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Direção e fome
Parece que a fome é capaz de deixar as pessoas um pouco mais agressivas. Por volta das 11h50, trafegando pela Avenida Parigot de Souza, vi logo mais a frente um senhor com a porta do carro aberta, então reduzi a velocidade até dar tempo dele fechá-la. Um motorista abespinhado passou do meu lado em alta velocidade, quase rasurando a lataria do meu carro. Sentindo-se o dono da razão, seguiu buzinando, como se eu tivesse feito algo de errado. Não é um relato incomum. É rotina numa cidade fleumática de motoristas famintos.
Um dia e duas escapadas da morte
Escapei da morte duas vezes hoje. Fui para a casa do meu irmão em Cianorte hoje de manhã, conhecer a minha terceira sobrinha que nasceu esta semana. No caminho, perto de Rondon, uma caminhonete ultrapassou em local proibido e veio em minha direção. Só consegui evitar o choque porque joguei meu carro fora da pista, num descampado. E depois disso, o motorista seguiu seu caminho, sem se importar com o acidente que poderia ter custado a morte de várias pessoas.
Há pouco, na volta para casa, perto de Paraíso do Norte, eu dirigia tranquilamente, quando de repente um cachorro grande e preto invadiu a pista. Desviei e o carro começou a ziguezaguear pelo asfalto. Não consegui deixar de pensar no pior. No mínimo, eu me chocaria contra uma árvore ou capotaria em direção ao acostamento.
Ainda bem que meu carro é estável. E enquanto eu tentava recuperar o controle dele, só pensei na possibilidade de algum veículo vir na mão contrária, onde fui parar depois de segundos de terror. Repentinamente, o carro parou no meio da pista, esfumaçando e cheirando a pneu queimado. Fiquei tão atordoado que só quando desci do veículo me dei conta de que eu estava no centro da rodovia. O cachorro preto já tinha desaparecido. Não sei pra onde.
Depois dirigi até o acostamento, saí do carro e fiquei observando as inúmeras marcas na pista. Um motorista que vinha logo atrás veio conversar comigo, para saber se estava tudo bem. Realmente gente boa. Quem passar pelo mesmo local amanhã cedo, provavelmente pode suspeitar que alguém morreu naquele ontem, ou seja, hoje.
The cat of Paraná Village
Cherubim heard gunshots followed by meowing. Outside, on the sandy dirt road, Ranulph did not move, and was sprawled over a portion of sibipiruna’s fine sheets. His mouth was still hanging open, exposing the pain of death not even spared the most innocent beings.
The boy tried to stop crying because he was afraid to look too sentimental. Cherubim made so much effort that the hot tears, that threatened to drain the corners of the eyes, disappeared without gaining the principle of freedom.
Angry, Cherubim noted Matias on the mango tree, smiling and aiming the shotgun in his direction. “Do you want too? I give you, muggle!”, warned the boy. Cherubim said nothing. Only scratched his head, regardless of the dusty cloud that was forming around his head like orange mist.
Keeping his back in front of the killer, the boy crouched and made caresses on the cat’s belly. The kitten no longer felt Cherubim’s hands on his clear fur. Where there was a pair of blue eyes, it remained a small shapeless mass. Two bashful tears fell, moistening the cat’s dry mouth. It was too late.
The hours passed away, and the nature buried Ranulph, covering his body with sandy soil, gradually transported from the forest by south wind. “Cherubim! Take this animal here. It will start to stink”, they said. He just nodded his head in agreement, without even moving his legs that rested on the curb.
When the earth, dragged by gale, invaded the cat’s mouth, the boy approached and cleaned it using a washcloth moistened with water. In the late afternoon, he tried to bury Ranulph in his mother’s garden. He was reprimanded as he was digging the earth with his grandfather’s trowel. “Are you mad, boy?! This is no place to bury an animal!”, complained his grandfather.
