David Arioch – Jornalismo Cultural

Jornalismo Cultural

Archive for the ‘Internacional’ Category

Robin Williams e a geração anos 1980

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Williams interpretando Adrian Cronauer no clássico de Barry Levinson (Foto: Reprodução)

Williams interpretando Adrian Cronauer no clássico de Barry Levinson (Foto: Reprodução)

Sobre cinema norte-americano, não posso falar por outras gerações, mas pelo menos a minha – dos anos 1980, consumiu muito do que foi produzido com a participação do ator estadunidense Robin Williams. Antes dele falecer em 11 de agosto de 2014, aos 63 anos, eu estava acompanhando o seu trabalho como o publicitário Simon Roberts na série de TV The Crazy Ones, da CBS, que estreou em 2013. Não tenho dúvida alguma de que o seu nome no cast ajudou a alavancar a popularidade da sitcom antes do lançamento.

Robin Williams se juntou aos grandes nomes do cinema estadunidense depois do filme Good Morning, Vietnam (Bom dia, Vietnã), de Barry Levinson, lançado em 1987. Como eu era pequeno, só fui saber quem era Adrian Cronauer, um de seus grandes papéis, na minha adolescência, embora eu já tivesse um vinil com a música tema do filme. A princípio, conheci o trabalho desse ator singular através de obras como Dead Poets Society (A Sociedade dos Poetas Mortos), The Fisher King (O Pescador de Ilusões), Hook, Mrs. Doubtfire (Uma Babá Quase Perfeita), Toys (A Revolta dos Brinquedos), Jumanji e Patch Adams, não exatamente nesta ordem.

Na infância, tive a oportunidade de assistir Hook no cinema à moda antiga, com direito a lanterninha e mais de mil poltronas. Claro, depois vieram muitos outros filmes de Williams. Sem favoritismos, destaco como os meus preferidos todos aqueles em que ele manifestou mais do que o seu potencial cênico – a sua própria humanidade e sensibilidade. Ficam as boas lembranças.

Written by David Arioch

March 31st, 2016 at 11:01 pm

Vittorio de Sica e o neorrealismo italiano

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De Sica, um dos nomes mais importantes do neorrealismo italiano (Foto: Reprodução)

De Sica, um dos nomes mais importantes do cinema italiano (Foto: Reprodução)

Me pergunto o que seria do neorrealismo italiano se não tivéssemos artistas como o cineasta Vittorio de Sica. Incrível como o período que antecede uma guerra e outro que marca o seu fim se tornaram emblemáticos de duas das fases mais importantes do cinema mundial. O que o expressionismo alemão fez pelo mundo antes e depois da Primeira Guerra Mundial é tão representativo quanto a beleza e as lições do neorrealismo italiano após a Segunda Guerra Mundial, face a um velho mundo castigado.

Sem dúvida, guerras são trágicas, mas é sempre surpreendente ver o que o homem é capaz de fazer antes e depois delas para referenciar ou reverenciar a vida. A mim, nesse tipo de cinema, parece que há sempre uma revitalização da própria humanidade, uma necessidade de identificação que corrobora velhos e novos preceitos e valores.

A arte fílmica se universaliza toda vez que um ser humano mergulha no universo do autor, extraindo para si nem que seja uma pequena passagem de segundos. É no cinema de arte que o homem dialoga consigo mesmo e com os seus em um nível que transcende axiomas, etnias, línguas e até ideologias.

Está aí uma sequência de fragmentos pictóricos de Ladri di Biciclette (Ladrões de Bibicleta), de Vittorio de Sica, lançado em 1948. Na minha modesta opinião e apreciação, um dos filmes mais belos de todos os tempos:

Written by David Arioch

March 30th, 2016 at 10:59 pm

The Lost Boys e Cry Little Sister

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Um clássico de 1987 que marcou gerações (Foto: Reprodução)

Tenho certeza que o filme The Lost Boys (Os Garotos Perdidos), de 1987, do cineasta Joel Schumacher, fez parte da infância e adolescência de muita gente. Me recordo quando conheci o clássico na minha infância, por volta de 1992, trazendo um elenco composto por Corey Feldman, Jami Gertz, Corey Haim, Edward Herrmann, Barnard Hughes, Jason Patric, Kiefer Sutherland e Dianne Wiest.

