Archive for the ‘Violência’ tag
Não há nada de enobrecedor em apelar em vez de argumentar
Estamos em 2016 e até hoje me deparo com pessoas xingando presidentes e ex-presidentes diariamente, e com palavras que não têm qualquer relação com o desempenho de um cargo público – como piadas sobre a aparência, defeitos físicos e analogias com animais. É esse tipo de passionalidade que sempre me esforço para evitar. Não vejo nada de enobrecedor em apelar em vez de argumentar.
Se quiser convencer alguém, faça mais do que o óbvio ou trivial, até porque nessas situações a primeira coisa que os mais ponderados imaginam é alguém encolerizado e fragilizado intelectualmente, dominado pelos rompantes da negatividade; e se isso acontece pode ter certeza que o principal afetado é você.
Mesmo que a realidade não seja tão visceral, essa é a imagem que você transmite numa rede social por exemplo. Acredito que nem todo desabafo motivado pela agressividade merece ser levado ao público, ainda mais levando em conta que ofensas não têm nenhum peso no desenvolvimento de ideias.
Laranja Mecânica, o filho preterido de Anthony Burgess
A obra perdeu o sentido quando uma editora americana suprimiu o último capítulo do livro

Burgess sempre acreditou que a energia humana é melhor gasta na criação do que na destruição (Foto: Marvin Lichtner/Time & Life Pictures/Getty Image)
Embora o livro A Clockwork Orange (Laranja Mecânica), do escritor britânico Anthony Burgess, não figure entre os seus melhores romances, a obra distópica de 1962 foi responsável por torná-lo famoso no mundo todo, principalmente após o lançamento do controverso filme de Stanley Kubrick em 1971.
Se por um lado, alguns críticos qualificaram o livro como uma profecia do colapso social hipermoderno, outros foram além, defendendo que a obra em si já o incentivava. A verdade é que à época pouca gente entendeu o sincretismo de sadismo, cultura teddy boy e uma apocalíptica filosofia urbana e social reforçada por uma mixórdia do idioma russo e do jive talk, uma linguagem popular que surgiu entre músicos de jazz do Harlem, em Nova York.
Ainda assim, mesmo com tanta repercussão e sucesso a partir da década de 1970, Burgess fazia questão de dizer em cada entrevista que, de todos os seus livros, “Laranja Mecânica” era o que menos o agradava, e não por causa da estrutura, linguagem e conteúdo, mas sim porque o cinema e as editoras dos Estados Unidos o descaracterizaram.

Pessimismo de Stanley Kubrick fez o escritor britânico odiar a adaptação para o cinema (Foto: Reprodução)
A obra, segundo Burgess, perdeu o sentido a partir do momento em que uma editora americana suprimiu o último capítulo do livro, um fato que se repete até a atualidade em algumas edições, já que a primeira edição estadunidense foi uma das mais reproduzidas. Quando o escritor britânico teve a oportunidade de lançar uma nova versão restaurada em 1986, ele fez questão de escrever uma introdução explicando como o seu trabalho foi arruinado.
No original, o jovem Alex, protagonista cruel e vicioso, evolui no capítulo 21 porque Burgess sempre acreditou que a energia humana é melhor gasta na criação do que na destruição. Porém as editoras dos Estados Unidos foram na contramão. E com elas o pessimismo do cineasta Stanley Kubrick que fez o escritor britânico odiar a adaptação do seu livro, com um final que leva o cinismo às raias do surrealismo.
A partir da obra de Burgess, não é difícil entender a escolha do título Laranja Mecânica. Ele faz uma analogia do ser humano com uma laranja, um belo organismo recheado de suco e que pode ser espremido por Deus, pelo diabo ou até por si mesmo quando substitui os dois. Em síntese, um ser humano que rendido às próprias armadilhas do maniqueísmo se torna incapaz de entender a primazia do livre-arbítrio.
Burgess ficou tão chateado com a desvirtuação do livro que chegou a admitir que desde então só escrevia embriagado. O autor frequentemente encontrava pessoas comentando que o seu livro era uma ode à violência e à misantropia, quando na realidade a sua intenção era alertar sobre a nefasta mecanização da humanidade.
Saiba Mais
Pouco conhecido no Brasil, Earthly Powers (Poderes Terrenos), de 1980, é considerado o melhor livro de Anthony Burgess.
Referência
http://www.todayinliterature.com
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A contradição de clamar por democracia sendo antidemocrático
Vejo muita passionalidade envolvida, e muitas vezes me parecem armadilhas do ego e da vaidade
Esses dias, testemunhei na internet um camarada sendo chamado de “comunista”, no sentido mais pejorativo do termo, aquele que hoje povoa o ideário comum, porque publicou um vídeo mostrando um general da época da ditadura militar impedindo um jornalista de exercer a própria função. Esse sujeito que o ofendeu com palavras baixas e declarou que o camarada deveria ser fuzilado por ser “comunista” é um exemplo de uma efervescência perigosa e sem precedentes que tenho visto na internet.
Primeiro porque o camarada não é “comunista”. Ainda assim, tentei entender o posicionamento do rapaz, mas foi impossível porque ele vive uma estoica contradição – uma pessoa que diz estar lutando pela democracia e ao mesmo tempo se coloca no direito de dizer que muitos brasileiros deveriam ser deportados ou fuzilados porque não pensam como ele. Me refiro a alguém que entra na internet para impor sua opinião de forma agressiva em páginas de pessoas com quem não partilha as mesmas ideias.
Penso que se não sou seu amigo e entro na sua página para comentar algo sem ser convidado, devo pelo menos ser educado e defender o meu posicionamento de forma ponderada e lúcida – o mínimo que se pode esperar de um ser humano que deveria respeitar o outro tanto quanto respeita a si mesmo. Não é correto invadir um perfil pessoal no Facebook para impor nada, até porque esse espaço pode, porém não precisa ser democrático. Ninguém tem o direito de fazer isso, independente de qualquer coisa.
Sinceramente, não há como negar que comportamentos como o do rapaz citado têm relação direta com a indigência cultural, já que generalizações e ofensas costumam ser usadas com mais frequência por pessoas que não são capazes de argumentar ou defender um ponto de vista sem apelar para clichês ou estereótipos. O sujeito que ofendeu esse meu camarada trabalha como instrutor em uma academia onde paro em frente quase todos os dias quando o sinal vermelho do semáforo está acionado.
Já o vi algumas vezes rindo e fazendo brincadeiras com alunos e colegas de trabalho, o que torna tudo mais chocante porque mostra como um ser humano aparentemente pacífico pode na realidade esconder uma faceta agressiva e tirânica, o que é interpretado por estudiosos do comportamento humano como sinais de sociopatia.
Acho válido citar também pessoas mais próximas que conheço há muito tempo e que presenciei e ainda presencio defendendo discursos de ódio em mídias sociais. Posso dizer que não é fácil olhar para a pessoa e não associá-la ao que li na internet. A vida segue, mas um resquício de fel na boca persiste.
Vejo muita passionalidade envolvida, e muitas vezes me parece armadilha do ego e da vaidade, aliada a uma visão canhestra do mundo; até um anseio jactante e quase totalitarista de redefinir o que é certo e errado. É incrível como nos deparamos todos os dias com pessoas hostilizando alguém. Tudo isso porque não foram preparadas para lidar com as diferenças, e acho que esse é um problema que surge na infância e adolescência.
Diariamente encontramos pessoas querendo moldar o mundo e as pessoas à sua maneira, o que não significa que seja algo basicamente ruim, já que no fundo todos fazemos isso de algum modo. E claro, muitas coisas nesse sentido podem ser realmente positivas. No entanto, a preocupação surge quando as negativas se sobrepõem, porque aí o respeito é relegado à farelagem e o ser humano deixa de ser humano.
A chacina das galinhas
“Se for troca de tiros, a gente derruba ele e quem mais vier”, garantiu José em tom sisudo

