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O sofrimento dos macaquinhos no trabalho de Harry F. Harlow

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Foto: Revista Time

Há um artigo do psicólogo e professor Harry F. Harlow, mencionado por Peter Singer no livro “Animal Liberation”, de 1975, em que ele fala de experiências de isolamento social com macacos nos Estados Unidos. Eles tentaram fazer com que os animais desenvolvessem algum tipo de psicopatologia. Para tanto, enviavam animais logo após o nascimento para câmaras de aço inoxidável, sem contato com qualquer outro animal, e assim os mantinham por toda a vida.

Uma das técnicas usadas para forçar os macacos ainda bebês a desenvolverem depressão, ou até mesmo algum comportamento psicótico, se baseava em dar-lhes mães falsas de tecido. Os movimentos das falsas macacas eram baseados em ar comprimido de alta pressão. E a força do ar era tão grande que chegava a arrancar pedaços de pele dos macaquinhos. Muitos deles, apegados a ideia de ter uma mãe pela primeira vez, continuavam agarrados às bonecas mesmo diante do risco de dor e morte.

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Written by David Arioch

September 18th, 2017 at 6:02 pm

Henry Salt, um pioneiro dos direitos animais

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“Devemos reconhecer o vínculo comum da humanidade que une todos os seres vivos em uma só fraternidade”

Henry Salt era um protovegano, e contrário à posição da Vegetarian Society, da Inglaterra, de promover o consumo de ovos, laticínios e mel (Foto: Reprodução)

O escritor inglês, humanitarista e reformador social Henry Salt foi um dos pioneiros da discussão sobre os direitos animais. Sua contribuição foi tão significativa que em 1975, quando o filósofo australiano Peter Singer publicou “Animal Liberation”, o seu livro mais famoso, mais tarde considerado uma das bases filosóficas do movimento de libertação animal, ele fez questão de dizer que uma nova geração descobriu tudo que tinha sido dito antes – em referência às obras deixadas por Salt, que faleceu cinco anos antes da criação do veganismo pela Vegan Society.

Henry Salt era um protovegano, e contrário à posição da Vegetarian Society, da Inglaterra, de promover o consumo de ovos, laticínios e mel como parte de uma dieta que eles consideravam a mais adequada aos “vegetarianos”. Salt sabia que o abandono do consumo de outros alimentos de origem animal era o único e verdadeiro caminho do vegetarianismo ético. Até porque consumi-los significa reconhecer que são alimentos de consumo humano.  No ensaio “A Plea for Vegetarianism”, publicado em 1885, ele declarou que mesmo os produtos lácteos são desnecessários e, sem dúvida, serão dispensados completamente sob um sistema de dieta mais natural.

No ano seguinte, esse trecho foi suprimido na nova versão que reuniu outros ensaios sob o título “A Plea for Vegetarianism, And Other Essays”, e porque a própria sociedade vegetariana inglesa deixou subentendido que caso Salt criticasse os hábitos dos vegetarianos da época, ele ficaria sem leitores, já que a maioria se enquadrava no que posteriormente foi definido como ovolactovegetarianismo. Por outro lado, a versão de 1885 é uma das provas da boa vontade de Henry Salt na luta pela consolidação do vegetarianismo ético que daria origem ao veganismo.

Também há que se ponderar que à época os vegetarianos da Vegetarian Society, que em sua maioria eram ovolactovegetarianos, não tinham um entendimento profundo das implicações morais e éticas do consumo de outros alimentos de origem animal. Muitos acreditavam que sem morte não havia violência ou privação, e essa linha de pensamento se baseava em um escasso entendimento das proposições da revolução industrial no que dizia respeito ao “destino comum” dos animais explorados para consumo humano.

Muitos ignoravam ou não percebiam que se alimentar de animais em qualquer nível significava legitimar a exploração sobre outras espécies. Exemplo disso foi o choque do escritor irlandês George Bernard Shaw, que abdicou do consumo de ovos e laticínios quando soube que simplesmente deixar de comer carne não contribuía tanto com o vegetarianismo ético quanto ele imaginava.