The old man picked up the dead cat by the back skin and put him into a thick dark bag. It looked like a cadaver pouch in PVC. He hung the bag on the handlebars of the bike, and rode to a vacant lot used as a garbage dump in the nearest neighborhood. He returned without a word, walked into the kitchen, took a bitter sip of coffee and laid down on the hammock.
Cherubim was watching the old man, wondering what he did to Ranulph. Without the courage to ask, he recalled a law imposed in Paraná village in the 1970s, when three large dogs killed two babies. “No one can come here with animals. If someone kills an animal, nobody can cry or bury him, or they will have to deal with me”, said Mandino Counselor, whom the population resorted to whenever there was a problem in the neighborhood.
Under a papaya tree, Cherubim watched his grandfather sleep on the hammock. He cried and shouted with his hands in his mouth. The boy also lashed his own legs and back with the papaya branches. No one listened. The welts multiplied. He did not care. He lay on the ground and felt a bitter taste in his mouth, a mixture of dirt and blood.
He woke up at down, lying on his old mattress, wrapped in a dirty white sheet and full of holes. Through the orifice in the roof, the sun illuminated a dog food packet flanked by a water bowl. Cherubim got up and ran to the shack entrance, where he lived with his mother and his grandfather. The hovel threatened to fall for years, but resisted.
He sat on the floor and used a piece of stick to draw Ranulph. After he was finished, he dozed a little, with his back propped up on a wooden fence with barbed wire. In his dream, he heard a purr that prickled him. He opened his eyes and under his left hand, Ranulph was marking his territory again, rubbing his dirt and soft fur on him.
The smell of garbage went unnoticed, not the hunger meowing. Crying, Cherubim held the blind and overwrought cat in his arms. He took him into the house, and there they stayed the rest of the day. The Ranulph and Cherubim story changed Paraná Village in the late 1990s: “Who does not see love in an animal, does not see love itself,” said Mandino’s son.
Leandro Karnal e a analogia aos esteroides anabolizantes
Em uma das palestras do Leandro Karnal, vi algo que me chamou a atenção. Ele fez uma analogia aos esteroides anabolizantes para citar um exemplo de conduta antiética. Ele exibiu para centenas de pessoas a foto de um rapaz como sendo a de um usuário de AEs, quando na realidade ele estava mostrando a imagem de um usuário de vitamina ADE, produto de uso veterinário.
Sim, ADE é um exemplo de trapaça quando usada por seres humanos que querem induzir algo enganoso, Porém, não é esteroide anabolizante, é um óleo de aplicação local que independe de atividade física e boa alimentação. Basta aplicar e ganhar uma bolsa de líquidos, já que ele não gera músculos, apenas amplia o volume do braço.
Sendo assim, penso que é preocupante confundir coisas de funções e ações distintas. E não se pode também generalizar AE como sendo fármaco de uso recreativo ou competitivo, ainda mais levando em conta sua aplicabilidade em pacientes com doenças graves como o câncer. Independente da minha opinião sobre o assunto, há documentários que tratam especificamente da recuperação de massa magra em pacientes com tumores malignos. Exemplos disso estão no documentário “Bigger, Stronger, Faster”, de Chris Bell.
Acredito que seja sempre perigoso quando tentamos abordar um tema entrando em outras áreas que não dominamos, ou pelo menos sobre as quais não temos conhecimento que vá além das armadilhas midiáticas. Ao final da palestra, Leandro Karnal não abriu espaço para perguntas, então fui embora com a esperança de que ele tivesse adquirido os direitos de uso de imagem do rapaz com o braço deformado e das outras pessoas que apareceram na projeção durante a palestra. Do contrário, isso também não seria antiético? A propósito, gosto do trabalho dele. São apenas questionamentos que considero válidos.
