David Arioch – Jornalismo Cultural

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Funk faz jovens da Vila Alta sonharem com o sucesso  

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Adolescentes cantam sobre desejos de riqueza e a difícil realidade da periferia de Paranavaí

MC Neguin une a sonoridade do funk com a consciência social do rap (Foto: David Arioch)

MC Neguin une a sonoridade do funk com a consciência social do rap (Foto: David Arioch)

Foi numa terça-feira às 9h que estacionei o carro em frente a uma casa da Rua B, na Vila Alta, periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Danilo Medeiros França, de 15 anos, estava ansioso, sentado em uma cadeira sobre a calçada aguardando a minha chegada para uma entrevista. Como o conheço há anos, o jovem logo ficou à vontade para conversar sobre uma transformação cultural que tem chegado a todos os bairros marginalizados de Paranavaí. Estou falando da expansão do funk e o que o gênero representa para uma juventude cada vez mais suscetível ao mundo do crime e das drogas.

Na internet e nas rodinhas de discussões de quem não vive a realidade da periferia, o gênero é bastante criticado. Não faltam pessoas se empenhando em desqualificá-lo culturalmente. O acusam de ser imoral, contraventor, de objetificar as mulheres, de usar linguagem obscena, de fazer apologia ao crime e também de abordar temas superficiais. Em meio a tanto preconceito por se identificarem com um estilo musical ainda impopular em Paranavaí, jovens que moram na Vila Alta estão se unindo para mostrar que o funk vai muito além do senso comum. É um gênero com muitas ramificações e algumas surgiram da necessidade de sonhar e lutar contra a invisibilidade social.

Em Paranavaí, desde os anos 1990 o rap era o gênero preferido dos jovens da periferia, realidade que começou a mudar no final da década passada. Dois fatores podem ser apontados como determinantes para o crescente interesse local pelo funk. Um é a facilidade de acesso à internet, o que permitiu que os jovens da Vila Alta acompanhassem e se identificassem com o mundo dos funkeiros das periferias de São Paulo e Rio de Janeiro que viviam na pobreza e conquistaram o sucesso. O outro é a influência de migrantes paulistanos e cariocas que constantemente chegam aos bairros periféricos de Paranavaí. Junto com suas aspirações econômicas, ou seja, de um futuro melhor, trazem também uma bagagem cultural que desperta sonhos e admiração.

Hoje o funk é adotado por esses jovens como símbolo de contestação social. E até mais do que o rap porque tem um poder de popularização ainda maior, além de garantir um retorno financeiro mais rápido e maiores chances de ascensão social. Ainda assim, é unânime o desejo dos funkeiros da Vila Alta de Paranavaí, onde a cultura paranaense se mistura e se confunde com a paulista, de não abandonarem a periferia. “Se pudesse, ‘fechava’ lá pra São Paulo e ‘caía’ pra show. Já era! Depois é só voltar pra cá, construir uma casa e continuar morando aqui”, diz o funkeiro Danilo França, mais conhecido como MC Neguin da VL.

Garoto prodígio das rimas e considerado uma das promessas do funk local, Neguin começou a cantar com dez anos quando seu irmão mais velho lhe mostrou “os piás das quebradas mandando a letra”. “Pensei comigo: ‘Po, tenho o dom. Por que não vou cantar? Comecei aqui mesmo, também com o incentivo do MC Luan”, explica. Para “destravar”, termo que os funkeiros usam em referência ao momento em que conseguem rimar sem gaguejar, Neguin, que na época era chamado apenas de Danilo, ia todos os dias até o Bosque Municipal de Paranavaí, onde aproveitava a solitude e o anonimato garantido pela mata densa para cantar sem constrangimento.

MC Rodrigo: “O pessoal do bairro curte e incentiva pra fazer as músicas mais ‘massa’” (Foto: David Arioch)

MC Rodrigo: “O pessoal do bairro curte e incentiva pra fazer as músicas mais ‘massa’” (Foto: David Arioch)

Quando perdeu a timidez e ganhou a habilidade de fazer “rima na hora”, começou a escrever as primeiras músicas. “Quem trouxe as ideias pra gente foi o MC Caíque, de São Paulo. Ele ensinava a gente sobre o funk. Falava como era, como funcionava e incentivava a cantar. Se hoje temos isso na Vila Alta, foi graças a ele”, garante e acrescenta que o amigo retornou para São Paulo. Da primeira parceria entre MC Luan, MC Neguin e MC Caíque, nasceu a composição “Vem com nós, bandida”, uma música que convida uma moça para um passeio. “O refrão é assim: ‘Vem com nós, bandida! Vem com nós, bandida! Esbanjar de Santa Fe e se preferir na Captiva’. Fizemos essa, mas depois não quis mais saber desse funk não”, comenta Neguin que escreveu a letra quando ainda trabalhava fazendo fretes com uma carroça.

Sobre a vertente ostentação, o funkeiro gosta de falar de automóveis, motos e casas que sonha em ter um dia. Cita como exemplos Lamborghini Gallardo, carros de luxo da Mercedes-Benz e motos Honda CB 600 (Hornet), Suzuki Hayabusa, Yamaha R1 e Honda CBR 1000 Repsol. São veículos que Neguin costuma ver enquanto navega pela internet. “No mundo que a gente vive, você só existe e é respeitado pelo que tem”, destaca o adolescente, justificando porque os jovens da periferia gostam de falar de ostentação.

Enquanto converso com o funkeiro, outros garotos com idade entre 12 e 15 anos se aproximam e dão depoimentos que confirmam o fato de que conversar sobre riquezas e ouvir músicas sobre o tema faz com que se sintam melhor, esperançosos de uma vida completamente diferente da atual. “Acho que falar de riqueza atrai riqueza, né? São coisas boas”, frisa o menor da turma que usa um chinelo de cada cor e de tamanhos diferentes. De acordo com MC Neguin da VL, que atualmente está no primeiro ano do ensino médio e ocupa o tempo com cursos e oficinas gratuitos, o funk é mais uma chance de conquistar melhores oportunidades. “Com dinheiro, dá pra estudar até em faculdade particular. Respeito a gente já tem, pelo menos aqui na ‘quebrada’. Só falta o dinheiro”, pontua com uma risada expansiva.

Com apenas 15 anos, o MC tem conquistado popularidade na periferia por cantar sobre a realidade da Vila Alta. Neguin une a sonoridade do funk com a consciência social do rap. Quando o pai estava preso, costumava visitá-lo no Setor de Carceragem Temporária (Secat) da 8ª Subdivisão Policial (SDP) de Paranavaí. Lá, o adolescente ouvia histórias sobre a vida dos presos. “Comecei perguntando pro meu pai como era a vida lá dentro. Então trazia na ‘mente’, chegava aqui e ‘destravava’. Eu era muito curioso sobre a rotina desses caras”, argumenta. Uma das preferidas do MC Neguin da VL e de muitos moradores da Vila Alta é a música “Essa é a vida do Magrão” que fala de um homem que deixou Foz do Iguaçu, veio a Paranavaí praticar um assalto e acabou preso. “O Primeiro Comando da Capital [PCC] pegou o ‘bonde’ pra ir pro presídio e os outros ficaram. Daí planejaram uma fuga, houve rebelião e ele acabou morto”, confidencia Neguin.

