David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Contos/Short Stories’ Category

Um animal sem nome sem espécie

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Único em seu gênero, repousa ao lado de uma macieira

Há um animal, sem nome sem espécie. Único em seu gênero, repousa ao lado de uma macieira. Um homem assiste. Parece boi? Porco também não. Frango, galinha? Menos ainda. É bonito, espadaúdo. Mais do que isso aos olhos do homem – carnoso, delicioso. A fome emana o que a gana encana.

Lindas e robustas maçãs caem entre as pernas do sujeito. Ele? As ignora. Não! “Quero ele”, balbucia roçando a ponta da língua no lábio superior. Desembainha a faca espigada e caminha até o animal que não corre – nem se move na inocência vituperada pela inexperiência.

O homem o abraça. Vra! Vra! Vra! Maçãs rolam ao seu encontro. Maçãs do amor, “caramelizadas” pelo sangue morno, basto. Brilham. O homem comemora diante do moribundo que não chora.





Vidas não valem nada

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Foto: Reprodução

Vidas não valem nada, concluí quando saí do matadouro após uma visita no mês passado. O magarefe posicionou a pistola contra a cabeça de um boi dócil e disparou. Um tiro absterso e silente. O dardo penetrou o crânio do animal e o fez deitar no chão. Barulho intenso. Tive a impressão de que algo estava explodindo. E não estava? O mundo de um animal que naquela tarde não imaginava que não veria a noite ou um novo dia. Não chorava feito criança, embora corpulento e desgracioso tremia como um recém-nascido – (in)voluntariamente, batendo de um lado para o outro dentro de uma caixa de tijolos. Morto? Sim ou não, depende de quem vê. O magarefe não viu os olhos embaciados do boi. Não, aquilo era perigoso. Limpou a pistola, sem prestar atenção no bicho e ajeitou os fones de ouvido por baixo do abafador:

 
Você trabalha faz tempo aqui? — perguntei.
— Pouco mais de um ano.
— Por que você usa fones?
— Não quero ouvir o que não me agrada.
— E o que seria isso?
— A queixa desse animal.
— É possível ouvir mesmo com o abafador?
— É…o que a gente vê a gente ouve. Não precisa de falar.
— Isso acontece sempre?
— Não…
— A última vez faz muito tempo?
— Tem mês.
— O que aconteceu?
— Comecei a usar fone de ouvido.
A música sertaneja amortecia a realidade, e o rapaz, a serviço de quem pode, dissimulava a brutalidade.





Sentada em um banco de praça

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Written by David Arioch

March 30th, 2018 at 7:30 pm

A parábola de Janko

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(Foto: Reprodução)

Janko viajava de vila à vila, cidade à cidade. Mesmo sem residência fixa, não carregava malas nem sacos. Afirmava que não tinha história, que o presente era o que deveria ser considerado. Dormia ao relento do alheado relento, nos alcantis ou no topo das árvores, onde poderia sentir a flama da comunidade. Chegava sempre silente. Em poucos minutos, mudava uma vida.

O olhar da chegada não era o mesmo da partida – não de Janko, dos outros. Quem usava animais, se alimentava deles ou ignorava suas necessidades abjurava tal hábito tão logo partisse. “O que aquele pobre diabo fez com você?” “O que ele disse?”, perguntavam aqueles para quem Janko era apenas intrujão.

“Sou vida ao mesmo tempo que sou morte. Me diga você enquanto estamos diante um d’outro.” Janko não falava alto nem vozeava. Trazia uma expressão desabafada da realidade; uma honestidade tão inaudita que não lhe era esforço algum exteriorizar lascas de vidas pregressas, ulteriores ou amealhadas pela derrida da vida. Vidas que poderiam ter sido suas ou não.

Olho, cheiro e dor de boi, de vaca, de galinha, de porco, de cabra e de peixe, sim é o que a gente vê e sente nele. “Unanimidade? Não. “Rábula, chicaneiro, pilantra”, glosavam. Janko não reagia – aquiescia – precisava de minutos. Mudou a cidade. Fecharam açougues, matadouros, curtumes, selarias e criadouros.

