David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Crônicas/Chronicles’ Category

“Sim, o plano ainda é o mesmo”

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“Claro que sim. Nada mudou”

Em uma longa fila, enquanto eu aguardava pacientemente e observava a movimentação, um camarada me ligou.

Eu — Sim, o plano ainda é o mesmo. Não precisa se preocupar.

Eu — Claro que sim. Nada mudou.

Eu — Ele confirmou que vai fazer a instalação.

Eu — Pode confiar. O material realmente é de boa qualidade.

Eu — Melhor, impossível. Com ele, não tem erro.

Eu — Acho que teremos uma explosão daquelas, de felicidade.

Eu — Sim, está tudo acertado. Vai ser uma surpresa tremenda. Só tem que tomar cuidado pra ninguém perceber nada antes.

Eu — Não, creio que não. Ele disse que o trabalho de instalação é garantido. Sim, não precisa ativar nada, vai vir tudo pronto.

Eu — Arriscado? Não, de modo algum.

Conforme a conversa fluía, notei algumas pessoas me assistindo. Mas simplesmente ignorei. Uma senhora com olhar assustado, e que estava logo atrás de mim, apontou o dedo em direção à minha barba, e saiu da fila a passos ligeiros. Não entendi o motivo e continuei a conversa.

Eu — Você avisou?

Eu — Eles vão correr onde depois?

Eu — Eles já tinham me avisado.

Mais duas pessoas saíram da fila.

Eu — Sim, ele não quer que o grupo leve crédito por nada. Já pediu anonimato.

Eu — Claro que não. Não tem a menor chance. Vai acontecer como planejado.
Mais uma pessoa se afastou.

Antes de desligar o celular, Roberto comentou:

— Uma pena que eles não poderão participar por causa do treino, mas espero que o braço mecânico funcione e que o Seu Zé goste, porque deu tanto trabalho pra conseguir um.

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Written by David Arioch

August 20th, 2017 at 10:32 am

Posted in Crônicas/Chronicles

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“Tio, você já deve ter matado muita gente”

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Pintura: K. Pralahad

Há algum tempo, eu estava na Oficina do Tio Lu, na Vila Alta, na periferia, quando um garotinho veio conversar comigo. Curioso, sorria e não tirava os olhos dos meus braços.

— Tio, você já deve ter matado muita gente.
— Por que você acha isso?
— Por causa do tamanho do seu braço, ué. É muito forte.
— E você acha que braço forte é pra matar pessoas?
— Se não é pra matar, é pelo menos pra bater, né?
— Não, claro que não.
— Ué, não?
— Não…
— Ué, pra que então?
— Pra abraçar.
Ele ficou em silêncio me olhando.
— Não é melhor?
— É sim… — respondeu com um sorriso amarelecido.

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Written by David Arioch

August 19th, 2017 at 12:15 am

Posso pedir um favor?

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Arte: Gregory Thielker

Amanheceu chovendo muito. Estacionei o carro perto do centro e saí caminhando. Tentei me proteger da chuva sob a marquise das lojas. Quando virei em uma esquina, veio um homem em minha direção. Mesmo com um guarda-chuva, em vez de me dar passagem, ele manteve o corpo no mesmo lugar. Então parei e o cumprimentei.

— Bom dia. Posso pedir um favor? Estou sem guarda-chuva, e acho que seria legal se o senhor pudesse me dar espaço para que eu não precisasse me molhar desnecessariamente.

O homem, então com um sorriso amarelecido, estranhando a abordagem, me deu passagem e segui o meu caminho.

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August 16th, 2017 at 2:16 pm

“Você é um ladrão de ar, um ladrão!”

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” Você não acha que deveria inspirar e respirar um pouco menos?”