Uma manhã de sábado na Vila Alta
Hoje de manhã, realizamos algumas atividades para crianças e idosos na Vila Alta, na periferia de Paranavaí. Foi uma experiência inesquecível. Tudo foi feito de forma voluntária, graças à parceria da professora Rose Freire e das alunas do 4º ano de Serviço Social da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), do Serviço Social do Comércio (Sesc), através da minha amigaTânia Mara Volpato, da atriz e professora de dança circular Gaty Rocha, da Farmácia Bipharma, do senhor Luiz Gonzaga e sua esposa (moradores do bairro que ajudaram na montagem de tudo e disponibilizaram o equipamento de som).
E claro, do artista plástico Tio Lu ( Luiz Carlos), que é sempre a primeira pessoa que procuramos quando queremos realizar algo na Vila Alta. Também contamos com a participação do meu irmão Guimarães Jvnior, meu amigo Vinicius Vieira, do fotógrafo Elizeu de Moraes e do professor Carlos Alberto João, que também assumiu uma bela responsabilidade com o bairro. Além disso, fizemos doações de muitos livros cedidos pela Paranavaí Cidade Poesia – Fundação Cultural, por meio da Biblioteca Municipal Júlia Wanderley.
A Rose Freire e as alunas da Unespar prepararam um monte de kits para distribuir aos idosos, além de panfletos sobre seus direitos. Também percorremos casas distribuindo kits para aqueles que não tinham condições de se deslocarem até a Rua B, onde o evento ocorreu. Foi uma manhã muito agradável e de muito aprendizado. Tivemos muita música, pula-pula, pernas de pau, apresentações de dança circular, oficinas de artesanato, cuidados estéticos e diversas brincadeiras que hoje são pouco conhecidas pelas novas gerações. O maior presente foi ver tanta gente empolgada em ajudar, assim como tanta gente animada em se divertir.
Lamartine: “Matar os animais é uma das mais deploráveis enfermidades da condição humana”
“É uma dessas maldições lançadas sobre o homem pelo embrutecimento de sua própria perversidade”

Lamartine: “Talvez eu esteja em dívida com essa dieta por conseguir preservar requintada sensibilidade e uma doce tranquilidade de humor e caráter” (Foto: Reprodução)
Pioneiro do romantismo francês e considerado um dos maiores poetas da França do século XIX, o escritor e poeta Alphonse de Lamartine era um defensor do vegetarianismo. Em uma de suas obras, “Les Confidences”, ele conta como se tornou vegetariano logo nos primeiros anos de sua vida.
“Minha mãe estava convencida, assim como sempre foi a minha convicção, de que matar os animais para nos alimentarmos de sua carne e sangue é uma das mais deploráveis e vergonhosas enfermidades da condição humana. É uma dessas maldições lançadas sobre o homem pelo embrutecimento de sua própria perversidade”, escreveu na página 59 da obra publicada originalmente em 1849.
Lamartine narra que surpreendeu a todos quando chegou aos 11 anos se alimentando basicamente de pão, vegetais e frutas. Nem por isso ele era menos saudável ou teve sua fase de desenvolvimento comprometida. “Talvez eu esteja em dívida com essa dieta por conseguir preservar requintada sensibilidade e uma doce tranquilidade de humor e caráter”, registrou.
Assim como sua mãe, o poeta francês acreditava que os hábitos alimentares que envolvem exploração de animais endurecem o coração humano e comprometem a capacidade de observá-los como seres gentis. “Eles são nossos companheiros, nossos auxiliares […]. Esses apetites sangrentos, essa visão da carne palpitante, são calculados para brutalizar os instintos do coração, tornando-nos ferozes”, observou.
A nutrição baseada na exploração animal era reconhecida por Alphonse de Lamartine como possivelmente mais suculenta e energética. Por outro lado, ele afirmou que essas supostas qualidades também eram as causas ativas da irritação humana e do seu definhamento físico. “Azedam o sangue e encurtam os dias de vida da humanidade”, declarou em “Les Confidences”.
