Archive for the ‘Internacional’ Category
O legado romanesco de Knut Hamsun
O virtuoso escritor norueguês que morreu na pobreza após declarar sua simpatia pelo nazismo
Knut Hamsun, um dos maiores escritores da Escandinávia, nasceu em 4 de agosto de 1859 em Gudbrandsdalen, na Noruega. Cresceu em meio à pobreza da pequena comuna de Hamarøy, em Nordland. Na infância e adolescência, trabalhou como aprendiz de sapateiro e pedreiro, até que mais tarde conseguiu se tornar professor. Insatisfeito com os rumos de sua vida, Hamsun passou alguns anos viajando pelos Estados Unidos, onde atuou como motorista de bonde e publicou as impressões satíricas daquele país sob o título Fra det Moderne Amerikas Aandsliv (A Vida Intelectual da América Moderna) em 1889.
Mas foram os romances Sult (Fome), de 1890, e Pan, de 1894, que chamaram a atenção para o trabalho do escritor, considerado até hoje o precursor da verdadeira literatura moderna norueguesa. O trabalho de Knut Hamsun, independente de época, é determinado por profunda aversão à civilização. Suas obras reafirmam sua crença de que a realização do homem só é possível por meio da sua basilar relação com a terra.
Sem dúvida, um primitivismo que lançou luz sobre sua desconfiança em relação a tudo que é moderno. A máxima expressão dessa filosofia pode ser percebida na obra Markens Grøde (Crescimento do Solo). Os primeiros trabalhos de Hamsun já traziam à tona características fundamentais que marcariam a sua trajetória como escritor. Exemplos são seus personagens baseados em párias. A figura do vagabundo na obra do norueguês é uma constante fundamental porque à época representava a mais agressiva das oposições à civilização.
Com o amadurecimento literário, o autor experimentou considerável gradação. Substituiu a hostilidade figurativa pela resignação melancólica em relação à perda da juventude. O envelhecimento então começou a ocupar lugar de destaque em peças como Livets Spil (Jogo da Vida), de 1896, e Aftenrøde (Sol), de 1898, assim como nos romances Under Høststjernen (Sob a Estrela do Outono), de 1906, Benoni, de 1908, e En Vandrer Spiller med Sordin (Um Andarilho Toca com Cordas Silenciosas). Antes, em 1904, ele publicou o livro de poemas Det Vilde Kor (O Coro Selvagem).
Na última fase da carreira como escritor, Knut Hamsun, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1920, já não se preocupava mais com a construção de figuras individuais. Sua atenção se voltou totalmente para os grandes ataques à civilização, um tema que se estende pelos livros Børn av Tiden (A Criança da Era), de 1913; Segelfoss By, de 1915; Landstrykere (Vagabundos), de 1927; August (Agosto), de 1930; Men Livet Lever (A Estrada Leva), de 1933; e Ringen sluttet (O Anel está Fechado), de 1936.
Desde sempre um admirador da Alemanha, principalmente da cultura germânica, quando os nazistas invadiram a Noruega em 1940, Hamsun declarou publicamente sua simpatia por Adolf Hitler, o que surpreendeu muito os noruegueses. Com isso, logo após a guerra, o escritor perdeu a propriedade onde vivia e foi colocado sob observação psiquiátrica. Pouco conhecido no Brasil, mas muito respeitado na Europa e nos Estados Unidos, Knut Hamsun passou os últimos anos de vida na pobreza.
Em 1945, aos 86 anos, escreveu o obituário de Adolf Hitler no jornal norueguês Aftenposten. A publicação em que ele homenageia o líder nazista se tornou a mais infame de suas obras, inclusive ofuscando o seu respeitado trabalho literário. Em um dos trechos, o escritor afirma que Hitler foi um guerreiro da humanidade, um pregador do evangelho da justiça que serviu de exemplo para todas as nações. “Nós, seus seguidores mais próximos, devemos inclinar nossas cabeças em respeito à sua morte”, escreveu.
