David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Contos/Short Stories’ Category

O homem e o urubu

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“Tens razão, e admito que sou comedor de carniça. Admitir isso é sensato”

Um humano ficou enojado quando viu um urubu comendo carniça na beira da estrada. Se aproximou e tentou bater no animal com um galho caído sobre o asfalto quente.

— Saia daí, seu carniceiro. Fique longe desse cadáver.

Para a surpresa do homem, o urubu continuou se alimentando do cãozinho atropelado. Até que incomodado com os berros do homem, virou-se em sua direção.

— Os seus atropelam o cachorro por falta de atenção e indiferença, o que resta é somente a carne que jaz, sem vida, e você vem me dar sermão? Quem é você?
— Que isso! Que isso! O urubu tá falando!
— Estou sim! E daí?
— Pare de comer esse bicho aí. Deixe ele em paz. Vou enterrar ele naquele mato ali.
— Para quê e por quê? O que restou aí é alimento para os meus. Dependemos disso pra sobreviver. E a vida que existiu ali já se foi há muito tempo.
— Não! Não! Não posso deixar você fazer isso.
— O quê?
— Isso é muito nojento.
— Nojento?
— E a carne que vocês comem, não é? Deixe os animais apodrecendo sobre o solo e veremos se existe alguma diferença entre esse cachorro deitado sobre o asfalto e aqueles que vocês matam sem necessidade.
— Sem necessidade? Você é uma piada!
— Não, senhor. Somos realmente carnívoros, e não matamos animais e nos alimentamos deles para além da nossa necessidade. Comemos para viver, não vivemos para comer. Considere também o fato de que vocês são incapazes de se alimentar da carne em estado natural, o que é chocante para nós carnívoros. Isso não existe. Comemos o que está à nossa disposição e como nos foi ofertado, sem máscaras, ou seja, sem fogo, sem tempero. Respeitamos a natureza.
— Você é louco! Louco!
— Talvez, se estamos falando de um mundo onde ser normal é matar para agradar o paladar.
— Pelo menos não como nada do chão.
— O cachorro que morreu por uma fatalidade se incomodaria menos de ser comido por nós nessa situação do que os animais que vocês agradam para depois matar em atitude traiçoeira. Afinal, o que tem de glorioso em abraçar antes de golpear? Sejamos honestos, meu amigo.
— Não vou perder meu tempo discutindo com um comedor de carniça.
— Poderia dizer o mesmo de você, já que nós dois nos fartamos da carniça de seres que viviam.
— Eu não. Você! Você! Só você!
— Tens razão, e admito que sou comedor de carniça. Admitir isso é sensato. Mas por que levanta a voz, range os dentes e demonstra tanto incômodo e desconforto? Examine a sua consciência, pois a minha resplandece tranquila – disse o Urubu antes de continuar se alimentando do cãozinho.

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“Também num gosto de carne”

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Pintura: Xueling Zou

Enquanto eu aguardava atendimento em um escritório de advocacia, um garotinho bastante animado, com seus cinco ou seis anos, me observava com um olhar de curiosidade.

— Qual é o seu nome, tio?

— David e o seu?

— Bruno…

— Você é forte, né, tio?

— Eu tento…

— É sim!

— Você deve comer muita carne pra ser forte assim…

— Por que você acha isso?

— Por que minha mãe diz que a gente precisa de carne pra ficar forte. Ah, então acho que você come muita carne.

— Não como não…

— É?

— É sim…

— Não precisa?

— Não, não preciso, ninguém precisa. Só que tem que comer direitinho pra não faltar nada, porque se você não come carne e fica doente as pessoas vão falar que é porque você não come carne. Então tem que se cuidar.

— Também num gosto de carne. Vou falar de você pra minha mãe, tio, e ver se ela deixa eu não comer também.

A secretária assistiu tudo e achou graça da nossa conversa. Quando os pais de Bruno saíram de uma das salas, ele se aproximou deles:

— Mãe, olha aquele tio ali, ele é forte e não come carne. Você disse que quem não come carne morre.

Com um sorriso amarelecido, a mãe não disse nada e o pai riu. Em segundos, atravessaram a recepção em direção à saída. Bruno sorriu mais uma vez.

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Written by David Arioch

June 6th, 2017 at 3:19 pm

As exigências da formiga-faraó

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“Você é lerdo e cabuloso, hein? A gente quer açúcar cristal, cara!”

Ela gesticulava e falava comigo enquanto movia suas antenas

Acordei antes das seis horas ouvindo um som estranho no quarto. Como eu estava muito sonolento, não consegui identificar a origem. Eu só queria dormir mais um pouco. Mas o som persistiu, até que reconheci uma voz ecoando. Abri os olhos e não entendi de onde vinha aquela algazarra. Parecia tão próxima e ao mesmo tempo tão distante de mim. Pensei que estivesse imaginando coisa, até que alguém berrou:

— Acorda, lazarento! Acorda! Vamos! Acorde!

Virei o rosto para o outro lado e não vi nada.

— Aqui, trouxa! Pra onde você está olhando? Você é cego, otário?

Então vi uma formiga-faraó em cima da cômoda. Ela gesticulava e falava comigo enquanto movia suas antenas.

— Que isso? Que loucura! — falei esfregando as mãos contra os olhos e dando tapinhas na minha própria testa.

— Estou aqui sim, mané! Não adianta esfregar a mão na cara. Não vou desaparecer enquanto não conseguir o que quero, certo?

— Como assim. Você quer o quê? E como você está falando? Como isso é possível?

— Olhe, cara! Vamos parar com essa lorota porque não tenho tempo a perder. Como falo ou deixo de falar não interessa. A real é que você tem sido um desgraçado, cara. E isso não pode continuar assim.

— Desgraçado? Eu? Como? Nunca fiz nada contra formigas.

— Eu sei, cara! Você é vegano e todo aquele blá blá blá. Mas o negócio é o seguinte: Sei que você não come açúcar, mas e nós, seu egoísta? Você pensou na gente quando parou de comprar açúcar? Outra coisa, você acha que a gente gosta de açúcar de coco, açúcar demerara… Mano, a gente gosta de açúcar cristal. O mascavo ainda vai, mas não venha mais com esse açúcar de coco, cara. A gente gosta do branco reluzente.

— E onde eu entro nessa história?

— Você é lerdo e cabuloso, hein? A gente quer açúcar cristal, cara! Você vai ter que comprar, e se não atender nosso pedido, pode se preparar. Estamos espalhadas por todos os cômodos da sua casa. Você não tem noção, mano, do estrago que a gente consegue fazer em um dia. Estamos atrás dos rodapés, no forro, em todas as frestas da casa, nos armários, nas dobras das roupas. Não tem pra onde fugir.

— Mas por que tanta maldade?

— Maldade? Tem maldade nenhuma, irmão. É a lei da sobrevivência.

