David Arioch – Jornalismo Cultural

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Conversando com crianças e pré-adolescentes sobre veganismo

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A convite da professora Rosana Martineli, fui hoje à Escola Estadual Curitiba conversar com crianças e pré-adolescentes sobre história, contos e veganismo. Mais uma vez, uma experiência muito legal. Em um determinado momento, depois de eu falar um pouquinho sobre o que é ser vegano, e por iniciativa dos próprios alunos que tinham muita curiosidade em relação ao tema, um deles me perguntou:

— Mas você não precisa de carne?

— Será? Olhando pra mim, você acha que eu preciso de carne?

Muitos alunos riram.

— Não…humm…vou parar de comer carne também.

Em outro momento, outro aluno me perguntou o que eu faria se estivesse em uma ilha e precisasse comer um animal para sobreviver.

— Bom, acredito que isso não é algo que aconteceria facilmente, mas hipoteticamente se estou em uma ilha, e se nessa ilha há arvores, eu provavelmente recorreria em primeiro lugar aos frutos dessas árvores. Além disso, não há garantia nenhuma de que esse suposto animal seja o meu alimento, e não eu o alimento dele caso ele seja carnívoro. Por quê? Não tenho dúvida nenhuma de que as habilidades naturais de caça de um animal selvagem são muito superiores à humana. Afinal, o ser humano só é bom caçador quando está bem munido para a caça, ou seja, com armas em punho, e preparando-se para atingir um animal de forma traiçoeira, às escondidas, não é mesmo? Eu particularmente desconheço um ser humano que enfrente um animal selvagem com os próprios braços e de frente. Acho que há várias possibilidades que não podem ser descartadas. Mas é importante entender também que veganismo não é baseado em improbabilidades, no que é vagamente possível. É sobre eu fazer o possível para não tomar parte na exploração, na violência contra animais. Quero viver, certo? Eles também querem. Sigo esse caminho de reconhecer que eles também têm esse direito, e por isso não me alimento deles, assim como tenho a preocupação de não usar nada de origem animal.





Mark Rowlands explica por que os animais não humanos são sujeitos morais

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“Se ele [um animal não humano] é um paciente moral, […] é uma entidade que tem interesses que devem ser levados em consideração”

Animais são facilmente motivados por estados emocionais que Mark Rowlands define como emoções morais (Acervo: Mark Rowlands)

Em 2012, o filósofo galês Mark Rowlands, professor da Universidade de Miami e autor do best-seller “The Philosopher and the Wolf”, publicou o livro “Can Animals be Moral?”, em que explica por que os animais não humanos são sujeitos morais. No livro, Rowlands apresenta argumentos que ratificam o quão equivocado é o discurso de que os seres humanos têm capacidades que os outros animais não têm, por isso eles não são sujeitos morais.

Rowlands reconhece que os seres humanos têm a capacidade de uma consciência moral com a qual os outros animais não podem rivalizar, porém rebate que não é necessário que um indivíduo não humano tenha a capacidade de analisar seus motivos enquanto sujeito moral para ser um sujeito moral.

Para contrapor essa perspectiva, entre outros exemplos, ele cita o luto dos animais ao perderem membros familiares, e também casos de seres não humanos que se recusam a se alimentarem caso o custo de uma refeição seja infligir dor a um semelhante. Essas são evidentemente razões morais básicas que compõem o universo dos animais não humanos.

“Quando fazem isso, eles [os animais] estão fazendo exatamente o que fazemos quando agimos com base nessas razões: estão agindo de forma moral”, defende o filósofo que na obra apresenta falhas nos discursos de Aristóteles, Immanuel Kant e muitos outros filósofos, pensadores e cientistas que concordariam que os animais não se qualificam como sujeitos morais porque não são capazes de analisar criticamente suas motivações e a relação entre suas ações e motivações.

Em “Can Animals Be Moral?”, o autor defende a reivindicação de possibilidade, ponderando que animais são facilmente motivados por estados emocionais que ele define como emoções morais. Entre os exemplos estão a compaixão, empatia, simpatia, tolerância, luto, ciúmes, malícia, medo e pavor. Rowlands frisa que os animais podem agir moralmente com base nessas emoções que possuem conteúdo moral identificável. “A atribuição de motivação moral aos animais é quase sempre considerada como impossível. Em parte, [muitos] filósofos têm razões respeitáveis, embora em última análise, equivocadas. Mas, em parte, eles estão confusos”, declara.