Desde muito cedo, com a intenção de fortalecer a opinião do filho em relação à abstinência de carne, sua mãe contava-lhe histórias de tribos gentis e piedosas da Índia, que se negavam a se alimentar de seres sencientes. Muitos eram pastores ou camponeses e, segundo Lamartine, trabalhavam mais duro do que qualquer outra pessoa. Também possuíam uma genuína inocência. “Para matar o desejo, que mesmo que tivesse existido dentro de mim, ela não usou argumentos, mas recorreu ao instinto, que em nosso cerne é muito mais poderoso do que a lógica”, explicou.
Um dia, ainda jovem, o poeta ganhou um cordeiro de um camponês de Milly, uma comuna francesa da região da Borgonha. Com um estreito laço de amizade com o animal, ele o ensinou a segui-lo por todos os lados. “Se tornou o mais carinhoso e fiel dos cães. Nos amamos com a mesma ternura que toda criança tem pelos animais e vice-versa”, relatou.
No entanto, em uma ocasião, ele ficou chocado quando ouviu um cozinheiro conversando com sua mãe. “Madame, o cordeiro está gordo e o açougueiro veio buscá-lo. Devo entrega-lo a ele?”, questionou. Quando ouviu aquilo, Lamartine começou a gritar, abraçou o animal, perguntou o que era um açougueiro e o que tal pessoa iria fazer com ele.

“Vi um homem com os braços nus e lambuzados de sangue, batendo na cabeça de um touro” (Arte: Reprodução)
“O cozinheiro disse que era um homem que matava cordeiros, carneiros, novilhos e belas vacas por dinheiro. Eu mal podia acreditar nisso. Orei à minha mãe e facilmente a convenci a pouparem o meu amigo”, admitiu. Na realidade, a mãe do poeta não raramente testava suas convicções.
Mais tarde, Alphonse de Lamartine acompanhou sua mãe até a cidade e, no caminho, atravessaram o quintal de um matadouro. Havia um propósito nisso que o jovem só percebeu depois. “Vi um homem com os braços nus e lambuzados de sangue, batendo na cabeça de um touro. Outros cortavam as gargantas de bezerros e ovelhas, separando seus membros ainda palpitantes. O sangue fluía por todo o pavimento. Um intenso sentimento de pena, misturado com horror, se apoderou de mim. Tive que ser levado rapidamente para fora daquele lugar”, revelou.
A experiência fez com que Lamartine nunca mais deixasse de associar aquela cena à imagem de um prato com carne, tantas vezes visto por ele sobre a mesa. “Embora a necessidade de cumprir as regras da sociedade me fez comer carne [em determinado momento da vida], desde então, tudo que as outras pessoas comem [e que seja de origem animal] me causa repulsa. O que testemunhei me fez sentir completa aversão. Insuflou-me do horror perpetrado pelos açougueiros. Tem sido sempre difícil pra mim não ver no trabalho de um açougueiro a ocupação de um carrasco”, enfatizou em “Les Confidences”.
A importância de Alphonse de Lamartine
O escritor e poeta Alphonse de Lamartine nasceu em Mâcon, na França, em 21 de outubro de 1790. Criado em uma propriedade rural nas imediações de Milly, estudou os clássicos gregos e romanos, além das obras francesas contemporâneas. Sua educação foi uma educação filosófica que ele qualificava como de “segunda mão”, suavizada por sentimentos maternais. Lamartine, que sofreu grande influência de filósofos como Pitágoras, publicou 19 livros, entre poesia, ficção e história.
De todas as obras publicadas pelo francês, “Méditations Poétiques”, de 1820, continua sendo a mais famosa. No livro, o poeta aborda as relações entre o misticismo, a natureza e as emoções. Para ele, a natureza é a mais importante manifestação da grandeza divina.
Despertando para uma formação mais pessoal de espiritualidade, o escritor adotou a simplicidade como estilo de vida, tanto na forma de se vestir quanto de se alimentar. Depois do lançamento de “Méditations Poétiques”, que alçou o nome da Lamartine aos dos grandes nomes da literatura mundial, ele conseguiu uma nomeação para assumir a embaixada francesa na Itália.
