Archive for the ‘Vegetarianismo/Veganismo’ Category
Amílcar de Sousa: “A carne não é o alimento do homem”
“A maior parte da gente […] se visse morrer os animais, não se banquetearia com tão grande gáudio…”
Foi em 1908 que o médico Amílcar Augusto Queirós de Sousa, defensor do vegetarianismo, fundou na Avenida Rodrigues de Freitas, na cidade do Porto, a Sociedade Vegetariana de Portugal. No ano seguinte, Sousa inaugurou a revista “O Vegetariano”, periódico mensal que circulou até 1918 e teve boa repercussão na Europa e no Brasil.
Especialista em dietética e nutrição, Amílcar escreveu que da velha confusão de teorias médicas, da grande época obscura do empirismo, como um dogma da ciência de então, uma forma errónea e cheia de preconceito, como se fora um mandado religioso e por isso mesmo eivado de má fé, surgiu com esta frase perturbante: o homem é omnívoro. Como à boca se pode levar tudo que queira, daí resultou essa monstruosidade deturpante da humanidade. Tal reflexão consta na página 45 da 4ª edição da revista “O Vegetariano”, publicada em 1912. À época, Sousa já realizava conferências e palestras em defesa do vegetarianismo.
No livro “As Hortaliças na Medicina Natural”, lançado em 1992, Alfons Balbach e Daniel S.F. Boarim narram que Amílcar de Sousa foi um grande apologista do regime frugívoro: não só ele, como toda a família, só se alimentavam de frutas. “Na sua revista intitulada ‘O Vegetarianismo’ tem feito propaganda das mais inteligentes e proveitosas em favor deste regime, e o número de adeptos que conseguiu converter ao regime frugívoro orça por muitas centenas em tempo relativamente curto”, registraram.
Na obra “O Livro Negro do Açúcar – Algumas Verdades Sobre a Indústria da Doença”, de 2006, Fernando Carvalho observa que Amílcar de Sousa, um médico do século XIX, estava melhor informado do que seus colegas da atualidade. “Desde a forma dos dentes à capacidade do estômago e às dimensões do intestino, como dados anatómicos em referência à comparação da série animal de que o homem é primaz – tudo demonstra que o gênero humano não é omnívoro. A dentadura é semelhante à dos símios antropoides que se alimentam de frutos; e se os obrigarmos a serem carnívoros, imediatamente estigmas de degenerescência se notam, doenças de pele, a queda dos pelos, o reumático e outras manifestações de artritismo”, argumenta Sousa no artigo “O Homem é Frugívoro”, de 1912.
Em setembro do mesmo ano, o médico publicou “O Caldo de Carne”. No artigo da revista “O Vegetariano”, ele afirma que a carne não é o alimento do homem. Se fosse, o ser humano deveria ter condições de matar os animais com mãos e garras, triturando os ossos ou lacerando os músculos ainda quentes com os dentes, assim como faz a hiena. “Desprovido de armas cortantes e do artifício da culinária, o homem não pode utilizar-se da carne nem do peixe”, justifica.

Periódico em que Sousa divulgava suas ideias e descobertas em relação ao vegetarianismo (Foto: Reprodução)
Segundo o médico português, para uma consciência límpida e um espírito moral, ver morrer um boi é um espetáculo canibalesco e incompatível com a humanidade. “Assistir ao assassinato dum cordeiro é, sem dúvida, barbaridade infame. Queremos acreditar que a maior parte da gente que bebe às colheres a sopa, ou corta com a faca um pedaço de vaca, se visse morrer os animais, não se banquetearia com tão grande gáudio…”, defendeu no artigo “Caldo de Carne”.
Um homem revolucionário, Amílcar de Sousa é considerado pela Associação Vegetariana Portuguesa (AVP) o maior impulsionador do vegetarianismo e do naturismo em Portugal. “Ele conseguiu mobilizar outros médicos e personalidades da burguesia para o estilo de vida natural e saudável”, reconhecem Gabriela Oliveira e Nuno Metello no artigo “Vegetarianos há mais de um século”, publicado no semanário português SOL em 2011.
Em 1923, Sousa publicou a novela naturista “Redenção”, que aborda a importância da proximidade do ser humano com a natureza. Na obra, ele defende uma consciência ética universal, em que os animais têm assegurado o direito de não serem mortos simplesmente para atender maus hábitos culturais e alimentares da humanidade.
“Mas por que é que estas ideias [do vegetarianismo] não as tem defendido a classe médica? É simples a resposta. É que não há pílulas de sol, nem injecções de exercício, nem tão pouco vacinas de ar… e é preciso viver dos doentes. O médico do futuro é só aquele que nada receitar. Ensinem os doentes a viverem conforme a natureza e os sãos a não se desviarem dela. O medicamento fez já as suas provas. São negativas”, declarou na revista “O Vegetariano” em abril de 1912.
Segundo Amílcar de Souza, o melhor que os pais podem deixar aos filhos é a saúde. Portanto, para que os filhos não tenham doenças, o ideal é ensiná-los a seguir um regime natural, valorizar a vida ao ar livre e praticar exercícios regulares. “A alimentação humana tem sido desvirtuada pelo preconceito. [O leite] não é alimento do homem, mas sim dos filhos das vacas, dos cabritos, dos jumentos etc., antes de terem dentes para comer as ervas dos montes e prados! […] A velha fábula de Prometeu que roubou o fogo do céu para comer os cadáveres dos animais cozinhados, eis a base em que assenta toda a errónea conduta da humanidade”, enfatizou em publicação da revista “O Vegetariano” de 5 de julho de 1912.
O pioneiro do vegetarianismo português

Maria Feio: “[Amílcar de Sousa] Dispõe de uma resistência hercúlea. Caminha dezenas de quilómetros a pé sem a menor fadiga” (Foto: Reprodução)
Obras publicadas por Amílcar de Sousa
“O Naturismo”, “A Saúde pelo Naturismo”, “A Cura da Prisão do Ventre”, “A Redenção”, “Arte de Viver”, “Banhos de Sol” e “O Naturismo em Vinte Lições”.
Saiba Mais
Amílcar de Sousa era amigo do poeta brasileiro e também defensor do vegetarianismo Carlos Dias Fernandes, com quem se correspondia frequentemente.
Adepto do pedestrianismo, o médico chegou a viajar de Lisboa a Sines a pé, percorrendo mais de 160 quilômetros. Além disso, gostava de caminhar descalço. Faleceu na cidade do Porto em 1940.
Sousa considerava Pitágoras o maior filósofo da história da humanidade. Para ele, Jean-Jacques Rousseau, que defendia a importância do contato das crianças com a natureza, era o melhor educador.
Referências
O Vegetariano: Mensário Naturista Ilustrado – Volumes I a IV. Sociedade Vegetariana de Portugal (1912).
Boarim, Daniel S.F.; Balbach, Alfons. As Hortaliças na Medicina Natural (1992).
Oliveira, Gabriela; Metello, Nuno. Vegetarianos há mais de um século. Semanário SOL. Páginas 40 e 41 (30 de setembro de 2011). Disponível em http://www.avp.org.pt/notiacutecias/vegetarianos-h-mais-de-um-sculo
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Editorial Enciclopédia. Volume 29. Página 761.
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John Harvey Kellogg, o médico que enfrentou a indústria da carne
Kellogg é o criador do mais famoso cereal matinal, além da manteiga de amendoim e da granola

John Harvey viajava ministrando palestras sobre os benefícios da dieta vegetariana (Foto: Reprodução)
Administrador do lendário Sanatório Battle Creek, em Michigan, nos Estados Unidos, e famoso pela criação do cereal matinal de milho Kellogg’s, desenvolvido em parceria com a esposa Ella e o irmão Will Keith, o médico John Harvey Kellogg se tornou um defensor da alimentação sem carne a partir do século XIX.