O filósofo argumenta que os animais são sujeitos morais no sentido de que eles são sujeitos de emoções carregadas moralmente. Os animais não humanos compõem a sua própria categoria de “assuntos morais”. Ademais, enquanto sujeitos morais, podem ser agentes morais, pacientes morais; ou ambos, como defendido pelo filósofo moral David DeGrazia. “Se ele [um animal não humano] é um paciente moral, […] é uma entidade que tem interesses que devem ser levados em consideração quando são tomadas decisões sobre ele ou que impactam sobre ele”, escreveu Mark Rowlands.

Para DeGrazia, em uma perspectiva também compartilhada por Rowlands, uma manifestação de que os animais podem ser agentes morais são ações não condicionadas ou não instintivas em que eles manifestam virtudes ou escolhas. Partindo desse exemplo, os animais podem ser considerados agentes morais sempre que suas ações permitirem uma concepção razoável de agência moral, ou seja, de capacidade de agir ou de se abster de agir intencionalmente ou de forma não previamente determinada.

“Devo argumentar que existe outra opção: enquanto os animais são realmente pacientes morais, e não apenas agentes morais, eles também podem ser sujeitos morais”, enfatiza Mark Rowlands. No entanto, um problema comum é que enquanto pacientes morais, normalmente os interesses dos animais não humanos não são considerados, principalmente quando submetidos a ações de agentes morais que não os consideram como sujeitos morais.

A própria filosofia é um exemplo disso, já que ainda hoje a moralidade não humana sofre com a negação filosófica em muitos círculos. Rowlands critica o desinteresse de muitos filósofos, inclusive alguns grandes pensadores, em relação ao status moral não humano. Ele vê isso como uma grande falha histórica, ponderando que a filosofia sempre se debruçou sobre questões como racionalidade, motivação, autonomia, normatividade, autoconsciência e livre arbítrio. São questões que poderiam ter sido muito melhor discutidas se desde o princípio não tivéssemos nos limitado a uma perspectiva que não se preocupou em ir além da observação humana sobre seres humanos.

A maior falha de muitos filósofos da atualidade, assim como filósofos de outros tempos, é que eles não perceberam como os animais são bons em nos fazer refletir, segundo Mark Rowlands. Outra observação interessante apresentada pelo filósofo galês é que a ciência nunca simpatizou muito com a filosofia moral. Porém, ainda assim se apropriou da linguagem da moralidade; passando a usar terminologias morais como altruísmo, empatia, equidade e justiça no contexto do discurso científico.

São apropriações que surgiram principalmente nas últimas décadas quando cientistas passaram a se dedicar mais aos estudos de fundamentação empírica sobre cognição e emoção envolvendo animais não humanos. Contudo, isso prova que a mudança em relação ao entendimento de seres não humanos como sujeitos morais também está acontecendo no campo da ciência, embora ainda haja resistência.

Rowlands acredita que muitos cientistas rejeitam a filosofia moral que envolvem também seres não humanos porque creem que é uma ameaça à objetividade. Contudo, além de ser uma crença equivocada, é contraproducente, porque o ceticismo exagerado em relação aos outros animais ajudou a fortalecer o antropocentrismo e o especismo, impondo limites inexoráveis ao conhecimento humano sobre a vida, o mundo e a natureza. O filósofo galês vê a ciência como um caminho, mas não a considera prioritária ou exclusiva no entendimento das emoções animais, isto porque a filosofia moral também depende de evidências empíricas; e hoje a própria ciência tem buscado, mais do que em qualquer outro período, entender o comportamento animal a partir dessas evidências.

Saiba Mais

Mark Rowlands é um filósofo que se dedica ao estudo do status moral de animais não humanos. Ele nasceu em Newport, no País de Gales, em 1962.

Referência

Rowlands, Mark. Can Animals be Moral? Oxford University Press. Reprint Edition (2012-2015).





Written by David Arioch

December 12th, 2017 at 7:52 pm

Mary Midgley: “Os animais são muito mais sutis e complicados do que pensávamos”

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Segundo a filósofa britânica, um problema comum por parte de muitos cientistas é que eles ignoram a complexidade psicológica e motivacional que também faz parte dos animais

Mary declara que em diversos aspectos ainda somos verdadeiramente primitivos, enquanto outros animais, a quem não legamos direitos, são mais sofisticados do que nós em inúmeros aspectos (Foto: The Guardian)

Mary Midgley é uma filósofa moral britânica que durante muito tempo lecionou na Universidade de Newscastle, na Inglaterra. Ela é mais conhecida por seu trabalho no campo da ética e dos direitos animais. Em 1978, aos 59 anos, ela lançou o livro “Beast and Man”, em que defende que os seres humanos são mais parecidos com os animais do que muitos filósofos e cientistas sociais sempre julgaram; isto porque sempre se preocuparam mais com as nossas diferenças em relação às outras espécies do que as nossas semelhanças.