Analisando o contexto do vegetarianismo na Inglaterra do século 19, e levando em conta que Henry Salt teve de aceitar o fato de que ser “vegetariano demais” poderia gerar desconforto e antipatia por parte de outros “vegetarianos”, talvez seja justo dizer que os defensores do ovolactovegetarianismo da época se dividiam em dois grupos: os ingênuos ou menos informados, que acreditavam que simplesmente não consumir carne era o suficiente para endossar o vegetarianismo ético, e os acomodados – praticantes do vegetarianismo de conveniência, ou seja, que acreditavam que abdicar do consumo de laticínios e ovos seria um erro, já que significaria uma posição “radical” demais que poderia gerar conflitos no contexto das convenções sociais da época.

“Mesmo os produtos lácteos são desnecessários e, sem dúvida, serão dispensados completamente sob um sistema de dieta mais natural” (Foto: Reprodução)

Em 1906, quando Henry Salt publicou “The Logic of Vegetarianism”, mais uma vez ele evitou fazer críticas ao consumo de outros produtos de origem animal, e mais uma vez para não despertar a inimizade dos membros da Vegetarian Society. Porém, quando foi vice-presidente dessa mesma entidade, não raramente ele argumentava que jamais entendeu por que a palavra vegetariano trazia, enquanto conceito de uma época em que o vegetarianismo era quase sinônimo do não consumo de carne, alimentos que nunca foram de origem vegetal.

Nesse aspecto, a natureza espirituosa, humanitarista, modesta e tranquila de Henry Salt falava mais alto, e ele acabava por não ir tão longe em seus discursos mais críticos. Porém, mesmo sem precisar conquistar desafetos, as suas obras por si só já traziam a transparência de seu caráter e desejo de ver os animais livres do jugo humano.

Prova disso é que em 1890, quando Gandhi estudava direito em Londres, e já não seguia os preceitos do vegetarianismo indiano, até pelo fato de encará-lo mais como uma obrigação, ele leu um dos livros de Henry Salt, o que transformou sua vida e abriu seus olhos para o vegetarianismo ético. “Li o livro de Salt, de capa a capa, e fiquei muito impressionado. A partir do dia em que li este livro, me tornei vegetariano por escolha”, declarou.

Salt tinha uma forma não agressiva de chamar a atenção para os direitos animais, e isso também fez e faz dele um grande exemplo de transformação e divulgação positiva do vegetarianismo ético. Há quem o considere a figura mais importante do movimento vegetariano do final do século 19 para o século 20. E um dos livros que contribuiu para isso foi “Animals’ Rights: Considered in Relation to Social Progress”, publicado originalmente em 1892, e qualificado pelo filósofo Peter Singer como uma das obras essenciais em defesa dos direitos animais.

O livro é dividido em temas como o caso dos animais domésticos, o caso dos animais selvagens, a matança de animais para produção de comida, tortura experimental e linhas de reforma, entre outros tópicos. No livro, Salt diz que o sofrimento imposto aos animais é consequência da ausência de direitos, e vale-se dos absurdos que ouvia de tanta gente, inclusive do meio intelectual, na tentativa de legitimar a exploração animal, considerando-a como parte natural do ciclo da vida.

Ele apresenta argumentos refutando todas as justificativas especistas que ouviu ao longo de anos, e destaca a importância de uma cruzada intelectual, literária e social contra a opressão animal. No entendimento do escritor inglês o que os animais vivem hoje é a mesma realidade vivida anteriormente pelos escravos, e os discursos contra os direitos animais são tão falaciosos quanto os dos detratores do abolicionismo.

Henry Salt vivia com a esposa em uma casa de campo, onde plantavam a própria comida. Em 1891, o escritor fundou a Liga Humanitária, que se manteve na ativa até 1920. Como secretário geral e editor, ele fez campanha tanto em favor dos direitos dos desprivilegiados quanto dos animais não humanos. Na página 2 de “Animals’ Rights: Considered in Relation to Social Progress”, ele escreveu que a noção de que a vida de um animal é isenta de “propósito moral” pertence a uma classe de ideias que não pode ser aceita pelo pensamento humanitário avançado da atualidade.

