David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for September, 2017

Você anda falando com a minha mulher no Facebook

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Arte: Alex de Pase

— Você anda falando com a minha mulher no Facebook.
— Depende, falando o que?
— Conversando, ora.
— Imagino que se for verdade, seja uma conversa normal.
— Não é pra ter conversa normal com ela.
— Não?
— Não.
— E?
— E aí que não é pra falar com ela. Conversa de nenhum tipo.
— Senhor, converso com inúmeras pessoas diariamente. Até porque o meu trabalho é escrever. Se escrevo e publico, isso atrai pessoas, e pessoas conversam.
— Mas não com minha mulher. Não é pra falar com ela.
— Onde o senhor conseguiu o meu número?
— Isso não vem ao caso.
— Não fale com minha mulher.
— Ok.
— Tá avisado.
— Sem problema. Obrigado pela gentileza de me ligar e tenha uma boa noite.
— Não fale com minha mulher, viu?
— Uhum.

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Written by David Arioch

September 11th, 2017 at 1:20 am

Tertuliano e a boiada

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Pintura: Roz

Em 1951, meu avô conheceu um rapaz em uma fazenda na Água do Cedro. Seu nome era Tertuliano e ele tinha chegado há pouco tempo do interior de São Paulo para atuar como motorista de caminhão. Seu trabalho era buscar mantimentos para três casas de secos e molhados situadas no centro de Paranavaí. Tertuliano era “meio aéreo”, como diziam, e sempre que tinha algum tempo livre, era visto sentado na cabine do caminhão, apoiado sobre o painel escrevendo em um caderninho.

Um dia, fizeram uma proposta para que ele transportasse uma boiada até um matadouro na saída para Nova Aliança do Ivaí. A missão de Tertuliano era buscar os animais na Fazenda Alto Remanso em Alto Paraná. Precisando de dinheiro, não pensou duas vezes. Quando chegou ao local de manhã, os animais já estavam prontos para partir. Um homem gritou: “Tá no jeito!”

Tertuliano desceu a rampa parda e resistente de madeira e assistiu a boiada a subindo lentamente. Hesitação. Resistência. Um dos animais empacou no limiar da rampa. Quatro peões reuniram forças para que o boi, que tinha apelido de Teimoso, aceitasse o seu malquisto destino. Antes de desaparecer dentro da carroceria, o animal observou Tertuliano. Ele desviava o olhar, mas o boi persistia com seus olhos escuros.

— Você leva esses que depois a gente acerta — disse o administrador da fazenda.
— Sim, senhor.
— Quer que alguém te acompanhe?
— Não. Já tá tudo certo do lado de lá.
— Então tá bom. Pode ir.

Tertuliano subiu na cabine. Antes deu outra olhadela nos bichos. Silêncio desconfortável. O incomodava saber que os animais não reagiam mais. Sem barulho. Não odiavam os seres humanos, nem Deus, se houvesse um para eles.

— Que diacho de vida é essa? Sabe que vai morrer e vai aceitando assim?

Durante o percurso, parou o caminhão na estrada. Circulou pela carroceria e ouviu a respiração ruidosa de um deles.

— Será que tá com medo? — questionou.

Quis subir na carroceria para ver melhor a boiada. Feito. Lá em cima, nenhum deles movia os cascos, mas somente os olhos em sua direção.

— Por que num chora, num grita, num berra, num odeia? — questionou assistindo a boiada.
— Será que sabem mesmo pra onde vão? Será?
— Talvez sim, talvez não.
— Tô é ficando louco, falando com boi. Melhor seguir viagem.

Demora. Estrada estreita de terra. Animais silvestres atravessando carreadores e se escondendo na mata. Na saída para Nova Aliança do Ivaí, Tertuliano parou o caminhão e observou a pouco mais de 300 metros um barracão onde funcionava o matadouro. Não gostou do que viu. Hora da despedida. Ou não.