A cidade faliu? “Não, emergiu”, alguém berrou. Um antigo morador recém-chegado replicou: “Esse sujeito quebrou a cidade. O que vamos fazer com esses animais?” Cuide deles que a rarefação não toca mais esse chão, advertiu Janko. “Como? Não se cria o que não traz retorno”, “Seria a vida um escambo, um negócio?” “A terra é rica, vocês têm autossuficiência”, “Mas precisamos lucrar”, “Por que e para quê?”, questionou antes de partir.

Sem conseguir convencer ninguém a explorar os animais livres, o velho morador, o único a quem Janko não mostrou os olhos fadados, deitou uma cabra e a degolou com as quatro patas amarradas. Quando retornou para recolher o sangue do animal, levou um susto: “O que é isso? Cadê a cabra?” “A cabra sou eu, você, todos nós”, respondeu Janko com os membros amarrados antes de fenecer.





 

Boi marcado para morrer

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O primeiro da fila manteve um olhar hirto e esfíngico em direção ao paroleiro (Foto: Reprodução)

A boiada desceu do caminhão, mas alguns animais sentiram um cheiro nauseoso e acidulce. Resistiram a entrar em um corredor estreito por onde ninguém retornava. Um dos campônios começou a assobiar para sopitar e docilizar os bovinos. Os bois serenaram. O primeiro da fila manteve um olhar hirto e esfíngico em direção ao paroleiro. Nenhuma palavra, nenhum sinal. Se distanciou dos companheiros e seguiu rumo à caixa enquanto os outros aguardavam a metros de distância.

Assim que Milovan levantou a marreta para golpear o boi, ele recuou. O animal abriu a boca e cuspiu um pedaço de papel. Nele, havia uma frase: “O assobio da morte é a lorpa tirania do mais forte.” O homem fitou os olhos do boi e arredou:

— Sim, sei que você vai matar a mim e aos meus companheiros. Não vou resistir — disse o boi.
— Quê? Como você tá falando?
— Isso não importa. Vou te contar a história de Djordje, o Carrasco de Negotin, um sujeito bamba. Assim como você, ele também vindimava a mando dos outros. Até que um dia, quando se aposentou depois de matar animais como eu e meus companheiros ao longo de 30 anos, Psoglav apareceu para cobrar uma dívida.
— Que dívida?
— As vidas que ele tirou. Para cada animal que ele matou, Psoglav levou um de seus descendentes. E quando não restou mais nenhum deles, ele o perdoou e disse que seus últimos anos seriam de reparação.

O Carrasco de Negotin perguntou por que punir ele e não quem o pagou:

— Todos são penalizados, no meão ou na cessação da vida. Quem te pagou deixou de existir há muito tempo, você sabe. Além disso, não comprou apenas seus serviços, mas também a supressão da sua vocação humana. Você não teria morrido de fome se não tivesse aceitado esse trabalho. Eu o conheço. Em algum nível, você aprendeu a gostar do que fazia, um tipo de acromania e, mesmo que não tivesse gostado, nada impedia-te a partida. A existência pautada na morte é estéril, baldada, mesmo para quem não a enxerga.

Djordje aquiesceu e Psoglav se desvaneceu. O boi abaixou a cabeça, toldou os olhos e aguardou a marretada. Milovan a colocou no chão e ajoelhou-se. O animal saiu da caixa e caminhou em direção à saída. O corredor alvoreceu e a boiada desapareceu.