— Entendi. Vou dar um jeito nisso. Mas posso saber de onde vocês vieram?

— Viemos daqui, cara. Meus ancestrais já moravam aqui antes de você e dos seus.

— É? Sério?

— Não! Mentira! Claro que sim.

— Hum…Por que esse mau humor?

— Por causa da abstinência. Tem nada doce por aqui e a gente precisa de açúcar, cara. Já viu alguém feliz com fome? Você fica feliz com fome?

— Não…

— Então, pergunta respondida!

— Posso fazer outra pergunta?

— Caramba, mano! Mais uma? Tá! Manda lá!

— Por que chamam vocês de formiga-faraó?

— Ah! É isso? Beleza!

A formiga saltou em cima da cama, escalou o meu braço, subiu em meu ombro esquerdo e me observou por um instante.

— Louco demais! Essa barba dá um ninho da hora! A gente pode morar aí?

— Claro que não!

— Por que não, cara? Um ajuda o outro. A gente até estica ela pra você, dá mais volume; e ainda come as sobras de comida e alinha seu bigode. Fora que com a nossa presença ela ganha um tom de luzes do tipo caramelo.

— Sai fora!

— Beleza! Mas a permuta é boa e o azar é seu. Perdeu a chance de veganizar umas formigas.

— Me diga por que realmente chamam vocês de formiga-faraó.

— Ah! De novo isso? Ok!

— Meus ancestrais diziam que um dia um grande faraó decidiu banir as formigas do Egito. Ele começou proibindo a fabricação de açúcar e a importação de açúcar da Índia por um longo período. Uma de nós apareceu pra ele, assim como estou fazendo agora, e tentou dialogar. Ele não aceitou o acordo. Então elas comeram o faraó.

— Nossa! Sério isso?

— Sim…talvez…Claro que não, né?

Com a visão ligeiramente turva, cocei os olhos mais uma vez. Quando olhei para o meu ombro, a formiga tinha desaparecido. Minutos depois, meu celular tocou.

— Você estava dormindo? Estou te ligando há mais de dez minutos e você não atende — reclamou meu irmão.

— É…acho que sim.

Por via das dúvidas, esperei o mercado abrir, comprei cinco quilos de açúcar cristal e guardei no armário.

 

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Written by David Arioch

May 20th, 2017 at 9:44 pm

Beijos ao acaso

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Praça do Teatro Municipal, onde nos beijamos (Foto: Elessandro Almeida)

Durante um espetáculo no Teatro Municipal, sentei sozinho nas últimas poltronas, como de costume. Gosto do silêncio da plateia e da ampla perspectiva do palco. Assim que me levantei, esbarrei em uma moça. Era muito bonita. Me desculpei e ela perguntou se poderia sentar ao meu lado.

— Sim, fique à vontade.

Trocamos alguns olhares que se encontravam e outros que se desencontravam.

— Quer sair daqui? — ela perguntou.

— Como?

— Dar uns beijos…

— Onde?

— Lá fora.

— Pode ser. Vamos aí.

Ela sorriu, deu um puxão na minha barba e saiu na minha frente. Fui atrás dela e nos encontramos lá fora. Não havia ninguém além de nós. A praça não estava tão clara, mas uma luz amarelecida e vacilante iluminava nossas cabeças. Nos beijamos por alguns minutos, espreitando a movimentação.

— Vamos lá pra casa – ela disse.

— Será que é uma boa? Não nos conhecemos direito…

— É sim. Você vai gostar. Relaxa…

— Ok…

Chegando lá, encontramos a família toda na sala. Provavelmente 10 a 12 pessoas. Ela perguntou meu nome na frente do pai e da mãe. Respondi naturalmente enquanto coçava a barba.

— Você não é brasileiro, é? — perguntou o homem.

— Não…

— Sabia! Com essa cara…

— Hum…

— Vamos lá pra varanda — ela sugeriu.

Nos beijamos um pouco mais, até que começamos a nos estranhar. Depois de meia hora, os olhos dela não eram mais os mesmos. Àquela altura, percebi que não tínhamos nada em comum, a não ser tempo ocioso. Ela me observou e disse:

— Você é muito barbudo. A gente podia cortar um pouco. Vou pegar a tesoura.

— Que isso? De jeito nenhum!

— Olhe, meu amor, se quiser namorar tem que ser do meu jeito…

— Como assim namorar? Quem aqui está falando em namoro?

— Como não, seu filho da puta? Você acha que é bom demais pra mim? É isso?

— De jeito nenhum. Você é incrível. Acho apenas que não estamos namorando…

— Como? Gostou de beijar, não gostou? Agora tem que seguir o riscado.

—Que isso, moça! Que riscado? – questionei com o coração palpitando.

— Você acha que é assim?

— Nos conhecemos, sei lá, acho que não tem mais de 40, 45 minutos…

— Não interessa. Você aceitou conhecer meus pais. Eles estão de prova.

Subitamente, ela gritou e o velho apareceu segurando um facão. O imaginei vindo para cima de mim arrastando a lâmina no piso e saltando com o facão apontado para a minha garganta.

— Quer um pedaço de cana? Estou rachando agora — perguntou o homem.

— Não, senhor, mas muito obrigado pela gentileza — respondi tentando esconder o suor das mãos que tremulavam.

O velho piscou e voltou para dentro da casa sem dizer nada. Ela continuou furiosa.

Falei que era melhor eu ir embora.

— Amanhã você vem que horas me ver?

— Não moro aqui.

— Mas você volta, né?

— Volto sim.

— Sendo assim, vou confiar na sua palavra.

Por garantia, passei três meses escondido dentro de casa.

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Written by David Arioch

May 10th, 2017 at 1:48 pm

Fogo no matadouro

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O fogo estava faminto, e tudo que um dia serviu para ceifar tantos animais conheceria o seu próprio fim

Lá fora, assistimos a crescente cólera do fogo que representava a nossa própria (Arte: G.D.St. John)

Escuto a chuva. Não é violenta, até que é calma. Começou a esfriar ontem. Não faz diferença. Aqui dentro poucas coisas importam. Minha mente continua lá fora; dizem que com o tempo você se acostuma. Será? Não sei, vou vivendo como dá. Eu poderia morrer agora, mas por eles prefiro viver, não vou dar esse prazer. Falaram que vou apodrecer aqui, que jamais vou ganhar a liberdade. Faz sentido, só que é estranho porque lá fora também é uma prisão.

Louco, psicopata, doente, terrorista, perturbado; me chamam assim agora. O dinheiro tem o poder de garantir esses nomes pra você na mídia. Falsos diagnósticos médicos sempre ajudam. Pagando bem que mal tem, não é mesmo? Inventaram um histórico de instabilidade psicológica e emocional que nunca tive. Sempre fui um cara pacífico, e muita gente virou as costas pelo que fiz. Não me arrependo.