Knut Hamsun faleceu em 19 de fevereiro de 1952, aos 92 anos. Em 1954, seus trabalhos voltaram a ser reeditados e publicados. No mesmo ano, uma edição de 15 volumes resgatou toda a trajetória literária do autor.
Referências
Nobel Lectures, Literature 1901-1967, Editor Horst Frenz, Elsevier Publishing Company, Amsterdam, 1969.
Reputação Póstuma de Knut Hamsun
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Patrimônios mundiais estão sob ameaça
A Grande Barreira de Corais, na Austrália, e a cidade inca de Machu Picchu, no Peru, dois dos patrimônios naturais e culturais mais preciosos do mundo, estão sob ameaça de grandes atividades industriais. Esse é o alerta do Fundo Mundial da Natureza (WWF). A organização não governamental informou que metade dos 229 locais listados como Patrimônio Mundial estão ameaçados por atividades como desmatamento, pesca e exploração de petróleo.
Para mais informações, acesse:
http://www.worldwildlife.org/
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Edna Ferber e a força feminina
Para quem gosta de literatura baseada em histórias de mulheres à frente do seu tempo, recomendo as obras da escritora estadunidense Edna Ferber, autora que até hoje ocupa posição de destaque na literatura norte-americana. Um bom começo é o romance “Cimarron”, de 1929, que se pauta no desbravamento do estado de Oklahoma.
A princípio, a história gira em torno de Yancey Cravat, um sujeito aventureiro, idealista e com um ferino senso de justiça social que se muda com a família para uma nova área de colonização. Cravat é um personagem intrigante que cria um jornal com a intenção de fazer justiça usando palavras, mesmo que isso custe perder anunciantes e conquistar inimizades.
Mais tarde, enfastiado por um futuro que ele não desejava, decide partir novamente para desbravar uma nova área. Dessa vez, sua mulher, Sabra Cravat, decide não ir com ele, assumindo a direção do jornal e também atuando como jornalista, assim dando início a uma geração de mulheres fortes, corajosas e independentes que começam a ocupar posições de destaque em uma sociedade até então formada somente por lideranças masculinas.
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Sobre Adolf Hitler e Josef Stalin
Há pesquisadores que afirmam que Adolf Hitler foi o responsável pela morte de 17 milhões de pessoas durante o regime nazista. Josef Stalin foi além, sendo responsabilizado pela morte de 23 milhões de pessoas, o que significa claramente que ele superou Hitler. No entanto, Hitler comandou a Alemanha por 11 anos e Stalin liderou a União Soviética por 29 anos. Embora tenham sido dois genocidas, os fatores de comparação não costumam ser os mesmos.
Inclusive historicamente a influência de Stalin no mundo foi muito maior do que a de Hitler, endossada pelos Estados Unidos até o início da década de 1950, quando a Guerra Fria abriu espaço para o surgimento do macartismo, o período de caça às bruxas, permitindo que os EUA investissem maciçamente em propaganda e espionagem com a intenção de desqualificar outras formas de governo. Mas tudo isso não com a intenção de buscar paz ou justiça, mas tão somente desestabilizar economias estrangeiras que pudessem oferecer algum tipo de risco à hegemonia estadunidense.
Insane Clown Posse e a mitologia da violência nos guetos
“Criamos o Dark Carnival para que as pessoas entendam o peso de suas ações”
Fundado em 1989 por Violent J (Joseph Bruce) e Shaggy 2 Dope (Joseph Utsler), o duo de horrorcore Insane Clown Posse, de Detroit, nos Estados Unidos, se popularizou nos anos 1990 por misturar rock e hip-hop, criando um estilo autoral que influenciou músicos e bandas de vários gêneros dentro e fora dos EUA. O que mais chama atenção no trabalho do ICP é que eles são praticamente os únicos a difundirem o horrorcore além do cenário alternativo norte-americano.