À época, não fiquei impressionado apenas com a história e com o impacto que ela teve sobre mim, mas também com a trilha sonora. Muita gente começou a se interessar pelo gothic rock, que surgiu na Inglaterra no final dos anos 1970, só após o lançamento mundial de The Lost Boys. A música mais icônica do filme e que ajudou a popularizar o gênero é a atemporal Cry Little Sister, de Gerard McMann e Michael Mainieri, hoje dois desconhecidos das novas gerações.

Para quem curte a chamada literatura maldita de Poe, Rimbaud, Baudelaire e Verlaine, não há gênero mais representativo. Se bem que na década passada a temática renasceu na França com ex-integrantes de bandas de black metal em uma fusão de shoegaze, dark music e post-metal. É interessante ver como tudo ressurge com o tempo, independente de roupagens e transformações. Outro exemplo é o tema vampirismo abordado em The Lost Boys. Após 20 anos, vimos novamente essa efervescência. Taí um filme que merece ser assistido e um clássico que deve ser ouvido até o fim dos tempos.

15 anos sem Vittorio Gassman

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Fez ótimas parcerias com o mestre do neorrealismo italiano Luchino Visconti (Foto: Reprodução)

Fez ótimas parcerias com o mestre do neorrealismo italiano Luchino Visconti (Foto: Reprodução)

Faz 15 anos que o ator italiano Vittorio Gassman se foi. O grande Il Mattatore que atuou em mais de 120 filmes, entre os quais C’eravamo Tanto Amati, Profumo di Donna, L’Armata Brancaleone, I Mostri, La Grande Guerra e Il Sorpasso.

Fez ótimas parcerias com o mestre do neorrealismo italiano Luchino Visconti e alguns dos maiores expoentes da Commedia all’italiana: Mario Monicelli, Dino Risi e Ettore Scola. Gassman está entre os melhores atores italianos de todos os tempos.

“Em cada real ator há uma necessidade de se sentir como o centro do mundo durante algumas horas. Egocentrismo, é o que dizemos em italiano.”

Vittorio Gassman.

Written by David Arioch

March 27th, 2016 at 10:54 am

Manoel de Oliveira, 83 anos dedicados ao cinema

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O cineasta português lançou o primeiro filme em 1931 e o último em 2014

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“O Velho do Restelo” foi o último filme lançado por Oliveira (Foto: Divulgação)

Falecido aos 106 anos, o cineasta português Manoel de Oliveira não teve tempo de produzir seus próximos três filmes – “A Igreja do Diabo”, “A Ronda da Noite” e uma obra sem nome sobre o papel das mulheres no cultivo das videiras portuguesas. O seu último trabalho que assisti foi “O Velho do Restelo”, um média-metragem lançado em 2014 sobre um hipotético encontro de Camões, criador do personagem que empresta nome ao filme, Dom Quixote de La Mancha, Pascoaes e Castelo Branco. Em síntese, uma viagem por reflexões sobre o passado, presente e futuro.

Foram 83 anos trabalhando como cineasta. Passeava por gêneros, tanto que nem mesmo a idade avançada o impedia de se lançar no cinema como um aventureiro redescobrindo a sétima arte em tempos de cinema digital. Gostava muito de trabalhar com atores como Miguel Cintra, Diogo Dória e Leonor Silveira. Ao mesmo tempo, intrigou e atraiu estrangeiros de renome internacional como Marcello Mastroianni, John Malkovich, Catherine Deneuve e muitos outros artistas que surpreendeu pela versatilidade e amor ao que fazia, independente de imposições e limitações.

Oliveira, que nasceu em 11 de dezembro de 1908 e faleceu em 2 de abril de 2015, sempre me intrigou por ser menos conservador do que cineastas com menos da metade de sua idade e não mais do que 1/5 de sua longeva experiência profissional. Impossível e injusto listar as suas melhores obras, assim como é inadequado dissociá-las de sua própria natureza.

