Archive for the ‘Vegetarianismo/Veganismo’ Category
A história do vegetarianismo na Rússia
Ao final de 1914, a Rússia contava com 73 restaurantes vegetarianos em 37 cidades
De acordo com informações do Vegetarianskij.ru, a história oficial do vegetarianismo na Rússia começou com o surgimento da primeira sociedade vegetariana, ironicamente chamada de “Ни рыба, ни мясо”, ou seja, “Nem Carne, Nem Peixe”, em meados de 1860, em São Petersburgo.
O presidente vitalício da sociedade era o cirurgião Alexander Petrovich Zelenkov, que faleceu em 1914. Ele se tornou vegetariano em decorrência de problemas de saúde, quando outros métodos de tratamento se mostraram ineficazes. Ele também era um defensor da homeopatia e fazia campanhas contra o consumo de álcool.
Em 1902, a esposa de Zelenkov, Olga Konstantinovna, escreveu o livro “Нечто овегетарианстве”, ou “Algo Sobre Vegetarianismo”, que foi publicado em quatro volumes, cada um trazendo um extenso estudo sobre o vegetarianismo com base em registros históricos, estudos científicos e declarações de pessoas famosas de diferentes épocas.
A obra também conta com a análise do tratado “Питание человекав его настоящем и будущем”, que significa “A Dieta do Indivíduo em Seu Presente e Futuro”, escrita pelo botânico Andrey Beketov em agosto de 1878. Seu modesto ensaio em defesa da dieta e do estilo de vida vegetariano teve um efeito significativo na sociedade de seu tempo e eventualmente foi traduzido para muitas línguas.
Em 1913, Olga publicou o primeiro livro de receitas vegetarianas da história da Rússia. O nome da obra, que traz 1500 receitas, é “Я никого не ем”, ou seja, “Não Como Ninguém”. O livro foi editado inúmeras vezes e vendeu milhares de cópias, segundo o Vegetarianskij.
À essa altura, o vegetarianismo na Rússia já passou a ser visto sob outra perspectiva, que ia muito além da saúde humana, e tudo isso graças à publicação do ensaio “O Primeiro Passo”, de Liev Tolstói, lançado em 1892. Segundo o Vegetarianskij, a sociedade vegetariana russa então encontrou um profundo argumento ético em favor da dieta vegetariana.
O ensaio teve como ponto de partida as experiências de Tolstói desde que ele abandonou o consumo de carne em 1884, quando começou a promover o ideal vegetariano. Tolstói fez uma grande diferença porque se preocupou mais com as implicações morais e éticas do consumo de carne do que com os benefícios da dieta para a saúde.
Valendo-se de seu prestígio, Tolstói, sem dúvida, foi um dos grandes responsáveis pelo crescimento do vegetarianismo na Rússia – que teve adesão exponencial por parcela significativa da população após o lançamento de “O Primeiro Passo”. Figuras influentes da Rússia daquele tempo, como Nikolai Peskov, Ilya Repin, Alexander Voeykov, Nikolai Ge, Sergey Esenin e tantos outros se juntaram ao movimento. Entre os que mais simpatizaram com o vegetarianismo estavam cientistas, médicos, professores, escritores e poetas.
Em 1904, B.A. Dolyachenko e um grupo de professores fundaram a primeira revista vegetariana da Rússia. Intitulada “Вегетарианский вестник”, que significa “O Mensageiro Vegetariano”. Em 1909, foi a vez de Isosif Perper fundar e publicar o “Вегетарианскоеобозрение”, ou “O Jornal Vegetariano”, em Kiev. A publicação circulou até 1915.
Em 1909, a Sociedade Vegetariana de Moscou abriu suas portas. Em abril de 1913, foi realizada a Primeira Conferência Nacional Russa de Vegetarianos em Moscou, reunindo mais de 200 participantes. Uma das questões discutidas durante o evento foi a criação de sociedades vegetarianas por toda a Rússia.
