Archive for the ‘Crônicas/Chronicles’ Category
A vaca e o bezerro
Na estrada, vi um bezerro brincando com uma vaca perto da mangueira. Desci do carro e observei os dois por alguns minutos. A forma como aquele animal observava com satisfação o seu filhote, em nada difere da ternura com que uma mãe humana observa o seu filho. E o bezerro, feliz em contato com a mãe, tentava dar pulinhos intervalados.
O policial e a criança
No mercado, vi uma cena que me chamou a atenção enquanto eu estava na fila do caixa rápido. Um policial militar escolhia alguns pães quando um garotinho, acompanhado do pai e da mãe começou a sorrir efusivamente. Consegui ver seus olhos cintilando mesmo eu não estando tão perto.
A mãe e o pai cumprimentaram o policial e falaram que a criança sempre teve grande admiração por policiais. Dava para ver no rosto do garotinho que a figura do policial para ele é a de um herói. Acanhado, mas lisonjeado, o rapaz fardado balançou a cabeça e disse poucas palavras. Nem precisaria dizer nada. A expressão compenetrada e sisuda de antes desapareceu com a chegada do menino.
O sorriso da criança o desarmou. E ele também começou a sorrir sem parar, olhando para a criança e vez ou outra mirando os pais com seus olhos encalistrados. O menininho pediu para dar um abraço no policial e ele concordou. Agachou e envolveu a criança nos braços por alguns segundos.
Mesmo depois que o casal e o filho partiram, o policial continuou sorridente, passou por mim sem conseguir velar o sorriso. Continuava tímido, translúcido, feliz e provavelmente agradecido por um presente inesperado que o impediu de retomar a expressão circunspecta.
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Tive um sonho na noite passada
Tive um sonho na noite passada.
Um boi falou que não é pra eu desejar sua carne senão ele vai ter que morrer. E ele quer viver.
Uma vaca disse pra eu parar de tomar seu leite senão ela nunca mais vai ver o seu bezerro.
O bezerro se queixou que é cedo demais para morrer, porque nem o sol teve tempo de ver.
A galinha poedeira revelou que não quer passar os seus últimos dias em uma granja, onde seu destino final é ser sacrificada após a queda na produção de ovos.
O frango reclamou que se como sua carne sou culpado por ele ter de viajar entre grades de plástico, agonizando entre seus semelhantes.
O porco berrou que se bacon fosse vida ele sairia andando depois de fatiado.
O peixe gritou que se fosse pra ele servir de alimento para as pessoas, ele deixaria a água e deitaria sobre pratos.
A abelha me mandou ficar longe de seu mel, porque ela não trabalha o dia todo para sustentar seres humanos.
O cãozinho Peraltinha
Quando eu tinha cinco anos, todos os dias o mesmo cãozinho que morava na casa vizinha perseguia o caminhão de lixo. Ele era mestiço, pequeno e seu nome era Peraltinha. Todo mundo o adorava. Os carros paravam, e muitos motoristas o cumprimentavam. “Pode passar, Peraltinha…”, dizia Seu Paulo, assistindo o cãozinho atravessar vagarosamente a rua, balouçando o rabinho. Era realmente famoso.
O abandonaram ainda filhotinho em um terreno baldio na esquina de casa. Faminto, chorava sem parar. Foi salvo por Dona Estela, que o tratava como um filho. Eu não tinha ideia do que o caminhão de lixo representava no ideário de Peraltinha. Mas sei que Chico, um dos lixeiros, e um dos meus melhores amigos de infância, sempre o observava.
Agachava apoiado na caçamba e estendia uma das mãos com as pontas dos dedos mirando o asfalto. Peraltinha a cheirava, cheirava e parava de correr, assistindo o caminhão desaparecer em direção a Sanepar. Todos os dias a cena se repetia. Ninguém entendia. “Por que esse cachorrinho sempre para de correr atrás do caminhão depois que cheira a mão do lixeiro?”
Chico só tirava as luvas para Peraltinha; para mais ninguém. Era a exceção. Foi assim durante meses, até que sem mais nem menos parou de perseguir o caminhão. Então eu soube que Chico tutelava uma cadela que teve filhotinhos, e o cheiro em sua mão sempre vinha dela. Era o perfume de mãe que atraía Peraltinha.