No banco, enquanto eu aguardava a minha vez, um senhor perscrutou um rapaz:

— Você não tem ideia do mal que está fazendo.
— Como?
— Isso mesmo!
— Isso mesmo o que?
— Você inspira e respira alto, com uma intensidade absurdamente desconfortável e desrespeitosa. Isso é ultrajante!
— Como?
— Isso mesmo!
— Isso mesmo o que?
— Você não acha que deveria inspirar e respirar um pouco menos? Não se dá conta de que está me roubando um pouco de ar? Não só meu, mas de todos que estão próximos de nós.
— Respiro normalmente. De boa.
— Não mesmo. Sinto que o ar não está fluindo corretamente desde que você se aproximou. Você é um ladrão de ar, um ladrão! — bradou o homem, chamando a atenção das pessoas mais próximas.

Assustado, o rapaz se levantou e caminhou até o outro lado do banco, temendo que o homem se aproximasse.
O sujeito de meia-idade ainda o assistia à segura distância com um olhar reprovador, ajeitando os óculos sobre o nariz. Cutucou o vizinho e disse:

— Agora ele vai roubar o ar daqueles outros infelizes, é um tremendo ladrãozinho de ar.

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Written by David Arioch

August 8th, 2017 at 4:41 pm

A senhorinha da fila

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Arte: Anne Buffington

A maioria das pessoas se irrita com filas. Acho que sou estranho, pois não reclamo, quero dizer, não quando tenho algum tempo livre. Na última vez, fiquei cerca de 40 minutos na fila do caixa rápido. Irônico, não? Três pessoas sorriram pra mim na fila, o que significa que notaram muito bem minha presença. Quem sabe, até mais do que eu gostaria no meu anseio de parecer invisível, um voyeur. Brincadeira. Ou talvez não.
Na fila do caixa rápido, que atravessava o setor de hortifruti e de frios, notei um carrinho à minha frente, mas ninguém o estava guiando.

— A senhora sabe de quem é esse carrinho? — perguntei a uma moça acompanhada da filha que sorria timidamente.
— Não! Não sei. Quero dizer, de uma senhora aí, mas eu que não vou empurrar.

Empurrei o carrinho mais à frente, para acompanhar a fila, e uma senhora se aproximou:

— Obrigada! Fui pegar uma coisinha ali – justificou com um sorriso largo.
— Tudo bem – respondi.

Atrás de mim, três homens conversavam. Um deles parecia o Casagrande, tanto no aspecto físico quanto no tom de voz grave e ansioso, que não permitia folga nem para recuperar o fôlego. Falavam de lanches, violência, desenvolvimento urbano, pedágio, estradas, entre outras coisas.

— Londrina está cheia de mafiosos. Você não é mafioso, né? Sou doido de perguntar isso, porque se for, tu não vai deixar eu chegar nem na porta do meu carro depois dessa.

Os outros dois riram.

A senhorinha abandonou o carrinho outra vez. A moça e sua filha olharam pra mim, talvez aguardando alguma reação enérgica de minha parte.

Continuei no mesmo lugar, assistindo um rapaz alto e extremamente magro analisando uma bandeja de morangos. Ele nem piscava; deslizou os dedos pelo invólucro, e mudou a bandeja de posição inúmeras vezes. Talvez procurando algum resquício de podridão entre as frutas.

Um garotinho acompanhando o pai na fila pediu chocolate, e o pai respondeu que não, que ele já havia comido ontem, e o trato é um chocolate por semana.
À minha frente, a mesma moça de antes oferecia um desses bolinhos recheados e industrializados para a filha. E a menina se mostrava desinteressada.

— Vou pegar um doce bem gostoso pra você.
— Não ligo, mãe.
— Ah, você vai adorar.

E assim nasce uma criança condicionada a gostar de doces industrializados.

Um pouco mais à frente, um homem muito parecido com o Eduardo Cunha atraía olhares curiosos. Mas ninguém dizia nada.

— Eu que não queria estar na pele desse senhor.

Alguém comentou que Paranavaí é um buraco. Outro rebateu:

— Se é um buraco, então você pulou dentro, porque você também mora nele.

