Archive for the ‘Vegetarianismo/Veganismo’ Category
Breve conversa entre um vegano e um não vegano
Um vegano encontrou um não vegano.
— Você sabia que as plantas sentem dor, né?
— Não, elas não sentem. Elas respondem a estímulos sonoros, o que ainda está longe de significar dor.
— Elas sentem sim. Tenho certeza disso. E estão no mesmo nível evolutivo dos animais. Você não tem dó das plantas?
— Tenho dó sim, tanto que eu arranco-as gentilmente da terra para não vê-las sangrar.
— Engraçadão.
— Mas e se um dia for comprovado que todas as plantas sentem dor?
— Eu me adaptaria. Pararia de comê-las. Há sempre uma solução para coisas assim. Mas por que essa preocupação vindo de alguém que se alimenta de tudo que caminha sobre a terra? Quando você vai parar com essa demagogia e deixar de comer seres vivos que sangram como nós e apodrecem como nós? Não há sentido em defender a senciência das plantas enquanto ignora a dor daqueles que agonizam diante de seus olhos. Reflita.
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Henry Salt, um pioneiro dos direitos animais
“Devemos reconhecer o vínculo comum da humanidade que une todos os seres vivos em uma só fraternidade”

Henry Salt era um protovegano, e contrário à posição da Vegetarian Society, da Inglaterra, de promover o consumo de ovos, laticínios e mel (Foto: Reprodução)
O escritor inglês, humanitarista e reformador social Henry Salt foi um dos pioneiros da discussão sobre os direitos animais. Sua contribuição foi tão significativa que em 1975, quando o filósofo australiano Peter Singer publicou “Animal Liberation”, o seu livro mais famoso, mais tarde considerado uma das bases filosóficas do movimento de libertação animal, ele fez questão de dizer que uma nova geração descobriu tudo que tinha sido dito antes – em referência às obras deixadas por Salt, que faleceu cinco anos antes da criação do veganismo pela Vegan Society.
Henry Salt era um protovegano, e contrário à posição da Vegetarian Society, da Inglaterra, de promover o consumo de ovos, laticínios e mel como parte de uma dieta que eles consideravam a mais adequada aos “vegetarianos”. Salt sabia que o abandono do consumo de outros alimentos de origem animal era o único e verdadeiro caminho do vegetarianismo ético. Até porque consumi-los significa reconhecer que são alimentos de consumo humano. No ensaio “A Plea for Vegetarianism”, publicado em 1885, ele declarou que mesmo os produtos lácteos são desnecessários e, sem dúvida, serão dispensados completamente sob um sistema de dieta mais natural.
No ano seguinte, esse trecho foi suprimido na nova versão que reuniu outros ensaios sob o título “A Plea for Vegetarianism, And Other Essays”, e porque a própria sociedade vegetariana inglesa deixou subentendido que caso Salt criticasse os hábitos dos vegetarianos da época, ele ficaria sem leitores, já que a maioria se enquadrava no que posteriormente foi definido como ovolactovegetarianismo. Por outro lado, a versão de 1885 é uma das provas da boa vontade de Henry Salt na luta pela consolidação do vegetarianismo ético que daria origem ao veganismo.
Também há que se ponderar que à época os vegetarianos da Vegetarian Society, que em sua maioria eram ovolactovegetarianos, não tinham um entendimento profundo das implicações morais e éticas do consumo de outros alimentos de origem animal. Muitos acreditavam que sem morte não havia violência ou privação, e essa linha de pensamento se baseava em um escasso entendimento das proposições da revolução industrial no que dizia respeito ao “destino comum” dos animais explorados para consumo humano.
Muitos ignoravam ou não percebiam que se alimentar de animais em qualquer nível significava legitimar a exploração sobre outras espécies. Exemplo disso foi o choque do escritor irlandês George Bernard Shaw, que abdicou do consumo de ovos e laticínios quando soube que simplesmente deixar de comer carne não contribuía tanto com o vegetarianismo ético quanto ele imaginava.
Analisando o contexto do vegetarianismo na Inglaterra do século 19, e levando em conta que Henry Salt teve de aceitar o fato de que ser “vegetariano demais” poderia gerar desconforto e antipatia por parte de outros “vegetarianos”, talvez seja justo dizer que os defensores do ovolactovegetarianismo da época se dividiam em dois grupos: os ingênuos ou menos informados, que acreditavam que simplesmente não consumir carne era o suficiente para endossar o vegetarianismo ético, e os acomodados – praticantes do vegetarianismo de conveniência, ou seja, que acreditavam que abdicar do consumo de laticínios e ovos seria um erro, já que significaria uma posição “radical” demais que poderia gerar conflitos no contexto das convenções sociais da época.

“Mesmo os produtos lácteos são desnecessários e, sem dúvida, serão dispensados completamente sob um sistema de dieta mais natural” (Foto: Reprodução)
Em 1906, quando Henry Salt publicou “The Logic of Vegetarianism”, mais uma vez ele evitou fazer críticas ao consumo de outros produtos de origem animal, e mais uma vez para não despertar a inimizade dos membros da Vegetarian Society. Porém, quando foi vice-presidente dessa mesma entidade, não raramente ele argumentava que jamais entendeu por que a palavra vegetariano trazia, enquanto conceito de uma época em que o vegetarianismo era quase sinônimo do não consumo de carne, alimentos que nunca foram de origem vegetal.
Nesse aspecto, a natureza espirituosa, humanitarista, modesta e tranquila de Henry Salt falava mais alto, e ele acabava por não ir tão longe em seus discursos mais críticos. Porém, mesmo sem precisar conquistar desafetos, as suas obras por si só já traziam a transparência de seu caráter e desejo de ver os animais livres do jugo humano.