“Que diabos aconteceu aqui? Quem fez isso com as minhas galinhas?”, se perguntou José em 1956 (Foto: David Arioch)
Em 1956, o pioneiro José Alves de Souza vivia em um rancho nas imediações da Avenida Tancredo Neves, em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, quando chegou em casa e encontrou as suas 15 galinhas mortas. Compradas em menos de uma semana, foram violentamente estraçalhadas e partes das vísceras estavam no chão de terra, misturadas às penas.
“Que diabos aconteceu aqui? Quem fez isso com as minhas galinhas?”, se perguntou José levando as mãos à cabeça. Na semana seguinte comprou mais 15 galinhas e outras vez foram mortas brutalmente. O objetivo de José era criar e vender animais. No entanto, ele não sabia que os cães de caça de Paranavaí tinham o hábito de invadir propriedades para comer as galinhas.
“Na época tinha muitos caçadores na cidade e isso significava muitos cães de caça. Eles eram violentos demais, invadiram uma fazenda e mataram todos os carneiros”, enfatiza. Irritado, José conversou com o irmão e decidiram comprar armas de fogo. Naquele tempo cada caçador tinha de 15 a 30 animais. Um homem conhecido como Nego possuía 26 cães de caça. “Alguns tinham mais de 30. Aquele mundo velho de cachorro acabando com tudo. Não dava pra criar nada”, desabafa.
Um dia o irmão do pioneiro chegou em casa com uma garrucha e duas espingardas. Juntos, treinaram tiro ao alvo no quintal, chegando a acertar caixinhas de fósforo à longa distância. “Quando aparecia cachorro a gente metia bala, até que começaram a sumir. Daí um valentão da cidade, que além de caçador estava concorrendo às eleições de 1956, mandou um dos seus capangas em casa pra dar um recado”, narra.
Numa manhã ouviram alguém batendo palmas e berrando em frente ao rancho. Era um homem forte, de má fama e expressão carrancuda que observava José. “Não mata o cachorro do patrão porque ele é bravo. Ele derrota vocês”, alertou enquanto alisava o gatilho de uma pistola presa à cintura. Sem hesitar, o anfitrião respondeu que seria mais fácil ele e o irmão vencer o invasor. “Se for troca de tiros a gente derruba ele e quem mais vier”, garantiu em tom sisudo. O visitante ficou espantado com a reação de José, de 24 anos, que teve o discurso endossado pelo irmão mais novo.
“A gente era peão, sem conhecimento de nada. Não pensava nem em Deus, mas acreditava que ninguém deve abaixar a cabeça pra ninguém. Também sabia que já existia muita maldade no mundo”, relata. Dias depois receberam a visita inesperada do homem que ameaçou matá-los. O sujeito os cumprimentou e perguntou se jogavam carteado. “Catamos um baralho velho e começamos a brincar. Ficamos amigos e depois até a família dele passou a frequentar a nossa casa”, revela.
A vida de Jero ou fado de um jovem ladrão
“O maluco me colocou na mira de um traficante, falando que eu estava de olho na boca de fumo do mano”
Na semana passada, fui até a Vila Alta, onde conversei com Jero, garoto alto e magro de 16 anos. Sentado no meio-fio, me convidou para sentar numa cadeira com corda de nylon. Empolgado e sorridente, contou que conseguiu um “bico” que o fez sentir-se útil pela primeira vez em muito tempo. “Tô recebendo pra ajudar na limpeza e organização de uma casa daqui da vila mesmo. Já rodei o centro da cidade em busca de trabalho, mas a resposta é sempre a mesma. Acho que eles têm vagas sim, só que não pra menor de idade”, lamenta.
De bermuda, chinelos e sem camiseta, Jero diz pra esperar um pouco que ele vai buscar “um café”. Logo retorna com uma garrafa térmica e uma caneca plástica. “É pra você! Coloca aí!”, diz naturalmente, sem cerimônia. Não costumo beber café, mas tomo um gole em deferência. Embora muito jovem, Jero tem algumas cicatrizes no corpo que revelam conflitos e violência. É como se sua pele contasse sua própria história. Criado nas ruas, em meio à pobreza, foi preso pela primeira vez há dois anos, depois de roubar um “radinho”, como chama os smartphones.
