David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for July, 2017

Mate Coma

without comments

“Que demais esse lugar. Dizem que os lanches deles são os melhores da região”

Arte: Dana Ellyn

Inauguraram uma lanchonete fora da cidade. Mate Coma. Ioan e Colomano percorreram pouco mais de 15 quilômetros até chegarem ao local. Boa vegetação nativa nos entornos, arborismo, tirolesa, frescor; cães, gatos e coelhos brincando às margens de uma lagoa.

— Que demais esse lugar! – disse Ioan.

— Show mesmo! Não conhecia isso aqui – comentou Colomano.

— Dizem que os lanches deles são os melhores da região.

— Também fiquei sabendo disso. Veremos se é verdade.

Lá dentro, a iluminação não era das melhores. Intencional. Os fregueses comiam como se não houvesse amanhã. Normal. Ian e Colomano foram ignorados. Ninguém se importava com quem entrava ou saía. Sem piscar, um homem com um lanche desmesurado entre as mãos o devorava; vez ou outra, roçando a língua pela carne malpassada.

— Delícia! – monologou, ignorando as pessoas à sua volta.

— Tem sangue na roupa daquele homem, e não é pouco. Será que ele sabe disso?

— Não tenho a mínima ideia. Seria uma boa avisá-lo?

— Pode ser.

Ioan se aproximou, cutucou o ombro do homenzarrão e ouviu um grunhido.

— Senhor, com licença, me perdoe a intromissão, mas só quero avisar que tem sangue na sua roupa.

— É?

— Sim…

Nenhuma palavra, risos, bafo quente. O homem virou as costas e continuou mastigando.

— Parece que as pessoas aqui só querem comer. Nada mais importa.

— Bom, isso aqui é uma lanchonete, não é mesmo? — ironizou Colomano.

— Pois é…

Diante de uma mesa, Ioan pegou o cardápio. Grande variedade de carnes. De cavalo a jacaré. Na última página, um aviso – “Conseguimos qualquer tipo de carne, independente de espécie.”

— Isso é interessante — concluiu Colomano.

Ao lado da descrição de cada lanche havia sugestões de abate, de como garantir que as partes mais nobres da carne não sejam maculadas durante e após a execução de cada animal.

— O que significa isso? E essas ilustrações de abate? Isso é realmente estranho — reclamou Ioan.

— Será? Acho que não. Me parece algo bem honesto, diferente do que vemos por aí.

— Sei lá, cara! Isso parece demais pra minha cabeça.

Em uma vitrola perto do balcão tocava “Everybody Hurts”, do REM, enquanto os fregueses comiam. “When you’re sure you’ve had enough of this life…Hang on.”

— Boa noite. Sejam bem-vindos ao Mate Coma. O que vocês desejam?

— Falaram que é possível comer à vontade e de graça neste lugar. Não vou negar que foi isso que trouxe a gente aqui.

— Ah sim! Esplêndido! Já sabem como funciona?

— Não… – responderam ao mesmo tempo.

— Pois bem! O que vocês vão querer?

— É simples assim? – questionou Ioan.

— Esse é o primeiro passo – respondeu o garçom.

— Ah…ok.

— Quero um X-Vitela. Ele vem mesmo com 300 gramas de carne?

— Sim, na opção tradicional, mas nessa modalidade que vocês querem a quantidade de carne é ilimitada.

— Uau! Que maravilha! — comemorou Ioan.

— E você, Colomano?

— Quero algo mais usual. Um X-Filé Mignon vai bem.

— Podem me acompanhar?

— Tudo bem.

Atravessaram a cozinha e caminharam até um galpão bem iluminado com dezenas de divisórias. Grilhões, correntes, caixas, gaiolas, carretilhas, roldanas, torneiras, pias, facas, marretas, sangue fresco e riscos no chão. Não. Nenhuma alucinação.

— Que gritos e gemidos são esses? – perguntou Ioan.

— É o grito da comida, meu senhor, simplesmente o grito da comida. Não se preocupe.

Pios, cacarejos, gorjeios, uivos, assobios, grunhidos, mugidos, latidos, miados, coachos, relinchos.

— Que barulheira! Isso aqui parece uma selva – comentou Colomano.

— Não exatamente. Apenas atendendo o gosto do freguês.

— Me acompanhem, por favor.

Atravessaram um corredor, barulho mais intenso, luzes amarelas, insetos agitados, nenhuma janela.

— Os senhores podem entrar aqui. Aguardem um momento.