Prova disso é que em 1890, quando Gandhi estudava direito em Londres, e já não seguia os preceitos do vegetarianismo indiano, até pelo fato de encará-lo mais como uma obrigação, ele leu um dos livros de Henry Salt, o que transformou sua vida e abriu seus olhos para o vegetarianismo ético. “Li o livro de Salt, de capa a capa, e fiquei muito impressionado. A partir do dia em que li este livro, me tornei vegetariano por escolha”, declarou.
Salt tinha uma forma não agressiva de chamar a atenção para os direitos animais, e isso também fez e faz dele um grande exemplo de transformação e divulgação positiva do vegetarianismo ético. Há quem o considere a figura mais importante do movimento vegetariano do final do século 19 para o século 20. E um dos livros que contribuiu para isso foi “Animals’ Rights: Considered in Relation to Social Progress”, publicado originalmente em 1892, e qualificado pelo filósofo Peter Singer como uma das obras essenciais em defesa dos direitos animais.
O livro é dividido em temas como o caso dos animais domésticos, o caso dos animais selvagens, a matança de animais para produção de comida, tortura experimental e linhas de reforma, entre outros tópicos. No livro, Salt diz que o sofrimento imposto aos animais é consequência da ausência de direitos, e vale-se dos absurdos que ouvia de tanta gente, inclusive do meio intelectual, na tentativa de legitimar a exploração animal, considerando-a como parte natural do ciclo da vida.
Ele apresenta argumentos refutando todas as justificativas especistas que ouviu ao longo de anos, e destaca a importância de uma cruzada intelectual, literária e social contra a opressão animal. No entendimento do escritor inglês o que os animais vivem hoje é a mesma realidade vivida anteriormente pelos escravos, e os discursos contra os direitos animais são tão falaciosos quanto os dos detratores do abolicionismo.
Henry Salt vivia com a esposa em uma casa de campo, onde plantavam a própria comida. Em 1891, o escritor fundou a Liga Humanitária, que se manteve na ativa até 1920. Como secretário geral e editor, ele fez campanha tanto em favor dos direitos dos desprivilegiados quanto dos animais não humanos. Na página 2 de “Animals’ Rights: Considered in Relation to Social Progress”, ele escreveu que a noção de que a vida de um animal é isenta de “propósito moral” pertence a uma classe de ideias que não pode ser aceita pelo pensamento humanitário avançado da atualidade.

“A noção de que a vida de um animal é isenta de “propósito moral” pertence a uma classe de ideias que não pode ser aceita pelo pensamento humanitário avançado da atualidade”
“É uma suposição puramente arbitrária, em desacordo com os nossos melhores instintos, em desacordo com a nossa melhor ciência, e absolutamente fatal (se o assunto for claramente pensado) para qualquer realização plena dos direitos animais. Se quisermos fazer justiça às raças inferiores, devemos nos livrar do “grande abismo” fixado entre elas e a humanidade; e devemos reconhecer o vínculo comum da humanidade que une todos os seres vivos em uma só fraternidade universal”, escreveu.
Em 1914, aos 63 anos, Henry Salt conseguiu ampliar a discussão em torno do uso de produtos animais. Após a Primeira Guerra Mundial, ainda publicou muitos livros, que só não tiveram maior repercussão porque o clima tenso da guerra ofuscou o debate sobre o vegetarianismo ético. Em 1931, quando Gandhi ministrou uma palestra intitulada “A Base Moral do Vegetarianismo” na Vegetarian Society, em Londres, ele teve o auxílio de Henry Salt, que à época estava com 80 anos. Gandhi então fez o que poucos fizeram até então, e provavelmente influenciado pela base filosófica de Salt – qualificou o uso de leite por vegetarianos como uma tragédia.
Não foi somente em relação a isso que Salt influenciou Gandhi. As biografias que o defensor dos direitos animais escreveu sobre Percy Bysshe Shelley e Henry David Thoreau também chamaram a atenção do líder indiano. Influenciado por Henry Salt, Gandhi leu o ensaio “A Desobediência Civil”, publicado por Thoreau em 1849, o que teve grande impacto em seu ativismo político.
O poeta Percy Shelley, que era vegetariano e protovegano, foi uma importante influência para Henry Salt. O reformador social o considerava um exemplo de ser humano empenhado na luta pelos direitos humanos, animais e da verdadeira liberdade de pensamento e ação. Salt se identificou muito com Shelley porque, assim como ele, era alguém que lutava contra aqueles que se opunham ao progresso.
“Quando digo que vou morrer, como tenho vivido, racionalista, socialista, pacifista e humanitarista, devo deixar claro o meu propósito. Não acredito na religião presentemente estabelecida. Mas tenho uma fé religiosa muito firme – um credo de parentesco que eu chamo; uma crença de que nos próximos anos haverá um reconhecimento da fraternidade entre homem e homem, nação e nação, humano e sub-humano, o que vai transformar um estado de semi-selvageria, como o temos em nossa civilização, em um estado onde não haverá tal barbaridade como a guerra, o roubo dos pobres pelos ricos, ou o uso de animais inferiores pela humanidade”, registrou Henry Salt em um papel deixado sobre sua mesa antes de falecer.
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Henry Salt nasceu na Índia Britânica em 20 de setembro de 1851 e faleceu em Surrey, na Inglaterra, em 19 de abril de 1939.
Ele lutou muito contra a vivissecção.
Referências
Salt, Henry. Animals’ Rights: Considered in Relation to Social Progress. Cornell University Library (1894).
Singer, Peter. Animal Liberation: The Definitive Classic of the Animal Movement. Harper Perennial; Edição: Updated ed (2009).
Salt, Henry. The Logic of Vegetarianism: Essays and Dialogues. G. Bell and sons (1906).