 

Senhor Boiada

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Foto: iStock

Um caminhão que levava o gado para o matadouro tombou na estrada. Nenhum dos animais se feriu gravemente. As pessoas se aglomeravam em torno dos bois tentando capturá-los e levá-los para casa. Um senhor desceu do carro armado e gritou:

— Pra lá! Ninguém vai tocar nesses bichos. Vim aqui para colocar ordem na situação.
Quando viram o revólver rutilando com a incidência do sol, todos se afastaram. Havia um grande espaço entre o interventor e os demais. Logo atrás dele estavam os animais – silenciosos.
— Vocês acham que podem chegar aqui e levar a boiada? Vocês são ladrões? Não têm vergonha na cara?
Ninguém respondeu, até que um velho retrucou:
— Caiu na rua não tem dono. Essa é a lei não escrita.
— Entendi. Então se o senhor cair na rua depois de um acidente a gente pode fazer o que quiser?
— Não, estou falando deles.
— Eles quem?
— Esses bichos aí, comida.
— Se o senhor não percebeu, eles estão bem vivos, e acredito que até mais do que o senhor.
O velho se calou.
— É o seguinte, o meu parceiro está chegando com outro caminhão. Vamos colocar esses animais na carroceria e seguir viagem. Se alguém chegar perto, não me responsabilizo pelo que vai acontecer. Não quero machucar ninguém, mas se for preciso, não vou hesitar.
Assim que o caminhão chegou, os animais foram realocados – um a um.
— E a gente, como fica agora?
— Vocês querem carne?
— Sim – gritaram em uníssono.
— Cortem um pedaço da perna de vocês e comam. Empresto a faca.
Mesmo notando tanta gente furiosa, o homem gargalhou e mostrou o revólver mais uma vez.
— Quem fizer graça vai acabar deitado, daí o churrasco está garantido. Problema resolvido. Que tal?
Só esgares. Nenhuma palavra.
O caminhão eclipsou no horizonte e uma F-1000 encostou.
— Cadê a boiada?
— Quem quer saber?
— Sou o dono da carga.
— Ora, seu funcionário acabou de levar a bicharada.
— Que funcionário? Não mandei ninguém aqui.
— Então danou-se.
 
Na carroceria do caminhão, um peão enxergou uma frase recém-escrita à faca: “Não importa a espécie, quem sente dor, não merece desamor, porque sem empatia a vida não serena, grita ao vento o que a ignorância condena.” – 21 de setembro de 1984.




 

“Lembro como se fosse hoje quando levaram meu filho”

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Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals

— Lembro como se fosse hoje quando levaram meu filho.
— E como a senhora se sentiu?
— Péssima, nunca senti tanta dor.
— Deixaram a senhora se despedir?
— Assim que ele nasceu, nem tive tempo de tocá-lo. Alguém veio e o levou todo lambuzado, fragilizado e confuso para longe de mim.
— A senhora reagiu?
— Claro que sim! Mas eu estava tão fraca…
— Você lembra da aparência do seu bebê?
— Não muito bem. Foi tudo muito rápido. Corri por alguns metros e caí no chão, sentindo gosto de terra na boca. Sinto vergonha por não ter feito mais.
— E como está se sentindo agora?
— É terrível! Nem sei o que estou fazendo aqui.
— Isso já tem quanto tempo?
— Duas semanas.
— Tentou buscar ajuda?
— Quem poderia me ajudar?
— Foi o primeiro?
— Não, o terceiro.
— Está com alguma dor?
— Sim, na minha situação qualquer uma sentiria. Não tenho vontade de viver. Isso não é vida. Existir para servir aos outros, sem ter qualquer tipo de liberdade de escolha. Nascemos condenadas, vituperadas pela ignorância humana.
— Por que diz isso?
— Porque existo apenas para que me suguem o leite; o leite que existe para os filhos que já não tenho, que são mortos e descartados em um lugar que nunca saberei qual é ou onde é. Imagine a dor de jamais reencontrar um filho? Não saber se ele já morreu? Não poder confortá-lo diante da morte? Um bebê, uma pequena criança. Por que meus filhos não valem nada? Só por que são de outra espécie? O que tem de errado em não ser humano?
— Acredito que nada de errado.
— Não parece. Isso não é vida. Viver para ser ordenhada, para que tirem de você um alimento sagrado que depende da gestação de uma criança. Se eu tivesse nascido para alimentar seres humanos, eu teria parido alguns, não concorda? O que me resta? Uma vida dedicada a saciar o desnecessário? A gula humana? Isso, se empanturrem de leite e derivados lácteos. Suguem de mim o máximo possível, até que eu adoeça ou seja considerada inútil quando a produção de leite cair. Logo serei eleita a vaca do ano, premiada com uma viagem só de ida para o matadouro. Não se preocupem, mais tarde vocês poderão me encontrar. Sim, fatiada em forma de hambúrgueres distribuídos nas seções de frios de diversos mercados.