“Já peguei um lá pelos lados da Praça dos Pioneiros. Era só dar bobeira que eu passava na mão leve”, conta. Por causa de pequenos delitos, Jero ficou preso quatro vezes. Três vezes foi encaminhado para o Centro de Socioeducação (Cense) de Paranavaí. Na quarta, o enviaram para o Cense de Cascavel, no Oeste do Paraná. “Gostei mais de lá porque a galera é mais humilde. Quem tá preso lá é mais de boa. Não tem tanta rivalidade como no Cense daqui. Aqui um fica querendo ferrar o outro. É briga de gangue, mano”, comenta esfregando uma das mãos pelos cabelos descoloridos.
Durante a conversa, em cada frase de Jero há sempre alguma palavra que nunca ouvi. O seu vocabulário é tão incomum que até mesmo quem é da Vila Alta tem dificuldade de entender – a não ser os mais jovens que passam o dia nas ruas. A linguagem de Jero é uma mixórdia de referências popularizadas na periferia, onde neologismos e regionalismos se misturam o tempo todo. Nas vezes em que foi preso por furto e roubo, o garoto não chegou a confrontar a vítima ou agredi-la no ato do crime. Não tem o costume de usar armas. “Só que é sujo isso aí. Não vale a pena. E lá na cadeia você sempre encontra um inimigo. É ruim demais ficar preso”, afirma enquanto acende um cigarro paraguaio e dá uma tragada, assoprando fumaça com o esmero de uma criança desenhando paisagem com o dedo no chão de terra.
Além do “careta”, Jero também gosta de fumar maconha. Não todos os dias, mas ainda assim com certa regularidade. Relata que conhece todo tipo de droga, só que nunca se interessou em usar nada mais “pesado”. “Crack é pra quem quer virar escravo ou zumbi. Você cai numa noia tão zuada que esquece até quem você é. Deixa o cara louco. Quem vende crack também se lasca porque tem que aguentar gente colando no seu barraco até de madrugada mendigando pedra. Mano, tu acaba com a vida de muita gente e não ganha quase nada. O dinheiro é dos graúdos”, comenta.
Na terceira vez em que foi preso, Jero ficou sabendo que outro adolescente com quem tinha uma querela de longa data também estava no Cense. “O maluco me colocou na mira de um traficante, falando que eu estava de olho na boca de fumo do mano. Armou pra mim. Queria me ferrar. Inventou mais umas histórias”, garante. Crente de que mais cedo ou mais tarde algo aconteceria, Jero se antecipou.
Um dia pegou a própria escova de dente, quebrou a cabeça e começou a afiná-la, deixando-a pontiaguda. A escondeu dentro da bermuda, até que numa ocasião, após a aula, caminhou a passos leves até o seu desafeto. Enraivecido, gritou o nome do inimigo e ocultou sob os dedos o estoque feito com a escova de dentes. Quando o garoto se aproximou, ele o golpeou quatro vezes na barriga. “Ou eu dava nele ou ele dava em mim. Preferi sair na frente. A intenção não era matar. Fiz isso pra mostrar que não tenho medo dele. O papo é um só – se vier, vai levar!”, justifica, baseando-se em um senso de justiça particularista.
O sangue descia e Jero só assistia, até que a vítima foi socorrida e encaminhada à Santa Casa de Paranavaí com vários ferimentos, embora nenhum grave. Depois do ataque, Jero foi transferido para o Cense de Cascavel, onde cumpriu pena. Quando o soltaram, retornou a Paranavaí e decidiu se afastar do crime, opção que pouco pesou na consciência de seus inimigos. “Tem gente querendo me matar ainda. Sei disso”, admite com sorriso dúbio e plangente. De temperamento volátil, Jero foi convencido por alguns “amigos” a participar do furto de um “radinho” e de uma bicicleta.
Na última segunda-feira, fiquei sabendo que ele foi preso novamente. Minha intenção era fazer mais uma entrevista e tirar algumas fotos, mesmo que velando seu rosto. Não deu tempo. Há quem acredite que há males que vêm para o bem. No dia em que Jero retornou à prisão, um detento ganhou a liberdade – um traficante que jurou que o mataria no dia em que fosse solto. Na Vila Alta dizem que Jero se envolveu com a ex-namorada do sujeito. Por enquanto sua salvação está assegurada no ambiente que até então mais desprezava – a cadeia.
Saiba Mais
Jero é um apelido fictício para preservar a identidade do entrevistado.
A Vila Alta fica na periferia de Paranavaí, Noroeste do Paraná.
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O mundo implacável de Berserk
Anime conta a história de Guts, um jovem guerreiro embrutecido pelos abusos vividos na infância