Henry, Salt. A plea for vegetarianism and other essays Vol: 1886 1886. Facsimile Publisher (2015).
http://www.henrysalt.co.uk/
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O vegetarianismo na vida e na obra de Scott Adams, criador de Dilbert
“Você quer dizer, por que não pego animais mortos, e os cozinho até tornarem-se carcinógenos?”
O cartunista Scott Adams, criador de Dilbert, famoso personagem do mundo das tirinhas, tornou-se vegetariano na faixa dos 30 anos. O que o motivou a tomar tal decisão foi um prato ruim que ele consumiu com carne de frango.
“Decidi tentar ser vegetariano para ver como é e me senti muito melhor. Menos dores de estômago e mente mais clara; e sei que vou viver mais dessa forma”, afirmou em entrevista ao Famous Veggie. Embora tenha sido motivado por uma questão pessoal envolvendo saúde e hábitos alimentares, Adams deixou claro que hoje em dia a sua decisão de não comer animais está muito além disso.
“Em um mundo perfeito todos os animais seriam tratados com bondade. Mas em um mundo com seis bilhões de pessoas indelicadas, os resultados serão inferiores ao ideal. Não é uma luta que acho que possa ser vencida”, lamentou.
Adams sugeriu que pessoas que consideram a carne essencial e benéfica pesquisem um pouco mais sobre o assunto, porque provavelmente terão surpresas. Segundo o cartunista, a pergunta mais tola que ele já ouviu ao longo de décadas de vegetarianismo foi “’Como você consegue sua proteína?’” Então eu pergunto quantas pessoas eles conhecem que estão hospitalizadas por deficiência de proteína”, declarou.
Em inúmeras tirinhas publicadas desde os anos 1990, Scott Adams abordou o vegetarianismo e o veganismo. Em uma delas, Dilbert diz a Dogbert que não entende porque ele ou qualquer um se tornaria vegetariano. “Você quer dizer, por que não pego animais mortos, e os cozinho até tornarem-se carcinógenos, então os como em vez de alguma coisa nutritiva? É a sua pergunta?”, satiriza.
“Exatamente. Tem alguma razão? Você se juntou a um culto?”, continua Dilbert. Dogbert apenas responde: “Aparentemente.” O humor de Scott Adams em Dilbert sempre foi pautado no absurdo das coisas, principalmente sobre a realidade empresarial, já que ele, como economista, também é um crítico desse meio. E o vegetarianismo, na figura do cachorro Dogbert, acabou entrando também enquanto tema como uma forma de abordar a hipocrisia e o comodismo que envolve a indústria da exploração animal e o consumo, principal motivador desse sistema de produção.
Os três alimentos preferidos do autor de Dilbert são arroz, brócolis e macarrão. Mesmo com uma alimentação relativamente simples, o milionário destacou que há lugares para onde ele viaja nos Estados Unidos que é difícil encontrar pratos que agradem o paladar de um vegetariano acostumado à simplicidade. “É difícil viajar para alguns lugares dos Estados Unidos, por exemplo, fora da Califórnia. Em Iowa, eles colocam carne até na salada”, reclamou.
E foi pensando na questão da diversidade alimentar e da oferta de opções para vegetarianos e veganos que Scott Adams e seu sócio Jack Parker lançaram o Dilberito em 1999 pelo selo Scott Adams Foods. Embora o produto tenha saído de circulação em 2003, agradou muita gente. O alimento vegetariano que tinha forma de burrito trazia 100% dos valores diários de vitaminas e minerais. E era oferecido nos sabores comida mexicana e indiana, alho e ervas, e churrasco.
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Scott Adams nasceu em Windham, Nova York, em 8 de junho de 1957.
Ele publicou as primeiras tirinhas de Dilbert em 16 de abril de 1989.
Referências
http://www.famousveggie.com/interviews/scott_adams.aspx
Adams, Scott. Dilbert: A Treasury of Sunday Strips (2000).
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C. David Coats e a ilusão dos animais felizes por “darem” carne, leite e ovos à humanidade
Lançado em 1989, o livro “Old MacDonald’s Factory Farm” é um livro bastante atual sobre a realidade da exploração animal
Lançado em 1989, o livro “Old MacDonald’s Factory Farm”, do defensor dos direitos animais C. David Coats traz uma capa bonitinha, bem colorida. Quem o julga a partir da imagem principal se engana ao pensar que se trata de mais uma obra que romantiza a exploração animal. Muito pelo contrário. A realidade é ilustrada por uma imagem menor, em preto e branco, que dá o tom do conteúdo do livro que propõe um debate bem atual; que dialoga com a realidade no que diz respeito à dura vida dos animais criados, principalmente nos moldes industriais, para serem reduzidos à comida e outros produtos.
No prefácio da obra, já são levantadas pertinentes reflexões que destacam como o ser humano consegue ser contraditório e destrutivo:
O ser humano não é um animal maravilhoso? Ele mata animais selvagens – pássaros, todos os tipos de felinos, coiotes, castores, marmotas, camundongos, raposas e dingos – aos milhões com a intenção de proteger os animais de criação e seus alimentos.
Então ele mata os animais de criação aos bilhões e os come. Este hábito, por sua vez, mata milhões de seres humanos; porque comer todos esses animais leva a condições degenerativas de saúde que são fatais, como doenças cardíacas, doenças renais e câncer. Na sequência, o ser humano tortura e mata milhões de animais para encontrar a cura para essas doenças.
Em outros lugares, milhões de seres humanos estão morrendo em decorrência da fome e da desnutrição; isto porque os alimentos que eles poderiam comer estão sendo usados na engorda de animais de criação. Enquanto isso, algumas pessoas estão tristemente morrendo de rir desse absurdo da humanidade, que mata tão facilmente e violentamente, e uma vez por ano envia cartões orando pela paz na Terra.