Há diversas pesquisas realizadas pelo médico em que ele associa o consumo de carne com a redução do estímulo sexual a longo prazo. Dr. Kellogg, como era mais conhecido, foi o responsável pela criação da manteiga de amendoim e da granola. Ou seja, dois alimentos que a princípio surgiram como opções para os vegetarianos. O médico acreditava que as oleaginosas iriam salvar a humanidade quando houvesse grande diminuição da oferta de alimentos. Porém, enquanto existisse boa diversidade, ele defendia o consumo de grãos integrais, verduras, legumes e frutas, combinação que representa a dieta natural humana, segundo John Harvey.
Um distinto cirurgião, Dr. Kellogg viajava pelos Estados Unidos ministrando palestras sobre os benefícios da dieta vegetariana. Também publicava suas pesquisas sobre o assunto na sua popular revista Good Health. Seus esforços contra a indústria da carne, principalmente contra a campanha baseada no slogan “Coma Mais Carne”, ajudaram a ampliar o interesse pelo movimento vegetariano. Em 1876, o médico se tornou superintendente do Sanatório Battle Creek, que tinha seu irmão Will Keith como tesoureiro. Administrado pela Igreja Adventista do Sétimo Dia, o sanatório seguia os preceitos da própria instituição religiosa, ou seja, o incentivo à dieta livre de carne e à abstinência de álcool e tabaco. Para além disso, Kellogg estimulava a prática de atividades físicas e exercícios respiratórios.
Sob o comando de John Harvey, o Sanatório Battle Creek, que tinha características de resort e spa holístico, se tornou referência nacional e internacional. Sua popularidade cresceu muito antes da Grande Depressão que assolou os Estados Unidos em 1929. Fundado em 1866 pela Igreja Adventista de Sétimo Dia, sob o nome de Western Health Reform Institute, o sanatório foi batizado com o nome de Battle Creek pelo Dr. Kellogg porque ele achou mais adequado homenagear a cidade que o abrigava.
Foi no mesmo local que John Harvey, sua esposa Ella e seu irmão Will Keith criaram no início do século XX aquele se tornaria o mais famoso cereal matinal à base de milho. Em 1906, Will Keith fundou a Battle Creek Toasted Corn Flake Company, que recebeu o nome de Kellogg’s Toasted Corn Flakes em 1922, quando mudaram o nome da empresa para Kellogg Company. O cereal foi criado como uma reação ao café tipicamente estadunidense, que sempre incluía algum tipo de carne.
Kellogg teve a ideia de substitui-lo por uma opção saudável quando conheceu o cereal preparado por James Caleb Jackson, do Sanatório Dansville, de Nova York. A diferença é que o alimento que serviu de inspiração precisava ser embebido por uma noite antes de consumido, ao contrário do cereal Kellogg que podia ser servido imediatamente. O superintendente do Sanatório Battle Creek e sua esposa Ella criaram vários alimentos para ajudar os pacientes a continuarem se alimentando de acordo com o programa alimentar do sanatório quando retornassem para casa.

“A carne, o cigarro e o álcool são venenos para o intestino. E todos os males começam no intestino” (Foto: Reprodução)
À época, eles contrataram cozinheiros e nutricionistas para desenvolver produtos saudáveis que pudessem ser entregues em domicílio por meio do serviço postal. Uma das especialistas em nutrição que trabalhou para o Dr. Kellogg era Lenna Cooper, fundadora da Associação Dietética Americana (ADA), principal referência em nutrição nos Estados Unidos. No Battle Creek, John Harvey e sua esposa ensinaram donas de casa a prepararem corretamente os alimentos. Até mesmo os visitantes podiam participar de sessões de exercícios de respiração e treinamentos nutricionais sobre combinação de alimentos que garantissem melhor digestão ao longo do dia. Banhos de sol também eram recomendados.
Kellogg defendia que muitas das doenças que acometem a humanidade poderiam ser amenizadas através de mudanças na flora intestinal. Ele argumentava que as bactérias do intestino poderiam produzir toxinas patogênicas durante a digestão das proteínas, assim envenenando o sangue. Por isso, o médico recomendava uma dieta livre de carnes, com moderada quantidade de proteínas, laxativa, e com alimentos ricos em fibras. Um dos cirurgiões mais habilidosos de seu tempo, Kellogg atendia gratuitamente muitos pacientes em sua clínica. Ele era contra a realização de cirurgias desnecessárias no tratamento de doenças, um problema que via como recorrente na medicina.
Defensor da circuncisão, prática que qualificava como higiênica e benéfica para a saúde do homem, John Harvey teve muitos pacientes notáveis que viam a dieta livre de carne como a alimentação do futuro. Entre eles estavam o ex-presidente William Howard Taft, o escritor irlandês e vencedor do Prêmio Nobel de Literatura George Bernard Shaw, Henry Ford (fundador da Ford), a famosa aviadora Amelia Earhart e o economista Irving Fisher. Dr. Kellogg criou o conceito “Biologic Living”, uma forma moderna de medicina preventiva.
Ele sempre dizia que a medicina deveria se voltar mais para a prevenção de doenças. Além de alimentos de origem animal, o médico recomendava abstinência de álcool, tabaco, café, chá e chocolate. Repouso adequado, atividades ao ar livre e vestuário confortável também faziam parte de sua cartilha para uma vida saudável. Mesmo acreditando na importância do descanso, quando estava com pouco mais de 60 anos, o médico dormia apenas quatro horas por noite. Com 80 anos, decidiu reduzir a própria jornada de trabalho de 15 horas para 12 horas. “A carne, o cigarro e o álcool são venenos para o intestino. E todos os males começam no intestino”, declarava copiosamente.
John Harvey Kellogg tinha argumentos para os mais diferentes públicos quando questionado sobre o motivo de reprovar o consumo de carne. Aos religiosos, ele citava referências da Bíblia. Para os darwinistas, o médico contava histórias sobre os grandes macacos, animais biologicamente próximos do ser humano e que não consumiam carne. E aos moralistas, ele dissertava sobre o fato de que ao homem jamais foi concedido o direito de matar animais – qualificando tal ato como imoral. O Sanatório Battle Creek chamava atenção de personalidades que estavam no topo da hierarquia social e financeira. Entre seus hóspedes estavam também Clarence W. Barron, presidente da financeira Dow Jones, S.S. Kresge, proprietário de uma das maiores empresas de varejo do século XX, e Harvey Firestone, fundador da fabricante de pneus que leva seu sobrenome.
Na celebração do Ano Novo de 1930, o Dr. Kellogg ofereceu aos hóspedes do Battle Creek um jantar baseado em torta de batata, berinjelas, cogumelos e geleia de groselha. Embora hoje não seja tão lembrado, John Harvey foi o responsável pela popularização e conscientização da população dos Estados Unidos no que diz respeito à importância de se comer frutas e vegetais. Somente no Sanatório Battle Creek, e valendo-se da dieta sem carne, o médico obteve êxito no tratamento de milhares de pessoas. “Tenho a cura para o câncer, úlceras, diabetes, esquizofrenia, transtorno bipolar, acne, anemia, astenia, enxaqueca e velhice prematura”, afirmava.