Guts (ao centro), um jovem órfão que foi encontrado próximo ao cadáver da mãe enforcada (Imagem: Reprodução)
Berserk é uma série de anime, de Naohito Takahashi, inspirada no mangá de Kentaro Miura, baseada no realismo extremo, que conta a história de Guts, um jovem órfão que foi encontrado próximo ao cadáver da mãe enforcada. Adotado por uma mulher que morre pouco tempo depois, a tutela do garoto é passada para Gambino, o líder de um grupo de mercenários. Ainda na infância, Guts é criado com estoico rigor, tanto que durante os treinamentos para se tornar um guerreiro implacável não lhe dão armas compatíveis com a sua estatura, e sim as mesmas usadas pelos adultos.
Curiosamente, mais tarde, as espadas de Guts tornam-se uma extensão do seu desenvolvimento como mercenário. Na fase adulta, ele começa a empunhar uma Dragon Slayer com uma lâmina de dois metros de altura. É como se a espada simbolizasse não apenas sua força, mas a própria existência que refletida na lâmina conduz a larga dimensão das suas agruras.

O anime se desenvolve e desmitifica a perspectiva de um mundo visceralmente maniqueísta (Imagem: Reprodução)
Ao se preparar para um mundo mergulhado em guerras, Guts, sem saber, é traído pelo pai adotivo que em troca de um punhado de moedas e favores o empresta a um mercenário que o violenta sexualmente. Mais tarde, por um infortúnio, o garoto mata Gambino sem querer, sendo perseguido pelo grupo de mercenários. Apesar disso, consegue escapar. Tempos depois, ainda muito jovem, mas com mais experiência, é forçado a entrar para o famigerado Bando dos Falcões, após ser derrotado pelo líder Griffith, o Falcão Branco.
A partir daí, o mavórcio Guts evolui muito mais, de soldado a comandante da Linha de Frente do Bando do Falcão – o exército mais forte da época, formado por defensores do milenar Reino de Midland, o mais antigo do velho continente. O anime se desenvolve e desmitifica a perspectiva de um mundo visceralmente maniqueísta. Na realidade, com o avanço dos episódios, Berserk se torna ainda mais hermético e figadal porque mostra com mais afluência que as trevas são diuturnamente rondadas pela luz e vice-versa.
O cenário sepulcral, que remete à França e Inglaterra da Baixa Idade Média, destaca com genialidade a barbárie e a intemperança dos tempos clássicos, quando o desejo de suplantar e destruir só poderia ser ofuscado por sentimentos nobres como companheirismo, amizade e amor. É, de fato, um anime de gente grande, que apresenta as falhas humanas a partir de um mundo cabalístico e sombrio, onde a cor predominante é o vermelho, símbolo do derramamento de sangue. Em Berserk, o espectador é convidado a conhecer um universo que conduz vida e morte numa proporção desigual, mas crítica e reflexiva, porque basicamente imita a vida, seja na literalidade do período clássico ou nas suas alegorias sobre o homem da hipermodernidade.
Curiosidade
O anime foi criado em 1997 e o mangá em 1989.
O dia em que Pedro Tenório assassinou Alma de Gato e Bartolo no Líder Bar
Crime aconteceu no centro de Paranavaí no dia 8 de agosto de 1964

Líder Bar (ao fundo), cenário de um dos crimes mais macabros da região na década de 1960 (Acervo: João Carlos Antunes)
No dia 8 de agosto de 1964, um homem bebendo no Líder Bar, na Avenida Paraná, perto do cruzamento com a Rua Getúlio Vargas, no centro de Paranavaí, explicou a um conhecido que estava negociando a venda de uma fazenda que pertencia a uma família de gaúchos em Querência do Norte. “Vou fechar esse negócio, daí pago a minha dívida, né?”, enfatizou o homem, de acordo com Honório Bonfadini, um dos proprietários do Líder Bar na época, que acompanhou a conversa diante do balcão.
Quando chegou a hora de formalizar a venda, o negociante chamado Pedro Tenório se sentiu lesado porque a transação não foi concluída e ele perdeu a chance de ganhar uma boa comissão. Dois dias depois, retornou ao bar por volta do meio-dia. O local estava lotado, tanto que não havia mais cadeiras e mesas disponíveis. Então Tenório se aproximou do balcão e caminhou até dois homens que conversavam. Sem dizer palavra, sacou um revólver de calibre 44, puxou Onofre de Oliveira, mais conhecido como Alma de Gato, pelo braço e deu-lhe um tiro à queima-roupa no peito.

