca das colmeias. Havia abelhas e zangões bem pintados nas quatro paredes. Sobre a cômoda, repousavam alguns espécimes elétricos – todos sorriam. O destaque era um zangão de brinquedo que voava perdido num voo sem sentido, porém divertido.

Em seu mundinho era impossível conceber a ideia de que abelhas e zangões não fossem felizes. E as maiores provas estavam nos desenhos animados que assistia, nos livrinhos que o apraziam e nas histórias em quadrinhos que o satisfaziam. Tudo parecia tão belo.

Paulinho acreditava que as abelhas davam mel às pessoas em troca de algo que ele ainda não tinha descoberto o que era. “O que será que elas ganham? Tem que ser algo muito mais gostoso do que mel. Será que existe?”, monologou. Um dia, se surpreendeu quando seu amiguinho Inácio contou que seu pai descobriu a localização de uma fazenda de mel.

— Vamos dar um jeito de ir lá ver como é, Inácio. Agora fiquei curioso.

— Eu também, Paulinho. Já sei! Vamos inventar uma história pra conseguir visitar esse lugar.

Para convencer sua mãe a levá-los até a fazenda apícola, Paulinho disse que a professora deu um trabalho sobre a vida das abelhas. “Depois ela quer que a gente escreva sobre tudo que vimos lá”, justificou. Como ele jamais tinha mentido, a mãe estranhou a tarefa, mas não o questionou.

O primeiro sinal de estranhamento dos meninos surgiu quando eles perceberam que a fazenda não era tão colorida como nas historinhas infantis. Parecia opaca demais para ser real. Não havia nenhum tipo de brilho no local, somente dezenas de caixas velhas e sujas de madeira rodeadas por árvores fragilizadas, com galhos secos que se inclinavam como se suplicassem pelo despertar da vida em suas mais variadas formas.

A terra nua persistia áspera, arenosa e rala, onde poucas porções de gramíneas se esforçavam para brotar do chão choroso.

– Cadê o girassol e o dourado do sol cobrindo a fazendinha das abelhas? Por que tem pessoas aqui e nenhuma abelha veio receber a gente?

— É mesmo, Paulinho! E que roupa estranha é aquela que tão usando ali?

— Acalmem-se, meninos! É cedo ainda para começar a reclamar.

Logo um homem carregando uma máscara se aproximou para recebê-los. Era o administrador da Fazendinha Douradina, de onde saía o mel que Paulinho tanto apreciava.

— Vieram conhecer nosso trabalho? Sejam bem-vindos, meus amigos!

— Cadê as abelhas?, questionou Paulinho sem titubear.

— Elas estão naquelas caixas ali.

— Ué, mas cadê a colmeia? Aquilo não parece uma, reclamou Inácio.

Sem saber o que responder, o homem desconversou e os convidou para irem até a área industrial da fazenda, onde o mel era processado e embalado. Antes de segui-lo, Paulinho não gostou de ver pessoas manipulando as abelhas nas caixas. Quanto mais eles mexiam, mais os insetos ficavam agitados. Paulinho e Inácio sentiram o desconforto das abelhas através da frequência dos zunidos.

No depósito, enquanto passeavam por expositores com milhares de potinhos de vidro, que traziam na embalagem abelhinhas felizes voando sobre um caldeirão de mel, Paulinho perguntou onde era o banheiro. Disfarçadamente caminhou até um senhor que observava o trabalho da equipe de apicultores.

— Você sabe o que eles estão fazendo ali?, perguntou Paulinho.

— Sei sim. Estão se preparando para substituí-las. Com esse calor e trabalhando na produção de mel, as operárias cansam muito rápido, não vivem mais do que 45 dias. Vão trocar também a Rainha porque ela fez dois anos e está colocando menos de dois mil ovos por dia. Inclusive já devem ter achado as “realeiras”. É difícil evitar que elas morram nesse processo, revelou o motorista da Fazendinha Douradina.

Paulinho ficou surpreso, sentiu os olhos fumegantes e se esforçou ao máximo para não chorar. Seus lábios tremiam e ele não conseguiu desfazer o bico. Sensibilizado, o homem se arrependeu de ter contado a verdade.

— Não, filho! Não é bem assim. Não fique triste, por favor!