Entre os tipos de sementes que Kellogg considerava as mais promissoras para a saúde humana estavam gergelim e psyllium, extraído de uma planta do gênero plantago, rica em óleos, fibras solúveis, insolúveis e mucilagem. Ao médico é atribuída à introdução do psyllium na alimentação dos norte-americanos, além da descoberta do potencial do uso de grãos de soja como alimento. De acordo com a pesquisadora Amy South, do The Vegetarian Resource Group, dos Estados Unidos, John Harvey Kellogg possuía tanta energia aos 77 anos que abriu uma filial do Sanatório Battle Creek em Miami, na Flórida. Aos 78 anos, participou de uma bateria de exames de saúde, obtendo pontuação superior a de muitos jovens examinados.
Com 80 anos, ele andava de bicicleta, dava palestras e atendia pacientes regularmente. Aos 88 anos, completou 22 mil cirurgias realizadas. Quando chegou aos 90 anos, viajou para Washington em busca de subsídios para a construção de um novo prédio para o Sanatório Battle Creek. Em decorrência da Segunda Guerra Mundial, tentaram convencê-lo a desistir da ideia. Ele foi persistente e conseguiu alcançar seu objetivo. Sentindo-se em paz, John Harvey Kellogg faleceu aos 91 anos, mas não sem antes atribuir sua longevidade à dieta sem carne e ao conceito “Biologic Living”.
Na década de 1960, o vegetarianismo ganhou força nos Estados Unidos. No entanto, com mínimas referências, os vegetarianos acabaram recorrendo à literatura da Inglaterra, onde havia um movimento vegetariano bastante organizado. Nesse mesmo período, o que eles encontraram de mais valioso nos Estados Unidos foi a literatura deixada pelo Dr. Kellogg. Ou seja, seus livros, assim como de outros escritores que, inspirados no médico que criticava o consumo de carne, abordavam nutrição e saúde. O trabalho do superintendente do Sanatório Battle Creek serviu e continua servindo para derrubar o mito de que uma pessoa sem carne pode sentir-se fraca ou adoecer. Curiosamente, muito do que é dito hoje como se fosse novidade em relação à dieta vegetariana, já era difundido por John Harvey Kellogg. A verdade é que o mundo demorou para dar atenção às suas descobertas.
Quando os frigoríficos tentaram intimidar o Dr. Kellogg
Há mais de cem anos, os donos de frigoríficos dos Estados Unidos se uniram e, através de uma campanha lobista, convenceram o Departamento de Agricultura a permitir que eles espalhassem cartazes por todo o país, mostrando a carne como algo extremamente desejável e saudável. À época, o médico John Harvey Kellogg, que mais tarde criaria os Sucrilhos Kellogg’s em parceria com o irmão, ficou sabendo da ação e decidiu protestar.
Com dinheiro do próprio bolso, ele criou cartazes para serem fixados ao lado daqueles divulgados pela indústria frigorífica. Seus cartazes listavam todos os motivos pelos quais as pessoas não deveriam consumir carne, assim fazendo um contraponto. Sentindo-se ameaçados, os proprietários de frigoríficos entraram com uma queixa junto à Comissão Federal de Comércio, em Washington, tentando proibir que os cartazes que condenavam o consumo de carne fossem distribuídos.
O protesto gerou tanta comoção que um advogado foi enviado ao Sanatório Battle Creek, administrado por John Harvey Kellogg, para investigar suas ações. Depois de passar um tempo com o médico, e tomando conhecimento de seus argumentos, o conselheiro da Comissão Federal de Comércio decidiu que ele não merecia nenhum tipo de penalização. Algum tempo depois, o advogado reencontrou Kellog e disse: “Sabe, doutor, não como carne desde o dia em que estive em Battle Creek.”
Saiba Mais
John Harvey Kellogg nasceu em 26 de fevereiro de 1852 em Tyrone, Michigan, e faleceu em 14 de dezembro de 1943 em Battle Creek, Michigan.
Muitas de suas teorias sobre os benefícios da dieta sem carne foram baseadas em estudos que ele realizou com povos orientais que não consumiam alimentos de origem animal.
Em 1913, o 4º Congresso da União Vegetariana Internacional, realizado na Holanda, discutiu pesquisas feitas pelo Dr. Kellogg.
O médico reclamava que os seres humanos consumiam sal demais. Também foi um dos primeiros profissionais a perceber que o fumo se tornaria no futuro a principal causa do câncer de pulmão. À época, poucos deram ouvidos à sua declaração.
Referências
Schwarz, Richard. John Harvey Kellogg, M.D.: Pioneering Health Reformer (Adventist Pioneer). Review & Herald Publishing (2006).
Carson, Gerald. Cornflake Crusade. Rinehart (1957).
Berry, Rynn. Famous Vegetarians. Pythagorean Publishers (2003).
Money, John. The Destroying Angel: Sex, Fitness & Food in the Legacy of Degeneracy Theory, Graham Crackers, Kellogg’s Corn Flakes & American Health History. Prometheus Books (1985).
Kellogg, John Harvey. Plain Facts of Old & Young. I.F. Segner (1882).
South, Amy. Dr. John Harvey Kellogg. Vegan Handbook. The Vegetarian Resource Group. Disponível em http://www.vrg.org/
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Quando John Harvey Kellogg desafiou a indústria frigorífica
Há mais de cem anos, os donos de frigoríficos dos Estados Unidos se uniram e, através de uma campanha lobista, convenceram o Departamento de Agricultura a permitir que eles espalhassem cartazes por todo o país, mostrando a carne como algo extremamente desejável e saudável. À época, o médico John Harvey Kellogg, que mais tarde criaria os Sucrilhos Kellogg’s em parceria com o irmão, ficou sabendo da ação e decidiu protestar.
Com dinheiro do próprio bolso, ele criou cartazes para serem fixados ao lado daqueles divulgados pela indústria frigorífica. Seus cartazes listavam todos os motivos pelos quais as pessoas não deveriam consumir carne, assim fazendo um contraponto.
Sentindo-se ameaçados, os proprietários de frigoríficos entraram com uma queixa junto à Comissão Federal de Comércio, em Washington, tentando proibir que os cartazes que condenavam o consumo de carne fossem distribuídos.
O protesto gerou tanta comoção que um advogado foi enviado ao Sanatório Battle Creek, administrado por John Harvey Kellogg, para investigar suas ações. Depois de passar um tempo com o médico, e tomando conhecimento de seus argumentos, o conselheiro da Comissão Federal de Comércio decidiu que ele não merecia nenhum tipo de penalização.
Algum tempo depois, o advogado reencontrou Kellog e disse: “Sabe, doutor, não como carne desde o dia em que estive em Battle Creek.”
Referência
Schwarz, Richard. John Harvey Kellogg, M.D.: Pioneering Health Reformer (Adventist Pioneer). Review & Herald Publishing (2006).
Quando me tornei vegetariano…

Não posso admitir que o meu paladar seja mais importante do que a preservação da vida animal (Arte: Vegan Solution)
Quando me tornei vegetariano, não tomei tal decisão pela minha saúde. Na realidade, cheguei a um momento da minha vida em que comecei a me sentir desconfortável consumindo alimentos de origem animal. Foi uma transformação natural, de dentro para fora. Eu nem mesmo tinha assistido qualquer documentário sobre o assunto. Comecei a pesquisar depois. Como pratico atividades físicas há muitos anos, tem quem associe isso à saúde, mas não, não tem nada a ver. Considero sim a dieta vegetariana bem saudável e percebi inúmeros benefícios. Ainda assim, esta não foi a minha motivação.
Levando em conta quem sou hoje, mais do que nunca, não posso admitir que o meu paladar seja mais importante do que a preservação da vida animal. Para mim, o especismo se tornou incômodo e isso veio num crescendo até que eu abdicasse completamente do consumo de alimentos de origem animal. Como sempre tive cães e gatos em casa, acho injusto da minha parte me alimentar de outro animal que esteja sobre a minha mesa mais por uma questão cultural do que essencial. Devo dizer que minha própria autoavaliação quanto ao meu papel como ser vivo, reforçada por algumas experiências, me influenciou muito.
