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Eu exploro, tu exploras, ele explora, nós exploramos
Viver é um paradoxo, existir e resistir para não cair em contradição o tempo todo. É não explorar explorando, como um eterno espetáculo que denuncia a exploração, mas é financiado por quem a edifica e a avulta. Tartufismo, mendacidade, jacobice. Vivo imerso nessas palavras que não reconheço.
Eu exploro, tu exploras, ele explora, nós exploramos. É isso. É alentador não cair em armadilhas por alguns instantes. Minutos, talvez horas do dia em que não me torno refém de incongruências, degenerescências legitimadas. Amanhã vai ser diferente. Ou não. Farisaísmo. Arataca. Estratagema.
Não sou tão ruim. Não. Sou muito bom. Fecho os olhos. Me entorpeço com a minha ablepsia, inculpabilidade, condescendência, torpor. Sou ineludivelmente bom. Compro sorrindo o que alguém chorou produzindo. Não sei se quero reconhecer que morreu para ser transformado num algo ausente de i-den-ti-da-de.
Dissociado da verdade. É bonito. Não, é lindo. Mais lindo ainda se acredito que nasceu como produto final, sem gênese. Não tenho do que me queixar se enxergo apenas o que anseio vislumbrar. É só mais um dia, da bonomia à hipocrisia.
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Promoção no açougue
Promoção no açougue. Fila imensa. Pessoas sorrindo. Pessoas apreensivas. Medo de não sobrar nada. “Será que vou conseguir levar alguma coisa?”, se perguntavam.
Alguém se acotovelou? Sim, sutilmente e bruscamente. O cheiro da câmara fria amenizava o calor de mais de 30 graus. Trazia um cheiro glacial de osso, de carne. Cheiro de morte? Sim, mas isso não sei se alguém considerou. Menos ainda se a fome dominou.
Faca que corre pelo corpo despedaçado. Serra, serra que não para. E não para mesmo. Vamos ensacar. Sorriso, churrasco, gargalhada. Gargalhada, churrasco e sorriso. Era o assunto do momento. Sem traços de vida. “Não saio daqui com menos de 30 quilos”, comentou um homem de meia-idade. Respirava com dificuldade. Fôlego fraco. Hipertensão? Doença coronariana? Pode ser.
— Com licença, posso lhe mostrar algo rapidamente? Preciso apenas de uma breve opinião.
— Sim, sem problema.
— Que merda é essa? Você é louco? Mostrar isso pra mim na fila do açougue.
Agradeci e caminhei até o próximo da fila. Mais um pedido.
— Que isso, menino! Me respeite que eu poderia ser sua mãe.
— Ok.
Mais um.
— Ah, piá sem noção! Tá maluco? — disse uma moça.
Outro.
— Respeite minha família. Estou com minha esposa e filhos aqui.
Mais.
— Acabou com o meu apetite. Tá satisfeito agora, seu infeliz?
— De modo algum, senhor.
Continuei.
— Ô açougueiro, faça alguma coisa aqui. Chame a gerência, sei lá. Esse cara aqui tá perturbando todo mundo na fila.
— Não, senhor. Pedi licença todas as vezes, e vocês concederam. Bom, acho que já cumpri o meu papel.
— Papel? Isso aí deve ser tudo mentira, coisa encenada. Ou se for verdade, coisa rara que acontece só nos piores lugares.
— Ok.
— Só isso que você tem a dizer?
— Sim. Agradeço a atenção de todos. Não tenho do me que queixar.
— É? Mas nós temos, de você sendo inconveniente.
— Obrigado. Tenham uma boa tarde.
Guardei o celular no bolso, mas antes li uma última mensagem que encerra o vídeo: “A consciência clama pelo que já não descansa.” Cinco pessoas abandonaram a fila.
— Já é alguma coisa — monologuei em direção à saída.
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Manter a sanidade é importante
Peixe sendo comido vivo sobre uma mesa de um restaurante; um animal modificado geneticamente para produzir dez vezes mais “matéria-prima” para a indústria de peles; senadora Kátia Abreu falando na construção de novos matadouros para atender ao mercado de carne de jumento; novo vídeo de matadouros onde animais são mortos à marretadas. Essas são algumas das notícias que acompanhei hoje de manhã. Manter a sanidade é importante. Por isso que meu dia não se resume a ler ou escrever sobre os mesmos assuntos o tempo todo.