A maior parte das músicas do Insane Clown Posse têm relação com o Dark Carnival, uma curiosa mitologia autoral que se baseia na ideia de que as almas das pessoas são enviadas ao limbo, onde aguardam seu destino: céu ou inferno. Para onde cada um vai é determinado pelas suas ações individuais. Entre as músicas apontadas como as mais clássicas do duo estão “The Great Milenko”, “Hokus Pokus”, “The Neden Game”, “Halls of Illusions”, “Boogie Woogie Wu”, “What is a Juggalo?” e “Tilt-A-Whirl”.
Em 2000, quando Violent J estava viajando de Cleveland para Detroit, ele parou em um posto de combustíveis e comprou uma fita K7 com a música “Let’s Go All the Way”, do duo de new wave Sly Fox, de Miami, na Flórida. Joseph Bruce gostou tanto do som que quis regravá-lo. E o resultado foi que a nova versão entrou para a lista de melhores do Insane Clown Posse. Disponibilizada no YouTube em 2007, ultrapassou mais de quatro milhões de visualizações e agradou até quem não simpatizava com o trabalho do ICP.
Ao longo da carreira, o duo já lançou 13 álbuns. O primeiro e que marcou a criação do Dark Carnival foi o “Carnival of Carnage” que usa a mitologia como uma representação da violência dentro dos guetos dos Estados Unidos. E não somente isso. A partir de satíricas críticas sociais, o duo criou um cenário de carnaval itinerante onde a brutal realidade da periferia também é levada para os bairros de classe alta, como desdobramento da miséria e da indiligência. Sendo assim, nas letras do ICP, a violência se desenvolve como prognóstico de um caos mais do que iminente e financiado pelas esferas mais altas do poder.

Duo criou um cenário de carnaval itinerante onde a brutal realidade da periferia também é levada para os bairros de classe alta (Foto: Divulgação)
No início da década de 1990, Violent J e Shaggy 2 Dope desenvolveram um conceito intitulado “Joker’s Cards” que abrange os álbuns “Carnival of Carnage”, de 1992; “The Ringmaster”, de 1994; “The Riddle Box”, de 1995; “The Great Milenko”, de 1997; “The Amazing Jeckel Brothers”, de 1999; “Bang! Pow! Boom!”, de 2009; “The Mighty Death Pop!”, de 2012; e “The Marvelous Missing Link: Lost”, de 2015.
As cartas do Coringa (Joker’s Cards) são enviadas como aviso pelo Insane Clown Posse aos representantes das classes mais altas e também aos políticos que ignoram os apelos das classes baixas. “Nós a entregamos a quem ignora os gritos das cidades. Cada uma das nossas cartas têm um papel específico dentro do Dark Carnival. Falamos da maldade cotidiana para que as pessoas entendam a importância de salvar a alma humana”, explicam Bruce e Utsler.
O conteúdo pesado das letras já chamou a atenção de muitos jornalistas e críticos que apontaram o duo como um paradoxo em essência, já que o ICP tenta ser espiritualista ao mesmo tempo que aborda a violência sem ressalvas. “Sobre isso, só posso dizer que o mais importante é falar a língua das ruas. Tentamos soar interessante para o público, nos aproximando da realidade deles e ganhando sua confiança. Se você é uma pessoa das ruas, é claro que você tem que trilhar esse caminho. Criamos o Dark Carnival para que as pessoas entendam o peso de suas ações”, argumentam.
Conhecidos como juggalos, os fãs do Insane Clown Posse possuem expressões, gírias e costumes bem próprios, tanto na forma de agir quanto de se vestir, como se fizessem parte de uma tribo. E todos os anos milhares de fãs se reúnem no The Gathering, inicialmente sediado em Cave-In-Rock, Illinois, e atualmente em Thornville, Ohio. O evento realizado pelo duo através da Psychopathic Records tem o apoio de astros do rap e do cinema como Ice Cube, Coolio, Vanilla Ice, MC Hammer, Busta Rhymes e Charlie Sheen, além de bandas como Cypress Hill, Drowning Pool, Gwar, Fear Factory, Cannibal Corpse, Andrew W.K., Soulfly e Mushroomhead.