Sim, escrevo sobre vegetarianismo e veganismo, até porque sou jornalista e gosto de escrever sobre tudo que me agrada. Mas meus artigos são fundamentados em pesquisas, com o propósito de lançar luz ao que pouca gente sabe a respeito do assunto. Tanto que decidi relacionar mais o vegetarianismo e o veganismo com a literatura, o que acaba por ser um exercício jornalístico. E meus contos sobre o assunto abordam basicamente o respeito e o direito à vida independente de espécie. Não tenho a menor intenção em obrigar alguém a ser vegetariano. Vocês jamais vão me ver “batendo boca” por causa disso.
Quando uma pessoa demonstra não ter o menor interesse, por que eu iria forçá-la a ler sobre o assunto? Minhas palavras sobre o tema são direcionadas a quem os recebe de bom grado, sem se armar. Sou um sujeito extremamente tranquilo quanto a isso. Em qualquer lugar onde vou, só converso sobre vegetarianismo e veganismo se o assunto surgir naturalmente, se eu for chamado para falar disso ou se me fizerem perguntas. Este é o tipo de pessoa que sou.
Romain Rolland: “Milhares de animais [atualmente milhões] são assassinados todos os dias, sem sombra de remorso”
“Ele tentava elevar a própria fronte, gemendo como uma criança, balindo e pendendo a língua cinza”

Rolland também dedicou sua vida à defesa dos direitos dos animais e da dieta vegetariana (Foto: Reprodução)
Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1915, o escritor francês Romain Rolland, autor de “Jean-Christophe”, um dos romances mais importantes do século 20, também dedicou sua vida à defesa dos direitos dos animais e da dieta vegetariana. Importante pensador, Rolland influenciou Sigmund Freud e se tornou amigo de Mahatma Gandhi. Em 1922, o alemão Hermann Hesse, também vencedor do Nobel de Literatura, dedicou o livro “Sidarta”, um dos romances mais espiritualistas da literatura mundial, ao seu querido amigo Romain Rolland.
“Milhares [atualmente milhões] de animais são desnecessariamente assassinados todos os dias, sem sombra de remorso. Se alguém fizesse menção a isso, seria considerado ridículo. Por isso esse crime é imperdoável”, escreveu Romain Rolland no romance “Jean-Christophe”, publicado em dez volumes entre os anos de 1904 e 1912. Na obra com viés autobiográfico, o autor francês narra a história de um gênio musical alemão que adotou a França como lar. A partir daí, ele sincretiza suas visões musicais, questões sociais, internacionalismo humanista e direitos dos animais.
“Ele não podia mais suportar ver uma das cenas mais ordinárias que testemunhara centenas de vezes – um bezerro chorando em uma cesta de vime, com seus grandes olhos salientes, seus tufos brancos encaracolados sobre a testa, seu focinho roxo e suas pernas dobradas. Havia um cordeiro com as quatro pernas amarradas sendo transportado por um camponês. Pendurado de cabeça para baixo, ele tentava elevar a própria fronte, gemendo como uma criança, balindo e pendendo a língua cinza. Havia aves amontoadas em uma cesta e podia-se ouvir ao longe os guinchos de um porco sangrando até a morte, além de um peixe a ser limpo em uma cozinha”, registrou Rolland em “Jean-Christophe”.
Em 1886, o que o influenciou a se tornar vegetariano e a adotar um estilo de vida frugal foi a obra “O que devemos fazer”, de Liev Tolstói, em que o escritor russo aborda a miséria, as desigualdades e os índices de mortalidade nas grandes cidades. Tolstói se questionava sobre finalidade do dinheiro e a divisão do trabalho, além de criticar o sistema político vigente. Ao saber que o escritor russo, um tradicional aristocrata, adotou o vegetarianismo e optou por trabalhar com camponeses, Roland enviou-lhe uma carta e obteve uma longa e alentadora resposta.
Mais tarde, inspirado pela filosofia vedanta, e principalmente pelas obras de Swami Vivekananda, um dos responsáveis pela introdução da vedanta e do yoga no Ocidente, Romain Rolland, um jovem exigente e tímido, se empenhou na redescoberta de si mesmo. Embora trabalhasse como professor, não gostava de lecionar. Sua vocação e satisfação maior era a escrita, tanto que em 1912, quando conseguiu garantir uma renda mensal modesta com a literatura, a sua primeira decisão foi pedir demissão do cargo de professor.
Pacifista ao longo de toda a sua vida, Romain Rolland protestou contra a Primeira Guerra Mundial. Quando se mudou para a Suíça, ele escreveu “Au-dessus de la mêlée”, uma crítica à guerra, publicada no Jornal de Genebra em 22 de setembro de 1914. Dez anos depois, lançou seu livro sobre o líder indiano Gandhi, de quem se tornou amigo em 1931, após o primeiro encontro dos dois. Em 1923, Rolland começou a se corresponder com o austríaco Sigmund Freud, criador da psicanálise. Os dois tinham grande admiração um pelo outro, tanto que em uma das cartas, Freud admitiu: “Trocar uma saudação com você continuará a ser uma feliz memória até os meus últimos dias.”
Estudioso do misticismo oriental, Romain apresentou a Sigmund Freud, com quem se correspondeu por mais de 15 anos, o conceito de “sentimento oceânico”, uma impressão de vínculo e comunhão com o mundo, desenvolvido através de suas pesquisas. Mais tarde, o austríaco publicou em 1929 o livro “Civilizações e Seus Descontentes”, que traz logo nas primeiras páginas um debate sobre a origem desse sentimento. Depois de ler a obra “O Futuro de uma Ilusão”, Rolland fez algumas observações que serviriam como premissa para Freud escrever “O Mal-Estar na Civilização”. O escritor francês exerceu influência sobre o austríaco e suas obras até 1939, quando Sigmund Freud faleceu.
Em 1928, Rolland e o filósofo húngaro e pesquisador da vida natural, Edmund Bordeaux Szekely, fundaram a Sociedade Biogênica Internacional com a intenção de expandir suas ideias sobre a integração entre mente, corpo e espírito. A instituição advogava em favor do estilo de vida simples e da alimentação vegetariana.
“As torturas inomináveis que os seres humanos infligem a essas criaturas inocentes fez seu coração doer. Concedendo aos animais um raio de razão, imagine o quanto o mundo pode ser um pesadelo terrível para eles. Um sonho com homens de sangue frio, cegos e surdos cortando suas gargantas, abrindo-as, eviscerando-os, fatiando-os, cozinhando-os vivos e às vezes rindo da forma como eles se contorcem de agonia. Existe algo mais atroz entre os canibais da África?”, escreveu Romain Rolland em “Jean-Christophe”.
O escritor francês foi uma das principais inspirações da ativista canadense Anita Krainc, co-fundadora do movimento vegano Toronto Pig Save, que em 22 de junho de 2015 foi presa após dar água a porcos confinados em um caminhão a caminho de um matadouro na Grande Toronto.
Romain Rolland e a internacionalização do humanismo
Nascido em Clamecy, Nièvre, em 29 de janeiro de 1866, o escritor francês veio de uma família diversificada, formada por grandes investidores da área urbana e pequenos agricultores. Na Escola Normal Superior de Paris, Romain Rolland estudou filosofia, mas desistiu porque não gostou do viés ideológico e impositivo do curso. Por isso optou por se graduar em história.