MC Leozinho: “A gente filma, dança e se vira como pode” (Foto: David Arioch)

MC Leozinho: “A gente filma, dança e se vira como pode” (Foto: David Arioch)

Se um dia surgir uma oportunidade de gravar uma música em estúdio, o adolescente diz que “Essa é a Vida do Magrão” deve ser a primeira a ser lançada. “Vou te passar um trecho: ‘A minha coroa chora toda noite. É só decepção. E nessa vida louca é só momento de tensão. Não é fácil não. Não é fácil não’ e vai indo. Falo também da mulher dele que agora ficou sozinha”, exemplifica e ressalta que as suas maiores distrações são um caderno e uma caneta.

Além do homem conhecido como Magrão, MC Neguin da VL escreveu mais seis músicas sobre presos que estão no Secat da 8ª SDP. “O dia que cantei pra eles, alguns choraram e falaram: ‘Ô louco, que som da hora!’ Meu caminho é mostrar que o mundo do crime não vale a pena. É pura ilusão e não traz nada de bom. Por isso falo das coisas da cadeia e da vivência, principalmente quando tudo acaba mal”, defende o adolescente que escreveu 46 composições de funk em cinco anos. Cada letra levou de duas a três horas para ficar pronta.

Entre as músicas do MC que agradam principalmente os adolescentes da Vila Alta também estão “Os magnatas”, “Será que nasci pra folgar”, “Minha história em cima do funk”, “As minas do poder” e “Os mais mais da quebrada”. “Aqui em Paranavaí a gente fica mais na Vila Alta. Não temos onde ir pra mostrar o nosso funk. A chance só aparece quando tem comício, essas coisas. Daí ficamos o tempo todo perto do palco pedindo um tempinho pra cantar”, relata Neguin da VL.

O MC gosta de percorrer as ruas do bairro incentivando a garotada ociosa a “soltar a rima”. O objetivo é fazer com que percam a vergonha e se ocupem com alguma atividade que os afaste do mundo das drogas e do crime. “Vejo a molecada à toa e falo: ‘Rapaz, vamos mandar uma rima aqui pra ver’. Tem muito piá aqui com 10, 11 anos que já ‘manda bem”, avalia. Alguns ficam empolgados com a iniciativa, outros demonstram descrença. Se queixam que em Paranavaí ninguém vai querer ajudar na divulgação. “Pensam que isso só dá certo em São Paulo. Tento animar eles e digo: ‘Mas por que o Paraná não pode? Não! Isso tá errado. Tem que ter aqui também”, enfatiza Neguin.

A primeira experiência do MC se apresentando fora da Vila Alta foi no Jardim Oásis, em uma lanchonete. “Me perguntaram se não tinha putaria na música. Expliquei que não e subi pra cantar. Foi bem legal. No final, o dono da lanchonete me deu os parabéns e disse que ajudei com a freguesia”, comemora. Na Vila Alta, até quem não é afeiçoado ao funk admira o empenho de Neguin que detém o recorde de 16 minutos rimando sem parar. O funkeiro treina todos os dias e de vez em quando participa de disputas de rimas com MCs de outros bairros. “Lá no Jardim Santos Dumont, a gente geralmente marcava encontro em uma lan house. É divertido participar desses duelos”, afirma. Além da Vila Alta, o cenário do funk em Paranavaí tem representantes no Jardim Santos Dumont, Ipê, Renascer, Morumbi, Coloninha e Matarazzo.

Sem dinheiro para investir em produção profissional, Neguin da VL se reúne com Leonardo Matheus Alves, o MC Leozinho, e Rodrigo Weslley Silva Bento, o MC Rodrigo, para improvisarem nas gravações. Juntos, percorrem uma estrada de terra até chegaram ao fim do bairro, onde tiram os telefones celulares dos bolsos, entram no aplicativo MPC, selecionam uma das nove bases musicais oferecidas pelo programa e iniciam a gravação. “É fácil, mas a qualidade não é boa. A gente também coloca uns vídeos no YouTube, filmados com a câmera do celular. Conecta um cabo em uma caixa pra dar mais batida, liga o microfone e manda ver. Depois edita no Video Trim e já era. Só no improviso”, esclarece Neguin.

Neguin, Rodrigo e Leozinho se dedicam ao funk quando não estão estudando (Foto: David Arioch)

Neguin, Rodrigo e Leozinho se dedicam ao funk quando não estão estudando (Foto: David Arioch)

O que também pode ajudar o adolescente a ganhar projeção é a parceria com funkeiros de outras cidades e estados. Há pouco tempo o rapaz recebeu um convite para gravar com um conhecido grupo de São Paulo. “Ainda não posso divulgar o nome, mas a vantagem é que isso pode chamar atenção pra minha música”, acredita. Outro diferencial é que Neguin da VL mantém contato com MC G3, MC Boy do Charmes, DJ Perera e DJ Wilton, nomes famosos entre funkeiros de todo o Brasil. “Tô na luta, não posso parar não”, reforça.

“Nossa, louco aí, ó. Só escutando o MC Guimê e pá, vixi”

Quando eu estava terminando de conversar com o MC Neguin da VL, chega Rodrigo Wesley Silva Bento, o MC Rodrigo, de 15 anos, que encosta a bicicleta personalizada rente ao meio-fio. Com um cabelo trançado e um estilo inconfundível, o adolescente conta: “Comecei junto com o Neguin. Eu tinha uns 12 anos. Nossa, louco aí, ó. Só escutando o MC Guimê e pá, vixi. Curtia, né?”, lembra enquanto ajeita o corpo sobre o banco de uma bicicleta vermelha que traz no quadro uma arte feita com barbante. No bairro, a garotada usa a criatividade para se destacar das mais diversas formas. Sem dúvida, um jeito de mostrar que é possível ser original mesmo sem grana.

Rodrigo é quem produz as músicas de Neguin. Se considera um curioso e está sempre pesquisando na internet sobre edição de som. “A primeira dele que produzi foi no ano passado. Antes ele só cantava por aí, daí dei a ideia da gente gravar com o celular até surgir um recurso melhor. O pessoal do bairro curte e incentiva pra fazer as músicas mais ‘massa’”, assegura e faz questão de definir o funk do amigo como suave, ‘de boa’, ‘não pesadão’. O adolescente está aprendendo a usar o Fruity Loops Studio, um aplicativo de edição profissional. “É difícil, mas estou me esforçando. Não podemos gravar as músicas em celular pra sempre. Eu e o Danilo ajudamos um ao outro. Só que quem tem o dom para o funk é ele, né?”, avisa.