 

O boi Fujão

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Alguém gritou: “Segura! Segura! Pega! Pega ele!” (Foto: Reprodução)

Tarde de 1992. Vi um boi correndo por uma das estradas nas imediações da Fazenda Ipiranga. Alguém gritou: “Segura! Segura! Pega! Pega ele!” O boiadeiro seguiu na treita do animal que ziguezagueava confuso, como se não soubesse o que fazer; mas não queria ceder. Era enorme, o maior visto na minha infância. Mais homens foram atrás. Faziam círculos no ar com corda americana.

Na primeira tentativa, o peão da dianteira fez do laço um colar malquisto no pescoço do boi. Breve gemido. Outros quatro também o laçaram em sequência e saltaram dos cavalos. Cinco homens e um esforço tremendo. Suas vontades não se comparavam a do boi que os arrastou como papel ao vento. Um deles bateu a cabeça contra um pedregulho e sangrou, sangrou. Nem levantou – só rolou. Outro peão recuou. A perseguição continuou.

“Você vai pro matadouro, bichão!”, gritou, levantando o punho e mostrando uma mão coberta por luva de couro. O boi parou e assistiu a movimentação levantando poeira em sua direção. Destemor. Os cavalos empacaram. Não queriam continuar. Gritos. Nada. Espora na carne? Sim, sangue dimanando. Nenhum efeito. É, os bichos se entendiam. Troca de olhares, comandos ignorados.

“Vambora, seu filho da puta!”, berrou um deles chicoteando o dorso do cavalo com tanta raiva que babava. O cavalo? Nem reagia, anestesiado, modorrado. Pés no chão. A situação mudou. O boi abaixou a cabeça, levantou e correu em direção aos peões. Mano a mano, cabeçada violenta no estômago do primeiro o lançando em uma vala. Se juntaram para pegá-lo.

“Vou te furar, seu merda!”, berrou o mais afoito correndo em direção ao boi. “Não faça isso, seu babaca! Se matar esse bicho aqui você vai pra rua!”, repreendeu o chefe dos peões. “Agora é uma questão de honra!” O boi nocauteou mais um – cabeça com cabeça. Descuido, canivete de castração no lombo.

O sangue vertia – mas ele não cedia. Arremessou o chefe dos peões contra uma árvore. Caiu sentado com as pernas abertas e a boca sangrando: “Suma da minha frente!” Fujão, nome dado em 1992, desapareceu na poeira da contenda. Adotado por Geraldo, filho de Seu Santo, faleceu no mês passado, 27 anos – 25 distante da violência humana.





 

Written by David Arioch

February 27th, 2018 at 12:10 am

A lição de Dabo

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Foto: Jo-Anne McArthur/We Animals

Meu pai sempre me contava a história de um senhor sérvio de Novi Pazar que ele conheceu por essas bandas na década de 1960, ainda garoto. Seu nome era Dalibor, mas como poucos sabiam pronunciá-lo, logo deram-lhe o apelido de Dabo. Era um senhor de meia-idade, olhar quiescente e barba ruça que pouco falava português. Nunca reclamava de nada para ninguém, e tinha maneira ímpar de demonstrar respeito diante das contrariedades.

Dabo não se alimentava de animais; consumia mormente o que plantava em sua chácara nas imediações do Parque Ouro Branco. Alguns o chamavam de estrambótico, esquisito, místico e “fruteiro”. Ele não se importava – nunca. Nem se abespinhava diante das provocações. Às vezes, jogavam pedaços de animais mortos em seu pomar, entre os apolíneos pés de mirtilo.

Antes de colher aqueles corpos mortos, ele sempre se ajoelhava, encostava a ponta do nariz na terra virgem e se desculpava enquanto mantinha uma das mãos sobre o corpo desfalecido – ou parte do que um dia foi um corpo. O ritual se repetia – um de cada vez. Então recolhia os animais e os sepultava.