De repente, Paulinho sentiu uma leve picada na panturrilha. Quando se agachou, viu uma abelhinha estonteada desfalecendo sobre o chão calcinado. Junto dela, contou mais sete, oito, nove, dez abelhas mortas.

— Nunca mais vou comer nada com mel! Juro por tudo!, berrou o menino antes de correr até os caixotes e derrubar um por um com as próprias mãos nuas. Contrariando todas as probabilidades, as abelhas não atacaram Paulinho, simplesmente partiram voando e zunindo, deixando para trás tudo que produziram.

Quando os apicultores perseguiram o menino, o motorista gritou:

— Não! Deixem ele! Toda criança tem razão porque sua ação vem da pureza do coração.

Cansado, Paulinho deitou ileso numa porção de relva que parecia ter brotado naquele momento, aspirando à vida que ele assistia preenchendo o céu em forma de abelhas. Parou de lacrimejar e sorriu, levantando as mãos para o firmamento, onde o zunido da última abelhinha foi interpretado por ele como um tipo de agradecimento.

O suposto motorista era na realidade o dono da Fazendinha Douradina. Ele não repreendeu Paulinho. Também não se queixou com a mãe do menino. Muito pelo contrário, o agradeceu. No final da tarde, não havia mais abelhas nem mel no local. Pela primeira vez em 20 anos a fazenda fez jus ao próprio nome, quando a luz inédita do sol dourou tudo que renascia sob o canto de um rouxinol.

Curiosidade

“Realeira” é uma grande célula de onde emerge a nova rainha.

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Written by David Arioch

August 21st, 2016 at 11:25 pm

Tazinha e a galinha Jurema

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Aquele molho envolvia partes de um ser idêntico àquele que corria pelo quintal com o viço de uma criança

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Para conquistar a ave, Tazinha correu para dentro de casa e perguntou: “Mãe, o que a galinha come?” (Foto: Reprodução)

Tazinha chegou em casa e encontrou uma galinha. Ela nunca tinha visto uma de perto, a não ser descaracterizada dentro de uma panela, dividida em peito, pés, coxas e outras partes que depois de consumidas davam a impressão de que o animal reduzido a alimento jamais existiu.

Com cinco anos, Tazinha não imaginava que aquele molho vermelho e borbulhante cobrindo fatias grossas de batata-inglesa envolvia partes de um ser idêntico àquele que percorria o quintal com o viço de uma criança. Quando viu a garotinha de olhos amendoados e graúdos, a galinha se escondeu atrás de um pedaço de capoeira e cacarejou, mantendo os olhos castanhos e vibrantes bem esgazeados. Também abriu as asas mescladas de preto, amarelo e branco e esfregou os pezinhos em uma porção de terra arenosa, fazendo poeirinha.

Para conquistar a ave, Tazinha correu para dentro de casa e perguntou: “Mãe, o que a galinha come?” Então caminhou até a despensa, afundou a mãozinha em um fardo de ração com cheiro de farelo de milho e se apressou em direção ao quintal, arrastando os chinelinhos e deixando um rastro louro como o sol daquela manhã de verão. Ainda desconfiada e hesitante, a galinha a assistiu estendendo as mãos e os farelos deslizando entre os vãos de seus dedos miúdos. Tazinha sorriu apreensiva. Não sabia se devia se aproximar mais ou simplesmente lançar o que restou da ração sobre o chão de terra batida.

Tomou uma decisão. Se ajoelhou, fez um coraçãozinho na terra com o dedo indicador da mão direita e o preencheu com os farelos. Logo que a galinha deu o primeiro passo, Tazinha recuou quase 20 metros, sentou à sombra da jabuticabeira e assistiu a ave se alimentando. Vez ou outra, erguia a cabeça e observava a criança. “Seu nome vai ser Jurema”, disse antes de engolir uma jabuticaba e enterrar a casca. A galinha a olhou rapidamente, cacarejou e continuou comendo, sem levantar a cabeça. Depois daquele dia, sempre que Tazinha corria até o quintal, Jurema a aguardava.

Balouçava as asas e caminhava até a garotinha que a abraçava e acariciava suas penas com o dorso da mão direita. Tazinha sentia cócegas quando a galinha se espichava, esfregando a plumagem contra o seu pescoço. Sua gargalhada era tão alta que atraía a atenção de vizinhos curiosos que penduravam no muro para ver o que estava acontecendo. Em menos de uma semana de convivência, Jurema começou a presentear Tazinha com preciosidades que ela encontrava no quintal.