Rapidamente surgiram sociedades vegetarianas em Varsóvia, Kiev, Chișinău, Vilno, Minsk, Saratov, Poltava, Odessa, Rostov-on-Don, Carcóvia, Zhitomir, Dnepropetrovsk, Krasnodar, Tumen e muitas outras. Ao final de 1914, o número de membros já chegava a duas mil pessoas, o que favoreceu o surgimento de 73 restaurantes vegetarianos em 37 cidades da Rússia. As refeições vegetarianas nos cafés eram baratas e bem diversificadas: salsichas feitas com ervilhas, hambúrgueres de repolho, panquecas vegetarianas (blini) e muito mais. E tudo era aceito com entusiasmo – como uma ideia original.
Os grandes planos dos vegetarianos russos, que previam transformar a Rússia em referência em vegetarianismo, foram interrompidos com o advento da guerra. Naqueles anos difíceis, e com o clima bastante tenso, os defensores de uma nutrição sem morte logo se tornaram alvos de desprezo e ridicularização.
Isto porque a alimentação vegetariana começou a ser vista como imoral em um cenário em que pessoas morriam aos milhares e a escassez de alimentos era comum. No entanto, os ativistas sociais vegetarianos não desistiram. Eles se voluntariaram para trabalhar em hospitais do exército, fornecendo refeições gratuitas para os militares em seus restaurantes, e também criaram enfermarias especiais para atender os animais usados pelo exército.
Porém, o desenvolvimento do vegetarianismo na Rússia, que tinha tudo para se destacar internacionalmente, servindo de referência para países do mundo todo, encontrou sua mais forte resistência após a Revolução Russa e a implantação do regime soviético, conforme informações do Vegetarianskij. Nesse período, a divulgação do vegetarianismo foi proibida na Rússia. Inclusive ativistas foram presos e o termo vegetariano acabou banido dos dicionários. As sociedades vegetarianas também foram fechadas em todos os territórios da URSS. A última a fechar suas portas foi a Sociedade Vegetariana de Moscou, que resistiu até 1929.
Em 1961, A Grande Enciclopédia Soviética, uma publicação massivamente popular na época, registrou que: “As ideias do vegetarianismo foram fundadas em hipóteses erradas e não têm seguidores na União Soviética.” Somente em 1990, depois da perestroika [reestruturação política do país], o vegetarianismo voltou à luz pública e suas ideias ressurgiram, ganhando novamente força na Rússia.
Referência
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Se tivéssemos aulas de direitos animais nas escolas
Se tivéssemos aulas de direitos animais nas escolas, ou pelo menos uma disciplina de ética que realmente incluísse os direitos animais, acredito que a violência contra animais não seria tão banalizada, e creio também que isso teria bom peso no que diz respeito à violência contra seres humanos.
Quando um jovem transgressor faz piada de algum ato praticado contra os animais, por exemplo, isso nem sempre significa maldade, mas sempre significa ignorância. Além disso, o ato normalmente depende de um fator cultural de permissividade.
E a forma como os jovens são criados diz muito sobre isso. Se um filho vê o pai chutando um cachorro, naturalmente ele vai entender que o cão pode ser chutado, e que isso não é errado. Afinal, pelo menos até certo ponto da vida, as crianças se desenvolvem observando as ações parentais.
Talvez a criança nem chegue a considerar a possibilidade da dor do animal, se a empatia por outros seres vivos não for estimulada. Então creio que em situações como essa, quando os pais são omissos, uma disciplina de direitos animais, ou que incluísse os direitos animais, poderia fazer uma boa diferença.
Acredito nisso porque ao longo dos anos conheci crianças e adolescentes que levaram bons valores para casa, fazendo os pais se questionarem sobre suas más ou equivocadas ações praticadas de forma impensada ou herdadas de outras gerações.