Cover que rendeu mais popularidade ao duo:
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Baikal, a reação soviética à Coca-Cola
Durante a Guerra Fria, não foi apenas no campo da espionagem e da fabricação de armas que a União Soviética desafiou os Estados Unidos, mas também na produção de alimentos e bebidas capazes de diminuir a influência estadunidense. Um exemplo é o refrigerante Baikal, desenvolvido para ser a reação soviética à Coca-Cola. A ideia não era transformá-lo em um produto de consumo mundial, mas sim de redução da penetração da bebida de origem norte-americana em território russo.
A maior diferença entre o Baikal e a Coca-Cola é que o refrigerante russo é baseado em ingredientes naturais, ervas típicas, e tem um sabor peculiar e original, com leve aroma de pinho. Excetuando alguns ingredientes que variam de acordo com o fabricante, a bebida que começou a ser comercializada em Moscou em 1976 traz louro, erva-de-são-joão, sementes de coentro e raiz de alcaçuz na sua composição. O Baikal também não é tão doce. Na realidade, contém pouco açúcar se comparado à Coca-Cola.
Outra curiosidade é que o nome da bebida de coloração castanha-escura é uma homenagem ao maior lago do mundo, situado na Sibéria. Com o tempo o Baikal se tornou tão popular em algumas regiões da Rússia quanto a vodka. Hoje há uma grande variedade de sabores, inclusive versões alemãs, como é o caso da bebida Vostok. O fotógrafo Joris Van Velzen que trabalhou durante anos em Moscou também criou um novo Baikal.
Há muito tempo no mercado, o refrigerante russo é considerado um bom tônico com propriedades restauradoras relacionadas à adição de Eleutherococcus senticosus, o ginseng siberiano. Embora o ritmo de produção tenha oscilado com o passar dos anos, o Baikal ainda ocupa posição de destaque entre as bebidas carbonatadas mais vendidas na Rússia. Ele só não é indicado para quem sofre de diabetes ou precisa manter um severo controle de ingestão de líquidos. Das versões tradicionais do Baikal, que não possui ingredientes de origem animal nem relação com testes em animais, a mais recomendada pelos russos é a fabricada em Chernogolovka, no óblast de Moscou.
O Baikal pode ser comprado no link abaixo:
http://www.russianfooddirect.com/food/beverage/water-kvas/baikal/
Fargo, poesia audiovisual do absurdo
Uma série de TV sangrenta com requinte satírico de tragédia grega

Billy Bob Thornton interpreta um mercenário enigmático, metódico, idealista e desdenhoso (Foto: Divulgação)
Para quem gosta de séries de anti-heróis, e que misturam drama, suspense e humor mórbido, vale a pena conhecer a série Fargo, da FX, que estreou em 2014. Melhor ainda para quem já assistiu ao filme homônimo dos Irmãos Coen, lançado nos Estados Unidos em 1996. Vale a pena investir algumas horas na série e no filme, já que como a storyline é diferente, assim como atores e personagens, um se soma ao outro nas suas mais diversas perspectivas.
Intrigante e envolvente, a primeira temporada da série tem como ponto alto um elenco composto por atores de séries como Sherlock, Breaking Bad e Dexter, além do tarimbado Billy Bob Thornton no papel de um mercenário enigmático, metódico, idealista e desdenhoso. Quem assiste ao primeiro episódio já fica na ânsia de acompanhar os demais.
Na segunda temporada, de 2015, Fargo recomeçou com um novo elenco e sem qualquer associação com o desenvolvimento da primeira temporada. Após um acidente fatal provocado pela esposa Peggy Blumquist (Kirsten Dunst), o incauto assistente de açougueiro Ed Blumquist (Jesse Plemons), o Todd de Breaking Bad, se vê às voltas com a máfia. Sem se dar conta das próprias ações, causa uma guerra entre mafiosos. A situação só não se torna pior do que já é porque tem como atenuante o policial Lou Solverson (Patrick Wilson) e o xerife Hank Larsson (Ted Danson).

