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Ildjarn: “Penso que o meu isolamento se deve em grande parte ao desrespeito dos seres humanos em relação aos animais”
“Nunca toquei nada com leite, carne, peixe ou seja lá o que for [de origem animal]”

Ildjarn sempre se identificou mais com a natureza do que com a civilização (Foto: Divulgação)
Vidar Vaaer, mais conhecido como Ildjarn, é um músico norueguês e vegano que sempre se identificou mais com a natureza do que com a civilização. Preferindo o ostracismo à vida em sociedade, ele concedeu poucas entrevistas desde que começou a compor em 1992. Considerado uma figura enigmática da música underground norueguesa, Ildjarn aderiu ao veganismo quando tinha 17 anos.
“Nunca toquei nada com leite, carne, peixe ou seja lá o que for [de origem animal]. Respeito os animais e os considero seres dignos da vida. Penso que o meu isolamento se deve em grande parte ao desrespeito dos seres humanos em relação aos animais. Os animais estão no inferno. De qualquer forma, sigo minha consciência que é a minha estrela guia através da vida e, eventualmente, da morte”, declarou em entrevista publicada em 16 de junho de 2012 no portal Death Metal Underground.
Minimalista, intenso e primitivista, Vaaer, que embora muitas vezes foi classificado como um sujeito antissocial, também é definido como alguém bastante amigável. Por alguns anos, ele esteve envolvido com a questão dos direitos animais na Noruega. “Animais são merecedores da natureza”, disse em entrevista ao Mirgilus Siculorum em maio de 2003, e acrescentou que daria a própria vida para que os animais pudessem novamente vagar pela Terra sem ter medo dos seres humanos.
Para Ildjarn, os maiores problemas do mundo e da humanidade se devem ao fato de que os seres humanos não são leais a si mesmos, e por isso estão destruindo o planeta. Como alguém que desde criança observa a natureza, ele vê com desgosto as transformações do meio ambiente como consequência da intervenção humana. E foi essa sensibilidade aguçada que o motivou a compor em homenagem àquilo que sempre existiu independente do homem – a natureza.
No álbum de música ambiente “Hardangervidda”, lançado em 2002 em parceria com seu amigo de infância Nidhogg, ele criou uma paisagem sonora do homônimo planalto montanhoso situado no centro-sul da Noruega, cobrindo parte dos condados de Buskerud, Hordaland e Telemark, um dos lugares mais belos da Escandinávia. O registro também remete à história dos dois músicos com o local frequentado por eles desde a infância, onde muitas vezes praticaram trekking juntos e sozinhos, hábito preservado até hoje.
Quando passeia pelas montanhas, Ildjarn espera não encontrar pessoas, mas somente animais, por quem ele garantiu ter incondicional respeito e admiração. “Tenho esse sentimento pujante em relação à natureza norueguesa, e eu quis capturar alguns desses sentimentos. Acho que as pessoas podem começar a entender o significado que a natureza tem para mim ao ouvirem o CD ‘Hardangervidda’ [que teve uma segunda parte lançada em forma de EP no mesmo ano]. É apenas um fluxo de paisagens em forma musical, criado ao longo de anos passando algum tempo na natureza. Não tem ideologia, é uma fuga de tudo que se relaciona ao homem [civilização]”, afirmou em entrevista ao Mirgilus Siculorum e ao Death Metal Underground em 2003 e 2012.

