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Perto do departamento de bebidas
Perto do departamento de bebidas do mercado, um rapaz distraído esbarrou o apoio de mãos do carrinho em um expositor de bebidas. Muitas garrafas de vidro foram ao chão, ecoando barulheira que foi percebida ao longe, a julgar pelas dezenas de olhares. As pessoas poderiam ser mais empáticas em situações como essa e tentar pelo menos disfarçar, desviar os olhos. Mas, como sempre, continuaram o observando e provavelmente até o julgando. Isso é muito chato.
“Aquele rapaz deve ser turco”
Assim que saí da academia, passei no mercado e fui até a seção de frutos secos. Comecei a analisar pacientemente o damasco e as tâmaras secas. De repente, ouvi uma moça conversando com uma amiga. Elas pareciam cheias de dúvidas, a julgar pelo tom de voz, que não era tão baixo. Logo uma delas falou para a outra, como se eu fosse incapaz de ouvi-las: “Aquele rapaz deve ser turco. Pergunte pra ele se aquele figo branco seco é autêntico mesmo.”
9 de novembro de 2016.
No centro e no mercado
Dias atrás, no centro, bem na esquina da Avenida Paraná com a Rua Souza Naves, uma cigana começou a balançar as pulseiras e gritou, me chamando de “wortako”. Olhei receoso, indeciso sobre parar ou não. Quando segui adiante, ela veio em minha direção, ameaçando segurar minha mão.
Fiquei tão surpreso que acabei sem reação, com os pés interrompidos. A cigana olhou bem nos meus olhos duas ou três vezes, alternando toques e esfregões na palma da minha mão direita. De repente, levou a mão à boca e disse: “Você não é filho do Tayrone?” Respondi que não, ela soltou minha mão e gritou: “Che chorrobiya! Che chorrobiya! Seu mentiroso! Mentiroso! Eu conheço a sua família!” Enquanto ela balançava as pulseiras, me afastei a passos rápidos.
Um pouco mais cedo, fui ao mercado. Na seção de grãos, peguei um pacote de farinha de trigo para quibe, de uma marca que até então eu não conhecia, e comecei a ler a lista de ingredientes e outras informações complementares. De repente, uma mulher se aproximou e disse: “Aposto que até você que come muito quibe está estranhando o preço, não?”
6 de novembro de 2016.
No caixa rápido
Na fila do caixa rápido, um idoso estava na minha frente com sua esposa. Quando perguntei sua idade, ele me contou que tem 93 anos e sua senhora tem 92. De estatura baixa e silenciosos, os dois pareciam inexistir para toda aquela gente. Como a fila do caixa preferencial estava longe e também não era pequena, caminhei até o rapaz que encabeçava a fila do caixa rápido e pedi para ele deixar o casal passar. Todo mundo ficou me olhando, mas não notei nenhuma expressão de reprovação ou comentário negativo.
Logo o casal atravessou a fila carregando uma cestinha e uma bolsa ecológica. Depois que saíram do caixa, o senhor colocou a bolsa no chão, limpou as lentes dos óculos, ergueu o braço e sorriu, me cumprimentando mais uma vez. Lá fora, assisti ele abrindo a porta do carro para sua esposa. Ela entrou, ele perguntou se ela estava confortável, deu-lhe um beijo na fronte e fechou a porta. Então os dois partiram em um carro que atrás trazia um adesivo escrito “Abrace a vida mesmo quando ela não puder abraçá-lo”.
Você é o contador de histórias?
Quando eu estava na seção de hortifruti do mercado, um camarada muito gente boa caminhou em minha direção e perguntou: “Você é o contador de histórias?” Hesitei por um instante e ele continuou: “Tu que é o David Arioch!” Acenei com a cabeça e respondi com um sorriso benevolente, mas ainda longe de amadurecer: “Sou sim…”
“Cara, suas histórias são muito boas. Curto muito as histórias da sua barba.” Fiquei muito feliz em saber disso e agradeci, mas creio que nunca à altura do carinho que me ofertam quando me param na rua ou em outro lugar para fazer comentários elogiosos.
Algum tempo depois, o rapaz voltou e emendou: “Me acabei rindo com aquela do sinaleiro. É verdade mesmo?” Sorri, sem mostrar muito os dentes, e respondi automaticamente que sim.