Na segunda temporada, Fargo recomeçou com um novo elenco e sem qualquer associação com o desenvolvimento da primeira (Foto: Divulgação)
Embora as histórias das duas temporadas sejam completamente distintas, alguns padrões são mantidos. Por exemplo, sempre há a moral, o imoral e o amoral, além de personagens que banalizam a vida e se colocam acima da lei para alcançar qualquer objetivo. Outras similaridades entre os personagens incluem prevaricação, comportamento sociopata e negação dos fatos e da realidade, além de anseios eversivos e autodestrutivos.
E o mais curioso é que tudo isso se mistura também à ingenuidade, irreflexão e descomedimento. Excessos de confiança e de profissionalismo também são apresentados como nocivos. São características que cegam os personagens para as falhas e vulnerabilidades percebidas apenas por quem não compõe aquele cenário ou contexto belicoso.
Um exemplo é a cena em que Hanzee Dent (Zahn McClarnon) planeja executar o casal Blumquist, crente de que, por serem pessoas comuns, eles não mostrariam nenhum tipo de resistência. É cômico reconhecer que a experiência também pode levar à tolice e à subestimação, e o que deveria ser uma vantagem se torna uma desvantagem.
Por pior que seja, a ideia da morte em Fargo não chega ao espectador de forma pesarosa, a não ser a de Betsy Solverson (Cristin Miloti), a esposa do oficial Solverson que sofre de câncer. No mais, o passamento parece inevitável e até incentivado como um recurso maior. Ele reforça os desdobramentos meândricos e tresloucados de uma obra cruenta com requinte satírico de tragédia grega.
A desgraça é apresentada em Fargo como uma poesia do absurdo, do tout est possible, mergulhada numa estética carmesim. E nela quase tudo de significante ou insignificante soa mais valoroso que a própria vida – quase relegada a recurso de figuração em meio a um caos de degenerescências.
No mundo dos canibais da internet
Um universo desconhecido pela maioria dos internautas, onde pessoas procuram carne humana
No dia 10 de março de 2001, o técnico em informática alemão Armin Meiwes matou e comeu o engenheiro Bernd Jürgen Brandes em sua fazenda em Rotemburgo, na Alemanha. À época, o crime teve repercussão internacional e Meiwes chegou a ser comparado a famosos assassinos em série como o estadunidense Jeffrey Dahmer – o canibal de Milwaukee. No entanto, para surpresa de todos que acompanharam o caso e participaram do julgamento do alemão, apelidado de Der Metzgermeister (O Açougueiro-Mestre), as investigações apontaram que o ato de canibalismo de Meiwes teve o consentimento da vítima que antes de falecer se alimentou de uma pequena parte do próprio corpo.
Para suportar a dor, Brandes engoliu 20 comprimidos para dormir e meia garrafa de aguardente antes de ter o pênis amputado por Meiwes. Mais tarde, os dois se alimentaram do pênis flambado da vítima que provavelmente sofria de distúrbios psicológicos e emocionais. Após o falecimento do engenheiro, o técnico continuou se alimentando de Brandes, chegando a consumir um total de 20 quilos de carne humana. Durante o julgamento, o canibal de Rotemburgo confidenciou que a carne era muito parecida com a suína, com a exceção de que era mais forte.
Contudo, Meiwes alegou que jamais teria matado ou se alimentado da vítima de forma não consentida, embora desejasse consumir carne humana desde a infância. O episódio desafiou a justiça alemã que não possuía legislação específica para lidar com casos de antropofagia envolvendo vítimas voluntárias. Apesar disso, Meiwes foi condenado a oito anos de prisão por homicídio.
Em 2006, após passar por nova análise psicológica, foi constatado que o Açougueiro-Mestre ainda tencionava se alimentar de carne, principalmente de jovens. Com a possibilidade de reincidência, um tribunal de Frankfurt o condenou à prisão perpétua. Mesmo com o veredicto, Meiwes se declarou como vegetariano em 2007 e foi eleito líder de um grupo de conscientização ambiental formado por pedófilos, traficantes e assassinos.