O cinema português, e não somente ele, não seria o que é hoje se não fosse Manoel de Oliveira, um artista livre de amarras que passeava por formatos e se dedicou a fazer com que refletíssemos sobre as nossas incertezas e a nossa condição humana, mesmo quando estas pareçam perpetuadas por décadas e séculos.

Written by David Arioch

March 25th, 2016 at 8:18 pm

Mark Twain e sua relação com os gatos

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“Trate-o como um cavalheiro, sem quaisquer outros termos. Quando você não fizer isso, ele vai se afastar”

Para Twain, um gato pode ser seu amigo, se assim você quiser, desde que haja igualdade de condições (Foto: Twain Family)

Para Twain, um gato pode ser seu amigo, se assim você quiser, desde que haja igualdade de condições (Foto: Twain Family)

O escritor estadunidense Mark Twain, conhecido por clássicos como “The Adventures of Tom Sawyer”, lançado em 1876, e “Adventures of Huckleberry Finn”, de 1885, costumava dizer que ao conhecer alguém que amava gatos, não era necessária nenhuma apresentação para que ele logo se tornasse seu amigo e camarada.

Sour Mash, a gata que mais o inspirou a escrever, despertando-lhe um novo senso de observação, era vista por Twain como um exemplo para a humanidade – carinhosa, leal, corajosa e empreendedora. “Além de nobre, tinha uma característica digna dos felinos e que nenhum homem possui – a independência. Ela não dava a mínima para a opinião dos outros. Não tinha medo de cobras nem de cães. Exterminava gafanhotos que invadiam as plantações e saltava sobre cães”, declarou em sua autobiografia.

Na obra “The Refuge of the Derelicts”, publicada no jornal Harper’s Weekly em 15 de julho de 1905, o escritor argumenta que a autonomia dos gatos vem da sua ausência de disciplina. “Eles não vivem para ajudar ninguém. São simplesmente assim. Mas não é algo que deva ser visto como insubordinação. Conceitos como certo e justo não existem para os felinos. É a única criatura no Céu ou na Terra que está acima de pedidos e ordens. Não foram feitos para obedecer e estão além até dos anjos. Reis e divindades são mais obedientes do que gatos”, escreveu.

Para Twain, um gato pode ser seu amigo, se assim você quiser, desde que haja igualdade de condições, independente se você é um monarca ou um sapateiro. “Trate-o como um cavalheiro, sem quaisquer outros termos. Quando você não fizer isso, ele vai se afastar”, declarou em “The Refuge of the Derelicts”.

No livro Mark Twain’s Notebook, publicação póstuma de 1935, inspirada em anotações de 1894, o escritor comenta que de todas as criaturas de Deus só o gato não pode ser feito escravo do chicote. “Ele é sempre mais inteligente do que as pessoas imaginam”, justificou.

Outras obras de Twain que endossam as qualidades dos felinos a partir de suas experiências são “The Mysterious Stranger” e “A Connecticut Yankee in King Arthur’s Court”. “Se você abusar de um gato, mesmo que apenas uma vez, ele sempre vai manter uma digna reserva em relação a você. Será impossível reconquistar a confiança dele”, declarou no segundo volume de sua autobiografia, baseada em registros de 3 de setembro 1906 e publicada em 2013, mais de cem anos após sua morte.

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Hermann Hesse e a política

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“A política implica em tomar partido e ser partidário se opõe ao humanitarismo”

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Hesse deixou claro que sua identidade de escritor o impedia de se ver como alguém engajado politicamente (Foto: Hermann Hesse Stiftung)

Ao contrário de muitos escritores, o célebre autor alemão Hermann Hesse  jamais se envolveu com política partidária. Em 1917, quando tinha 40 anos, e influenciado pelo contexto da época, Hesse deixou claro que sua identidade de escritor o impedia de se ver como alguém engajado politicamente, na literalidade. “Minha tentativa de desenvolver um gosto por assuntos políticos fracassou”, escreveu em carta que integra o acervo da Hermann Hesse Stiftung.

Ainda assim, anos antes, em 1912, o escritor alemão já não estava satisfeito com os rumos do Império Alemão, sob comando do kaiser Guilherme II, e decidiu se tornar o primeiro emigrante voluntário do país, mudando-se para a Suíça – um desejo também reforçado por conflitos familiares abarcando religião.