Ah! Sou um risco para a sociedade. Isso é engraçado de se reconhecer quando a sociedade é um risco para si mesma. Autofagia! A sociedade come a si mesma. Ontem, um sujeito mal-encarado veio me visitar. Ajeitou o chapéu de couro de boi sobre a cabeça, cuspiu um naco de fumo em minha direção, levantou os olhos, mostrou os dentes amarelecidos e disse: “A gente tem juiz no bolso e força no Congresso. Você já era, filho da puta! Você não é ninguém!” Mostrei o polegar pra ele, sorri e comentei que se eu tivesse mais tempo teria feito muito mais.

Ficou puto e vi nos seus olhos a vontade de me matar. “Não, cara! Não aqui e agora.” Sugeri que parasse de mascar fumo se não quisesse ficar com os dentes iguais aos do Beetle Juice. Ele não entendeu. Recebi visitas de outros tipos estranhos. Outro dia, mandaram um engravatado me oferecer uma boa grana para entregar meus amigos. Se fosse por dinheiro, eu não teria feito o que fiz.

O dinheiro é a raiz de toda essa desgraça. Não que eu seja contra ganhar dinheiro; sou contra a escravidão que ele gera. Talvez você esteja se perguntando o que fiz para estar neste buraco. Tem gente me apoiando aqui, e acho que se a coisa ficar feia pode ser que eu não esteja sozinho. Neste momento, registro minha história neste papel higiênico.

Tudo começou em 2015, quando eu participava de um fórum na darknet. Havia pessoas de vários estados do Brasil. Era um grupo de ativistas pelos direitos animais. Nosso lance era ciberativismo mesmo. A gente se articulava por lá e produzia textos e vídeos para rebater falácias especistas e conscientizar as pessoas sobre a indústria da exploração animal. Era legal, mas chegou um momento em que tudo aquilo começou a parecer pouco, muito pouco.

Afinal, qual é o propósito de dedicar tanto tempo a algo que proporcione poucos resultados? A gente queria mais, muito mais. Lembrei da lei de Thelema, do Aleister Crowley dizendo “Faze o que tu queres, há de ser tudo da Lei.” Não demoraria; a gente faria. “Porra, vamos colocar fogo no mundo, cara!”, disse Nikolai. Figura de expressão, hipérbole. Sim, não no mundo, mas algo iria queimar, com certeza. Tínhamos pessoas o suficiente para fazer isso acontecer. Amadores com corações profissionais, isso nos define até hoje.

Acordamos de madrugada naquele domingo e nos dividimos em dois carros e um caminhão. Dirigimos pouco mais de 150 quilômetros até chegarmos ao nosso destino – um dos maiores matadouros do Sul do Brasil, situado em uma área rural, ladeado por uma lagoa com a água mais suja que já vi em toda a minha vida.

Senti náuseas diante do odor intenso daquele depósito de lixo flutuante. Restos de animais, fezes, resíduos químicos e outras porcarias se misturavam enquanto a água espumava e esfumaçava como um cenário de um filme do Ed Wood ou da Troma. “Que diabos é isso?”, perguntou Sonia.

Não sei se aquilo era normal ou se tinha acontecido algum acidente, mas o solo estava carcomido por algum tipo de podridão. Fedia absurdamente, banhado por um líquido nojento e pegajoso que emborcava lá longe, em uma nascente. Matava tudo que inspirava vida, desde a menor até a maior das plantas. Tudo naquele inferno inspirava à morte. E estávamos lá por isso.

Quando vi um homem parado no portão, caminhei até ele. Não subornei ninguém, senão seríamos tão sujos quanto qualquer um que vive da degradação social. “Seja como nós, ou seja contra nós”, concluí coçando a nuca. Acenei minha cabeça e Borges retribuiu a cordialidade:

— O senhor sabe o que a gente veio fazer aqui.

— Sei sim.

— E está bem com isso?

— Sim, faça o que tiver que fazer. Falei com os outros, já desativaram todo o sistema de segurança.

Borges era o chefe da segurança, e também tio de Juliane, nossa amiga. Quando ele assobiou, três seguranças acenaram positivamente com a cabeça; caminhamos matadouro adentro. Não era limpo como a TV, os jornais, os vídeos institucionais e os folders mostravam. Talvez improvisassem bons ângulos, vai saber.

Conforme eu andava, o ar pesava, uma energia ruim que emanava daquele ambiente onde entrava a vida e saía pedaços de morte bem embalados. O matadouro tinha muros extremamente altos, como uma fortaleza. Imaginei os gregos invadindo o lugar dentro do Cavalo de Troia.

Do lado de fora, era impossível ver o que acontecia lá dentro. Enquanto Eu, Nikolai, Sonia e Juliane entramos, Marcelo, Roberto, Lúcia e Bruna percorreram as imediações, para se certificarem de que não havia nenhum animal, humano ou não, por perto.

Azulejo branco nas paredes e piso vermelho por onde escorria o sangue dos inocentes. Corredores estreitos, plataformas, grilhões, correntes, caixas, gaiolas, carretilhas, roldanas, ferrugem, torneiras, pias de lata, pistolas, facas, tubos, marretas, escadas, sangue seco, riscos no chão – marcas de luta; campos de concentração aprovados pela humanidade e legitimados pela legislação.

As dependências vazias contavam histórias de terror e medo. Borges relatou que milhões de animais morreram naquele lugar. Muitos resistiam em vão. Ele tinha razão. Ouvi porcos se contorcendo e grunhindo, presos aos grilhões enquanto o sangue quente jorrava. Famílias de bois, vacas e bezerros, assassinados em espaços diferentes – mortes sempre solitárias. Nenhum deles queria morrer; ninguém queria reconhecer.

Como podemos comer algo que um dia teve pernas para fugir, olhos e ouvidos para assistir e ouvir o próprio fim? Algo que um dia fez parte de alguém que sentiu calor, frio, fome e sede como nós mesmos; que não teve a oportunidade de viver o suficiente para descobrir algum prazer em existir, porque foi forçado a sucumbir. Morrer cedo demais é algo que animal nenhum deseja ou espera – jamais.

Poderíamos ter provocado um incêndio no departamento de expedição, causando uma pane no painel de controle da esteira que conduz os pedaços de cadáveres que eles chamam de produtos. Mas então não teríamos como mensurar a proporção do estrago. Não! Tinha que ser feito à moda antiga.

Descarregamos galões de querosene e derramamos sem economia por todos os espaços. Alguns de nós gargalhavam e entoavam: “Para aqueles que só o que pesa no bolso pesa na consciência, ignorando dos mais fracos a capacidade de senciência.” Ficamos em silêncio e terminamos de despejar os últimos litros de querosene pelas dependências.