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Mazinho e o menino
Encontrei uma criança dando um tapa na cabeça de um cachorro na rua. Não foi um tapa muito violento, mas pela reação do cãozinho pareceu tão comum que suspeitei que não era o primeiro. Encostei o carro, desci e caminhei até ele.
— Oi! Tudo bem?
— Oi! Tô bem.
— Legal! Isso é bom!
— Esse cachorro bonito mora com você?
— Mora sim…
— Faz tempo?
— Desde que nasci…
— Qual é o nome dele?
— Mazinho.
— Você gosta do Mazinho?
— Gosto sim, muito.
— Isso é muito bom!
— Você lembra de mim?
— Sim, você visita o Tio Lu.
— Isso mesmo!
— Posso te fazer uma pergunta?
— Pode…
— Você acha que dói apanhar?
— Dói…dói sim…
— Você já bateu em alguém de quem você gosta?
— Não…
— Entendo. Nem no Mazinho?
— Aaaah….bati…
— Você acha que ele sente dor?
— Não sei…acho que sim…
— Ele fica feliz perto de você?
— Fica…
— Então se ele fica feliz, ele também fica triste, e se fica triste significa que tem emoções e sentimentos. E quem tem emoções e sentimentos também sente dor, concorda?
— É…verdade.
— Quando você bate no Mazinho, ele fica alegre?
— Não…
— O que ele faz?
— Ele foge de mim…
— Você gosta quando ele foge de você?
— Não…
— Por quê?
— Acho que porque ele fica com medo de mim.
— E por que ele fica com medo de você?
— Porque quando faço isso ele me acha mau…
— E você é mau?
— Não…
— Então que tal mostrar pra ele o tempo todo que você não precisa ser mau com ele?
— Acho que seria bom…
— Seria sim, e vai ser bom.
— Que tal experimentar?
— Vou fazer isso.
— Promete?
— Prometo.
— O que acha de pedir desculpas e dar um abraço no Mazinho?
— Tá bom…
O menino caminhou até o cãozinho que se escondia atrás de uma cerca em um terreno baldio vizinho. Hesitou com o focinho virado para uma mureta, mas aceitou o abraço. Antes que o soltasse, Mazinho lambeu-lhe a orelha. O menino sorriu e uma lágrima escorreu. “Desculpa, Mazinho…” – disse baixinho.
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Ele amou a morte da minha mãe!
A mãe de um amigo faleceu. Cliquei sem querer na reação “amei” do Facebook e houve um blecaute. Não tive tempo de corrigir. Sozinho em casa, peguei o celular. Bateria descarregada, desespero, olhos fumegantes. 15 minutos depois gritaram na calçada.
— Chega aí, mano. Quero falar com você.
— E aí, irmão. Tudo bem?
— Como assim tudo bem, cara? Você amou a morte da minha mãe. Nem acreditei quando vi. O que tem de errado contigo? Te fiz alguma coisa?
Berros, palavras inintelígiveis na calçada e dedo apontado em minha direção. Vizinhos observando.
— Você é mau, cara. Você é muito mau!
— Não sou não!
— É sim! Nunca vou esquecer que você amou a morte da minha mãe.
— Nunca faria isso. Foi um equívoco. Perdão.
— Não perdoo!
— Perdoa sim!
— Perdoo não!
Sentou no meio-fio e chorou. Olhos avermelhados, boca entreaberta e cabelos desgrenhados. Alguém chamou a polícia.
— O que tá acontecendo aqui? — Perguntou o policial.
— Ele amou a morte da minha mãe!
— Não amei não.
— Como assim ele amou a morte da sua mãe?
— Ele amou! Amou! Amou! É um amante de mortes!
Olhos coçando, barba pinicando e cachorros uivando.
— Isso não é verdade. Eu soube da morte da mãe dele e sem querer cliquei em “amei” no Facebook. Quando tentei corrigir houve um blecaute.
— Isso é muito triste. Entendo a sua dor, meu amigo. Tome cuidado com isso aí, cara. Olhe como você deixou seu amigo.
— Po, como assim? Apenas fui traído pelo mouse.
— Traído pelo mouse? Vai culpar mesmo o mouse?
— É, você tem razão. Isso seria especismo.
— Quê?
— Nada não…
Caminhão de lixo passando, gatos miando e duas testemunhas de Jeová me olhando torto e panfletando.
— Quer dar queixa?