Em “Old MacDonald’s Factory Farm”, C. David Coats aponta que nos anos 1980 já era difícil encontrar animais brincando nas fazendas, simplesmente porque as técnicas de produção em massa e os programas de eficiência no agronegócio já se voltavam para os volumes excessivos de produção com custos cada vez menores. Ou seja, a banalização da vida acentuou-se e os animais passaram a amargar ainda mais privação e sofrimento com o surgimento das chamadas fazendas industriais.
Afastados da vida natural, os animais reduzidos a produtos não passam de matéria-prima. Em crítica a essa normalização da crueldade, Coats narra o que há de mais sombrio na natureza humana na sua relação com as outras espécies, quando motivado pela ambição e ganância. Ele cita como exemplo a realidade de animais confinados em espaços onde a movimentação é quase impossível. Também discorre sobre suas pesquisas na indústria da suinocultura, onde testemunhou animais vivendo acorrentados.
O escritor informa que a maioria dos animais explorados pela indústria não vivem mais do que 1/3 do que viveriam se não fossem explorados e mortos. Porcos em caixas, gado com o chifre arrancado sem anestesia, vacas leiteiras mortas e reduzidas à carne de hambúrguer quando já não atingem a meta na produção de leite; bezerros mantidos anêmicos no escuro até serem abatidos para que as pessoas possam comer bifes de vitela; aves com bicos cortados com lâmina quente e confinadas a vida toda; tudo isso endossa um cenário macabro que faz parte da realidade cotidiana da maioria dos animais de criação.
No livro, o cenário da produção de alimentos de origem animal é descrito com uma crueza fiel à realidade, se distanciando visceralmente da propaganda que faz os animais parecerem felizes em morrer para saciar supostas necessidades humanas. É um retrato de uma realidade que só pode ser compreendida dessa forma se o leitor analisá-la de forma sensível. Na perspectiva de C. David Coats em “Old MacDonald’s Factory Farm”, é preciso se colocar no lugar do animal ou pelo menos reconhecer que não são apenas os seres humanos e os outros animais com quem convivemos no cotidiano que têm direito à vida.
Fazendas onde os animais se divertem “doando” leite, ovos e carne? Não no mundo real, deixa claro C. David Coats que também aborda temas como impacto ambiental, engenharia genética e consequências dos produtos de origem animal para a saúde humana. Ele discute ainda a expansão da agropecuária e a absurda quantidade de área destinada à produção de alimentos usados na nutrição animal. Outro ponto de destaque do livro é o debate sobre a aplicação excessiva de antibióticos nos animais de criação, o que já era visto nos anos 1980 como um perigo para a saúde humana.
Ademais, Coats não se limita a criticar a exploração animal. Como o livro é resultado de anos de pesquisa, ele também apresenta ações e ideias de projetos de transição da agropecuária para produções sustentáveis que não gerem privação e sofrimento animal – como a de alimentos orgânicos, entre outras sugestões que poderiam ser colocadas em prática para substituir produtos de origem animal.
Mesmo lançado em 1989, o livro discorre sobre problemas que ainda compõem a nossa realidade. Em uma rápida pesquisa em outras fontes, encontramos provas de que ainda hoje os animais estão longe de ter uma vida justa. Tal conclusão, até mesmo excetuando a questão de tortura ou outros tipos de violência, parte do princípio de que são seres sem direito à vida, já que existem simplesmente para atender nossas pretensas necessidades e morrer, cumprindo um papel que é vantajoso ao ser humano, mas nocivo às espécies que têm sua expectativa de vida extremamente reduzida.
Tantos anos após o lançamento do livro de C. David Coats, vimos poucas mudanças positivas em relação a isso, até porque a demanda por produtos de origem animal, acompanhando o crescimento populacional, aumentou muito desde o final da década de 1980.
Segundo Osler Desouzart, membro da diretoria consultiva do World Agricultural Forum e diretor da OD Consulting, em 1980 o consumo de carnes per capita era de 30,6 quilos ao ano, e em 2013 chegou a 43,1 quilos. Em um mundo onde a demanda é muito grande, naturalmente abre-se bastante espaço para a omissão no que diz respeito à violência contra animais de criação, já que há uma naturalização e legitimação da violência em prol de um pretenso bem maior – a produção de carne, leite, ovos e outros produtos que custem a privação e a vida de seres não humanos.
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William Ralph Inge: “Temos escravizado o resto da criação animal”
“Temos escravizado o resto da criação animal e temos tratado nossos primos distantes de pelos e penas tão mal que, sem dúvida, se eles formulassem uma religião, eles iriam descrever o Diabo em forma humana.”
Páginas 166-167, de “Outspoken Essays”, publicado em 1922 pelo escritor inglês, professor da Universidade de Cambridge, defensor dos direitos animais e sacerdote anglicano William Ralph Inge, indicado três vezes ao Prêmio Nobel de Literatura – em 1922, 1923 e 1929.
Shel Silverstein: “Parei e olhei para o jantar do ponto de vista do jantar”

“Festas de Páscoa são apenas má sorte quando você as avalia do ponto de vista de uma galinha ou de um pato” (Foto: Reprodução)
O Jantar de Ação de Graças é triste e ingrato. O jantar de Natal é frio e sombrio quando você para e tenta vê-lo do ponto de vista do peru.
O jantar de domingo não é ensolarado. Festas de Páscoa são apenas má sorte quando você as avalia do ponto de vista de uma galinha ou de um pato.
Ah! Como já amei salada de atum, carne de porco, lagostas e costeletas de cordeiro. Até que parei e olhei para o jantar do ponto de vista do jantar.
“Point of View”, de Shel Silvestein, considerado um dos grandes escritores de literatura infantil dos Estados Unidos no século 20. Ele nasceu em Chicago em 25 de setembro de 1932 e faleceu em 10 de maio de 1999 em Key West, Flórida. Silvestein também era compositor e cartunista.