MC Luan: “Mesmo que um dia eu conquiste o meu espaço, não vou abandonar a Vila Alta” (Foto: David Arioch)

MC Luan: “Mesmo que um dia eu conquiste o meu espaço, não vou abandonar a Vila Alta” (Foto: David Arioch)

Estudante do primeiro ano do ensino médio e aluno de um curso técnico de informática, Rodrigo sonha com dias melhores. “Nos reunimos todo sábado e domingo pra cantar, gravar alguma coisa ou compartilhar o que aprendemos. Tomara que venham boas oportunidades pra gente”, frisa o jovem que tem preferência pelo funk que fala da “realidade das quebradas”. Outro adolescente, também de 15 anos, que chega animado à Rua B para falar do assunto é Leonardo Matheus Alves, o MC Leozinho. Incentivador, é o responsável por gravar alguns vídeos do MC Neguin da VL.

“Já faz um tempo que estou aí com os moleques. A gente filma, dança e se vira como pode. Tem que ajudar pra ver no que vai dar na vida aí, né, não, Neguin?”, diz sorrindo. Leozinho se esforça para divulgar o trabalho do amigo no YouTube e no Facebook. Admite que apesar das limitações técnicas fica feliz quando as pessoas curtem, compartilham e comentam os vídeos. “O funk é ‘massa’, né, ‘véi’? Curtição, né? É legal quando fala de ostentação, mas é melhor ainda quando é sobre a realidade do povo da periferia”, enfatiza.

Ao final da entrevista, quando eu estava indo embora, ouvi um homem gritando: “Danilo, chega aí! Rapidinho!” O convite era para ajudar a empurrar um carro em uma estrada de chão, no cruzamento com a Rua B. Enquanto sonha com a ostentação, Danilo Medeiros França, o MC Neguin da VL, faz questão de mostrar que quem busca o sucesso não pode virar as costas para os amigos e os problemas da comunidade. “Tem que ajudar, valorizar as origens, né?”, assinala.

“A inspiração vem da ‘quebrada’ mesmo. O que eu vejo vira letra”

Uma semana depois da primeira bateria de entrevistas com os funkeiros da Vila Alta, eu e o MC Neguin da VL deixamos a Rua B e subimos pouco mais de 500 metros até chegar a um conjunto habitacional onde mora Luan Ferreira Silva Lomes, o MC Luan da VL. Com apenas 18 anos, o funkeiro é o pioneiro do gênero na Vila Alta. Tímido, demora um pouco para se sentir à vontade, mas faz questão de esclarecer logo no início da conversa que canta porque quer ajudar a população do bairro. “Mesmo que um dia eu conquiste o meu espaço, não vou abandonar a Vila Alta. Tem muita gente necessitada aqui. A comunidade está cheia de crianças sem nada pra vestir ou comer. Meu sonho é fazer a diferença”, garante o rapaz que teve como primeira referência o MC paulistano Zóio de Gato, falecido em um acidente de trânsito aos 16 anos em 2009.

MC Neguin e MC Luan, duas referências do funk da periferia de Paranavaí (Foto: David Arioch)

MC Neguin e MC Luan, duas referências do funk da periferia de Paranavaí (Foto: David Arioch)

Há seis anos cantando funk, MC Luan é uma importante influência para Neguin da VL. Quando começou a se interessar pelo gênero, Luan foi incentivado por MC Caíque, de São Paulo, que morou um bom tempo na Vila Alta. “Falou que minhas rimas têm bastante qualidade. Aquele era um piá firmeza, hein?”, declara o rapaz que tem seis músicas bem conhecidas no bairro.

O primeiro funk do MC Luan, que cita como inspiração MC Lon, um dos ícones do funk ostentação, foi “O sabadão chegou”. Escrita há quatro anos, a música fala dos prazeres do final de semana. “Hoje a inspiração vem mais da ‘quebrada’ mesmo, da nossa realidade. O que eu vejo vira letra”, justifica. Se pudesse gravar uma de suas composições, o MC gostaria de lançar “Ela é a mais mais”, composição sobre uma moça do bairro que gosta de baladas. Quando saem pelas ruas da Vila Alta cantando, MC Luan e MC Neguin alternam rimas e beatbox. “Por enquanto improviso no celular, gravo brincando. Se um dia aparecer uma boa oportunidade, vou levantar as mãos pro céu e agradecer muito”, promete MC Luan da VL.

Letra parcial de uma música do MC Neguin da VL. A composição foi inspirada na história de um morador da periferia de Paranavaí.

“Deus, me perdoa. Entrei nessa vida simplesmente à toa. Mulheres lindas e o bolso sempre cheio. Whisky na balada e as mulheres no meio. Dinheiro fácil nem sempre é bom. Mundo das drogas, não passa de ilusão. Cheio de malote, eu nunca ligava se pegava cinco, pegava tudo e gastava. As patricinhas tudo vindo atrás. Meu poder ia crescendo a cada momento. Cheguei a ser gerente do grande movimento. Minha responsa era foda e eu não podia vacilar. Num triste dia minha casa caiu. Fecharam minha cachanga com mais de 20 fuzil. Desespero era foda, não aguentava correr. Mas ao mesmo tempo eu sabia que podia morrer. Me entreguei e hoje estou aqui dentro. São várias amizades no mundo lá dentro. Naquele mundo de mulheres, eu só tinha mulher boa. Hoje quem me faz visita é só minha coroa. Só quero sair daqui, nem vou me vingar. Deus sabe o que faz, só quero me libertar.”

Curiosidade

O VL no nome artístico dos funkeiros é uma homenagem ao bairro de origem, a Vila Alta.

Contatos

MC Neguin da VL: (44) 9750-6899

MC Luan da VL: (44) 8806-9585

Oficina do Tio Lú no Encontro com Fátima Bernardes

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Artista plástico de Paranavaí recebeu a equipe do programa ontem

Tio Lú, alguns garotos da oficina e a equipe do Encontro com Fátima Bernardes (Foto: David Arioch)

Tio Lú, alguns garotos da oficina e a equipe do Encontro com Fátima Bernardes (Foto: David Arioch)

Anteontem, eu estava retornando de Curitiba, quando parei em Califórnia por volta das 22h para atender uma ligação. Era o Tio Lú, artista plástico da Vila Alta, de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, que faz um trabalho de recuperação de crianças em situação de vulnerabilidade social. Feliz, me contou que ontem de manhã receberia a equipe de jornalismo do programa Encontro Com Fátima Bernardes, da Rede Globo. Emocionado, me agradeceu várias vezes pela divulgação da sua oficina em texto e vídeo. 

Depois pediu que eu fosse até a casa dele antes das 9h para dar uma força. Gostei muito da experiência. Fiquei emocionado em ver que após seis anos acompanhando a Oficina do Tio Lú, o trabalho do Seu Luiz vai ter uma repercussão muito maior. Outra felicidade foi encontrar o artista plástico Jesus Soares que teve importante participação nesse processo. Inclusive foi quem me apresentou ao Tio Lú há seis anos. Jesus fez questão de contribuir, tanto que dedicou a manhã toda e parte do início da tarde.

Admito que não tenho o hábito de assistir TV, mas fiquei grato em ver o carinho e a sensibilidade da equipe do programa com todo mundo que participou e testemunhou esse trabalho que findou só por volta das 14h. Tiveram uma grande preocupação em conhecer a fundo o projeto do Tio Lú. Recolheram fotos, vídeos produzidos de forma independente e checaram todos os outros materiais já publicados sobre o assunto.