O odor não era agradável. Pelo menos mascarava a gelada fedentina de morte. Pedi que os outros saíssem do matadouro e me esperassem na entrada. Me ajoelhei, inclinei a cabeça em direção ao chão e falei: “Que vocês me perdoem por tudo que não fiz.”

Acendi um coquetel molotov e arremessei com força, fazendo a garrafa atravessar dezenas de metros antes de explodir em chamas, como um pássaro dourado ganhando a liberdade. O fogo estava faminto, e tudo que um dia serviu para ceifar tantos animais conheceria o seu próprio fim.

Borges e os seguranças já tinham partido. Lá fora, assistimos a crescente cólera do fogo que representava a nossa própria. Assim que o prédio começou a desmoronar, Marcelo confirmou que não havia ninguém nas imediações. E o tempo previsto para a chegada do Corpo de Bombeiros não poderia ser outro – somente quando as chamas deitassem a última fundação.

Talvez tenha sido o maior espetáculo de nossas vidas. Afinal, ninguém dança melhor que o fogo, especialmente quando suplanta a crueldade humana contra outras espécies. Ele é livre, mais do que nós na nossa incompletude existencial que perpetuamos por arrogância e pedantismo.

— Sentimos muito pelas pessoas que podem ficar desempregadas, mas ninguém deveria se profissionalizar em tirar vidas. Isso destrói o outro e você, mesmo que você não perceba – declarou Sonia.

— É, não acho que alguém consiga ser feliz trabalhando num lugar desgraçado desse, ainda mais num ambiente onde se gera mais morte do que emprego; e menos ainda qualidade de vida – acrescentou Lúcia.

Fomos embora, não crentes de que estávamos salvando o mundo, mas acreditando que uma mensagem foi dada – nem todos abaixam a cabeça ou se mantêm calados diante da intransigência humana, de suas ações desnecessárias, caprichosas e gananciosas.

Me entreguei à polícia no dia seguinte, e insisti para que ninguém fizesse o mesmo. Se eu não me entregasse, provavelmente as pessoas não saberiam o que de fato aconteceu no matadouro. Ah! Matérias capciosas dizem que sou um piromaníaco, desequilibrado; alguém sem qualquer motivação. A mídia independente e as redes sociais estão aí para provar o contrário.

Ainda não fui a julgamento. Faz dois meses que estou em prisão preventiva. Muita gente se afastou de mim; naturalmente, pessoas que não me fazem falta. Os poucos e bons amigos me trazem notícias. Fiquei sabendo que mais 32 matadouros foram incendiados até agora. Não sei onde e quando. Ninguém se feriu ou morreu. Isso é bom. Dizem que sou o mentor intelectual. Isso é ruim. A única coisa que fiz foi mostrar que hoje não é ontem, e que o fogo também representa o renascimento daquilo que amortece o desconhecimento.

Há muito tempo, tive um pesadelo em que eu era um boi a caminho do matadouro. A diferença é que eu era um bovino com consciência humana – prestes a morrer e incapaz de verbalizar o meu desespero. Tudo isso intensificou ainda mais o meu medo. Se todas as pessoas tivessem esse pesadelo, acho que teríamos grandes mudanças. É, só vou deixar de ter esperanças quando eu morrer, porque sem esperança acredito que não há pelo que viver.

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Joana do Matadouro

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Um dos animais levantou a cabeça e observou silenciosamente os olhos de Joana

“Um dos animais levantou a cabeça e observou silenciosamente os olhos de Joana”

Enquanto as crianças choravam, Joana abriu a porta da geladeira e viu que não havia nada lá dentro, a não ser um pouco de água em uma garrafa pet. Ela já sabia disso, mas talvez por motivo de fé acreditasse que uma porção de alimentos pudesse brotar da porta. Ou, quem sabe, das planas divisórias de plástico, iluminadas por uma lâmpada que tremulava, ameaçando se apagar completamente a qualquer momento, assim como sua própria vida.

Com as mãos no rosto, sentiu o palato arder e se esforçou para não gritar e esmurrar a parede com o pouco de força que restara. Não teve coragem de pedir novamente ao vizinho que “emprestasse” uma xícara de arroz e feijão. Quando o silêncio tomou conta da casa, ela sabia que as crianças já estavam dormindo:

— Eu morreria aqui agora pela salvação dos meus filhos. Eles não merecem sofrer por minha causa – balbuciou diante de uma vela, a única luz da casa após o corte de energia elétrica no final da tarde.

Depois de receber cesta básica por três meses, Joana não tinha mais a quem recorrer, e por ter sido abandonada, muitos a culpavam, dizendo que ela era um fracasso como mulher – “incapaz de atender as necessidades do marido”. Quando saía às ruas, vez ou outra ouvia alguma ofensa. Em vez de reagir, ela ignorava. Preferia se preocupar somente com os filhos, e deixar que a vida se encarregasse do resto.

Em uma tarde de domingo, o vizinho João Batista contou que abriram uma vaga no Frigorífico Areia Nova, onde ele trabalhava como motorista há mais de dez anos.

— Só que é na linha de abate, serviço que pode ser desagradável e pesado às vezes. O salário não é dos melhores, mas já é alguma coisa. Se for do seu interesse, posso levar a senhora lá.

Com a experiência de quem já trabalhou no corte de cana e na colheita de mandioca, a palavra “pesado” não assustava ou incomodava Joana, mas sim a ideia de matar animais para sobreviver. Por isso, hesitou por dois dias até concordar em participar do treinamento na linha de abate.

Em uma manhã, pegou carona com João Batista, e na cabine do caminhão sentiu um estranho cheiro agridoce. Notando a reação, o vizinho explicou:

— Deram nos córneos dum boi fujão aí que a gente foi buscar lá pelas bandas da Pedra Gaiteira. Ele não queria vir por bem, tivemo que arrasta na pancada. Quando deitou lá atrás, já tava desmaiado. A boca do bicho sangrou que nem bica de mina. Nunca vi coisa igual. Só machucaram a cabeça; deram choque nele. Não podia exagerar pra não estragar o couro. Agora esse cheiro que ficou aí é dele, e taí pra mais de semana. Não sei se a senhora acredita em sortilégio, mas acho que esse bicho morreu antes da hora, e o sangue taí pra lembrar a gente toda hora.

Joana não disse nada, mas sentiu um calafrio que começou na ponta dos pés e terminou na nuca. “A morte nunca cheira bem”, ecoou na sua consciência. O silêncio foi mantido até a chegada ao matadouro, onde outros caminhões estacionaram para descarregar a boiada.

Joana testemunhou os passos lentos e pesados da manada, que parecia um cortejo fúnebre. Nunca tinha visto de perto tantos animais reunidos em um mesmo lugar. Em pouco tempo, todos estariam mortos; incapazes de sentir o frescor da manhã outonal, de trocar olhares com os seus, ou de simplesmente matar a sede que já não existiria mais. Seria o fim de tudo que se movia sob quatro patas naquele pedaço de terra vermelha onde diziam que tudo dava, menos o direito à vida bovina.