Local que inspirou Ildjarn a compor “Hardangervidda” em parceria com Nidhogg em 2002 (Foto: Divulgação)
Ildjarn qualificou o álbum como um grande hino à natureza, com composições musicais que não têm nada a ver com o amor no sentido comum. “É importante entender que tudo [que faço] é sobre a natureza. Nunca usei drogas e álcool porque quero manter minha mente pura até o dia que eu morrer. Tenho tantas visões e pensamentos que não pertencem a este mundo que não preciso dessas coisas”, justificou.
Ao longo de sua trajetória musical iniciada em 1991, Ildjarn, que nunca se importou muito com visibilidade ou fama, desapareceu várias vezes. E cada hiato sempre gerou inúmeras especulações. Mesmo assim, o seu acervo baseado em composições criadas principalmente até a metade dos anos 1990, que vão do black metal à música ambiente, inclui muitos lançamentos autorais.
“Unknown Truths” e “Seven Harmonies of Unknown”, de 1992; “Ildjarn”, de 1993; “Minnesjord”, de 1994; “Ildjarn”, de 1995; “Det frysende nordariket”, de 1995; “Landscapes”, “Strengh and Anger” e “Forest Poetry”, de 1996; “Son of the Northstar”, de 2001; “1992-1995”, de 2002; “Minnesjord – The Dark Soil”, de 2004; “Nocturnal Visions”, de 2004; “Ildjarn 93”, de 2005; “Ildjarn is Dead”, de 2005; “Rarities”, de 2012; e “Those Once Mighty Fallen”, de 2013, completam sua discografia.
Saiba Mais
O nome Ildjarn é uma referência há um lugar na Noruega, onde Vidar Vaaer afirmou que é possível captar alguns dos sentimentos pagãos noruegueses.
Os primeiros anos do projeto Ildjarn, fundado em Telemark, no sudoeste do país, foram baseados em composições que remetem a uma combinação de metal extremo e hardcore punk.
Em 1992, Ildjarn tocou baixo na lendária banda norueguesa de death metal Thou Shalt Suffer com Samoth e Ihsahn, do Emperor. Ihsahn gravou os vocais de algumas músicas da compilação “Det Frysende Nordariket”, lançada por Vidar Vaaer em 1995.
Referências
http://www.deathmetal.org/interview/vidar-vaaer-ildjarn/
http://www.old.mirgilus.com/interviews/ildjarn.html –
http://www.deathmetal.org/interview/interview-nidhogg/
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Há quem não goste de saber sobre a realidade da exploração animal

Arte do livro “Cruel: Bearing Witness to Animal Exploitation”, da britânica Sue Coe
Várias pessoas não veganas nem vegetarianas me disseram que não gostam de saber o que realmente acontece com os animais explorados pela indústria. Acredito nisso, porém, encaro também como uma meia verdade. Não se trata simplesmente de não gostar.
Há muitas pessoas que evitam confrontar esse tipo de realidade porque sabem que isso pode tirá-las da zona de conforto. Têm receio de sentirem-se mal por se alimentarem de animais. Esse apontamento não é feito por ninguém, a não ser por quem se lança nesse tipo de experiência.
Naturalmente, há boas chances de uma pessoa se questionar sobre a conivência e naturalização desse sistema exploratório. Claro, uma pessoa pode, de fato, não se tornar vegetariana nem vegana depois de aprender um pouquinho sobre a defesa dos direitos animais e o veganismo, mas sempre existe a probabilidade de que algo mude em sua consciência.
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Porcos são animais sociáveis e inteligentes

Obra “A Pigs Life”, do britânico Mark Cawood que retrata a exploração animal
Embora tenham mudado a partir de manipulação genética, os porcos ainda preservam inúmeras características de seus ancestrais, principalmente a inteligência e a consciência daqueles que viviam livremente em florestas.
Muito parecidos com os cães nesse aspecto, os porcos são animais sociáveis que nascem com aptidão para interagir e viver em grupo, não de forma isolada.
Por uma questão cultural, em nossa sociedade um cão mantido confinado em um pequeno espaço o dia todo é visto como vítima de uma grande crueldade. Por outro lado, essa é a realidade comum dos suínos criados para consumo.
Ou seja, tal reprovação não é partilhada em relação a animais que são vistos como fontes de produtos. Equivocadamente por isso muitos daqueles que sabem da exploração e privação vividas por essas criaturas não os consideram como seres com direito à vida.
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Carne de cordeirinho

Foto: Back Yard Herds
Em muitos países, e inclusive no Brasil, pessoas pagam para comer baby lamb, que nada mais é do que uma referência à carne de um cordeirinho com seis meses de idade. Acho que não é preciso dizer que esse é o tipo de comércio incentivado a partir do consumo de carne. Abre-se precedentes para os mais bizarros tipos de práticas consumistas.
O leite de clemência
” Tem o gosto do céu! Que maravilha, Filó! Hoje meu coração está em paz”