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“Humanitarismo e política, é praticamente impossível servir as duas ao mesmo tempo” (Foto: Hermann Hesse Stiftung)

Após o fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, Hesse recebeu inúmeros convites para assumir cargos políticos na República Soviética da Baviera (Räterepublik) – todos foram declinados. Mais tarde, questionado sobre o motivo de jamais ter aceitado uma das ofertas, ele justificou: “Não me identifico com a política. Caso contrário, eu teria me tornado um revolucionário. Não tenho nenhum outro desejo em vida que não seja encontrar o meu próprio caminho, a minha espiritualidade.”

No entanto, segundo o escritor alemão Paul Noack, estudioso das obras de Hesse, isso não é motivo para criticá-lo, já que ele não era apolítico. A maior prova disso foi o seu comprometimento com a humanidade e o humanitarismo. “Humanitarismo e política são questões mutuamente exclusivas. Ambos são necessários, mas é praticamente impossível servir aos dois ao mesmo tempo. A política implica em tomar partido e ser partidário se opõe ao humanitarismo”, argumentou Hesse, um defensor da paz.

No início da Primeira Guerra Mundial, de acordo com informações da Hermann Hesse Stiftung, o escritor resistiu como um dos poucos intelectuais alemães que não se deixou levar pelo entusiasmo geral da guerra. Inclusive, entre 1914 e 1918, Hermann Hesse publicou dúzias de ensaios criticando as beligerâncias em jornais de língua alemã. Se engajou tanto em causas humanitárias que em 1915 ajudou a criar em Berna, na Suíça, um centro de bem-estar para prisioneiros de guerra.

Um dos primeiros críticos do nazismo, viu seus livros serem qualificados pelo Terceiro Reich como “indesejáveis”. Não chegaram a ser banidos da Alemanha, mas deixaram de ser publicados no país. Quem também se juntou a Hermann Hesse na época foi o ilustre Thomas Mann – autor de clássicos como “A Montanha Mágica”, “Os Buddenbrooks” e “Morte em Veneza”. Além disso, Hesse ajudou financeiramente muitos refugiados alemães.

No final da Segunda Guerra Mundial, tentando se valer do prestígio do escritor, a União Soviética, os Estados Unidos e a Inglaterra tentaram convencê-lo a se envolver na coordenação de uma ofensiva de paz. “Eu não sou amigo da guerra e não sou amigo dos Estados Unidos. Também não sou amigo da mentira e do uso de meios impróprios nas lutas políticas. Eu não lutaria nem por Truman nem por Stalin”, garantiu. E manteve a palavra até o dia 9 de agosto de 1962, quando faleceu aos 85 anos, em Montagnola, na Suíça.

Saiba Mais

Hermann Hesse é conhecido por obras como “O Lobo da Estepe”, “Sidarta”, “Demian”, “Narciso e Goldmund”, “Peter Camenzind” e “O Jogo das Contas de Vidro”,

No dia 14 de novembro de 1946, o escritor foi contemplado com o Prêmio Nobel de Literatura.

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Entre a cruz e a espada

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O Informante, de Michael Mann, apresenta o dilema de um executivo de uma indústria tabagista

Wigand é demitido por não concordar com a conduta da empresa tabagista em que trabalha (Foto: Reprodução)

Wigand é demitido por não concordar com a conduta da empresa tabagista em que trabalha (Foto: Reprodução)

Lançado em 1999, o filme O Informante (The Insider), do cineasta estadunidense Michael Mann, apresenta o dilema do executivo Jeffrey Wigand (Russell Crowe), demitido por não concordar com a conduta da empresa tabagista em que trabalha. O drama controverso e documental foi inspirado no artigo The Man Who Knew Too Much, de Marie Brenner, publicado na revista Vanity Fair.

No momento em que Jeffrey Wigand é demitido, o produtor do programa jornalístico 60 Minutes, da CBS, Lowell Bergman (Al Pacino) recebe informações comprometedoras sobre o insondável mundo dos grandes fabricantes de cigarros. A partir daí, Bergman procura uma fonte confiável para se aprofundar no assunto e acaba conhecendo Wigand.