O garçom fechou a cortina branca e os deixou sozinhos com um robusto boi acastanhado. Enquanto balançava a cabeça de um lado para o outro, o animal visivelmente dopado mugia com a cabeça escorada em um latão; um mugido sepulcral e fragilizado.

— O que está acontecendo aqui? – perguntou Ioan já exaltado.

— Vamos esperar – sugeriu calmamente Colomano.

O garçom retornou acompanhado de um peão empurrando um carrinho de mão. As rodas rangiam e as pernas do bezerro tremiam. Tiraram o animal de cima do carrinho e o colocaram no chão. Fraco demais para manter-se em pé.

— O que é isso? – questionou Ioan.

— O X-Vitela.

— Como?

— Isso mesmo!

Sem dizer mais nada, o garçom mostrou um mural com duas opções de execução — MARRETADA OU DEGOLA.

— Aqui no Mate Coma o senhor pode comer à vontade e sem pagar nada se matar o animal usado no recheio do seu lanche. O senhor pediu um X-Vitela e o seu amigo um X-Filé Mignon. Temos aqui um boi e um bezerro. Tudo é feito por nossa conta, menos o abate do animal. Quem deseja começar?

— Isso é loucura! Não posso matar um animal. Nem mesmo posso vê-lo morrer – esbravejou Ioan.

— Mas imagino que o senhor coma carne, não?

— Claro que sim, mas não tomo parte na morte do animal.

— Será?

— Que desaforo! Não vou ficar aqui sendo tratado com desrespeito.

— Acalme-se, Ioan! – sugeriu Colomano.

— O garçom tem razão. Se comemos, matamos, a única diferença é que não golpeamos.

— Você também? Pelo amor de Deus, Colomano! O que está acontecendo com você?

— Ora, nada! Apenas uma fagulha oportuna de sensatez.

— Quer saber? Mate você os dois. Perdi o apetite.

— Que assim seja, meu amigo.

Ioan atravessou o barracão a passos céleres e caminhou em direção à lanchonete. Sentou-se.

Resistente, o boi mugia entre as marretadas de Colomano. Foram 12 para entregar-se ao fim. O sangue escorria pelo piso. Fresco, grosso e escuro — o mousse da morte. Língua de fora, cabeça pesada, olhos vazios.

— Me desculpe, meu amigo, mas agora é a sua vez – falou segurando a cabeça do bezerro caramelo que tremia e se encolhia no canto com olhos vendados.

Um golpe certeiro na garganta o fez deitar e se debater com as patas moles até perecer. Expressão final de terror e desespero. O sangue não parava de jorrar, se misturando ao do boi recém-falecido. Eram como pai e filho, lado a lado, combinando carcaças.

— Parabéns! O senhor não fugiu. Realmente assumiu a responsabilidade — disse o garçom.

— Certo…Que seja! Vai demorar muito para os lanches ficarem prontos?

— Não muito. O senhor pode seguir esse corredor e virar à direita. A última porta é um banheiro. Pode se limpar ou se lavar lá.

— Ok. Obrigado…

Na lanchonete, Ioan não conteve as lágrimas enquanto assistia “Blackfish”, de Gabriela Cowperthwaite.

— Que história mais triste. Meu coração está com você, Tilikum – monologou esfregando as pontas dos dedos nos olhos.

— Sabia que você não iria embora. E aquela conversa de que perdeu o apetite? – indagou Colomano.

— Fiquei mal na hora, mas já passou – justificou Ioan.

— Ah sim. Então tá.

— Os lanches logo serão servidos, inclusive o seu. Vai querer ou não?

— Assim sim.

— Bueno! Bueno!

Quando o garçom retornou com o X-Filé Mignon e o X-Vitela, Ioan e Colomano ficaram extasiados com o que viram. Cada lanche tinha 12 camadas.

— É sempre assim? Com 12 camadas?

— Não. É porque o senhor matou o boi com 12 marretadas.

— Isso foi criativo, devo admitir.

— Podemos comer sem tocar nesse assunto? — reclamou Ioan.

— Ok…ok..ok… — concordou Colomano.

Assim que deu a primeira mordida, Ioan cuspiu um pedaço de lanche no prato.

— Que nojo! Meu Deus do céu! O que tem errado neste lugar?

Colomano também sentiu um gosto estranho na boca e fez o mesmo.

— Garçom, amigo, venha aqui, por favor.

— Isso é extremamente nojento. Horrível! Estou com ânsia de vomito.