Na obra, ela declara que em diversos aspectos ainda somos verdadeiramente primitivos, enquanto outros animais, a quem não legamos direitos, são mais sofisticados do que nós em inúmeros aspectos. A obra foi o primeiro manifesto de Midgley contra o reducionismo, o determinismo, o behaviorismo e o relativismo que ela considera limitantes.

Em “Animals and Why They Matter”, outro de seus mais famosos livros, publicado em 1983, Mary analisa como a divisão e a oposição entre razão e emoção influenciaram nossas ideias morais e políticas; e como fizeram com que no decorrer do tempo ignorássemos a importância dos animais não humanos.

Ao longo de sua carreira, ela publicou mais de 15 livros. Uma das suas obras mais recentes é “Are you an illusion?”, lançada em 2014. O livro é uma reação à obra “The Astonishing Hypothesis”, do biólogo Francis Crick, que reduz os conceitos de livre-arbítrio e identidade pessoal a uma reação das células nervosas. Migdley rebateu essa tese considerando que pensamentos e memórias são parte da realidade de animais humanos e não humanos, e que precisam ser estudados como tais, assim exigindo diferentes métodos analíticos que não cabem dentro de uma perspectiva reducionista e determinista.

A identificação de Mary Midgley com os direitos animais começou no final dos anos 1950, quando ela conheceu o trabalho do zoólogo e ornitólogo Konrad Lorenz e da bióloga Jane Goodall. Em 1985, o seu ensaio “Persons and Non-Persons” foi publicado no livro “In Defense of Animals”, páginas 52-62, do filósofo australiano Peter Singer. No ensaio, ela apresenta argumentos que devemos considerar em contrariedade à objetificação animal.

Em 1999 e em 2003, o escritor sul-africano J.M. Coetzee, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, citou Mary Midgley e Tom Regan como referência em direitos animais nos livros “The Lives of Animals” e “Elizabeth Costello”. O trabalho de Mary é bastante enfático no que diz respeito ao que os filósofos podem aprender especialmente com os animais não humanos, ignorados por importantes pensadores que ajudaram a fundamentar e a moldar o antropocentrismo e o especismo.

Em 27 de fevereiro de 2013, aos 93 anos, Mary Midgley concedeu uma entrevista a Simon Jenkins, do The Guardian. Ela o recebeu em sua casa em Newcastle, e na ocasião disse que quando se trata de falar sobre as diferenças entre pessoas e animais, na verdade, essa diferença não é tão grande quanto consideramos. “Os animais são muito mais sutis e complicados do que pensávamos”, enfatizou.

Ela explicou a Jenkins que muitos dos problemas que enfrentamos hoje em relação à negação dos direitos dos animais à vida no contexto da ciência, por exemplo, está relacionado com o fato de que muitos cientistas não têm um senso de filosofia ou história.

“O culto à ciência agora é amplamente praticado. Quando comecei a olhar a maneira como as pessoas falam sobre a ciência, percebi que existe essa noção grotescamente exagerada do que é e o que faz. Foi quando me interessei pelo comportamento animal, no final da guerra. Até então, não acho que pensei sobre ciência como uma espécie de campo rival do pensamento, mas uma vez que você começa…”, revelou.

Segundo Mary, um problema comum por parte de muitos cientistas é que eles ignoram a complexidade psicológica e motivacional que também faz parte dos animais. Ela crê que se começarmos a reduzir tudo ao comportamento das células, estaremos reduzindo tudo ao determinismo, o que é um grande equívoco sob a perspectiva da filosofia moral.

Saiba Mais

Mary Midgley, que hoje tem 98 anos, nasceu em Londres em 13 de setembro de 1919.

Referência

Mary Midgley





Breve reflexão sobre o consumo de alimentos de origem animal

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Uma curiosidade sobre Eva Todor

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Fotos: Arquivo Familiar

Na primeira metade da década 1940, o então presidente Getúlio Vargas ficou encantado com a performance da pequena húngara Eva Todor no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Foi até o camarim e perguntou se ela gostaria de ser brasileira. Eva disse que sim. Então ela foi naturalizada. Interessante. Sem dúvida, foi uma grande atriz.