Sob ordens humanas, e em meio a olhares mecânicos, naturalizados pela prática cotidiana, pouco a pouco o gado seguiu até um corredor relativamente estreito – de vinte metros de comprimento e quatro metros de largura. “Se fosse gente, já estariam dando com os cotovelos um no outro. Que lugarzinho apertado”, comentou Joana com João Batista, que respondeu com um sorriso amarelecido.

Daquele lugar, nenhum dos bois corpulentos fugiria. Seria preciso machucar um companheiro para conseguir algum espaço; e nenhum deles parecia disposto a ferir alguém. A boiada continuou atravessando o corredor. Conforme os animais desapareciam da fila, mais adiante ouvia-se barulhos estranhos de metais, algo se chocando contra o piso, alguns mugidos curtos e outros mais longos.

Sem tempo para cordialidades, um dos encarregados gritou o nome de Joana e falou que se ela quisesse o trabalho teria que acompanhá-lo. “Seu trabalho aqui vai ser na caixa, mas antes veremos como você se sai no treinamento”, avisou Oliveira, o responsável pelos magarefes. Ela o seguiu até um local, onde um boi branco foi colocado dentro de um caixote. Quando o animal entrou, ele olhou para Joana e, sensibilizada, ela desviou os olhos. “Você tem que ver o serviço. É pra isso que você tá aqui, não é não?”, questionou o encarregado.

Ele mostrou uma pistola para Joana e disse que o processo é bem simples, mas é preciso atingir o ponto certo no crânio do boi. “É nessa altura aqui, tá vendo? Nem pra cá, nem pra lá. Não tem segredo. É um serviço quase sempre limpo.” Enquanto Joana prestava atenção, o boi recebeu um tiro de pistola disparado por Oliveira. Depois que o dardo atravessou o cérebro do animal, ele deu um mugido lamurioso e desabou no chão, fazendo a caixa tremer.

— Seu serviço basicamente é esse. Colocar o bicho pra dormir. O resto é com a outra equipe. A não ser que você queira colocar a mão na massa. O que acha?

— Não, senhor — respondeu, se esforçando para velar o impacto que aquela cena teve sobre ela.

Depois de conhecer todas as etapas do trabalho no matadouro, e de ser aprovada no treinamento, Joana foi contratada na semana seguinte. O salário de mil e trezentos reais custaria muitas mortes ao final do mês. Para não pensar tanto nisso, ela sempre olhava uma foto dos três filhos com idade entre 3 e 6 anos, deixados aos cuidados da avó enquanto trabalhava.

Em uma manhã de segunda-feira, após três semanas de serviço, Joana sabia que seria preciso abater o primeiro boi sem a supervisão de Oliveira. Antes de sair de casa, se ajoelhou diante da cama e orou, pedindo a Deus que garantisse que tudo corresse bem em mais um dia de trabalho.

Como de costume, Joana assistiu mais uma vez a chegada da boiada, foi ao banheiro vestir o uniforme e umedeceu o rosto diante do espelho. Estava pálida e assustada. Ainda não tinha se acostumado a segurar uma pistola; nem a testemunhar a queda daqueles dóceis animais que em poucos segundos sucumbiam com os cérebros dilacerados. Não choravam como nós, mas choravam como eles, na quietude da incompreensão, trazendo nos olhos cristalinos a inocência de quem da humanidade espera a redenção.

Tão logo Joana ouviu um barulho, um boi foi empurrado para dentro da caixa. A cena se repetiu muitas vezes naquele dia e em muitos outros. À tarde, um dos animais levantou a cabeça e observou silenciosamente os olhos de Joana. A ausência de som e de movimentos por parte do boi a chocou mais do que se ele tivesse reagido e tentado fugir – porque a mansidão significava que ele confiava nela.

As mãos de Joana tremularam até que ela ouviu um grito ao fundo: “Vamos agilizar isso aí que hoje a fila é grande.” Joana posicionou a pistola e disparou contra a cabeça do animal. O dardo não penetrou o cérebro, mas fez um furo no crânio, por onde o sangue desceu. Longe de se entregar ao próprio fim, o boi começou a mugir e a tentar escapar da caixa, mas não sem antes confrontar os olhos de Joana, mostrando que ele sabia que ela tentou matá-lo. Desesperada, se afastou e começou a gritar por ajuda.

Oliveira interveio e assobiou para dois rapazes. “Deu merda! Deu merda! Vamos! Vamos! Rápido!” Eles entenderam e se apressaram carregando duas marretas. Mandaram Joana se afastar e intercalaram marretadas na cabeça do boi. Agitado, respingava sangue e mugia como se sua vida dependesse dos seus berros. Diante da cena, e do boi lutando para sobreviver mesmo depois de inúmeras pancadas, Joana ficou chocada. Havia sangue em seu uniforme, cabelos e pescoço.

Não conseguia mais negar a si mesma que tinha tomado parte em um tipo nefasto e lancinante de violência. O tiro de pistola, que parecia limpo, até então serviu apenas para mascarar um fato imutável – não há romantismo na morte de quem não quer morrer, independente do método. A constatação fez seu coração disparar. Mais constrangida e abalada do que nunca, se afastou e correu até o banheiro sem pedir autorização. Vomitou tanto que sentiu dores intensas na garganta. Vendo o estado de Joana, Oliveira a dispensou, permitindo que ela fosse para casa.

— Você tem doença, Joana. E não é doença de brincadeira. É coisa séria — disse Oliveira.

— Como assim?

— Você tem a doença do “não matarás”. Pode ir pra casa. Aqui não é lugar pra você. Vou dar um jeito de garantir que você receba o salário do mês pelo seu esforço.

Antes de deixar o matadouro, Joana tomou um banho demorado e, quando terminou, se encolheu nua em um canto. Através do ralo, por onde a água descia, ela viu um pedaço de carne bovina que se liquefazia. Os olhos do boi morto à marretadas a espiavam entre os frisos do ralo. Por minutos, Joana viu tudo girando, mas não conseguiu chorar.

Em casa, à noite, ainda sentia o cheiro agridoce do sangue do boi que respingou em seu corpo. Perguntou aos filhos e à sua mãe se eles notaram algum odor diferente nela, mas ninguém percebeu – só Joana. Depois de um jantar sem carne, caminhou até o quintal e falseou um sorriso ao ver os filhos brincando.

— Olha, mãe! Eu sou o boi Tadinho, o Guilherme é o boi Chorinho e o Gabriel é o boiadeiro Marquinho. A brincadeira é correr e não deixar o boiadeiro pegar a gente — contou Gustavo, o filho mais velho, com expressão doce e quiescente.