Pintura “Milk”, da artista vegana Dana Ellyn
Como fazia todos os dias, Eugênio acordou bem cedo no sábado para ordenhar Filomena, uma vaca baixinha que aprendeu, por força do tempo, a aceitar o seu próprio destino – servir como fonte de renda para um produtor rural.
Eugênio já não amarrava mais a corda no pescoço de Filomena, porque há mais de um ano ela sabia o que precisava ser feito. Sempre que o galo cantava sobre uma guarita que antes serviu como morada para um João-de-Barro, ela se levantava e caminhava em direção à porteira do pequeno curral.
Ficava imóvel, com olhos baixos e orelhas deitadas, às vezes esfregando suavemente os cascos na terra, esperando a chegada do patrão. Eugênio sabia que era hora da ordenha, não apenas por causa da balbúrdia do galo, mas também porque o sino no pescoço de Filomena revelava que ela estava pronta para o serviço.
“Bora tirar esse leite das tetas, Filó!”, dizia Eugênio diariamente e sorridente, sem titubear. A vaca não reagia. Só vez ou outra que emitia gemido prolongado e langoroso que ninguém entendia, nem Marcolino, o único médico veterinário do povoado. “Deve ser falta de algum nutriente. Vamos incrementar a alimentação dela”, sugeriu numa manhã árida de chão tão tracejado que quem via de longe pensava que estava diante de um mapa.
Um dia, Filomena parou de produzir leite e ninguém entendeu o motivo. Ela era considerada um dos animais mais saudáveis e invejados da colônia, ajudando a garantir não apenas o sustento da família de Eugênio, como também a alimentação de seus dois filhos.
— Que diabos eu vou fazer agora?
— Chame Seu Marcolino de novo, pai…
— Ah! Mas já faz mais de uma semana que a danada não dá nem uma caneca de leite, e o mais estranho de tudo é que ela tá com as tetas cheias.
— Chame o homem, pai! Ele vai saber o que fazer.
— Não sei se compensa, o tratamento deve ser caro.
— Não custa ver se vale a pena.
Seguindo a recomendação do filho, Eugênio chamou Marcolino. Ao contrário do que ele imaginava, o homem disse que não havia nada que pudesse ser feito, a não ser esperar. “Essa vaca é saudável. Não tem problema nenhum. Deve ser só teimosia, só que uma teimosia que nunca vi igual. Geniosa essa vaca, mais do que o senhor”, ironizou o veterinário às gargalhadas.
Na segunda semana, Filomena não permitiu que nenhuma gota fosse extraída de seus úberes. Simplesmente não saía nada durante a tentativa de ordenha. Quando Eugênio massageava o volume, ele berrava enraivecido ao sentir o leite no interior do animal. Estava fora do alcance do seu balde de lata.
— Eu que te criei, sua lazarenta. Como você faz isso comigo?
— Só não te bato aqui agora por consideração – ameaçou com a mão direita levantada em posição de golpe.
A vaca inclinou a cabeça em direção ao solo arenoso e ignorou a ameaça, como se entendesse, embora não se importasse. Ela parou de produzir leite quando seu último filho desapareceu, vendido para um matadouro onde foi reduzido à carne de vitela. Eugênio não queria o bezerro disputando o leite que “deveria ser somente dele e de seus filhos”.
— Eu que alimento a infeliz, então tudo que ela oferece me pertence.
Na terceira semana, o galo não cantou e Filomena não se levantou. Encolerizado, Eugênio correu até o galo e o derrubou de cima da guarita com um tapa certeiro nas ventas. O bicho se apressou em direção aos pinheirais e, miúdo, desapareceu sob o matagal.
Depois foi a vez de Filomena ser punida. Ele amarrou uma corda no pescoço da vaca e tentou arrastá-la para o centro do curral. Ela resistiu. Não queria sair de jeito nenhum. Com a ajuda dos dois filhos, Eugênio a deitou sobre a areia branca e pediu que Matias, o mais velho, buscasse um machado pendurado no fundo do celeiro.
O rapaz correu e voltou empunhando a ferramenta. Quando Eugênio ameaçou dar o primeiro golpe, a vaca gemeu e se contorceu na terra, levantando, com os cascos, uma cortina tão densa de poeira que ele e os filhos engasgaram. Logo a vaca cansou, e a poeira se dissipou. Havia sangue no chão, colorindo os riscos no solo, que ganhavam formas de vasos sanguíneos. Tão opaco quanto vívido, o líquido vermelho jorrava das tetas de Filomena.
Com o corpo exalando odor acre de terra e sangue, ela observou assustada os três. Mesmo com olhos fumegantes e muita vontade de extravasar a fúria que o dominava, Eugênio desistiu de matá-la naquele dia. Entrou em casa acompanhado dos dois filhos que não ousaram dizer palavra. “Se ela não der leite nos próximos dias, a gente mata”, avisou com voz oca e pertinaz. Matias e Mateus balançaram a cabeça em concordância, sem arriscar comentário.
Ao anoitecer, João dos Cascos, um dos primeiros sitiantes do Noroeste do Paraná, visitou a família e perguntou se Eugênio não queria vender Filomena. Ofereceu inclusive a sua propriedade, sua única fonte de renda, em troca da vaca. Achando aquilo um absurdo, Eugênio declinou a proposta.
— Não sei qual é a sua intenção com essa oferta descabida, mas saiba que Filomena não está à venda. É herança de família.
— O senhor me perdoe a intromissão. É que preciso de uma vaca como a sua.
— Essa tá doente e não vai ter serventia nenhuma pro senhor.
— Não tem problema. Me viro do meu jeito.
— Não adianta, não quero e não vou vender. Retire-se! Vá daqui!
Na quarta semana, assim que Eugênio acordou, ele viu através da janela o galo cantando. Filomena mantinha a cabeça escorada em uma das tábuas da porteira, e o sininho vibrava preso ao pescoço. Diante de suas patas, havia três baldes de leite, um leite diferente, singular, como ninguém daquela casa jamais experimentou.