É muito legal saber que o Seu Luiz, já com 84 anos, dois joelhos problemáticos e diagnosticado com uma hepatite C no final de dezembro, continua lutando pelos seus ideais, se esforçando para fazer a diferença em um mundo cada vez mais individualista e materialista. A garotada também merece só elogios. Deram um grande show de comprometimento e gratidão. A reportagem gravada em Paranavaí vai ao ar no programa Encontro com Fátima Bernardes na terça-feira.

Link do vídeo produzido pela equipe do Encontro Com Fátima Bernardes (atualizado no dia 21-04-2015):

http://globotv.globo.com/t/programa/v/gabriela-lian-mostra-trabalho-de-artesao-de-84-anos/4124935/

Conheça um pouco mais o trabalho do Tio Lú nos links abaixo:

//davidarioch.com/2014/02/22/oficina-do-tio-lu/

//davidarioch.com/2014/10/14/ajudando-jovens-em-situacao-de-risco/

Periferia, sonho, funk e invisibilidade social

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Almoço rendeu um bom bate-papo com crianças e adolescentes da Vila Alta (Foto: Reprodução)

Almoço organizado por Tio Lú rendeu um bom bate-papo com crianças e adolescentes da Vila Alta (Foto: David Arioch)

Ontem, na Vila Alta, na periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, o artista plástico Luiz Carlos Prates de Lima, o Tio Lú, preparou um almoço para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social que participam de uma oficina de artesanato em madeira. Aproveitei a oportunidade para conversar algumas horas com a garotada, já que normalmente a turma se divide no decorrer da semana.

Após o almoço, perguntei a cada um dos 15 garotos quais são seus sonhos. Eric, um garotinho de 12 anos, me respondeu com um sorriso tímido: “Ah, meu sonho mesmo é ser MC.” Então interpelei: “Sério? Que tipo de MC? Me dê um exemplo, só pra eu ter uma ideia. A resposta foi a seguinte: “Igual o MC Daleste!” Ingênuo e sonhando com um futuro melhor, Eric não sabia que o seu ídolo, MC Daleste, foi assassinado em 2013. Ficou surpreso quando contei.

Sobre o conteúdo das letras do MC, Eric disse apenas que nunca entendeu muito bem, mas que o estilo sempre o agradou pela “batida” e também porque fala de “coisas” que ele gostaria de ter um dia. Tem gente que prefere generalizar e dizer que quem gosta de funk é isso ou aquilo. Quando se conhece a realidade desses jovens, por exemplo, você percebe que a identificação com o funk tem a ver com um mundo de sonhos, a ingênua vontade do ter para poder existir. “Se eu ganhar um bom dinheiro, não serei mais humilhado”, comentou Tales, de 15 anos.

“Não tenho nada, então as pessoas não me enxergam”, disse outro garoto de 14 anos. Robson, de 12 anos, que adotou um visual de MC e descoloriu os cabelos para ficar parecido com um ídolo, explica que quando um pobre faz sucesso com funk significa que eles também têm uma chance de conseguir se destacar. O gênero também é condenado por quem vive na Vila Alta, mas lá muitos reconhecem que é sim uma forma de cultura, mesmo que famigerada, já que dita paradigmas, tendências, costumes e até mesmo linguagens.

Dos 15 garotos com quem conversei, só um me disse que acredita que um dia vai para a faculdade. Felipe, de 15 anos, que também adotou um visual de MC, gosta do estilo, mas não quer saber de virar funkeiro. Ele sonha em ser engenheiro. A maioria afirma acreditar que não vai conseguir terminar o ensino médio. “Não sei até onde vou chegar, mas aqui muitos pais falam que estudar é perda de tempo”, comenta Robson que tatuou sozinho os nomes dos pais nos braços, apesar de ter sido deixado na rua pela mãe quando tinha só três anos.

Inocência e carência

Quando eu estava indo embora, Yuri, de seis anos, e Gabriel, de oito anos, chamaram a minha atenção: “Ô tio, dá uma carona pra gente até ali em cima.” Então respondi: “Claro, podem entrar!” Yuri e Gabriel sorriram e abriram as portas do carro. Tive que estender a mão para o Yuri subir porque ele é bem pequeno. Os dois se ajeitaram no banco traseiro e começaram a rir, segurando dois pratos de plástico que levaram para participar do almoço na casa do Tio Lú.

Duas quadras depois, Gabriel falou: “É aqui, tio! A gente mora logo ali.” Os dois agradeceram, mas antes de fechar a porta, Gabriel perguntou: “Ô tio, quando é que você volta? Você vai voltar, né?” Respondi que sim e saíram rindo, balançando os pratos de plástico. O que eles queriam não era exatamente a carona, mas passear de carro, mesmo que por um minuto, e também receber mais um pouquinho de atenção antes de partirem para casa.

Written by David Arioch

February 8th, 2015 at 7:26 pm

Ivan & Rose fecha a trilogia Realidade da Periferia

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Além da miséria extrema,  o casal convive com graves problemas de saúde (Foto: David Arioch)

Além da miséria, o casal convive com graves problemas de saúde (Foto: David Arioch)

Lançado hoje no YouTube, o documentário Ivan & Rose fecha a trilogia da série Realidade da Periferia. O curta-metragem faz parte de um trabalho que iniciei no ano passado na Vila Alta, um dos bairros mais pobres de Paranavaí, no Noroeste do Paraná.

O filme aborda a história dos catadores de materiais recicláveis Ivan Martins e Rose Santos que vivem em um barraco construído há 20 anos na Vila Alta, na periferia de Paranavaí. No local, um ambiente escuro e pouco arejado, a mobília se resume a itens já deteriorados e retirados da sarjeta. Quando chove, é difícil se abrigar da água que invade o barraco, arrastando até a lama da rua e do quintal.

Além da situação de pobreza extrema, o casal é obrigado a lidar com graves problemas de saúde. Ivan, que já sofreu acidente vascular cerebral (AVC), infarto e convive com um enfisema pulmonar, só é capaz de se manter em pé quando se apoia sobre o carrinho que ele chama de “cadeira de rodas”.

Rose é epilética, tem labirintite e problemas severos na coluna vertebral. Quando é acometida por alguma crise, chega a ficar dias acamada. Apesar disso, o casal continua na luta, coletando recicláveis que garantem um lucro semanal de R$ 70. Enquanto Rose se responsabiliza pela coleta, Ivan guia o carrinho. “O papelão podia render pelo menos 25 centavos por quilo. Pra gente ter uma vida razoável, né?”, reclama Rose.

Ivan & Rose é um documentário cru, sem artificialismos, que integra uma trilogia que inclui os filmes Oficina do Tio Lú e Vila Alta.

O homem que sobreviveu a três tentativas de assassinato

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Nebrão: “Dei como certa a minha morte. Ouvi só o barulho acionado pelo gatilho, mas a bala não veio”

Na Vila Alta, quem ingressa no crime precisa de sorte para chegar aos 25 anos (Foto: David Arioch)

Na Vila Alta, quem ingressa no mundo do crime precisa de sorte para chegar aos 25 anos (Foto: David Arioch)

Quem conversa com o pacato Nebrão, de 33 anos, não imagina que ele já foi um dos homens mais perseguidos da Vila Alta, na periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Comunicativo e de fala mansa, hoje se orgulha da vida tranquila e também de ter evitado que crianças e adolescentes entrassem ou continuassem no mundo do crime.