Joana simulou mais um sorriso e sentou-se em uma cadeira sob a jabuticabeira. Quando seus filhos e sua mãe dormiram, ela retornou ao quintal, observou o céu estrelado e uma fazenda que começava onde seu bairro terminava. Em seu colo, havia um embrulho. Ela desenrolou um revólver calibre 38.

— Que a justiça seja feita aqui e agora, que meus filhos e minha mãe superem essa perda e que Deus me perdoe por todo o mal que eu fiz.

Joana tirou a arma do colo e colocou o cano gelado dentro da boca. Fechou os olhos e as lágrimas desceram pesadas e silenciosas. Prestes a acionar o gatilho, ouviu um barulho, abriu os olhos e tirou a arma da boca. Um bezerro pardo, que trazia um coraçãozinho branco de pelos no topo da cabeça, começou a lamber a sua mão. Joana guardou o revólver.

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Algo brilhava dentro do forno

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Algo brilhava dentro do forno, e não era papel alumínio, mas a pele untada de um pintado inteiro que trepidava. Quando o tiraram do forno, toda a gente viu seus olhos vacilantes que respondiam à boquinha tremulante. As únicas partes que não foram marcadas pelo fogo. Ainda tinha vida.

Seu couro parecia envernizado, e quando tentaram tocá-lo, queimaram os dedos. Era o carimbo da natureza, denunciando que cada bolinha no corpo do Pintado representava uma semana de vida que ele já não teria. Enquanto o peixe agonizava, Manuela gritava. Com o barulho, o pintado se lançou no chão da cozinha.

A criança se afastou, e quando alguém ameaçou colocá-lo de novo no forno, Manuela berrou: “Não! Não! Não!” Enrolou o peixe já sem vida em um lençol branco, caminhou até o quintal e o enterrou no jardim, ladeado por um pé de Jasmim. Deu a ele o nome de Querubim, afirmando que quem nasce nadando morre voando.

 

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Written by David Arioch

April 14th, 2017 at 8:10 pm

Children of the White Gold Cinema

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I saw the tears streaming down his face, wetting his plaid shirt buttoned up at the point of his neck

The White Gold Cinema, one of the great entertainment points of the population of Paranavaí (Archive: Osvaldo Del Grossi)

I am not part of a generation that has the strongest and clearest memories of the White Gold Cinema, one of the great entertainment points of the population of Paranavaí, in the Northwest of Paraná, until 1993. When the cinema was closed, I was still a child. Despite this, I went to the Gold Cinema for a few years of my childhood, and I have fond memories of that time.

My first time at the movies was a session of “The Bumbling Heroes – An Adventure in the Jungle”, on a weekend in 1988. By then, the biggest screen I had seen was the 21-inch TV, covered by a box of varnished wood, which was in the living room. Even so, I was happy watching cartoons on it.

As soon as my brother, my mother and I arrived in front of the White Gold Cinema, in Manoel Ribas Street, in the downtown, I paid attention to the people lined around the box office. Tiny, I watched everything in the proportionality of my stature. I saw more shoes, legs and belts than faces. Except, of course, when people were as little as I was.

Before we got inside the cinema, I walked slowly and backwards along the sidewalk, trying to observe the height of the White Gold’s building, but it was impossible for me. So, I thought that was the biggest movie theater in the world. Who knows, maybe it crossed the skies and had direct contact with the paradise they talked about in school.

The gentle popcorn seller smiled at me, noticing through my large, cylindrical black eyes that it was my movie debut. “Is it your fist time?” You’ll like it and you’ll want to come back many times”, he said, straightening a small amount of sweet pop corn, preventing it from mixing with the salty one.

Warm and smelling, the popcorn popped into the cart. For a moment, I believed, in my boyish illusion, that maybe the popcorn had a life, and wants to go to the movies to watch “The Bumbling Heroes”. By my side, prevailed a sweet aroma that pacified the most bewildering children – yes, it was an effective white-hot soothing odor.

It reminded me of the airy red tabebuia tree, that I saw every day near my house, when I pointed with my finger and shouted: “Look that sweet popcorn tree!” On the other side of the popcorn cart, the smell of popcorn changed, as well as the public. The adults, especially the men, approached and asked: “Give me the salty one, please!”

Skilled, the popcorn seller knew the exact amount of popcorn to fill every bag. I watched his grooved hands glittering in front of the small yellow lamp that glowed and gilded his wrinkled face. It was that way, whenever he leaned in or steeled himself. That was his spectacle, and at the entrance of the White Gold Cinema, nobody was more important than the popcorn seller.

On that day, before we went to the cinema, five shoeshine boys, aged between 6 and 14, approached. They leaned against a wall next to the White Gold Cinema and, as the ragamuffins boys from Buñuel’s “The Young and the Damned”, started smoking, watching families getting out of cars and crossing the sidewalk.

“If I had a father or a mother I would not be in this life, brother! Being poor and alone is not easy. No, sir! Look how much luxury those kids have”, said one of the four boys to his friends. Without a word, they just shook their heads in agreement, crushing little butts with their little feet.

Dirty, with grimy nails and the nauseating smell of cheap cigarettes, a shoeshine boy no more than 12 years old lead a group of kids. As someone hesitant about entering or leaving, he folded his arms and raised his face as one of the entrance lights highlighted his dubious expression of satisfaction

“Guys, listen up! Quickly! This movie ‘Bumbling Heroes’ is very good. There’s only one bad thing. Mussum and Zechariah die at the end. Thanks! Bye! “He shouted and ran laughing, while his dark and curly hair was fluttering. At that moment, he became an antagonist worthy of the villain Scar.

The boy dragged his shabby slippers and, with his companions, went down to Pará Street. Some children did not care about the revelation, but others were so angry that they wanted their parents to call the police or do something about it. For good, no one pursued them.

Inside the Gold White, I was stunned by the out of sight seats. “There are one thousand five hundred seats here. Look up there, it’s like an opera”, my mother told us, watching our reactions. Unhurried, we spun around the mastodontic room, trying to see all the details.

Luckily, there were vacant seats in the front row. Then, we walked there, crossing hallways and listening to the sounds of spectators eating popcorn, talking, making fun of someone and hugging each other. Near us, the usher accompanied everything with its indefectible aura of firefly. He felt like the leader of a coliseum where nothing would happen without his permission, especially when the lights went out.

As soon as I sat down, I observed a boy in mended clothes sitting next to me, accompanied by his mother. His name was Juscelino, and he was a year or two older than me. It was also his first time at the movies. I noticed his anxiety because his small feet kept swinging, as did mine.

His trembling hands sweated so much that every time he wiped them on the sides of his plaid pants. Juscelino was talking to me, keeping his face toward the disproportionate projection screen. I thought he was excited because of the movie, until I noticed something different in his eyes, a crystal clarity like I’ve never seen before. Naturally, the mother revealed that her son was born blind.