“Que linda, Jurema!”, comentou assim que a galinha abriu o bico e lançou uma pedrinha colorida na palma de sua mão. Com os presentes, Tazinha fez um colar. Numa noite, quando seus pais questionaram o porquê dela nunca tirá-lo do pescoço, ela respondeu: “Ué, porque a Jurema é minha melhor amiga e quero sempre sentir ela pertinho de mim. Ela teve tanto trabalho pra juntar as pedrinhas.”

Tazinha gostava tanto da galinha que após muita insistência seus pais permitiram que ela levasse Jurema para passear pelas ruas pelo menos três vezes por semana. “Ela também quer se divertir”, justificava, crente de que sua amizade com a galinha seria eterna, e que as duas nunca se separariam. Porém, quando a galinha estava perto de completar seis meses, ela ouviu uma conversa que a entristeceu:

— A galinha que meu irmão deu tá ficando velha, quase seis meses de vida já. Se demorar mais, passa do ponto. E o Alberto chega no final de semana e quer galinha caipira ao molho pro almoço de domingo – disse o pai.

— Meu Deus! E o que vamos falar pra Tazinha? – perguntou a mãe.

— A gente arruma outra galinha pra ela – respondeu o pai.

Desesperada, Tazinha correu até o quintal, pegou a Jurema, a levou até o seu quarto e a escondeu dentro do guarda-roupa, onde passou a noite abraçada com a galinha. Pela manhã, seus pais ouviram um som suspeito vindo do quarto. Encontraram Tazinha chorando e acariciando as penas de Jurema que se mantinha em silêncio, com o bico recostado em seu ombro.

— Por favor! Não mata ela! Eu não sabia que a carne da panela vinha dos bichos. Olha, a Jurema anda, brinca e fica assustada que nem a gente. Coloca a mão aqui, pai! Coloca, mãe! Dá pra sentir o coraçãozinho dela batendo forte. Não mata ela! Por favor! Ela só quer viver!

No domingo, quando Alberto, tio de Tazinha, chegou para o almoço, ele se aproximou do fogão e ergueu a tampa da panela. “Mas que cheiro delicioso é esse, cunhada? Que maravilha!”, declarou. Lá dentro, o molho vermelho borbulhava, exalando olência da combinação de batata, cebola, alho, cebolinha, salsinha, tomate, páprica, azeite e folhas de louro. No quintal, Tazinha amarrava uma fitinha no pescoço de Jurema antes de alimentá-la com um pouquinho de ração.

— Por isso, você me olhou assustada no primeiro dia que te vi. Desculpa! Não precisa mais ter medo, Jurema. A gente nunca mais vai comer carne aqui em casa. Prometo!

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Written by David Arioch

July 24th, 2016 at 2:27 pm

“Ô tio, não leva meu pai! Por favor!”

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“Não leva ele hoje. Ele não teve nem tempo de ficar com a gente”

Há um tempinho, após uma entrevista, saí de uma residência no Conjunto Dona Josefa, na periferia de Paranavaí, e lá fora fui abordado por uma criança que morava na casa vizinha. “Ô tio, não leva meu pai! Por favor! Não leva ele hoje. Ele não teve nem tempo de ficar com a gente”, disse o garotinho de quatro anos com olhos marejados.

Enquanto falava, a criança usava sua trêmula mão esquerda para segurar sem jeito dois dedos da minha mão direita. Expliquei a ele que eu não estava atrás do pai dele. “Por favor, tio! Por favor, deixa ele com nós! Hoje é meu aniversário! Juro que nunca mais faço arte na minha vida!”, continuou repetindo. Depois cruzou os dedos indicadores das mãos e os beijou num estalo sem igual fazendo promessa em forma de sinal.

Só se acalmou quando mostrei meu caderno, meu gravador e minha caneta. O garotinho sentiu um alívio tão grande que seu sorriso se transformou em uma gargalhada. De repente, começou a saltar sobre um pedaço de toco queimado rente ao portão.

Ele estava eufórico e queria dividir isso até com quem não notava sua existência por causa da pequenez. Quando parou de pular, ficou rubro de vergonha e correu para dentro de casa arrastando um par de chinelinhos com elástico junto aos calcanhares. Naquela noite, mais do que uma festinha, ele teria seu pai dormindo em casa.