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“Sou vegetariana porque acho que é errado se alimentar de criaturas sencientes”
“Você é vegetariana? Pergunto, baseando-me nas evidências diante de mim.
Ela acena positivamente com a cabeça.
— Por que?
— Porque tenho essa teoria de que quando morremos, todos os animais que comemos terão a chance de nos devorar. Então se você é carnívoro e somar todos os animais que comeu – bom, será um longo tempo no purgatório, sendo mastigado.
— Sério?
Ela riu. “Não! Apenas estou cansada desse tipo de pergunta. Quero dizer, sou vegetariana porque acho que é errado se alimentar de criaturas sencientes. E isso também é ruim para o meio ambiente.
Página 110-111, do livro “Every Day”, do escritor estadunidense de literatura infanto-juvenil David Levithan. A obra conta a história de um protagonista que acorda no corpo de outras pessoas. Um dia, suas prioridades mudam quando ele conhece Rhiannon.
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Fogo no matadouro
O fogo estava faminto, e tudo que um dia serviu para ceifar tantos animais conheceria o seu próprio fim

Lá fora, assistimos a crescente cólera do fogo que representava a nossa própria (Arte: G.D.St. John)
Escuto a chuva. Não é violenta, até que é calma. Começou a esfriar ontem. Não faz diferença. Aqui dentro poucas coisas importam. Minha mente continua lá fora; dizem que com o tempo você se acostuma. Será? Não sei, vou vivendo como dá. Eu poderia morrer agora, mas por eles prefiro viver, não vou dar esse prazer. Falaram que vou apodrecer aqui, que jamais vou ganhar a liberdade. Faz sentido, só que é estranho porque lá fora também é uma prisão.
Louco, psicopata, doente, terrorista, perturbado; me chamam assim agora. O dinheiro tem o poder de garantir esses nomes pra você na mídia. Falsos diagnósticos médicos sempre ajudam. Pagando bem que mal tem, não é mesmo? Inventaram um histórico de instabilidade psicológica e emocional que nunca tive. Sempre fui um cara pacífico, e muita gente virou as costas pelo que fiz. Não me arrependo.
Ah! Sou um risco para a sociedade. Isso é engraçado de se reconhecer quando a sociedade é um risco para si mesma. Autofagia! A sociedade come a si mesma. Ontem, um sujeito mal-encarado veio me visitar. Ajeitou o chapéu de couro de boi sobre a cabeça, cuspiu um naco de fumo em minha direção, levantou os olhos, mostrou os dentes amarelecidos e disse: “A gente tem juiz no bolso e força no Congresso. Você já era, filho da puta! Você não é ninguém!” Mostrei o polegar pra ele, sorri e comentei que se eu tivesse mais tempo teria feito muito mais.
Ficou puto e vi nos seus olhos a vontade de me matar. “Não, cara! Não aqui e agora.” Sugeri que parasse de mascar fumo se não quisesse ficar com os dentes iguais aos do Beetle Juice. Ele não entendeu. Recebi visitas de outros tipos estranhos. Outro dia, mandaram um engravatado, parece que a mando de um deputado, me oferecer uma boa grana para entregar meus amigos. Se fosse por dinheiro, não teria feito o que fiz.
O dinheiro é a raiz de toda essa desgraça. Não que eu seja contra ganhar dinheiro; sou contra a escravidão que ele gera. Talvez você esteja se perguntando o que fiz para estar neste buraco. Tem gente me apoiando aqui, e acho que se a coisa ficar feia pode ser que eu não esteja sozinho. Neste momento, registro minha história neste papel higiênico.
Tudo começou em 2015, quando eu participava de um fórum na darknet. Havia pessoas de vários estados do Brasil. Era um grupo de ativistas pelos direitos animais. Nosso lance era ciberativismo mesmo. A gente se articulava por lá e produzia textos e vídeos para rebater falácias especistas e conscientizar as pessoas sobre a indústria da exploração animal. Era legal, mas chegou um momento em que tudo aquilo começou a parecer pouco, muito pouco.
Afinal, qual é o propósito de dedicar tanto tempo a algo que proporcione poucos resultados? A gente queria mais, muito mais. Lembrei da lei de Thelema, do Aleister Crowley dizendo “Faze o que tu queres, há de ser tudo da Lei.” Não demoraria; a gente faria. “Porra, vamos colocar fogo no mundo, cara!”, disse Nikolai. Figura de expressão, hipérbole. Sim, não no mundo, mas algo iria queimar, com certeza. Tínhamos pessoas o suficiente para fazer isso acontecer. Amadores com corações profissionais, isso nos define até hoje.
Acordamos de madrugada naquele domingo e nos dividimos em dois carros e um caminhão. Dirigimos pouco mais de 150 quilômetros até chegarmos ao nosso destino – um dos maiores matadouros do Paraná, situado em uma área rural, ladeado por uma lagoa com a água mais suja que já vi em toda a minha vida.
Senti náuseas diante do odor intenso daquele depósito de lixo flutuante. Restos de animais, fezes, resíduos químicos e outras porcarias se misturavam enquanto a água espumava e esfumaçava como um cenário de um filme do Ed Wood ou da Troma. “Que diabos é isso?”, perguntou Sonia.
Não sei se aquilo era normal ou se tinha acontecido algum acidente, mas o solo estava carcomido por algum tipo de podridão. Fedor absurdo, banhado por um líquido nojento e pegajoso que emborcava lá longe, na nascente. Matava tudo que inspirava vida, desde a menor até a maior das plantas. Tudo naquele inferno inspirava à morte. E estávamos lá por isso.
Quando vi um homem parado no portão, caminhei até ele. Não subornei ninguém, senão seríamos tão sujos quanto qualquer um que vive da degradação social. “Seja como nós, ou seja contra nós”, concluí coçando a nuca. Acenei e Borges retribuiu a cordialidade:
— O senhor sabe o que a gente veio fazer aqui.