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Feliz em encontrar tantas referências literárias

Herman Melville em Moby-Dick: “Não resta dúvida de que o primeiro homem que matou um boi tenha sido considerado um assassino”
Fico feliz em encontrar tantas referências para abordar vegetarianismo, veganismo e direitos animais a partir da literatura ficcional. A lista é imensa. E muitas dessas obras passaram e continuam passando despercebidas sob essa ótica. Mas tenho orgulho de ter a oportunidade de me empenhar para tentar ajudar, mesmo que parcamente, a trazer isso à tona. Existe muita consciência vegetariana e vegana na literatura que merece ascender à superfície.
Vaquita pode desaparecer até 2022
Vaquita, também conhecida como boto-do-pacífico, é o menor cetáceo do mundo. Ela tem um metro e meio e chega a pesar cerca de 50 quilos. Segundo informações do Comitê Internacional para Recuperação da Vaquita (Cirva), atualmente restam apenas 30 vaquitas, espécie endêmica do Golfo da Califórnia, no Noroeste do México. E a má notícia é que elas podem ser extintas até 2022.
A humanidade provocou a extinção de 322 espécies de animais em 500 anos
De acordo com um levantamento feito pelo jornal Science, a humanidade provocou a extinção de 322 espécies de animais nos últimos 500 anos. Dois terços dessas espécies desapareceram nos últimos dois séculos. Na foto, o rinoceronte-negro do oeste, animal que já não existe mais em decorrência da caça.
“Trabalho para os animais”
Um camarada na academia me disse que todos os dias me vê publicando novos textos sobre vegetarianismo, veganismo. E perguntou para quem eu trabalho.
Então respondi: “Trabalho para os animais, velho!” Ele deu uma risada, surpreso com a minha resposta.
E continuei: “É sério, cara! Verbalizo o que os animais não podem verbalizar. É por aí.” Ele acenou com a cabeça, sorriu e comentou: “Acho que entendo o que você quer dizer.”
A respeito do meu artigo sobre as afirmações de Drauzio Varella
A respeito do meu artigo sobre as afirmações do médico Drauzio Varella, defensor do consumo de carne, tem pessoas dizendo que veganismo não é pela saúde, mas sim pelos animais. Claro que isso é verdade. Porém, esse meu artigo em específico não é sobre veganismo, é sobre alimentação vegetariana, até porque não se rebate afirmações de um médico com informações sobre direitos animais. Acredito que cada coisa é uma coisa.
Direitos animais e veganismo devem ser abordados e discutidos quando os argumentos se voltam para isso, mas não quando são direcionados a outras questões. Se o Drauzio fala que não há nenhum estudo que prova que o consumo de carne faz mal, o correto é contrapor o que ele disse se valendo da mesma seara – ou seja, da medicina.
Falar em direitos animais tentando rebater o que ele disse, não ajudaria na minha opinião – porque o público dele é de pessoas que buscam informações sobre saúde e qualidade de vida, não sobre direitos animais. Na realidade, ir por esse caminho só reforçaria o discurso dele, de que não se tem argumentos para rebater o que ele disse fora do que ele chama de “campo ideológico”.
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Robert Louis Stevenson: “Consumimos as carcaças de criaturas de apetites, paixões e órgãos como nós mesmos”
“Cortar a carne de um homem depois de morto é menos odiável do que oprimi-lo enquanto ele vive”

Stevenson: “No entanto, temos [por consumir carne] a mesma aparência [dos canibais] aos olhos do budista e do vegetariano”
No entanto, há um livro de Stevenson, “In The South Seas” ou “Nos Mares do Sul”, publicado em 1896, quase dois anos após sua morte, que merece atenção especial, embora não esteja entre os seus escritos mais famosos. Isto porque a obra reúne uma coleção de ensaios com registros reveladores sobre as viagens do escritor pelo Oceano Pacífico.