Lá, viveu dez anos, e aproveitou o tempo ocioso para produzir literatura, já que seus deveres diplomáticos não exigiam tanto tempo. Em 1828, de volta à França, tentou garantir uma vaga no parlamento, mas foi derrotado. Então tomou a decisão de viajar para o Oriente Médio, onde começou a se interessar por religiões orientais. Reflexo desse período foi registrado no livro “Souvenirs, Impressions, Pensées, et paysages pendant un Voyage en Orient”, escrito em 1832 e 1832, e no romance em verso “La Chute d’un Ange”; obra de 1838 que chegou a ser banida da Igreja Católica pelo viés panteísta e racionalista.
Em um excerto, o poeta diz: “Le plus beau don de l’homme, c’est la Misericorde”. Ou seja, o maior dom do homem é a Misericórdia. Sendo assim, ele jamais deve matar qualquer animal. Lamartine também se inspirava na idealização do amor, suas crenças e sua relação com a natureza. Considerado um dos protagonistas da transição da literatura neoclássica para a romântica, marcada pela paixão e pelo lirismo, ele foi também um historiador. Escreveu sobre a história dos girondinos, importante grupo político que participou da Revolução Francesa entre os anos de 1789 e 1799.
Em 1849, Lamartine teve o privilégio de fazer parte do governo provisório da França na Segunda República, após a deposição de Luís Filipe I. O escritor e poeta liderou as ações que culminaram na abolição da escravidão e no primeiro modelo dos direitos trabalhistas na França, de acordo com o pesquisador Lawrence C. Jennings. Ainda assim, acabou derrotado por Napoleão III na eleição presidencial realizada no mesmo ano. Depois de se aposentar da política em 1851, Alphonse de Lamartine continuou escrevendo até o dia 28 de fevereiro de 1869, quando faleceu em Paris.
Referências
Lamartine, de Alphonse. Les Confidences (1857). Nabu Press (2012).
Lamartine, de Alphonse. Trois Mois au Pouvoir (1848). Nabu Press (2011).
Lamartine, de Alphonse. La Chute d’un Ange (1838). CreateSpace Independent Publishing Platform (2015).
William A. Alcott. Vegetable Diet: As Sanctioned by Medical Men and by Experience in All Ages. Marsh, Capen & Lyon (1838).
Jennings, Lawrence C. French Anti-Slavery: The Movement for the Abolution of Slavery in France, 1802-1848. Cambridge University Press (2006).
Contribuição
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Na fila do caixa
Na fila do caixa do mercado havia um senhor na faixa dos 80 anos, desinibido e conversador. De repente, percebi ele conversando com minha mãe e sorrindo. Curioso, me aproximei e ele comentou: “Que filho mais bonito que a senhora tem! Olhem pra esse rapaz!” Sem falar nada, até porque sou tímido, fiquei sorrindo que nem cachorro de porcelana na estante.
Àquela altura, enquanto muita gente me observava, o senhor emendou: “Quantos filhos a senhora tem?” Minha mãe respondeu três e ele interpelou: “Tudo bonito que nem esse?” Sem dar trégua, o homem chamou a atenção da moça do caixa e disse: “Olhe pra esse rapaz! E essa barba preta, como pode? Nunca vi uma barba preta como essa na minha vida. E como é bonito! Parece um galã!”, repetia. Calado, eu continuava sorrindo e balançando a cabeça, sem saber pra onde, também lembrando aqueles animaizinhos que os taxistas colocam no painel do carro.
“Não case, meu filho, não faça essa besteira. Compre um saco de quarenta quilos de sal grosso e chupe uma pedrinha bem minúscula por dia. Quando acabar o sal, daí sim você pode pensar em se casar”, recomendou. Depois o homem apontou para um senhor ao seu lado e declarou: “Esse aqui é meu filho, já tá feio, coitado! Engordou e nem tem mais cabelo.”