Desistiu da entrega. Seguiu viagem. Parou em um sítio em Graciosa, onde comprou ração e pediu água. Dirigiu até o Porto São José. Chegou depois de quatro dias. Em outro sítio, a boiada desceu a rampa sem medo. Deram alguns passos pasto adentro e deitaram sobre a braquiária. Verde, verde, verde. Sol morno. Sem medo.

— Olhe aí, pai! Parece criança.
— E não são? — indagou o velho acendendo um palheiro.

Não perguntou a origem da boiada. Talvez não quisesse saber, ou não tivesse relevância.

— O senhor pode cuidar deles pra mim?
— Deixe, onde come cinco, come até vinte, acho — respondeu sorrindo.
— Tá certo.

Teimoso, que não era mais teimoso, mugiu brevemente pela primeira vez quando o rapaz virou as costas. Avisou ao pai que era preciso resolver a situação.

— Dá-se um jeito — garantiu o velho.

Na semana seguinte, Tertuliano decidiu retornar a Alto Paraná para resolver a situação na Fazenda Alto Remanso. Perto de Guairaçá, encontrou galhos na estrada e desceu para movê-los. Emboscada. Sete tiros de carabina. Três homens. No banco do caminhão havia um pequeno saco de estopa, dinheiro que seria entregue como forma de compensação.

Agonizando e deixado para morrer, resfolegou. Um novilho atravessou a cerca e se aproximou. Lambeu seus olhos. O rapaz sorriu e sucumbiu. Sua história real não seria contada. Ganhou fama de ladrão de gado quando o que menos queria era roubar vidas. Até os anos 1980, ainda havia uma cruz onde Tertuliano morreu. Trazia a frase: “Se vive para não ver, não há o que querer.”

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Não entre em um relacionamento alimentando falsas esperanças

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Se você conhece alguém que espera de você algo que você não pode oferecer, simplesmente não seja sem noção. O que quero dizer? Não entre em um relacionamento alimentando falsas esperanças. A carência pode levar as pessoas a cometerem equívocos que trazem sérias consequências. Uma delas pode ser magoar profundamente alguém que espera de você mais do que você pode oferecer. Creio que muitos relacionamentos começam errado por causa disso.

Um relacionamento para dar certo deve partir do princípio de que duas pessoas querem a mesma coisa, têm objetivos em comum na relação e não estão pensando em obstáculos que já podem minar a relação. Quem entra em um relacionamento sério para trair, ou pelo menos pensando nessa possibilidade, pode muito bem deixar claro para a outra pessoa essa sua inclinação. O que significa que isso não cabe em um relacionamento monogâmico.

Assim como não cabe ser egoísta e individualista a maior parte do tempo. Claro, é impossível nunca ser egoísta e individualista, mas é possível não ser a maior parte do tempo, bastando apenas refletir a respeito e fazer um pouco de esforço em prol de algo que não diz respeito apenas a si mesmo.

Relacionamentos muitas vezes não dão certo por falta de comunicação e honestidade. E claro, empatia, já que não se colocar no lugar do outro permite que as pessoas tenham atitudes totalmente incompatíveis com uma relação saudável. Não é monogâmico? Então encontre pessoas que também não são. Não tem segredo. É só acreditar no respeito e colocar isso em prática.

Se tratando de relacionamentos, não acho que as pessoas devam ser iguais. Na minha opinião, o que elas devem, em primeiro lugar, é ter uma forte razão para estarem juntas. O que acontece a partir daí, vai depender do esforço, da vontade e da inclinação de cada um.





Written by David Arioch

September 10th, 2017 at 11:02 pm

Uma situação de risco

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Arte: Gerard Boersma

Há três anos, eu estava parado em um semáforo em uma rua escura. Notei duas motos colando no meu carro. Quando vi pelo retrovisor um rapaz abrindo a mochila, retirando algo rapidamente e a repassando para o outro motociclista, não pensei duas vezes. Iriam me assaltar.