“Saí desse caminho errado graças a Deus. Já fui ladrão sim. Também me envolvi em outras coisas erradas. Não posso negar meu passado, mas me distanciei dessa vida sem futuro”, garante enquanto exibe inúmeras cicatrizes, principalmente marcas de facadas. De origem pobre e sem estrutura familiar, Nebrão é um raro exemplo de sobrevivência, ainda mais levando em conta que no bairro onde foi criado quem se torna criminoso precisa de sorte para chegar aos 25 anos.

O rapaz perdeu muitos amigos de infância e adolescência nos anos 1990, quando uma onda de terror tomou conta do bairro. Naquele tempo, a Vila Alta era conhecida como Vila do Sossego. “Muita gente foi pra debaixo da terra e outro monte pra cadeia. Era bandido matando bandido. É até difícil citar uma rua onde não morreu ninguém na época”, afirma. Os assassinatos no bairro sempre tiveram relação com o narcotráfico ou rixas entre facções do crime organizado. “Aqui é bem tranquilo para quem não se envolve com essas coisas, mas o ‘bicho pega’ se tu seguir a vida do crime e der mancada”, garante e cita o exemplo de um garoto de 13 anos que morreu após levar um tiro na cabeça enquanto estava escorado sobre um tanque, bebendo água da torneira.

Nebrão: "Difícil era citar uma rua onde não morreu ninguém” (Foto: David Arioch)

Os assassinatos no bairro sempre tiveram relação com o narcotráfico ou rixas entre facções do crime organizado (Foto: David Arioch)

O adolescente foi morto porque furtou uma trouxinha de drogas. A tolerância é zero, tanto com quem tenta enganar algum traficante quanto com quem consome e não paga pelo produto. “A quantidade nunca interessa. Pra eles, o mais importante é impor medo e respeito, mostrar que a punição é mortal”, enfatiza. Enquanto converso com Nebrão, ele faz questão de caminhar alguns passos e me mostrar onde três adolescentes foram executados porque “cresceram os olhos” sobre os lucros do chefe. “Quem se envolve com a bandidagem tem que respeitar também a lei do crime”, explica.

Por muito tempo, Nebrão foi conhecido como o maior “ladrão de água e de energia elétrica da Vila Alta”, atividade que depois lhe trouxe problemas com a Companhia Paranaense de Energia (Copel), Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) e polícia militar. Autodidata, se tornou uma espécie de mestre das gambiarras. “Só de olhar, eu sabia o que tinha de fazer. Por R$ 35, eu resolvia o problema de qualquer um. Só ficava sem água ou sem luz quem quisesse”, lembra e acrescenta que já atendeu cerca de 1/3 do bairro.

Famoso pelo serviço rápido, o rapaz desde cedo demonstrou talento em montar e desmontar objetos. Chegou a ser contratado para furtar pontes de córregos. “Dependendo do tamanho, ele não precisava nem de uma hora para desmontar e levar embora”, garante um amigo que entre sorrisos testemunha a conversa. Envolvido com furtos, roubos e receptação de mercadorias desde a adolescência, Nebrão declara que só está vivo porque Deus quis assim. “Quem tem um histórico parecido com o meu não vive muito. Sou um sobrevivente”, garante.

Nebrão falando dos anos 1990: "Difícil era citar uma rua onde não morreu ninguém” (Foto: David Arioch)

Nebrão falando dos anos 1990: “Difícil era citar uma rua onde não morreu ninguém” (Foto: David Arioch)

O rapaz tem motivos para pensar assim. Perdeu as contas de quantas noites dormiu sem saber se acordaria. Uma vez atearam fogo em sua casa de madrugada. Nebrão percebeu o incêndio a tempo e escapou da morte, apesar dos prejuízos materiais. “Comecei a ser perseguido porque um cara delatou dois traficantes e deu o meu nome como se fosse o dele. Ele queria me ‘ferrar’”, revela.

Quando tudo parecia ter voltado à normalidade, Nebrão foi surpreendido na rua por dois homens armados. No momento da execução, apesar da insistência dos atiradores, nenhum dos revólveres disparou. “Dei como certa a minha morte. Ouvi só o barulho acionado pelo gatilho, mas a bala não veio. Corri e vieram no encalço com pedaços de pau. Tentaram me derrubar golpeando minhas pernas. Não caí por milagre e consegui escapar mais uma vez”, confidencia o rapaz que é alto e corpulento, o que também pode ter ajudado na fuga.

As histórias de Nebrão são confirmadas por outros vizinhos que se aproximam para ouvir a conversa. Apesar das tentativas de homicídio, continuou no bairro, próximo da família e dos amigos. Mais tarde, um conhecido apareceu na casa do rapaz e gritou: “Ô, nego, chega aí. Quero falar contigo, é papo reto, coisa rápida.” Em seguida, a irmã de Nebrão disse: “Tenha fé, meu irmão. Deus me disse que hoje você vai amarrar o diabo.”

Quando abriu o portão, o sujeito apontou o revólver para Nebrão que começou a orar enquanto mantinha os olhos fixos sobre o atirador. “Ele abaixou a arma, chorou e disse que não aguentava mais aquela vida. Decidiu se entregar para a polícia”, relata Nebrão que em diversas situações foi perseguido por falsas denúncias de delação de traficantes.

Naquele dia, o homem enviado para matar Nebrão já tinha assassinado cinco pessoas na periferia de Paranavaí. Preocupado com o futuro, Nebrão se distanciou do crime, parou de beber, fumar e se tornou evangélico. Admite que atualmente ganha pouco para sobreviver, mas está feliz por não dever nada a ninguém. “É um dinheiro honesto. Quando a situação aperta, trabalho até na roça nos finais de semana”, assegura.

Hoje, se empenha em fazer alguma diferença na vida de crianças e adolescentes que se tornam ladrões ou ingressam no mundo das drogas. “‘Mando a real’ na molecada. Explico que esse caminho não traz nada de bom. É uma ilusão, e se continuar nele vai morrer sem aproveitar a vida. Aos traficantes e ladrões que conheço, peço pra não oferecer droga nem serviço pra eles. O que posso fazer é aconselhar e pedir”, comenta Nebrão que já conquistou bons resultados com essas ações.

Saiba Mais

Nebrão é um apelido fictício para preservar a identidade do entrevistado.

Vivendo na Vila Alta

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Garotos de 12 anos contam histórias sobre o cotidiano em um dos bairros mais pobres de Paranavaí

A Vila Alta também é um dos bairros mais marginalizados de Paranavaí (Foto: David Arioch)

Vila Alta, um lugar onde crianças passam por situações surpreendentes (Foto: David Arioch)

No último sábado, passei a tarde toda na Vila Alta, um dos bairros mais pobres e isolados de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Foi o suficiente para ouvir muitas histórias sobre a realidade de cinco garotos de 12 anos.