Juscelino could not see anything. Still, his excitement at White Gold Cinema surpassed even mine. The sounds and smells that came to him were like immaterial gifts, memorials. With a rare auditory and olfactory acuity, Juscelino could even see what people were doing or eating in the furthest seats- and he liked to discuss everything with me.

Son of peasants from Alto Paraná, he arrived in Paranavaí by bus in the morning, and stayed waiting for hours for the ticket office to open. His father could not participate in the big event, because the savings just barely covered the expenses of his wife and child. “It’s going to start, mom!” Said the little boy seconds before the projector started showing the movie, as if he had a gift for omens.

From beginning to end, Juscelino was completely silent, trying to absorb as much sound information as possible. Occasionally, he moved about the chair without making a sound, worried about bothering people. Juscelino, my brother and I were united by an experience that would never be repeated. Our greatest discoveries were visual, and those of Juscelino were auditory. Perhaps even richer than ours, as he put himself in the position of creator by putting forth to the creativity of everything he heard.

Still in the dark, I saw the tears streaming down his face, wetting his plaid shirt buttoned up at the point of his neck. At the end, with the return of the lights, I asked him what it was like to watch a movie at the cinema without being able to see. My mother scolded me, but Juscelino’s mother did not mind the question.

“I can not explain it right, but I see, yes, I just do not see with my eyes. I see everything I carry inside me”, he justified before taking hold of his mother’s hand and walking in short steps toward the exit. The artificial lighting contrasted and harmonized with the compliant light of the newly arrived portentous moon.

On the corner, at the intersection between Pará and Manoel Ribas Street, the five shoeshine boys, children living as adults, drummed their boxes. They were seated on the curb, immersed in false smiles and sullen stares, trying to exist for a world that scarcely recognized their true intentions.

Returning home on foot, we crossed the street. As we passed them, the same boy, who caused the commotion at the entrance to the cinema, pulled me by the arm and, with an implied look, asked “Hey, my friend. Can you tell us the story of the movie you saw there at the cinema?”

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Written by David Arioch

March 30th, 2017 at 1:28 am

O leite de clemência

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” Tem o gosto do céu! Que maravilha, Filó! Hoje meu coração está em paz”

milk

Pintura “Milk”, da artista vegana Dana Ellyn

Como fazia todos os dias, Eugênio acordou bem cedo no sábado para ordenhar Filomena, uma vaca baixinha que aprendeu, por força do tempo, a aceitar o seu próprio destino – servir como fonte de renda para um produtor rural.

Eugênio já não amarrava mais a corda no pescoço de Filomena, porque há mais de um ano ela sabia o que precisava ser feito. Sempre que o galo cantava sobre uma guarita que antes serviu como morada para um João-de-Barro, ela se levantava e caminhava em direção à porteira do pequeno curral.

Ficava imóvel, com olhos baixos e orelhas deitadas, às vezes esfregando suavemente os cascos na terra, esperando a chegada do patrão. Eugênio sabia que era hora da ordenha, não apenas por causa da balbúrdia do galo, mas também porque o sino no pescoço de Filomena revelava que ela estava pronta para o serviço.

“Bora tirar esse leite das tetas, Filó!”, dizia Eugênio diariamente e sorridente, sem titubear. A vaca não reagia. Só vez ou outra que emitia gemido prolongado e langoroso que ninguém entendia, nem Marcolino, o único médico veterinário do povoado. “Deve ser falta de algum nutriente. Vamos incrementar a alimentação dela”, sugeriu numa manhã árida de chão tão tracejado que quem via de longe pensava que estava diante de um mapa.

Um dia, Filomena parou de produzir leite e ninguém entendeu o motivo. Ela era considerada um dos animais mais saudáveis e invejados da colônia, ajudando a garantir não apenas o sustento da família de Eugênio, como também a alimentação de seus dois filhos.

— Que diabos eu vou fazer agora?

— Chame Seu Marcolino de novo, pai…

— Ah! Mas já faz mais de uma semana que a danada não dá nem uma caneca de leite, e o mais estranho de tudo é que ela tá com as tetas cheias.

— Chame o homem, pai! Ele vai saber o que fazer.

— Não sei se compensa, o tratamento deve ser caro.

— Não custa ver se vale a pena.

Seguindo a recomendação do filho, Eugênio chamou Marcolino. Ao contrário do que ele imaginava, o homem disse que não havia nada que pudesse ser feito, a não ser esperar. “Essa vaca é saudável. Não tem problema nenhum. Deve ser só teimosia, só que uma teimosia que nunca vi igual. Geniosa essa vaca, mais do que o senhor”, ironizou o veterinário às gargalhadas.

Na segunda semana, Filomena não permitiu que nenhuma gota fosse extraída de seus úberes. Simplesmente não saía nada durante a tentativa de ordenha. Quando Eugênio massageava o volume, ele berrava enraivecido ao sentir o leite no interior do animal. Estava fora do alcance do seu balde de lata.

— Eu que te criei, sua lazarenta. Como você faz isso comigo?

— Só não te bato aqui agora por consideração – ameaçou com a mão direita levantada em posição de golpe.

A vaca inclinou a cabeça em direção ao solo arenoso e ignorou a ameaça, como se entendesse, embora não se importasse. Ela parou de produzir leite quando seu último filho desapareceu, vendido para um matadouro onde foi reduzido à carne de vitela. Eugênio não queria o bezerro disputando o leite que “deveria ser somente dele e de seus filhos”.

— Eu que alimento a infeliz, então tudo que ela oferece me pertence.

Na terceira semana, o galo não cantou e Filomena não se levantou. Encolerizado, Eugênio correu até o galo e o derrubou de cima da guarita com um tapa certeiro nas ventas. O bicho se apressou em direção aos pinheirais e, miúdo, desapareceu sob o matagal.

Depois foi a vez de Filomena ser punida. Ele amarrou uma corda no pescoço da vaca e tentou arrastá-la para o centro do curral. Ela resistiu. Não queria sair de jeito nenhum. Com a ajuda dos dois filhos, Eugênio a deitou sobre a areia branca e pediu que Matias, o mais velho, buscasse um machado pendurado no fundo do celeiro.

O rapaz correu e voltou empunhando a ferramenta. Quando Eugênio ameaçou dar o primeiro golpe, a vaca gemeu e se contorceu na terra, levantando, com os cascos, uma cortina tão densa de poeira que ele e os filhos engasgaram. Logo a vaca cansou, e a poeira se dissipou. Havia sangue no chão, colorindo os riscos no solo, que ganhavam formas de vasos sanguíneos. Tão opaco quanto vívido, o líquido vermelho jorrava das tetas de Filomena.