Em 1889, se mudou para Roma, onde viveu dois anos e se tornou amigo da escritora alemã Malwida von Meysenbug, amiga do filósofo Friedrich Nietzshe e do compositor Richard Wagner. As ideias de Rolland, aliadas aos ensinamentos de Liev Tolstói e as lições de Malwida, moldaram sua visão política e humanitária, internacionalizando suas ideias.
De volta à França em 1894, Rolland obteve seu título de doutorado com a tese “A Origem do Teatro Lírico Moderno – A História da Ópera antes de Lully e Scarlatti”. Ao longo de 20 anos, lecionou em vários liceus de Paris, até que foi nomeado diretor de educação musical da Escola de Estudos Sociais Avançados entre os anos de 1902 e 1911. Em 1903, também assumiu a primeira cadeira de história da música da Sorbonne.
Seu primeiro livro foi publicado em 1902, aos 36 anos, quando ele estudava o teatro popular e defendia a democratização do teatro. No ensaio “Le Théâtre du peuple”, publicado em 1913, Romain Rolland diz que o palco e o auditório devem sem abertos para as massas. “Precisamos que o teatro seja assistido pelo povo, mas antes temos que criar algo que seja voltado para eles”, sugeriu.
Como humanista, também abraçou o trabalho dos filósofos da Índia. Muitas de suas pesquisas foram registradas oralmente, através de conversas com Rabindranath Tagore e Mahatma Gandhi. Místico, Rolland enxergava a si mesmo como alguém com uma ancestralidade muito curiosa, e isto o inspirou a escrever a novela Colas Breugnon, publicada em 1919. Em seguida, vieram “Clérambault” e “Pierre et Luce”, de 1920; além do seu segundo romance de sete volumes – “L’âme Enchantée”, escrito entre os anos de 1922 e 1933.
Na primavera de 1919, o francês convidou o escritor irlandês George Bernard Shaw, também vegetariano e pacifista, para assinar uma petição em favor da paz. Rolland também se correspondeu com Albert Einstein, e juntos fundaram um comitê antifascista. Em 1920, o escritor francês retomou seus estudos sobre a filosofia mística da Ásia, especialmente da Índia, o que rendeu uma biografia sobre Gandhi, publicada em 1924.
Dois anos depois, ele se aprofundou nos estudos sobre o yoga e lançou as biografias dos gurus Vivikananda e Ramakrishina. Em 1932, ingressou no Comitê Mundial Contra a Guerra e o Fascismo, organizado por Willi Münzenberg. Depois se mudou para Villeneuve, às margens do Lago Genebra, no cantão de Vaud, e se entregou ainda mais à escrita.
Em 1935, Romain Rolland viajou para Moscou, a convite do escritor russo e também vegetariano Maxim Gorky. Como um tipo de embaixador dos artistas franceses na União Soviética, ele tentou convencer Josef Stalin a parar com a repressão contra seus opositores. Chegou a pedir clemência para o escritor anarquista Vicor Serge. Em 1937, Rolland retornou para Vézelay, uma comuna francesa da Borgonha, ocupada pelos nazistas em 1940. Se isolou e seguiu produzindo em ritmo intenso, até que faleceu em 30 de dezembro de 1944.
Saiba Mais
Em 1966, a União Soviética lançou um selo comemorativo no centenário de nascimento de Romain Rolland. A homenagem foi justificada como um tributo aos nobres ideais de sua produção literária, e ao amor e a simpatia com a qual ele descreveu os mais diferentes seres vivos.
Romain Rolland também escreveu biografias sobre Beethoven, publicada em 1903; Hugo Wolf, em 1905; Michel-Angelo, em 1906; e Tolstói, em 1911.
Seu grande amigo, o escritor austríaco Stefan Zweig lançou a biografia “Romain Rolland – The Man and his Work” em 1921.
Frase célebre de Romain Rolland
“O pessimismo da inteligência não deve abalar o otimismo da vontade.”
Referências
Rolland, Romain. Jean-Christophe (1904-1912). Editora Globo (1986).
Zweig, Stefan. Romain Rolland – The Man and his Work (1921). Disponível em archive.org.
Cruickshank, John. Rolland, Romain. The Penguin Companion to Literature 2: European Literature. Harmondsworth: Penguin (1969).
Parsons, William B. The Enigma of the Oceanic Feeling: Revisioning the Psychoanalytic Theory of Mysticism. Nova York. Oxford University Press (1999).
Bradby, David. Rolland, Romain. The Cambridge Guide to Theatre. Cambridge University Press (1998).
Sobre vegetarianismo, veganismo e a literatura

Pitágoras, um dos primeiros pensadores a contribuir com a consciência vegetariana ocidental (Pintura: Reprodução)
Meus artigos sobre vegetarianismo e veganismo reproduzem visões de escritores e pensadores que deram sua contribuição ao mundo das mais diversas formas, e muitos são desconhecidos enquanto vegetarianos ou defensores dos animais.
Sim, alguns dos meus textos podem ser duros, críticos, mas na construção deles me coloco como jornalista que sou, alguém que pesquisa e escreve baseando-se em obras e registros deixados por autores que entraram para a história da literatura ficcional, não ficcional e da filosofia.
Faço isso com seriedade e disciplina, assim como tudo na minha vida. Não escrevo para que as pessoas concordem com o personagem ou se sintam ofendidas, mas sim para que reflitam. Meu objetivo sempre foi lançar dúvidas, não respostas.
Até pouco tempo atrás, eu não sabia que ao longo da história tivemos tantos escritores e pensadores vegetarianos e simpatizantes, e muitos atuando em defesa dos animais. E muitas vezes tal aspecto da vida deles é pouco divulgado ou até desconhecido, embora os motivos não sejam claros.
Então é isso que tenho feito, tentado mostrar para quem se interessa pelo que escrevo que a preocupação com os animais, o vegetarianismo e até o veganismo existe há muito tempo e das mais variadas formas, sustentada em filosofias, opiniões e argumentos que vão dos mais sutis até o mais viscerais.
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Montaigne: “Há um dever geral da humanidade em relação aos animais, que têm vida e sentimento”
“E com que devoção e respeito vejo a própria imagem da amizade, tão pura, nos animais!”

O filósofo defendia que a humanidade deve justiça aos seus e benevolência às outras criaturas (Pintura: Reprodução)
O francês Michel de Montaigne foi um dos mais importantes filósofos e humanistas do Renascimento, e entrou para a história como o criador do gênero literário ensaio, situado entre o poético e o didático. No século XVI, inspirado pelo grego Plutarco, a quem via como um mestre, ele criticava a irracionalidade e o preconceito humano em relação às outras espécies. Seu trabalho, muito avançado para a época, influenciou pensadores como Friedrich Nietzsche, René Descartes, Jean-Jacques Rousseau e Isaac Asimov.
Vegetariano, Montaigne sempre defendeu os animais através de suas obras. Em “Ensaios”, publicado em março de 1580, considerado um dos livros não ficcionais mais influentes de todos os tempos, o pensador declarou acreditar que foi pelo massacre dos animais selvagens que o ferro tingido de sangue esquentou pela primeira vez. “E com que devoção e respeito vejo a própria imagem da amizade, tão pura, nos animais!”, escreveu.
Se aprofundando na história e na relação da humanidade com as outras espécies, o francês conta que antes do surgimento do cristianismo, os turcos realizavam muitas obras de caridade em benefício dos animais, inclusive construíram hospitais para espécies não humanas.
Os romanos tinham um serviço público para a alimentação dos gansos. Já os atenienses, por volta de 490 a.C., ordenaram a libertação das mulas e dos burros após a construção do Templo Hecatompedon, permitindo que eles circulassem por qualquer lugar, sem restrição. No mesmo período, os agrigentinos seguiam a tradição de enterrar com dignidade os seus animais. Muitos monumentos suntuosos foram erguidos para homenageá-los.