— Sei sim.
— E está bem com isso?
— Sim, faça o que tiver que fazer. Falei com os outros, já desativaram todo o sistema de segurança.
Borges era o chefe da segurança, e também tio de Alice, nossa amiga. Quando ele assobiou, três seguranças deram um positivo com a cabeça; caminhamos matadouro adentro. Não era limpo como a TV, os jornais, os vídeos institucionais e os folders mostravam. Talvez improvisassem bons ângulos, vai saber.
Eu andava e o ar pesava, uma energia ruim que emanava daquele ambiente onde entrava vida e saía pedaços de morte bem embalados. O matadouro tinha muros bem altos, como uma fortaleza. Imaginei os gregos invadindo o lugar dentro do Cavalo de Troia.
Do lado de fora, era impossível ver o que acontecia lá dentro. Enquanto Eu, Nikolai, Sonia e Alice entramos, Marcelo, Roberto, Lúcia e Bruna percorreram as imediações, confirmando que não havia nenhum animal, humano ou não, por perto.
Azulejo branco nas paredes e piso vermelho por onde escorria o sangue dos inocentes. Corredores estreitos, plataformas, grilhões, correntes, caixas, gaiolas, carretilhas, roldanas, ferrugem, torneiras, pias de lata, pistolas, facas, tubos, marretas, escadas, sangue seco, riscos no chão – marcas de luta; campos de concentração aprovados pela humanidade e legitimados pela legislação.
As dependências vazias contavam histórias de terror e medo. Borges relatou que milhões de animais morreram naquele lugar. Muitos resistiam em vão. Ele tinha razão. Ouvi porcos se contorcendo e grunhindo, presos aos grilhões enquanto o sangue quente jorrava. Famílias de bois, vacas e bezerros, assassinados em espaços diferentes – mortes sempre solitárias. Nenhum deles queria morrer; ninguém queria reconhecer.
Como podemos comer algo que um dia teve pernas para fugir, olhos e ouvidos para assistir e ouvir o próprio fim? Algo que um dia fez parte de alguém que sentiu calor, frio, fome e sede como nós mesmos; que não teve a oportunidade de viver o suficiente para descobrir algum prazer em existir, porque foi forçado a sucumbir. Morrer cedo demais é algo que animal nenhum deseja ou espera – jamais.
Poderíamos ter provocado um incêndio no departamento de expedição, causando uma pane no painel de controle da esteira que conduz os pedaços de cadáveres que eles chamam de produtos. Mas não teríamos como mensurar a proporção do estrago. Não! Tinha que ser feito à moda antiga.
Descarregamos galões de querosene e derramamos sem economia por todos os espaços. Alguns de nós gargalhavam e entoavam: “Para aqueles que só o que pesa no bolso pesa na consciência, ignorando dos mais fracos a capacidade de senciência.” Já em silêncio, terminamos de despejar os últimos litros de querosene pelas dependências.
O odor não era agradável. Pelo menos mascarava a álgida fedentina de morte. Pedi que os outros saíssem do matadouro e me esperassem na entrada. Me ajoelhei, inclinei a cabeça em direção ao chão e falei: “Que vocês me perdoem por tudo que não fiz.”
Acendi um coquetel molotov e arremessei com força, fazendo a garrafa atravessar dezenas de metros antes de explodir em chamas, como um pássaro dourado ganhando a liberdade. O fogo estava faminto, e tudo que um dia serviu para ceifar tantos animais conheceria o seu próprio fim.
Borges e os seguranças já tinham partido. Lá fora, assistimos a crescente cólera do fogo que representava a nossa própria. Assim que o prédio começou a desmoronar, Marcelo confirmou que não havia ninguém nas imediações. E o tempo previsto para a chegada do Corpo de Bombeiros não poderia ser outro – somente quando as chamas deitassem a última fundação.
Talvez tenha sido o maior espetáculo de nossas vidas. Afinal, ninguém dança melhor que o fogo quando suplanta a sevícia humana contra outras espécies. Ele é livre, mais do que nós na nossa incompletude existencial que perpetuamos por empáfia e pedantismo.
— Sentimos muito pelas pessoas que podem ficar desempregadas, mas ninguém deveria se profissionalizar em tirar vidas. Isso destrói o outro e você, mesmo que você não perceba – disse Sonia.
— É, não acho que alguém consiga ser feliz trabalhando num lugar desgraçado desse, ainda mais num ambiente onde se gera mais morte do que emprego; e menos ainda qualidade de vida – acrescentou Lúcia.
Fomos embora, não crentes de que estávamos salvando o mundo, mas acreditando que uma mensagem foi dada – nem todos abaixam a cabeça ou se mantêm calados diante da intransigência humana, de suas ações escusáveis, caprichosas e gananciosas.
Me entreguei à polícia no dia seguinte, e insisti para que ninguém fizesse o mesmo. Se eu não me entregasse, as pessoas não saberiam o que aconteceu no matadouro. Ah! Algumas matérias dizem que sou um piromaníaco, desequilibrado; alguém sem qualquer motivação. A mídia independente e as redes sociais estão aí para provar o contrário.
Ainda não fui a julgamento. Faz dois meses que estou em prisão preventiva. Muita gente se afastou de mim; pessoas que não me fazem falta. Os poucos e bons amigos me trazem notícias. Fiquei sabendo que mais de 30 matadouros foram incendiados até agora. Não sei onde e quando. Ninguém se feriu ou morreu. Isso é bom. Dizem que sou o mentor intelectual. Isso é ruim. A única coisa que fiz foi mostrar que hoje não é ontem, e que o fogo também representa o renascimento daquilo que amortece o desconhecimento.