Entre os quais, é destacável “Long-Pig – A Cannibal High Place”, que integra o capítulo 9. No ensaio, que ganhou fama de maldito em alguns círculos sociais por desnudar a hipocrisia da sociedade europeia, o escritor narra, com certa ironia, e levando em conta o contexto cultural ocidental, que nada desperta tão fortemente o nosso desgosto quanto o canibalismo, que transparece como a desfiguração da própria sociedade.
“Nada, poderíamos argumentar plausivelmente, irá degradar tão duramente as mentes daqueles que o praticam [quanto o canibalismo]. No entanto, temos [por consumir carne] a mesma aparência [dos canibais] aos olhos do budista e do vegetariano. Consumimos as carcaças de criaturas de apetites, paixões e órgãos como nós mesmos. Nos alimentamos de bebês, embora não os nossos; e o matadouro ressoa diariamente gritos de horror e medo”, registrou na página 99.
Em referência ao especismo, Stevenson diz que a recusa de muitas nações em se alimentar de um cão, um animal com quem se tem uma relação de intimidade, mostra como essa distinção entre animais que devem ou não ser reduzidos a pedaços de carne é precariamente fundamentada; deixando subentendido que relegamos a morte todos aqueles que não vemos como amigos ou companheiros de conveniência.
O escritor escocês revelou em “In The South Seas”, que a realidade partilhada com os insulares do Pacífico, entre eles os povos canibais, fez com que tivesse um novo senso de percepção da realidade, da vida e do mundo; e tudo isso a partir da observação de seus personagens e eventualmente da forma como morriam.
“Muitos insulares vivem com seus porcos como fazemos com nossos cães. Ambos se aglomeram ao redor da lareira com igual liberdade; e o porco da ilha é um companheiro de atividades, iniciativas e sentidos”, informa. Acrescenta ainda que os porcos das Ilhas Marquesas eram tão espertos que empurravam os cocos em direção ao sol para que estourassem e eles pudessem comê-los.
Por outro lado, Robert Louis Stevenson cita o tratamento que os “civilizados” já davam aos porcos nos matadouros. E satiricamente comenta que, apesar de tudo, os europeus ainda são considerados um dos povos menos cruéis, deixando patente a sua discordância. Em relação ao abate do gado e de outros animais consumidos pelos seres humanos, ele declara que a parafernália do assassinato, as brutalidades preparatórias de sua prática, estão todas escondidas. Nessa passagem, há uma referência à dissimulação da crueldade por parte de quem explora os animais, e ao mesmo tempo a conivência de quem os consome como se fossem produtos. “Uma extrema sensibilidade reina sobre a superfície”, diz o autor, possivelmente debochando.
Stevenson critica e satiriza as damas que provavelmente ficarão chocadas ao lerem seu relato. Na obra, ele prevê desmaios diante da franca descrição de uma crueldade que nada mais é do que aquilo que elas esperam diariamente de seus açougueiros. “Alguns vão se queixar de mim, do fundo de seus corações, pela grosseria desse parágrafo”, prevê ironicamente.
No ensaio, o escritor também faz a defesa dos canibais do Pacífico ao argumentar que eles não eram cruéis, como os europeus gostavam de descrevê-los em uma pretensa autoafirmação de falsa superioridade. “Eles [os canibais] não eram cruéis. Para além desse costume, são uma raça das mais gentis; corretamente falando, cortar a carne de um homem depois de morto é menos odiável do que oprimi-lo enquanto ele vive”, justificou, fazendo menção aos animais criados para servirem como comida aos seres humanos.
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Robert Louis Stevenson nasceu em Edimburgo, na Escócia, em 13 de novembro de 1850. Ele faleceu em 3 de dezembro de 1894 em Vailima, nas Ilhas Samoa, em decorrência de hemorragia cerebral.
Alguns pesquisadores acreditam que a sensibilidade de Robert Louis Stevenson em relação aos animais foi estimulada pela sua esposa Frances (Fanny) Matilda Van de Grift Osbourne Stevenson, que era uma amante dos animais.