— O que houve, meus senhores?

— O que houve?

— Tem um fio de cabelo longo e castanho no meu lanche. Que repugnante!

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Reducetarianismo e consumo de produtos de origem animal

without comments

É preciso começar de algum lugar

Existe uma polêmica sobre o chamado reducetarianismo, ou seja, prática alimentar em que as pessoas não eliminam, mas reduzem consideravelmente o consumo de produtos de origem animal.

Não vejo isso como algo negativo porque sei que todo mundo precisa começar de algum lugar. Muitas pessoas, por fatores diversos, têm formas particulares de encararem mudanças de hábitos, principalmente alimentares.

Claro, se uma pessoa visa saúde, mas ainda assim privilegia o paladar, pode ser que ela não passe disso. Mas, para quem vai por esse caminho por uma perspectiva também ética dos malefícios dos hábitos alimentares baseados na exploração animal, pode ser um importante passo para grandes mudanças.

 

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Written by David Arioch

July 8th, 2017 at 5:08 pm

Nosso paladar é condicionável em proporção à nossa força de vontade

without comments

Se sou controlado pelo meu próprio paladar, também posso ser controlado por outros fatores

Nosso paladar é condicionável em proporção à nossa força de vontade. Se ela for pequena, há de revelar também o quanto são grandes as nossas fragilidades, e o quanto nos submetemos à nossa ausência de autocontrole. Se sou controlado pelo meu próprio paladar, também posso ser controlado por outros fatores. E tudo isso ajuda a criar uma ilusão de que temos o domínio de algo que na realidade tem o domínio de nós.

 





Written by David Arioch

July 8th, 2017 at 5:06 pm

O policial e a criança

without comments

Arte: Norman Rockwell

No mercado, vi uma cena que me chamou a atenção enquanto eu estava na fila do caixa rápido. Um policial militar escolhia alguns pães quando um garotinho, acompanhado do pai e da mãe começou a sorrir efusivamente. Consegui ver seus olhos cintilando mesmo eu não estando tão perto.

A mãe e o pai cumprimentaram o policial e falaram que a criança sempre teve grande admiração por policiais. Dava para ver no rosto do garotinho que a figura do policial para ele é a de um herói. Acanhado, mas lisonjeado, o rapaz fardado balançou a cabeça e disse poucas palavras. Nem precisaria dizer nada. A expressão compenetrada e sisuda de antes desapareceu com a chegada do menino.

O sorriso da criança o desarmou. E ele também começou a sorrir sem parar, olhando para a criança e vez ou outra mirando os pais com seus olhos encalistrados. O menininho pediu para dar um abraço no policial e ele concordou. Agachou e envolveu a criança nos braços por alguns segundos.

Mesmo depois que o casal e o filho partiram, o policial continuou sorridente, passou por mim sem conseguir velar o sorriso. Continuava tímido, translúcido, feliz e provavelmente agradecido por um presente inesperado que o impediu de retomar a expressão circunspecta.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Written by David Arioch

July 8th, 2017 at 1:11 am

Sobre o novo comercial da Sadia

without comments

A realidade do peru e de outros animais mais tarde fatiados (ou não) e embalados, a Sadia e nenhuma outra indústria alimentícia faz questão de mostrar

Sobre o novo comercial da Sadia. Alegria, família, crianças sorrindo, abraços, confraternização, uma verdadeira lição de harmonia. Muito amor envolvido. Bandejas bonitas, rótulos bem elaborados, tudo para dissociar o que se come da realidade. E claro, um peru feliz divulgando a própria carne, como se estivesse se oferecendo para morrer. Como sempre, uma utopia que vela uma distopia. Afinal, a realidade do peru e de outros animais mais tarde fatiados (ou não) e embalados, a Sadia e nenhuma outra indústria alimentícia faz questão de mostrar.

 





Written by David Arioch

July 7th, 2017 at 6:12 pm

O que você acha de ovolactovegetarianos?

without comments

O que você acha de ovolactovegetarianos?