Alma de Gato foi sepultado na gaveta superior e Bartolo na gaveta inferior do Cemitério Municipal de Paranavaí (Foto: David Arioch)
Bartolo Sanches Perez, que estava ao lado do amigo ferido, ficou inerte, com os olhos estalados. Antes que reagisse, também foi alvejado no peito. Os dois caíram lado a lado enquanto o sangue se misturava no chão do bar. Durante a ação, alguns fregueses tremiam assustados e encolhidos embaixo das mesas. Outros ficaram tão desesperados que correram em direção à Avenida Paraná. “Todo mundo saiu de perto quando ouviu o primeiro tiro. O atirador não chegou a quebrar nada. Só furou a parede e o forro”, relata Bonfadini.
Com calma, Tenório abaixou o revólver e saiu do bar da mesma forma que entrou, ou seja, calado. “Havia muito sangue no chão e muito medo nos olhos de quem presenciou esse crime”, relata o pioneiro João Mariano. O atirador caminhou com tranquilidade até a Rua Getúlio Vargas, onde foi abordado pelo tenente Walter Porto, da Polícia Militar. Não resistiu à prisão e ainda confidenciou que sua intenção era ir até outro bar assassinar mais duas pessoas que segundo ele faziam parte do grupo que interferiu em seus negócios. Feridos gravemente, Alma de Gato e Bartolo acabaram falecendo no hospital.
O pioneiro e ex-prefeito Deusdete Ferreira de Cerqueira se recorda que foi procurado por João Tenório para testemunhar a favor de Pedro Tenório. “Ele era de família abastada. Eu me dava bem com esse parente dele. Mas um dia ele passou na minha casa e disse: ‘É sobre o Pedro, sei que você faz parte do júri popular e quero pedir que salve ele’. Aí expliquei: ‘Ô Seu João, pra mim é difícil. A única coisa que você pode fazer é pedir pra me tirar do júri porque se eu for lá eu condeno ele. Tenho minha consciência e meu senso de justiça’”, lembra.

Deusdete Cerqueira, Honório Bonfadini e João Mariano conheciam Pedro Tenório e as vítimas (Foto: David Arioch)
Após a condenação, Tenório foi transferido para Curitiba. O que o motivou a matar Alma de Gato e Bartolo foi o desejo de vingança e a sensação de impunidade. “Ele tinha amizade com um juiz e um escrivão que se dispuseram a ajudar ele. Ou seja, tudo gente boa”, ironiza Honório Bonfadini, lembrando que era muito comum as pessoas andarem munidas de revólveres de calibre 22 e 38 em 1964.
O duplo homicídio repercutiu tanto que se tornou o assunto mais falado na região por semanas. Inclusive a polícia exigiu que os Bonfadini fechassem o Líder Bar por alguns dias, reabrindo numa segunda-feira. “E tudo isso por causa da corretagem de uma fazenda. Naquele tempo as pessoas matavam facilmente por causa de comissão de terras. Ainda bem que os outros não quiseram se vingar porque senão ia acabar não sobrando ninguém”, pondera Deusdete.
Vizinho de Bartolo Sanches Perez, o pioneiro João Mariano conta que ele era tranquilo e educado. “Uma vez ele passou por uma situação difícil quando o filho dele foi laçar um boi e o animal o arrastou. Levaram o rapaz ao médico e ele se recuperou, mas ficou sem a mão”, confidencia.
Mariano também defende que Alma de Gato, homem alto e magro que conheceu em 1955, não era má pessoa. “Eu era mais novo que o Alma de Gato e tive o primeiro contato com ele em 1953, um ano depois que cheguei em Paranavaí. A propriedade onde moro hoje [Estância Reno] era do pai dele. Tinham uma fazenda enorme, com muito café e mato. Quando comprei, já tinham loteado. O forte deles sempre foi a cafeicultura”, garante Cerqueira.
Curiosidades
Alma de Gato e Bartolo estão sepultados na primeira seção de gavetas do Cemitério Municipal de Paranavaí.
Alma-de-Gato é o nome de um pássaro originário da Amazônia que tem a cauda longa, o peito acinzentado e a plumagem cor de ferrugem.
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Violência, psicopatia, justiça e individualismo