Enquanto brincavam, chamei a atenção de um e perguntei se sabia o significado do símbolo na camiseta que ele vestia. Respondeu negativamente com a cabeça e sanei sua curiosidade explicando que era o logotipo da banda cristã de metalcore (uma mistura de heavy metal com hardcore) Devil Wears Prada, dos Estados Unidos.

Quando questionei sua idade, hesitou um pouco, mas contou que tem 13 anos. O amigo ao lado o corrigiu, dizendo que são 12 anos. “Vixi, você não sabe nem sua idade!”, repreendeu. O garoto que vou chamar de R. para preservar a sua identidade justificou que nunca viu os próprios documentos. “Fica tudo com minha vó, ela que sabe dessas coisas”, se defendeu enquanto coçava a cabeça.

R. continuou falando e ressaltou que foi jogado na rua pela mãe quando tinha três anos. “Ela me batia muito, não gostava de mim. Quem me tirou da rua foi minha avó. Se não fosse por ela, eu ainda ‘tava’ lá”, garante. V. aproveita a confidência do amigo para revelar que seu pai sempre bate na sua mãe. Por isso, hoje só dorme na casa da avó. “Não consigo mais dormir com eles. Não durmo em nenhum outro lugar, só na minha avó”, enfatiza.

R.: "O que mais aparece é gente chamando pra roubar alguma coisa ou vender drogas" (Foto: David Arioch)

R.: “O que mais aparece é gente chamando pra roubar alguma coisa ou vender drogas” (Foto: David Arioch)

R., que abandonou a escola, assim como outros dois garotos de uma turma de cinco amigos, já passou muito tempo nas ruas. Com nove anos, além de usuário de drogas, se tornou “laranja” do narcotráfico. “Eu roubava [furtava] também. Um dia, a gente ‘passou a mão’ em uns canos de alumínio e levamos pra uma dona de um ferro-velho. Falamos que a Copel [Companhia Paranaense de Energia] descartou tudo no “Lixão”. Era mentira. A polícia veio atrás e a gente teve de correr”, explica. As histórias de R., contadas com singela inocência e peculiar ausência de noção moral, são confirmadas por um adulto que o conhece há mais de três anos.

Acostumados a passar bastante tempo fora de casa, é costume os garotos retornarem ao convívio familiar tarde da noite. “Fico na casa do V. até as 22h. Tem época que vou embora só pra dormir”, relata R. O tempo livre é ocupado jogando bola, matando passarinhos e brincando no bosque ou em uma área conhecida como “Barragem”.

O costume de matar animais não domésticos surgiu com a fome, mas acontece também de algumas crianças fazerem isso sem justificativa aparente. “Parei porque não é legal”, comenta A. O mais intrigante é que a maneira como falam sobre o assunto não demonstra crueldade, e sim falta de referência entre certo e errado, o que é permitido ou não.

É proeminente o desconhecimento sobre a importância da vida animal. Dois garotos disseram que raptaram filhotes de quati e diversas vezes perseguiram outros animais no Bosque Municipal de Paranavaí apenas por diversão. Esse tipo de situação é incentivada pelas atitudes dos mais velhos. Exemplo é um episódio protagonizado por um pai de família que aproveitou um incêndio no bosque para matar quatro macacos-prego em fuga. Um vizinho denunciou que o homem cozinhou, assou e comeu os animais, acompanhado da mulher e dos filhos.

“Aí já aconteceu de tudo. Teve uma época que a gente vivia fumando maconha lá dentro” (Foto: David Arioch)

“Aí já aconteceu de tudo. Teve uma época que a gente vivia fumando maconha lá dentro” (Foto: David Arioch)

“Aí já aconteceu de tudo. Teve uma época que a gente vivia fumando maconha lá dentro”, salienta R. enquanto aponta em direção a um buraco feito com alicate na cerca lateral do bosque. W. aproveita a “deixa” do amigo para confidenciar que há dois anos testemunhou um assassinato na “Barragem”. “Vi uma turma matando um cara com golpes de ferro de portão. Só me falaram pra sair de lá”, garante. O local é citado pelos moradores mais velhos como uma área neutra, onde facções criminosas resolviam desavenças e se livravam de cadáveres.

Curioso, um garoto ainda mais jovem e que não faz parte da turma pergunta se estou entrevistando eles. Respondo que sim e pede para escrever que o sonho dele é ter duas armas, andar de “carrão” com uma mulher no colo e ir pra “zona” tomar pinga. “É isso que quero pra minha vida”, complementa sorrindo.

Na sequência, R. lembra que há pouco tempo achou no “Lixão” um saco de balas de revólver. “Só tinha bala vermelha”, afirma. Da turma de cinco amigos, M. é o único que não reprovou na escola e se orgulha do feito, considerado raro entre os garotos do bairro que têm a mesma faixa etária. Muitos crescem sem incentivo para estudar.

Não é tão incomum encontrar crianças se alimentando de restos no Lixão (Foto: David Arioch)

Não é incomum encontrar crianças se alimentando de restos no “Lixão” (Foto: David Arioch)

“Falam que é bobeira, que estudar não vai dar em nada. Tem pai até que proíbe de ir pra escola”, assegura R. que mal sabe ler e escrever. Também é preocupante o quadro de analfabetismo funcional. Na Vila Alta, muitas crianças leem, mas poucas assimilam o aprendizado a ponto de explicar o que entenderam. Para reforçar o problema, cito como exemplo outra ocasião em que entrevistei dez garotos e seis disseram que estudaram em sala especial.

Em contraponto, é fácil perceber que muitos jovens do bairro são espertos e tem dons que não são aproveitados ou estimulados. Crentes de que o futuro dificilmente vai melhorar, acabam aceitando o convite para ingressar no mundo do crime. “O que mais aparece é gente chamando pra roubar alguma coisa ou vender drogas. Às vezes, você decide roubar porque ‘tá’ com fome”, destaca R., acrescentando que tem crianças do bairro que passam o dia na rua procurando algo pra comer, principalmente as que vivem a dura realidade do abandono ou ausência familiar.

Um dia, me deparei com uma criança no fim da Vila Alta, no “Lixão”, sentada sobre uma placa de “vende-se”, comendo restos de comida descartados por um restaurante do Centro de Paranavaí. Ela parecia não se incomodar com a presença de um urubu se alimentando da carniça de um cachorro a alguns metros de distância. Me aproximei, dei algum dinheiro, ela agradeceu assustada e foi embora. Moradores das imediações me informaram que essa cena não é incomum. “A sua intenção foi boa, mas pode acreditar que isso não vai acabar assim. Precisamos de muita ajuda aqui”, avalia a dona de casa Maria Cândida de Oliveira.