A história de Armin Meiwes chamou a atenção para uma realidade macabra e desconhecida da maior parte dos usuários da internet. O técnico em informática conheceu Bernd Jürgen Brandes no Cannibal Cafe, um fórum da Undernet que mantinha o seu conteúdo oculto, fora dos mecanismos de busca, e que só poderia ser acessado por pessoas com conhecimentos bem específicos.
Há alguns anos, eu tive acesso aos arquivos do fórum e entendi o que Meiwes quis dizer quando falou que ele não seria o primeiro nem o último a conhecer pessoas na internet com a intenção de praticar canibalismo. Segundo o Açougueiro-Mestre, há milhares de pessoas na internet dispostas a comerem carne humana e serem comidas. E uma prova disso era o Cannibal Cafe.

Perro Loco (à direita), fundador do fórum que atraía canibais e entusiastas (Foto: The Cannibal Cafe Forum)
Fundado por um estadunidense de meia-idade conhecido como Perro Loco, o fórum exibia um alerta para pessoas que não gostam de fantasias politicamente incorretas. “Se você não tem esse tipo de fantasia, provavelmente você vai achar o nosso conteúdo chocante e ofensivo, o que significa que nosso site não é para você. Por favor, vá embora. O material que produzimos é fantasioso em muitos aspectos. Não há nada realista sobre o assunto. Nossos espectadores sabem disso. Longe de normalizar a violência, nós a relegamos ao reino da fantasia. Não é a presença de tais fantasias que levam pessoas a atos de violência, mas sim a ausência de uma consciência”, defendia Perro Loco na página de abertura.
O fórum era administrado por mais três operadores, pessoas da confiança do idealizador. Dois foram identificados pelos pseudônimos Fenestrated e Squeeze Toy. Na rede Undernet, acessada através do programa mIRC, o Cannibal Cafe também mantinha um canal chamado #snuffsex, onde eram compartilhadas imagens, informações e bizarras aspirações.
Na guia Livestock Application do Cannibal Cafe, os usuários podiam preencher uma ficha informando dados pessoais, experiências, habilidades sexuais e o tipo de morte desejada – ser assado vivo, decapitado, desmembrado e empalado, entre outras opções. As mulheres oferecidas no site, mediante pagamento ou não, eram classificadas como cows (vacas). Nathalia, uma jovem de 27 anos, apresentada como uma gótica bissexual neerlandesa, foi qualificada como em ótimo estado, com carne firme, magra e com bom tônus muscular. De acordo com as recomendações de Perro Loco, ela poderia ser colocada em suspensão, asfixiada e progressivamente desmembrada. Ao completar 30 anos, Nathalia deveria ser assada viva.
Chelsea, de 19 anos, anunciada como filha de Perro Loco, participava do fórum e dizia que queria se tornar uma atriz pornô de filmes extremos. Mas somente por curto período, até que eventualmente pudesse ser morta e eternizada no vídeo da sua própria execução, um snuff film. O Cannibal Cafe também disponibilizava uma seção sobre empalamento em que Perro Loco falava sobre as suas próprias experiências.
“Há homens e mulheres emocionalmente vulneráveis o suficiente para serem seduzidos e permitirem que outras pessoas os matem por prazeres sexuais. São os verdadeiros masoquistas. Eu não vou entrar em detalhes, mas há sete anos fui atraído por uma jovem perturbada que vivia na área rural da Flórida. E sim, ela era suicida, submissa e masoquista. Um dia, ela abandonou os pais e fugiu de casa em busca da sua emoção final”, escreveu Perro Loco em 2001, na seção de perguntas mais frequentes do fórum.
E ele continuou: “Desde então, tenho a sorte de encontrar meninas e mulheres dispostas a realizarem essas fantasias. Comecei divulgando anúncios discretos na revista Fangoria e em um tabloide nacional que circula principalmente em supermercados. Fiz o mesmo em grupos da Usenet [através de fóruns]. No geral, o retorno aos meus anúncios foi muito maior do que eu poderia esperar nos meus sonhos mais selvagens.”