Com o corpo exalando odor acre de terra e sangue, ela observou assustada os três. Mesmo com olhos fumegantes e muita vontade de extravasar a fúria que o dominava, Eugênio desistiu de matá-la naquele dia. Entrou em casa acompanhado dos dois filhos que não ousaram dizer palavra. “Se ela não der leite nos próximos dias, a gente mata”, avisou com voz oca e pertinaz. Matias e Mateus balançaram a cabeça em concordância, sem arriscar comentário.

Ao anoitecer, João dos Cascos, um dos primeiros sitiantes do Noroeste do Paraná, visitou a família e perguntou se Eugênio não queria vender Filomena. Ofereceu inclusive a sua propriedade, sua única fonte de renda, em troca da vaca. Achando aquilo um absurdo, Eugênio declinou a proposta.

— Não sei qual é a sua intenção com essa oferta descabida, mas saiba que Filomena não está à venda. É herança de família.

— O senhor me perdoe a intromissão. É que preciso de uma vaca como a sua.

— Essa tá doente e não vai ter serventia nenhuma pro senhor.

— Não tem problema. Me viro do meu jeito.

— Não adianta, não quero e não vou vender. Retire-se! Vá daqui!

Na quarta semana, assim que Eugênio acordou, ele viu através da janela o galo cantando. Filomena mantinha a cabeça escorada em uma das tábuas da porteira, e o sininho vibrava preso ao pescoço. Diante de suas patas, havia três baldes de leite, um leite diferente, singular, como ninguém daquela casa jamais experimentou.

— Tem o gosto do céu! Que maravilha, Filó! Hoje meu coração está em paz. Me perdoe por tudo que fiz. Por favor, aceite minhas desculpas.

A vaca não reagiu. Somente o observou, recuou e deitou em um canto onde o sol matutino aquecia uma porção de sua pele branca como o leite que Eugênio consumiu. Por três anos, todos os dias no mesmo horário, Eugênio, Matias ou Mateus recolheram os três baldes de leite. Até que noutra manhã, Filomena não levantou e o galo não cantou. Não havia leite nem balde. Só um animal que parecia preparado para encarar o destino. “Sem leite, sem vida”.

Antes do pôr do sol, Eugênio retornou com o machado. Absorto em ódio, cuspiu um naco de fumo em um pedaço de pasto e ignorou tudo à sua volta, mirando uma vaca teimosa “que já não merecia viver, não merecia sua compaixão”. Rodeou o animal e fez um círculo no chão com a lâmina, demarcando a área do abate. Antecipando o primeiro golpe, Filomena fechou os olhos e deitou a cabeça na grama, alongando o pescoço, talvez prevendo a própria decapitação. Eugênio estava tão furioso que, com mãos trêmulas, errou o primeiro golpe.

No mesmo instante, um rapaz bateu palmas na entrada do sítio, alegando que tinha uma entrega. Eugênio se aproximou com olhar suspeitoso e cumprimentou o jovem que se apresentou como Bernardo.

— Vim trazer uma carta ditada pelo meu pai João dos Cascos e uma garrafa de leite. Ele faleceu ontem, mas antes me fez prometer que eu viria visitá-lo.

Bernardo abriu a garrafa, tirou um copinho da mochila e insistiu que o homem experimentasse.

— É coisa boa, o senhor não se preocupe.

Eugênio tomou tudo em um gole. Assustado e boquiaberto, deixou o copinho cair de sua mão, se chocando contra o chão.

— Onde você conseguiu isso?

— Meu pai que inventou. É leite de clemência. Uma receita familiar. Não vem de bicho nenhum, vem da santidade da natureza que da gente exige muito pouco. O senhor gostou?

— Sim…é muito bom.

Quando abriu a carta, Eugênio viu que havia uma receita com todos os detalhes do preparo do leite de clemência, além de algumas observações e um pedido:

— Durante três anos, o senhor achou que seus filhos estavam ordenhando a Filomena, e eles pensavam o mesmo do senhor. E nenhum de vocês percebeu que aquele leite não era de vaca. O senhor sabe por que? Porque vocês precisavam do leite de clemência mais do que daquilo que julgavam mais importante. O que parecia essencial era somente distração. E aquele, meu senhor, era o único leite que todo ser humano deveria beber depois do desmame. Não, ele não é igual ao leite de vaca. É bem diferente. E quando pensamos que sim, é porque já não somos quem éramos. Sei também que o senhor se desfez de quase todos os animais de seu sítio, mantendo somente o galo e a vaca Filomena, que um dia ganhou de sua esposa, e em quem o senhor projetou a sua desilusão quando foi abandonado por sua mulher. Saiba que aquela a quem chama ‘carinhosamente’ de Filó, assim como todos os animais, tem sua própria vida e dor. Ou o senhor pensou na vaca quando mandou os filhos dela para o matadouro? Como exigir que um animal não reaja diante do sofrimento dos seus? Eles não falam, mas seus corpos sim. Diante disso, faço-lhe duas sugestões. Que o senhor aceite minha receita e liberte Filomena ou devolva a carta ao meu filho e entregue-se aos enganosos prazeres da soberba.

Eugênio levantou os olhos, deu uma olhadela em Filomena e mirou seriamente Bernardo. Sem dizer nada, caminhou até o curral com olhos marejados e balbuciou:

— Que um dia você me perdoe, ou não, porque aquele que vive para si mesmo pode ser que não viva para mais ninguém.

Amuada em um canto, Filó se levantou e seguiu em direção a Bernardo, acompanhada pelo galo. Quando a porteira se abriu, o último desejo se cumpriu.

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Pedrinho e as sardinhas

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Sardines, de David Simons

Pedrinho chegou em casa e, enquanto mexia nas sacolas de compras que sua mãe trouxe do mercado, viu que havia algumas latas de sardinha. Ele as retirou e escondeu dentro de uma gaveta. Quando seus pais saíram, pegou a maior bacia que encontrou na lavanderia e a encheu de água. Depois abriu as três latas e despejou as seis sardinhas na bacia.

Como elas não reagiam, simplesmente afundando na água, ele criou pequenas ondas com as mãos. A água começou a enturvecer, se misturando ao óleo que se soltava dos peixes sem cabeça. Pedrinho chorou e movimentou a água com mais força. Enquanto as lágrimas escorriam pelo queixo, uma das sardinhas se desfez na água, como se esfarelasse, se dividindo em centenas de pequenos fragmentos.

Com as mãos engorduradas de óleo e já cansado, o menino deitou do lado da bacia e adormeceu, sonhando com peixes que saltavam das latinhas nos expositores do mercado e atravessavam a cidade em direção ao ribeirão. Quando seus pais chegaram em casa, ficaram chocados com a cena e perguntaram o que Pedrinho estava fazendo: “Achei que se colocasse na água, suas cabeças cresceriam e elas voltariam a viver.”

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Written by David Arioch

February 21st, 2017 at 12:00 am