Referências
Stevenson, Robert Louis. Páginas 99-101. In The South Seas. Arc Manor. (2006).
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Drauzio Varella e as falhas na afirmação de que a crítica ao consumo de carne é ideológica
Não é verdade que não há trabalhos científicos comprovando os malefícios da carne
Em abril deste ano, o médico oncologista Drauzio Varella, que há muito tempo se tornou referência para a população brasileira, afirmou na entrevista intitulada “Crítica à carne é ideológica”, publicada pela Revista Globo Rural, que não existe trabalho científico comprovando que a carne vermelha faz mal à saúde. Drauzio declarou que se criou “uma porção de mitos” a partir de estudos realizados nas décadas de 1960 e 1970 nos Estados Unidos.
Drauzio Varella tem todo o direito de se opor a pesquisadores, acadêmicos e médicos que apontam os malefícios do consumo de carne, até porque ele nunca velou que é um defensor do consumo de alimentos de origem animal. Porém, a afirmação de que não há trabalhos científicos comprovando isso não é realmente verdadeira, e pode naturalmente induzir o leitor a crer que realmente ninguém nunca apresentou nenhuma evidência das implicações do consumo de carne.
O livro “The China Study”, publicado em 2005 pelo bioquímico estadunidense T. Colin Campbell, que tem doutorado na área de efeitos da nutrição na saúde em longo prazo, e que foi criado em uma fazenda de gado leiteiro nos anos 1940 e 1950, mostra que isso não é realmente verdade. O seu livro examina a relação entre o consumo de produtos de origem animal e o surgimento de doenças cardíacas, diabetes e câncer. E chega à conclusão que uma dieta vegetariana é mais saudável.
O trabalho, que começou no início dos anos 1970 e se estendeu por 20 anos, foi realizado pela Academia Chinesa de Medicina Preventiva, da Universidade Cornell, em parceria com a Universidade de Oxford. Eles analisaram as taxas de mortalidade por câncer e outras doenças crônicas em 2400 condados chineses, reunindo ao final do estudo dados de 880 milhões de chineses (96% da população à época).
O trabalho foi realizado por iniciativa do premier chinês Zhou Enlai. Diagnosticado com câncer, pediu que fizessem um mapeamento da doença na China, para entender de que forma isso estava relacionado com os hábitos alimentares dos chineses. O estudo registrou que nos condados onde o consumo de alimentos de origem animal se tornou muito elevado, as taxas de mortalidade eram mais altas, o que eles classificaram como consequências de “doenças ocidentais”, já que esses hábitos foram influenciados pela cultura do Ocidente. Por outro lado, nas localidades onde pouco ou nada se consumia de origem animal, as pessoas eram mais saudáveis. O trabalho mais tarde foi considerado o maior estudo de nutrição da história.
Claro que há variáveis a se ponderar, como por exemplo, a prioridade a alimentos saudáveis e prática de atividades físicas, entre outras coisas. No entanto, o “The China Study” justifica que somos mais suscetíveis a contrair determinadas doenças quando consumimos carne, laticínios e ovos, o que não significa que vegetarianos ou veganos estejam livres de doenças. Mas apenas que estão indo por um caminho onde isso pode ser evitado com mais facilidade com os devidos cuidados.
Na entrevista, Dráuzio Varella diz também que nos Estados Unidos “como a carne vermelha tem colesterol, foi concluído que o consumo dela devia ser reduzido. O que aconteceu então? Os americanos diminuíram significativamente o consumo de carne e, no lugar, colocaram carboidratos. A partir dessa resolução, até hoje, a epidemia de obesidade nos EUA aumentou descontroladamente. E, dada a influência dos EUA na área da saúde, essa ideologia cresceu sem parar. Resultado: estamos todos enfrentando uma epidemia de obesidade.”