— Tem o gosto do céu! Que maravilha, Filó! Hoje meu coração está em paz. Me perdoe por tudo que fiz. Por favor, aceite minhas desculpas.
A vaca não reagiu. Somente o observou, recuou e deitou em um canto onde o sol matutino aquecia uma porção de sua pele branca como o leite que Eugênio consumiu. Por três anos, todos os dias no mesmo horário, Eugênio, Matias ou Mateus recolheram os três baldes de leite. Até que noutra manhã, Filomena não levantou e o galo não cantou. Não havia leite nem balde. Só um animal que parecia preparado para encarar o destino. “Sem leite, sem vida”.
Antes do pôr do sol, Eugênio retornou com o machado. Absorto em ódio, cuspiu um naco de fumo em um pedaço de pasto e ignorou tudo à sua volta, mirando uma vaca teimosa “que já não merecia viver, não merecia sua compaixão”. Rodeou o animal e fez um círculo no chão com a lâmina, demarcando a área do abate. Antecipando o primeiro golpe, Filomena fechou os olhos e deitou a cabeça na grama, alongando o pescoço, talvez prevendo a própria decapitação. Eugênio estava tão furioso que, com mãos trêmulas, errou o primeiro golpe.
No mesmo instante, um rapaz bateu palmas na entrada do sítio, alegando que tinha uma entrega. Eugênio se aproximou com olhar suspeitoso e cumprimentou o jovem que se apresentou como Bernardo.
— Vim trazer uma carta ditada pelo meu pai João dos Cascos e uma garrafa de leite. Ele faleceu ontem, mas antes me fez prometer que eu viria visitá-lo.
Bernardo abriu a garrafa, tirou um copinho da mochila e insistiu que o homem experimentasse.
— É coisa boa, o senhor não se preocupe.
Eugênio tomou tudo em um gole. Assustado e boquiaberto, deixou o copinho cair de sua mão, se chocando contra o chão.
— Onde você conseguiu isso?
— Meu pai que inventou. É leite de clemência. Uma receita familiar. Não vem de bicho nenhum, vem da santidade da natureza que da gente exige muito pouco. O senhor gostou?
— Sim…é muito bom.
Quando abriu a carta, Eugênio viu que havia uma receita com todos os detalhes do preparo do leite de clemência, além de algumas observações e um pedido:
— Durante três anos, o senhor achou que seus filhos estavam ordenhando a Filomena, e eles pensavam o mesmo do senhor. E nenhum de vocês percebeu que aquele leite não era de vaca. O senhor sabe por que? Porque vocês precisavam do leite de clemência mais do que daquilo que julgavam mais importante. O que parecia essencial era somente distração. E aquele, meu senhor, era o único leite que todo ser humano deveria beber depois do desmame. Não, ele não é igual ao leite de vaca. É bem diferente. E quando pensamos que sim, é porque já não somos quem éramos. Sei também que o senhor se desfez de quase todos os animais de seu sítio, mantendo somente o galo e a vaca Filomena, que um dia ganhou de sua esposa, e em quem o senhor projetou a sua desilusão quando foi abandonado por sua mulher. Saiba que aquela a quem chama ‘carinhosamente’ de Filó, assim como todos os animais, tem sua própria vida e dor. Ou o senhor pensou na vaca quando mandou os filhos dela para o matadouro? Como exigir que um animal não reaja diante do sofrimento dos seus? Eles não falam, mas seus corpos sim. Diante disso, faço-lhe duas sugestões. Que o senhor aceite minha receita e liberte Filomena ou devolva a carta ao meu filho e entregue-se aos enganosos prazeres da soberba.
Eugênio levantou os olhos, deu uma olhadela em Filomena e mirou seriamente Bernardo. Sem dizer nada, caminhou até o curral com olhos marejados e balbuciou:
— Que um dia você me perdoe, ou não, porque aquele que vive para si mesmo pode ser que não viva para mais ninguém.
Amuada em um canto, Filó se levantou e seguiu em direção a Bernardo, acompanhada pelo galo. Quando a porteira se abriu, o último desejo se cumpriu.
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Sobre pais que matam animais
Pais que matam animais ensinam aos filhos que nem todos merecem viver. E que quando crescerem eles também poderão tirar a vida de outros animais. E assim, crianças crescem acreditando em superioridade e que não há nada de errado em matar.
Youtuber e animais encaixotados
Um YouTuber faz um relato do seu desespero ao ficar 24 horas dentro de uma caixa enviada por uma transportadora. Ok. Agora imagine aqueles animais criados para exploração e consumo humano que passam por isso a maior parte de suas vidas. O ser humano só considera aberrante determinadas experiências quando se compara aos da mesma espécie, ignorando que há animais não humanos que passam a vida toda encaixotados.
Sobre produtos de higiene pessoal baseados na morte animal
Muitas pessoas compram e usam sabonetes e outros produtos de higiene pessoal que são baseados em ingredientes de origem animal. Exemplo comum é o uso de gordura bovina e caprina como matéria-prima. Sendo assim, como podemos crer que alguém esteja realmente se higienizando ao usar um produto que tem em sua composição algo que é desnecessariamente extraído do cadáver de um animal?
A indústria investe massivamente em campanhas que iludem o consumidor com a ideia de uma suposta purificação corporal baseada em algo proveniente de animais mortos. Muita gente toma banho com sabonete baseado em sebo, algo que é recolhido em frigoríficos. Como podemos não considerar isso estranho? Ainda mais levando em conta que há opções inclusive mais baratas de produtos vegetais.
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Jo Frederiks: “Animais não são coisas, não são nossos escravos”
“Nosso próprio futuro é baseado em um reflexo de como tratamos nossos companheiros não humanos”