Os episódios se repetiam e, em vez de reclamar ou denunciar os autores, logo transformou parte da chácara em um cemitério de animais. Alguns vizinhos começaram a se queixar, mesmo na inexistência de mau cheiro ou qualquer laivo cadavérico. Em uma noite de outono, convidaram Dabo para um grande churrasco em um sítio vizinho. Ele não rejeitava convites – nunca.

Quando a fumaça da churrasqueira começou a subir, ele a observou e se afastou a passos suaves. Depois de 15 ou 20 minutos, perguntou se alguém sabia a quantidade de carne que seria assada naquela ocasião e que tipo de carne.

Agradeceu e retornou para casa. Caminhou até o cemitério de animais e acendeu uma vela para cada quilo de carne. Havia muitas; as labaredas ganharam vida e iluminaram o céu da chácara. Tudo ao redor era escuridão. A fumaça da churrasqueira mirada ao longe vanesceu-se de súbito.

Muitas pessoas se aproximaram e o assistiram. Dabo, de olhos fechados, nem se moveu. Continuou de joelhos honrando a vida e a morte. Abriu a boca por um momento e disse: “Svetlost poštovanja je bombardovanje volje” – “A luz do respeito é o bombardeio da vontade.”

 





 

Faltou carne no açougue (versão reduzida)

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Diante do balcão, Luiz acenou para o açougueiro Nino e pediu um quilo de coxão mole.
— Não tem, o senhor me desculpe.
— Como assim? Nunca faltou coxão mole aqui.
— Então me vê alcatra.
— Também não tem.
— Pode ser patinho.
— Também não.
— O que você tem de carne aí, afinal?
— Nada.
— Nada?
— Isso mesmo.
— Então por que diabos o açougue está aberto?
— Aqui vai ser açougue ainda, mas sem carne. A gente iria fechar até receber a mercadoria, mas o patrão mandou deixar aberto, pra freguesia ir se acostumando.
— Se acostumando com quê?
— Com a falta de carne.
— Você é louco? Açougue sem carne não é açougue.
— Vossa opinião.
— Como?
— Isso mesmo.
— Isso não existe, amigo. Nunca me acostumaria com isso. Onde já se viu açougue sem carne?
— Se o senhor diz, mas tem gente que não está reclamando da mudança.
— Eu não sou os outros.
— Ok…
— Logo mais chega bastante variedade de frutas, legumes, verduras. O senhor gosta de batata beauregard? Chega hoje mesmo.
— E daí, amigo? Por acaso, eu lá quero saber disso?
— Mais opções para o seu paladar, para a sua saúde e para a saúde dos bichos.
— Você acha que tenho cara de quem vai parar de comer carne?
— Aí não sei. Cara não costuma dizer muita coisa, a não ser quando alguém abre a boca, né?
— Você tá de sacanagem comigo, rapaz! Você acha que sou coelho pra comer folha?
— Não, mas dizem que é boa fonte de minerais, fibras e vitaminas.
— Não interessa! Não vim aqui pra isso. Meu negócio é carne, proteína de verdade! Olhe, rapaz, diga ao seu patrão que nunca mais piso os pés aqui. Vocês perderam um cliente de longa data.
Nino ficou em silêncio e assistiu a partida do freguês enquanto uma de suas mãos percorria o balcão com uma flanela. Luiz hesitou por instante. Parou sobre a soleira, bateu com zanga a sola da botina, apontou o dedo cominador em direção ao balcão sem carne, mordeu os lábios inferiores e logo desapareceu.
— Esse aí é capaz de matar um por causa de um pedaço de carne – monologou Nino na sua típica fleuma.
De volta aos afazeres, abriu uma caixa recém-chegada e começou a mimosear uma porção de maçãs. Ele sorria para elas, e elas sorriam para ele – maçãs felizes – com carinhas e tudo o mais.
Vocês vão fazer alguém muito feliz – comentou Nino admirando o rubor das maçãs.