Written by David Arioch

December 10th, 2017 at 9:07 pm

Breve reflexão sobre pessoas que debocham do veganismo

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O sofrimento animal como tema de uma discussão é algo que demanda respeito em qualquer circunstância (Foto: We Animals/Jo-Anne McArthur)

Tenho dificuldade em entender por que pessoas com pouca ou grande visibilidade se expõem tanto para falar sobre veganismo de forma pejorativa, debochada e desrespeitosa. É até difícil enumerar o tanto de pessoas, inclusive com prestígio em suas áreas, que agem dessa forma, sem medo de revelar arrogância ou presunção. O veganismo está vinculado aos direitos animais, e, para além de fatores óbvios, como o sofrimento animal, tem toda uma literatura de longa data que o fundamenta.

Há uma infinidade de obras que servem de referência sobre o assunto, e que começaram a ser publicadas ostensivamente a partir do século 19. Então sempre fico surpreso quando as críticas ou comentários mais inestéticos sobre o assunto normalmente não trazem nenhuma sólida referência ou argumento, mas somente um discurso fragilizado que encontra plateia entre aqueles que também não sabem de fato o que é a defesa dos direitos animais, o veganismo, e o que representam.

Eu jamais seria capaz de me expor para desmerecer algo sobre o qual tenho irrisório ou nenhum conhecimento. Quero dizer, qual é o sentido de falar mal de algo sem ter base para argumentar com a devida coerência? Como posso confrontar qualquer ideia com a qual não concordo se não dediquei tempo estudando sobre o assunto? O desrespeito subsiste exatamente nisso, na negação do conhecimento que podemos adquirir para fortalecer nossas contrariedades ou reavaliá-las.





Written by David Arioch

December 10th, 2017 at 8:59 pm

A realidade de um animal tirado de seu habitat para ser explorado comercialmente

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Foto do projeto We Animals, da fotógrafa e ativista canadense Jo-Anne McArthur mostra claramente a a realidade de um animal tirado de seu habitat, assim como muitos outros, para ser explorado comercialmente, o que significa que o seu destino já foi traçado. Ou seja, objetificação seguida de morte. Nenhum animal sente prazer em ser explorado pela humanidade. Pense nisso.

Written by David Arioch

December 10th, 2017 at 12:13 pm

Segundo Will Potter, ativistas ambientais e dos direitos animais são vistos como ameaça terrorista pelo FBI

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De acordo com o jornalista Will Potter, autor do livro “Green is the New Red”, ativistas ambientais e dos direitos animais são considerados pelo FBI a pior ameaça terrorista. “Acredito que porque, mais do que qualquer outro movimento social, ameaçam diretamente os lucros empresariais”, explica.

 





O que separa muitas pessoas do veganismo é a falta de boa vontade

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Se vivesse hoje, ele seria considerado vegano, porque realmente não comia nem usava nada de origem animal (Arte: Acervo da Arab Humanists/Foto: HSUS)

Al Ma’arri foi um poeta sírio e cego que viveu no século XI. Se vivesse hoje, ele seria considerado vegano, porque realmente não comia nem usava nada de origem animal. Sua alimentação era bem simples, e sua principal fonte de proteína eram os feijões. Não, ele não tinha grana, mas viveu como quis e fazendo o que gostava até os seus últimos dias. Sendo assim, vamos refletir sobre o caso de Al Ma’arri antes de dizer que veganismo é impraticável no final de 2017. A verdade é que o que separa muitas pessoas do veganismo é a falta de boa vontade em contribuir com seres não humanos. Ou seja, muita gente prefere colaborar com um sistema que explora e mata bilhões de animais por ano.

 





Written by David Arioch

December 10th, 2017 at 12:04 pm

Ronnie Lee conta a história da A.L.F, o mais famoso grupo de ação direta em defesa dos animais

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“Já éramos vegetarianos ou veganos e estávamos envolvidos em várias organizações de proteção animal”

Após o ataque, Lee declarou que o objetivo era impedir a “tortura e o assassinato de nossos irmãos e irmãs animais” (Foto: Animal Liberation Front)

Em 1973, Ronnie Lee e mais cinco vegetarianos e veganos fundaram a Band of Mercy em Londres, na Inglaterra. Em reação aos abusos praticados contra os animais, o grupo surgiu com a proposta de realizar ações diretas. A escolha do nome é uma referência a um grupo juvenil homônimo da Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals (RSPCA), fundada em Strand, Londres, em 1824. No século 19, esses jovens destruíam armas que pertenciam a caçadores.