“E duravam, visíveis, por vários séculos adiante. Os egípcios enterravam lobos, ursos, crocodilos, cães e gatos em lugares sagrados. Embalsamavam seus corpos e ficavam de luto. Címon [estadista e general ateniense] fez uma sepultura honrosa para os jumentos (…). O político Xantipo mandou fazer uma tumba para seu cão num promontório, na costa do mar, o qual desde então conservou esse nome”, narra Michel de Montaigne.
O filósofo defendia que a humanidade deve justiça aos seus e benevolência às outras criaturas. E no relacionamento entre humanos e animais há uma obrigação do primeiro em zelar pelos demais. “Não temo confessar a ternura de minha natureza tão pueril que me leva a não conseguir recusar ao meu cão a festa que me oferece fora de hora”, confidencia em “Ensaios”.

” Entre os vícios, odeio cruelmente a crueldade, tanto por natureza como por julgamento, como sendo o extremo de todos os vícios” (Pintura: Reprodução)
E foi estudando o trabalho de Plutarco que Montaigne descobriu que não era exatamente a figura caricata do gato ou do boi, por exemplo, que os egípcios, enquanto politeístas, adoravam. O que eles amavam nesses animais era a imagem das faculdades divinas materializadas em suas diversas qualidades, como paciência, singeleza e vivacidade. Além disso, viram que os animais eram incapazes de suportarem a clausura, e isto representava a liberdade que amavam mais do que qualquer faculdade divina.
Por outro lado, o filósofo observou que a religião dos antigos gauleses, povo celta que deu origem aos franceses, incutiu a ideia de valores diferentes para os animais. Eles acreditavam que como a alma é eterna e passível de mudar de um corpo para o outro, o destino de cada um dependeria de sua conduta. “As almas dos cruéis entrariam nos corpos dos ursos, as dos ladrões nos corpos dos lobos, e as dos mentirosos nos corpos das raposas. E depois de vários anos e, através de mil figuras, seriam chamados às suas formas humanas originais, uma vez que teriam sido purificados pelo Rio Lete [que tinha Hades com guardião, o deus do mundo inferior e dos mortos]”, cita Montaigne.
Os gauleses levavam a sério a crença de que os homens valentes poderiam renascer como leões, os voluptuosos como porcos, os covardes como cervos ou lebres e os maliciosos como raposas. “Eu, inversamente, o que tenho de bom o tenho pelo acaso do meu nascimento (…). A inocência que há em mim é uma inocência inata, de pouco vigor e sem arte. Entre os vícios, odeio cruelmente a crueldade, tanto por natureza como por julgamento, como sendo o extremo de todos os vícios”, enfatiza.
Uma das cenas que mais marcou a vida do pensador foi o testemunho da degola de um frango. Além disso, Michel de Montaigne não suportava ouvir os gemidos das lebres frequentemente atacadas por cães de caça. “A caça é uma forma violenta de prazer. Os que devem combater a volúpia a usam de bom grado, mostrando que ela é totalmente viciosa e irracional”, critica.
O filósofo aponta o século XVI como um período de exemplos inacreditáveis de legitimação da crueldade, intensificados principalmente pelas guerras. O passado, segundo ele, não era pior que o presente. Ainda assim, o pensador não conseguia se acostumar com tanta violência. E quanto mais animais eram mortos, mais bárbaro o homem se tornava, ampliando a morte dos seus.
“Eu mal era capaz de me convencer, antes de tê-lo visto, que pudessem existir almas tão ferozes que cometessem assassinatos por prazer – retalhar e cortar os membros de alguém, aguçar o espírito para inventar torturas inusitadas e mortes novas, sem inimizade, sem proveito, e só para o fim de gozar do agradável espetáculo, dos gestos e movimentos lastimáveis, dos gemidos e dos gritos (…)”, lamenta.
E levando em conta esse tipo de experiência, Montaigne escreveu que julgava incoerente as opiniões mais moderadas de raciocínio que tentavam apontar as semelhanças entre os seres humanos e os animais. “Quando tentam compará-los a nós, sem dúvida rebaixo muito nossa presunção e renuncio de bom grado a essa imaginaria realeza sobre as outras criaturas. Mesmo se esse não fosse o caso, há todavia um certo respeito que nos liga e um dever geral da humanidade em relação aos animais, que têm vida e sentimento”, pondera.

“Eu mal era capaz de me convencer, antes de tê-lo visto, que pudessem existir almas tão ferozes que cometessem assassinatos por prazer” (Pintura: Reprodução)
O pensador jamais conseguiu entender onde o ser humano busca motivação para perseguir e matar um bicho inocente, que além de não ter defesas, não causa mal a ninguém. “E o cervo que comumente, sentindo-se sem fôlego e sem força, e não tendo outro remédio, se vira e se rende a nós mesmos que o perseguimos, pedindo-nos piedade por suas lágrimas, sangrando e, lembrando, por seus queixumes, um suplicante. Isso sempre me pareceu um espetáculo muito desagradável. Não pego animal vivo a que não restitua liberdade. Pitágoras fazia o mesmo, comprando-os dos pescadores e dos passarinheiros para libertá-los”, assinala.
Platão, em sua perspectiva da Era de Ouro, destaca que uma das maiores conquistas da humanidade foi o estabelecimento da comunicação com os animais, a capacidade de reconhecer as verdadeiras qualidades não humanas. Nesse período, foi validado o valor da inteligência animal, garantindo à humanidade o privilégio de traçar um futuro próspero e harmonioso. “É preciso mais provas do que isso para condenar a imprudência humana em relação aos animais?”, questiona Michel de Montaigne.
Para o pensador, as índoles sanguinárias em relação aos animais atestam uma propensão natural à crueldade. Ele cita como exemplo da decadência humana a emergência dos espetáculos de mortes de animais na Roma Antiga. A ânsia por sangue e violência cresceu, e mais tarde surgiram os gladiadores. Ou seja, a violência do homem contra o homem é um desdobramento da barbárie iniciada com a suplantação dos animais.
“A própria natureza (temo) fixou no homem um instinto de desumanidade. Perdera-se o prazer de ver os animais brincando entre si e acariciando-se; e ninguém deixa de senti-lo ao vê-los se dilacerarem e se desmembrarem. Os animais foram sacrificados pelos bárbaros para os benefícios que deles esperavam”, avalia Montaigne.
Um homem à frente do seu tempo
O ensaísta inglês William Hazlitt expressou admiração por Michel de Montaigne, declarando que, distante do fanatismo e do pedantismo, ele foi o primeiro autor que teve a coragem de dizer como se sentia enquanto ser humano. Não era pedante e nem fanático.
À época, seu ensaio, recheado de anedotas e reflexões pessoais não foi bem recebido pelos leitores. Consideraram sua obra deficiente, talvez porque Montaigne tenha revolucionado a literatura não ficcional ao incluir-se como matéria do seu próprio livro, gerando desconforto nos leitores mais conservadores. Mais tarde, Montaigne acabou por ser considerado um dos melhores escritores do seu tempo.
Seu comentário mais famoso e cético é: “Que Sçay-je?”, que significa O que eu sei? em francês da Idade Média. Até hoje Montaigne é considerado um autor moderno, isto porque examinava o mundo através dos próprios olhos, conciliando bagagem cultural, observação e experiência. E a partir daí, formulava juízo sobre tudo. Séculos após sua morte, foi considerado o autor mais acessível do Renascimento. Depois de unir narrativa pessoal e sabedoria intelectual, montaigne se tornou uma referência da literatura moderna não ficcional.