“A noção de que a vida de um animal é isenta de “propósito moral” pertence a uma classe de ideias que não pode ser aceita pelo pensamento humanitário avançado da atualidade”

“É uma suposição puramente arbitrária, em desacordo com os nossos melhores instintos, em desacordo com a nossa melhor ciência, e absolutamente fatal (se o assunto for claramente pensado) para qualquer realização plena dos direitos animais. Se quisermos fazer justiça às raças inferiores, devemos nos livrar do “grande abismo” fixado entre elas e a humanidade; e devemos reconhecer o vínculo comum da humanidade que une todos os seres vivos em uma só fraternidade universal”, escreveu.

Em 1914, aos 63 anos, Henry Salt conseguiu ampliar a discussão em torno do uso de produtos animais. Após a Primeira Guerra Mundial, ainda publicou muitos livros, que só não tiveram maior repercussão porque o clima tenso da guerra ofuscou o debate sobre o vegetarianismo ético. Em 1931, quando Gandhi ministrou uma palestra intitulada “A Base Moral do Vegetarianismo” na Vegetarian Society, em Londres, ele teve o auxílio de Henry Salt, que à época estava com 80 anos. Gandhi então fez o que poucos fizeram até então, e provavelmente influenciado pela base filosófica de Salt – qualificou o uso de leite por vegetarianos como uma tragédia.

Não foi somente em relação a isso que Salt influenciou Gandhi. As biografias que o defensor dos direitos animais escreveu sobre Percy Bysshe Shelley e Henry David Thoreau também chamaram a atenção do líder indiano. Influenciado por Henry Salt, Gandhi leu o ensaio “A Desobediência Civil”, publicado por Thoreau em 1849, o que teve grande impacto em seu ativismo político.

O poeta Percy Shelley, que era vegetariano e protovegano, foi uma importante influência para Henry Salt. O reformador social o considerava um exemplo de ser humano empenhado na luta pelos direitos humanos, animais e da verdadeira liberdade de pensamento e ação. Salt se identificou muito com Shelley porque, assim como ele, era alguém que lutava contra aqueles que se opunham ao progresso.

“Quando digo que vou morrer, como tenho vivido, racionalista, socialista, pacifista e humanitarista, devo deixar claro o meu propósito. Não acredito na religião presentemente estabelecida. Mas tenho uma fé religiosa muito firme – um credo de parentesco que eu chamo; uma crença de que nos próximos anos haverá um reconhecimento da fraternidade entre homem e homem, nação e nação, humano e sub-humano, o que vai transformar um estado de semi-selvageria, como o temos em nossa civilização, em um estado onde não  haverá tal barbaridade como a guerra, o roubo dos pobres pelos ricos, ou o uso de animais inferiores pela humanidade”, registrou Henry Salt em um papel deixado sobre sua mesa antes de falecer.

Saiba Mais

Henry Salt nasceu na Índia Britânica em 20 de setembro de 1851 e faleceu em Surrey, na Inglaterra, em 19 de abril de 1939.

Ele lutou muito contra a vivissecção.

Referências

Salt, Henry. Animals’ Rights: Considered in Relation to Social Progress. Cornell University Library (1894).

Singer, Peter. Animal Liberation: The Definitive Classic of the Animal Movement. Harper Perennial; Edição: Updated ed (2009).

Salt, Henry. The Logic of Vegetarianism: Essays and Dialogues. G. Bell and sons (1906).

Henry, Salt. A plea for vegetarianism and other essays Vol: 1886 1886. Facsimile Publisher (2015).

http://www.henrysalt.co.uk/

 

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Sobre a questão moral da exploração animal e as ostras

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Mesmo que ostras não sentissem dor, isso não significa que estão disponíveis à exploração (Foto: Reprodução)

Esses dias, testemunhei uma discussão sobre animais que hipoteticamente “não sentem dor”. Na minha opinião, a questão moral e ética da exploração animal não deve ter como parâmetro apenas o nível de dor que um animal é capaz de sentir.