“Todos nós já éramos vegetarianos ou veganos e estávamos envolvidos em várias organizações de proteção animal. Compartilhávamos o sentimento comum de que essas organizações não conseguiriam fazer a diferença porque suas táticas não eram rígidas o suficiente”, relatou Ronnie Lee no artigo “The Formation of the Band of Mercy and A.L.F”, publicado na editoria “Direct Action History Lessons”, da revista “No Compromise”, número 28.

Lee relatou que sentiu que era vital embarcar em uma campanha de ação direta para tentar mudar alguma coisa, mesmo sem a certeza de que daria certo ou não. “Sentimos que não havia outra escolha e precisávamos tentar. Decidimos que nossa campanha deveria ser contra a propriedade e que nenhuma violência deveria ser usada contra pessoas, exceto em legítima defesa. Para alguns de nós, nossas ações tinham razões morais, e para outros era algo puramente tático. Eu, pessoalmente, me arrependo disso agora, porque sinto que poderíamos ter feito um uso limitado de violência contra os abusadores de animais”, declarou.

Os primeiros alvos da Band of Mercy foram os canis que davam suporte à caça às raposas, onde eles causaram danos aos veículos usados para transportar cães de caça. Mas foi em 1973 que o grupo chamou bastante atenção na Inglaterra, quando realizaram dois atentados com bomba em um laboratório de vivissecção que estava sendo construído. A ação foi seguida pela destruição de um barco usado no abate de focas bebês e por uma onda de ataques contra veículos usados no transporte de animais para laboratórios.

No verão de 1974, Ronnie Lee e Cliff Goodman, da Band of Mercy, foram identificados e presos por um atentado a um centro de pesquisa de vivissecção. Após o ataque, Lee declarou que o objetivo era impedir a “tortura e o assassinato de nossos irmãos e irmãs animais”. A justificativa não sensibilizou a opinião pública, a imprensa nem a justiça, e os dois foram sentenciados a três anos de prisão. Também passaram a ser vistos como “ecoterroristas”.

““Embora o número de ações tenha diminuído, sinto que a A.L.F se tornou mais eficaz do que nunca” (Foto: Animal Liberation Front)

À época, Lee achou que aquele poderia ser o fim do seu trabalho como ativista em defesa dos direitos animais. Imaginou que a repercussão da sua prisão marcaria o fim da Band of Mercy. Um ano depois, quando saiu da prisão, se surpreendeu ao encontrar muitos ativistas da proteção animal querendo se juntar ao grupo. Em 1976, a Band of Mercy passou a se chamar oficialmente Animal Liberation Front (A.L.F), nome que reflete com mais clareza o ideal do grupo.

Como a A.L.F contava com muito mais ativistas do que nos tempos da Band of Mercy, o trabalho de resgate de animais em laboratórios de vivissecção se tornou mais bem-sucedido. “O número de ações aumentou rapidamente, e grupos da A.L.F se estabeleceram em todo o país e no exterior”, declarou Ronnie Lee no artigo “The Formation of the Band of Mercy and A.L.F”.

E claro, com o tempo, mais ativistas foram presos; na realidade, chegando a centenas de prisões, segundo o fundador da Animal Liberation Front. O período em que a A.L.F realizou mais ações diretas foi na metade dos anos 1980. Os ataques do grupo atingiram diretamente o comércio de peles no Reino Unido. Sua fama e suas ações garantiram que as lojas de departamentos da Inglaterra se recusassem a estocar casacos de pele.

“Embora o número de ações tenha diminuído, sinto que a A.L.F se tornou mais eficaz do que nunca. Com apenas algumas notáveis exceções. Os ataques da A.L.F no passado eram de natureza bastante difusa, com pouca concentração em qualquer alvo específico. Isso significava que os estabelecimentos que lucravam com o abuso de animais podiam se recuperar e continuar os seus negócios com bastante facilidade”, confidenciou.

Ronnie Lee explicou que com o tempo a A.L.F começou a escolher melhor seus alvos, atacando principalmente empresas que já estavam sob pressão de outras campanhas e ações. Como resultado, os índices de ações bem-sucedidas cresceram substancialmente.

Saiba Mais

A Animal Liberation Front já atuou em mais de 40 países.

“No Compromise” é uma revista sobre direitos animais fundada em San Francisco, na Califórnia, em 1989, que chegou ao fim em 2005. O periódico sempre visou cobrir os aspectos globais dos direitos animais e a promoção do veganismo como estilo de vida.

Referência

Lee, Ronnie. The Formation of the Band of Mercy and A.L.F. Direct Action History Lessons. No Compromise. Número 28 (2005).