Analisando o conteúdo do Cannibal Cafe, que se manteve na ativa entre os anos de 1994 e 2002, não é difícil perceber que muitos dos usuários eram fãs de Dolcett, um tipo sinistro de desenhos fetichistas incluindo estupro, tortura, assassinato, canibalismo e incesto. Seus autores até hoje mantêm a identidade anônima. “Após a aceitação de uma nova ‘vaca’, ela recebe treinamento extensivo em todas as formas conhecidas de extrema escravidão e perversão. Ela passa por um processo de doutrinação psicológica completa, baseada em impulsos sexuais naturais, estimulando tendências submissas do subconsciente e eliminando as inibições sexuais e instintos de autopreservação”, escreveu Perro Loco na seção Cattle Training (Formação de Gado).
Os operadores e usuários do fórum davam a impressão de que a vida é um jogo e a morte um presente. Na seção Snuff Show Previews havia imagens reais de usuários e toscas montagens de rituais de tortura, empalamentos e antropofagia – algumas em forma de fichas pessoais. “Estamos treinando nossas ‘vacas’ para estrelarem nossos vídeos. Os shows ao vivo estão programados para saírem em breve. Acesse o nosso formulário de pedidos online para obter mais informações sobre nossos filmes snuff [com mortes e assassinatos reais]”, informou a administração do fórum.
No dia 28 de abril de 2001, a usuária Stephanie comentou que achou o trabalho de Perro Loco tão original quanto a chamada arte Dolcett. “Você fez um site como nenhum outro. É um mestre entre os mestres, um grande homem”, declarou. Dois dias depois, uma moça identificada como Cath criou um anúncio informando ter 1,75m, cabelos ruivos até o meio das costas e olhos azuis. “Posso render um bom presunto e uma boa alcatra. Como você gostaria de me cozinhar? E você poderia me marcar como um porco ou uma vaca?”, sugeriu.
Outro usuário, Franky, reconhecido como Armin Meiwes, o canibal de Rotemburgo, ingressou no fórum para conhecer homens com faixa etária de 18 a 30 anos. “Se você tiver um corpo normal, venha até mim. Eu vou lhe estripar e comer a sua carne. Me informe sua idade, altura, peso e encaminhe uma foto”, pediu.

Chelsea, que se apresentava como filha de Perro Loco, dizia que queria ser morta e eternizada no vídeo da sua própria execução (Foto: The Cannibal Cafe Forum)
As conversas no fórum quase sempre eram sobre pessoas querendo comer carne humana ou se oferecendo para serem comidas. Perro Loco justificava que não iam além da imaginação. Porém, o alemão Armin Meiwes é a maior prova de que fantasia e realidade se confundiam no Cannibal Cafe. Apesar da contestação, havia muitas outras publicações suspeitas.
“Sou um homem saudável de 27 anos e quero me submeter totalmente à sádica escravidão imposta por uma senhora ou um casal extremamente cruel. Quero desaparecer silenciosamente na total e permanente escuridão. Me sinto ansioso com a possibilidade de aparecer em um snuff movie para benefício comercial do meu dono. Posso me mudar de Nova York a qualquer hora. Desejo ser torturado, abatido e cozido para a sua total satisfação. Em particular, gostaria de ser mantido nu, acorrentado e enjaulado. Estou muito interessado em ser espetado como um porco. Isso é real e eu vou responder a todas as ofertas. Continuo aguardando o abate. Obrigado”, postou Alan em 28 de maio de 2001.
Para se ter uma ideia da abrangência do Cannibal Cafe, há publicações em outros idiomas. Em agosto de 2001, um brasileiro criou um tópico enfatizando seu desejo em praticar canibalismo. Não há dados tão precisos, mas acredita-se que milhares de pessoas de todos os continentes participaram do fórum entre 1994 e 2002. Nikolai, um dos usuários mais ativos no último ano do Cannibal Cafe, compartilhava receitas e arquivos sobre preparo de carne humana. Um deles, intitulado “Butchering the Human Carcass for Human Consumption”, foi escrito por um homem chamado Bob Arson.