A vítima, conhecendo o pai que tem, só riu, sem esculpir expressão de desconforto. Antes de pagar a moça do caixa e partir, o senhor mais velho sentiu o cheiro de pão quente saindo de um pacote nas mãos de minha mãe. “É pão quente? Posso pegar?” Minha mãe consentiu, abriu o saco, o homem tirou um pão, agradeceu e começou a comer tranquilamente.
Sem demora, caminhou até a saída dando um tapinha amistoso nas costas do filho, que retribuiu o gesto encostando a mão no ombro do pai. Em menos de minuto, desapareceram na escuridão solene, e por assim dizer transparente, da primavera.
Kanis, uma boa surpresa no cenário musical paranaense
Willian Matos: “A verdade é que nunca me liguei muito em definições de gêneros musicais”
Transformar sensações e situações em música. Esta é a proposta do compositor Willian Mattos, idealizador do projeto Kanis, que une rock psicodélico, indie e pop. Músico desde a adolescência, o paranavaiense gravou o primeiro disco este ano em Curitiba. Intitulado “Parceiros, Amigos, Amores”, o EP reúne atributos que agradam desde os fãs mais puritanos até os mais ecléticos do rock. Com personalidade, o projeto é uma boa surpresa no cenário musical paranaense dos últimos anos.
Na versão em CD, além das músicas “Pequenas Coisas”, “Quem Pegou Você”, “Pra Trás” e “Quem Eu Sou”, Willian presenteia os fãs com as faixas “Mirela”, “Pequenas Coisas (Acústica)” e “Ao Lado Dela”. “Tenho um caso de amor com cada música que escrevo. Depois elas se tornam públicas, e aquela paixão fervorosa reacende nas performances ao vivo”, diz.
Embora as quatro músicas principais do EP abordem algum tipo de nostalgia, Mattos não se considera uma pessoa realmente nostálgica. “Mas, como letrista, são elementos que vêm a somar, ainda mais quando percebo que o meu passado pode ser o presente de outras pessoas”, comenta.
Em “Pra Trás” e “Quem Eu Sou”, a dúvida e a esperança são temas que instigam a reflexão. Segundo Willian, estão relacionadas às infinitas possibilidades oferecidas pela vida. “Sou muito mais anseio que esperança. O anseio pode ser agonizante, mas é um sentimento que, na minha visão, não abre espaço para o medo”, avalia.
Naturalidade e minimalismo são características encontradas na música de Willian Mattos, e refletem muito bem no Kanis. “Sou visto como alguém que mistura rock psicodélico, indie e pop. Sim, a rotulação da música sempre acontece, mas a verdade é que nunca me liguei muito em definições de gêneros musicais, até porque costumam ter conceitos bem confusos”, comenta o compositor que gosta muito de improvisar ao vivo, surpreender o público com novas releituras de suas músicas.
Na hora de compor, Willian preza pela simplicidade. Segundo ele, se não fosse para seguir por esse caminho, provavelmente não se dedicaria à música. “O processo de composição nunca é o mesmo. Pode parecer ridículo para os outros, mas trabalho nos meus limites técnicos para soar simples. A simplicidade é mais difícil de ser alcançada do que muitos imaginam. Já as letras, prefiro deixar para o final justamente por considerá-las tão importantes quanto a música. Só consigo me empenhar em escrever a letra se eu estiver bem confiante em relação à música”, pondera.
Questionado se o estúdio onde gravou o EP “Parceiros, Amigos, Amores” é um quarto escuro curitibano, Willian Mattos ri e explica que o local não é escuro nem curitibano. “Na verdade, é um aglomerado de equipamentos que comprei ao longo dos anos. Levo comigo para onde quiser e puder. Então posso dizer que as gravações foram realizadas tanto na casa da minha avó em Paranavaí quanto no apartamento onde moro em Curitiba. Também aluguei um estúdio com mais estrutura para gravar as baterias. Mas, tirando isso, adoro gravar em casas”, revela.