Agradeci mais uma vez e me mantive no mesmo lugar onde em instantes senti a pele aveludada dos pêssegos. Depois pensei que eu deveria ter dito outra coisa, algo como: “Não totalmente, mas tudo passa a ser verdade na proporção daquilo em que acreditamos.”
O Papai Noel e o muçulmano
Na entrada do mercado, uma criança veio em minha direção e me cutucou. Sem entender, perguntei se ela queria alguma coisa. “Por que você pintou a barba de preto, Papai Noel? Por quê? Por quê?” E o tom de voz da criança crescendo e ficando cada vez mais estridente, revelando irritação.
Constrangido, e notando algumas pessoas me observando, senti um alívio quando a mãe da criança se aproximou a passos céleres. A mulher se desculpou, pegou a filha pela mão e partiu. Mais adiante, ainda ouvi um princípio de conversa entre as duas: “Ele não é papai noel, filhinha. Ele é muçulmano, e muçulmanos não gostam de Papai Noel!”
A insegurança humana e as laranjas
A insegurança humana me surpreende na mesma proporção que me intriga. Hoje, no mercado, eu estava analisando algumas laranjas em uma banca. De repente, uma mulher se aproximou, me olhou e fez o mesmo. Achei normal. Afinal, qual é o problema de duas pessoas selecionando laranjas? Antes que eu terminasse, um homem, provável marido da moça, se aproximou e me observou por alguns segundos. Quando eu retribuí a observação, ele disfarçou, a pegou pelo braço e se afastou. Eu? Continuei analisando as laranjas.
Na fila do caixa
Na fila do caixa do mercado havia um senhor na faixa dos 80 anos, desinibido e conversador. De repente, percebi ele conversando com minha mãe e sorrindo. Curioso, me aproximei e ele comentou: “Que filho mais bonito que a senhora tem! Olhem pra esse rapaz!” Sem falar nada, até porque sou tímido, fiquei sorrindo que nem cachorro de porcelana na estante.
Àquela altura, enquanto muita gente me observava, o senhor emendou: “Quantos filhos a senhora tem?” Minha mãe respondeu três e ele interpelou: “Tudo bonito que nem esse?” Sem dar trégua, o homem chamou a atenção da moça do caixa e disse: “Olhe pra esse rapaz! E essa barba preta, como pode? Nunca vi uma barba preta como essa na minha vida. E como é bonito! Parece um galã!”, repetia. Calado, eu continuava sorrindo e balançando a cabeça, sem saber pra onde, também lembrando aqueles animaizinhos que os taxistas colocam no painel do carro.
“Não case, meu filho, não faça essa besteira. Compre um saco de quarenta quilos de sal grosso e chupe uma pedrinha bem minúscula por dia. Quando acabar o sal, daí sim você pode pensar em se casar”, recomendou. Depois o homem apontou para um senhor ao seu lado e declarou: “Esse aqui é meu filho, já tá feio, coitado! Engordou e nem tem mais cabelo.”
A vítima, conhecendo o pai que tem, só riu, sem esculpir expressão de desconforto. Antes de pagar a moça do caixa e partir, o senhor mais velho sentiu o cheiro de pão quente saindo de um pacote nas mãos de minha mãe. “É pão quente? Posso pegar?” Minha mãe consentiu, abriu o saco, o homem tirou um pão, agradeceu e começou a comer tranquilamente.
Sem demora, caminhou até a saída dando um tapinha amistoso nas costas do filho, que retribuiu o gesto encostando a mão no ombro do pai. Em menos de minuto, desapareceram na escuridão solene, e por assim dizer transparente, da primavera.
O leitãozinho da vitrine
A verdade é que ninguém se importou com a sua presença até que o vidro começou a vibrar
A fila do açougue parecia não ter fim, quase encostando em uma distante parede branca, onde centenas de pacotes de cereais preenchiam os expositores. Pessoas e mais pessoas compravam imensas quantidades de carne. “Me vê vinte quilos de costela!”, “Quero dez quilos de costelinha de porco!” Ah! E também sete quilos de linguiça toscana!”, “Não! Pedi quinze quilos de cupim!”, “Isso! Isso! Dezoito quilos de miolo de paleta!”