— Como assim dar queixa? Não fiz nada. E não existe queixa para esse tipo de situação. O que seria isso, uma queixa de emoticons?
— Está me gozando? É isso?
— Eu não…
— Sei…
— Quer dar queixa, amigo?
— Hum…não sei.
— Pense bem.
— Ah, deixa pra lá.
— Você que sabe.
— E, você, amigo, cuidado com esses dedos aí.
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Na banca de caqui
Saí da academia e passei no mercado. Enquanto eu selecionava caqui em uma banca de canto, uma mulher se aproximou e fez o mesmo. De repente, o marido ou namorado dela se achegou.
— Vá lá ver se tem salsinha, cebolinha, essas coisas. Deixe que escolho as frutas.
— Mas você nunca escolhe as frutas.
— Vá lá, deixe que me viro aqui.
— Tá bom!
— Camarada, essa fruta que você pegou está passada – comentei.
— Ah, cara! Não preciso da sua ajuda.
— Ah sim. Tudo bem.
Me afastei e caminhei em direção ao caixa.
Um banco e duas barbas
Durante o atendimento, o bancário começou a rir. Eu também.
— Eu sou você amanhã.
— É…acho que sim.
— Não…sua barba é mais fechada.
— Será?
— É sim.
— Obrigado.
— Olhe a barba dele – comentou com outro bancário que também começou a rir e chamou a atenção de outro bancário.
— É…são muito parecidas…uma é cinza e a outra é preta…estágios de transformação.
— Já guardou coisas na barba?
— Sim…
— É mágico, não? – comentou atravessando duas canetas pela barba, formando um X peludo.
— X de Xará.
— hahahahaha demais…
Em pouco tempo, quatro bancários riam e eu também, já anestesiado por passar mais de três horas aguardando atendimento, em abstinência de escrever, sentindo as mãos formigando e as ideias pululando. Vi pessoas sorrindo, rindo, reclamando, xingando, praguejando, bocejando, dormindo.
— Sua barba deve ter mais de ano.
— Tem sim…
— Também estou quase lá.
— É isso aí.
— Não vá cortar a barba, hein? — disse o bancário barbudo.
— Não, senhor.
— Ah, outra coisa.
— O quê?
— Não vá cortar a barba, hein?
— Pode deixar.
Quando me levantei e caminhei em direção à saída, senti minha barba esquentando. Alguém estava me odiando. Sem problema. Lá fora, uma criança de quatro ou cinco anos apontou o dedo em minha direção:
— Tio, sua barba parece um algodão-doce preto.
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Um garoto com raiva
Conheci um garoto na Vila Alta que vivia com raiva, com uma notável expressão carrancuda. Ele disse que não tinha controle sobre o que sentia.
— Você está com raiva?
— Sim.
— Com que frequência?
— Todo dia, toda hora.
— Há quanto tempo?
— Não sei dizer não, senhor.
— O que te deixa alegre?
— Não sei dizer – respondeu com um sorriso tímido.
— Cadê seus pais?
— Tenho não. Moro com minha vó.
— Você tem raiva de alguém em específico?
— Tenho raiva da vida.
— Por que a vida te deixa com raiva?
— Porque eu não existo.
— O que é existir pra você?
— As pessoas me enxergarem de verdade.
— Quem te enxerga de verdade?
— Acho que quase ninguém.
— Como você sabe disso?
— Porque ninguém me elogia, nunca.
— Então ser elogiado é uma forma de existir?
— Sim…
— Por quê?
— Sei lá. Porque significa que alguém acha que faço alguma coisa certa, que tenho alguma coisa boa, qualidade.
— E quantas vezes já te elogiaram?
— Poucas.
— E como você se sentiu?
— Feliz…
— Se você recebesse um elogio sincero por dia acha que não sentiria mais raiva?
— Acho que sim, né?
— Que tal começar a anotar os elogios que recebe das pessoas para não esquecê-los?
— É…pode ser.
— Talvez você não se recorde dos elogios que já recebeu porque recebe mais críticas, mas isso não significa que tenha recebido poucos elogios ao longo da sua vida. A verdade é que quando somos criticados com muita frequência, temos uma tendência a esquecer as coisas boas que já nos disseram. Nossa mente nos força de algum modo a relegá-las à insignificância quando nos mantemos em estado de negatividade. Coisas boas acontecem, mesmo que não tanto quanto gostaríamos. Elas existem, e surgem, em algum lugar, até quando fechamos os nossos olhos. Os elogios podem saltar da nossa própria mente, como um presente para nós mesmos.