Enquanto ouve “Princesa”, da banda goiana Carne Doce, uma de suas preferidas da atualidade, Willian confidencia que na sua opinião o melhor do cenário musical paranaense está em Paranavaí, no Noroeste do Paraná, sua terra natal. “Tem uma cena instigante. Sinto muito orgulho do que está sendo construído musicalmente em Paranavaí”, enfatiza.
No momento, o compositor está preparando a primeira turnê de divulgação do EP. Também vai lançar em breve alguns vídeos do Kanis no YouTube. “Estou em um momento de trabalho muito intenso. Tenho cinco composições que devem entrar no próximo CD. É uma novidade para 2017”, adianta.
Sobre os parceiros
A trajetória de Willian Mattos com a música começou aos 15 anos, quando ele e o amigo Thiago Guglielmi formaram uma banda nos tempos de colégio. “Fomos aprendendo a tocar e escrever músicas. Convidei ele para embarcar comigo no Kanis, ele topou e tem sido ótimo. Trabalhamos juntos na administração do projeto. Na nossa primeira formação ao vivo, o Thiago atua como baixista. Como ele é um guitarrista brilhante, é provável que no futuro ele assuma o posto de guitarrista solo do Kanis”, relata.
Quem também ingressou no projeto para somar foi o baterista e percussionista Hugo Ubaldo, da banda de rock Sub-Versão, de Paranavaí. “Nos conhecemos há poucos meses e tem sido um prazer imensurável essa parceria. Além de ótimo baterista, é um músico completo, tem ajudado muito a elevar o nível da nossa música ao vivo”, reconhece Willian Mattos.
Sobre a capa do EP
A fotografia que estampa a capa do EP “Parceiros, Amigos, Amores” foi tirada em Santiago, no Chile, pelo fotógrafo Vinicius de Oliveira, conhecido como Capitão. “Estávamos à procura de uma foto e o Thiago [Guglielmi] me mostrou o trabalho do Vinicius. Ficamos mais ou menos uma semana tentando escolher uma entre as muitas fotos incríveis que ele tirou. Foi um trabalho difícil”, garante Willian Mattos.
Frase de Willian Mattos
“Tudo que ouço me influencia de algum modo. Até mesmo coisas que não gosto me servem de parâmetro.”
Formação atual do Kanis
Willian Mattos – vocal e guitarra
Thiago Guglielmi – Baixo
Hugo Ubaldo – Bateria
Saiba Mais
Antes do Kanis, Willian Mattos teve uma banda chamada “Use”, formada em parceria com o guitarrista Thiago Guglielmi.
Para comprar o CD “Parceiros, Amigos, Amores”, que custa apenas R$ 15, entre em contato com a banda.
O CD “Parceiros, Amigos, Amores” está disponível no YouTube.
Contatos
(41) 9690-3121 (Willian Mattos) e (44) 9743-2510 (Thiago Guglielmi)
E-mails: contato@kanis.com.br e shows@kanis.com.br
The Clement guard
I saw his dark mustache, thick and long like the curtains of the sky
When I was six year old, every day there was a guard waiting for us down the street to help us cross. Hundreds of children went through there every day. Clement smiled and reached out with such devotion that even the sunlight seemed more intense, illuminating his forehead and highlighting his snowy teeth.
He took the whistle to his mouth and emitted a short, but effective oxytone sound. It was enough for everyone to stay alert. So Clement held my hand firmly and led me to the school sidewalk, protecting me from motorcycles, cars, vans and trucks. Carefully, he always kept his body closest to the vehicles while my body was hidden by him.
The synchrony between the whistle and the instantaneous stop was surreal, as if choreographed. Few drivers dared to even touch a centimeter of the tire on the crosswalk. If anyone did, Clement took a pocket tape measure, crouched on the asphalt per second, walked to the driver and greeted him with a warm handshake.
