Archive for June, 2017
Odioso na internet, manso fora dela
Odioso na internet, manso fora dela. Existe muita gente assim. O problema é que há pessoas que esquecem que palavras na internet também têm consequências. Por isso acredito que o melhor de tudo é ponderar: “Será que o que falo aqui eu seria capaz de falar cara a cara com alguém?”
Ou: “Será que isso é realmente o que penso ou estou apenas nervoso?” Um bom exercício também é ler o próprio discurso e tentar imaginar como você reagiria se fosse alguém falando da mesma forma com você.
O ódio, o rancor e o surgimento de doenças
Há pessoas que em inúmeras situações são motivadas pelo ódio e pelo rancor, mas ignoram que esses sentimentos também levam ao surgimento de doenças psicossomáticas. E isso inclui desde doenças cardiovasculares até gastrointestinais, endocrinológicas, dermatológicas, entre outras. No século 19, um neurologista, fisiologista e antropólogo italiano chamado Paolo Mantegazza alertava para os perigos de se cultivar esse tipo de sentimento. Ele discute isso no seu livro “A Fisiologia do Ódio”, publicado em 1899.
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
Sobre morrer de tristeza

Por causa de tristeza, minha bisavó perdeu o interesse pela vida e parou de se alimentar (Foto: Arquivo Familiar)
Quando eu era criança, sempre ouvia minha mãe dizendo que minha bisavó morreu de tristeza, porque um de seus filhos foi assassinado e o outro cometeu suicídio. Um com pouco mais de 30 anos e o outro com 26 anos. Aquilo me surpreendia, porque eu não entendia como alguém poderia morrer de tristeza.
Na adolescência então entendi que a tristeza realmente não mata, mas o que ela acarreta sim. Por causa de tristeza, e provavelmente depressão (algo ainda desconhecido há quase 50 anos), minha bisavó perdeu o interesse pela vida e parou de se alimentar. Então descobriu um câncer e faleceu algum tempo depois.
O atleta e a vaquejada
— O que você faz?
— Sou atleta.
— Sério mesmo?
— Sim…
— Qual esporte você pratica?
— Vaquejada.
— Isso significa que o seu esporte é puxar violentamente o rabo de um animal?
— Sim…
— Mas o animal consentiu? Ele disse a você que gostaria de sentir dor?
— Não…
— Então como isso se enquadra em esporte?
— Não tenho a mínima ideia.
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
A importância da convivência pacífica
A convivência pacífica seria facilmente alcançada se tentássemos oferecer aos outros o que temos de melhor, não de pior. Não que seja necessário se doar, mas simplesmente ser mais humano, ter mais empatia. Acredito que seria mais vantajoso para todos se nos empenhássemos em não tentar diminuir, desdenhar ou prejudicar os outros. Até porque além disso ser ruim para os outros, também é pra nós, mesmo que não percebamos.
“Suas histórias são reais?”
No ano passado, em uma escola, um estudante me perguntou se as histórias que escrevo são reais. Respondi o seguinte:
— Pode ser que sim, pode ser que não. Na realidade, acho que não faz a menor diferença. Uma história para ter poder sobre a mente humana, ou para instigar alguma emoção ou sentimento, não precisa ser real. Nós que precisamos ser verdadeiros em relação ao que sentimos ou ao que acreditamos quando escrevemos ou lemos. Se você lê uma história totalmente real, mas já tem uma predisposição a não acreditar no que lê, naturalmente aquilo já vai ser interpretado com ressalvas por você. Ou seja, penso que a leitura depende basicamente do quanto abrimos nossas mentes e nossos corações.
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
O boi e o menino
Dirigindo pelas estradas de Alto Paraná, perto da Água do Cedro, encontrei um menino andando lado a lado com um boi. Encostei o carro, desci, pedi uma informação e perguntei se ele morava longe. Então o garotinho de nove ou dez anos apontou uma porteira aberta e uma casa de madeira no horizonte à sua direita. A postura e os olhos daquele boi me fizeram suspeitar que havia algo realmente incomum sobre ele.
— E esse boi? Ele mora com vocês?
— Sim, senhor.
— Vocês estão passeando?
— Isso mesmo. Como o senhor sabe?
— É que lá de trás vocês já pareciam companheiros. E agora, de perto, vi que esse boi não tem nenhuma marca no corpo.
— Pra que marcar o bicho, né? Eu que não quero ter o couro marcado. Acho que ninguém quer, né?
— Pois é. Realmente…
— Vocês passeiam sempre?
— Ah, não. Só quando ele quer.
— E como você sabe quando ele quer?
— Ele encosta na porteira, e esfrega a orelha. Meu pai diz que ele faz isso desde criança.
— Desde criança?
— Isso.
— Quantos anos ele tem?
— Ah, ele tem 21.
— Nossa! Incrível!
— É o que todo mundo diz – comentou sorrindo.
— Forte desse jeito? E como ele viveu tanto?