Também há exploração, privação e sofrimento na produção de leite e ovos

Acho que é um bom caminho para quem tem como primeiro passo abandonar o consumo de todos os tipos de carne. Mas acho importante também que as pessoas tenham em mente que o ovolactovegetarianismo, embora seja um passo importante no abandono do consumo de produtos de origem animal, não deixa de contribuir com a exploração animal. Exemplo clássico disso é o fato de que a maior parte do leite consumido pela população é proveniente do sistema industrial, e o sistema industrial prevê a separação do bezerro da vaca para que o leite seja destinado ao consumo humano. Para produtores de gado leiteiro não é interessante a criação de bezerros machos, então acaba sendo mais vantajoso economicamente matá-los ou, dependendo do país, até mesmo vendê-los para o mercado de carne de vitela. Às vezes, alguém diz que é visceral demais dizer que o consumo de laticínios é tão terrível quanto o de carne. Não, não é, basta refletirmos sobre a duração dessa exploração e todos os seus desdobramentos, começando, por exemplo, pelo estado da vaca e do bezerro após a separação. A vaca naturalmente procura o bezerro e ele faz o mesmo, caso tenham a oportunidade. O estado emocional dos dois em decorrência da impotência é de alto estresse seguido de sofrimento. E claro, tudo isso pode culminar na morte do bezerro, que pode ou não ser reduzido a uma carne pela qual as pessoas pagam caro e consomem como se fosse algo natural. Logo se tomo leite ou consumo qualquer produto com laticínios, acabo por incentivar em menor ou maior proporção a morte de bezerros machos. Além disso, a queda na produção de leite não raramente é associada à mastite, uma grave inflamação das glândulas mamárias. É importante entender que vacas exploradas nesse ramo são condicionadas a produzirem leite em um ritmo não natural, e isso consequentemente reduz a expectativa de vida do animal. Também é preciso ponderar que a exploração do gado leiteiro é mais duradoura e só é interrompida quando o animal morre. Sim, a vaca leiteira que já não produz muito leite e não é economicamente viável manter viva. Depois de uma vida de contumaz exploração, o destino dela é o matadouro, ter sua carne, entre outros fins, reduzida a porções de hambúrgueres congelados enfileirados na área de frios dos mercados. Não duvido que haja exceções, mas a verdade é que no geral a produção e o consumo de laticínios nos leva a isso, e claro, a ânsia por carne industrializada.

Mas e se as pessoas consumissem leite de pequenos produtores, em que não há o mesmo sofrimento imposto pela indústria?

Ainda assim eu não endossaria tal prática. Por quê? Porque isso reafirmaria a crença de que os animais existem para nos servir. Não deixaria de ser uma posição antropocêntrica e especista. E claro, alguém pode alegar que o animal não sofre. Vamos supor que isso seja possível. Nem todo mundo teria condições de ter uma vaca em casa ou comprar o suposto embora enganoso “leite eticamente sustentável” e “cruelty free”. E como a demanda seria alta, essas pessoas que consomem o “leite eticamente sustentável” incentivariam os outros a fazerem o mesmo. A demanda seria muito grande, e quem teria que suprir isso seria o sistema industrial, e no sistema industrial é impossível que não haja privação e sofrimento, porque a privação e o sofrimento são consequências de demandas muito altas de consumo num curto período de tempo.

E sobre o consumo de ovos?

O consumo de ovos também tem sua faceta tétrica. O romantismo que a indústria defende não condiz com a realidade em nenhum aspecto. Você já visitou granjas de pequenos produtores? Eu já, e muitas vezes, e posso dizer que ainda assim o nível de estresse das galinhas é muito difícil de ser controlado. E por que isso? Porque elas não estão levando uma vida natural. A dura vida das galinhas começa logo que nascem. Normalmente, com dez dias de idade, passam pelo processo de debicagem, ou seja, têm seus bicos cortados para que não pratiquem canibalismo quando o nível de estresse se torna muito alto. Mas como eu disse antes, ser ovolactovegetariano é louvável, mas é uma meia medida caso a pessoa não pense em ir além. Quero dizer, não é o suficiente para quem quer evitar realmente tomar parte na exploração animal. Quando falamos de ética alimentar no contexto dos direitos animais, a alimentação vegetariana estrita é a mais adequada.

O que você diria para quem é ovolactovegetariano há anos?

Eu sugiro que, caso seja uma escolha ética, que a pessoa reflita a respeito, porque há sofrimento em um copo de leite, em um ovo, e até mesmo no mel, já que nos apiários as abelhas também são condicionadas a trabalharem em um ritmo não natural. Quero dizer, normalmente elas têm sua expectativa reduzida à a serviço dos seres humanos. A rainha também é substituída, entenda-se como morta, quando começa a colocar menos de dois mil ovos por dia. Isso não seria uma forma de exploração? Elas poderiam viver mais. O romantismo na produção de mel também é preocupante. Onde há intervenção humana na vida animal com fins econômicos, pode acreditar que ali há uma vida não natural. Porque vidas não foram feitas para gerarem lucro, para serem mercantilizadas logo objetificadas, sendo assim há sempre uma dissonância entre expectativa de vida e geração de renda.