T. Colin Campbell, autor do livro “The China Study”, que estudou as implicações do consumo de alimentos de origem animal por 20 anos (Foto: Second Opinion)
Não sei em quais estudos ele se baseou para fazer tal declaração, mas isso também não é de todo verdade. Sim, os estadunidenses, assim como pessoas de outros países do Ocidente, consomem quantidades excessivas de carboidratos, e isso sem dúvida favorece o surgimento de muitas doenças, mas há equívocos substanciais no discurso de Varella. Normalmente quem opta por uma dieta vegetariana visando saúde ou qualidade de vida, dificilmente vai consumir quantidades estratosféricas de glicídios, alimentos industrializados – principalmente processados. Não se troca seis por meia dúzia quando se visa conscientemente a saúde.
Ademais, em 19 de agosto de 2016, a Fusion TV publicou uma matéria sobre um assunto também repercutido por muitos outros veículos de comunicação – “Last year americans ate meat like it was going out of style (it’s not)”, que mostra que houve um aumento no consumo de carne nos Estados Unidos em 2015, baseando-se em estudos do Rabobank. Ou seja, por si só, isso já é um indicativo de que as pessoas não estão trocando proteínas de origem animal por carboidratos ruins na velocidade apontada por Varella, mas sim consumindo os dois – que combinados são responsáveis pelo comprometimento da saúde humana.
Outra prova que refuta a posição de Drauzio é que nos Estados Unidos 5% da população se declara como vegetariana, e 2,5% vegana, segundo dados da organização One Green Planet. Sendo assim, onde está toda a população que ele afirma abdicar do consumo de proteínas de origem animal em favor dos maus carboidratos? O vegetarianismo e o veganismo tem crescido, mas, por enquanto, não na proporção desejada por vegetarianos e veganos. Ao mesmo tempo que diz que os críticos do consumo de carne se baseiam em generalizações, Varella parece ignorar que também faz o mesmo, principalmente quando diz que a crítica ao consumo de carne é meramente ideológica.
Então se não for por honestidade e visando o bem da população, por que o pesquisador T. Colin Campbell, filho de produtores de leite, se tornou um defensor da dieta vegetariana que ministra palestras contra o consumo de leite? Por que Howard Lyman, ex-pecuarista que tinha mais de sete mil cabeças de gado, abdicaria disso tudo para se manifestar contra o consumo de carne? Inclusive registrando em seu livro “Mad Cowboy” que ele mesmo tinha o hábito de mandar seus funcionários pulverizarem inseticidas na alimentação e na água do gado para afastar insetos e “pragas”.
Acredito que esses dois homens têm conhecimento mais profundo da realidade do sistema de produção de alimentos de origem animal e das suas consequências na alimentação humana do que o oncologista Dráuzio Varella que, embora seja um profissional respeitado no que diz respeito a vários assuntos, nunca realizou nenhum estudo relevante sobre o tema e incorre em análises equivocadas quando discorre sobre consumo de carne e vegetarianismo, que são áreas que fogem da sua competência.
Em 2006, o The New York Times qualificou o “The China Study” como o “Grande Prêmio da Epidemiologia”, e o “mais abrangente grande estudo já realizado sobre a relação entre a dieta e o risco de desenvolver doenças.” Drauzio pode discordar do conteúdo do livro, mas ele poderia apresentar algum outro estudo equivalente sobre o qual alguém tenha dedicado 20 anos de pesquisa?

Frank Hu: “Este estudo fornece evidências claras de que o consumo regular de carne vermelha, especialmente carne processada, contribui substancialmente para a morte prematura” (Foto: Arquivo Pessoal)
E uma prova de que talvez ele não conheça a obra “The China Study” pode ser encontrada na entrevista para a Revista Globo Rural. Drauzio Varella, parafraseando o epidemiologista Walter Willet, da Universidade Harvard, assinala que somente um estudo com duração de 20 anos poderia trazer resultados realmente consistentes. Como mencionado anteriormente, o livro de T. Colin Campbell foi baseado em um projeto de pesquisa com duração de 20 anos.