Se há uma indesejada e desnecessária interferência humana, eu já vejo isso como errado. Não temos o direito de interferir na vida dos animais não humanos, a não ser que eles precisem de nós.

Essa tendência há equacionar tudo com base em quem sofre mais ou menos não deve ser a única referência quando falamos de direitos animais. Inclusive é por isso que muitos animais, principalmente marinhos, são subestimados.

Sobre moluscos, por exemplo, como ostras, já vi o filósofo australiano Peter Singer dizendo que tudo bem em comê-las, porque, segundo ele, elas não sentem dor. O que hoje em dia não é nem mesmo uma afirmação, mas sim uma opinião, já que não é possível confirmar isso.

Os pesquisadores Robyn Jean Crook e Edgar Walters, da Universidade Estadual de São Francisco e da Universidade do Texas, descobriram que ostras e mexilhões têm sistemas nervosos rudimentares e, por isso, parecem não usar opiáceos endógenos para inibir a dor, de acordo com o artigo “Nociceptive Behavior and Physiology of Molluscs: Animal Welfare Implications”.

A posição de Singer só reafirma a sua defesa utilitarista, o que nesse caso não representa o veganismo, já que o veganismo versa sobre a não exploração animal, e acho que é importante evitar excluir animais porque hipoteticamente eles não sentem dor ou parecem não reagir negativamente à intervenção humana. Animais não foram feitos para os nossos próprios fins. E acho que essa deveria ser a premissa de todos aqueles que são veganos ou vegetarianos por questões morais e éticas.

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Written by David Arioch

March 12th, 2017 at 7:45 pm

Especismo, um mal que endossa o sofrimento animal

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Filósofos, pesquisadores, cientistas, professores e ativistas falam sobre as armadilhas do especismo

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Mark Devries, autor do documentário “Speciesism – The Movie” (Foto: Divulgação)

Embora especistas sejam popularmente conhecidos como pessoas que convivem com animais domésticos, mas se alimentam de outros animais, há um consenso mais criterioso entre pesquisadores, biólogos, filósofos, professores de direito, advogados e escritores que defendem os direitos dos animais.

Eles apontam que especismo é toda e qualquer forma de exclusão baseada na espécie, quando outros seres são privados de fazerem parte de uma comunidade moral.“Quando você pega essa ideia de que eu posso fazer isso com você, então vou fazê-lo, o auge dessa forma de superioridade, ‘um tipo de racismo’, é o especismo”, afirma Bruce Friedrich, diretor de campanhas veganas da ONG Peta e autor do documentário Meet Your Meat, que já foi visto por milhões de pessoas desde 2002.

De acordo com o famoso biólogo evolutivo Richard Dawkins, professor da Universidade Oxford, a maneira como damos tratamento especial aos humanos em relação ao aborto é uma reafirmação do especismo. “Muitas pessoas pensam que é assassinato abortar um feto humano, e esse pensamento dificilmente é partilhado quando falamos em matar vacas. E, claro, elas têm muito mais capacidade de sofrimento do que qualquer feto humano”, declara Dawkins.

HAY ON WYE, WALES, UNITED KINGDOM - MAY 27: Author and Scientist Richard Dawkins speaks at The Guardian Hay Festival 2007 held at Hay on Wye May 26, 2007 in Powys, Wales, United Kingdom. The festival runs until June 3. (Photo by David Levenson/Getty Images)

Dawkins: “A forma como damos tratamento especial aos humanos em relação ao aborto é uma reafirmação do especismo” (Foto: David Levenson/Getty Images)

Ele também cita o descaso em relação aos chimpanzés, animais inteligentes que não recebem nenhum tratamento muito ético ou moralmente correto como o dispensado aos humanos. “Suponhamos que descobríssemos uma população nas florestas da África que do ponto de vista evolutivo está entre nós e os chimpanzés, o que faríamos? O que os especistas fariam? Devemos dar um jeito, fazer algo entre a nossa moral e a nossa ética”, alega.