— Acho que sim…
— Sempre que alguém te falar algo de bom, memorize e anote.
— Você vê alguma qualidade em si mesmo?
— Às vezes…
— Me dê um exemplo…
— Nunca prejudiquei ninguém…
— Isso é muito bom.
— E por que você nunca prejudicou ninguém?
— Porque é errado. Não gosto de fazer mal para ninguém, nem gente nem bicho.
— Isso é um exemplo de que você tem um bom caráter.
— Será?
— Sim.
— Não tenha dúvida disso, porque nesse caso a dúvida serve apenas para dificultar a sua própria aceitação. Quero dizer, se você não reconhece uma qualidade que atribuem a você, isso pode ser um problema, porque significa que você se recusa a se ver como os outros o veem. Se fosse mentira, tudo bem, mas não é o caso. Se falam de uma qualidade genuína, que tem a ver com a forma como você vive e age, não tem porque não concordar.
— É…acho que sim.
— Em muitos casos, as pessoas dizem coisas ruins não porque elas são más. É uma forma de defesa. Por exemplo, estou incomodado com algo, logo me sinto vulnerável, e acabo por direcionar isso para alguém. Então se eu não tiver controle, acabo por ofender e magoar as pessoas. Você já fez isso?
— Sim…
— Foi bom?
— Não…
— Pois então…
— Você ainda está com raiva?
— Não.
— Por quê?
— Porque você disse que tenho bom caráter, e eu tenho mesmo.
É importante enxergar a intenção para além das palavras. Muitas vezes o que parece ácido ou agressivo pode ser a couraça da sensibilidade.
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“Droboy tume Romale! Não vou ler a sua mão”
No centro, uma cigana me parou e pediu um minuto da minha atenção. “Droboy tume Romale! Não vou ler a sua mão. Mas quero te contar uma coisa.” Consenti. Ela disse que já me conheceu, não nesta vida, mas em outras.
— Você pode não acreditar, mas viveu pelo menos dez vezes mais do que eu. E a sua aparência é sempre a mesma, em cada uma dessas vidas. Os olhos pretos, os cabelos pretos e a barba preta ajudam a equilibrar a luz que existe em você. Por isso te reconheci. Seus olhos são os mesmos de sempre. Você é antigo, e acho que não tem ideia do quanto. Mas as pessoas não saberem isso é uma vantagem maior pra você do que pra elas.
— Antigo? Como assim?
— Sim, meu rapaz. Esta é a sua vida agora, mas você traz muito de outras vidas.
— Sei.
— Morro volá, falo sério! Meu bisavô já falava de você quando eu era criança. Ele te conheceu como Oleg, um kalderash que vivia nos Montes Urais; adquiria a sabedoria dos animais e a compartilhava com os humanos. Se um dia o encontrá-lo novamente, prometo mostrar uma pintura que ele fez de você. Vai te surpreender.
— Sério? Seria interessante ver isso.
— Por que não acredita?
— Não duvido da senhora, mas talvez tenha me confundido com alguém ou algo do tipo.
— De modo algum, sua presença é sentida à distância.
— Hum…
— Aposto que você decidiu usar barba longa pela primeira vez quando fez 30 anos.
— Como a senhora sabe? Talvez um palpite?
— Porque você fez isso em todas as suas outras vidas. Nunca usou barba longa antes dos 30 anos.
— Hum…
— Sabe por que?
— Acho que não há um motivo em especial…
— Há sim. Sempre há. Porque os fios longos sempre marcaram um novo ciclo em todas as suas vidas.
— É?
— Pois acredite, porque não tenho porque mentir. Afinal, não estou cobrando nada, estou?
— Nisso a senhora tem razão.
— Óbvio que sim.
— Hum…
— Bato! Meu pai ficaria feliz de vê-lo também. Ele sempre ouvia suas histórias na infância.
— Quais histórias?
— São muitas. Ah, isso eu não vou contar agora. Quem sabe, em outra ocasião.
— Entendi. Bom, senhora, vou indo porque tenho compromisso e já estou atrasado.
— Não se preocupe. Vá em paz. Akana mukav tut le Devlesa!
Caminhei alguns passos e olhei para trás. A cigana tinha desaparecido.
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