 

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Tive um sonho na noite passada

without comments

Triste realidade da exploração animal (Arte: Reprodução)

Tive um sonho na noite passada.

Um boi falou que não é pra eu desejar sua carne senão ele vai ter que morrer. E ele quer viver.

Uma vaca disse pra eu parar de tomar seu leite senão ela nunca mais vai ver o seu bezerro.

O bezerro se queixou que é cedo demais para morrer, porque nem o sol teve tempo de ver.

A galinha poedeira revelou que não quer passar os seus últimos dias em uma granja, onde seu destino final é ser sacrificada após a queda na produção de ovos.

O frango reclamou que se como sua carne sou culpado por ele ter de viajar entre grades de plástico, agonizando entre seus semelhantes.

O porco berrou que se bacon fosse vida ele sairia andando depois de fatiado.

O peixe gritou que se fosse pra ele servir de alimento para as pessoas, ele deixaria a água e deitaria sobre pratos.

A abelha me mandou ficar longe de seu mel, porque ela não trabalha o dia todo para sustentar seres humanos.

 





Written by David Arioch

July 7th, 2017 at 2:08 pm

Sobre a realidade da produção de artigos de pele de cordeiro

without comments

Realidade da produção de artigos baseados em pele de animais

Na foto, um carregamento de pele de cordeiro. Muita gente gosta de usar roupas e calçados com esse tipo de “material”. Em algumas casas, já me deparei com tapetes feitos com a pele desse animal; e as pessoas se orgulhando do que ele representa tratando-se de maciez e “requinte”. Não seria isso um exemplo extremo da presunção humana? Ostentar a pele de uma criatura dócil diante da soleira? Onde as pessoas pisam.

 





O cãozinho Peraltinha

without comments

Arte: Tracy White

Quando eu tinha cinco anos, todos os dias o mesmo cãozinho que morava na casa vizinha perseguia o caminhão de lixo. Ele era mestiço, pequeno e seu nome era Peraltinha. Todo mundo o adorava. Os carros paravam, e muitos motoristas o cumprimentavam. “Pode passar, Peraltinha…”, dizia Seu Paulo, assistindo o cãozinho atravessar vagarosamente a rua, balouçando o rabinho. Era realmente famoso.

O abandonaram ainda filhotinho em um terreno baldio na esquina de casa. Faminto, chorava sem parar. Foi salvo por Dona Estela, que o tratava como um filho. Eu não tinha ideia do que o caminhão de lixo representava no ideário de Peraltinha. Mas sei que Chico, um dos lixeiros, e um dos meus melhores amigos de infância, sempre o observava.

Agachava apoiado na caçamba e estendia uma das mãos com as pontas dos dedos mirando o asfalto. Peraltinha a cheirava, cheirava e parava de correr, assistindo o caminhão desaparecer em direção a Sanepar. Todos os dias a cena se repetia. Ninguém entendia. “Por que esse cachorrinho sempre para de correr atrás do caminhão depois que cheira a mão do lixeiro?”

Chico só tirava as luvas para Peraltinha; para mais ninguém. Era a exceção. Foi assim durante meses, até que sem mais nem menos parou de perseguir o caminhão. Então eu soube que Chico tutelava uma cadela que teve filhotinhos, e o cheiro em sua mão sempre vinha dela. Era o perfume de mãe que atraía Peraltinha.

Contribuição

Este é um blog independente, caso queira contribuir com o meu trabalho, você pode fazer uma doação clicando no botão doar:





Sempre que pesquiso sobre personagens históricos…

without comments

Percy Shelley, escritor britânico do século 19 que influenciou o veganismo

Sempre que pesquiso sobre personagens históricos, como escritores e artistas dos séculos 17, 18 e 19 principalmente, fico imaginando como eles se sentiam diante do sofrimento animal. A dimensão da incompreensão do entendimento que eles tinham disso era algo aberrante se comparado à atualidade.

Alguns chegaram a ser considerados loucos, e até mesmo um perigo para a sociedade. Ter forças para acreditar nos direitos animais hoje não é tão fácil, claro, mas imagine a vida daqueles que expressavam seu descontentamento em relação à exploração animal há centenas de anos.