Os dois usavam capacete com viseira preta, o que tornava impossível identificá-los. Assim que o semáforo abriu, segui meu caminho, mas fingindo que estava tudo bem. E os dois vieram no encalço, cada um de um lado. Decidi mudar o trajeto. Assim que virei à esquerda, derrubei sem querer um dos motociclistas, que bateu na lateral, rente ao pneu traseiro.

Parei o carro e fui até ele pra saber se estava machucado. O jovem estava bem, apenas atordoado. Ofereci toda a assistência necessária, inclusive autorizei que ele substituísse todas as peças danificadas da moto. Também recomendei que ele não fizesse mais aquilo. O pneu da moto dele estava quase colado no meu para-choque no semáforo. E eram mais de 23h. Difícil não pensar que era um ladrão.

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Written by David Arioch

September 10th, 2017 at 10:57 pm

Como você descobriu onde eu moro?

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Arte: San Martin

O cara chega na sua casa depois das 22h pedindo dicas de musculação. Você nunca o viu na vida.

— Como você descobriu onde eu moro?
— Me falaram por aí.
— Como assim por aí? Você vai me desculpar, mas isso é muito estranho.
— Como?
— Vir na minha casa essa hora sendo que nunca te vi.
— É que eu só tinha esse horário livre pra falar contigo, fora que a noite é mais silenciosa.

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Written by David Arioch

September 10th, 2017 at 10:52 pm

Sobre o meu trabalho com o veganismo

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Foto: Ed Wray/Getty Images

Até hoje nenhuma pessoa que conheço me ofendeu ou me tratou com desrespeito por escrever ou falar sobre veganismo. As ofensas que recebi, e que considero inclusive poucas em relação à quantidade de conteúdo que produzo diariamente, são mínimas, e vieram de desconhecidos, inclusive fakes. Já pensei, e às vezes ainda penso, em parar de escrever sobre isso por outros motivos que prefiro não explicar detalhadamente agora.

Gosto de escrever com liberdade, sem obrigação de responder a algum tipo de padronização ou hierarquia ao que diz respeito à defesa dos direitos animais. Às vezes, vejo pessoas falando de veganismo e direitos animais como se alguém tivesse alguma obrigação tácita e moral de seguir um programa que supostamente seria o melhor para todos. Isso simplesmente não funciona pra mim.

O que deve predominar, pelo menos no meu entendimento, é a honestidade, sensibilidade, comedimento e sinceridade de cada um em relação ao que se expressa. E isso independe de fórmula. Claro, todos devemos evoluir, mas cada um dentro daquilo que se propõe a fazer, principalmente se estiver dando resultados.

Não me vejo como alguém que representa um movimento, um grupo ou uma entidade. Não estou aqui para normatizar o trabalho de ninguém. Sou apenas alguém escrevendo livremente sobre os animais e o direito à vida. Quem acompanha o meu trabalho sabe que não tenho limites quanto a estilo e formato. E muito do que produzo surge naturalmente, pode ser uma reportagem, um artigo, uma crítica, uma crônica, um conto, uma reflexão ou um aforismo.

Quando você escreve profissionalmente e diariamente há mais de uma década, o que significa dezenas de milhares de páginas, e isso se torna parte de você, muitas vezes você não precisa de mais do que seus próprios olhos, um olhar sensível e ponderado para dentro de si mesmo e dos outros para usar como ponto de partida para a conscientização e a sensibilização. E se isso está funcionando em algum nível, pra mim isso é um bom indicativo.

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1120 pessoas afirmaram que foram influenciadas pelo meu trabalho

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Arte: Study Breaks Magazine

Sempre que uma pessoa me diz que se tornou vegetariana ou vegana por influência dos meus textos eu faço questão de registrar isso. Na semana passada, uma moça bem educada me revelou que faz dois meses que não consome nada de origem animal. Ela acompanha o meu trabalho há seis meses. Contando com ela, e levando em conta meus registros, já são 1120 pessoas que disseram que as conscientizei a seguirem por esse caminho.