Jo Frederiks se tornou vegana em 1993
Jo Frederiks é uma artista australiana que cria desenhos e pinturas para conscientizar as pessoas sobre a crueldade contra os animais na indústria alimentícia, farmacêutica e de entretenimento. Durante muitos anos, ela se dedicou principalmente à vida selvagem enquanto tema, até que em 2010, sentindo-se frustrada e desiludida com a sua arte, decidiu buscar uma motivação maior.
“Pedi ao meu parceiro por um conselho, e ele disse: ‘Você é apaixonada pelo que? Imediatamente respondi: ‘Veganismo!’ Então continuei a falar seriamente sobre o holocausto animal. Ele sugeriu: ‘Pinte isso. Pinte pelo que você é apaixonada.’ Esse conselho foi fundamental e mudou completamente a direção da minha vida”, contou Jo Frederiks em entrevista ao blog Animalista Untamed em 4 de março de 2016.
A artista que se graduou na Academia de Artes de Brisbane, na Austrália, trabalha principalmente com grafite e pintura a óleo. Uma de suas grandes preocupações ao pintar seres não humanos é retratar a singular individualidade de cada um. Jo cresceu rodeada de animais, mas não de forma harmoniosa.

Every Day
Ela foi criada em uma das maiores estações de gado da Austrália, com um milhão de hectares, em Queensland. Lá, seu pai possuía inúmeras propriedades, onde milhares de animais foram criados para serem mortos. “Aprendi rapidamente a me insensibilizar com a brutalidade da vida na fazenda, como todas as pessoas do interior fazem. Houve matanças implacáveis, mutilações bárbaras e torturas que são consideradas ‘prática padrão da indústria.’ Aqueles que menosprezávamos, como o gado, eram considerados meras coisas, naquela época e ainda hoje. Não havia nada remotamente humano em nada disso. Nada!”, explicou ao Animalista Untamed.