Saiba Mais
Michel de Montaigne foi um político, jurista, filósofo e humanista francês. Para ele, a educação de qualidade só é possível quando a formação de indivíduos privilegia o discernimento moral aliado à prática.
Montaigne, que só teve o seu trabalho devidamente reconhecimento após sua morte, também foi influenciado pelo jônico Pitágoras, pelo ateniense Sócrates e pelo neoplatônico Porfírio.
O pensador nasceu no Castelo de Montaigne em 28 de fevereiro de 1533 e faleceu no mesmo local em 13 de setembro de 1592.
Referências
Montaigne, Michel de. Rosa Freire D’Aguiar. Os Ensaios. Penguin – Companhia das Letras (2010).
The Autobiography of Michel de Montaigne. Marvin Lowenthal. David R. Godine, Publisher (1999).
Williams, Howard. The Ethics of Diet (1883). University of Illinois Press (2003).
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Você é o que você come
Embora pouca gente saiba, o aforismo “você é o que você come”, não raramente divulgado de forma equivocada nos séculos 20 e 21, foi criado pelos românticos na defesa do vegetarianismo, ao ponderarem que tudo que serve de alimento ao ser humano tem implicações físicas e morais. De acordo com o escritor britânico Percy Bysshe Shelley, um dos precursores do veganismo, o consumo de carne não apenas profanou o corpo humano, mas também encorajou a adoção de outros hábitos destrutivos.
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A galinha garnizé de 20 anos
No quintal da casa da aposentada Lindinalva Silva Santos vive Jurema, uma galinha garnizé de 20 anos. Falo com ela e ela se aproxima. Miudinha e esperta, continua calma e dócil, mesmo depois de ter sofrido tanto ao longo da vida. Escapou da morte várias vezes quando era mais jovem. Uma vez se esforçaram para arrastá-la com linha e anzol.
Naquele dia, Jurema perdeu a língua, mas foi bem cuidada e se recuperou. Também sobreviveu a outras tentativas de ladrões querendo transformá-la em comida. Acho incrível como ela inspira vida. É atenta a tudo. Nada passa despercebido.
Mais surpreendente ainda é ver como Jurema gosta de brincar com outros animais. Será que vale a pena explorar uma ave ou transformá-la em comida? Levando em conta tudo isso, a lição que ela transmite ao existir até hoje, com seus 20 anos. Pelo que pesquisei, Jurema tem potencial para chegar pelo menos aos 25, e não tenho dúvida de que isso é resultado de uma vida sem exploração.
Saiba Mais
A galinha garnizé mora na Vila Alta, na periferia de Paranavaí, no Noroeste do Paraná.
Percy Shelley, um ativista “vegano” no século 19
“Seria muito melhor a um ser senciente jamais ter existido do que existir para suportar a miséria absoluta”
Em países que não têm o inglês como língua nativa, não raramente o poeta britânico Percy Bysshe Shelley é relegado à sombra de sua esposa Mary Shelley, autora do clássico “Frankenstein”, uma das obras mais famosas da literatura inglesa. No entanto, o que pouca gente sabe é que o livro foi influenciado pelas ideias do escritor romântico, sua interpretação do mito de Prometeu aliado à sua filosofia de vida vegetariana, também partilhada por Mary.
Um dos personagens mais influentes do romantismo, Shelley foi muito além da poesia, fazendo da Era Romântica um período em que arte e filosofia estreitaram sua relação com o vegetarianismo. Ao publicar os poemas “Queen Mab” e “Alastor, or The Spirit of Solitude”, e os ensaios “A Vindication of Natural Diet” e “On The Vegetable System of Diet”, o poeta chamou a atenção para os direitos dos animais e os benefícios da dieta vegetariana. Considerado moderno demais para a época, seu idealismo visto como intransigente e pouco ortodoxo fez dele uma persona non grata em muitos círculos sociais europeus.
Controverso, defendia o vegetarianismo, o amor livre e o direito ao ateísmo em uma sociedade visceralmente cristã. Abordava a importância dos direitos das mulheres e incentivava a esposa Mary Shelley a tornar-se ativista na busca por igualdade entre homens e mulheres, o que fez dela uma referência para o feminismo na Inglaterra e nos Estados Unidos. Além disso, ele lutou por justiça social para as classes trabalhadoras.
O poeta britânico se tornou vegetariano depois de testemunhar maus-tratos contra animais domesticados para o abate. Com uma visão filosófica progressista, ele defendia que os animais não precisavam de privilégios, mas de equidade, pois, assim como os seres humanos, também têm direito à vida. Para Shelley, o abate de animais, com a mera intenção de transformá-los em comida, não é apenas a raiz dos crimes cometidos pela raça humana, mas também a causa de todos os comportamentos imorais e criminosos da humanidade.
Ele argumentava que a adoção de uma dieta vegetariana e a cessação do abate animal levaria ao fim as injustiças sociais em decorrência da pobreza, do crime e da violência. Também tinha fé que esse seria o caminho para a implantação de um sistema que substituiria o capitalismo e daria fim às guerras. De acordo com o poeta britânico, o vegetarianismo era o único meio de alcançar a perfeição moral; pensamento que influenciaria o russo Liev Tolstói, um dos maiores nomes da literatura mundial.

Um dos personagens mais importantes do romantismo, Shelley advogava em favor do vegetarianismo (Imagem: Reprodução)
“Somente através do amolecimento e do disfarce da carne através da preparação culinária que ela se torna suscetível de mastigação e digestão, e só assim a visão dos seus sucos sangrentos e o seu horror cru não desperta ódio e desgosto.”, lamentou. Mais do que o decano do vegetarianismo no século 19, é justo dizer que Percy Shelley era um protovegano, ou seja, alguém que, despreocupado com denominações e terminologias, teve grande influência sobre o surgimento do veganismo, uma ideologia mais austera, sólida e completa em relação à defesa dos animais.
“Eu sustento que a depravação da natureza física e moral do ser humano começou com seus hábitos não naturais de vida. A origem do homem, como a do universo do qual ele faz parte, envolve um mistério impenetrável”, escreveu Shelley em “A Vindication of Natural Diet”, ensaio em que se opõe radicalmente à exploração animal em todos os aspectos. Na obra, argumenta que uma sociedade baseada na igualdade, justiça social e espiritualidade deve ter como ponto de partida uma alimentação livre da tortura e do sofrimento animal.
O interesse de Percy Shelley pelo vegetarianismo começou cedo. Quando estudava na Universidade de Oxford, o poeta britânico se alimentava como um eremita, levando em conta a pureza e a simplicidade dos alimentos. Em 1812, quando completou 20 anos, adotou a dieta vegetariana estrita. E sua crença no vegetarianismo foi reforçada quando ele conheceu a Família Newton, formada por uma longa linhagem de vegetarianos estritos.
Seus amigos Thomas Jefferson Hogg e Thomas Love Peacock não gostaram da influência dos Newton sobre Shelley. Eles viam a família de vegetarianos como “um grupo de monges tolos”, e logo começaram a zombar do poeta. Porém mudaram de opinião e mais tarde se tornaram vegetarianos. Na biografia “Life of Shelley”, Hogg fala de sua aprovação e adesão ao vegetarianismo.
Frugal, a comida preferida de Shelley era pão, alimento que sempre comprou em uma mesma padaria enquanto estudou em Oxford. Em Londres, durante a permanência do poeta em Bishopsgate em 1815 e depois em Marlow em 1817, Thomas Hogg notou que o amigo seguia firme na defesa do vegetarianismo, assim como fez até os seus últimos dias de vida.