“É um passo a passo sobre como quebrar o corpo humano de forma a garantir mais opções de corte. Como em qualquer campo, há uma série de métodos para a prática, e você pode ver isso como um conjunto de sugestões em vez de regras concretas”, explica a introdução do arquivo.
Quando o canibal Armin Meiwes confidenciou que frequentava o Cannibal Cafe, o fórum obteve popularidade assombrosa, o que não impediu que fosse desativado em 2001. Ainda assim, o fundador Perro Loco jamais foi responsabilizado por qualquer ação criminosa que tivesse como ponto de partida o seu fórum. Inclusive gozou de certo prestígio e fama junto aos fãs de pornografia extrema e subversão sexual.
Mais tarde, ainda morando na Califórnia em um regime de semi-aposentadoria, optou por uma vida mais pacata, trabalhando em uma loja de artigos de pesca. De fala mansa e ponderada, Perro Loco, que define a si mesmo como um homem privilegiado pelo bom nível cultural, jamais evitou entrevistas ou cogitou desaparecer. Muito pelo contrário, afirma que está sempre aberto ao diálogo.
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Powerviolence, música de cunho social e politizado
Importante subgênero da cultura punk, o powerviolence jamais se popularizou no Brasil, ao contrário de países como Estados Unidos, Canadá e Japão, além do continente europeu. Acredito que um dos grandes diferenciais do powerviolence é o fato de ser um dos estilos musicais com maior número de pessoas politizadas ou engajadas em causas sociais – claro que numa avaliação de proporcionalidade. Algumas bandeiras do subgênero nascido nos Estados Unidos são a defesa dos direitos dos animais, humanitarismo e denúncias de problemas urbanos.
Não é música por música ou simplesmente música pela arte. É música pela transformação, pela necessidade de fazer algo. Inclusive o som pancada, que tem um conceito tão literal quanto metafórico, ultrarrápido e conciso é justamente uma referência à necessidade de despertar, refletir por si mesmo – ter uma opinião fundamentada e agir. A ideia é instigar o ouvinte, como se estivesse ao seu lado gritando em seu ouvido.
Do subgênero, uma das bandas mais emblemáticas é o Capitalist Casualties, grupo de Santa Rosa, na Califórnia, que pratica um som cru, breve, alígero e dissonante desde 1986. Na década de 1990 e início dos anos 2000 o powerviolence conquistou boa visibilidade. O que contribuiu muito foi a expansão de fanzines, webzines, gravadoras e revistas independentes. A situação mudou mais tarde com a extinção de festivais e outras iniciativas que ajudavam na divulgação do estilo. Há quem diga que o powerviolence perdeu espaço porque hoje em dia ainda é muito difícil ser autossuficiente no cenário underground.
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Wardruna na série Vikings
Heimta Thurs, do projeto norueguês Wardruna, é uma das melhores músicas da trilha sonora da série de TV Vikings. Casou perfeitamente com a cena do ritual de execução (Blood Eagle) do viking Jarl Borg, líder de Götaland, morto no sétimo episódio da segunda temporada. Interessante ver como o History Channel abriu espaço para um projeto musical espiritualista como o Wardruna que se dedica a valorizar e divulgar o alfabeto rúnico proto-nórdico.
Jamais imaginaria ouvir a voz do taciturno norueguês Gaahl, mais conhecido por bandas de black metal como Gorgoroth e Trelldom, servindo de background a uma das cenas mais importantes de uma grande série dramática. Por esse tipo de abertura, isenção e comprometimento, tanto com a qualidade histórica quanto ficcional, posso dizer que considero o History Channel um canal de TV exemplar. O vocalista e multi-instrumentista Einar Kvitrafn Selvik é o principal compositor do Wardruna que também traz na formação a cantora Lindy Fay Hella. O trio tem outras composições que integram a trilha sonora da série, principalmente em cenas de batalhas.
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