“A introspecção é uma atitude em extinção”
“Em aeroportos e outros espaços públicos, pessoas com telefones celulares equipados com fones de ouvido ficam andando para lá e para cá, falando sozinhas e em voz alta, como esquizofrênicos paranoicos, cegas ao ambiente ao seu redor. A introspecção é uma atitude em extinção. Defrontadas com momentos de solidão em seus carros, na rua ou nos caixas dos supermercados, mais e mais pessoas deixam de se entregar a seus pensamentos para, em vez disso, verificarem as mensagens deixadas no celular em busca de algum fiapo de evidência de que alguém, em algum lugar, possa desejá-las ou precisar delas.”
Andy Hargreaves, professor de educação e autor do livro “Teaching In The Knowledge Society: Education in the Age of Insecurity”.
Jorge Luis Borges é monstro
Jorge Luis Borges é monstro. Além de referência mundial em literatura ficcional, quase sempre é citado pelos grandes da filosofia contemporânea. Isso que é transitar belamente por distintas esferas do conhecimento e brincar com diferentes linguagens sem receio de ser (in)compreendido. Um literato que nasceu para a filosofia, mas transmutou-se em ficção. Isso deixa evidente também porque Borges não é de fácil fruição. Quando penso nesse mestre argentino, que jamais se submeteu a opressão e supressão da identidade, a primeira palavra que me vem a mente é onirismo, um onirismo cosmopolita. E de um cosmopolitismo que não pressupõe ausência.
Breve reflexão de Richard Rorty
“Deveríamos garantir que nossos filhos se preocupem com o fato de os países que saíram na frente em termos de industrialização possuírem uma riqueza cem vezes maior que a dos ainda não-industrializados. Nossos filhos precisam aprender, desde cedo, a ver as desigualdades entre seus próprios destinos e os de outras crianças, não como a Vontade de Deus, nem como o preço necessário pela eficácia econômica, mas como uma tragédia evitável.”
Richard Rorty, autor de “Philosophy and the Mirror of Nature” e “Philosophy and Social Hope”.
Raimundos elogia a banda Retaliação durante o 16º Motofest
No último sábado, durante o show dos Raimundos no 16º Paranavaí Motofest, evento que reuniu milhares de pessoas no Parque de Exposições Arthur da Costa e Silva, o vocalista e guitarrista Digão, da banda Raimundos, aproveitou a oportunidade para parabenizar a banda de thrash/groove metal Retaliação, de Paranavaí.
“Quero mandar um salve para essa banda muito massa que tocou Pantera hoje à tarde. Eu tava lá, mermão. Essa banda é massa, viu? Banda Retaliação. Muito boa essa banda, metal de verdade feito com alma, brother! Parabéns, irmão! Estamos juntos! ”
Fundada em 2015, a Banda Retaliação, que se destacou no Motofest deste ano, tem recebido inúmeros convites para tocar em inúmeras cidades do Sul e do Sudeste do Brasil. Atualmente, o grupo é formado pelo vocalista Thiago Santana, baixista Roger Yuzo Noguti, guitarrista Marcelo Ganzer, guitarrista Guimarães Junior e baterista Roney Verdério.
As principais influências do Retaliação são bandas como Pantera, Kreator, Slayer, Sepultura e Lamb of God, além de clássicos do NYHC, ou seja, o hardcore que surgiu em Nova York, nos Estados Unidos, nos anos 1980. Como cada integrante tem diferentes influências, isso tem ajudado a banda a moldar o seu próprio estilo, seja por meio de músicas autorais ou fazendo releituras de clássicos de grandes nomes do metal. Quem quiser entrar em contato com a banda, pode ligar para (44) 99885-0318.