Em Maringá, motorista perseguiu uma moto e causou uma tragédia por motivo torpe (Foto: Blog Leandro Oliveira)
Ontem à noite, em Maringá, no Norte do Paraná, um motociclista atingiu o retrovisor de um Volkswagen Golf próximo ao Parque do Japão. Irritado, o motorista de 24 anos perseguiu o motociclista, atingiu a moto e a arrastou por metros. O rapaz de 18 anos que estava na garupa da moto faleceu no hospital e o condutor de 21 anos segue em estado grave. É mais um caso que revela claramente a falta de empatia das pessoas, a incapacidade de se colocar no lugar do outro, reconhecer falhas e ser tolerante com as vicissitudes do mundo atual.
Há estudos afirmando que 1% da população mundial possui transtorno de personalidade antissocial. Ou seja, 70 milhões de pessoas. Será mesmo que esses dados são precisos? Se levarmos em conta os fatos do cotidiano, não é difícil inferir que nos deparamos todos os dias com os mais distintos casos de manifestações de sociopatia e psicopatia. Sendo assim, é difícil crer que há somente 70 milhões de pessoas com tal transtorno em meio a uma população de sete bilhões. Livros como “The Sociopath Nextdoor”, lançado por Martha Stout em 2006, e “Snakes in Suits: When Psychopaths Go To Work”, de Paul Babiak, de 2007, reforçam o meu raciocínio e fazem refletir sobre a possibilidade do número de psicopatas chegar a pelo menos 10%.
Há mais de 20 anos, muitos pensadores da chamada hipermodernidade preconizaram que isso aconteceria hoje em dia. O mundo está se tornando um semeadouro de impaciência e todos os dias pessoas perdem um pouco mais de sensibilidade e plasticidade. A cada ano que passa a vida vale um pouco menos. Muitos se consideram aptos a decidir quem merece viver e quem merece morrer.
Mas o problema maior subsiste no fato de que com o crescimento dessa linha de pensamento é inevitável pensar na possibilidade de que o mundo pode se tornar um lugar muito pior. Vejo isso como um retorno ao primitivismo. Já não é mais velado o desejo do retorno da Lei de Talião, do Código de Hamurabi.
A violência insufla as pessoas de um tipo peculiar de medo que faz com que elas matem ou desejem a morte de outrem não porque acham que é a única forma de sobreviver, mas sim porque são alimentadas diariamente pela ideia de que a vida tem pesos diferentes e valores estimáveis.
No início dos anos 2000, me recordo que em âmbito acadêmico ainda se falava muito em disfunção narcotizante que é a incapacidade de se sensibilizar com a violência a partir do momento que ela se torna fato recorrente do cotidiano. Por exemplo, é o caso de uma criança que convive com assassinatos e por isso em certo ponto da vida os considera normais.

Muitos são alimentados diariamente pela ideia de que a vida tem pesos diferentes e valores estimáveis (Arte: Reprodução)
Mais de dez anos depois, o problema se tornou um pouco mais grave. Há muitas pessoas que não apenas consideram a violência como algo intrínseco à realidade, como acham justo tomar parte dela. É aquela consciência de que se as leis não funcionam corretamente, posso criar as minhas próprias. Ou seja, serei o senhor de meus atos e ninguém terá o direito de me deter, já que rejeito e condeno os mecanismos de justiça da atualidade.
Outro agravante é o fato de que se todos alimentarem um senso de justiça individualista, não há de tardar para as pessoas menosprezarem um pouco mais a vida. Sendo assim, um indivíduo pode achar justo matar alguém porque invadiu sua casa. Outro pode considerar plausível assassinar uma pessoa porque lhe deve dinheiro ou porque arranhou a pintura do seu carro em um acidente. O justo seria um criminoso aos olhos do injusto e vice-versa. Sendo assim, não seria tão obtuso acreditar no futuro como o prólogo do fim da humanidade.
O homem que sobreviveu a três tentativas de assassinato
Nebrão: “Dei como certa a minha morte. Ouvi só o barulho acionado pelo gatilho, mas a bala não veio”

Na Vila Alta, quem ingressa no mundo do crime precisa de sorte para chegar aos 25 anos (Foto: David Arioch)
Quem conversa com o pacato Nebrão, de 33 anos, não imagina que ele já foi um dos homens mais perseguidos da Vila Alta, na periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Comunicativo e de fala mansa, hoje se orgulha da vida tranquila e também de ter evitado que crianças e adolescentes entrassem ou continuassem no mundo do crime.
“Saí desse caminho errado graças a Deus. Já fui ladrão sim. Também me envolvi em outras coisas erradas. Não posso negar meu passado, mas me distanciei dessa vida sem futuro”, garante enquanto exibe inúmeras cicatrizes, principalmente marcas de facadas. De origem pobre e sem estrutura familiar, Nebrão é um raro exemplo de sobrevivência, ainda mais levando em conta que no bairro onde foi criado quem se torna criminoso precisa de sorte para chegar aos 25 anos.
O rapaz perdeu muitos amigos de infância e adolescência nos anos 1990, quando uma onda de terror tomou conta do bairro. Naquele tempo, a Vila Alta era conhecida como Vila do Sossego. “Muita gente foi pra debaixo da terra e outro monte pra cadeia. Era bandido matando bandido. É até difícil citar uma rua onde não morreu ninguém na época”, afirma. Os assassinatos no bairro sempre tiveram relação com o narcotráfico ou rixas entre facções do crime organizado. “Aqui é bem tranquilo para quem não se envolve com essas coisas, mas o ‘bicho pega’ se tu seguir a vida do crime e der mancada”, garante e cita o exemplo de um garoto de 13 anos que morreu após levar um tiro na cabeça enquanto estava escorado sobre um tanque, bebendo água da torneira.