O filósofo australiano Peter Singer, autor do icônico livro “Libertação Animal”, de 1975, sugere que os especistas se coloquem no lugar de um escravo do século 18. Uma pessoa naquela sociedade provavelmente diria que não havia bons argumentos para o fim da escravidão, ignorando o sofrimento dos negros.

“É o que acontece hoje com o especismo. De repente, depois de rebaixarem os animais, vão querer dizer: ‘Oh, veja! Se o leão come o antílope, tudo bem eu comer a vaca.’ Mas eu nunca disse que os animais são um tipo de exemplo moral que devemos seguir. Suas ações não são baseadas em escolhas”, pondera. Um ativista, perseguido pelo FBI ao longo de sete anos por libertar milhares de martas que seriam usadas na confecção de casacos de pele, defende que qualquer justificativa contra infringir a lei para salvar animais é primordialmente um argumento especista. “Ninguém argumentaria que seria moralmente injustificado libertar escravos”, assinala.

James Serpell

Serpell: “Nós subestimamos o tempo todo a capacidade dos animais” (Foto: Reprodução)

Um dos maiores equívocos do especismo subsiste na subestimação. E o maior exemplo disso são os porcos, animais tão inteligentes quanto os cães, segundo James Serpell, PhD em ciência veterinária e professor da Universidade da Pensilvânia. “Suínos têm vida social complexa na vida selvagem. Eles formam grupos matriarcais permanentes. E esses mesmos animais ficam enclausurados o tempo todo.  São criados para serem abatidos, resumidos a carne, bacon”, pontua.

E quando grávidas, as porcas normalmente passam os quatro meses de gestação em pequenas gaiolas de 2m x 0,6m, onde conseguem apenas levantar e deitar, já que não há espaço para dar uma volta dentro da própria prisão. E com o tempo, os suínos se tornam cada vez menos sensíveis aos estímulos ambientais. É um comportamento catatônico análogo ao de pessoas com depressão severa.

“Com certeza é bem mais forte do que seria em um ser humano”, garante Serpell. Comum em qualquer lugar, a castração é outro exemplo doloroso de mutilação impingida aos porcos, realizada sem anestésico. A prática consiste em usar um bisturi para rasgar e abrir. Então os testículos são removidos e o porquinho grita em agonia, algo que jamais seria feito sem anestesia em um cão ou gato, por exemplo.

Peter Singer

Singer: “De repente, depois de rebaixarem os animais, vão querer dizer: ‘Oh, veja! Se o leão come o antílope, tudo bem eu comer a vaca.’ Mas eu nunca disse que os animais são um tipo de exemplo moral que devemos seguir. Suas ações não são baseadas em escolhas” (Foto: Reprodução)

Para Rick Dove, da Neuse Riverkeeper Foundation, sediada na Carolina do Norte, é surpreendente a quantidade de pessoas que acordam pela manhã e comem seu bacon como se não houvesse problemas no campo, no mundo. “Há um grande problema. Eles são feitos em fazendas industriais, onde os porcos nunca veem a luz do dia, onde vão do tamanho de um punho a 115 quilos em cinco meses”, reclama.

Sobre a situação das aves poedeiras e de corte, James Serpell relata que milhares de galinhas são mantidas em um mesmo galpão. Pelo fato de serem numerosas e densamente estocadas, elas ciscam umas sobre as outras e também se bicam. Selecionadas para comerem mais do que podem, engordando com celeridade, ficam muito pesadas antes que seus ossos endureçam. “São jovens e têm os ossos macios. E o que acontece então é que elas sofrem com graves fraturas, artrite e osteoartrite. Tornam-se mancas até que ocasionalmente param de andar, ficando apenas sentadas no chão”, revela o professor de ciência veterinária da Universidade da Pensilvânia.