Levei cotoveladas de pessoas que andavam como se estivessem pogando em uma roda punk. Nem percebiam que me atingiam. “Sem problema!” Deve ser pressa ou o costume da pressa. Ela toma conta das pessoas até quando não estão fazendo nada. Vez ou outra, eu saía da fila para que alguém atravessasse até o outro lado. Uma senhora agradeceu, os outros não. “Tudo bem!” Cerca de 20 minutos depois, o rapaz continuava observando os morangos. O vi movendo os lábios.

— Acho que esse cara fala com os morangos. O que será que o morango disse pra ele? — me perguntei.

A senhorinha continuava abandonando o carrinho e enchendo uma cestinha sobre ele. Kiwi, batata, abacate, manga, limão, cenoura, berinjela, caqui. Foi tudo que vi ela indo e voltando para colocar no carrinho desde que entrei na fila. Alguns a reprovavam. Eu não me importava. Nem o cara logo atrás, distraído conversando com seus amigos.
A moça e a filha seguiam incomodadas com a mulher. A menina olhava para mim de tempo em tempo, como se ainda aguardasse uma reação minha ou dissesse com os olhos:

— Po, você não vai fazer nada mesmo? Nem falar nada?

— Não, não vou – eu não disse.

A fila crescia, crescia, sem parar. Já estava com o dobro do tamanho.

Perto da minha vez no caixa, a senhorinha chamou-me a atenção:

— Filho, esqueci mais uma coisinha, você pode cuidar aqui pra mim?
— Posso sim. Tudo bem.

Logo despareceu entre as bancas.

— Cara, como você tem paciência. Como você aguenta tudo isso? — questionou a moça.

Apenas dei um sorriso enviesado.

A senhorinha passou pelo caixa e ficou parada em uma das entradas do mercado. Assim que paguei e caminhei em direção à saída, ela chamou-me a atenção:

— Olhe, filho. Isso aqui é pra você. Muito obrigada mesmo – disse sorrindo e me entregando uma caixinha de figos orgânicos e selecionados.
— Que isso! Poderia ser eu no lugar da senhora. Não é necessário.
— Eu insisto, por favor.
— Tudo bem. Muito obrigado pela gentileza – respondi timidamente.

A observei caminhando em direção ao carro, onde havia um jovem casal em roupas bem surradas. A moça carregava um bebê.

— Deus abençoe a senhora.
— A senhora é uma boa pessoa.
— Imagina…
— Querem uma carona?
— Não. A gente vai pegar o ônibus aqui na frente. A gente conseguiu o dinheiro da passagem com um moço antes de falar com a senhora.
— Então tá bom. Fiquem em paz.
— A senhora também.

Ela entrou no carro carregando apenas uma sacola. As outras foram entregues ao homem que caminhou até a parada de ônibus com a companheira e o bebê.

 

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Written by David Arioch

August 6th, 2017 at 10:02 pm

“Pare de fazer essa vozinha tosca”

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O “bem-humorado” Porthos

De manhã, enquanto eu observava os gatos brincando no quintal, escutei uma voz esquisita se projetando a centímetros do chão.

— Ô David, pare de fazer essa vozinha tosca, nhim nhim nhim. Coisa tonta, mano! Você acha que tá falando com quem? Por que vocês fazem isso? Sou adulto! Nem filhote eu sou. Olhe o meu tamanho, louco! Só não faço filho porque você mandou arrancar as minhas bolinhas.
— Quê?
— É isso aí! Você tem problema? Não gosto dessa vozinha. Vá falar assim com as crianças, mano. Aqui não! Vamos conversar de igual pra igual.
— Como?
— É, tem problema sim – disse Porthos, um dos gatos daqui de casa me observando com um olhar enviesado e expressão carrancuda enquanto lambia as próprias patas.
— Outra coisa, você tá de bobeira, né? Porque você tirou o lixador de unhas do nosso quartinho? Você acha que sou o Zé do Caixão? Seu egoísta!
— Que isso! Sempre tratei vocês bem.
— Será? Será mesmo? Tem certeza? Absoluta?
— Então reclame, ora.
— Deixa quieto. Pode ir pra lá. Não quero mais conversar. Quando eu precisar, eu chamo.