Blind to the Hypocrisy
Em 1993, não aceitando mais a realidade imposta aos animais não humanos, Jo Frederiks tornou-se vegana e defensora dos direitos animais. O que a motivou foi um evento da Animal Liberation Victoria, em Melbourne. “Peter Singer era um dos palestrantes, e fui introduzida em seu divisor de águas, [o livro] ‘Animal Liberation’, que li imediatamente. Antes disso, eu estava completamente inconsciente do horror da indústria de laticínios e ovos. A melhor parte é reconhecer que não contribuo mais para o sofrimento desnecessário de seres sencientes. Já a grande dificuldade é lidar com a apatia e indiferença da sociedade em relação a isso”, declarou ao blog Animalista Untamed.
Desde 2010, Jo Frederiks é uma artista em tempo integral que direciona sua arte quase que completamente para a questão animalista. Ou seja, sua missão é mostrar por meio de desenhos e pinturas como nossa relação com os animais é imoral e antiética. Em entrevista ao Cruelty Free Festival 2016, ela deixou claro que sua mensagem é fazer com que as pessoas entendam que todos os animais devem ser respeitados.
“Usar a arte para expor a injustiça é uma forma de fazer algo construtivo sobre isso. É sobre falar a verdade. A mensagem é pungente e perigosa. A sociedade não quer ser incomodada. A mensagem [por meio da arte] é tão perigosa quanto a posição de [Abraham] Lincoln sobre a abolição da escravidão”, comparou.

We Didn’t Even Make It This Far
Em entrevista ao Nonhuman Rights Project em 29 de julho de 2015, Jo Frederiks declarou que animais não humanos não são coisas, não são nossos escravos, e não são nossos para explorarmos ou abusarmos deles. “Suas vidas lhes pertencem. Eles merecem justiça. Têm o direito de exercer sua personalidade. No final, nosso próprio futuro é baseado em um reflexo de como tratamos nossos companheiros não humanos”, ponderou.
Para Jo, a arte tem o poder de tocar as pessoas e inspirá-las na busca por sua própria posição moral e ética em relação aos animais. “A arte atinge pessoas onde fotografias e a palavra escrita não podem. É um mecanismo para a consciência social e uma plataforma para a demonstração do que a mente pode fazer para mudar o mundo”, defendeu.
A artista lamenta que a maioria das pessoas não querem ouvir os fatos quando se trata do sofrimento animal e destruição do meio ambiente causados pela agropecuária. “Não se dispõem a olhar para as fotos ou confrontar vídeos de vítimas indefesas reduzidas à comida. Apesar disso, eles vão olhar para uma pintura ou um esboço. É uma poderosa e efetiva forma de penetrar nessa negação profundamente enraizada, nessas mentiras e doutrinação em que todos nascemos. Espero que minha arte inspire mudança”, disse ao Animalista Untamed em 4 de março de 2016, acrescentando que a transformação depende da educação e da percepção.
Para Jo Frederiks, criar arte vegana é como esculpir uma estátua de mármore com uma pena. “É um trabalho longo e tedioso, mas tem que ser feito se quisermos salvar o planeta e nossa espécie para as gerações futuras”, assinalou.
Em uma de suas obras mais populares, “We Didn’t Even Make It This Far”, Jo Frederiks registrou a moagem de pintinhos machos, indesejados pela indústria, já que não botam ovos. A pintura que remete à pop art, é uma estratégia da autora para prender a atenção do espectador e fazer com que ele reflita sobre as reais consequências dos chamados ovos livres de crueldade, o que segundo ela não passa de enganação da indústria alimentícia, já que não existe produção de ovos sem submeter a galinha a uma vida de exploração, privação ou sofrimento. Em síntese, ao comprarmos ovos, financiamos a morte de “bebês indefesos”, como Frederiks se refere aos pintinhos.