Na mesma esteira, há um jornalista e um executivo preocupados em denunciar uma substância cancerígena que acelera a dependência química e psicológica. Para Bergman, isso também significa marcar para sempre a história da indústria tabagista. Passando por séria crise financeira, Jeffrey Wigand decide contribuir com o produtor, mas muda de ideia quando o presidente da indústria tabagista onde trabalhava o pressiona através de um acordo de confidencialidade.

Após muita insistência, Wigand acaba concedendo a primeira entrevista ao 60 Minutes. Logo ele vê sua vida se complicar. A influência da indústria é tão grande que seu mundo desaba. O executivo perde a família e fica em uma situação que parece irresolúvel. É punido por seguir os princípios éticos de um cidadão, não de uma empresa ou instituição. Preocupado com as incertezas do futuro, não sabe como reagir aos acontecimentos.

Apesar disso, acredita que a justiça há de ser feita e arrisca a própria liberdade ao dizer tudo o que sabe durante o julgamento contra a empresa. Wigand também concorda em conceder uma entrevista mais reveladora ao 60 Minutes. Porém, o produtor Lowell Bergman é traído pelos próprios superiores que se negam a veicular o conteúdo. Em contra-ataque, a indústria tabagista cria factoides sobre a vida de Wigand e os lança na mídia com a intenção de acabar com a sua credibilidade e torná-lo um pária.

Bergman recebe informações comprometedoras sobre o insondável mundo dos grandes fabricantes de cigarros (Foto: Reprodução)

Bergman recebe informações comprometedoras sobre o insondável mundo dos grandes fabricantes de cigarros (Foto: Reprodução)

“Vale a pena arriscar a própria vida por uma verdade que não foi levada ao público?”, questiona o filme para em seguida dar a resposta. Apesar dos riscos, Wigand acredita no valor da honestidade, mesmo sendo um homem comum lidando com problema incomum. Outra constatação interessante de O Informante é que a partir da história do executivo, Lowell Bergman percebe o poder de seu próprio programa.

Idealista, Bergman não desiste de honrar seus compromissos com a fonte, nem quando é impedido de veicular entrevistas boicotadas por “problemas corporativos”. Na contramão de Lowell está o menos idealista e mais pragmático Mike Wallace (Christopher Plummer), apresentador que preocupado somente com a carreira opta por seguir ordens da direção da emissora.

Wallace só encara a situação com os olhos de Bergman depois de ser enganado por seus superiores que ordenam a reedição de suas entrevistas. Um ponto importante elencado pela obra é o compromisso ético de Bergman com a profissão e não com a empresa para a qual trabalha, mesmo que infelizmente isso seja demasiado incomum fora da ficção.

Talvez a melhor pergunta seja aquela que Bergman faz aos seus companheiros: “Você é um homem de notícias ou de negócios?” É exatamente esse questionamento que muitos jornalistas deveriam se fazer. Afinal de contas, o jornalismo genuíno nasce do interesse público, não patronal.

Embora Wigand seja o informante primário, no decorrer do filme, Bergman também assume a mesma função quando se torna fonte para seus colegas de profissão de outros programas e emissoras. Lowell desempenha esse papel com o intuito de derrubar o falso dossiê composto pelos inimigos do executivo. Como informante, o desempenho do produtor é decisivo para que as informações de Wigand não sejam comprometidas.

As ações de Bergman também obrigam a CBS a veicular o programa com a entrevista concedida pelo executivo. Com uma vitória dúbia, o produtor deixa a emissora, desiludido pela falta de responsabilidade social e profissionalismo da diretoria. No final, tanto o produtor quanto o executivo se veem na mesma posição. São dois homens que desistiram de ganhar muito dinheiro porque acreditam que a verdadeira ética não tem preço.