Após realizar dezenas de investigações, o diretor executivo da ONG Mercy For Animals, Nathan Runkle, que costuma enviar espiões para acompanhar o funcionamento de fazendas e agroindústrias, descobriu que é muito comum encontrar animais vivendo em condições deploráveis, deixados para morrer sem cuidados veterinários.

“Sempre encontramos aves presas ou entaladas nos arames das gaiolas, e o ferro solto entra na pele delas e rasga. Elas morrem nessas condições. Seus corpos são deixados para apodrecer ao lado de aves que ainda produzem ovos para consumo humano. Nas fazendas de produção de leite, há tanto estrume que as vacas caem sobre as próprias fezes e se machucam. Além disso, encontramos porcas grávidas com ossos quebrados, feridas abertas. É algo que as indústrias querem que você acredite que se trata de fato isolado. Mas sabemos que isso é rotina, simplesmente faz parte dos negócios”, denuncia.

Francione: “Penso, empiricamente, que pode haver mais sofrimento em um copo de leite ou um pote de sorvete do que em um quilo de bife" (Foto: Reprodução)

Francione: “Penso, empiricamente, que pode haver mais sofrimento em um copo de leite ou um pote de sorvete do que em um quilo de bife” (Foto: Reprodução)

Quem também conhece muito bem o sofrimento dos animais é a ativista Terry Cummings, diretora do Santuário Animal Poplar Spring, situado em Poolesville, Maryland. Ao longo de anos cuidando de animais maltratados em fazendas e agroindústrias, ela aprendeu que, assim como os seres humanos, cada animal tem a sua própria personalidade.

“Alguns são tímidos, alguns gostam de ser paparicados e outros gostam de ser abraçados. Temos uma galinha enorme que passou a maior parte da vida em uma gaiola. Ela é muito doce, come na sua mão. Nós a agradamos com milho e uva. E temos outra [ela não anda mais por causa do comprometimento das articulações durante o processo de engorda] que tem uma melhor amiga chamada Sílvia. Ela choramingou um pouco porque a tirei do celeiro enquanto Sílvia ainda estava lá. Elas gostam de fazer tudo juntas”, narra sorrindo.

Pesando todos esses fatores, o professor de direito da Universidade Estadual de Nova Jersey, Gary Francione, acredita que o veganismo deve ser a linha mestra do movimento em defesa dos animais. “Penso, empiricamente, que pode haver mais sofrimento em um copo de leite ou um pote de sorvete do que em um quilo de bife. Claro que todos são produtos de tortura, e quanto a isso não há distinção, mas os animais usados na indústria de laticínios são mantidos vivos por mais tempo, logo sofrem mais”, conclui.

Sheryl Cole, professora de direito da Universidade Cornell, em Ithaca, Nova York, diz que a dor mais terrível que uma mãe pode sentir é a da separação de um filho. “E isso é rotina nos laticínios. Se você tiver que ir por esse caminho para sobreviver, não consigo imaginar como consegue viver consigo mesmo”, lamenta.

Na mesma esteira segue a reflexão de James Serpell que qualifica as emoções dos animais como muito mais intensas do que a dos seres humanos, e simplesmente porque, ao contrário de nós, eles não são capazes de racionalizar o que sentem. “Eles não conseguem filtrá-las. Nós subestimamos o tempo todo a capacidade dos animais”, endossa.

Mesmo com tantas informações disponíveis, não é difícil encontrar especistas alegando que vegetarianos e veganos também estão se alimentando de outros seres vivos. Sobre isso, Jonathan Balcombe, PhD e coordenador do Departamento de Estudos Animais da Humane Society of the United States, sediada em Washington, deixa claro que não é preciso se preocupar com as plantas porque não são organismos sencientes. “A evolução não as equipou com a necessidade de sentir dor ou prazer. E nós entendemos a mecânica de fluidos pela qual a flor segue o sol pelo céu, por exemplo, assim como entendemos o motor do funcionamento de um carro”, esclarece.

Referência

O documentário Speciesism: The Movie (Especismo), lançado em 2013 por Mark Devries, é um filme que apresenta muitas variáveis e controvérsias envolvendo o tema.

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