E se o “The China Study” não for o suficiente para levar o leitor a refletir sobre a questão, é válido citar o artigo “Cutting red meat – For a longer life”, publicado em junho de 2012 pela Universidade Harvard, a mesma citada por Varella quando diz que não se pode associar o consumo de carne com o surgimento de doenças. “Este estudo fornece evidências claras de que o consumo regular de carne vermelha, especialmente carne processada, contribui substancialmente para a morte prematura”, disse Frank Hu, um dos principais cientistas envolvidos no estudo e professor de nutrição da Harvard School of Public Health.
Na pesquisa, publicada no Archives of Internal Medicine em 9 de abril de 2012, uma equipe de pesquisadores de Harvard procurou estabelecer ligações entre o consumo de carne e a as causas de mortalidade. Eles examinaram os casos de 84 mil mulheres e 38 mil homens em mais de duas décadas. Aqueles que consumiam principalmente carne vermelha, claramente se enquadravam nos grupos de risco de morte prematura.
Depois de 28 anos, aproximadamente 24 mil pessoas que participaram dos estudos da Harvard Medical School sobre a associação entre consumo de carne e mortalidade, faleceram em decorrência de doenças cardíacas e câncer. Analisando os questionários feitos pelos pesquisadores, constatou-se que essas pessoas tinham entre seus hábitos alimentares o consumo de bife, carne de porco, cordeiro e hambúrgueres.
Eles também comiam embutidos como bacon, cachorro-quente, salsicha e salame, entre outros. O estudo determinou que cada porção diária adicional de carne vermelha aumentou o risco de morte em 13%. O impacto subiu para 20% tratando-se de carne processada.
Na entrevista à Revista Globo Rural, Dráuzio Varella pontua que qualquer um tem o direito de ser vegetariano, mas que nem por isso evitará um ataque cardíaco, caso seja sedentário, tenha genética desfavorável, colesterol elevado e hábito de exagerar na comida. Bom, os vegetarianos e veganos que conheço não se veem como imune a todas as doenças do mundo, mas fazem o que está ao seu alcance para tentar evitá-las.
O vegetarianismo enquanto opção alimentar não é perfeito, e sabemos que há inúmeras variáveis, mas usar desse discurso para desconsiderar a dieta vegetariana é reverberar senso comum, já que ninguém está negando o fato de que sedentarismo e obesidade também podem ser prejudiciais para vegetarianos e veganos. No entanto, o que os estudos que mostram os malefícios do consumo de produtos de origem animal provam é que é mais fácil ser saudável não consumindo carne do que comendo. Ou seja, uma pessoa obesa que opta por uma dieta vegetariana tem mais chances de recuperar a própria saúde.
Outro artigo da Universidade Harvard, intitulado “Becoming a Vegetarian”, e publicado em outubro de 2009 e atualizado em 18 de março de 2016, explica que comparado com os consumidores de carne, vegetarianos tendem a consumir menos gorduras saturadas e colesterol, e mais vitaminas C e E. Também têm uma dieta mais rica em fibras, ácido fólico, potássio, magnésio, carotenoides e flavonoides.
Como resultado, eles têm níveis mais baixos de mau colesterol, pressão sanguínea mais baixa, e tudo isso pode ser associado à longevidade e redução do risco de muitas doenças crônicas. Em 2003, a Associação Dietética Americana (ADA) publicou um relatório afirmando que os vegetarianos têm 50% menos riscos de contrair diabetes, doenças cardíacas e amargar oscilações nos níveis de colesterol.
Outra citação de Drauzio Varella que merece atenção é a de que a carne é uma fonte maravilhosa de B12. Realmente, carne é uma fonte de B12, mas frisar que é uma fonte maravilhosa é algo contestável, porque dá a entender que o consumo de carne por si só sempre vai ser o suficiente para impedir a deficiência de vitamina B12, o que não é verdade.