— Não sei dizer não, senhor. Deve ser porque a gente nunca judiou dele, deixa ele bem solto no pasto.
— Isso é bom.
— É sim.
— Vocês nunca pensaram em abater ele?
— Não, senhor. Que isso! O Mestre é da família, é bicho que nem a gente.
— Vocês não comem carne?
— Não. A gente só mexe com horta e pomar. Meu vô, meu pai e minha mãe falam que comer o que não nasce de novo não presta. Tá certo não.
— Ninguém da sua família come carne?
— Não, ninguém.
— Sempre foi assim?
— Não. Foi por causa de uma coisa que aconteceu com o bisa antes do meu pai nascer.
— O que aconteceu?
— Meu bisavô tinha um cemitério no fundo do sítio dele. Um dia, uma vaca entrou lá e empurrou um pedaço de bife dentro de um buraco. Depois ela arrastou a terra com a pata pra cobrir o bife. O bezerro dela tinha sido levado fazia acho que duas semanas. Então o bisa chorou quando viu e prometeu nunca mais comer carne, nem mexer com isso. Essa história a gente escuta desde bem pequeno.
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
Quem é vegano vem de onde?
Enquanto eu aguardava o fim do trânsito interrompido na saída da cidade, duas moças em uma moto encostaram ao meu lado e começaram a rir. A de trás riu primeiro e cutucou a moça da frente. Tive a impressão de que elas estranharam o fato de eu ouvir música ocidental. Tímido, mantive meus olhos em direção ao horizonte, até que uma delas decidiu falar.
— Oi!
— Oi…
— Desculpe a indiscrição, mas você é turco, moço?
— Não…
— O que você é?
— Sou vegano.
— Quem é vegano vem de onde?
— Do Veganistão.
— Humm…
— É longe?
— É sim.
— Onde fica?
— Na região da Veganícia, na porção setentrional da Eurásia.
— Como é lá?
— Ah, é um lugar onde é proibido explorar, matar e comer animais. Para nós, todos os animais são sagrados.
— Existe mesmo um lugar assim? Nunca imaginei.
— Existe sim. Quem explora animais no Veganistão é preso ou punido com chibatadas, dependendo da gravidade do crime.
— Sério mesmo?
—É sim.
—Que cultura diferente! Que povo radical!
— E vocês comem o que lá?
— Tudo que não venha de animais.
— Diferente isso. Faz tempo que você mora aqui?
— Sim, tem anos.
— Imaginei. Você quase não tem sotaque de estrangeiro.
— É?
— É sim.
— Fale alguma coisa em vegano pra gente.
— Como?
— Falar alguma palavra ou frase em vegano.
— Životinje nisu hrana [Os animais não são comida]
— Nossa! Olha como fiquei arrepiada. Você ouviu o que ele falou? Parece poesia. Ah, seja bem-vindo, moço.
— Obrigado.
— De nada.
A lição de Dona Maria
Em março de 2014, comecei a produzir um documentário sobre a realidade da periferia. Durante as filmagens, conheci a Dona Maria, uma senhora que trabalhava recolhendo materiais recicláveis.
Em uma manhã, testemunhei o estado lastimável de sua casinha, atingida por uma forte enxurrada. Ela me contou que perdeu quase tudo. Apesar da situação extremamente difícil, a sua maior preocupação era com os animais com quem ela convivia.
No interior do casebre, sobre uma pequena cama, estava uma cadelinha, a quem ela tratava como se fosse uma filha. Dias antes, a cachorrinha tinha passado mal e ela percorreu quilômetros a pé, até encontrar um médico veterinário.
No casebre, moravam também outros dois cães que gostavam de ficar perto da única porta, como se fossem responsáveis pela segurança do lar. Em cima de um colchão, me deparei com o que mais me chamou a atenção – três pratinhos com ração.
Dona Maria não ganhava nem o suficiente para a subsistência, chegando até a passar fome, e dois dias antes quase perdeu a casinha construída com as próprias mãos. Apesar de tudo, ela afirmou que o mais importante era cuidar de seus três companheiros animais.
Contribuição
Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:
Não faço nada pelos outros esperando recompensa
Dependendo do que faço, é muito comum as pessoas dizerem algo como: “Que Deus te dê tudo em dobro”, “Você vai ser abençoado por tudo que fez” ou “Você ainda vai receber uma grande recompensa por isso”. Não sou religioso, mas fico honrado pelas pessoas me desejarem o melhor.
Porém, não faço nada pelos outros esperando recompensa. Realmente, não espero nada. Se faço algo é porque acho que posso e devo fazer, e quase sempre de forma independente. Não tenho nenhuma aspiração nesse sentido. Sou apenas um ser humano, e como tal, me sinto na obrigação de viver não apenas me pautando nas minhas próprias necessidades.
Sem dúvida, o ser humano nasce e morre sozinho. Mas nesse ínterim não custa abrir os braços, mesmo que ocasionalmente, para realidades tão diversas, para pessoas ou criaturas à mercê da própria sorte ou azar.