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Written by David Arioch

August 6th, 2017 at 9:26 pm

“Moço, o que você tanto olha?”

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A Noite Estrelada, de Van Gogh

Saí da academia e passei na Praça dos Pioneiros apenas para caminhar. Enquanto eu andava, comecei a observar o céu límpido, onde despontavam inúmeras estrelas. Minutos depois, uma mulher se aproximou:

— Moço, o que você tanto olha? Me mostre também que quero ver.

— Estou olhando as estrelas.

— Só isso? Achei que fosse algo mais interessante.

— Pois é…

 





Written by David Arioch

August 1st, 2017 at 9:32 pm

“Agora fiquei até com vontade de ser pai”

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“O semblante não era o mesmo. Quem era aquela criança que tomou o seu lugar?” (Desenho: Nino Andaresta)

Em uma loja, enquanto eu aguardava atendimento, observei um bebê em um bebê conforto ao lado do balcão. Tão lindo com aqueles olhinhos serenos e geometricamente redondos de anime. Sorria sem parar enquanto balançava as mãozinhas e as perninhas curtas simulando bicicletinha. Lindo de ver! Expondo o umbiguinho para fora da camisetinha verde com estampa do Hulk. Vez ou outra, soltava algum gritinho suave, empolgado observando coelhinhos de pelúcia pouco acima de sua cabeça.

— Que linda inocência! Que beleza de criança! Que doçura!
— Agora fiquei até com vontade de ser pai. Que coisinha linda e hipnotizante.

O bebê continuava simulando bicicletinha. Um verdadeiro atleta.

— Esse vai gostar muito de se exercitar. Não tenho dúvida disso!

Fui surpreendido. A criança sorriu pra mim, um daqueles sorrisos raros de comerciais de TV, do tipo enviesado.

— Preciso ser pai, cara! Quero isso na minha vida – monologuei.

Ainda bem que ninguém percebeu que falei mais alto do que imaginei.

Era incrível ver aquele pequeno ser cheio de vida, de vontade de existir. Um mundo de infinitas possibilidades se abria diante dele.

— Esse vai conquistar o mundo, parece bem peculiar.
— Nossa! Preciso ser pai, cara! Isso é demais!

De repente, os olhos da criança mudaram, enturveceram. Pressionou uma mãozinha contra a outra, como se estivesse prestes a esmagar os próprios dedinhos. As bicicletinhas d’antes se transformaram em golpes violentos no ar.

O semblante não era o mesmo. Quem era aquela criança que tomou o seu lugar?

Me afastei a passos cuidadosos quando o bebê começou a gritar e a dar violentas cabeçadas no bebê conforto. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove cabeçadas consecutivas.

— Diabeisso! O que está acontecendo aqui? — pensei, mas não falei.

Preocupado, olhei em volta. Ninguém me olhava. Ainda bem. Assim ninguém acharia que tive algo a ver com a infanta fúria. A criança berrava cada vez mais alto. Que vozeirão sinistro!

— Desse jeito, vai cantar death metal – concluí.

Eu não sabia mais se me afastava ou se me aproximava. Por pouco, a criança não vira o bebê conforto com a força das cabeçadas e dos chutes no ar. Até que sua mãe chegou.

— Não quero mais ser pai. Deixa quieto.

E a vontade passou.