Os assassinatos no bairro sempre tiveram relação com o narcotráfico ou rixas entre facções do crime organizado (Foto: David Arioch)
O adolescente foi morto porque furtou uma trouxinha de drogas. A tolerância é zero, tanto com quem tenta enganar algum traficante quanto com quem consome e não paga pelo produto. “A quantidade nunca interessa. Pra eles, o mais importante é impor medo e respeito, mostrar que a punição é mortal”, enfatiza. Enquanto converso com Nebrão, ele faz questão de caminhar alguns passos e me mostrar onde três adolescentes foram executados porque “cresceram os olhos” sobre os lucros do chefe. “Quem se envolve com a bandidagem tem que respeitar também a lei do crime”, explica.
Por muito tempo, Nebrão foi conhecido como o maior “ladrão de água e de energia elétrica da Vila Alta”, atividade que depois lhe trouxe problemas com a Companhia Paranaense de Energia (Copel), Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) e polícia militar. Autodidata, se tornou uma espécie de mestre das gambiarras. “Só de olhar, eu sabia o que tinha de fazer. Por R$ 35, eu resolvia o problema de qualquer um. Só ficava sem água ou sem luz quem quisesse”, lembra e acrescenta que já atendeu cerca de 1/3 do bairro.
Famoso pelo serviço rápido, o rapaz desde cedo demonstrou talento em montar e desmontar objetos. Chegou a ser contratado para furtar pontes de córregos. “Dependendo do tamanho, ele não precisava nem de uma hora para desmontar e levar embora”, garante um amigo que entre sorrisos testemunha a conversa. Envolvido com furtos, roubos e receptação de mercadorias desde a adolescência, Nebrão declara que só está vivo porque Deus quis assim. “Quem tem um histórico parecido com o meu não vive muito. Sou um sobrevivente”, garante.

Nebrão falando dos anos 1990: “Difícil era citar uma rua onde não morreu ninguém” (Foto: David Arioch)
O rapaz tem motivos para pensar assim. Perdeu as contas de quantas noites dormiu sem saber se acordaria. Uma vez atearam fogo em sua casa de madrugada. Nebrão percebeu o incêndio a tempo e escapou da morte, apesar dos prejuízos materiais. “Comecei a ser perseguido porque um cara delatou dois traficantes e deu o meu nome como se fosse o dele. Ele queria me ‘ferrar’”, revela.
Quando tudo parecia ter voltado à normalidade, Nebrão foi surpreendido na rua por dois homens armados. No momento da execução, apesar da insistência dos atiradores, nenhum dos revólveres disparou. “Dei como certa a minha morte. Ouvi só o barulho acionado pelo gatilho, mas a bala não veio. Corri e vieram no encalço com pedaços de pau. Tentaram me derrubar golpeando minhas pernas. Não caí por milagre e consegui escapar mais uma vez”, confidencia o rapaz que é alto e corpulento, o que também pode ter ajudado na fuga.
As histórias de Nebrão são confirmadas por outros vizinhos que se aproximam para ouvir a conversa. Apesar das tentativas de homicídio, continuou no bairro, próximo da família e dos amigos. Mais tarde, um conhecido apareceu na casa do rapaz e gritou: “Ô, nego, chega aí. Quero falar contigo, é papo reto, coisa rápida.” Em seguida, a irmã de Nebrão disse: “Tenha fé, meu irmão. Deus me disse que hoje você vai amarrar o diabo.”
Quando abriu o portão, o sujeito apontou o revólver para Nebrão que começou a orar enquanto mantinha os olhos fixos sobre o atirador. “Ele abaixou a arma, chorou e disse que não aguentava mais aquela vida. Decidiu se entregar para a polícia”, relata Nebrão que em diversas situações foi perseguido por falsas denúncias de delação de traficantes.
Naquele dia, o homem enviado para matar Nebrão já tinha assassinado cinco pessoas na periferia de Paranavaí. Preocupado com o futuro, Nebrão se distanciou do crime, parou de beber, fumar e se tornou evangélico. Admite que atualmente ganha pouco para sobreviver, mas está feliz por não dever nada a ninguém. “É um dinheiro honesto. Quando a situação aperta, trabalho até na roça nos finais de semana”, assegura.
Hoje, se empenha em fazer alguma diferença na vida de crianças e adolescentes que se tornam ladrões ou ingressam no mundo das drogas. “‘Mando a real’ na molecada. Explico que esse caminho não traz nada de bom. É uma ilusão, e se continuar nele vai morrer sem aproveitar a vida. Aos traficantes e ladrões que conheço, peço pra não oferecer droga nem serviço pra eles. O que posso fazer é aconselhar e pedir”, comenta Nebrão que já conquistou bons resultados com essas ações.
Saiba Mais
Nebrão é um apelido fictício para preservar a identidade do entrevistado.
Vivendo na Vila Alta
Garotos de 12 anos contam histórias sobre o cotidiano em um dos bairros mais pobres de Paranavaí
No último sábado, passei a tarde toda na Vila Alta, um dos bairros mais pobres e isolados de Paranavaí, no Noroeste do Paraná. Foi o suficiente para ouvir muitas histórias sobre a realidade de cinco garotos de 12 anos.
Enquanto brincavam, chamei a atenção de um e perguntei se sabia o significado do símbolo na camiseta que ele vestia. Respondeu negativamente com a cabeça e sanei sua curiosidade explicando que era o logotipo da banda cristã de metalcore (uma mistura de heavy metal com hardcore) Devil Wears Prada, dos Estados Unidos.
Quando questionei sua idade, hesitou um pouco, mas contou que tem 13 anos. O amigo ao lado o corrigiu, dizendo que são 12 anos. “Vixi, você não sabe nem sua idade!”, repreendeu. O garoto que vou chamar de R. para preservar a sua identidade justificou que nunca viu os próprios documentos. “Fica tudo com minha vó, ela que sabe dessas coisas”, se defendeu enquanto coçava a cabeça.
R. continuou falando e ressaltou que foi jogado na rua pela mãe quando tinha três anos. “Ela me batia muito, não gostava de mim. Quem me tirou da rua foi minha avó. Se não fosse por ela, eu ainda ‘tava’ lá”, garante. V. aproveita a confidência do amigo para revelar que seu pai sempre bate na sua mãe. Por isso, hoje só dorme na casa da avó. “Não consigo mais dormir com eles. Não durmo em nenhum outro lugar, só na minha avó”, enfatiza.