Uma breve reflexão sobre a alimentação
Essa é minha opinião, e cada um pode ter a sua. Quando alguém reproduz o discurso de um profissional em relação à alimentação (e aqui falo de um discurso reproduzido exaustivamente), a primeira coisa que gosto de saber é se a pessoa vive na prática o que diz. Se ela não vive, não consigo evitar de ficar desconfiado. Vejo pessoas reproduzindo discursos de profissionais (ou não – e alguns deles inclusive são vistos como “gurus”), demonizando muitos alimentos, e logo penso: “Se isso é verdade, e essa pessoa se alimenta tão perfeitamente bem, como defende em seu discurso, por que ela não aparenta ser realmente saudável?”
A importância da realidade expressa na escrita
Para abordar os aspectos sociais nos seus romances, principalmente nos 17 volumes de “La Comédie humaine”, Balzac vagava à noite pelas mais famigeradas ruas de Paris, hábito que manteve por anos, assim como fez Dickens em Londres. Ele também gostava de sair de madrugada porque a prisão de devedores era proibida entre o pôr e o nascer do sol, e assim ele não corria riscos.
Orwell se colocou entre os oprimidos para tentar entender como era ser um deles. Visitou minas e estaleiros, viveu com andarilhos e vagabundos, aceitou os piores trabalhos e passou fome. São experiências que deram origem ao seu livro de estreia “Down and Out in Paris and London”, de 1933, lançado no Brasil como “Na Pior em Paris e Londres”.
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George Orwell e a crítica à exploração animal
O homem é a única criatura que consome sem produzir. Ele não dá leite, não bota ovos, é muito fraco para puxar o arado, não corre rápido o suficiente para pegar coelhos. Sim, ele é o senhor dos animais. Ele os prepara para trabalhar, e lhes entrega o mínimo que os impedirá de morrer de fome. O resto ele mantém para si mesmo.
Então, camaradas, qual é a natureza da nossa vida? Enfrentemos a realidade: nossa vida é miserável, trabalhosa e curta. Nascemos, recebemos o mínimo de alimento necessário para continuar respirando e os que podem trabalhar são forçados a fazê-lo até a última parcela de suas forças; no instante em que nossa utilidade acaba, trucidam-nos com hedionda crueldade. Nenhum animal, na Inglaterra, sabe o que é felicidade ou lazer, após completar um ano de vida. Nenhum animal, na Inglaterra, é livre. A vida de um animal é feita de miséria e escravidão: essa é a verdade nua e crua.
Será isso, apenas, a ordem natural das coisas? Será esta nossa terra tão pobre que não ofereça condições de vida decente aos seus habitantes? Não, camaradas, mil vezes não! O solo da Inglaterra é fértil, o clima é bom, ela pode oferecer alimentos em abundância a um número de animais muitíssimo maior do que o existente. Só esta nossa fazenda comportaria uma dúzia de cavalos, umas vinte vacas, centenas de ovelhas – vivendo todos num com uma dignidade que, agora, estão além de nossa imaginação.
Por que, então, permanecemos nesta miséria? Porque quase todo o produto do nosso esforço nos é roubado pelos seres humanos. Eis aí, camaradas, a resposta a todos os nossos problemas. Resume-se em uma só palavra – homem. O homem é o nosso verdadeiro e único inimigo. Retire-se da cena o homem, e a causa principal da fome e da sobrecarga de trabalho desaparecerá para sempre.
Nosso trabalho lavra o solo, nosso estrume o fertiliza e, no entanto, nenhum de nós possui mais do que a própria pele. As vacas, que aqui vejo à minha frente, quantos litros de leite terão produzido este ano? E que aconteceu a esse leite, que deveria estar alimentando robustos bezerrinhos? Desceu pela garganta dos nossos inimigos. E as galinhas, quanto ovos puseram este ano, e quantos se transformaram em pintinhos?
Os restantes foram para o mercado, fazer dinheiro para Jones e seus homens. E você, Quitéria, diga-me onde estão os quatro potrinhos que deveriam ser o apoio e o prazer da sua velhice? Foram vendidos com a idade de um ano – nunca você tornará a vê-los. Como paga pelos seus quatro partos e por todo o seu trabalho no campo, que recebeu você, além de ração e baia? Mesmo miserável como é, nossa vida não chega ao fim de modo natural.
Excertos sobre a exploração animal humana e não humana no livro Animal Farm (A Revolução dos Bichos), publicado por George Orwell em 1945.