Lady Justice
Canalizando com singularidade a sua relação com os animais e projetando isso em forma de desenhos e pinturas, a artista australiana demonstra facilidade em transmitir uma resposta visualmente rica e informativa sobre tudo que testemunha em relação ao tratamento que damos aos animais não humanos. O realismo cru da matança de seres sencientes é transmitido por ela de forma pungente, mas que estimula reais possibilidades de reflexão e sensibilização por parte do espectador que não é vegano nem vegetariano.
Jo Frederiks também faz críticas pontuais à exploração praticada por corporações multinacionais, como por exemplo, na obra “Palm Oil and Pollution”, em que critica o uso insustentável e indiscriminado do óleo de palma, prática que tem destruído o habitat de animais como orangotangos. A triste e cruel realidade da exportação de animais vivos, que muitas vezes morrem durante viagens longas e excruciantes, foi materializada na obra “Indefensible – Live Animal Export”, além de outros desenhos e pinturas.
Mais uma de suas obras famosas é “Lady Justice”, em que a Senhora Justiça aparece enforcada ao lado de animais abatidos, transmitindo a ideia de que a justiça também é sacrificada sempre que um animal é morto desnecessariamente para o benefício humano. Em “Kill To Dress”, que critica a alta costura, uma mulher está usando um vestido que custou a vida de um sem número de pequenos animais indefesos.

Vivisection: R.I.P. Double Trouble
Não menos impactante é “Vivisection: R.I.P. Double Trouble”, que homenageia um gato submetido a cirurgias desnecessárias em seus ouvidos, crânio e cérebro, procedimentos realizados sem anestesia, na Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, revelando a crueldade envolvida na vivissecção.
Em junho de 2013, ativistas pelos direitos animais em Israel resgataram um bezerro que trazia no corpo o número 269. Por causa disso, se apresentaram mais tarde como Movimento 269, o que motivou ativistas de todo o mundo a se identificarem como 269. O episódio inspirou Jo Frederiks a criar a obra “We Are All 269” em referência ao resgate.
Saiba Mais
Aos 13 anos, Jo Frederiks testemunhou o terror de um boi durante o abate. Ele foi estraçalhado por um homem empunhando um machado. O sujeito tinha um revólver preso à cintura, mas preferiu usar o machado para terminar o trabalho, isto porque ele queria economizar o custo de uma bala.
Referências
http://jofrederiks.altervista.org/biography.php
https://animalistauntamed.com/2016/03/04/jo-frederiks-artist-for-the-animals/
http://www.nonhumanrightsproject.org/2015/07/29/featured-volunteer-jo-frederiks/
http://www.sparklingadventures.com/index.php?id=2006
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Considerações sobre a vida não humana

“Companheiros”, do artista alemão Hartmut Kiewert
Como podemos subestimar o sofrimento de um animal reduzido à comida, quando nós mesmos não estamos na mesma situação que ele? Não se pode menosprezar o sentimento de um animal diante do abate, a não ser que tenhas sentido na pele o desespero da iminência do canibalismo ou de ser morto para tornar-se comida para ser d’outra espécie.
O ser humano é embrutecido pela naturalização do destino terrível dos animais que são colocados à nossa mesa. Sobre isso, Voltaire cita como exemplo crianças que choram com a morte do primeiro frango que eles veem matar, mas riem da morte do segundo.
Quando comes um animal, e este animal padeceu em privação, ao ingerir seus pedaços, você consome também a energia concentrada naquela carne, o que não é uma energia positiva, já que todo animal abatido morre de forma não natural, sem chegar ao limite de sua existência.
Depois de ler a fábula “O Lenhador e a Raposa”, vai-te às lágrimas pela morte do gentil animal golpeado mortalmente pelo lenhador, mas não divide a mesma emoção com o bezerro, que sem pai nem mãe agoniza como um órfão enquanto aguarda sua vez de ter o mesmo fim precoce determinado pela indústria.
Ensine seu filho a ser justo com os animais, e assim ele também será justo com os seres humanos. Mas se permite que ele seja pernicioso com os animais não humanos, provavelmente ele entenderá que não há problema em ser injusto também com os de sua espécie, já que o seu senso de justiça há de diluir-se em seu ego.
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