Percy Shelley influenciou os mais importantes reformadores vegetarianos dos séculos 19 e 20, o que garantiu-lhe o título de primeira grande personalidade vegana da história do Ocidente, segundo a obra “In Pursuit of Percy Shelley, ‘The First Celebrity Vegan’: An Essay on Meat, Sex, and Broccoli”, de Michael Owen Jones. Antes de se tornar vegetariano, o poeta romântico era um humanista e humanitarista que se alimentava com simplicidade; o que à época, e paradoxalmente, foi encarado como uma extravagância e uma excentricidade inofensiva propagada por um artista e pensador que seguia os preceitos do evangelho da gentileza e do amor universal.

Na ficção e na filosofia, o poeta britânico materializou sua consciência vegana (Imagem: Reprodução)
Assim como o filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau, Shelley foi influenciado pelos filósofos gregos Pitágoras e Plutarco – principalmente pelo ensaio “Do Consumo da Carne”, que qualifica a “dieta da carne” como não natural ao homem. O britânico escreveu que os seres humanos eram naturalmente frugívoros, logo deveriam ter uma dieta baseada em água e vegetais. Também via como importante a abstenção de álcool. Considerava o licor fermentado como uma das bebidas mais nocivas ao homem. “Tão venenoso quanto a carne”, sentenciou.
Abdicando do consumo de alimentos de origem animal e retornando à dieta natural dos primeiros seres humanos que habitaram a Terra, não tardaria para a humanidade vivenciar uma evolução moral, melhorias em relação à saúde e restauração da longevidade. “O que se come é o que se é”, dizia o poeta, crente de que a identidade humana tem relação substancial com a alimentação.
E enquanto o homem não retornar às suas origens, ele há de ser punido, assim como foi o mitológico titã Prometeu que roubou o fogo para dar aos homens. Em represália, o acorrentaram ao Monte Cáucaso, onde assistiu um mesmo abutre se alimentando diariamente de seu fígado que se regenerava.
“O homem em sua criação foi dotado com o dom da eterna juventude, isto é, ele não foi feito para ser uma criatura doente como vemos agora. Ele deveria desfrutar de sua juventude e aos poucos afundar no seio da mãe terra, sem contrair qualquer doença ou sofrimento físico. Porém Prometeu ensinou ao homem como transformar os animais em comida. Depois explicou como usar o fogo para que a carne animal se tornasse digerível e agradável ao paladar. Júpiter e os outros deuses, prevendo as consequências dessas ações, ficaram irritados com a visão que tiveram dessas novas criaturas. E para puni-los decidiram deixar que experimentassem os tristes efeitos do consumo de carne. (…) E assim o homem perdeu o dom inestimável da saúde que recebeu dos céus. Ele ficou doente, sua saúde se tornou precária, e não mais desceu lentamente até a própria sepultura”, registrou Percy Shelley em “A Vindication of Natural Diet”, publicado em 1813.
Na obra, Prometeu representa a raça humana que contrariando a própria natureza, usou o fogo com fins culinários. Então os sinais vitais dos seres humanos foram devorados pelo abutre, simbolizando a emergência das doenças. “Seu ser é consumido em cada forma de sua repugnante e infinita diversidade”, registrou.
Shelley também encontrou no mito da criação uma alegoria semelhante, a de que Adão e Eva alçaram à posteridade a ira de Deus e a perda da vida eterna, isto porque se alimentaram da árvore do mal, fazendo florescer a violência e a doença através de uma dieta não natural. “O homem e os animais a quem ele infectou com sua sociedade, ou os depravou através de seu domínio, estão sozinhos e doentes. O porco selvagem, o muflão, o bisão e o lobo são perfeitamente isentos de doenças e, invariavelmente, morrem de violência externa ou de velhice. Mas os porcos domésticos, as ovelhas, as vacas e os cães estão sujeito a uma incrível variedade de enfermidades e, como os corruptores da natureza, há médicos que prosperam com suas misérias”, queixou-se.

Shelley: ““As misérias, as doenças que assolam o mundo, são uma maldição conquistada pelo ser humano desde que ele se colocou acima de seus companheiros animais”
O ativismo de Percy Shelley fez com que o famoso e controverso poeta Lord Byron também aderisse ao vegetarianismo na juventude. Na realidade, Shelley tinha um grande poder argumentativo. Não possuía dificuldade em convencer aqueles que estavam mais próximos a ele de tornarem-se vegetarianos.
“As misérias, as doenças que assolam o mundo, são uma maldição conquistada pelo ser humano desde que ele se colocou acima de seus companheiros animais. (…) Comparativamente, a anatomia sempre me ensinou que o homem se assemelha mais aos animais frugívoros, não aos carnívoros. Ele sequer tem as garras adequadas para aproveitar sua presa, e nem mesmo caninos verdadeiramente pontiagudos e afiados para dilacerar corretamente as fibras da carne. Pensem no trabalho que o ser humano tem para preparar a carne, amolecê-la e disfarçar suas características naturais”, apontou em seu ensaio.
Na obra, o autor convida o leitor a refletir sobre o aspecto cru da carne e o seu suco que geram desgosto em quem a consome, alegando que o homem come carne porque finge não ver carne. A quem se considera um carnívoro nato, Shelley, assim como Plutarco, faz um convite: “Experimente rasgar um cordeiro vivo.”
No século XIX, ele compartilhou sua filosofia com todos os seus contemporâneos, estendendo seus questionamentos morais e éticos a muitos outros artistas e pensadores, estreitando a relação dos românticos com o vegetarianismo. Em “Queen Mab”, de 1813, escreveu sobre sua transição: “E o homem…não agora, mata o cordeiro de quem observa a face, e terrivelmente devora sua carne mutilada.”
O mesmo excerto abre o ensaio “A Vindication of Natural Diet”. Em “A Refutation of Deism”, uma prosa publicada em 1814, ele aborda a sua filosofia vegetariana, assim como no poema lírico do quinto canto de “Laon and Cythna” ou “The Revolt of Islam”, de 1818, conhecido como “A Lírica do Vegetarianismo”. Com a delicadeza e humanidade que lhe era peculiar, sua crença no vegetarianismo também pode ser observada na abertura do poema “Alastor”, de 1816, onde ele invoca a comunhão entre a terra, o oceano e o ar através da amada fraternidade da natureza.
Shelley, na dedicação sincera a todos os seres sencientes escreveu: “Se o uso de comida animal é, em consequência, subversiva à paz da sociedade humana, quão injustificável é a injustiça e a barbárie exercida contra essas pobres vítimas. Esses animais são chamados à existência pelo artifício humano de garantir uma existência curta e miserável de escravidão e doenças, em que seus corpos podem ser mutilados e seus sentimentos sociais suprimidos. Seria muito melhor a um ser senciente jamais ter existido do que existir simplesmente para suportar a miséria absoluta.”
Referências
Shelley, Percy Bysshe. A Vindication of Natural Diet, Londres. Smith & Davy. 1813.
Salt, Henry. Percy Bysshe Shelley: A Monograph. Swan, Sonnenscheim, Lowrey & Co., Londres. Originalmente publicada no The Vegetarian Annual, de 1887 (1888).
Jones, Michael Owen. In Pursuit of Percy Shelley, “The First Celebrity Vegan”: An Essay on Meat, Sex, and Broccoli. Journal of Folklore Research. Volume 53. Número 2. Agosto de 2016.
Medwin, Thomas. The Life of Percy Bysshe Shelley, Londres. Biblioteca Britânica. Domínio Público (1847).
Hogg, T.J. The Life of Percy Bysshe Shelley, Londres. Editora Edward Moxon (1888).
Blunden, Edmund. Shelley – A Life Story, Londres. Collins St. James’s (1946).
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