Ajudando jovens em situação de risco

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Oficina do Tio Lú tira crianças e adolescentes das ruas de Paranavaí, no Noroeste do Paraná

Luiz Carlos: "me dedico a eles porque sei que eles precisam mais de mim do que eu de dinheiro" (Foto: David Arioch)

Luiz Carlos: “Me dedico à oficina porque sei que eles precisam mais de mim do que eu de dinheiro” (Foto: David Arioch)

Na Vila Alta, há poucos metros do Bosque Municipal de Paranavaí, na Casa 10 da Rua B, um corredor leva à Oficina do Tio Lú, um atelier bastante movimentado, onde 12 crianças e adolescentes em situação de risco ocupam o tempo livre transformando pedaços de madeira em obras de arte.

Sob a tutela do artista plástico Luiz Carlos Prates Lima, de 83 anos, aqueles que estão tendo o primeiro contato com a atividade aprendem sobre a utilidade de cada ferramenta, além de conservação de materiais e precauções de uso. “Ensino a lixar, medir e trabalhar simetria. Explico como reconhecer as qualidades de cada tipo de madeira. Aqui existe um passo a passo pra tudo”, garante Luiz Carlos que mostra também a importância do trabalho coletivo na criação de cada obra, o que melhora também a capacidade de socialização dos participantes.

Oficina atende jovens da Vila Alta de segunda à sexta (Foto: David Arioch)

Oficina atende jovens da Vila Alta de segunda a sexta (Foto: David Arioch)

Os mais experientes aprendem a fazer um bom acabamento e a desenhar peças, levando em conta a finalidade das obras. Se for decorativa, há uma preocupação maior com o valor estético. “Sou feliz aqui porque o ‘Seu Luiz’ é como um pai pra nós. Prefiro ficar na oficina do que na rua ou em casa”, comenta o aluno Robson Silva, de 12 anos, que se emociona e sorri com timidez ao contar que já lucrou R$ 50 com as peças produzidas na Oficina do Tio Lú.

Aproveitando a presença do amigo, Ariel Gonçalves Souza, também de 12 anos, se aproxima e conta com orgulho que sabe fazer carrinho, carroça e calhambeque de madeira. “Lixo bem, pode ver!”, comenta em tom de voz seguro. Luiz Carlos confirma: “É verdade. Ele monta direitinho cada peça.”

Na hora do trabalho, o silêncio toma conta do atelier (Foto: David Arioch)

Na hora do trabalho, o silêncio toma conta do atelier (Foto: David Arioch)

A harmonia na oficina é conduzida pelo jeito sério, mas comunicativo e carinhoso do artista plástico que se preocupa com o que acontece com os alunos dentro e fora da oficina. “Você ‘tá’ precisando de outro calçado. Nós vamos dar um jeito nisso”, diz Luiz Carlos para o lixador Vitor Hugo Gonçalves Souza, de 12 anos, que estava usando um tênis com dois furos grandes nas laterais.

Mateus Brito Gonçalves, primo de Vitor, ajeita o boné e conta que aprendeu a fazer até fogãozinho. “Ah! Tenho um amigo que conseguiu arrumar a bicicleta com o dinheiro das peças que fez e vendeu”, revela Robson. Ao longo da conversa, o artista plástico chama a atenção de um garoto que fala um palavrão sem perceber a gravidade do ato. “Foi mal, ‘Seu Luiz’”, reconhece o aluno envergonhado e cabisbaixo.

Seu Luiz: "Ensino a lixar, medir e trabalhar simetria. Explico como reconhecer as qualidades de cada tipo de madeira. Aqui existe um passo a passo pra tudo" (Foto: David Arioch)

Seu Luiz: “Existe um passo a passo pra tudo” (Foto: David Arioch)

Os participantes da Oficina do Tio Lú são todos amigos. A maioria se conhece há anos. Mesmo assim as brincadeiras são permitidas só nos intervalos, como a “hora do lanche” que começa às 17h, pouco antes do final da aula. Durante a oficina, os sons mais altos saem principalmente das lixadeiras. “Aqui é bom porque a gente não fica na rua e ainda ganha um lanche caprichado”, comenta Mateus sorrindo.

Uma vez por semana, Luiz Carlos também oferece almoço para a garotada. No sábado que antecedeu o Dia das Crianças, o aroma do frango desfiado, especialidade da artesã Lindinalva Silva Santos, companheira do artista plástico, foi tão longe que até quem não era aluno pediu para participar da festinha que reuniu 16 crianças e adolescentes. “Gosto assim, todo mundo comendo à vontade e saindo daqui satisfeito”, diz Luiz Carlos que ao final do almoço costuma reunir todo mundo para um bate-papo sincero.

Robson Silva: "“Sou feliz aqui porque o ‘Seu Luiz’ é como um pai pra nós" (Foto: David Arioch)

Robson Silva: “Sou feliz aqui porque o Seu Luiz é como um pai pra nós” (Foto: David Arioch)

Na ocasião, os garotos falam sobre a vida, a família e o cotidiano. Em seguida, ouvem conselhos de quem os trata como se fossem filhos. É interessante ver como respeitam Luiz Carlos, provavelmente porque encontraram no artista uma figura paterna, alguém que se importa muito com o futuro deles.

Não é à toa que a Oficina do Tio Lú, criada para atender jovens em situação de risco de segunda a quarta, das 14h às 18h, hoje funciona de segunda a sexta, das 8h às 11h30 e das 14h às 17h30. “Se dependesse deles, não iriam embora não. Agora faço minhas peças só de madrugada. Durante o dia, me dedico à oficina porque sei que eles precisam mais de mim do que eu de dinheiro”, avalia Luiz Carlos que também desempenha funções de pai substituto.

Mesmo sob sol escaldante, Luiz Carlos e Lindinalva já saíram muitas vezes de bicicleta para levar alunos enfermos ao Pronto Atendimento Municipal e Unidade Básica de Saúde (UBS). “Tiramos bicho-de-pé, lidamos com anemia, sarna e outras coisas mais. Fazemos tudo ao nosso alcance quando não conseguimos ajuda profissional”, garante o artista.

Saiba Mais

Localizada na periferia, a Vila Alta é um dos bairros mais pobres de Paranavaí.

Criada de forma independente por Luiz Carlos Prates Lima, hoje a Oficina do Tio Lú é um exemplo de trabalho social em prol de jovens carentes.

Vila Alta e a realidade da periferia

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Documentário mostra que a Vila Alta também é uma comunidade de pessoas honestas

Vila Alta aborda o preconceito sofrido pelos moradores do bairro (Imagem: Reprodução)

Documentário aborda o preconceito sofrido pelos moradores do bairro (Imagem: Reprodução)

Disponibilizei hoje no meu canal no YouTube o documentário “Vila Alta”, que faz parte da série Realidade da Periferia, composta por um filme de longa-metragem, um de média-metragem e um curta. É uma trilogia de documentários. Todos estão relacionados, tanto que há referências de cada obra nos três filmes.

Na semana que vem começo a produzir o curta-metragem “Ivan & Rose”, sobre as dificuldades e o cotidiano de um casal de catadores de recicláveis que vive com R$ 280 por mês. O filme fecha a trilogia iniciada com a obra “Oficina do Tio Lú”, lançada em fevereiro.

Mas voltando ao filme que lancei hoje, o documentário Vila Alta mostra que há mais de 30 anos os moradores mais pobres da área rural e de diversos bairros de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, foram obrigados a se mudar para um lixão no fim da Vila Operária. No local, mesmo sem energia elétrica e água encanada, eles montaram dezenas de barracos de lona para abrigar suas famílias.