Written by David Arioch

March 7th, 2016 at 8:23 pm

O Quarto Poder, ficção social sobre as mazelas da grande mídia

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Controverso filme de Costa-Gravas continua tão atual quanto em 1997, quando foi lançado

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Max Brackett (Dustin Hoffman) é o exemplo de jornalista que recorre a todos os subterfúgios viáveis e inviáveis para garantir uma matéria “quente” (Foto: Reprodução)

Lançado em 1997, Mad City, que no Brasil recebeu o nome de O Quarto Poder, é um dos filmes de ficção social mais populares e controversos do cineasta grego Costa-Gravas. A obra aborda o poder que a mídia tem de manipular e sobrepujar o público, tendo como referencial um jornalista inescrupuloso que não mede esforços para recuperar o seu antigo espaço em uma grande rede de TV.

No filme, o repórter Max Brackett (Dustin Hoffman) é o exemplo de jornalista que recorre a todos os subterfúgios viáveis e inviáveis para garantir uma matéria “quente”. Ele usa como bode expiatório o ingênuo e desorientado Sam Baily (John Travolta) que num rompante, ao saber que foi demitido, ameaça com uma espingarda a diretora do museu onde trabalhava.

Após o disparo acidental com a arma, Baily é considerado um sequestrador, em um episódio nunca imaginado pelo próprio segurança. Encarando a situação como o deus ex machina de sua carreira, Brackett começa a influenciar as ações de Sam que jamais cometeu um crime. Preocupado com o desenrolar da ação, Max sugere que Baily crie uma lista de exigências. Do contrário, jamais será levado a sério pela polícia ou pela mídia.

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O ingênuo Baily é manipulado por Brackett que o transforma em herói e vilão (Foto: Reprodução)

Se até então seu objetivo era reaver o antigo emprego, a insistência de Max faz com que Sam mude o discurso sem perceber que está atuando como coadjuvante de um espetáculo em que o verdadeiro showman é o jornalista. A própria história de Sam é reescrita por Max. Ele se torna a ponte de comunicação de Baily com o mundo externo.

Quem são seus familiares e amigos, como ele vivia, o motivo do crime e as exigências – todas as respostas a essas perguntas são arquitetadas pelo repórter. Mestre na arte de manipular espectadores, na primeira parte do filme Max eleva Sam à condição de herói para depois transformá-lo em vilão – um terrorista desequilibrado.

Brinca com o poder ao induzir a opinião pública, mostrando que é capaz de fazer qualquer um amar ou odiar aquele homem que sob sua influência transforma crianças em reféns dentro de um museu. Max joga com todos, até mesmo com a diretora da instituição, dizendo que ela deveria agradecer a Sam pelo que ele fez, já que o sequestro está tornando o museu um espaço nacionalmente famoso, prestes a entrar para a história dos Estados Unidos.

Baily se torna tão dependente de Brackett que é o repórter quem define o que o segurança deve dizer ao chefe de polícia. Crente de que o jornalista é seu amigo, Sam não tem a mínima ideia de que Max usa a ilha de edição móvel para editar todos os depoimentos positivos coletados a seu respeito, preservando apenas os negativos. Para realçar ainda mais a vilania do personagem, Max veicula fragmentos desfavoráveis de entrevistados que nunca conheceram Sam Baily.

É axiomática a forma como Max é um perito na arte de persuadir pessoas a pensarem o que ele quer. Outro exemplo é a cena em que o repórter diz que o amigo de Sam baleado acidentalmente está ganhando muito dinheiro ao dar entrevistas sobre o suposto sequestrador. Se aproveitando do fato de que Baily está desempregado, Brackett já imaginava que o segurança ficaria sobressaltado com a notícia.

A verdade é que a vida de Sam pouco importa, tanto que dois jornalistas de uma mesma emissora digladiam pelo direito de ficarem ao lado do sequestrador quando a ação ganha repercussão nacional. A preocupação maior dos repórteres envolve estritamente promoções, bônus e status.

Outro ponto destacável é o momento em que o repórter se aproxima do chefe de polícia e pede autorização para a emissora entrar com o equipamento no museu para entrevistar Baily, oferecendo como compensação uma propaganda com viés político que pode tornar o chefe de polícia a autoridade de maior evidência nos Estados Unidos. Em síntese, Mad City prova que o quarto poder se confunde ao primeiro poder, já que a mídia pode ser mais poderosa que o governo e a própria polícia.