Carne moída, asinhas de frango, coxas e sobrecoxas, coxão mole, alcatra, fraldinha, maminha, bacon. A demanda era tão grande que um dos açougueiros teve de checar na sala de corte se ainda havia carne o suficiente para atender toda aquela gente. Alguns fregueses se desesperaram com a possibilidade de faltar um ou outro corte. “Pelo Amor de Deus! Se eu não conseguir um bom pedaço de picanha, sei nem o que fazer. É pra acabar com o feriado da família!”, reclamou um homem que empurrava um carrinho repleto de bandejas de carne congelada e resfriada.
Em meio ao ranger de dentes e roer de unhas, os mais discretos chutavam sutilmente as rodinhas do carrinho enquanto aguardavam a resposta do açougueiro, a quem foi dada a missão mais importante do dia. “Quero bife, mãe! Quero bacon, mãe!”, gritava uma criança chorosa de menos de oito anos. O carnólatra mirim abria tanto a boca para reclamar que não era difícil ver fiapos de carne entre seus dentes.
E quanto mais o açougueiro demorava, mais a tensão aumentava. Notei mãos trêmulas, gente coçando o próprio corpo, como se tomada por comichão. Enfim, olhares inquietos, expressões de desalento, raiva e reprovação engrossavam o baluarte da inquietação. Quando o açougueiro retornou, acenou com a cabeça e sorriu, uma multidão de clientes o aplaudiu.
Rapidamente as vozes e as palmas foram abafadas pelo som das serras elétricas fatiando colossais pedaços de costela. E ninguém se importava com a névoa de farelos de ossos que caíam sobre suas cabeças. Diante do álgido e sortido cheiro de carne, um leitãozinho era mantido sob a vitrine. Ele passava despercebido com uma maçã na boca. A verdade é que ninguém se importou com a sua presença até que o vidro começou a vibrar.
Os fregueses se entreolharam e não viram nenhuma mão ou perna humana tocando a vitrine. E do lado de dentro, o leitãozinho tentava quebrar o vidro com a maçã na boca. Fazia um esforço descomunal para se livrar da fruta. Quando conseguiu, grunhiu como nunca. Assustados, adultos gritaram e crianças choraram. Mas ninguém se emocionou mais do que o porquinho que escorregou sobre as próprias lágrimas.
“Meu Deus! Que isso! Que nojo! Que sacanagem! Um porco vivo! Que brincadeira de mau gosto! Misericórdia! Que maldade! Onde o mundo vai parar!”, diziam. A imagem do leitãozinho vivo fez os clientes abandonarem a fila do açougue, e se não por horror, por constrangimento. A exceção foi o homem que estava na fila para comprar picanha:
— O que o senhor quer?
— Quero o leitão.
— Mas, meu senhor, ele ainda está vivo!
— É assim mesmo que eu quero.
— Vou ver o que posso fazer.
— Então?
— Tá tudo certo! Pode levar o porco. O senhor paga isso aqui lá no caixa.
— Muito bem! Obrigado, amigo.
Naquele dia, o último cliente do açougue abandonou o carrinho onde transportava muitas bandejas de carne resfriada e congelada. Com o leitãozinho nos braços, atravessou o mercado e ignorou dezenas de olhares. No caixa, pagou por algo que não considerava mais um produto e caminhou até a saída como se embalasse um bebê. Lá fora, a noite não parecia escura e fria. Então o leitãozinho da vitrine encostou o focinho no ombro do homem e não chorou, somente cochilou.
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Haitianos pedem ajuda
Ultimamente tenho encontrado nos maiores mercados de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, alguns haitianos pedindo o mesmo favor. Eles se oferecem para pagar sua compra com os cartões deles e em troca pedem que você entregue a eles a quantia equivalente em dinheiro.
Se você for pagar a compra em dinheiro ou com cartão (mas tiver dinheiro), peço que não hesite em ajudá-los. Eles fazem isso porque precisam arcar com despesas que só podem ser pagas em dinheiro – e muitas vezes a cobrança surge antes do dia do pagamento. Podem confiar, são pessoas honestas e trabalhadoras.