Joana do Matadouro
Um dos animais levantou a cabeça e observou silenciosamente os olhos de Joana
Enquanto as crianças choravam, Joana abriu a porta da geladeira e viu que não havia nada lá dentro, a não ser um pouco de água em uma garrafa pet. Ela já sabia disso, mas talvez por motivo de fé acreditasse que uma porção de alimentos pudesse brotar da porta. Ou, quem sabe, das planas divisórias de plástico, iluminadas por uma lâmpada que tremulava, ameaçando se apagar completamente a qualquer momento, assim como sua própria vida.
Com as mãos no rosto, sentiu o palato arder e se esforçou para não gritar e esmurrar a parede com o pouco de força que restara. Não teve coragem de pedir novamente ao vizinho que “emprestasse” uma xícara de arroz e feijão. Quando o silêncio tomou conta da casa, ela sabia que as crianças já estavam dormindo:
— Eu morreria aqui agora pela salvação dos meus filhos. Eles não merecem sofrer por minha causa – balbuciou diante de uma vela, a única luz da casa após o corte de energia elétrica no final da tarde.
Depois de receber cesta básica por três meses, Joana não tinha mais a quem recorrer, e por ter sido abandonada, muitos a culpavam, dizendo que ela era um fracasso como mulher – “incapaz de atender as necessidades do marido”. Quando saía às ruas, vez ou outra ouvia alguma ofensa. Em vez de reagir, ela ignorava. Preferia se preocupar somente com os filhos, e deixar que a vida se encarregasse do resto.
Em uma tarde de domingo, o vizinho João Batista contou que abriram uma vaga no Frigorífico Areia Nova, onde ele trabalhava como motorista há mais de dez anos.
— Só que é na linha de abate, serviço que pode ser desagradável e pesado às vezes. O salário não é dos melhores, mas já é alguma coisa. Se for do seu interesse, posso levar a senhora lá.
Com a experiência de quem já trabalhou no corte de cana e na colheita de mandioca, a palavra “pesado” não assustava ou incomodava Joana, mas sim a ideia de matar animais para sobreviver. Por isso, hesitou por dois dias até concordar em participar do treinamento na linha de abate.
Em uma manhã, pegou carona com João Batista, e na cabine do caminhão sentiu um estranho cheiro agridoce. Notando a reação, o vizinho explicou:
— Deram nos córneos dum boi fujão aí que a gente foi buscar lá pelas bandas da Pedra Gaiteira. Ele não queria vir por bem, tivemo que arrasta na pancada. Quando deitou lá atrás, já tava desmaiado. A boca do bicho sangrou que nem bica de mina. Nunca vi coisa igual. Só machucaram a cabeça; deram choque nele. Não podia exagerar pra não estragar o couro. Agora esse cheiro que ficou aí é dele, e taí pra mais de semana. Não sei se a senhora acredita em sortilégio, mas acho que esse bicho morreu antes da hora, e o sangue taí pra lembrar a gente toda hora.
Joana não disse nada, mas sentiu um calafrio que começou na ponta dos pés e terminou na nuca. “A morte nunca cheira bem”, ecoou na sua consciência. O silêncio foi mantido até a chegada ao matadouro, onde outros caminhões estacionaram para descarregar a boiada.
Joana testemunhou os passos lentos e pesados da manada, que parecia um cortejo fúnebre. Nunca tinha visto de perto tantos animais reunidos em um mesmo lugar. Em pouco tempo, todos estariam mortos; incapazes de sentir o frescor da manhã outonal, de trocar olhares com os seus, ou de simplesmente matar a sede que já não existiria mais. Seria o fim de tudo que se movia sobre quatro patas naquele pedaço de terra vermelha onde diziam que tudo dava, menos o direito à vida bovina.
Sob ordens humanas, e em meio a olhares mecânicos, naturalizados pela prática cotidiana, pouco a pouco o gado seguiu até um corredor relativamente estreito – de vinte metros de comprimento e quatro metros de largura. “Se fosse gente, já estariam dando com os cotovelos um no outro. Que lugarzinho apertado”, comentou Joana com João Batista, que respondeu com um sorriso amarelecido.
Daquele lugar, nenhum dos bois corpulentos fugiria. Seria preciso machucar um companheiro para conseguir algum espaço; e nenhum deles parecia disposto a ferir alguém. A boiada continuou atravessando o corredor. Conforme os animais desapareciam da fila, mais adiante ouvia-se barulhos estranhos de metais, algo se chocando contra o piso, alguns mugidos curtos e outros mais longos.
Sem tempo para cordialidades, um dos encarregados gritou o nome de Joana e falou que se ela quisesse o trabalho teria que acompanhá-lo. “Seu trabalho aqui vai ser na caixa, mas antes veremos como você se sai no treinamento”, avisou Oliveira, o responsável pelos magarefes. Ela o seguiu até um local, onde um boi branco foi colocado dentro de um caixote. Quando o animal entrou, ele olhou para Joana e, sensibilizada, ela desviou os olhos. “Você tem que ver o serviço. É pra isso que você tá aqui, não é não?”, questionou o encarregado.
Ele mostrou uma pistola para Joana e disse que o processo é bem simples, mas é preciso atingir o ponto certo no crânio do boi. “É nessa altura aqui, tá vendo? Nem pra cá, nem pra lá. Não tem segredo. É um serviço quase sempre limpo.” Enquanto Joana prestava atenção, o boi recebeu um tiro de pistola disparado por Oliveira. Depois que o dardo atravessou o cérebro do animal, ele deu um mugido lamurioso e desabou no chão, fazendo a caixa tremer.
— Seu serviço basicamente é esse. Colocar o bicho pra dormir. O resto é com a outra equipe. A não ser que você queira colocar a mão na massa. O que acha?
— Não, senhor — respondeu, se esforçando para velar o impacto que aquela cena teve sobre ela.