Não imponho nada a ninguém, simplesmente escrevo, e fico muito feliz por esses resultados, apesar de já ter cogitado parar algumas vezes. Que eu possa levar algo de bom para mais pessoas, que elas possam reconhecer que podem viver muito bem sem consumir nada de origem animal.





Written by David Arioch

September 10th, 2017 at 2:14 am

Sobre o equívoco do discurso “Vegano, minha comida caga na sua”

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Como alguém pode persistir no discurso: “Vegano, minha comida caga na sua”, sendo que o escândalo envolvendo a Operação Carne Fraca, realizado pela Polícia Federal em março deste ano, surpreendeu muita gente ao revelar que não é raro encontrar coliformes fecais na carne, desde que em níveis aceitáveis. Seria ignorância ou negação?

Em entrevista sobre coliformes fecais na carne, Eduardo Tondo, professor de microbiologia de alimentos do Instituto de Ciência e Tecnologia de Alimentos da UFRGS disse que a carne de “muito boa qualidade” tem coliformes fecais e ainda endossou:

“Isso é normal, mas em níveis baixos.” Ou seja, não são veganos nem vegetarianos que consomem coliformes fecais. Ademais, é importante considerar que, partindo de um pressuposto lógico, o discurso “a minha comida caga na sua” não faz o menor sentido. Claro, a não ser que você se alimente de pasto, o que não condiz nem mesmo com a realidade dos bovinos criados sob o regime da pecuária intensiva.

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Sobre veganos e vegetarianos que oferecem alimentos com ingredientes de origem animal a quem não é

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Oferecer alimentos sem ingredientes de origem animal é uma forma de aproximar as pessoas do veganismo

Sei que há vegetarianos e veganos que quando realizam algum evento abrem exceção e oferecem alimentos com ingredientes de origem animal para os amigos que não são nem vegetarianos. Bom, fora o fato de que isso também é virar as costas para a exploração animal, perde-se aí uma oportunidade de mostrar como o vegetarianismo ou o veganismo é acessível e tem opções muito boas para todos os gostos. Os clichês e estereótipos surgem exatamente pela desinformação que pode ser combatida neste caso da melhor forma possível.

Afinal, pensemos. Por que uma pessoa se recusaria a consumir comida vegetariana ou vegana por uma noite, por exemplo? Não faz sentido. Além disso, quem te respeita aceita isso numa boa. Não vejo nenhuma justificativa plausível para uma exceção. Simplesmente é incoerente com o veganismo e até mesmo com o vegetarianismo ético. Obviamente porque nenhum dos dois se resume apenas ao que você coloca dentro da sua boca.





Written by David Arioch

September 10th, 2017 at 2:03 am

Seu Santo contra a matança de animais

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Pintura: Ivanici Emília Gonçalves

No final dos anos 1940, meu avô conheceu uma fazenda de café em Paranavaí onde era proibida a matança de animais. Havia dezenas de casebres, e quem quisesse trabalhar e viver ali era obrigado a aceitar o fato de que não era permitido se alimentar de animais. Qualquer morte de animal era punida com expulsão. O dono da fazenda era conhecido como “Seu Santo”.

Ele andava mancando porque em 1944 levou uma mordida de onça na perna direita, perdendo parte de massa muscular e de massa óssea. No dia do acontecido, a onça saltou sobre uma árvore assim que ouviu o barulho de um Ford movido a gasogênio. Logo dois jovens desceram armados e se posicionaram para abatê-la.

Ciente de que ela seria morta, Seu Santo apenas gritou com os filhos: “Deixa ela. Tá no direito dela. Foi a gente que invadiu isso aqui.” O deitaram na carroceria do caminhão e partiram rumo ao Hospital do Estado. Esse lugarejo existiu por mais de 30 anos, até ser abandonado em decorrência das últimas grandes geadas. Hoje resta apenas quiçaça e uma história que parece recôndita sob a terra fragilizada.

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