O mito de que consumir carne sempre garante bons estoques de B12 foi derrubado em 2000, quando o Framingham Offspring Study, publicado pelo The American Journal of Clinical Nutrition, constatou que 39% dos participantes de uma pesquisa realizada com três mil homens e mulheres sofriam de deficiência de vitamina B12. A informação mais reveladora é que não foi percebida diferença entre quem consumia carne vermelha, aves, peixes ou nenhum desses alimentos.
A conclusão do estudo foi de que todos, vegetarianos ou não, devem fazer exames e, se necessário, consumir suplementos de vitamina B12. E quanto à carne ser uma grande fonte de ferro, é importante deixar claro que ela não é a única. Drauzio poderia ter citado também as leguminosas, castanhas, sementes, cereais integrais, couve, frutas secas e melado.
A minha intenção não é desmerecer o trabalho do médico oncologista Drauzio Varella, que é uma referência para tantos brasileiros, e com sua experiência e conhecimento trouxe luz a importantes debates ao longo de décadas. Porém, no que diz respeito ao vegetarianismo e à defesa do consumo de alimentos de origem animal, ele tem feito declarações, e não de hoje, ignorando todos os estudos que fazem oposição a uma dieta rica em proteínas de origem animal.
Fontes que comprovam que uma dieta vegetariana é mais saudável não faltam. Outro exemplo é a pesquisa “Vegetarian dietary patterns and mortality in Adventist Health Study 2”, da Universidade Loma Linda, referência em cardiologia, realizada com 70 mil pessoas nos Estados Unidos. Depois de seis anos, os pesquisadores concluíram que o número de morte entre vegetarianos foi 12% menor do que entre aqueles que consumiam carne.
Saiba Mais
O estudo “Comparison of Nutritional Quality of the Vegan, Vegetarian, Semi-Vegetarian, Pesco-Vegetarian and Omnivorous Diet”, concluído em 14 de março de 2014 por pesquisadores belgas concluiu que veganos têm os hábitos alimentares mais saudáveis.
O livro “The China Study” inspirou a criação do documentário “Forks Over Knives“, que conta a história do jornalista Lee Fulkerson, que teve a vida transformada depois de adotar uma dieta vegetariana.
Referências
http://revistagloborural.globo.com/Colunas/sebastiao-nascimento/noticia/2017/04/critica-carne-e-ideologica-diz-drauzio-varella.html
http://www.socakajak-klub.si/mma/The+China+Study.pdf/20111116065942/
http://www.health.harvard.edu/staying-healthy/becoming-a-vegetarian
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/10648266
http://www.mdpi.com/2072-6643/6/3/1318
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23836264
https://www.andeal.org/vault/2440/web/JADA_VEG.pdf
http://www.mdpi.com/2072-6643/6/3/1318
http://tv.fusion.net/story/338095/last-year-americans-ate-meat-like-it-was-going-out-of-style-its-not/
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“Virei vegano naturalmente. O trauma marcou a minha existência”
Um camarada me relatou uma experiência que ele viveu há 44 anos em Alegre, Espírito Santo:
“Eu tinha 10 anos; minha mãe me mandou ir ao matadouro comprar cérebro de boi. Chegando lá, vi o boi ser amarrado ao poste central. Foi enfiado um punhal em sua jugular, ele começou a sangrar, foi perdendo as forças, ajoelhou e então olhei em seus olhos. Depois de morto, foi içado e os assassinos enfiaram uma mangueira em um buraco feito não sei como; então o cérebro saiu inteirinho. Finalmente, eles enfiaram o cérebro em um saco plástico e me entregaram. Peguei e paguei. Quando cheguei em casa, minha mão fez o cérebro e me obrigou a comer. Virei vegano naturalmente. O trauma marcou a minha existência.”