Depois de conhecer todas as etapas do trabalho no matadouro, e de ser aprovada no treinamento, Joana foi contratada na semana seguinte. O salário de mil e trezentos reais custaria muitas mortes ao final do mês. Para não pensar tanto nisso, ela sempre olhava uma foto dos três filhos com idade entre 3 e 6 anos, deixados aos cuidados da avó enquanto trabalhava.
Em uma manhã de segunda-feira, após três semanas de serviço, Joana sabia que seria preciso abater o primeiro boi sem a supervisão de Oliveira. Antes de sair de casa, se ajoelhou diante da cama e orou, pedindo a Deus que garantisse que tudo corresse bem em mais um dia de trabalho.
Como de costume, Joana assistiu mais uma vez a chegada da boiada, foi ao banheiro vestir o uniforme e umedeceu o rosto diante do espelho. Estava pálida e assustada. Ainda não tinha se acostumado a segurar uma pistola; nem a testemunhar a queda daqueles dóceis animais que em poucos segundos sucumbiam com os cérebros dilacerados. Não choravam como nós, mas choravam como eles, na quietude da incompreensão, trazendo nos olhos cristalinos a inocência de quem da humanidade espera a redenção.
Tão logo Joana ouviu um barulho, um boi foi empurrado para dentro da caixa. A cena se repetiu muitas vezes naquele dia e em muitos outros. À tarde, um dos animais levantou a cabeça e observou silenciosamente os olhos de Joana. A ausência de som e de movimentos por parte do boi a chocou mais do que se ele tivesse reagido e tentado fugir – porque a mansidão significava que ele confiava nela.
As mãos de Joana tremularam até que ela ouviu um grito ao fundo: “Vamos agilizar isso aí que hoje a fila é grande.” Joana posicionou a pistola e disparou contra a cabeça do animal. O dardo não penetrou o cérebro, mas fez um furo no crânio, por onde o sangue desceu. Longe de se entregar ao próprio fim, o boi começou a mugir e a tentar escapar da caixa, mas não sem antes confrontar os olhos de Joana, mostrando que ele sabia que ela tentou matá-lo. Desesperada, se afastou e começou a gritar por ajuda.
Oliveira interveio e assobiou para dois rapazes. “Deu merda! Deu merda! Vamos! Vamos! Rápido!” Eles entenderam e se apressaram carregando duas marretas. Mandaram Joana se afastar e intercalaram marretadas na cabeça do boi. Agitado, respingava sangue e mugia como se sua vida dependesse dos seus berros. Diante da cena, e do boi lutando para sobreviver mesmo depois de inúmeras pancadas, Joana ficou chocada. Havia sangue em seu uniforme, cabelos e pescoço.
Não conseguia mais negar a si mesma que tinha tomado parte em um tipo nefasto e lancinante de violência. O tiro de pistola, que parecia limpo, até então serviu apenas para mascarar um fato imutável – não há romantismo na morte de quem não quer morrer, independente do método. A constatação fez seu coração disparar. Mais constrangida e abalada do que nunca, se afastou e correu até o banheiro sem pedir autorização. Vomitou tanto que sentiu dores intensas na garganta. Vendo o estado de Joana, Oliveira a dispensou, permitindo que ela fosse para casa.
— Você tem doença, Joana. E não é doença de brincadeira. É coisa séria — disse Oliveira.
— Como assim?
— Você tem a doença do “não matarás”. Pode ir pra casa. Aqui não é lugar pra você. Vou dar um jeito de garantir que você receba o salário do mês pelo seu esforço.
Antes de deixar o matadouro, Joana tomou um banho demorado e, quando terminou, se encolheu nua em um canto. Através do ralo, por onde a água descia, ela viu um pedaço de carne bovina que se liquefazia. Os olhos do boi morto à marretadas a espiavam entre os frisos do ralo. Por minutos, Joana viu tudo girando, mas não conseguiu chorar.
Em casa, à noite, ainda sentia o cheiro agridoce do sangue do boi que respingou em seu corpo. Perguntou aos filhos e à sua mãe se eles notaram algum odor diferente nela, mas ninguém percebeu – só Joana. Depois de um jantar sem carne, caminhou até o quintal e falseou um sorriso ao ver os filhos brincando.
— Olha, mãe! Eu sou o boi Tadinho, o Guilherme é o boi Chorinho e o Gabriel é o boiadeiro Marquinho. A brincadeira é correr e não deixar o boiadeiro pegar a gente — contou Gustavo, o filho mais velho, com expressão doce e quiescente.
Joana simulou mais um sorriso e sentou-se em uma cadeira sob a jabuticabeira. Quando seus filhos e sua mãe dormiram, ela retornou ao quintal, observou o céu estrelado e uma fazenda que começava onde seu bairro terminava. Em seu colo, havia um embrulho. Ela desenrolou um revólver calibre 38.
— Que a justiça seja feita aqui e agora, que meus filhos e minha mãe superem essa perda e que Deus me perdoe por todo o mal que eu fiz.
Joana tirou a arma do colo e colocou o cano gelado dentro da boca. Fechou os olhos e as lágrimas desceram pesadas e silenciosas. Prestes a acionar o gatilho, ouviu um barulho, abriu os olhos e tirou a arma da boca. Um bezerro pardo, que trazia um coraçãozinho branco de pelos no topo da cabeça, começou a lamber a sua mão. Joana guardou o revólver.
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“Mas o boi tem que morrer? Ele não chora? E a família dele?”
No mercado, perto da fila do açougue, ouvi uma garotinha conversando com a mãe. Com a naturalidade típica das crianças, perguntou por que ela tinha que comer carne.
— Porque você precisa de proteína pra crescer forte e saudável.
— Mas o boi tem que morrer? Ele não chora? E a família dele?
Constrangida, a mulher saiu da fila do açougue com a filha enquanto algumas pessoas riam e outras refletiam.