R.: “O que mais aparece é gente chamando pra roubar alguma coisa ou vender drogas” (Foto: David Arioch)
R., que abandonou a escola, assim como outros dois garotos de uma turma de cinco amigos, já passou muito tempo nas ruas. Com nove anos, além de usuário de drogas, se tornou “laranja” do narcotráfico. “Eu roubava [furtava] também. Um dia, a gente ‘passou a mão’ em uns canos de alumínio e levamos pra uma dona de um ferro-velho. Falamos que a Copel [Companhia Paranaense de Energia] descartou tudo no “Lixão”. Era mentira. A polícia veio atrás e a gente teve de correr”, explica. As histórias de R., contadas com singela inocência e peculiar ausência de noção moral, são confirmadas por um adulto que o conhece há mais de três anos.
Acostumados a passar bastante tempo fora de casa, é costume os garotos retornarem ao convívio familiar tarde da noite. “Fico na casa do V. até as 22h. Tem época que vou embora só pra dormir”, relata R. O tempo livre é ocupado jogando bola, matando passarinhos e brincando no bosque ou em uma área conhecida como “Barragem”.
O costume de matar animais não domésticos surgiu com a fome, mas acontece também de algumas crianças fazerem isso sem justificativa aparente. “Parei porque não é legal”, comenta A. O mais intrigante é que a maneira como falam sobre o assunto não demonstra crueldade, e sim falta de referência entre certo e errado, o que é permitido ou não.
É proeminente o desconhecimento sobre a importância da vida animal. Dois garotos disseram que raptaram filhotes de quati e diversas vezes perseguiram outros animais no Bosque Municipal de Paranavaí apenas por diversão. Esse tipo de situação é incentivada pelas atitudes dos mais velhos. Exemplo é um episódio protagonizado por um pai de família que aproveitou um incêndio no bosque para matar quatro macacos-prego em fuga. Um vizinho denunciou que o homem cozinhou, assou e comeu os animais, acompanhado da mulher e dos filhos.

“Aí já aconteceu de tudo. Teve uma época que a gente vivia fumando maconha lá dentro” (Foto: David Arioch)
“Aí já aconteceu de tudo. Teve uma época que a gente vivia fumando maconha lá dentro”, salienta R. enquanto aponta em direção a um buraco feito com alicate na cerca lateral do bosque. W. aproveita a “deixa” do amigo para confidenciar que há dois anos testemunhou um assassinato na “Barragem”. “Vi uma turma matando um cara com golpes de ferro de portão. Só me falaram pra sair de lá”, garante. O local é citado pelos moradores mais velhos como uma área neutra, onde facções criminosas resolviam desavenças e se livravam de cadáveres.
Curioso, um garoto ainda mais jovem e que não faz parte da turma pergunta se estou entrevistando eles. Respondo que sim e pede para escrever que o sonho dele é ter duas armas, andar de “carrão” com uma mulher no colo e ir pra “zona” tomar pinga. “É isso que quero pra minha vida”, complementa sorrindo.
Na sequência, R. lembra que há pouco tempo achou no “Lixão” um saco de balas de revólver. “Só tinha bala vermelha”, afirma. Da turma de cinco amigos, M. é o único que não reprovou na escola e se orgulha do feito, considerado raro entre os garotos do bairro que têm a mesma faixa etária. Muitos crescem sem incentivo para estudar.
“Falam que é bobeira, que estudar não vai dar em nada. Tem pai até que proíbe de ir pra escola”, assegura R. que mal sabe ler e escrever. Também é preocupante o quadro de analfabetismo funcional. Na Vila Alta, muitas crianças leem, mas poucas assimilam o aprendizado a ponto de explicar o que entenderam. Para reforçar o problema, cito como exemplo outra ocasião em que entrevistei dez garotos e seis disseram que estudaram em sala especial.
Em contraponto, é fácil perceber que muitos jovens do bairro são espertos e tem dons que não são aproveitados ou estimulados. Crentes de que o futuro dificilmente vai melhorar, acabam aceitando o convite para ingressar no mundo do crime. “O que mais aparece é gente chamando pra roubar alguma coisa ou vender drogas. Às vezes, você decide roubar porque ‘tá’ com fome”, destaca R., acrescentando que tem crianças do bairro que passam o dia na rua procurando algo pra comer, principalmente as que vivem a dura realidade do abandono ou ausência familiar.
Um dia, me deparei com uma criança no fim da Vila Alta, no “Lixão”, sentada sobre uma placa de “vende-se”, comendo restos de comida descartados por um restaurante do Centro de Paranavaí. Ela parecia não se incomodar com a presença de um urubu se alimentando da carniça de um cachorro a alguns metros de distância. Me aproximei, dei algum dinheiro, ela agradeceu assustada e foi embora. Moradores das imediações me informaram que essa cena não é incomum. “A sua intenção foi boa, mas pode acreditar que isso não vai acabar assim. Precisamos de muita ajuda aqui”, avalia a dona de casa Maria Cândida de Oliveira.