“How are you? All right? It’s hot today, huh? I suppose you’re in a hurry, of course, who isn’t nowadays, right, my friend? So I understand why you have the two front tires on the track. It happens. The hurrying makes you commit these little slips. Take a look here, you just invaded 25cm. I believe that you, like me, know it will not guarantee that you get anywhere faster. Of course, now we don’t have many children on the street, but there are times when this small space has a lack you can’t imagine. Can I count on your cooperation? “, he said in early afternoon, returning the driver’s compliance with a nod and a frugal smile.
During the crossing with Clement, I raised my head, looking at the sky with his nose, and watched him. Small, I believed he could touch that wild blue yonder with the top of his cap. I saw his dark mustache, thick and long like the curtains of the sky. The clouds moved near his head, reaffirming the idea that at least during the crossing he was the supreme authority, and beyond him there was no one.
After 5.30 pm, when the school bell was triggered, warning that the classes were ending, we did the same path. Hours passed, and Clement kept smiling and extending his hands. He never showed fatigue, irritation or boredom. He was so polite, that sometimes drivers parked their vehicles and walked up to congratulate him for the good work.
That made him one of the most remarkable characters of my childhood, someone who could serve as an inspiration for me to become a worthy human being. It was not uncommon to see people giving gifts to him. Committed to his work ethic, he always thanked with brightened eyes and refused, unless gifts made by hand, a simple food or a homemade sweet.
At that time, I had never heard of racism until I asked my classmate Bob why he and other boys never held Clement’s hand. I remember one day that I saw him taking the guard’s hand over his shoulder. “Why? Because he’s black! My father said that black guards should not exist because these people are not reliable; because the only white part of their body is their palm. Furthermore, they have a bad smell and wiry hair”, he replied spontaneously.
Startled, I was silent. During recess, without knowing what it meant, I sat in a corner of the yard and thought about Bob’s words. I realized that Clement really was a black man, the first I have seen since I was born, but so what? A few days later, Bob gave me an ultimatum, saying that I could not walk anymore with him and three other classmates if I kept holding Clement’s hand. I ignored his advice, and over the next month I was excluded from the games on the playground. When it was time to play indoor football, Bob convinced all the other kids to leave me out.
A month later, I had not seen Clement at the crossing, wich was his workplace. He never returned. In his place, they put a blond and clear-eyed boy, who devoted his attention to teenage girls who circulated the vicinity. Bob’s father had intervened, and Clement was transferred to another city. They invented an excuse for lack of guards and convinced him to leave.
Later, on saturday, Bob was walking and sucking a popsicle when he was surprised by a runaway car that invaded the sidewalk at the crossing of Pernambuco Avenue and Souza Naves Street. Stunned, he threw the stick, closed his eyes and cringed his body. Bob didn’t see Clement coming out of the market, throwing his bags and jumping with him on the asphalt.
The guard had superficial wounds throughout his body. Seeing Bob unharmed, he smiled, regardless of the torn clothes. Embarrassed and with haggard eyes, the kid remainded in the fetal position. He discovered that the rejected hand is the one that more should have been stroked.
Um convite no semáforo
Saindo do mercado, parei em um semáforo na Avenida Rio Grande do Norte. De repente, um sujeito encostou o seu carro bem próximo do meu. Havia bastante espaço, mas ele preferiu ficar bem perto de mim. Ok! Não me preocupei. Continuei ouvindo música.
Para minha surpresa, o rapaz começou a acelerar sucessivas vezes enquanto o sinal continuava vermelho. Ele estava me desafiando, me convidando para um racha. Como o vidro do meu carro tem uma película bem escura, à noite é quase impossível ver quem está dentro.
Então pensei que talvez fosse uma boa ideia abaixar o vidro e fazer um aceno de mão cordial, mas desinteressado. Assim que o vidro desceu, o sujeito pareceu amedrontado e se desculpou. Sem tempo de entender nada, senti uma luz esverdeada em minha direção – o sinal abriu. Segui meu caminho ouvindo “Sistem te laže”, do Beogradiski Sindikat. Pelo retrovisor, notei que o rapaz continuava no mesmo lugar.