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Written by David Arioch

July 28th, 2017 at 1:13 am

O médico que não prescrevia remédios

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Ele me ajudou com a minha rinite alérgica sugerindo mudança nos hábitos alimentares

Na minha infância, me consultei com um otorrinolaringologista que não acreditava muito na indústria farmacêutica. Todo o trabalho dele era voltado para a nutrição. As pessoas o achavam esquisito porque em vez da sua clínica ser um ambiente branco, como a maioria das clínicas, era colorida. E havia plantas por todos os lados.

Na porta do seu consultório tinha uma frase de Hipócrates: “Que o seu alimento seja o seu remédio, e que o seu remédio seja o seu alimento.” Me recordo que muita gente falava mal dele. Eu era criança, então não entendia o motivo disso, mas o achava incrível.

Soube que ele teve bastante contato com a medicina oriental e estudava mais sobre a medicina antiga do que a contemporânea. Ele nem mesmo usava roupa branca. O chamavam de louco, charlatão, mas foi ele que me ensinou a lidar com a minha rinite alérgica quando eu era criança, depois de passar por cinco médicos da área.

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Written by David Arioch

July 23rd, 2017 at 9:11 pm

O homem e o cão faminto

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Arte: Maxim Kantor

No caminho para o veterinário, encontrei um cãozinho roçando o focinho já sujo em uma sacola rasgada de lixo rente ao meio-fio da Rua John Kennedy. Ao lado, restos de alimentos de outras duas sacolas estavam esparramados pela galeria. Perto do animalzinho acastanhado e sujo, um homem gritava e ameaçava golpeá-lo com o cabo de uma vassoura.

— Suma daí, seu lazarento!
— Era só o que faltava. Arrastou todo o lixo. É um filho da…

Vendo a cena, encostei o carro, desci e caminhei até o homem.

— Boa tarde. Tudo bem com o senhor?
— Não tem nada bem aqui. Esse cachorro arrastou todo o lixo. Olhe essa porcaria toda. Vou ter que limpar essa bagunça. Desg….
— O senhor não precisa se preocupar porque eu limpo tudo.

O homem ficou em silêncio me observando.

— Como é?
— Eu limpo a bagunça do cachorro.
— E por que você faria isso?
— Sim. Farei isso para o cachorro não apanhar do senhor.

Silêncio novamente.

— Eu não iria bater nele — explicou visivelmente constrangido, com um sorriso amarelecido.
— Isso é muito bom, senhor. Porque eu realmente não gostaria de apanhar se estivesse faminto e de repente fosse obrigado a mexer no lixo de alguém. É triste, não? Tantos animais abandonados e desejando apenas um pouco de comida para não morrer de fome. Animais como esse não escolheram nascer, mas nem por isso desejam ou merecem sofrer. O senhor concorda?
— Hum…
— É…acho que talvez você tenha razão – respondeu coçando a cabeça.
— O senhor já viu esse cachorrinho por aqui?
— Não.
— Sabe se ele tem casa?
— Não tenho a mínima ideia.
— Essa vida de cão não é fácil, né?

Silêncio.

— Ah, tenho um pouco de comida pronta lá dentro. Acho que não tem problema dar um pouco pra ele.
— Muito gentil de sua parte.
— Que nada. Faço o que posso — comentou sorrindo.
— Não tenho dúvida de que já é mais do que muitos fariam.
— Você acha?
— Sim…
— Pensando bem, acho que posso cuidar dele hoje.
— Sabe, filho, meu irmão tem uma chácara na saída da cidade e acho que pode ser um bom lugar pra um cachorrinho agitado como esse.
— Sério?
— Ah, é sim. É um lugar muito bonito e espaçoso.
— Isso seria muito legal. O senhor vai fazer uma baita diferença na vida dele. Pode ter certeza.
— É…não custa ajudar de vez em quando.
— Se precisar de mim, moro algumas quadras acima, quase em frente ao Corpo de Bombeiros.
— Sei onde é. Já o vi.
— Bom saber. Muito obrigado.
— Disponha.

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Written by David Arioch

July 17th, 2017 at 10:29 pm