Vivendo sob condições sub-humanas, ainda tiveram de conviver com o preconceito, a intolerância, a violência e a criminalidade. Socialmente invisível, a população do bairro, que um dia foi conhecido como Balão Mágico e Vila do Sossego, hoje sofre para se livrar de um estigma social que se perpetuou ao longo de décadas.

Em Paranavaí, os mais jovens crescem ouvindo histórias que reforçam o mito de que a Vila Alta é uma “terra de criminosos”, um lugar onde ninguém deve ir. Não é à toa que a maior parte da população da cidade não conhece o bairro.

O documentário destaca outra realidade pouco conhecida. Na contramão da sua fama, a Vila Alta também é uma comunidade de pessoas honestas, batalhadoras e sensíveis que mesmo privadas das necessidades básicas ainda lutam e sonham com um futuro mais digno.

Apresentado de forma crua, mas solene, Vila Alta é uma obra testemunhal em que os personagens dialogam livremente. Do início ao fim, para reforçar o caráter intimista, a câmera é apoiada sobre uma mão. Não há escapismo, tratamento de imagem, uso de microfone externo e neutralização do som ambiente. Até mesmo alguns ruídos são preservados, cumprindo o objetivo de retratar com fidelidade as particularidades de cada momento, assim como o universo de cada personagem.

Para quem quiser assistir ao filme na íntegra, segue o link:

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“Com o artesanato, diminuí 90% do meu consumo de remédios”

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Vítima de bala perdida, Élcio Caetano aprendeu a lidar com a deficiência física por meio da arte

Caetano: "Gosto de trabalhar com produtos recicláveis e transformar o industrializado em artesanato" (Foto: David Arioch)

“Gosto de trabalhar com produtos recicláveis e transformar o industrializado em artesanato” (Foto: David Arioch)

Na próxima segunda-feira, às 23h35, completa dez anos que Élcio Caetano ficou paraplégico por causa de uma bala perdida. À época, passou mais de um mês tentando assimilar o que tinha acontecido. “Demorou pra cair a ficha e tive dificuldade em aceitar o fato de que nunca mais andaria”, diz o morador do Conjunto Dona Josefa, entre a Vila Operária e a Vila Alta, em Paranavaí, no Noroeste do Paraná.

Ainda em 2004, sem saber que rumo tomar, Caetano aceitou participar de um programa de terapia ocupacional por sugestão de uma vizinha. “Naquele estado, o ócio é perigoso porque a pessoa acaba tendo muitas ideias que não são saudáveis”, comenta Élcio que teve o primeiro contato com o artesanato em um curso para confecção de tapetes com saquinhos de leite. Foi amor à primeira experiência.

Quase dez anos depois, o que começou como uma terapia se transformou em um meio de sobrevivência. Hoje, Caetano é um especialista em aproveitamento e reutilização de materiais. “Gosto de trabalhar com produtos recicláveis e transformar o industrializado em artesanato”, comenta o artista que tem familiares e amigos que o incentivam. A irmã, por exemplo, costuma ir até a rua 25 de Março, em São Paulo, comprar acessórios e adereços para incrementar as peças de Élcio.

Outros parceiros são a Santa Casa de Paranavaí e Clínica Radiológica de Paranavaí que doam radiografias que o artista transforma em belas borboletas. “Também recebo contribuições de uma cooperativa de materiais recicláveis”, declara enquanto exibe algumas peças recém-confeccionadas e de alta qualidade. Élcio Caetano manipula dezenas de matérias-primas, criando peças únicas, tanto utilitárias quanto decorativas. “Faço vaso com cipó e arame, abajour com tampinhas de garrafa, além de coelho e cortina com garrafas pet”, enfatiza, embora tenha predileção pelo trabalho com sementes.

Faz quase dez anos que Élcio descobriu o talento para o artesanato (Foto: David Arioch)

Faz quase dez anos que Caetano descobriu o talento para o artesanato (Foto: David Arioch)

Com base na demanda, Élcio produz levando em conta as mudanças de clima e tempo. No frio, confecciona toucas, cachecóis, boinas e polainas. No calor, se dedica a fazer colares, pulseiras, arranjos de flores, cortinas e bolsas. “Tem muita gente que deveria experimentar uma atividade como essa. Dá uma satisfação imensa. Com o artesanato, diminuí 90% do meu consumo de remédios. E olha que quem tem paraplegia precisa tomar remédio até pra acordar, comer e dormir”, afirma, sem esconder a satisfação e a alegria de estar vivo e fazendo o que gosta.

Sobre a concorrência com produtos industrializados, o artista que trabalha até a hora de dormir não vê motivos para preocupação. “Existe espaço pra todo mundo. A vantagem do artesanato é que as peças são únicas. Uma nunca sai igual a outra. Então atrai quem busca um diferencial nesse sentido”, esclarece. Interessados em encomendar peças ou conhecer melhor o trabalho de Élcio Caetano, podem ligar para (44) 9725-2450.

Oficina do Tio Lú

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Uma viagem por um universo de abnegação

"Tio Lú" mostra que não é preciso muito dinheiro para fazer a diferença (Fotos: Reprodução)

“Tio Lú” mostra que não é preciso muito dinheiro para fazer a diferença (Fotos: Reprodução)

Lançado no início da semana, Oficina do Tio Lú é o meu mais novo trabalho audiovisual. Parte da série “Realidade da Periferia”, o documentário conta a história do artista plástico Luiz Carlos Prates Lima, de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, que se dedica a recuperar crianças e adolescentes em situação de risco.

Na Vila Alta, um dos bairros mais pobres da cidade, Luiz Carlos, que está sempre enfrentando dificuldades financeiras, deixa de lucrar para ensinar os mais jovens a criarem obras de arte a partir das mais diferentes fontes de matéria-prima.

A oficina do artista fica no fundo da própria casa, onde ele faz crianças e adolescentes se distanciarem do mundo das drogas, da fome e da miséria. Oficina do Tio Lú é uma viagem por um universo de abnegação. Na obra, Tio Lú mostra que não é preciso muito dinheiro para fazer a diferença em um mundo cada vez mais consumista e materialista.

Ficha Técnica

Roteiro e Direção: David Arioch

Colaboração: Jesus Soares

Trilha Sonora: Crash Nomada, Racionais MC’s, Ney Matogrosso e Cólera

Fotos: David Arioch, Gugu Ditzel e Arquivo Pessoal de Luiz Carlos Prates Lima

Personagens: Luiz Carlos Prates Lima, Jesus Soares, Paulo José Zanelato Silva, Lindinalva Silva Santos, Maria de Fátima Oliveira, Danilo Medeiros França, Lucas Antônio Souza Silva, Odair Correa Junior, Gustavo Jesus Souza, Vagner Souza Santos, Weder França Melo, Kelvin Santos Melo, Ariel Gonçalves Souza, Robson Silva, João Paulo Rodrigues Alves e Juvenal Ferreira Silva.

Duração: 46 Minutos