Bukowski, um velho safado apaixonado por gatos

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“Eles farão você se sentir melhor. Eles sabem tudo sobre a vida, tal como ela é”

"“Eu poderia dormir por 20 horas, ficar sentado e lamber minha própria bunda, esperando apenas para ser alimentado" (Acervo: Charles Bukowski)

“Eu poderia dormir por 20 horas, ficar sentado e lamber minha própria bunda, esperando para ser alimentado” (Acervo: Charles Bukowski)

Nos últimos anos, vi diversas fotos do escritor estadunidense Charles Bukowski segurando gatos ou rodeado por eles enquanto trabalhava. No entanto, foi somente no início de 2016 que tive certeza do quanto o mais famoso dirty old man da história da literatura norte-americana era apaixonado por gatos.

A confirmação veio com o lançamento da obra póstuma On Cats, um livro de 128 páginas, publicado nos Estados Unidos pela Editora Ecco Press em dezembro de 2015, que reúne as mais profundas impressões poéticas e reflexões de Bukowski sobre gatos e o mundo dos felinos.

Uma perspectiva áspera e transversalmente bucólica e terna sobre a relação entre humanos e gatos é o que os leitores vão encontrar no livro. Para Charles Bukowski, nenhum outro animal é tão inescrutável quanto um gato com sua essência elementar e augusta. Forças únicas da natureza, emissários evasivos da beleza do amor, interpretava o último escritor maldito da literatura norte-americana.

É justo dizer que On Cats é uma viagem pela resistência e resiliência felina; uma obra que apresenta os gatos como combatentes, caçadores e sobreviventes divididos entre o temor e o respeito. Os felinos de Bukowski eram ferozes e exigentes, chegando a se esfregarem, ensandecidos, por suas páginas datilografadas. Não se importavam em acordá-lo roçando garras em seu rosto e isso era mais um alento do que um quezilento. Também eram afetuosos, maviosos e muitas vezes o ajudaram a reencontrar inspiração.

O jornalista e biógrafo britânico Howard Sounes, estudioso do trabalho do escritor estadunidense, revela que Charles Bukowski ficou mais emotivo na velhice. “Os gatos realmente foram os únicos que conseguiram torná-lo um homem sentimental. Quando ele conseguiu um bom dinheiro, começou a levar uma vida suburbana com sua esposa Linda Lee e um monte de gatos”, confidenciou.

"A verdade é que é sempre bom ter um bando de gatos ao meu redor” (Acervo: Charles Bukowski)

“A verdade é que é sempre bom ter um bando de gastos ao meu redor” (Acervo: Charles Bukowski)

Segundo Bukowski, gatos são inigualáveis porque respondem somente a si mesmos, seres sui generis que não se deixam levar. Cômico e enternecedor, pungente e isento de pieguices, o livro é um retrato iluminado sobre a perspectiva do homem que considerava seus gatos como seus grandes professores nos seus últimos anos. O que também justifica porque o escritor dizia tanto que na próxima vida não queria ser nada além de um gato.

“Eu poderia dormir por 20 horas, ficar sentado e lamber minha própria bunda, esperando para ser alimentado. A verdade é que é sempre bom ter um bando de gatos ao meu redor”, repetia Bukowski à exaustão até o dia 9 de março de 1994, quando faleceu aos 73 anos, deixando um legado de seis romances, mais de 50 coleções de poemas e muitos contos e crônicas.

“Quando estiver se sentindo mal, observe os gatos. Eles farão você se sentir melhor. Eles sabem tudo sobre a vida, tal como ela é. Eles apenas sabem, são salvadores. Quanto mais gatos você tem, mais você vive. Se você tiver uma centena de gatos, acredite, você vai viver dez vezes mais do que se tivesse dez. Algum dia as pessoas vão descobrir isso e teremos um mundo com pessoas criando milhares de gatos. Elas viverão para sempre e isso será ridículo”, escreveu, sem deixar de satirizar, uma de suas características mais proeminentes.

Saiba Mais

O livro “On Cats” pode ser comprado no site Amazon.com.

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Written by David Arioch

February 26th, 2016 at 11:19 pm